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Revista do CBH do Rio Pará nº5 - Outubro de 2026

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Revista do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Pará • Outubro 2026


EXPEDIENTE Presidente: José Hermano Oliveira Franco Vice-Presidente: Beatriz Alves Ferreira Secretário: José Augusto Dutra Bueno Secretária-Adjunta: Jéssica Alana Bolina

EDITORIAL P. 04 ___

Produzido pela Assessoria de Comunicação do Rio Pará, Tanto Expresso Comunicação e Mobilização Social Direção: Paulo Vilela, Pedro Vilela e Rodrigo de Angelis Coordenação de Comunicação e Edição: Luiz Ribeiro Textos: Henrique Ribeiro, Luiza Baggio e Luiz Ribeiro Projeto Gráfico e Diagramação: Albino Papa Fotos: Arthur de Viveiros; Fernando Piancastelli; João Alves; Léo Boi; Luciana do Carmo - Acervo Pessoal; Marcos Rosa - Acervo Pessoal; Marcus Pavani - Acervo Pessoal; Marcus Vinícius; Otávio Kaxixó - Acervo Pessoal; Paulo Vilela; Pedro Vilela; Rogério Alves. Foto de capa: Fernando Piancastelli Ilustrações: Albino Papa Revisão: Ísis Pinto Impressão: ARW Gráfica e Editora Tiragem: 600 exemplares

COM A PALAVRA, O PRESIDENTE P. 06 ___

O RIO ANTES DA TRAVESSIA P. 08 ___

DISTRIBUIÇÃO GRATUITA Diretos reservados. Permitido o uso das informações desde que citada a fonte. Assessoria de Comunicação: comunicacao@cbhriopara.org.br Versão on-line:

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ONDE TUDO COMEÇA P. 14 ___

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QUANDO O RIO REÚNE PESSOAS P. 20 ___


ENTREVISTA: ADRIANO PARREIRA P. 26 __

VER O RIO DE DENTRO P. 33 ___

O RIO QUE VIVE EM MARTINHO CAMPOS P. 38 ___

NO FIM DO PERCURSO O COMEÇO DAS PERGUNTAS P. 45 ___

ARTE NA BACIA P. 51 ___


E D I T O R I A L O RIO E O CAMI N H O

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Todo rio guarda histórias. Para conhecê-las, é preciso percorrer o território, observar suas transformações e, sobretudo, ouvir quem vive nele. Foi com esse propósito que o CBH do Rio Pará realizou, em maio de 2026, a Expedição Rio Pará Vivo, uma jornada de navegação que percorreu o Rio Pará da nascente, em Resende Costa, à foz, em Pompéu, passando por diferentes municípios e trechos da bacia. Ao longo do percurso, os expedicionários encontraram comunidades, produtores, pesquisadores, lideranças, instituições e moradores; conheceram iniciativas locais e registraram paisagens, problemas e diferentes formas de relação com o rio. A expedição tornou-se, assim, uma oportunidade de observar a bacia em movimento e de compreender como questões que parecem locais - da conservação ambiental ao saneamento, dos usos da água à mobilização social - estão conectadas. É a partir desse olhar que a quinta edição da Revista Rio Pará refaz o caminho percorrido em campo. Logo nos primeiros quilômetros, o cenário trouxe um alerta. Dados sobre a redução da superfície de água na bacia nas últimas quatro décadas ajudam a dimensionar uma transformação que também pode ser percebida na paisagem. A pressão sobre as matas ciliares, a disponibilidade hídrica e os diferentes usos da água mostram que os desafios começam muito antes de o Rio Pará ganhar volume.

Na maior cidade da bacia, Divinópolis, o Rio Itapecerica trouxe à tona um dos problemas mais antigos e complexos da bacia: o saneamento. Em entrevista à Revista Rio Pará, o professor Adriano Parreira, que acompanhou a agenda e conduziu uma análise da água diante do público, fala sobre a transformação do rio, os impactos do tratamento insuficiente de esgoto e da destinação dos resíduos sólidos e os caminhos possíveis para sua recuperação. Mas o rio também pode ser espaço de encontro, lazer e descoberta. Entre Conceição do Pará e Pitangui, olhamos para as possibilidades de turismo, pesca e esportes náuticos associadas ao Rio Pará e para as condições necessárias para que esses usos possam crescer em equilíbrio com a conservação ambiental. Na editoria Territórios, o município em destaque é Martinho Campos. Ali, o Rio Pará ganha outros significados. Para quem vive da produção rural, é fonte de trabalho e sustento. Para moradores, faz parte da memória e da paisagem. Para o povo Kaxixó, é ancestralidade, cultura e pertencimento. São diferentes relações com uma mesma água, que ajudam a compreender a complexidade de uma bacia compartilhada. E então chegamos à foz. Em Pompéu, onde o Rio Pará encontra o Velho Chico, a travessia termina, mas as perguntas permanecem. O que estamos deixando pelo caminho? Que rio queremos encontrar daqui a algumas décadas? E o que precisa ser feito hoje para que ele continue cumprindo seus diferentes papéis? A perda recente de mata ciliar no baixo curso e os resultados dos programas de saneamento rural, conservação ambiental e produção de água ajudam a construir algumas dessas respostas. Também é possível contar essa viagem sem palavras. Pelas lentes de Léo Boi e Fernando Piancastelli, a seção Arte na Bacia reúne outros olhares sobre a expedição e sobre o território. São fotografias que registram paisagens, encontros e detalhes que, muitas vezes, escapam à narrativa escrita. Ao percorrer novamente o Rio Pará, esta edição convida o leitor a conhecer um pouco mais do território que o rio atravessa e das pessoas que ajudam a construí-lo. Da nascente à foz, uma certeza acompanha a jornada: cuidar de um rio é também cuidar das histórias, dos lugares e dos modos de vida que dependem dele. Boa viagem pelo Rio Pará.

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Em Carmo do Cajuru, a expedição encontrou outra dimensão dessa relação com as águas: a mobilização. Iniciativas locais mostram que o cuidado com o rio também nasce do vínculo que as pessoas constroem com ele. Ao longo da travessia, encontros como esse se repetiram, aproximando o Comitê de comunidades e pessoas que fazem do pertencimento uma forma de participação.


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COM A PALAVRA,

Foram dias intensos de convivência e aprendizado. Navegar pelo rio, conversar com as pessoas que vivem às suas margens e reencontrar lugares que fazem parte da história da bacia reforçou em mim uma convicção: não existe gestão das águas sem conhecer e ouvir quem vive no território. A expedição também nos colocou diante de questões que não podemos ignorar. Em alguns trechos, percebemos os efeitos da redução da disponibilidade de água e da pressão sobre as matas ciliares. Em Divinópolis, o Rio Itapecerica revelou a urgência do saneamento. Em Martinho Campos, encontramos diferentes formas de relação com o Rio Pará, da produção rural à ancestralidade do povo Kaxixó. E, na foz, em Pompéu, vimos novamente que tudo aquilo que acontece ao longo da bacia chega, de alguma maneira, ao destino final do rio. É nesse contexto que o trabalho do CBH do Rio Pará ganha ainda mais importância. Temos instrumentos e programas que nos permitem transformar recursos em ações concretas no território. O Programa de Conservação Ambiental e Produção de Água, por exemplo, vem promovendo intervenções voltadas à conservação do solo, à recuperação ambiental e à melhoria da disponibilidade hídrica em diferentes regiões da bacia. São ações que exigem tempo, planejamento e continuidade, mas que ajudam a construir condições mais favoráveis para o futuro das nossas águas.

O PRESIDENTE Da mesma forma, o Programa de Saneamento Rural mostra que precisamos olhar para toda a bacia. As comunidades rurais também precisam de soluções adequadas para o tratamento e a destinação dos seus efluentes. Como presidente do Comitê e como alguém que esteve dentro do rio durante essa jornada, saio da Expedição ainda mais consciente da responsabilidade que temos e com a certeza de que o CBH do Rio Pará é também um farol e uma trincheira: um espaço que busca iluminar caminhos e resistir em um mundo que, às vezes, parece se esquecer de que todos viemos, vivemos e dependemos da natureza. O rio é muito mais que uma calha; é lugar de sobrevivência, amor, histórias, lutas, arte, cultura, religiosidade, esportes e desenvolvimento. Enfim, o rio somos todos nós. O CBH não consegue resolver sozinho todos os problemas da bacia, mas pode reunir pessoas, instituições, conhecimento e recursos para que as mudanças aconteçam. Esta edição da Revista Rio Pará é, de certa forma, um registro dessa caminhada. Mas é também um convite para que todos conheçam melhor o território, seus desafios e suas potencialidades. O Rio Pará é um só, mas são muitas as histórias, necessidades e formas de relação construídas ao longo de seu percurso. Que possamos continuar caminhando - e navegando juntos, fortalecendo a gestão participativa e trabalhando para que as próximas gerações encontrem uma bacia com mais e melhores águas. José Hermano Franco Presidente do CBH do Rio Pará

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Percorrer o Rio Pará da nascente à foz é uma experiência que nos permite enxergar a bacia de uma maneira diferente. Durante a Expedição Rio Pará Vivo 2026, tive a oportunidade de estar na água, ao lado de outros navegantes, e de acompanhar de perto paisagens, comunidades, problemas e também iniciativas que mostram a força do nosso território.


INSTITUCIONAL

O RIO ANTES DA TRAVESSIA

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Muito antes de os caiaques tocarem a água, a Expedição Rio Pará Vivo 2026 começou a ser construída a partir de encontros, estudos, planejamento e mobilização.


Texto: Luiz Ribeiro Fotos: Fernando Piancastelli, Pedro Vilela e João Alves Quando as primeiras embarcações entraram no Rio Pará, em maio de 2026, a expedição parecia finalmente começar. Mas aquela travessia havia sido iniciada muito antes.

Ao longo dos meses que antecederam a Expedição, o CBH do Rio

escolas, universidades, associações comunitárias e lideranças locais, uma programação que transformaria cada parada em um momento de encontro entre o rio e a população.

A Expedição Rio Pará Vivo 2026 nasceu da compreensão de que conhecer um território é condição indispensável para cuidar dele. A proposta era percorrer o Rio Pará por suas águas e, ao mesmo tempo, criar uma nova forma de olhar para a bacia hidrográfica.

Cada decisão tomada ao longo desse processo foi guiada por um propósito comum. A navegação deveria funcionar simultaneamente como meio de deslocamento, instrumento de observação ambiental, ferramenta de leitura do território, plataforma de produção de conhecimento e experiência capaz de aproximar as pessoas do rio.

Essa construção envolveu dezenas de profissionais, instituições parceiras, comunidades, municípios e conselheiros do CBH do Rio Pará. Antes de ser percorrido, o rio foi observado. A paisagem do Rio Pará como ponto de partida para a Expedição Rio Pará Vivo 2026.

O resultado foi uma expedição que extrapolou o desafio esportivo e se consolidou como um dos maiores movimentos de reconhecimento territorial já realizados na história do Comitê.

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Pará articulou, em parceria com prefeituras, secretarias municipais,


Beatriz Alves, vice-presidente do CBH do Rio Pará, conta como a experiência da expedição terrestre de 2023 despertou a ideia de conhecer a bacia a partir de suas águas.

A IDEIA NASCEU NA ESTRADA A semente da Expedição Rio Pará Vivo 2026 foi plantada três anos antes, durante a primeira grande jornada promovida pelo CBH do Rio Pará em toda a bacia. Realizada em maio de 2023, a expedição terrestre percorreu aproximadamente 2 mil quilômetros, passando por 12 municípios ao longo de duas semanas. Pela primeira vez, o Comitê conhecia o território de forma integrada, visitando comunidades, dialogando com lideranças e observando de perto os desafios e as potencialidades do Rio Pará. A experiência inaugurou uma nova forma de atuação do Comitê. Ao aproximar conselheiros, técnicos, gestores públicos, comunidades e organizações locais, fortaleceu o sentimento de pertencimento em relação à bacia e evidenciou a importância de ouvir quem vive às margens do rio. O percurso também revelou os contrastes do território: rios preservados e comunidades fortemente conectadas às águas conviviam com trechos marcados pelo lançamento de esgoto, processos erosivos, perda de vegetação ciliar e conflitos pelo uso dos

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recursos hídricos. Foi justamente dessa travessia que surgiu a ideia de navegar o Rio Pará, como lembra a vice-presidente do Comitê, Beatriz Alves. “Em vários momentos da viagem percebemos que conhecíamos o Rio Pará quase sempre pelas estradas ou pelas pontes. Foi ali que surgiu a ideia de fazer o caminho inverso: entrar no rio e enxergar a bacia a partir das águas. Todos entenderam que essa seria uma experiência completamente diferente, capaz de revelar aspectos que simplesmente não aparecem quando observamos o território de fora.” A proposta amadureceu nos meses seguintes e deixou de ser apenas uma travessia pelo rio. Navegar passou a ser entendido como uma forma de produzir conhecimento, fortalecer a mobilização social e ampliar a compreensão sobre uma bacia hidrográfica marcada por realidades muito distintas entre a nascente e a foz. Assim começava a tomar forma uma das iniciativas mais ambiciosas já desenvolvidas pelo Comitê.

Antes de entrar no rio, foi preciso conhecer o caminho. A equipe percorreu previamente os trechos da expedição para avaliar condições de navegação, acessos e obstáculos.


CONHECER PARA NAVEGAR Se a Expedição de 2023 mostrou que era preciso entrar no rio, o passo

Para o coordenador técnico da Agência Peixe Vivo, João Paulo Coimbra,

seguinte foi descobrir onde e como isso seria possível. Em 2024, o CBH

o projeto representou um marco para a bacia. “O mapeamento produziu

do Rio Pará iniciou o Projeto de Mapeamento da Navegabilidade, que

um conhecimento que simplesmente não existia sobre o Rio Pará.

reuniu levantamentos técnicos e oficinas com comunidades ribeirinhas

Hoje temos informações técnicas capazes de apoiar desde a gestão

para produzir um retrato detalhado do principal curso d’água da bacia.

dos recursos hídricos até iniciativas ligadas ao turismo, à educação

Ao longo dos trabalhos, foram utilizados drones, equipamentos de georreferenciamento, levantamentos batimétricos e outras tecnologias para registrar características da calha, obstáculos naturais e artificiais, afluentes e diferentes condições de navegabilidade. Os dados deram origem a uma plataforma digital interativa, que reúne mapas e informações técnicas para apoiar a gestão dos recursos hídricos e

ambiental e ao planejamento territorial.” Além de produzir uma base inédita de informações, o levantamento confirmou que a navegação planejada desde 2023 era tecnicamente viável. A partir dali, a Expedição Rio Pará Vivo 2026 deixava de ser uma ideia para entrar definitivamente na fase de preparação.

ampliar o conhecimento sobre o Rio Pará.

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Informação na palma da mão. A plataforma digital reúne mapas e dados produzidos pelo Projeto de Mapeamento da Navegabilidade do Rio Pará.

João Paulo Coimbra, coordenador técnico da Agência Peixe Vivo, destaca o papel do mapeamento da navegabilidade na produção de novos conhecimentos sobre o Rio Pará.


MUITO ALÉM DAS CANOAS

UM RIO QUE ESPERAVA NAS MARGENS

Com a navegação confirmada, começou uma etapa que permaneceu praticamente invisível para quem acompanhou apenas os seis dias da Expedição.

Enquanto a equipe preparava a travessia, outro movimento acontecia ao longo da bacia. Muito antes da chegada das embarcações, o CBH do Rio Pará articulava, junto a prefeituras, secretarias municipais, escolas, universidades, associações comunitárias e lideranças locais, uma programação que transformaria cada parada da Expedição em um momento de encontro entre o rio e a população.

Durante semanas, uma equipe multidisciplinar estruturou cada detalhe da operação, envolvendo logística, geoprocessamento, segurança, comunicação, mobilização social e articulação institucional. Antes mesmo de os expedicionários entrarem no rio, outro grupo já percorria o território validando acessos, identificando pontos de embarque e desembarque, avaliando áreas de risco e definindo alternativas para diferentes cenários.

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Algumas semanas antes da largada, uma pré-expedição revisitou os trechos previstos para confirmar as condições de navegabilidade, reconhecer obstáculos e ajustar o planejamento. As informações coletadas deram origem aos mapas que orientaram toda a travessia, apoiando a navegação, a segurança das equipes e o registro técnico da Expedição. A operação também exigiu embarcações e equipamentos compatíveis com as diferentes características do Rio Pará. Caiaques, canoas canadenses, embarcações infláveis e uma plataforma catamarã integraram a estrutura de apoio, complementada por equipamentos de segurança, comunicação, resgate e atendimento a emergências. Toda essa preparação tinha um objetivo claro: fazer da navegação uma ferramenta de leitura do território. Ao longo do percurso, a equipe observou a qualidade das águas, registrou paisagens, identificou diferentes usos do rio, dialogou com moradores e produziu informações técnicas e institucionais sobre a bacia.

As articulações envolveram reuniões preparatórias, definição da programação, autorizações, mobilização de estudantes e organização da logística local. O resultado foi uma agenda construída coletivamente, com apresentações culturais, atividades de educação ambiental, rodas de conversa, ações com escolas, encontros com comunidades ribeirinhas, assinaturas de acordos de cooperação e solenidades que marcaram a chegada dos expedicionários em cada município. Para o secretário do CBH do Rio Pará, José Augusto Bueno, essa mobilização foi tão importante quanto a própria navegação. “Desde o início, a compreensão foi de que a Expedição só faria sentido se fosse uma construção coletiva que incluísse os municípios. Em cada chegada era importante que, além de um momento de celebração, fosse também um espaço de diálogo. O envolvimento das prefeituras, escolas, comunidades e instituições locais possibilitou que a população se reconhecesse como parte desta ação.” Uma ampla estratégia de comunicação também acompanhou toda a jornada. Reportagens em veículos municipais, regionais e estaduais, entrevistas, registros fotográficos, vídeos e publicações nas redes sociais ampliaram o alcance da iniciativa e permitiram que milhares de pessoas acompanhassem a Expedição praticamente em tempo real.

Assim, a Expedição foi planejada não apenas para percorrer o Rio Pará,

Ao levar a travessia para além das margens do Rio Pará, a comunicação ajudou a ampliar o alcance da iniciativa e reforçou seu principal

mas para compreendê-lo em toda a sua diversidade.

propósito: aproximar cada vez mais pessoas do rio.

José Augusto Bueno, secretário do CBH do Rio Pará, destaca a importância da participação dos municípios e das comunidades na construção da Expedição

A travessia também aconteceu fora da água. O deslocamento das embarcações entre os diferentes pontos do percurso fez parte da complexa logística da Expedição.


QUEM NAVEGOU O RIO PARÁ A Expedição Rio Pará Vivo 2026 reuniu profissionais com trajetórias bastante distintas, mas unidos pelo propósito de conhecer o rio por dentro e produzir uma nova leitura da bacia.

Fernando Piancastelli Turismólogo e fotógrafo. Responsável por parte dos registros fotográficos que documentaram paisagens, comunidades e momentos marcantes da jornada.

Rodrigo de Angelis Designer, empresário e coordenador da navegação. Foi responsável pelo planejamento técnico da travessia, pela condução das equipes na água e pela definição dos procedimentos operacionais.

Gabriel Figueiredo Ribeirinho sabarense, montanhista, e fabricante de canoas em fibra. Atuou na navegação e no apoio técnico às embarcações ao longo do percurso.

Antônio Jackson Lima Ambientalista alagoano, conselheiro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF) e idealizador do Museu Ambiental Casa do Velho Chico. Levou à Expedição sua experiência em mobilização social e educação ambiental em bacias hidrográficas.

Adherbal Muniz Empresário e desenvolvedor de destinos turísticos, contribuiu com sua experiência em turismo de natureza e no reconhecimento das potencialidades do Rio Pará para atividades sustentáveis.

UMA EQUIPE MUITO MAIOR Por trás dos seis navegadores, dezenas de profissionais participaram da Expedição nas áreas de geoprocessamento, logística, segurança, apoio operacional, comunicação, produção audiovisual, articulação institucional, mobilização social e educação ambiental. A Agência Peixe Vivo desempenhou papel fundamental em todas as etapas de planejamento, organização e execução da iniciativa, contribuindo para transformar a travessia em um dos maiores projetos já realizados pelo CBH do Rio Pará.

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José Hermano Franco Biólogo, estudante de Direito e presidente do CBH do Rio Pará, participou de toda a travessia representando o Comitê e acompanhando as atividades de mobilização junto aos municípios.


ALTO RIO PARÁ

ONDE TUDO COMEÇA

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Ao acompanhar os primeiros quilômetros do Rio Pará, a Expedição Rio Pará Vivo 2026 descobriu que a cabeceira é muito mais do que o ponto onde um rio nasce Texto: Luiza Baggio Fotos: Fernando Piancastelli, Léo Boi, Marcos Rosa - Acervo Pessoal e Paulo Vilela Ainda era cedo quando os participantes da Expedição Rio Pará Vivo 2026 chegaram à região onde nasce o Rio Pará. No fundo de um vale cercado por pastagens e plantações, uma mata serrana protege o terreno úmido que dá origem às primeiras águas do rio. Ali, não existe um único olho d’água marcando seu início. A água aflora entre áreas brejosas, pequenas vertentes e cursos d’água que, pouco a pouco, formam um dos principais afluentes do Rio São Francisco, responsável por abastecer comunidades, sustentar atividades econômicas, manter ecossistemas e conectar 35 municípios do Centro-Oeste mineiro. Foi por esse território que a expedição iniciou sua travessia pela bacia hidrográfica. Ao longo do primeiro dia, entre Resende Costa e Passa Tempo, pesquisadores, representantes do CBH do Rio Pará, técnicos e navegadores percorreram o Alto Rio Pará para compreender como a paisagem molda a dinâmica do rio desde seus primeiros quilômetros. As primeiras observações revelaram uma região que ainda preserva importantes remanescentes de vegetação nativa e concentra áreas fundamentais para a produção de água da bacia. Entre serras, campos e pequenas propriedades rurais, dezenas de nascentes alimentam córregos que, gradualmente, dão forma ao Rio Pará.


P. 15 Navegadores percorrem um dos primeiros trechos do Rio Pará durante o início da Expedição Rio Pará Vivo 2026.


Ao mesmo tempo, alguns trechos chamaram a atenção da equipe.

As observações feitas em campo ganharam ainda mais significado na

Bancos de areia, redução da profundidade do leito e sinais de

região de Passa Tempo. Depois de percorrer o trecho, a equipe encontrou

assoreamento apareciam logo no início do percurso, indicando que

pontos em que o assoreamento se tornava mais evidente, reforçando a

as transformações na paisagem já alcançam a região onde o rio

necessidade de compreender as causas dessas mudanças.

começa a ganhar forma. “Quando chegamos à região de Passa Tempo e percorremos o rio Para José Hermano Franco, presidente do CBH do Rio Pará, percorrer a cabeceira do rio é uma oportunidade de compreender a bacia em sua totalidade. “O rio é muito mais do que a sua calha. Ele representa toda a vida existente na bacia hidrográfica. Precisamos enxergar esse território de forma integrada, entendendo que o que cada município faz – ou deixa de fazer – interfere diretamente nos demais. Cuidar dos mananciais, investir em saneamento e proteger a água são responsabilidades compartilhadas. É assim que construiremos soluções duradouras para garantir água em quantidade e qualidade para as próximas gerações”, disse.

de perto, o impacto foi muito grande. O que vimos foi um cenário preocupante. Não é um problema restrito àquele trecho. Todo esse sedimento continua descendo pelo leito, assoreando o Rio Pará ao longo de seu curso e comprometendo suas margens. Isso reforça a urgência de ampliar a proteção das áreas ribeirinhas e de construir soluções pactuadas para conservar o rio e garantir sua recuperação”, afirma José Hermano. A partir dali a expedição deixou de registrar apenas o que via diante dos olhos. A paisagem passou a levantar uma pergunta inevitável: por que um rio ainda tão próximo de suas nascentes já apresenta sinais de transformação? A resposta começaria a surgir quando as observações feitas em campo fossem confrontadas com os dados históricos sobre a disponibilidade de água na bacia.

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QUANDO A PAISAGEM CONFIRMA OS NÚMEROS A resposta para a pergunta levantada pela expedição não estava apenas diante dos olhos. Ela também estava registrada em quase quatro décadas de monitoramento da paisagem. Os sinais observados ao longo do percurso – o rio mais raso, os bancos de areia e o assoreamento – não representam uma condição passageira nem consequência de um único período de estiagem. Eles refletem uma transformação gradual do Alto Rio Pará, documentada por levantamentos que mostram como a disponibilidade de água na bacia mudou ao longo do tempo. Dados da iniciativa MapBiomas, divulgados em 2026, revelam que a Bacia Hidrográfica do Rio Pará perdeu 36,6% de sua superfície de água entre a primeira década da série histórica (1985–1994) e a mais recente (2015–2024). Em quatro décadas, a área ocupada por água passou de uma média de 8.405 hectares para 5.323 hectares. A redução também atingiu a própria calha do Rio Pará. No mesmo período, sua superfície de água diminuiu 32,5%, passando de 4.307 hectares para 2.907 hectares. José Hermano Franco, presidente do CBH do Rio Pará, defende uma visão integrada da bacia e a responsabilidade compartilhada pela proteção dos mananciais.

Segundo o coordenador técnico da iniciativa MapBiomas Água, Marcos Rosa, a redução da superfície de água observada no Alto Rio Pará costuma refletir mudanças acumuladas no uso da terra, alterações


hidrológicas e períodos sucessivos de estiagem. “Os dados mostram que não estamos diante de um evento isolado. A perda de superfície

Em Passa Tempo, ponto inicial da navegação da Expedição Rio

de água observada em diferentes regiões do país revela uma tendência

Pará Vivo 2026, a perda chegou a 64,6%, com a superfície de água

de longo prazo, resultado da combinação entre mudanças climáticas e

diminuindo de 209,75 hectares para 74,27 hectares. Já no trecho

transformações no uso da terra”, explica.

entre Itaguara e Cláudio, a redução foi de 55%, passando de 93,63 hectares para 42,17 hectares.

Embora os números revelem uma realidade preocupante para toda a para o Alto Rio Pará. Em Desterro de Entre Rios, onde o rio começa a ganhar forma, a superfície de água praticamente desapareceu nas últimas quatro décadas. A área passou de 9 hectares para apenas 0,31 hectare, uma redução de 96,5%.

Mais do que números, esses dados ajudam a interpretar aquilo que a expedição encontrou em campo. Eles mostram que o comportamento do rio observado durante a travessia não é um episódio isolado, mas o reflexo de um processo contínuo de transformação da paisagem. Marcos Rosa explica que processos de erosão e transporte de sedimentos reduzem gradualmente a profundidade dos cursos d’água, comprometendo sua capacidade hidráulica e aumentando a vulnerabilidade durante períodos secos. “A água responde ao que acontece na paisagem. Quando alteramos a cobertura vegetal e o funcionamento dos ecossistemas, essa mudança acaba se refletindo também na disponibilidade de água”, acrescentou. Se os problemas começam no Alto Rio Pará, é ali também que precisam começar as soluções. Segundo Marcos Rosa, coordenador técnico do MapBiomas Água, as transformações no uso da terra e os processos de erosão e transporte de sedimentos ajudam a explicar a redução da superfície de água observada na bacia.

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bacia, eles se tornam ainda mais expressivos quando o olhar se volta


ALTO RIO PARÁ EM NÚMEROS A água encolheu na bacia nas últimas quatro décadas

REDUÇÃO DA SUPERFÍCIE DE ÁGUA 1985 - 2025

CALHA PRINCIPAL DO RIO PARÁ

-36,6%

-32,5%

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de 8.405 ha para 5.323 ha

de 4.307 ha para 2.907 ha

Nas cabeceiras, as perdas são ainda maiores:

DESTERRO DE ENTRE RIOS

-96,5% de 9 ha para 0,31 ha

PASSA TEMPO

-64,6% de 209,75 ha para 74,27 ha

ITAGUARA / CLÁUDIO

-55%% de 93,63 ha para 42,17 ha

Fonte: MapBiomas – Coleção Água (1985–2025).


A Estação Ecológica Estadual Mata do Cedro protege cerca de 1.500 hectares de Mata Atlântica entre Carmópolis de Minas e Cláudio.

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Carla Cristina de Oliveira, gerente da Estação Ecológica Estadual Mata do Cedro, destaca a importância da unidade para a proteção dos recursos hídricos do Alto Rio Pará.

MATA DO CEDRO: ONDE A ÁGUA ENCONTRA PROTEÇÃO Enquanto a Expedição Rio Pará Vivo percorreu áreas onde já são perceptíveis sinais de alteração na dinâmica do rio, a Estação Ecológica Estadual Mata do Cedro representa um exemplo de como a conservação da vegetação nativa contribui para proteger as nascentes e fortalecer a produção de água. Localizada entre os municípios de Carmópolis de Minas e Cláudio, a unidade de conservação abriga cerca de 1.500 hectares de Mata

Carla Oliveira esclarece ainda que a vegetação também desempenha

Atlântica e está inserida em uma das regiões mais importantes para

uma função essencial para a manutenção da qualidade e da

a formação do Alto Rio Pará.

quantidade de água disponível na bacia. “Quando a vegetação nativa é conservada, o solo fica protegido da erosão e menos sedimentos

Segundo Carla Cristina de Oliveira, gerente da Estação Ecológica

chegam aos cursos d’água. Ao mesmo tempo, a infiltração da água

Mata do Cedro, a importância da unidade vai muito além da

no solo aumenta, favorecendo a recarga dos aquíferos, preservando

preservação da biodiversidade. “A Mata do Cedro é um dos mais

as nascentes e contribuindo para manter a vazão dos rios ao longo

importantes remanescentes de Mata Atlântica do Centro-Oeste de

do ano,” finalizou Carla.

Minas Gerais e exerce um papel fundamental na conservação dos recursos hídricos do Alto Rio Pará. Além de proteger nascentes, a

A experiência da Mata do Cedro demonstra que conservar a

unidade ajuda a conscientizar a população sobre a importância de

vegetação é uma das estratégias mais eficientes para proteger os

preservar a água e os ambientes naturais”, acrescentou a gerente.

recursos hídricos desde sua origem.


MOBILIZAÇÃO

QUANDO O RIO REÚNE PESSOAS Em Carmo do Cajuru, convivência com o Rio Pará ajuda a explicar um dos principais legados da Expedição: fortalecer o envolvimento das pessoas com a preservação das águas

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Texto: Henrique Ribeiro Fotos: Arthur de Viveiros, Fernando Piancastelli, João Alves e Léo Boi Depois de percorrer os trechos mais estreitos e desafiadores do alto curso do Rio Pará, a Expedição Rio Pará Vivo 2026 encontrou na barragem de Carmo do Cajuru uma paisagem diferente. O represamento do Rio Pará na área da Usina Hidroelétrica da Cemig, em Carmo do Cajuru, forma um lago de quase 23km², abrangendo ainda os municípios de Divinópolis e Cláudio. Na barragem, as águas ganharam profundidade, o percurso passou a ser marcado pela amplitude do lago e o ritmo da remada acompanhou a calmaria da paisagem. Cercado por morros, áreas de vegetação e propriedades que se distribuem ao longo das margens, o rio revelou uma nova face de sua trajetória: menos marcada pelos obstáculos do percurso e mais pelas histórias construídas ao seu redor. Foi nesse cenário que os expedicionários perceberam algo que nem sempre aparece nos mapas ou nos relatórios técnicos. O Rio Pará não está presente apenas quando o assunto é abastecimento, produção ou desafios ambientais. Ele também faz parte dos momentos de lazer, das conversas ao fim da tarde, dos passeios de barco, das pescarias e das experiências que aproximam as pessoas da natureza. Na barragem, o rio se mostra como um espaço de convivência, capaz de criar vínculos afetivos que fortalecem o sentimento de pertencimento ao território.


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A espera pela chegada dos navegadores transforma a ponte em ponto de encontro entre a comunidade e o Rio Pará.


“O Rio Pará é um dos maiores patrimônios naturais de Carmo do Cajuru

Remando pelo Rio Pará, os integrantes aprenderam a perceber

e desempenha um papel fundamental na construção da identidade

detalhes que passam despercebidos para muita gente. Acompanham

do município. Mais do que um curso d’água, ele é um espaço de

o comportamento das águas, observam as margens, identificam

convivência, descobertas e conexão entre as pessoas e o território onde

áreas que precisam de atenção e compartilham esse conhecimento

vivem”, destaca Jéssica Bolina, superintendente de Meio Ambiente de

com a comunidade. O contato frequente com o rio criou uma relação

Carmo do Cajuru, secretária-adjunta do CBH do Rio Pará.

de proximidade difícil de explicar apenas em palavras. É uma conexão construída pela experiência, pela convivência e pelo olhar

Poucos grupos representam tão bem essa relação quanto a Kaiacada

atento de quem escolheu fazer das águas parte da própria rotina.

de Cajuru. O grupo conta, atualmente, com 20 participantes fixos,

“O que nos move é preservar o rio, as nascentes e conscientizar as

incluindo moradores de cidades vizinhas. Amigos que se reúnem

crianças de hoje pensando no futuro”, resume Paulo Sérgio Aguiar,

pelo menos uma vez ao mês para navegar pela represa de Carmo

uma das lideranças do grupo.

do Cajuru, unidos pelo desejo de admirar a paisagem e lutar pela preservação ambiental. Ao longo dos anos, a presença constante no lago transformou o esporte em uma forma de conhecer o território, observar suas mudanças e desenvolver um olhar atento para a conservação ambiental.

vai além da contemplação da paisagem ou da prática esportiva. É uma conexão construída pela experiência direta com as águas, pelo hábito de remar, observar e acompanhar de perto as transformações do ambiente ao longo do tempo.

Para Paulo Sérgio Aguiar, organizador da Kaiacada Amigos do Rio Pará, o principal legado desses encontros está justamente na capacidade de despertar a consciência coletiva sobre a importância do rio. “Nas seis edições da Kaiacada conseguimos unir esporte, meio ambiente e preservação do Rio Pará, reunindo cerca de 80 caiaqueiros de várias cidades da região. A Expedição também foi um

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Para muitos participantes da Kaiacada, a relação com o Rio Pará

dos eventos mais importantes que já acompanhei, porque levou uma mensagem para toda a bacia. O desafio agora é fazer com que essa mensagem continue gerando ações concretas. Água é vida, e o Rio Pará é fundamental para o futuro dos nossos filhos”, destaca.

“O rio é muito importante para mim, para os meus amigos e para todos que utilizam esse espaço para o lazer e os esportes náuticos. A Kaiacada desperta na gente um sentimento de cuidado permanente. Quando você conhece o rio de perto, acompanha suas nascentes, navega por suas águas e convive com ele, passa a entender que é preciso preservar para que as próximas gerações também possam desfrutar desse patrimônio. Por isso estamos sempre trabalhando na conscientização das pessoas e na defesa de um Rio Pará limpo e vivo”, afirma Ueslem Ribeiro Menezes, morador de Cláudio e participante da iniciativa.

Ueslem Ribeiro Menezes, participante da Kaiacada Amigos do Rio Pará, encontrou na convivência com o rio uma forma de fortalecer o compromisso com sua preservação.

Os caiaques da Kaiacada Amigos do Rio Pará se juntam à Expedição para percorrer as águas da barragem de Carmo do Cajuru.


PRESERVAR PARA ALÉM DA ÁGUA A experiência vivida em Carmo do Cajuru revelou algo que

“Para a nossa população, essa convivência é muito importante,

acompanhou praticamente toda a Expedição Rio Pará Vivo 2026.

especialmente para as crianças. Ao conhecerem o território, elas

Ao longo da travessia, o rio aproximou pessoas de diferentes

passam a compreender a importância da bacia hidrográfica do Rio

realidades e transformou cada parada em uma oportunidade de

Pará para o município, tanto do ponto de vista ambiental quanto

diálogo sobre o futuro da bacia. Escolas, comunidades ribeirinhas,

econômico e social. Esse contato desperta um sentimento de

povos tradicionais, produtores rurais, associações, companhias

pertencimento e afetividade, fortalecendo o desejo de proteger o

de saneamento, empresas, universidades, imprensa, prefeituras e

lugar onde vivem. Além disso, esse conhecimento é compartilhado

moradores participaram das atividades promovidas pelo CBH do Rio

com os pais e com outras pessoas da comunidade, ampliando o

Pará, ampliando o alcance da mensagem de conservação das águas. Mais do que acompanhar a passagem dos expedicionários, essas

alcance da conscientização. É uma forma de mobilizar a população para que o Rio Pará esteja cada vez mais vivo”, afirma Mário Sérgio Andrade, secretário municipal de Meio Ambiente de Passa Tempo.

comunidades foram convidadas a olhar novamente para o território onde vivem. Em cada município, a Expedição estimulou reflexões sobre os desafios da bacia e mostrou que a proteção do Rio Pará depende tanto de obras e investimentos quanto do envolvimento

Mário Sérgio Andrade, secretário municipal de Meio Ambiente de Passa Tempo, destaca o contato com o rio como caminho para despertar o sentimento de pertencimento.

Trecho do Rio São João, afluente do Rio Pará, durante a seca de 2024: volume reduzido e leito exposto, reflexo de um cenário crítico em toda a bacia.

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permanente da população.


MOBILIZAÇÃO QUE FICA Para Jéssica Bolina, um dos principais legados da Expedição

Assim, a Expedição Rio Pará Vivo 2026 deixou um legado que

foi justamente fortalecer essa rede de pessoas e instituições

ultrapassa os quilômetros navegados. Ao conectar diferentes

comprometidas com o rio. “As ações para preservação e recuperação

municípios em torno de um objetivo comum, mostrou que a

do Rio Pará não se limitam àquelas realizadas com foco direto

recuperação do Rio Pará depende tanto das ações executadas

na qualidade e quantidade de água. Elas também passam pela

pelo Comitê quanto da participação de quem vive na bacia. Afinal,

mobilização social, pela educação ambiental, pela capacitação

preservar um rio também significa fortalecer os laços entre pessoas,

de comunidades e gestores, pelo planejamento do território e pela

território e responsabilidade coletiva.

recuperação de áreas degradadas. Todo esse conjunto de iniciativas contribui para a segurança hídrica, o desenvolvimento sustentável e a resiliência da bacia”, destaca. Ainda segundo Jéssica, a Expedição evidenciou como o contato direto com o rio desperta uma relação mais próxima com o território. “Ao navegar por suas águas e conhecer suas paisagens, moradores, participantes e visitantes puderam enxergar o rio não apenas como um elemento da natureza, mas como parte da história e da vida da comunidade. Esse vínculo é especialmente importante para crianças e jovens, que desenvolvem maior consciência ambiental, respeito

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pelos recursos naturais e valorização do lugar onde vivem.”

Jéssica Bolina, superintendente de Meio Ambiente de Carmo do Cajuru e secretária-adjunta do CBH do Rio Pará, vê na mobilização social uma força para cuidar da bacia.


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Cultura, educação e encontro fizeram parte da recepção à Expedição em todos os municípios visitados.

Entre águas e território, crianças Kaxixó e expedicionários compartilham histórias e aprendizados sobre o Rio Pará.


ENTREVISTA - ADRIANO PARREIRA

O FUTURO NASCE NO ITAPECERICA Professor da UEMG e conselheiro do CBH do Rio Pará, Adriano Parreira analisa os desafios do saneamento e da recuperação ambiental em Divinópolis – e seus reflexos sobre toda a bacia

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Por: Luiz Ribeiro Fotos: Fernando Piancastelli, João Alves, Léo Boi e Pedro Vilela O terceiro dia da Expedição Rio Pará Vivo 2026 levou os expedicionários até Divinópolis, onde o Rio Itapecerica se tornou o centro das discussões sobre saneamento, qualidade da água e recuperação ambiental. Principal afluente urbano do Rio Pará, ele concentra alguns dos desafios mais complexos da bacia hidrográfica e evidencia como as transformações das cidades repercutem muito além de seus limites. Foi nesse contexto que o professor Adriano Guimarães Parreira, biólogo, mestre e doutor em Microbiologia, pósdoutor em Biologia Celular, docente da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e conselheiro do CBH do Rio Pará, conduziu uma análise da qualidade da água do Rio Itapecerica durante a programação da expedição. Realizada em praça pública, a atividade ajudou a traduzir, de forma simples e acessível, um problema que há décadas desafia o município: a degradação da qualidade das águas provocada, principalmente, pela ausência do tratamento integral de esgoto.

Acompanhando há muitos anos a realidade ambiental de Divinópolis, Parreira reúne a experiência acadêmica e o olhar de quem conhece de perto as transformações vividas pelo rio. Ao longo da entrevista, ele resgata lembranças de um tempo em que o Itapecerica fazia parte do cotidiano da população. “Havia, inclusive, as famosas lavadeiras de roupa”, recorda, ao comparar aquele cenário com a realidade atual, em que, segundo ele, seria “impensável” utilizar a água do rio para essa finalidade. Na conversa, o pesquisador também analisa os impactos provocados pela destinação inadequada dos resíduos sólidos, defende a universalização do saneamento e destaca a importância das comunidades rurais para a conservação dos recursos hídricos. Para ele, cuidar das nascentes, dos córregos e dos pequenos cursos d’água é uma estratégia indispensável para a recuperação de toda a bacia. Apesar do diagnóstico preocupante, Parreira prefere encerrar a conversa olhando para o futuro. Seu desejo é que as próximas gerações encontrem uma realidade diferente da atual. “Eu ainda sonho em ver um rio com qualidade suficiente para permitir a navegação, a prática de esportes aquáticos e, quem sabe, até a balneabilidade em alguns trechos”, afirma.


P.P.27027 Adriano Parreira acompanha há anos as transformações do Rio Itapecerica e ainda imagina um futuro em que suas águas possam voltar a ser espaço de convivência.


Você acompanha há muitos anos a realidade ambiental de Divinópolis. Como descreveria a transformação do Rio Itapecerica ao longo desse período? Tenho lembranças de imagens antigas do Rio Itapecerica sendo utilizado pela população, especialmente abaixo da Ponte do Niterói. Havia, inclusive, as famosas lavadeiras de roupa. Pessoas que moravam nas imediações do bairro Niterói, próximo ao Parque da Ilha, utilizavam a água do rio para lavar roupas – algo que hoje seria impensável diante das condições de qualidade da água.

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À medida que Divinópolis cresceu, tanto em população quanto em atividades produtivas, o rio passou a receber uma carga cada vez maior de esgoto doméstico e de efluentes industriais. Como cerca de 29 quilômetros do Itapecerica estão dentro do município, boa parte em área urbana, esse processo comprometeu significativamente sua qualidade ambiental. Lembro também que, em junho de 2011, foi assinado o contrato de concessão para coleta e tratamento de esgoto. Neste ano completaram-se 15 anos desse compromisso. No entanto, o que observamos é que o rio continua em uma condição preocupante. Não tenho aqui os dados técnicos do IGAM referentes aos pontos de monitoramento, mas é evidente que sua qualidade vem se deteriorando, por conta do crescimento populacional e do aumento das atividades desenvolvidas no entorno da cidade. Embora os impactos sejam mais visíveis no trecho urbano de Divinópolis, quais são as consequências da falta de tratamento de esgoto para o Rio Pará e para toda a bacia hidrográfica? O lançamento de esgoto doméstico e industrial aumenta significativamente a carga de nutrientes, principalmente nitrogênio e fósforo, provocando uma série de consequências ambientais. Um exemplo bastante visível ocorre no período de estiagem, quando há uma proliferação intensa de aguapés, formando uma cobertura sobre a superfície da água.

Rio Itapecerica atravessa Divinópolis e concentra parte dos principais desafios de saneamento e recuperação ambiental enfrentados pelo município.

Essa cobertura dificulta a passagem da luz solar, interfere nos processos fotossintéticos e contribui para a redução do oxigênio dissolvido na água. Como consequência, toda a biodiversidade aquática – desde os microrganismos até peixes e outros organismos – é afetada. Também são favorecidos processos como a eutrofização, que agravam ainda mais esse quadro. Os impactos não ficam restritos ao trecho urbano do Rio Itapecerica. Toda essa carga de poluentes segue para o Rio Pará e afeta os municípios localizados a jusante de Divinópolis. Na minha avaliação, pelo porte da cidade, Divinópolis é hoje o principal contribuinte em termos de carga poluidora lançada na bacia do Rio Pará. Durante a passagem da Expedição Rio Pará Vivo 2026 por Divinópolis, você conduziu uma análise simbólica da qualidade da água do Rio Itapecerica. O que aquele momento ajudou a comunicar sobre a situação do rio? Foi um momento muito importante sob vários aspectos. Normalmente, a população só se lembra do Rio Itapecerica durante o período chuvoso, quando aumenta o nível da água e surgem preocupações com enchentes. Aquele momento permitiu chamar atenção para outro problema: a qualidade da água. A análise realizada tinha um caráter simbólico, mas ajudou a demonstrar a presença de contaminação microbiológica por meio da identificação de coliformes. O kit utilizado estabelece uma relação entre a intensidade da coloração obtida após a reação e a concentração desses microrganismos, dentro de determinados limites. O que me chamou atenção foi que, comparando com análises

Adriano Parreira acompanha há anos as transformações do Rio Itapecerica e ainda imagina um futuro em que suas águas possam voltar a ser espaço de convivência.


semelhantes realizadas em anos anteriores, a intensidade da

Quais medidas você considera mais estratégicas para que a

coloração foi ainda maior. Ou seja, ao contrário do que gostaríamos

qualidade ambiental do Rio Itapecerica evolua nos próximos anos?

de observar, a condição relacionada à poluição microbiológica do rio parece ter se agravado. Mais do que produzir um dado científico

Sem dúvida, a principal medida é efetivar o tratamento de 100%

naquele momento, o objetivo era comunicar à população que o

do esgoto gerado na área urbana de Divinópolis. Evidentemente, a

problema continua presente e que o Rio Itapecerica ainda necessita

questão dos resíduos sólidos também merece atenção, mas cumprir

de ações efetivas para sua recuperação.

aquilo que foi pactuado em 2011 é fundamental. Hoje, cerca de 80% do abastecimento de água da cidade depende do Rio Itapecerica. Apesar

Ainda durante a passagem da expedição pela cidade, moradores

dessa importância, ele ainda não recebeu o cuidado que merece.

voltaram a chamar atenção para os impactos associados ao antigo lixão e à destinação dos resíduos no município. Como essa

Também é essencial preservar e recuperar a mata ciliar ao longo do

questão interfere na qualidade das águas da região?

rio. Ela desempenha um papel fundamental para a biodiversidade, serve de abrigo e reprodução para diversas espécies, contribui para

Pelas informações que vieram a público, especialmente por

a regulação climática e melhora a qualidade ambiental da cidade.

meio da imprensa, tudo indica que o lençol freático na região do chamado aterro controlado – conhecido popularmente como lixão

O Itapecerica possui importância histórica, cultural, paisagística e

– já apresenta contaminação em decorrência da percolação do

biológica. Há, inclusive, trechos com potencial para atividades de

chorume. Além disso, existe um córrego que passa pelas imediações

lazer e navegação, como foi possível observar durante a Expedição

da área e, inevitavelmente, suas águas seguem em direção ao Rio

Rio Pará Vivo. Se conseguirmos universalizar o tratamento de

Itapecerica. Portanto, direta ou indiretamente, a forma como os

esgoto, teremos uma melhora significativa na qualidade desse rio e,

resíduos sólidos urbanos são destinados em Divinópolis acaba

consequentemente, do próprio Rio Pará.

Não tenho dados sobre a quantidade de metais pesados ou outros contaminantes eventualmente carreados para o ambiente, nem informações detalhadas sobre o atual sistema de impermeabilização da área. Mas é inegável que as condições desse antigo lixão representam um fator de preocupação e têm potencial para impactar os recursos hídricos da região.

A Cachoeira do Caixão é um dos trechos do Rio Itapecerica que revelam seu potencial para a navegação, o lazer e o turismo de natureza.

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interferindo na qualidade das águas do rio.


Qual a importância de iniciativas como o Programa de Saneamento Rural do CBH do Rio Pará, que, particularmente em Divinópolis, irá beneficiar a comunidade de Branquinhos? Avalio essa iniciativa de forma muito positiva. Não podemos esquecer das comunidades rurais, que muitas vezes permanecem desassistidas ou acabam ficando fora das prioridades das políticas públicas. Espero que esse trabalho sirva de referência para outras comunidades. Grande parte das nascentes e dos pequenos cursos d’água que garantem qualidade e disponibilidade hídrica está justamente nessas áreas rurais. Cuidar desses territórios significa cuidar também dos rios que abastecem toda a bacia. Frequentemente, quando falamos em saneamento, pensamos apenas no ambiente urbano. Mas o saneamento rural também é essencial. São inúmeros córregos e nascentes que atravessam essas comunidades e, em algum momento, deságuam nos rios da bacia do Rio Pará. Por isso, considero essa uma iniciativa extremamente relevante. Espero que outras comunidades também possam ser contempladas por projetos semelhantes, ampliando

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seus benefícios para toda a bacia hidrográfica. Se Divinópolis conseguir avançar de forma consistente no tratamento de esgoto e na gestão adequada dos resíduos sólidos, como o senhor imagina o Rio Itapecerica – e, por consequência, o Rio Pará – daqui a 20 ou 30 anos? Se conseguirmos efetivar o tratamento de esgoto e dedicar um olhar mais cuidadoso ao Rio Itapecerica e aos demais afluentes do Rio Pará, eu ainda sonho em ver uma realidade muito diferente da atual. Gostaria de ver um rio com qualidade suficiente para permitir a navegação, a prática de esportes aquáticos e, quem sabe, até a balneabilidade em alguns trechos, sempre respeitando as condições de segurança e as características naturais de cada local. Imagino um cenário em que os rios da região possam voltar a ser vistos como espaços de convivência, lazer e até de atração turística, ampliando as possibilidades de uso da água. Talvez eu não veja isso acontecer plenamente. Mas espero que meu filho, meus futuros netos e as próximas gerações possam vivenciar essa realidade. Se um dia for possível utilizar as águas desses rios para nadar, navegar e conviver com elas de forma segura, acredito que teremos alcançado nossos objetivos.


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A grande concentração de algas dificulta a navegação e evidencia os efeitos da degradação da qualidade da água sobre o Rio Itapecerica


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TURISMO

VER O RIO DE DENTRO Um Rio Pará que convida ao lazer, ao turismo, ao esporte e ao pertencimento Texto: Henrique Ribeiro Fotos: Fernando Piancastelli; Léo Boi; Luciana do Carmo Acervo Pessoal; Marcus Pavani - Acervo Pessoal O Rio Pará muda quando deixa de ser visto das pontes. Com o olhar vindo de dentro de um caiaque, a paisagem ganha outra escala. As margens parecem mais próximas, o som da água substitui o ruído das rodovias e pequenas cenas do cotidiano passam a fazer parte da viagem: pescadores lançando redes, famílias reunidas em ranchos, crianças brincando perto da água, propriedades rurais que ainda mantêm o rio como extensão de suas vidas. Foi essa experiência que marcou o trecho percorrido pela Expedição Rio Pará Vivo 2026 entre Rio Pará. Distante de Divinópolis, maior município da bacia, a poluição aos poucos se depura e o Pará ganha mais vida. Para Rodrigo de Angelis, coordenador da navegação, percorrer esse trecho representou um reencontro carregado de memória, mas também de preocupação. “Foi justamente nessa região que aprendi a remar, há cerca de 26 anos. Voltar agora foi emocionante, mas também doloroso. Naquela época a gente não sentia cheiro de esgoto e o rio tinha outra aparência. Ao mesmo tempo, ele continua mostrando um potencial enorme para o esporte, para o turismo e para o lazer. O que precisamos recuperar não é apenas a qualidade da água, mas também a possibilidade de as pessoas voltarem a viver esse rio.”, diz. Além de percorrer quilômetros do curso d’água, a travessia mostrou que navegar também é uma forma de compreender o território. Ao observar a paisagem a partir da água, a expedição revelou um rio que dificilmente pode ser percebido por quem apenas cruza suas pontes ou acompanha seu curso pelas estradas. Durante a Expedição, ficou evidente que o Rio Pará oferece possibilidades que vão muito além Dentro do Rio Pará, o gesto ancestral da pesca revela uma relação com as águas que atravessa gerações.

do abastecimento de cidades, da irrigação ou da produção industrial. A navegação revelou paisagens preservadas, corredeiras, remansos, matas ciliares, pequenas comunidades e trechos favoráveis à pesca, à canoagem, à contemplação da natureza e ao lazer comunitário.

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Conceição do Pará e Pitangui, já na transição entre o Médio e o Baixo


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Entre pedras e corredeiras, os canoístas descobrem na paisagem do Rio Pará outras possibilidades de viver e percorrer suas águas.

ENTRE LEMBRANÇAS E ESPERANÇA

O QUE AINDA CABE DENTRO DO RIO

Essa percepção acompanha Cristina Maria Benícia desde a infância.

Ao longo dos mais de 300 quilômetros de extensão do Rio Pará, da

Nascida e criada em Velho da Taipa, um vilarejo às margens do Rio

nascente à foz, diferentes trechos já são utilizados por moradores

Pará, entre Conceição do Pará e Pitangui, ela viu o curso d’água

e visitantes para pesca, banho, canoagem, contemplação da

ocupar o centro da vida da comunidade por décadas. “Quando falam

paisagem e outras atividades de lazer. São experiências que revelam

do Rio Pará, é como se falassem de um pedaço do meu coração. A

um potencial presente em toda a bacia e que pode ser ampliado à

gente dependia dele para tudo: cozinhar, lavar roupa, pescar, buscar

medida que a qualidade das águas for recuperada.

água e conviver. Vinha muita gente de fora acampar, passear e conhecer esse lugar. O rio nunca separou ninguém. Pelo contrário,

Identificar esse potencial e compreender como ele pode ser

ele aproximava as pessoas.”

desenvolvido de forma sustentável foi justamente um dos objetivos da Expedição Rio Pará Vivo 2026. Para a turismóloga Luciana Priscila

Ao deixar para trás os trechos mais impactados da bacia, os

do Carmo, o trabalho realizado pelo Comitê representa um passo

expedicionários perceberam uma transformação gradual da

importante para transformar o rio em um vetor de desenvolvimento

paisagem. O cheiro de esgoto diminuía, o rio voltava a ganhar vida

associado à conservação ambiental. “O Comitê fez um trabalho

e a presença das pessoas nas margens se tornava mais frequente.

muito importante de inventariar as paisagens, os elementos culturais

“O rio começa a respirar novamente. Passamos a encontrar

e as diferentes formas de uso do rio. Esse é o primeiro passo para

pescadores, ranchos, sítios, restaurantes e famílias utilizando o

conhecer o território e compreender quais experiências podem ser

rio para lazer. É uma mudança que mostra como um rio saudável

desenvolvidas de forma responsável. A partir desse diagnóstico, é

movimenta muito mais do que só a economia. Ele movimenta a

possível planejar atividades como a canoagem, a pesca esportiva e

vida, fortalece o vínculo das pessoas com o território e cria novas

o turismo de natureza, sempre envolvendo as comunidades locais e

formas de convivência”, observa Rodrigo.

construindo uma governança participativa”, afirma.


Segundo Luciana, esse planejamento é essencial para que o rio seja valorizado para além de suas funções tradicionais. “Quando o uso do rio é planejado, ele deixa de ser apenas um recurso natural e passa a

Para Luciana Priscila do Carmo, conhecer as paisagens e os usos do Rio Pará é o primeiro passo para planejar novas experiências de turismo e lazer. Em destaque, abaixo, o Santuário de Nossa Senhora da Conceição, em Conceição do Pará.

ser reconhecido como um patrimônio que conecta pessoas, culturas e modos de vida. Preservar esse patrimônio também significa criar oportunidades para que ele continue gerando desenvolvimento e qualidade de vida para as futuras gerações.” Essa compreensão também é compartilhada por quem trabalha diretamente com atividades em ambientes naturais. Para Marcus Pavani, empresário e condutor de caminhadas na natureza, o turismo pode ser um importante aliado da preservação ambiental quando promove uma relação mais respeitosa entre as pessoas e os rios. “A atividade turística pode ser encarada como exploração ou como vivência, como experiência. Tudo depende da forma como a gente escolhe se relacionar com as águas. Quanto maior o cuidado que se tem com os rios, melhor será a qualidade da atividade turística. E essa relação acontece nos dois sentidos: o turismo também provoca uma melhoria na qualidade das águas, porque, quando elas esse patrimônio”, avalia. Com experiência na condução de caminhadas e expedições em diferentes regiões do Brasil e do exterior, Pavani defende um turismo que vai além da contemplação da paisagem. Para ele, vivenciar os rios de forma responsável fortalece o sentimento de pertencimento e amplia o compromisso das pessoas com sua conservação.

Marcus Pavani defende experiências na natureza que aproximem as pessoas dos rios e fortaleçam o cuidado com as águas.

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passam a ter valor para as pessoas, cresce também o cuidado com


UM RIO PARA USAR OU UM RIO PARA VIVER? Durante muito tempo, o Rio Pará foi valorizado principalmente pelo que produz. Suas águas abastecem cidades, movimentam indústrias, irrigam lavouras e sustentam diferentes atividades econômicas. Tudo isso continua sendo indispensável. A travessia da Expedição Rio Pará, no entanto, convida a uma pergunta diferente: o que um rio recuperado pode devolver à sociedade? A resposta passa pela qualidade da água, pela navegabilidade e pelo acesso às margens, mas também pela capacidade de ampliar experiências humanas. Um rio saudável permite remar, pescar, caminhar, observar a natureza, receber visitantes, fortalecer pequenos empreendimentos locais e criar novos vínculos entre as pessoas e a paisagem. Para Cristina, reconstruir essa relação é um passo essencial para garantir o futuro do Rio Pará. “Hoje a gente vê lugares onde já nem é possível chegar à água. Isso entristece quem cresceu aqui. O rio

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sempre foi um espaço de convivência. Se as pessoas conhecerem o rio de verdade, entenderem sua importância e voltarem a frequentá-lo, também vão querer cuidar dele.” Para Marcus Pavani, preservar um rio também passa por criar oportunidades para que as pessoas o vivenciem. “Tudo depende da forma como a gente escolhe se relacionar com as águas. Quanto maior o cuidado que se tem com os rios, melhor será a qualidade da atividade turística. E essa relação acontece nos dois sentidos: quando as águas passam a ter valor para as pessoas, cresce também o cuidado com esse patrimônio”, afirma. Em sua avaliação, o turismo, o lazer e outras formas de uso sustentável fortalecem o vínculo das comunidades com os rios e contribuem para transformar a conservação em um compromisso compartilhado. Rodrigo compartilha da mesma percepção. Para ele, preservar um rio também depende de fazer com que as pessoas voltem a enxergar valor em sua presença. “Quando alguém passa a frequentar um ambiente natural, cria um sentimento de pertencimento. A pessoa quer proteger aquilo que lhe proporciona lazer, esporte, tranquilidade e qualidade de vida. É por isso que acreditamos que incentivar o uso sustentável do Rio Pará também é uma forma de fortalecer sua conservação.”

Rodrigo de Angelis reencontrou, durante a Expedição, o trecho do Rio Pará onde aprendeu a remar há cerca de 26 anos.


FUTURO EM MOVIMENTO Ao chegar a Velho da Taipa, a Expedição Rio Pará Vivo 2026 reforçou uma percepção construída ao longo de toda a travessia: recuperar o Rio Pará também significa devolver às pessoas a possibilidade de viver o rio. Remar, pescar, contemplar a paisagem, desenvolver o turismo de natureza e reconstruir a relação histórica das comunidades com suas águas passam a ser parte desse processo. Talvez esse seja o maior legado da Expedição: mostrar que um rio preservado não serve apenas para abastecer cidades ou sustentar atividades econômicas. Ele também aproxima pessoas, fortalece o sentimento de pertencimento, cria oportunidades e amplia a qualidade de vida de quem vive às suas margens. Quanto mais o Rio Pará voltar a fazer parte do cotidiano das pessoas, maiores serão

Entre o rio e as antigas propriedades rurais, a paisagem do Pará guarda marcas de uma história construída às suas margens.

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também as razões para preservá-lo.


P. 38 P. 38

Entre o rio e a cidade, Martinho Campos revela uma paisagem onde história, fé e modos de vida se encontram.


TERRITÓRIOS

O RIO QUE VIVE EM MARTINHO CAMPOS Entre produção rural, memória e modos de vida tradicionais, Rio Pará ajuda a definir a identidade do município Texto: Henrique Ribeiro Fotos: Fernando Piancastelli; João Alves; Léo Boi; Marcus Vinícius; Otávio Kaxixó - Acervo Pessoal; Paulo Vilela Em Martinho Campos, falar do Rio Pará é falar da própria história do município. Com pouco mais de 14 mil habitantes e uma economia como um de seus principais eixos territoriais. Ao percorrer a porção leste do município, o rio ajuda a sustentar atividades essenciais para a população e a moldar a identidade local. Essa convivência, porém, traz desafios cada vez mais presentes: equilibrar o uso da água para o desenvolvimento econômico com a necessidade de preservar os ambientes naturais que garantem a vida do próprio rio. Em Martinho Campos, o Pará é um elo entre passado, presente e futuro, capaz de reunir diferentes interesses em torno de uma mesma responsabilidade. Conhecida por muitos moradores simplesmente como “Abadia”, a cidade herdou seu nome oficial de Martinho Álvares da Silva Campos, um dos mais importantes políticos do Brasil Imperial. Mas a identidade do município também é construída pelas histórias de quem escolheu fazer dali o lugar da própria vida. É o caso da artesã e professora aposentada Zilda Gabriel da Silva. Aos 73 anos, ela preside a Associação Mãos que Oferecem Rosas (AMOR), onde coordena ações que unem arte, acolhimento e inclusão social. “Martinho Campos é a cidade que escolheu o meu coração. Foi aqui que construí minha história e descobri que a arte pode transformar vidas. Tudo o que faço hoje é uma forma de retribuir o carinho que sempre recebi daqui”, afirma.

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fortemente ligada ao campo, a cidade se desenvolveu tendo o Rio Pará


Para Zilda, o sentimento de pertencimento também nasce da relação

Essa convivência ajuda a explicar a importância da agropecuária para

com o território. “Sou apaixonada pelo que faço, mas também pelo

Martinho Campos. Nessa que é uma das mais importantes cidades

lugar onde vivo. Acredito que a arte transforma as pessoas, assim como

do Baixo Rio Pará, o setor responde por cerca de 30% da atividade

esse lugar transforma a gente. É aqui que encontrei meu propósito e

econômica. Lavouras de soja, milho, feijão e cana-de-açúcar dividem

construí tudo o que sou”, completa.

espaço com um rebanho superior a 57 mil cabeças de gado, compondo uma paisagem produtiva típica da região. Nesse contexto, a água

ÁGUA QUE SUSTENTA O TERRITÓRIO

deixa de ser apenas um recurso natural para se tornar um elemento estratégico, conectando produção, meio ambiente e qualidade de vida.

A paisagem é marcada pelo mosaico típico do Cerrado mineiro. Campos abertos dividem espaço com matas mais densas, veredas

Mas se o rio sustenta parte importante da economia local, também

cortadas por buritis e faixas de vegetação que acompanham os cursos

impõe desafios relacionados ao uso sustentável de suas águas. Em

d’água. Ao longo do Rio Pará, as matas ciliares formam corredores

uma bacia marcada por diferentes interesses e demandas crescentes,

verdes que contrastam com áreas de cultivo e pastagens. O reflexo

conciliar produção, preservação ambiental e disponibilidade hídrica

do céu sobre as águas, o canto das aves e a presença de diferentes

tornou-se uma tarefa cada vez mais necessária. “Para quem está

espécies da fauna e da flora ajudam a compor um cenário onde

às margens do rio, ele representa a possibilidade de plantar, irrigar

natureza e produção rural convivem lado a lado.

e garantir a dessedentação dos animais. Mas sua importância vai muito além disso. Quando o município produz mais e colhe mais, gera emprego, gera renda e movimenta toda a economia. Por isso, a maior importância do Rio Pará está justamente na capacidade de promover desenvolvimento e qualidade de vida para toda a região”, avalia José Dirino Arruda, representante do Sindicato dos Produtores Rurais de

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Martinho Campos no CBH do Rio Pará.

Zilda Gabriel da Silva encontrou em Martinho Campos o lugar onde construiu sua história e transformou a arte em instrumento de acolhimento e pertencimento.

Pompéu

Aldeia Kaxixó

Martinho Campos Ibitira Buriti Grande Alberto Isaacson

Sede Distritos

Pitangui

Limite Municipal Cursos D’água

Bom Despacho

Leandro Ferreira


PELO RIO ATÉ A ALDEIA Poucas comunidades mantêm uma relação tão profunda com o Rio Pará quanto o povo indígena Kaxixó. Presente há gerações na região, a comunidade construiu sua história às margens do rio, que desempenha papel fundamental em seu modo de vida. Para os Kaxixó, o Pará é mais do que uma fonte de água e alimento: é um território de ancestralidade e permanência, responsável por conectar o passado e o futuro de um povo que mantém fortes laços com suas tradições. Essa relação também convive com desafios. Lideranças da comunidade apontam preocupações relacionadas à redução da vazão do rio e aos impactos provocados pelo uso intensivo da água para irrigação, que contribuem para a diminuição dos peixes e para a degradação de ambientes importantes para a reprodução das espécies. Somam-se a isso as lutas pela garantia de direitos territoriais e pela preservação de

Para o povo Kaxixó, o Rio Pará está presente tanto na luta pelo reconhecimento do território quanto nas lembranças mais afetivas da vida em comunidade. “Temos três aldeias às margens do Rio Pará, bem na divisa entre Martinho Campos e Pompéu. Nasci na Aldeia

Otávio Kaxixó carrega na memória as águas do Rio Pará, parte inseparável da história, da cultura e da identidade de seu povo.

Criciúma, que hoje não existe mais, porque foi engolida pelas fazendas da região, mas carrego comigo as raízes do lugar onde cresci e aprendi os costumes do meu povo”, conta o médico indígena Otávio Kaxixó, liderança jovem e proeminente de seu povo. Ao recordar a infância, ele destaca a presença constante do rio na formação das novas gerações. “Foi uma infância marcada pelas manifestações culturais do povo Kaxixó, pelos rituais religiosos, pelas festas e pela convivência com a natureza. Também guardo muitas lembranças de brincar e nadar no Rio Pará com meus amigos. O rio era fonte de alimento para a aldeia, fazia parte dos nossos momentos de lazer e estava diretamente inserido nas práticas culturais e religiosas da comunidade”, relembra. Ao falar sobre o significado do Pará para o povo Kaxixó, Otávio recorre a uma definição que resume séculos de convivência com as águas. “O Rio Pará é o nosso cordão umbilical. Costumo dizer que boa parte dos povos indígenas tem uma relação muito forte com os rios, e conosco não é diferente. Para nós, o território representa a possibilidade de manter vivo o Cerrado, nossa cultura, nossa história e nossas tradições. O Pará é o tronco principal da nossa identidade e responsável por esse sentimento de pertencimento que atravessa gerações.”

Representante do Sindicato dos Produtores Rurais no CBH, José Dirino Arruda destaca o papel do Rio Pará na produção rural e no desenvolvimento do município.

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um patrimônio cultural intimamente ligado às águas do Pará.


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Nos olhos das novas gerações, a continuidade de uma história profundamente ligada ao território e às águas do Rio Pará.

Às margens do Rio Pará, a Aldeia Kaxixó preserva vínculos ancestrais entre território, natureza e cultura.


À BEIRA DO MESMO RIO Em 2026, Martinho Campos recebeu mais uma vez uma Expedição

A passagem da Expedição Rio Pará Vivo pela Aldeia Kaxixó reforçou a

promovida pelo CBH do Rio Pará. Desta vez, a iniciativa navegou

importância de criar espaços de encontro entre diferentes comunidades

diferentes trechos do rio até chegar à Aldeia Kaxixó, onde encontrou

e setores que compartilham o mesmo território. “A Expedição ajuda

um território que sintetiza as diversas formas de relação com

a aproximar as pessoas das discussões sobre os recursos hídricos e

as águas. Para produtores rurais, o Pará representa trabalho e

a construir soluções que conciliem produção, preservação ambiental

sustento. Para moradores da região, faz parte da história local. Para

e qualidade de vida. Quanto mais pessoas estiverem envolvidas,

os Kaxixó, é memória, ancestralidade e identidade. Juntas, essas

melhores serão as condições para garantir um futuro equilibrado para

perspectivas ajudam a revelar a dimensão de um rio que conecta

toda a bacia”, complementa José Dirino Arruda.

pessoas, culturas e atividades econômicas – e que, justamente por isso, também evidencia a complexidade dos desafios que

Entre produção, cultura, memória e pertencimento, o Rio Pará segue

atravessam sua gestão e conservação.

unindo territórios e histórias, lembrando que o futuro da bacia passa, necessariamente, pelo cuidado com suas águas.

A chegada da Expedição à aldeia transformou a comunidade em um espaço de encontro e diálogo. Representantes de órgãos públicos, instituições, produtores rurais, lideranças indígenas e integrantes do Comitê compartilharam experiências e discutiram desafios e oportunidades relacionados ao Rio Pará. Foi a oportunidade para dar visibilidade a temas sensíveis, como o uso e ocupação das margens do rio, a conservação dos ambientes naturais e a convivência entre

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diferentes formas de utilização da água.

Em celebração durante a passagem da Expedição, o povo Kaxixó reafirma, por meio de sua cultura, os vínculos com o território e o Rio Pará


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Na foz, o Rio Pará encontra o São Francisco e encerra sua travessia levando consigo as marcas de toda a bacia.


NO FIM DO PERCURSO, O COMEÇO DAS PERGUNTAS Ao chegar à foz, a Expedição Rio Pará Vivo 2026 revelou que um rio transporta muito mais do que água: leva consigo as marcas de toda a bacia Texto: Luiza Baggio Fotos: Fernando Piancastelli, Léo Boi, Paulo Vilela, Rogério Alves Depois de acompanhar o Rio Pará desde suas primeiras águas, chegar à foz deixou de significar apenas alcançar o último ponto do percurso. Em Pompéu, onde o Pará encontra o Rio São Francisco, as paisagens, histórias e transformações observadas ao longo de mais de 360 quilômetros ganharam uma dimensão comum. O encontro das águas revelou a síntese da travessia. Na foz chegam os reflexos das formas de ocupação do território, dos diferentes usos da água e das escolhas feitas nos 35 municípios que integram a bacia.

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BAIXO RIO PARÁ


Professora da UEMG, Ludmila Brighenti chama atenção para o papel das matas ciliares na proteção dos rios e para os efeitos acumulados da degradação ao longo da bacia.

No trecho final da travessia, os canoístas acompanham o Rio Pará até o encontro com o São Francisco.

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O QUE CHEGA ATÉ A FOZ Desde o seu alto curso, o Rio Pará atravessa cidades, propriedades

Com o assoreamento, surgem bancos de areia, a calha se torna mais

rurais, áreas agrícolas e remanescentes de vegetação nativa. Nesse

rasa e diminui a capacidade do rio de receber e conduzir a água.

caminho, recebe sedimentos carregados pela erosão, resíduos e poluentes, além dos efeitos da retirada da vegetação ciliar e das

Dados do MapBiomas reforçam o cenário observado durante a

demais transformações da paisagem.

expedição. A perda de mata ciliar ao longo do Rio Pará aumentou 38%

Nada disso permanece restrito ao lugar onde começou. Os processos

antes da foz, no trecho entre Martinho Campos e Pompéu, o avanço

observados na região da nascente acompanham o fluxo da água e

do desmatamento chegou a 106,9%, indicando o agravamento da

repercutem nos trechos seguintes.

pressão sobre essas áreas no baixo curso da bacia. “O rio funciona

Um dos exemplos mais evidentes é a situação das matas ciliares. Localizada às margens dos cursos d’água, essa vegetação ajuda a conter a erosão, favorece a infiltração da chuva no solo e funciona como barreira para sedimentos e poluentes que poderiam chegar ao

entre 2020 e 2024, em comparação com a década anterior. Pouco

como um corpo só: o que acontece na nascente afeta diretamente quem está lá embaixo, na foz. O desmatamento ao longo da bacia acumula problemas e gera um efeito cascata, que culmina na degradação do baixo curso do Rio Pará”, alertou Ludmila.

leito. Para a bióloga Ludmila Brighenti, professora da Universidade

A perda de vegetação também interfere na qualidade e na

do Estado de Minas Gerais (UEMG) e conselheira do CBH do Rio

disponibilidade da água. Sem os filtros naturais oferecidos pelas

Pará, sua função ultrapassa a proteção física das margens. “A mata

matas ciliares, resíduos, defensivos agrícolas e outros poluentes

ciliar ajuda a conter a erosão e funciona como um filtro, retendo

chegam com mais facilidade aos cursos d’água. Ao mesmo tempo, a

solo, lixo e outros poluentes que seriam carregados pela chuva até

menor infiltração da chuva prejudica a recarga dos lençóis freáticos

o rio. Também fornece alimento e matéria orgânica aos organismos

que ajudam a alimentar o rio nos períodos secos.

aquáticos, conectando os ambientes terrestre e aquático”, explicou. O resultado é a perda de regularidade: na estiagem, as vazões podem Quando essa vegetação é retirada, o rio perde parte de sua proteção

cair de forma acentuada; durante as chuvas, o escoamento superficial

natural. A erosão se intensifica, aumenta a quantidade de solo

mais rápido favorece cheias repentinas e intensas. A foz, portanto,

transportada pelas chuvas e o leito passa a acumular sedimentos.

herda a soma das transformações ocorridas em toda a bacia.


A PERDA DE MATA CILIAR CHEGA À FOZ

+38%

de aumento na perda de mata ciliar ao longo do Rio Pará. O crescimento foi registrado entre 2020 e 2024, em comparação com a década anterior.

+106,9% de avanço do desmatamento entre Martinho Campos e Pompéu O trecho está localizado pouco antes da foz do Rio Pará, no encontro com o Rio São Francisco.

O QUE ISSO PROVOCA NO RIO

O QUE PERMANECE NO TERRITÓRIO A Expedição Rio Pará Vivo 2026 também mostrou que conservar um rio exige mais do que proteger sua calha. A qualidade e a disponibilidade da água dependem da recuperação das áreas degradadas, da preservação das nascentes, do tratamento adequado dos efluentes e do envolvimento das comunidades que vivem no território. Em Pompéu, a equipe encontrou exemplos de como esses desafios podem ser enfrentados na prática. O município é beneficiado pelos dois principais programas desenvolvidos pelo CBH do Rio Pará: o Programa de Conservação Ambiental e Produção de Água e o Programa de Saneamento Rural. Juntas, as duas iniciativas representam investimentos de R$ 19 milhões em diferentes pontos da bacia. Criado em 2021, o Programa de Conservação Ambiental e Produção de Água atua em três microbacias prioritárias, uma em cada região fisiográfica: Ribeirão dos Custódios, em Cláudio, no Alto Rio Pará; Ribeirão do Sapé, em Carmo do Cajuru, no Médio; e Ribeirão Pari, em Pompéu, no Baixo Pará. As obras nas duas primeiras já foram concluídas, enquanto as intervenções em

aumento da erosão

Pompéu seguem em execução.

maior entrada de sedimentos e poluentes

Com investimento total de R$ 11,9 milhões, o programa beneficia

assoreamento do leito

mais de 181 quilômetros de cercamento de áreas de preservação

menor infiltração da água no solo cheias mais rápidas e intensas redução das vazões nos períodos secos

179 propriedades e famílias. Entre os resultados consolidados estão permanente e reservas legais, 561 quilômetros de terraceamento e 725 barraginhas. As intervenções também incluem 45,45 hectares de plantio de mudas, 564,06 hectares de correção de solos, 152,95 hectares de plantio de cobertura e mais de 41 quilômetros de adequação de estradas e sistemas de drenagem. Além de reduzir processos erosivos, essas estruturas favorecem a infiltração da chuva, ajudam a proteger nascentes e diminuem

Fonte: MapBiomas

o transporte de sedimentos para os cursos d’água. O programa também implantou 46 bebedouros para animais, 37 sistemas de tratamento de esgoto e áreas destinadas a sistemas agroflorestais.

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O desmatamento das margens se intensificou ao longo do Rio Pará e ganhou força no trecho final da bacia.


Na outra frente, o Programa de Saneamento Rural apoia a

Entre os moradores beneficiados está Eliene Caetano, do

implantação de soluções individuais de esgotamento sanitário

Assentamento Antônio Veloso, em Pompéu. Para ela, os resultados

adaptadas às características das propriedades e comunidades. Com

podem ser percebidos muito além da infraestrutura instalada. “A

investimento de R$ 7,1 milhões, a iniciativa alcança sete localidades

implantação do sistema foi a realização de um sonho pelo qual

de seis municípios, distribuídas pelo Alto, Médio e Baixo Rio Pará.

sempre lutamos. O projeto foi muito bem executado e os resultados já aparecem na propriedade. A diferença é visível até mesmo na

Ao todo, 294 propriedades e famílias são beneficiadas. Estão

plantação”, contou.

previstas 299 soluções de saneamento, sendo 295 sistemas individuais de tratamento de esgoto e quatro módulos sanitários.

Ao evitar que o esgoto doméstico seja lançado diretamente no solo e nos cursos d’água, o programa contribui para reduzir a poluição, proteger os ecossistemas aquáticos e melhorar as condições de saúde e bem-estar das comunidades rurais. “Muitas pessoas ainda acham que água é apenas para usar e depois cobrar de quem faz a gestão. Mas todos nós temos responsabilidade sobre sua preservação. Quando cada um entende que precisa cuidar das nascentes, evitar o descarte inadequado de resíduos e proteger a água, toda a bacia é beneficiada”, diz Eliene.

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A moradora Eliene Caetano, do Assentamento Antônio Veloso, em Pompéu, foi uma das beneficiadas pelas ações de saneamento rural do CBH do Rio Pará.

Quer saber mais sobre o Programa de Saneamento Rural do CBH do Rio Pará? Assista ao vídeo: youtu.be/fc5W_q-BqlQ


A TRAVESSIA TERMINA, MAS O COMPROMISSO CONTINUA Ao chegar ao encontro entre o Rio Pará e o Rio São Francisco, a Expedição Rio Pará Vivo 2026 encerrou seu percurso com uma constatação construída desde as primeiras águas: assim como os impactos percorrem toda a bacia, as soluções também precisam alcançá-la por inteiro. Os próximos passos passam pela conclusão e pelo monitoramento das intervenções já iniciadas, pela ampliação dos programas para outras comunidades e microbacias e, sobretudo, pelo fortalecimento da participação da sociedade na proteção do rio. Para José Hermano Franco, presidente do CBH do Rio Pará, esse envolvimento coletivo está entre os principais legados da expedição. “Não são meia dúzia de pessoas que vão salvar o rio. É a população entendendo a importância daquela água para todos, a importância dos usos múltiplos da água – e não apenas para poucos interesses ou para receber esgoto”, disse.

Segundo ele, a travessia também ampliou a compreensão sobre o significado do Rio Pará para os territórios que atravessa. “O rio é mais do que a água em sua calha. O rio tem vida, cultura, amor, histórias e famílias. Ele carrega uma infinidade de elementos que vão muito além da quantidade de água que existe ali ou apenas do abastecimento e da dessedentação.” A expedição termina na foz, mas o Rio Pará segue no São Francisco, levando consigo tudo o que recebeu ao longo da bacia. Para quem permanece no território, fica a responsabilidade de transformar o conhecimento produzido durante a travessia em cuidado, participação e continuidade.

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Soluções de saneamento rural ajudam a evitar que o esgoto doméstico chegue ao solo e aos cursos d’água.


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ARTE NA BACIA

ONDE O RIO TAMBÉM SE REVELA Ao longo da Expedição Rio Pará Vivo 2026, o rio se apresentou de diferentes formas: nas paisagens, nas pessoas, nos encontros e também nos pequenos detalhes que muitas vezes passam despercebidos. A fotografia ajudou a registrar esses instantes e a revelar outras dimensões da travessia.


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Revista do CBH do Rio Pará nº5 - Outubro de 2026 by CBH do Rio Pará - Issuu