Uma publicação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas


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Uma publicação do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas


Entre margens, nascentes e territórios, a preservação não é apenas um princípio — é uma decisão cotidiana que molda o futuro que queremos habitar. Cuidar da água, dos rios e das paisagens é, antes de tudo, cuidar da vida em todas as suas formas.
Em um tempo em que os sinais da crise climática se tornam cada vez mais evidentes, preservar deixou de ser apenas um ideal e passou a ser uma urgência. Mas preservar também é construir. É planejar, investir, transformar realidades e, sobretudo, imaginar futuros possíveis para o nosso rio.
Nesse sentido, a bacia do Rio das Velhas entra em uma nova fase. Com a aprovação do Enquadramento dos corpos hídricos, abrese um horizonte que exige mais do que diagnóstico: exige ação coordenada, compromisso e continuidade. O que está em jogo não é apenas a qualidade da água, mas a capacidade de traduzir planejamento em transformação concreta nos territórios.
Se o planejamento aponta caminhos, o cuidado cotidiano mostra que eles já começam a ser trilhados — muitas vezes onde menos se espera. Entre quintais, ruas e fragmentos de vegetação, as nascentes urbanas resistem e revelam algo poderoso: a água ainda encontra espaço para brotar, desde que haja atenção, vínculo e responsabilidade. Ao mesmo tempo, novas iniciativas ampliam esse olhar, integrando a proteção dessas fontes à segurança hídrica das cidades.
Mas para que essas histórias existam — e, sobretudo, para que ganhem força — é preciso que sejam contadas. Em um país marcado por conflitos ambientais e disputas de narrativa, o jornalismo socioambiental se afirma como ferramenta essencial de defesa da vida, dos territórios e dos bens comuns. Informar, aqui, é também proteger.
Há também caminhos concretos que mostram como conservação e desenvolvimento podem caminhar juntos. É o caso da TransCabral, travessia de longo curso que percorre a região da Serra do Cabral, no Baixo Velhas, articulando turismo de natureza, proteção ambiental e geração de renda para comunidades locais. Ao longo de seu trajeto, a iniciativa revela o potencial de um modelo de desenvolvimento que reconhece a paisagem como patrimônio e o rio como eixo estruturador de oportunidades.
Nesta edição, cruzamos o país ao lado de Sergio Myssior e Thiago Metzker, que decidiram transformar o deslocamento até a COP-30 em uma jornada de escuta pelos territórios brasileiros. Ao percorrer milhares de quilômetros por diferentes biomas, reuniram relatos, impressões e evidências de um tempo em que os impactos da crise climática já são visíveis — mas também em que respostas locais emergem com criatividade e resiliência.
Porque, se o futuro está em disputa, ele também já começou. E os dados não deixam dúvidas: em apenas 25 anos, Belo Horizonte registrou um aumento significativo em sua temperatura média. A emergência climática não é mais projeção — é presença, e se impõe sobre o cotidiano das cidades e dos territórios.
Nesse contexto, decisões estruturais ganham ainda mais peso. A privatização da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) inaugura um novo capítulo para os municípios da bacia, trazendo incertezas, desafios e escolhas que terão impacto direto sobre tarifas, investimentos e, sobretudo, sobre a garantia do acesso à água e ao saneamento nas próximas décadas.
Seguimos também pelo território da UTE Poderoso Vermelho, onde história e natureza correm lado a lado, revelando como a preservação pode ser, ao mesmo tempo, memória e projeto de futuro. Em paisagens marcadas por patrimônio cultural e riqueza ambiental, vemos que proteger é também reconhecer identidades e fortalecer vínculos.
Na editoria Olhares, a poesia encontra o rio — lembrando que, antes de recurso, a água é símbolo, linguagem e imaginação.
Entre dados e histórias, desafios e esperanças, esta edição reafirma um ponto essencial: preservar não é resistir ao futuro — é torná-lo possível.
Boa leitura!
Revista Velhas
Publicação Semestral do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas Nº 23 – Abril/2026
CBH Rio das Velhas
Diretoria
Presidente: Valter Vilela Cunha
Vice-presidente: Ronald Carvalho
Secretário: Renato Junio
Secretária-adjunta: Poliana Valgas
Diretoria Ampliada
Sociedade Civil: Cecília Rute
Usuários de Água: Heloísa França
Poder Público Estadual: João Paulo Sarmento
Poder Público Municipal: Márcio Lima
Agência Peixe Vivo
Diretora-Geral: Rúbia Mansur
Gerente de Integração: Ohany Vasconcelos
Gerente de Projetos: Jacqueline Fonseca
Gerente de Administração e Finanças: Berenice Coutinho
Esta revista é um produto do Programa de Comunicação do CBH Rio das Velhas.
Produzida pela Assessoria de Comunicação do CBH Rio das Velhas
TantoExpresso Comunicação e Mobilização Social
Direção: Paulo Vilela, Pedro Vilela e Rodrigo de Angelis
Coordenação de Jornalismo: Luiz Ribeiro
Edição: Luiz Ribeiro e Rodrigo de Angelis
Assistência Editorial: Arthur de Viveiros
Redação e Reportagem: Arthur de Viveiros, João Alves, Luiz Ribeiro, Luiza Baggio e Paulo Barcala
Revisão: Isis Pinto
Fotografia: ALEMG/Divulgação; Álvaro Gomes; Bianca Aun; Daniel de Cerqueira; Dom Phillips/Acervo Pessoal; Fernando Piancastelli; Gustavo Abah; Gustavo Nolasco/Acervo Pessoal; Isabela Prado; João Alves; João Cotta/GloboNews; João Ragone; Juarez Rodrigues; Leandro Durães; Leo Boi; Lóla Luvizoto; Luiz Maia; Marcelo Andre; Matheus Parreiras/Acervo Pessoal; Michelle Parron; Ohana Padilha; Paulo Vilela; Pedro Vilela; Robson de Oliveira; Rodrigo Blum; Rodrigo de Angelis; Sergio Myssior/ Acervo Pessoal; TantoExpresso; Thânia Rêgo/Agência Brasil; Thiago Metzker/Acervo Pessoal; Victor Gonçalves/Acervo Pessoal.
Ilustrações: Albino Papa e Clermont Cintra
Projeto Gráfico: Márcio Barbalho
Diagramação: Albino Papa
Impressão: EGL Editora
Tiragem: 3.000 unidades.
Direitos reservados. Permitido o uso das informações desde que citada a fonte.
Privatização da Copasa: incertezas e desafios no saneamento p. 08

Nascentes urbanas: onde a água resiste na cidade
Entrevista: da estrada à COP em 3 mil km pelo Brasil
p. 20


BH sob o avanço da crise climática
p. 26
32 p. 34
Olhares: Na ribeira deste rio

Quando informar é proteger Novo
o que muda na bacia
Travessia de longo curso na Serra do Cabral

p. 44
Poderoso Vermelho: onde a história corre junto com as águas
p. 50


Assumo a presidência do CBH Rio das Velhas com senso de responsabilidade e com a convicção de que este é um momento de continuidade e aperfeiçoamento. Ao longo dos últimos anos, o Comitê consolidou uma atuação técnica, participativa e orientada por resultados. Nosso compromisso, nesta nova gestão, é preservar esse legado, fortalecer a atuação colegiada e avançar naquilo que ainda se apresenta como desafio.
A Diretoria que ora se inicia mantém o caráter plural e representativo que é marca deste Comitê. A gestão das águas exige diálogo permanente entre poder público, usuários e sociedade civil, mas também exige rigor técnico, planejamento consistente e capacidade de execução. É nesse equilíbrio que pretendemos conduzir os próximos anos.
Entre os diversos temas em curso, destaco de forma especial o processo de Enquadramento dos corpos d’água da bacia do Rio das Velhas. Trata-se de um dos instrumentos mais relevantes da Política de Recursos Hídricos e, ao mesmo tempo, um dos mais complexos. Há cerca de três anos, o Comitê vem se dedicando intensamente à sua revisão, em um processo que envolveu estudos técnicos aprofundados, debates qualificados e ampla participação dos diferentes segmentos da bacia.
O Enquadramento atualmente vigente, estabelecido em 1997, já não reflete de maneira adequada as dinâmicas territoriais, os usos da água e os desafios contemporâneos que enfrentamos, especialmente diante das pressões urbanas, produtivas e climáticas. A proposta em fase final de consolidação busca, justamente, alinhar os padrões de qualidade da água às realidades locais e aos usos preponderantes em cada trecho da bacia.
É importante ressaltar que, uma vez aprovado pelo Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CERH), o novo Enquadramento passará a ter caráter normativo. Isso significa que irá se tornar uma referência obrigatória para a atuação dos municípios, dos órgãos gestores e dos usuários de recursos hídricos. Em termos práticos, implicará na necessidade de adequação de políticas públicas, especialmente nas áreas de saneamento, uso e ocupação do solo e controle de poluição.
Nesse sentido, o Enquadramento não deve ser compreendido como um fim em si mesmo, mas como um instrumento estruturante, capaz de orientar investimentos, qualificar a gestão e promover ganhos efetivos na qualidade e na disponibilidade de água ao longo de toda a bacia.
Paralelamente, daremos continuidade às ações já em andamento, com destaque para os Programas de Saneamento Urbano e Rural, Conservação Ambiental e Produção de Água, além da implementação do Plano de Educação Ambiental (PEA). A Cobrança pelo uso da água seguirá como elemento central para viabilizar financeiramente essas ações, garantindo que o planejamento aprovado no âmbito do Comitê se traduza em intervenções concretas no território.
Outro ponto relevante será o fortalecimento da relação com os municípios. A efetividade dos instrumentos de gestão depende, em grande medida, da capacidade de articulação com os entes locais, responsáveis diretos por políticas que impactam a qualidade das águas. Nesse aspecto, o Comitê seguirá atuando como instância de apoio, articulação e indução de boas práticas.
Por fim, reafirmo que a condução desta gestão será pautada pela objetividade, pela transparência e pelo compromisso com resultados. Seguimos, assim, com o entendimento de que cuidar da bacia do Rio das Velhas é uma tarefa contínua, que exige planejamento, responsabilidade institucional e ação coordenada. É nesse caminho que pretendemos avançar.
Valter Vilela Cunha Presidente do CBH Rio das Velhas


Com a mudança no controle da Copasa autorizada, municípios entram em uma nova fase de incertezas e decisões estratégicas sobre contratos, tarifas, investimentos e a garantia do direito à água e ao saneamento
Texto: Luiz Ribeiro 9
Sabará, cidade histórica da Região Metropolitana de Belo Horizonte, convive diariamente com um paradoxo que ajuda a compreender o momento vivido pelo saneamento em Minas Gerais. Com cerca de 130 mil habitantes, vizinha da capital e integrante estratégica da bacia do Rio das Velhas, o município ainda não universalizou o acesso à água tratada e despeja todo o esgoto que gera diretamente na natureza. Em bairros mais afastados da sede, como Maquiné, no distrito de Ravena, a falta d’água é frequente. Ao mesmo tempo, a tarifa paga pelos moradores é 36,3% mais cara que a média nacional, apesar de o consumo per capita ser menor.
Os números do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) escancaram o desafio: 21,5% da população de Sabará não tem acesso à rede de abastecimento de água, índice superior às médias estadual e nacional. Mais de 60% da água captada se perde em vazamentos, ligações clandestinas ou falhas de medição. No esgotamento sanitário, a situação é ainda mais grave: embora 62,7% do esgoto seja coletado, nada é tratado. Em 2022, mais de 5,8 milhões de metros cúbicos de esgoto foram lançados sem tratamento nos corpos d’água da região.
Desde 1977, os serviços de abastecimento de água em Sabará são concedidos à Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), que também assumiu o esgotamento sanitário em 2012. É essa mesma companhia que teve sua privatização autorizada pela Lei nº 25.664/2025, de autoria do governador Romeu Zema (Novo), aprovada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais em dezembro de 2025. A decisão encerra a etapa legislativa, mas inaugura um período de incertezas técnicas, regulatórias e contratuais — especialmente para os municípios da bacia do Velhas, onde a Copasa é a principal operadora.
Saneamento básico é um dos principais pilares para garantir saúde pública, qualidade ambiental e dignidade à população.

Da aprovação à implementação: o que vem agora
A autorização legal não significa privatização imediata. O texto aprovado autoriza o governo estadual a dar início ao processo de privatização da Copasa, mas ainda será necessário definir como — e em quais condições — essa mudança será implementada. Estudos técnicos, jurídicos e econômico-financeiros precisam ser elaborados; o modelo de desestatização deve ser escolhido (venda do controle acionário, concessão, Parceria Público-Privada, regionalização por blocos, entre outros); e um cronograma deverá ser apresentado.
Para Vitor Queiroz, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), a fase que se inicia é decisiva. “Do ponto de vista técnico do saneamento, é fundamental observar a estruturação do modelo para garantir salvaguardas desde o início. Se a lógica do processo estiver orientada pelo interesse público e pela universalização, algumas oportunidades podem ser exploradas”, afirma. Segundo ele, a principal oportunidade seria assegurar que os recursos gerados pelo setor permaneçam no próprio saneamento, financiando investimentos, subsídios cruzados e a redução das desigualdades no acesso. “Tarifa não pode ser vista apenas como fonte de remuneração do capital, mas como instrumento de política pública.”
O risco, alerta Queiroz, é que o desenho privilegie apenas a atratividade financeira. Nesse caso, podem surgir postergações de investimentos, expansão seletiva para áreas mais rentáveis, aumento excessivo de tarifas e priorização da distribuição de lucros em detrimento da qualidade do serviço. Há ainda um risco institucional: a perda de clareza sobre quem responde pela prestação do serviço, especialmente se o controle da empresa ficar pulverizado entre fundos de investimento, o que dificulta a responsabilização em caso de descumprimento contratual.
Municípios como Sabará, que mantêm contratos em vigor com a Copasa, vivem hoje – no entendimento da Associação Mineira de Municípios (AMM) – um cenário de insegurança jurídica. Em tese, a mudança no controle da empresa não anula automaticamente os contratos de programa firmados, mas abre espaço para revisões, adaptações e, em casos extremos, rescisões.
Para o presidente da AMM, Luís Eduardo Falcão, o principal risco nesse intervalo entre autorização legal e modelagem é justamente o ambiente de indefinição. “Os municípios que já possuem contratos vigentes com a Copasa vivem hoje um cenário de incerteza quanto à preservação desses instrumentos, o que pode resultar em decisões unilaterais, conflitos contratuais e judicializações”, afirma. A AMM acionou o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais para que o processo seja analisado com transparência e respeito à titularidade municipal.
Em Sabará, a situação ilustra bem a complexidade dos contratos vigentes nesse novo cenário. A concessão dos serviços de abastecimento de água remonta a 1977, e a de esgotamento sanitário foi assumida pela Copasa apenas em 2012, com metas de investimento e universalização ainda em curso — especialmente no tratamento de esgoto. A eventual mudança no controle da companhia levanta dúvidas sobre a continuidade desses compromissos, os mecanismos de reequilíbrio econômico-financeiro e as condições para revisão contratual, em um contexto no qual obras estruturantes estão em execução e dependem de previsibilidade institucional para serem concluídas.

Presidente da ABES, Vitor Queiroz defende que o modelo de privatização preserve o interesse público e garanta investimentos para a universalização do saneamento.
Diante desse novo contexto, prefeitos e equipes técnicas precisam redobrar a atenção. Metas de universalização, qualidade dos serviços, garantias de investimento e políticas tarifárias devem estar claramente definidas nos contratos. A experiência de Sabará, com alta perda de água e ausência de tratamento de esgoto, mostra que apenas a existência de um operador não garante resultados.
Outro ponto sensível é a Tarifa Social. Atualmente, 4.837 pessoas em Sabará têm direito a descontos de até 50% na conta de água e esgoto, benefício que alcança quase 800 mil pessoas em todo o estado. Em um ambiente privatizado, a manutenção e o aprimoramento desses mecanismos de proteção social dependerão de cláusulas contratuais e da atuação firme do regulador.
Para a AMM, a orientação aos prefeitos é clara. “Cautela, união e protagonismo institucional”, resume Falcão. A entidade recomenda que os municípios evitem decisões precipitadas, busquem apoio técnico e jurídico e atuem de forma articulada, para não negociar isoladamente em um cenário de assimetria de poder.

Regulação e fiscalização em um cenário privatizado
Se a privatização avançar, a regulação e a fiscalização se tornam ainda mais estratégicas. O Estado não deixa de ser responsável pela política de saneamento — ao contrário, suas atribuições se tornam mais complexas. Para Vitor Queiroz, Minas precisará fortalecer significativamente sua capacidade institucional de coordenação, planejamento e governança.
Nesse contexto, o papel da Agência Reguladora de Serviços de Abastecimento de Água e de Esgotamento Sanitário de Minas Gerais (Arsae-MG) é central. “Sem uma agência forte, independente e tecnicamente capacitada, não há como assegurar o cumprimento de metas, a qualidade dos serviços e o equilíbrio tarifário em um ambiente com operadores privados”, afirma o presidente da ABES.
O economista Renan Almeida, professor da UFMG, alerta que, em um ambiente com concessionária privada, a regulação precisa ser ainda mais robusta. “A lógica do operador privado é maximizar retorno ajustado ao risco. Isso cria incentivos permanentes para reduzir custos operacionais, antecipar ou ampliar reajustes tarifários e transferir riscos para o consumidor, inclusive sobre demanda e custos ambientais. Sem mecanismos claros de controle, essas pressões podem comprometer a modicidade e a universalização dos serviços.”
Renan Almeida chama atenção para desigualdades que favorecem a empresa em relação à regulação.
“Concessionárias privadas grandes tendem a ter maior capacidade técnica e jurídica que o regulador, operar estruturas societárias complexas e influenciar o processo regulatório”, explica. Isso pode dificultar a verificação de custos reais, investimentos efetivos e eficiência operacional, aumentando a pressão por reajustes tarifários e reequilíbrios contratuais.

Para Luís Eduardo Falcão, municípios vivem cenário de insegurança jurídica e devem atuar com cautela diante da possível privatização.
Do ponto de vista dos direitos humanos à água e ao esgotamento sanitário, os riscos recaem de forma desigual sobre os territórios. Para Léo Heller, professor da UFMG e ex-relator da ONU para o tema, a privatização tende a intensificar a seletividade. “A empresa privada prioriza atuar em locais que garantem mais viabilidade econômica e financeira e procura se esquivar de municípios menores, zona rural e periferias dos grandes centros”, afirma.
Esse raciocínio ameaça o mecanismo do subsídio cruzado, hoje praticado por empresas públicas como a Copasa, em que áreas superavitárias ajudam a financiar serviços em regiões menos rentáveis. Em muitos municípios, como Sabará, distritos afastados e áreas com menor densidade populacional dependem diretamente dessa lógica para serem atendidos. Sem ela, o risco é de aprofundamento das desigualdades territoriais.
Heller alerta ainda para temas pouco atrativos ao mercado, como adaptação às mudanças climáticas, que não geram retorno imediato, mas são fundamentais para o futuro e para a segurança hídrica da bacia do Rio das Velhas.
Em entrevista ao jornal O Tempo, em 16 de janeiro, a nova presidente da Copasa e ex-secretária estadual de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Marília Carvalho de Melo, disse que a companhia pretende revisar os contratos com as prefeituras antes da venda e que, para tal, a empresa abriu um canal de diálogo com os administradores municipais.
Marília disse também que o modelo de privatização ainda está em estudo e que três consultorias foram contratadas — jurídica, financeira e de gestão — para definir o formato mais adequado. Sobre a participação do Estado após a privatização, em 29 de janeiro o Conselho de Administração da Copasa aprovou a proposta de alteração do estatuto social para criação de uma golden share, ação especial de titularidade do governo de Minas, que prevê poderes de veto em decisões estratégicas da companhia mesmo após a perda do controle acionário.
Durante a entrevista, Marília Melo também frisou que a privatização não deve impactar de forma significativa a tarifa. “A gente acredita que esse modelo não terá grandes impactos no futuro”, disse, lembrando que a composição tarifária depende dos investimentos e que a Copasa prevê investir R$ 21 bilhões até 2030. “A Copasa investiu R$ 2,5 bilhões no ano passado e para este ano a nossa previsão é de R$ 3 bilhões”, afirmou.
Procurada pela reportagem, a Copasa, por meio de sua assessoria de imprensa, esclareceu que a localidade de Maquiné não integra o contrato de programa firmado entre a companhia e Sabará, razão pela qual não está incluída no escopo de atendimento da concessão.
A empresa também informou que o município está inserido em um amplo projeto de ampliação do Sistema de Esgotamento Sanitário, com reversão dos efluentes para a Estação de Tratamento de Esgoto Arrudas. As obras envolvem redes coletoras, interceptores, linhas de recalque e estações elevatórias. A segunda etapa, iniciada em 2020, teve investimento de R$ 10,3 milhões. A terceira, iniciada em 2022, soma cerca de R$ 72,4 milhões, com mais de R$ 50 milhões já executados.
O avanço dessas obras — e a garantia de sua conclusão — é um exemplo concreto do que está em jogo quando se discute a mudança no controle da empresa responsável pelo saneamento. Para o presidente do CBH Rio das Velhas, Valter Vilela, sanitarista e ex-funcionário da Copasa, os desafios são grandes. “Creio que com a privatização haverá riscos e desafios que deverão ser avaliados e minimizados com contrato de concessão bem estruturado, regulação forte e transparência”, afirma.
Na bacia que abastece milhões de pessoas, a disputa não é apenas sobre modelos de gestão, mas sobre prioridades. “Garantir água distribuída e tratada e esgotos coletados e tratados adequadamente, a toda população, é uma obrigação legal e moral do Estado”, conclui Vilela. Em Sabará — e em dezenas de municípios do Velhas — essa obrigação segue em aberto, à espera das próximas decisões.
Marília Carvalho de Melo afirma que o modelo de privatização está em estudo e que contratos com municípios poderão ser revisados antes da venda.




Entre quintais, matas e concreto, histórias de cuidado revelam como as nascentes urbanas seguem vivas e apontam caminhos para o futuro da gestão das águas na bacia
Texto: Luiza Baggio
No bairro Eldorado, em Contagem, há um lugar onde o tempo parece correr no ritmo da água. Em meio ao crescimento urbano, Israel Paulo da Silva, de 64 anos, aprendeu desde cedo que nascente não é paisagem: é responsabilidade. “Minha mãe falava que água a gente não cria, a gente protege. Se não cuidar, ela vai embora”, conta.
Israel mora com cinco irmãos em um terreno de aproximadamente 5 mil metros quadrados, herdado da família. O espaço abriga mais de 20 nascentes ativas, espalhadas entre árvores, trilhas improvisadas e áreas de mata que resistem à cidade ao redor. “Aqui sempre teve água. Mesmo quando tudo em volta foi mudando, a gente fez questão de não mexer onde tem nascente”, explica.
Uma dessas nascentes é a AR017, localizada na sub-bacia do córrego Ferrugem. Ela integra o Programa de Valorização de Nascentes Urbanas, iniciativa do CBH Rio das Velhas e dos Subcomitês Arrudas e Onça, que na década anterior reconheceu, mapeou e valorizou olhos d’água existentes em meio ao tecido urbano. Pelo excelente estado de conservação, a nascente se destaca: dela brotam cerca de 50 mililitros de água por minuto, de forma contínua e limpa.
“Eu não fiz nada demais. Só não deixei destruir. A água sabe agradecer”, diz Israel. O cuidado cotidiano envolve manter a vegetação, observar o fluxo da água e impedir intervenções indevidas. Uma de suas irmãs divide com ele essa rotina. “A gente faz porque acredita. Se cada um cuidasse do pedacinho que tem, muita nascente não teria acabado”, reflete.
Na propriedade, o cuidado com a água caminha junto com o trabalho na terra. Israel mantém cerca de 300 bananeiras, 15 aceroleiras, seis abacateiros e cinco mangueiras, de onde tira o sustento da família e os recursos necessários para manter as nascentes protegidas. “É da terra que vem tudo: o alimento, o dinheiro e a condição de continuar cuidando da água”, resume.
A experiência vivida no quintal da família Silva ajuda a entender a lógica que orientou o Programa de Valorização de Nascentes Urbanas do CBH Rio das Velhas: reconhecer que, mesmo nas cidades, a água segue nascendo — e que sua proteção depende tanto de políticas públicas quanto do envolvimento direto das pessoas que vivem nos territórios.


Desenvolvido em diferentes etapas, o Programa de Valorização de Nascentes Urbanas promoveu diagnósticos, mapeamentos e intervenções nas sub-bacias dos Ribeirões Arrudas e Onça, áreas historicamente pressionadas pela urbanização.
Na primeira fase, os trabalhos se concentraram na identificação e caracterização de nascentes urbanas, revelando centenas de olhos d’água até então desconhecidos ou invisibilizados pelo crescimento da cidade. Essas nascentes, muitas vezes localizadas em fundos de lote, áreas públicas ou fragmentos de mata urbana, passaram a integrar um banco de informações técnicas fundamental para a gestão da bacia.
A segunda fase, executada entre 2016 e 2017, aprofundou esse diagnóstico, ampliando o número de nascentes identificadas e avançando para ações de recuperação ambiental, proteção física e mobilização comunitária. Em 2022, também foram incluídas no programa intervenções em fundos de vale, uma outra forma de permitir a apropriação de espaços e promover melhorias da qualidade dos cursos d’água urbanos.

Ao longo desse processo, o CBH Rio das Velhas consolidou um aprendizado central: as nascentes urbanas só se mantêm vivas quando há continuidade, acompanhamento técnico e diálogo com os cuidadores locais — moradores que, como Israel, já exerciam esse papel antes mesmo da chegada dos projetos.
Esse entendimento segue orientando as ações do Comitê. Mais recentemente, o Subcomitê Ribeirão Arrudas tem promovido visitas técnicas e retomado o contato com cuidadores das nascentes atendidas nas fases anteriores, avaliando resultados e fortalecendo os vínculos construídos ao longo do tempo.

É a partir dessa trajetória — construída entre quintais, fundos de vale e políticas públicas — que o CBH Rio das Velhas avança para uma nova etapa com o lançamento do Programa de Mananciais e Nascentes Urbanas (PMNU). A iniciativa amplia o olhar sobre a água nas cidades, integrando a recuperação de nascentes à proteção de áreas estratégicas de mananciais urbanos.
Em 2025, o PMNU selecionou quatro propostas que refletem diferentes realidades territoriais e arranjos institucionais, envolvendo tanto organizações da sociedade civil quanto o poder público municipal. O programa já está em fase de estruturação técnica pela Agência Peixe Vivo com a elaboração de Termos de Referência que nortearão a contratação de empresa para elaboração dos projetos, nas quatro localidades selecionadas.
As propostas selecionadas pelo PMNU são: (1) Lagoa Santo Antônio, localizada em Pedro Leopoldo, apresentada pela Associação Movimento Lagoa Viva – SOS Lagoa de Santo Antônio; (2) Córrego das Nascentes, afluente do Córrego Bom Jesus, na altura do Parque Amendoeiras, apresentada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Contagem; (3) Parque do Conjunto Lagoa, apresentada pela Secretaria Municipal de Política Urbana da Prefeitura de Belo Horizonte e (4) nascente da Vila Santo Antônio/Barroquinha, apresentada pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente da Prefeitura de Belo Horizonte.
Mais do que novos projetos, o PMNU representa a continuidade de uma visão: reconhecer que a água urbana nasce pequena, muitas vezes escondida, mas ganha força quando encontra cuidado, política pública e participação social. Assim como a nascente cuidada por Israel, o futuro da bacia do Rio das Velhas começa onde a água brota — e onde alguém escolhe protegê-la.
Lagoa de Santo Antônio, em Pedro Leopoldo, é uma área de grande importância ambiental na bacia, marcada pela biodiversidade e pela mobilização comunitária em sua proteção.


Se as histórias de cuidadores como Israel mostram que a proteção da água começa em gestos cotidianos, o PMNU amplia esse cuidado para uma escala territorial. A seleção das propostas marca a convergência entre experiência local, conhecimento técnico e articulação institucional, conectando diferentes realidades urbanas em torno de um objetivo comum: recuperar áreas estratégicas de água e fortalecer a resiliência hídrica da bacia do Rio das Velhas.
Para Márcia Lopes, da ONG Movimento Lagoa Viva, o reconhecimento do projeto voltado à Lagoa de Santo Antônio simboliza anos de mobilização e diálogo com a comunidade. “A gente ficou muito satisfeita com o resultado. É um reconhecimento de uma luta antiga e da importância desse território para toda a bacia do Rio das Velhas”, afirma.
Segundo ela, a Lagoa de Santo Antônio, em Pedro Leopoldo, é um manancial diretamente interligado ao Rio das Velhas e cumpre papel fundamental como ecossistema estratégico. “É uma área úmida de grande relevância ambiental, por onde passam várias aves migratórias, e que está inserida na Área de Proteção Ambiental Carste de Lagoa Santa”, destaca.
Também finalista do Programa de Mananciais e Nascentes Urbanas, a Prefeitura de Belo Horizonte apresentou, por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, uma proposta voltada à recuperação ambiental de uma área de nascente difusa — caracterizada como brejo — localizada na Vila Barroquinha, no bairro Serrano. A área integra a sub-bacia do córrego Ressaca, na bacia do Ribeirão Onça, e é conhecida localmente como Vila Santo Antônio/Barroquinha.

Para Caroline Craveiro, Gerente de Recursos Hídricos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Belo Horizonte, o resultado do PMNU foi recebido com satisfação e senso de responsabilidade. “Ficamos muito satisfeitos em sermos finalistas. É um reconhecimento do trabalho técnico da equipe e da relevância ambiental da área escolhida”, afirma.
A proposta apresentada ao PMNU prevê a recomposição da cobertura vegetal com espécies nativas, o manejo de espécies invasoras, a implantação de sinalização ambiental e a avaliação da necessidade de estruturas para controle de processos erosivos. Para Caroline, que integra os Subcomitês dos Ribeirões Arrudas, Onça e Caeté-Sabará, a intervenção também tem um papel simbólico e social. “Recuperar esse brejo urbano é valorizar o território, reduzir riscos ambientais e fortalecer o vínculo da comunidade com a área. É uma ação que deixa legado”, conclui.
Assim, do cuidado silencioso nos quintais urbanos às ações estruturantes em áreas estratégicas, o CBH Rio das Velhas reafirma uma visão integrada de gestão das águas, na qual cada nascente e cada manancial têm papel essencial no caminho da água até o Rio das Velhas.
Márcia Lopes e Caroline Craveiro representam diferentes frentes de atuação - sociedade civil e poder público - unidas na proteção de nascentes e mananciais urbanos.



Uma jornada de motorhome, mais de 3 mil quilômetros pelo Brasil e o desafio de aproximar a agenda
climática global da realidade dos territórios
Por: Luiz Ribeiro
A crise climática é frequentemente debatida em fóruns internacionais, mas seus impactos se materializam no cotidiano das cidades e das comunidades. Para reduzir essa distância entre o discurso global e a vida real, Sergio Myssior e Thiago Metzker decidiram transformar o deslocamento até a COP-30, em 2025, em uma jornada de escuta e observação pelos territórios brasileiros.
Partindo de Belo Horizonte em um motorhome, a expedição percorreu mais de 3 mil quilômetros e atravessou quatro biomas — Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Amazônia. Ao longo do trajeto, a equipe do Instituto Bem Ambiental (IBAM) registrou tanto os impactos já visíveis das mudanças climáticas quanto iniciativas locais de adaptação e resiliência urbana.
A viagem funcionou como um estúdio itinerante e, sobretudo, como um espaço de diálogo. Em cada cidade, comunidades, gestores públicos e organizações da sociedade civil compartilharam experiências concretas sobre enchentes, escassez hídrica, ondas de calor e estratégias para enfrentar esses desafios a partir da escala local.
Nesta entrevista conjunta, a Revista Velhas reúne, pela primeira vez, dois entrevistados em um mesmo percurso de perguntas e respostas. Ao longo da conversa, eles refletem sobre governança, ciência, justiça climática e financiamento — e encerram o diálogo com uma provocação mútua, como extensão natural da jornada compartilhada.

REVISTA VELHAS: Sergio, na sua visão, qual foi a principal diferença entre o que se discutiu na COP-30 sobre cidades resilientes e a realidade urbana que vocês encontraram na viagem, incluindo cidades da bacia do Rio das Velhas?
SERGIO MYSSIOR: Talvez o que mais chame atenção seja justamente um distanciamento, ou até um descolamento, entre a política global de mudanças climáticas e aquilo que de fato acontece no território, na escala local. Sendo mais específico: a agenda das mudanças climáticas, no âmbito da diplomacia global, tem se concentrado muito na mitigação dos gases de efeito estufa, ou seja, na substituição de fontes sujas por fontes limpas, na redução e eliminação gradual das emissões. Enquanto isso, os territórios já convivem diariamente com os impactos das mudanças climáticas: enchentes, inundações, vetores de doenças como dengue e chikungunya, secas extremas, ilhas de calor, deslizamentos de terra, entre tantos outros efeitos já bastante perceptíveis. E quando esses impactos atingem territórios marcados por profundas desigualdades sociais, espaciais e econômicas, eles se tornam ainda mais agudos. Durante essa jornada, percebemos que os municípios não apenas lidam com esses impactos, como também desenvolvem ações concretas de enfrentamento e, sobretudo, de adaptação às mudanças climáticas — seja por meio de recursos públicos, seja, principalmente, pelo engajamento da sociedade civil, que, mesmo com recursos limitados, tem conseguido se adaptar a esse novo cenário.
REVISTA VELHAS: Muitas vezes, dados científicos sobre mudanças climáticas permanecem distantes da realidade das pessoas. Como a ciência pode se comunicar de maneira mais efetiva com gestores e cidadãos locais para incentivar ações concretas?
THIAGO METZKER: O desafio é traduzir os dados científicos e levá-los para uma escala menor, local. O IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] trabalha com uma base de dados global, e essa tradução não é simples. Por isso, cabe também a nós, e a instituições como o CBH Rio das Velhas, que já têm uma trajetória importante na área de comunicação, fazer aquilo que costumamos chamar de “tradução da sopa de letrinhas climáticas”.
O esforço é explicar o que significa, na prática, um aquecimento médio de 1,5 °C. O que isso representa para quem anda de ônibus, para o trabalhador, para o cidadão urbano. Quantos dias a mais de calor extremo no ano isso implica? O que significa se preparar para períodos de escassez hídrica ou para uma chuva de 100 mm em um único dia, quando a cidade ou a zona rural não estão preparadas? Essas mudanças afetam também o calendário agrícola, a época de plantio e colheita, o manejo de pragas e o avanço de doenças tropicais como dengue e chikungunya, que tendem a se expandir com o aquecimento global.
A ciência precisa se aproximar das pessoas e humanizar os dados climáticos, conectando-os ao dia a dia. Os eventos extremos já estão acontecendo. Temos visto cidades devastadas por tornados e fenômenos antes considerados raros no Brasil, algo que a ciência alerta há décadas. Além disso, é fundamental investir em sistemas de monitoramento integrados e acessíveis à sociedade civil. Precisamos também de alertas confiáveis e orientações práticas para a população: o que fazer, para onde ir, como agir. É nesse ponto que a ciência precisa estar conectada à vida real.
REVISTA VELHAS: Diante dos desafios que observou nas cidades brasileiras, que tipo de intervenção urbana ou medida de planejamento você considera mais urgente para aumentar a resiliência da nossa região, especialmente diante de eventos extremos como enchentes e ondas de calor?
SERGIO MYSSIOR: Acredito que seja fundamental adotar uma nova abordagem fundamentada em Soluções Baseadas na Natureza e em infraestrutura verde, que se somem à infraestrutura convencional — a chamada infraestrutura cinza. Essa orientação mais naturalística dialoga diretamente com o recorte territorial das bacias hidrográficas, que ultrapassam os limites político-administrativos dos municípios e exigem uma abordagem estratégica integrada, com a dimensão socioambiental como eixo central.
Traduzindo isso para o cotidiano dos territórios, já existem instrumentos amplamente conhecidos, no Brasil e fora dele, que podem ser aplicados de forma imediata para aumentar a resiliência urbana. Soluções distribuídas, como jardins de chuva, valetas de infiltração e sistemas naturalísticos para o manejo de chuvas intensas, são exemplos concretos.
É essencial adotar um diálogo transversal com a questão socioambiental, reconhecendo o recurso hídrico como elemento estruturante do território — tanto para o abastecimento quanto para a proteção ambiental, por meio de APPs [Áreas de Preservação Permanente], recuperação de matas ciliares e áreas degradadas. Essa abordagem não deve ser vista como algo acessório, mas como uma diretriz estratégica central, associada a processos de cocriação, engajamento e fortalecimento dos espaços colaborativos, com protagonismo da sociedade civil.
Nesse sentido, a agenda das mudanças climáticas tem muito a aprender com a política de recursos hídricos, especialmente com a experiência dos comitês de bacia, que já trabalham há décadas com participação social, governança compartilhada e ações que reverberam positivamente no território.

REVISTA VELHAS: A COP-30 destacou a importância de que os recursos cheguem a todos os territórios. Como podemos garantir que iniciativas de adaptação local na bacia do Rio das Velhas contemplem de forma justa diferentes comunidades, inclusive as mais vulneráveis?
THIAGO METZKER: A primeira questão é o mapeamento das comunidades e de suas vulnerabilidades. É fundamental identificar onde elas estão e qual é o grau de exposição a diferentes riscos: geológicos, inundações, ondas de calor, entre outros. Esse diagnóstico precisa ser feito na escala local. O segundo ponto é compreender que os grupos mais vulneráveis devem ser prioritários, a partir do conceito de justiça climática. São populações que pouco contribuíram para o aumento das emissões de gases de efeito estufa e, ainda assim, são as mais impactadas pelas mudanças climáticas. Sua pegada de carbono é mínima, mas os efeitos recaem de forma desproporcional sobre seus modos de vida. Por isso, esses grupos já são considerados prioritários na diplomacia climática internacional, especialmente quando se encontram em situação de vulnerabilidade avançada.
A partir dessa experiência, entendo que não podemos esperar exclusivamente por iniciativas vindas do “chapéu climático global”. No caso da bacia do Rio das Velhas, existe uma oportunidade especial, pois já há um histórico de governança consolidada e capilarizada. As soluções, muitas vezes, são muito mais simples do que os grandes projetos globais. Quando se constrói um processo participativo, cocriativo, devidamente mapeado, com base em Soluções Baseadas na Natureza (SbN), o projeto nasce alinhado à realidade local, bem dimensionado e apoiado por uma governança que já existe, como a do CBH Velhas.

Registro em vídeo marca a escuta e a sistematização das experiências ao longo da expedição.
THIAGO METZKER: Sergio, dentro de toda essa jornada que a gente fez, vimos bons exemplos com potencial de escalabilidade. Se você tivesse que destacar uma região, um território ou uma iniciativa dessa jornada como um grande piloto ou laboratório de resiliência urbana e territorial, qual escolheria?
SERGIO MYSSIOR: Essa é uma pergunta difícil, porque foram muitas experiências relevantes. Mesmo em apenas dez dias de jornada até Belém (PA), conseguimos mergulhar em inúmeros projetos e ações que já estão em andamento. Iniciativas como os Jovens Curvelanos pelo Clima, os laboratórios de inovação que conhecemos em Palmas (TO), entre tantas outras, já demonstram grande capacidade de promover transformações nos campos ambiental, fundiário, habitacional e de mobilidade.
Diante de tanta diversidade, fica difícil escolher uma única iniciativa. Por isso, o principal destaque que eu faria é o próprio processo da jornada, um processo extremamente pedagógico.
A expedição nos permitiu mergulhar nos territórios, escutar as vozes das comunidades e conhecer de perto o que já está sendo feito para enfrentar os impactos climáticos. Percorrer os territórios, ouvir as pessoas e colocá-las no centro das soluções foi, para mim, o principal aprendizado dessa jornada.


Entre negociações, encontros e trocas, COP-30 conectou diferentes realidades na construção de respostas globais para o clima.
SERGIO MYSSIOR: Thiago, você destacou a importância do acesso aos recursos. Embora esses recursos ainda sejam insuficientes frente à magnitude dos desafios climáticos, o acesso a eles continua sendo um grande obstáculo, sobretudo no nível local. Como podemos construir uma espécie de trilha da resiliência até que esses recursos cheguem e sejam aplicados em projetos orientados por infraestrutura verde e soluções baseadas na natureza?
THIAGO METZKER: Uma das grandes oportunidades para acessar o financiamento em escala local está no compartilhamento de experiências. Há territórios e cidades que já acessaram esses recursos e acumulam aprendizados valiosos. Quando organizamos isso em uma rede — como a Rede Brasileira de Cidades e Territórios Resilientes — conseguimos construir essa trilha da resiliência de forma muito mais objetiva e prática. Tudo começa com o processo de cocriação, a partir do mapeamento local e da construção coletiva das demandas do território. A rede ajuda a estruturar essas informações, utilizando metodologias participativas adaptadas à realidade local. Em seguida, esse material é traduzido para a linguagem do capital por especialistas que já têm experiência nesse tipo de financiamento ou que estão em processo de capacitação.
Após a estruturação e a captação, a rede também permite o monitoramento coletivo dos projetos, compartilhando aprendizados sobre o que funcionou e o que precisa ser ajustado, favorecendo a escalabilidade das soluções. Não temos mais tempo a perder. A urgência climática é agora. Os recursos precisam chegar no tempo certo, vir dos fundos adequados e evitar processos de endividamento que comprometam territórios já vulneráveis.

A presença de povos indígenas na COP-30 reforçou o papel central desses territórios na proteção ambiental e no enfrentamento da crise climática.

Entre metáfora e realidade, o calor extremo aproxima Belo Horizonte de cenários climáticos mais áridos e evidencia os efeitos da crise climática na cidade.

Em apenas 25 anos, Belo Horizonte registrou um aumento de 3 °C em sua temperatura média, confirmando que a crise climática já se impõe no presente
Texto: João Alves
Domingo. Meio-dia. O sol quente invade com força, sem nenhuma sutileza, os cruzamentos da Avenida Afonso Pena. A via principal, que até o início dos anos 1960 era coberta por um corredor verde de mais de 350 fícus (Ficus benjamina), hoje absorve e devolve as altas temperaturas do asfalto. Entre a luz intensa do céu e a quentura amarga do chão, uma feira de artes, artesanato e produtores mineiros, a Feira Hippie, se espalha em centenas de barracas. A população belo-horizontina, ofegante e exaurida, ao visitar a atração turística, repete quase em coro: “Tá calor demais da conta, sô”.
E não é por acaso. Desde a virada do milênio, com a chegada dos anos 2000 e o início do século XXI, Belo Horizonte registrou um aumento de cerca de 3 °C em sua temperatura média anual, que alcançou 24,5 °C em 2024. Os dados são do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Portanto, sim, a capital mineira está mais quente e batendo recordes. De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), 2023 foi o ano mais quente já registrado em Belo Horizonte. Essas medições condizem com um cenário mais amplo de elevação da temperatura média anual no Brasil, que posiciona 2023, 2024 e 2025 entre os anos mais quentes da série histórica recente. Em escala global, o Brasil ocupou a terceira posição entre os países mais quentes em 2025.
Se na música “BH é o Texas”, do MC Papo, a comparação é cultural, hoje ela se torna climática. Não é metáfora: o calor extremo aproxima Belo Horizonte do clima associado ao Texas e evidencia que a crise climática já faz parte do cotidiano da capital.
Cabeceiras que abastecem Belo Horizonte enfrentam degradação ambiental e redução da disponibilidade hídrica.

O calor que se impõe sobre a capital mineira, assim como sobre o Brasil e o restante do mundo, não é um evento isolado, tampouco fruto de um único fenômeno. Ele resulta de processos distintos, naturais e intensificados pela ação humana, frequentemente simplificados ou distorcidos quando chegam ao debate público. Não por acaso, à medida que a temperatura média avançou de forma acelerada nos últimos 25 anos, os conceitos e as discussões sobre o clima também se multiplicaram e se tornaram mais complexos.
Se você faz parte da Geração Y, também conhecida como millennials, nascidos entre 1980 e 1996, é provável que termos como ‘buraco na camada de ozônio’ e ‘efeito estufa’ tenham marcado o seu aprendizado escolar. Já para quem frequentou as aulas escolares após os anos 2000, expressões como mudanças climáticas e emergência climática passaram a ocupar com mais frequência as conversas cotidianas, acompanhadas de novas abordagens e questionamentos.
Mas, afinal, tudo isso é a mesma coisa? Não. Embora distintos, esses conceitos estão diretamente conectados. De forma simplificada, o efeito estufa é um fenômeno natural, essencial para a manutenção da vida na Terra, mas que passou a ser intensificado pela ação humana, especialmente pela poluição e pela emissão de gases. Esse desequilíbrio impulsiona o aquecimento global, caracterizado pelo aumento gradual da temperatura média do planeta. As mudanças climáticas são a manifestação mais ampla desse processo, traduzidas em alterações nos regimes de chuva, nas estações do ano, na frequência de eventos extremos e no funcionamento dos ecossistemas. Já a emergência climática reconhece que esses impactos deixaram de ser projeções futuras e passaram a afetar, de maneira imediata, o cotidiano das populações, como o calor que hoje se impõe sobre as ruas de Belo Horizonte ou as enchentes recentes no sul do Brasil.
Assim, de geração em geração, as conversas associadas ao aquecimento global ganharam novos contornos, aprofundando conceitos e deslocando o debate do futuro para um presente cada vez mais urgente.
Engenheiro de Energia e especialista em Geoprocessamento e Análise Espacial, Victor Gonçalves atua com mudanças climáticas no Brasil e na América Latina, acompanhando de perto a formulação de planos, diagnósticos e estratégias de adaptação e mitigação para governos e empresas. Para ele, reconhecer oficialmente a emergência climática está longe de ser apenas um gesto simbólico. “A emergência climática não é um problema de uma cidade isolada, estamos falando de mudanças nos padrões de temperatura e precipitação no mundo inteiro”, afirma. Nesse contexto, o reconhecimento formal insere estados e municípios em uma lógica de ação coletiva, alinhada tanto às metas nacionais e internacionais, como as NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas / Acordo de Paris), quanto aos planos de descarbonização já em curso.
Na prática, tratar o clima como prioridade transversal altera profundamente a forma de planejar, investir e governar. Segundo Victor, essa abordagem rompe com a lógica setorial e faz com que o tema climático atravesse todos os setores da administração pública. “Você transforma o clima numa pauta que orienta orçamento, qualifica projetos e incorpora riscos climáticos ao planejamento urbano”, explica. Esse movimento amplia a capacidade das cidades de se prepararem para eventos extremos e fortalece estruturas de governança capazes de atrair financiamentos, já que bancos e investidores passaram a considerar a adaptação e a resiliência critérios centrais para novos aportes. “Sem essa lente climática, o planejamento deixa de dialogar com os desafios que já estão postos e com aqueles que ainda virão”, resume.
Victor Gonçalves reconhece que ainda existe uma distância entre o diagnóstico climático e a implementação de ações concretas no Brasil, embora esse intervalo venha diminuindo, especialmente nas grandes cidades. “Muitos municípios já avançaram em inventários de emissões, análises de risco climático e planos de descarbonização e adaptação, o que faz com que saiam na frente”, observa. No entanto, transformar esses diagnósticos em políticas públicas efetivas exige condições que ainda estão em construção, como orçamento adequado, uma carteira de projetos maduros e maior domínio técnico sobre possibilidades mais recentes, incluindo as chamadas Soluções Baseadas na Natureza.

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climática é passo essencial para orientar políticas públicas e decisões estratégicas.
Outro desafio, segundo o especialista, é incorporar os dados climáticos ao planejamento urbano e sustentar agendas de longo prazo em meio às gestões políticas. “As soluções climáticas redesenham a forma como a gente vive na cidade, e isso não é algo que se resolve no curto prazo”, afirma. Para ele, o risco é que estudos e diagnósticos acabem restritos ao papel. “Essas informações precisam orientar decisões reais, atualizar instrumentos normativos e direcionar investimentos. Caso contrário, a cidade até conhece seus riscos, mas continua tomando decisões como se eles não existissem.”
Ao projetar as próximas décadas, Victor aponta como principal preocupação a sobreposição entre os impactos climáticos e problemas urbanos históricos ainda não resolvidos. “Quando você soma os impactos climáticos a esses problemas estruturais, os efeitos tendem a ser muito mais graves e desiguais”, alerta. Essa combinação aprofunda vulnerabilidades e amplia desigualdades, atingindo com mais força as populações com menor acesso a serviços e recursos. “Minha maior preocupação é adicionar mais um desafio a algo que a gente já não está dando conta de resolver”, conclui.

Belo Horizonte enfrenta eventos extremos cada vez mais frequentes, como chuvas intensas que provocam alagamentos e transtornos urbanos.

O que antes era tratado como possibilidade ganhou contornos de certeza. As mudanças climáticas já se impõem como uma realidade concreta e exigem que as ações de mitigação e adaptação avancem do discurso para a prática. É nesse contexto que o CBH Rio das Velhas passou a integrar, no fim do ano passado, o Comitê Municipal sobre Mudanças Climáticas de Belo Horizonte, o Comclima-BH, instância responsável por coordenar políticas públicas de sustentabilidade e enfrentamento aos efeitos do aquecimento global na capital mineira.
Para a secretária-adjunta do CBH Rio das Velhas, Poliana Valgas, a participação do colegiado fortalece a abordagem integrada da crise climática, especialmente no que diz respeito à água. “O CBH Rio das Velhas pode integrar seu plano de recursos hídricos ao plano climático de BH, oferecendo dados e estudos para qualificar decisões. Também pode financiar adaptação — recuperação de nascentes, APPs e sub-bacias — com recursos da cobrança pelo uso da água, em uma experiência acumulada ao longo de anos. Soma-se o histórico em educação ambiental e mobilização social, essenciais no enfrentamento da crise climática”, afirma.
No âmbito do município, as discussões ganharam respaldo orçamentário com a tramitação do Projeto de Lei (PL) nº 401/2025, na Câmara Municipal de Belo Horizonte. A proposta prevê a contratação de até R$ 500 milhões junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar ações de enfrentamento às mudanças e emergências climáticas, por meio do programa BH Resiliente. Entre as iniciativas previstas estão obras de captação de água na rotatória do bairro Calafate, revitalização de parques urbanos, o projeto ambiental e urbanístico Desconcreta BH, ampliação da arborização urbana e implantação de corredores verdes, além da requalificação de vilas e favelas com infraestrutura verde.

A expansão urbana e a redução de áreas verdes contribuem para o aumento das temperaturas e a intensificação das ilhas de calor em Belo Horizonte.
O pacote inclui ainda projetos de redução de resíduos e ampliação da coleta seletiva, revegetação de florestas nativas, intervenções viárias com foco na diminuição das emissões de carbono, ações de comunicação e letramento climático e investimentos em infraestrutura e equipamentos para unidades de saúde e educação. O conjunto de medidas busca inserir a resposta à crise climática no núcleo das políticas públicas da capital, articulando adaptação, mitigação e justiça socioambiental.
A participação do CBH Rio das Velhas no Comclima-BH fortalece a integração entre a gestão dos recursos hídricos e a agenda climática municipal, amplia a capacidade de planejamento conjunto e reforça a percepção de que os desafios ambientais que já impactam Belo Horizonte exigem respostas coordenadas, permanentes e estruturantes. Afinal, frases que hoje ecoam pelas ruas, como ‘BH tá quente demais’ ou ‘Tá calor demais da conta, sô’, já não podem ser tratadas como mera força de expressão

Ações de recuperação de nascentes, APPs e sub-bacias podem ser viabilizadas pelo CBH Rio das Velhas com recursos da cobrança pelo uso da água.


Entre ocupações urbanas e cursos d’água invisibilizados, a paisagem de Belo Horizonte revela os desafios históricos de reconectar cidade e água.



(Fernando Pessoa)
Na ribeira deste rio
Ou na ribeira daquele
Passam meus dias a fio.
Nada me impede, me impele,
Me dá calor ou dá frio.
Vou vendo o que o rio faz
Quando o rio não faz nada.
Vejo os rastros que ele traz, Numa sequência arrastada,
Do que ficou para trás.
Vou vendo e vou meditando,
Não bem no rio que passa
Mas só no que estou pensando,
Porque o bem dele é que faça
Eu não ver que vai passando.
Vou na ribeira do rio
Que está aqui ou ali,
E do seu curso me fio,
Porque, se o vi ou não vi.
Ele passa e eu confio.
“Na ribeira deste rio” é um poema de Fernando Pessoa escrito em 1933, no qual o poeta reflete, com imagens simples e meditativas, sobre o fluxo do tempo e da vida à beira de um rio. O verso foi posteriormente musicado no Brasil e interpretado por artistas como Dorival Caymmi e Edu Lobo, aproximando a poesia de Pessoa ao universo da música popular brasileira..
Ilustração: Albino Papa 33

Águas claras e protegidas na bacia do Rio das Velhas, símbolo de um rio possível, guiado por metas de conservação e gestão participativa.
Com a aprovação do novo
Enquadramento para a bacia, o processo avança para a fase de implementação. O que muda nesse instrumento, quais são os próximos passos e de que forma as novas classificações impactam territórios estratégicos?
Texto: Arthur de Viveiros
Ao final de 2025, após mais de dois anos de intensos debates, consultas públicas e construção coletiva por todo o território, o Plenário do CBH Rio das Velhas aprovou o novo Enquadramento dos cursos d’água da bacia. A decisão representa o ápice de um processo amplamente democrático e marca uma das etapas mais importantes da gestão das águas da região.
Agora, o processo entra em uma nova fase. A proposta aprovada servirá como base para o Programa de Efetivação do Enquadramento, documento que reunirá ações, metas, prazos, responsáveis e fontes de financiamento necessários para colocar em prática — ao longo de um horizonte de 20 anos — aquilo que foi deliberado. Este produto vai atualizar o Enquadramento atualmente vigente, determinado pela Deliberação Normativa do Conselho Estadual de Política Ambiental (COPAM) nº 20, de 24 de junho de 1997.
Na sequência, o estudo completo será consolidado e submetido novamente à deliberação do CBH Rio das Velhas. Em seguida, a proposta final será encaminhada ao Conselho Estadual de Recursos Hídricos (CERH-MG) para homologação, momento em que o Enquadramento passará a vigorar oficialmente.
Em resumo, o Enquadramento — importante instrumento de gestão de recursos hídricos previsto na Lei Federal nº 9.433/1997 — visa assegurar uma qualidade da água compatível com os usos preponderantes, além de estabelecer objetivos de qualidade a serem alcançados por meio de metas progressivas, intermediárias e finalísticas.
Nesse contexto, a proposta, que contempla as 23 Unidades Territoriais Estratégicas (UTEs), alinha-se às principais demandas de cada território e traça horizontes vanguardistas e, ao mesmo tempo, factíveis, sobretudo quando o assunto é preservação e qualidade da água, sem desconsiderar os usos econômicos legalmente estabelecidos.

Valter Vilela, presidente do CBH Rio das Velhas, destaca a importância da construção participativa do novo Enquadramento para a gestão da bacia.
Isso porque, segundo levantamento realizado pela equipe da Agência Peixe Vivo, em uma área total de 27.871,15 km², 5,93% e 62,22% correspondem, respectivamente, a trechos enquadrados como Classe Especial e Classe 1 — as mais restritivas em termos de uso. No Enquadramento vigente desde 1997, para essa mesma área, os percentuais eram de 3,86% (Classe Especial) e 57,98% (Classe 1).
Para o vice-presidente do CBH Rio das Velhas, Ronald Guerra, o novo Enquadramento representa um avanço em relação às propostas anteriores. “Partimos de cenários mais conservadores e avançamos em direção a um panorama que valoriza a qualidade da água, com um Enquadramento mais adequado para toda a bacia do Rio das Velhas”, disse.
No caso das Classes 2 e 3, os percentuais passaram, respectivamente, de 35,70% e 2,47%, em 1997, para 31,81% e 0,04% na proposta aprovada pelo Plenário do Comitê. Por convenção, desde o primeiro Enquadramento aprovado, não há registro de corpos hídricos enquadrados como Classe 4 — a mais permissiva em termos de uso — na bacia do Rio das Velhas.
Vale destacar que este levantamento funciona como uma fotografia atual da proposta aprovada pelo Plenário, uma vez que a alternativa ainda será submetida à apreciação do CERH-MG.
Ao longo de todo o processo, o CBH Rio das Velhas promoveu reuniões com todos os seus Subcomitês, sete eventos públicos — entre consultas e audiências —, encontros com representantes de diferentes setores produtivos e diversas reuniões do Grupo de Acompanhamento Técnico (GAT) do Enquadramento.
O presidente do Comitê, Valter Vilela, que coordenou o GAT, destaca que esse caráter democrático contribuiu de forma significativa para o amadurecimento das discussões. “Trata-se de um processo com duração superior a dois anos, no qual foram ouvidos todos os Subcomitês e realizadas uma série de consultas e audiências públicas. Dessa forma, a participação foi ampla e o resultado final, bastante adequado”, completou.
Enquadramento de 1997

Classe Especial: 3,89%
Enquadramento de 2025
Classe Especial: 5,93%
Classe 1 57,98%
Classe 2
35,70%
Classe 1 62,21%
Classe 2
31,82%
LEGENDA
Classe Especial = Qualidade máxima; Preservação e usos sem alteração da água.
Classe 1 = Alta qualidade; Abastecimento simplificado e proteção da vida aquática.
Classe 2 = Qualidade intermediária; Abastecimento com tratamento convencional.
Classe 3 = Qualidade baixa; Exige tratamento avançado para abastecimento.
Classe 4 = Qualidade mínima; Apenas navegação e paisagem

A proposta, liderada pelo médico e ambientalista Apolo Heringer Lisboa, previa que o Epicentro da Meta 2034, situado entre Vespasiano e Santa Luzia, atingisse a Classe 2 em 20 anos. Porém, um trecho de 14 quilômetros, entre as Estações de Tratamento de Esgoto dos Ribeirões Onça e Arrudas e a foz, permanecerá como Classe 3. A decisão buscou compatibilizar a meta de qualidade com o processo de licenciamento da modernização da ETE Onça, conduzido pela Copasa.

Jardim Canadá
A expansão recente do bairro, situado nos arredores da Estação Ecológica de Fechos, outra UC de proteção integral de Nova Lima, também suscitou discussões ao longo do processo. Dentro dos limites da unidade, os corpos hídricos seguem enquadrados como Classe Especial. Já no caso de rios e córregos que não vertem para o interior da UC, a Classe 2 foi definida em virtude da existência de empreendimentos já licenciados.
3 2,47%

0%
menos proteção da bacia...
0,04%

Região de suma importância para a recarga hídrica de Belo Horizonte e Região Metropolitana, o Parque Nacional da Serra do Gandarela segue com seus cursos d’água enquadrados em Classe Especial - diretriz prevista em lei para Unidades de Conservação (UCs) de proteção integral. Agora, a nova proposta estende essa classificação também para os trechos fora dos limites do Parque, mas que vertem para seu interior
Como resultado dessa escuta ativa, uma das regiões que mais mobilizou discussões ao longo de todo o processo foi a Serra do Gandarela, especialmente os cursos d’água que vertem para o interior do Parque Nacional. A proposta aprovada considera que esses cursos, mesmo fora dos limites formais da unidade, terão Classe Especial, a mesma prevista em lei para Unidades de Conservação (UCs) de proteção integral.
A decisão foi amplamente elogiada por ambientalistas e considerada um avanço importante para a conservação. “Foi a maior vitória do Parque desde a sua criação, o que o eleva a sua importância enquanto Unidade de Conservação de proteção integral, criada para preservar e proteger a biodiversidade, o patrimônio natural, as nascentes, os aquíferos e os cursos d’água, responsáveis pelo abastecimento de água de milhões de pessoas”, celebrou a Gestora do Parque Nacional da Serra do Gandarela, Tatiana Pereira.
Outra área que suscitou debates ao longo do processo foi a região do Jardim Canadá. O bairro de Nova Lima consolidouse como um polo industrial e urbano em franca expansão, localizado nos arredores da Estação Ecológica de Fechos, outra UC de proteção integral.
Segundo a proposta aprovada, dentro dos limites da unidade, os corpos hídricos seguem enquadrados como Classe Especial — conforme determina a legislação. Já no caso de rios e córregos que não vertem para o interior da UC, a Classe 2 foi definida, uma vez que existem empreendimentos já estabelecidos e licenciados na região, como atividades minerárias e uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) que atende ao bairro.
Outro tema amplamente debatido foi o Epicentro da Meta 2034, área estratégica da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), situada entre Nova Lima e a foz do Ribeirão da Mata, nos municípios de Vespasiano e Santa Luzia. A proposta, liderada pelo médico e ambientalista Apolo Heringer Lisboa, previa que essa porção — que compreende as bacias de drenagem do Ribeirão da Mata e do Rio Itabirito — atingisse a Classe 2.
No entanto, um trecho de 14 quilômetros — entre as ETEs dos Ribeirões Onça e Arrudas e a foz — permanecerá como Classe 3. A decisão buscou compatibilizar a meta de qualidade com o processo de licenciamento da modernização da ETE Onça, conduzido pela Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), que implementará o tratamento terciário de esgotos. A expectativa é que essa modernização reduza significativamente a carga de fósforo lançada no rio, criando as condições necessárias para que o trecho atinja Classe 2 no futuro.
Ronald Guerra, vicepresidente do Comitê e representante da sociedade civil, ressalta que a nova classificação valoriza a qualidade da água sem desconsiderar os usos econômicos existentes.

“Existe uma meta de transição que envolverá grandes investimentos da Copasa para aprimorar o tratamento da ETE Onça. Essa meta visa superar as limitações no tratamento de fósforo e, no futuro, alcançar a classificação em Classe 2 para toda a extensão do rio”, destacou Ronald Guerra. Ele completou dizendo que a classificação adotada priorizou as necessidades do rio e que o processo está em consonância com a Meta 2034, que orienta os esforços de revitalização e universalização do saneamento.
Para o superintendente de Desenvolvimento Operacional e Inovação da Copasa, Nelson Cunha Guimarães, também conselheiro do CBH, a aprovação e o debate em plenário foram “um sucesso”, revelando o alto grau de comprometimento dos conselheiros. “Esta etapa é fundamental em um processo que ainda está em andamento e que, desde o início, buscou a transparência e a participação de todos os segmentos: poder público, usuários e sociedade civil”, afirmou.
A construção sólida e participativa do novo Enquadramento da bacia do Rio das Velhas levou o diretor-geral do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM), Marcelo da Fonseca, a elogiar o processo. “Todas as etapas foram conduzidas com total transparência e ampla participação social. Entre os Enquadramentos já realizados em Minas Gerais, este foi o que contou com o maior envolvimento da sociedade ao longo de todas as fases”, afirmou.
Fonseca ressaltou ainda que o resultado aprovado pelo plenário é fruto de um equilíbrio entre técnica, realismo e capacidade de implementação. “O Enquadramento não representa o rio idealizado, mas sim o rio possível, considerando suas características, limitações e o potencial de investimentos para a melhoria da bacia”, avaliou.


Do topo da Serra do Gandarela à foz do Ribeirão Onça, passando por trechos entre Sabará e Santa Luzia: territórios refletem o equilíbrio entre conservação, uso urbano e metas de qualidade da água definidas pelo novo Enquadramento.



Trilhas da Serra do Cabral revelam paisagens deslumbrantes e convidam o visitante a explorar a natureza, cultura e história da região.


Travessia de longo curso articula turismo, conservação ambiental e desenvolvimento regional na Serra do Cabral
Texto: João Alves
“Sabe que eu fui nascido e criado aqui na região, em Buenópolis. Aí, o meu jeito de ver as coisas e as pessoas lá de fora é esse: guiar elas pelas trilhas. Não tem valor nenhum que pague mexer com gente pra mim. E a gente vê de tudo no caminho. São trocas de ideias, risadas, histórias… e sabe de uma coisa? A pessoa vem carregada e volta leve. Isso é maravilhoso!”
Quem fala é Rogério Mendes, guia turístico da região de Buenópolis e Augusto de Minas. É ele quem, dia após dia, conversa, agenda, planeja e conduz visitantes pelas trilhas que cortam a serra. Mas Rogério é mais do que um guia: é um desses personagens raros que transformam o caminho em experiência e a paisagem em memória. Ao falar da admiração pelo que faz e, sobretudo, pelo lugar onde faz, desperta uma curiosidade quase imediata em quem escuta. O cenário dessa paixão é a Serra do Cabral, um território de beleza estonteante no Baixo Rio das Velhas, ainda fora da rota para a maioria dos turistas, onde a natureza se apresenta com história e encanto.
Com mais de 22 mil hectares e um maciço montanhoso que se estende por mais de 40 quilômetros de largura, a Serra do Cabral integra o Mosaico de Unidades de Conservação do Espinhaço, além de abrigar o Parque Estadual da Serra do Cabral. A imponência da paisagem salta aos olhos de quem passa por suas bordas, seja pela margem esquerda, seguindo pela BR 496 em direção a Várzea da Palma, seja pela margem direita, pela BR 135 rumo a Buenópolis. Em ambos os caminhos, é impossível não admirar a beleza.
Com veredas, campos naturais, pinturas rupestres históricas e o hipnotizante cerrado, a serra divide as bacias dos rios das Velhas e Jequitaí, que, apesar de nascerem separadas, mais adiante, se encontram como afluentes do Rio São Francisco. Ao descrever o que vê de perto, é possível entender o sentimento do guia Rogério: “sempre tem algo que é a coisa mais linda de se ver”.
Dona de uma beleza ímpar, a Serra do Cabral tem mobilizado moradores, guias, turismólogos e empreendedores locais em torno do fortalecimento do turismo na região. A articulação busca impulsionar a economia local e passa, inclusive, por uma iniciativa inédita: a implementação de uma travessia de longo curso que percorre a serra e valoriza seu território.
Criado para conectar as riquezas naturais da Serra do Cabral, valorizar a cultura local, promover a conservação ambiental e gerar emprego e renda, o Circuito Turístico Serra do Cabral reuniu, em 2023, parceiros, ciclistas, caminhantes e técnicos para tirar do papel uma trilha de longo curso, a TransCabral. A travessia percorre oito municípios do circuito, Augusto de Lima, Buenópolis, Francisco Dumont, Jequitaí, Joaquim Felício, Lassance, Monjolos e Várzea da Palma, conectando importantes unidades de conservação, como o Parque Estadual da Serra do Cabral, o Parque Nacional das Sempre-Vivas e as Áreas de Proteção Ambiental (APAs) da região.
Embora nos últimos anos tenha ganhado forma institucional, a TransCabral nasce de uma ideia mais antiga. “Já havia um debate no território sobre as travessias realizadas aqui na Serra do Cabral”, explica Maíra Lima, gestora do Circuito Turístico Serra do Cabral e conselheira do Subcomitê Rio Curimataí. Trilhas abertas pelo uso cotidiano, pela experiência e pela memória coletiva sempre existiram. O projeto organiza esses caminhos em uma proposta estruturada, com identidade regional e propósito compartilhado.
O foco é a integração regional por meio do turismo de natureza, tendo a serra como eixo central. “A gente discutiu um projeto voltado para o desenvolvimento turístico regional, considerando esse elemento icônico que é a Serra do Cabral”, afirma Maíra. A travessia conecta os oito municípios do circuito, valorizando atividades ao ar livre, a cultura sertaneja e o patrimônio histórico, paisagístico e ambiental do território.
Mapeamento preliminar
Trecho 1 - Augusto de Lima - Lassance
Trecho 2 - Lassance - Várzea da Palma
Trecho 3 - Várzea da Palma - Jequitaí
Trecho 4 - Jequitaí - Francisco Dumont
Trecho 5 - Francisco Dumont - Joaquim Felício
Trecho 6 - Joaquim Felício - Buenópolis
Trecho 7 - Buenópolis - Augusto de Lima
Trecho 8 - Augusto de Lima - Monjolos
Parque Nacional das Sempre Vivas
Parque Estadual da Serra do Cabral
Atualmente, o projeto entra na etapa de mapeamento e consolidação dos trechos mais viáveis, considerando critérios técnicos, paisagísticos e ambientais. “Nós fizemos etapas de mapeamento para definir os trechos mais interessantes e adequados do ponto de vista ambiental”, explica Maíra. Com recursos da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (CODEMIG), por meio da Federação dos Circuitos Turísticos de Minas Gerais (FECITUR) e da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (SECULT), o circuito avança para etapas como a implantação da sinalização e a reorganização da estrutura de governança, contando com a participação da iniciativa privada e de atores locais.
Na Serra do Cabral, turismo e água se relacionam diretamente. Veredas, nascentes e cursos d’água moldam a paisagem e sustentam a biodiversidade e as comunidades locais. “Quando a gente fala de turismo aqui na Serra do Cabral, não tem como dissociar os nossos atrativos naturais das águas”, afirma Maíra. A travessia cruza um território divisor de importantes bacias hidrográficas, onde a qualidade e a quantidade de água influenciam as atividades humanas e turísticas.”

PONTOS DE REFERÊNCIAS
A - Vila de Forteiras
B - Pinturas Rupestres e Cataratas
C - Fazenda da Corrente
D - Cachoeira das Andorinhas
E - Fazenda da Tapera
F - Cachoeira da Anta
G - Cachoeira Maria das Flores
H - Cachoeira das Palmeiras
I - Cachoeira João Correia
J - Curimatal
L - Cachoeira de Santa Rita
M - Santa Bárbara
N - Cachoeira do Telésforo



Nesse contexto, a presença dos Subcomitês da região do Baixo Velhas – Rio Curimataí, Guaicuí e Rio Bicudo – é parte do processo. “A gente precisa que os nossos atrativos naturais estejam em boas condições e conservados, para que as pessoas possam se beneficiar tanto das necessidades básicas quanto das atividades de lazer”, destaca Maíra.
O Circuito Turístico Serra do Cabral oferece passeios e vivências que articulam natureza, cultura e turismo de base local, como a trilha “Descobrindo o Cabral”, no Parque Estadual Serra do Cabral, a experiência “Flores da Serra”, em contato com os apanhadores de sempre-vivas em Joaquim Felício, além da visita à Cachoeira do Boqueirão. As atividades incluem ainda momentos de imersão em receptivos turísticos, interpretação ambiental e trocas com iniciativas locais, conectando o visitante ao território e às comunidades da região.
Nascida e criada em Buenópolis, Marina Pimenta deixou a cidade por alguns anos e morou em Belo Horizonte, onde teve experiências com outros empreendimentos antes de retornar ao município há cerca de dez anos. A volta aconteceu em um momento específico de vida e veio acompanhada do desejo de apoiar o trabalho da mãe, figura pioneira no início da atividade turística local. “Talvez a história do turismo tenha começado com a minha mãe, que há 25 anos acreditou no potencial da Serra do Cabral”, afirma. Em um período em que Buenópolis ficou sem nenhuma opção de hospedagem, ela abriu uma pequena pousada e demonstrou que havia demanda. “Ela foi muito arrojada, muito à frente do tempo”, relembra Marina, ao destacar que, a partir dessa iniciativa, o município voltou a receber visitantes e hoje conta com mais hotéis e um fluxo crescente de pessoas.
A partir desse retorno, Marina ampliou a atuação no setor com novos empreendimentos ligados à gastronomia e à hospedagem, entendendo que para o turismo crescer, havia a necessidade de ofertar negócios e experiências. Surgiram então uma hamburgueria, um restaurante, uma sorveteria e o eco-hostel, propostas que dialogam com o perfil de quem busca experiências ligadas à natureza e à Serra do Cabral. “Buenópolis gira bastante gente e o que a gente sente é que isso só tem aumentado”, observa.
É nesse contexto que a TransCabral ganha força. Para Marina, a travessia representa mais do que um roteiro turístico.
“A TransCabral é um sonho, porque conecta toda a região e faz todo mundo se sentir parte de um projeto maior”, afirma. Segundo ela, a proposta atrai um público consciente e distribui oportunidades ao longo do caminho. “Privilegia as comunidades, principalmente a parte rural. É uma forma de distribuição de renda e inclusão social”, destaca, ao resumir o espírito da travessia que percorre a Serra do Cabral de forma integrada.

Maíra Lima, gestora do Circuito Turístico Serra do Cabral e conselheira do Subcomitê Rio Curimataí, explica a importância de planejar e consolidar a travessia de longo curso.
Marina Pimenta, empreendedora de Buenópolis, conecta visitantes à riqueza natural e cultural da Serra do Cabral, transformando experiências em memórias duradouras.

Num planeta imerso na crise climática e varrido por conflitos e desastres socioambientais, jornalistas enfrentam riscos e pressões para d ar visibilidade a territórios, populações e bens comuns ameaçados

Capturando a realidade das águas e das
Ao congregar olhares simultâneos às questões sociais, culturais e ambientais, o jornalismo socioambiental representa um salto de qualidade na abordagem jornalística dessa realidade dramática, analisando criticamente o impacto das ações humanas no meio ambiente e suas consequências para as comunidades.
Entre os traços centrais do jornalismo socioambiental estão a visão sistêmica, que compreende a interdependência entre questões sociais e ambientais, e a interdisciplinaridade, ao articular saberes de campos como as ciências ambientais, a sociologia e a economia. Destacam-se ainda a atenção aos conflitos e às resistências de comunidades tradicionais, o uso do jornalismo de dados para investigar fenômenos como desmatamento e queimadas, o compromisso com a formação da opinião pública e uma abordagem decolonial, que valoriza perspectivas locais e conhecimentos tradicionais.
André Trigueiro, notável jornalista da Rede Globo que se destacou na cobertura do assunto, diz que “não é possível admitir que o jornalismo no século XXI ignore a urgência dos temas ambientais, os eventos climáticos extremos, a mudança do ciclo da chuva, os dados sobre perdas progressivas para a economia, a destruição da biodiversidade e suas consequências para nossa qualidade de vida, a produção monumental de lixo que traz inúmeras consequências nefastas para a saúde e para o meio ambiente. O jornalismo precisa reportar um problema que, ao mesmo tempo, é ambiental, é de saúde e é gravíssimo”.


No dia seguinte ao rompimento da barragem da Samarco, Mateus Parreiras percorre Bento Rodrigues, registrando os impactos imediatos e coletando informações para dar voz às vítimas do desastre.
Mateus Parreiras, repórter do jornal Estado de Minas com mais de 20 anos de profissão e ganhador de diversos prêmios por suas reportagens, como o prestigiado prêmio Esso, é um dos nomes de destaque na galeria desse novo jornalismo. Ele resgata: “Os jornais antigamente tinham uma divisão diferente. O jornalista de meio ambiente era mais idealista, como no tempo da ECO 92 [Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro], sem mexer nas questões mais concretas. Mineração e barragens eram temas mais ligados à editoria de Economia e até da Política”. A mudança começa “quando os problemas vieram à tona”. Em 2001, lembra, “Macacos [São Sebastião das Águas Claras, distrito de Nova Lima] teve um rompimento [de barragem] com cinco mortes. Os jornalistas foram vendo que saber de meio ambiente não era só falar que é bom preservar, mas também dos problemas”.
“A cobertura se amplificou muito devido às crises” continua. “Em 2016, vivemos uma crise hídrica, isso foi atraindo gente que era de outras áreas, que trouxe expertise, o assunto ganhou amplitude”. Segundo Parreiras, à época “a Copasa [Companhia de Saneamento de Minas Gerais] negava a crise, a gente suspeitava, mas não tinha provas. Um dia, um avião fez um pouso forçado no leito seco de Serra Azul, em Juatuba. Aí me deram a prova. A gente traçou um plano para entrar no reservatório. A Copasa não deixava, mas pescadores nos indicaram as trilhas. Demos em primeira mão no Estado de Minas, virou vídeo premiado”.
O chamado Quadrilátero Ferrífero, onde nasce o Rio das Velhas, é o olho do furacão quando o assunto é conflito socioambiental. Num território opulento de águas, drenadas para diversas regiões do estado e do país, mas revirado milhares de vezes pela mineração muitas vezes predatória, a boa informação também costuma ser triturada e a verdade, como na guerra, pode ser a primeira vítima. Os casos de Mariana e Brumadinho, ainda quentes na memória coletiva, são exemplos disso. Ocultação de estudos, sonegação e mascaramento de dados compõem, ao lado de tantos outros desmazelos, a peça trágica que ceifou centenas de vidas humanas, arruinou dois rios de importância fundamental e afetou diretamente a vida de cerca de 5 milhões de pessoas que vivem nas bacias dos rios Doce e Paraopeba.
O Jornal A Sirene nasceu após o rompimento da barragem de Fundão, em Bento Rodrigues, um subdistrito do município de Mariana. Quem conta é Gustavo Nolasco – jornalista do Observatório Lei.A, plataforma focada em tornar leis e discussões ambientais mais transparentes e acessíveis ao cidadão –, que participou da fundação do informativo marianense: “No comecinho de 2016 saiu o primeiro número. Um minuto de sirene é o nome do

Gustavo Nolasco e o jornal
A Sirene representam a voz das comunidades atingidas por desastres, traduzindo experiências locais em informação e memória.
Coletivo, que todo dia 5 de novembro [data do desastre] tocava um minuto de sirene e fazia uma ação. Uma dessas foi criar o jornal, um veículo em que os atingidos pudessem repor a narrativa deles sem intermediários, com sua própria voz. Acabou se tornando também um repositório de documentação, usada em debates, ações judiciais etc.”.
Mateus Parreiras fala sobre o papel da imprensa após Mariana e Brumadinho: “A imprensa local já estava em alerta. O rompimento de Herculano em 2014 [Barragem B1 no complexo da Mina Retiro do Sapecado, em Itabirito] já colocou a turma de olho. Agora conseguem alertar antes dos desastres. Infelizmente, os dois grandes desastres se tornaram símbolo, sempre evocados”.
Parreiras destaca: “Como o jornalismo ambiental se mostrou mais e mais relevante, veio mais investimento em equipamentos como drones, para despesas de viagem, em apoio logístico. Antes, até acampamento no meio do mato eu já fiz. Hoje o editor lembra de Brumadinho, de Mariana, e autoriza”.

A “guerra de narrativas” é um obstáculo poderoso, somada às pressões políticas, econômicas e jurídicas contra o jornalismo sério. O repórter da Globo vai ao ponto: “Temos o analfabetismo ambiental, a ganância e a cobiça devidamente misturados, determinando a receita de um veneno que nós estamos inoculando no sistema circulatório do país campeão mundial de água doce”.
O negacionismo, diz, “antecede o período da pandemia em que o movimento antivacina, pelas redes sociais, ganhou popularidade. Para o bem ou para o mal, as redes sociais turbinam narrativas, histórias, versões, que no campo do negacionismo encontram vítimas, que não se dão ao trabalho de checar a informação em outras fontes. Esse é um fenômeno da comunicação nos dias de hoje. A ciência climática, por sua vez, é complexa. Estamos falando de um sistema que procura explicar um fenômeno que não é linear, composto por inúmeras variáveis. Então, o primeiro desafio é traduzir de forma clara e objetiva o que está acontecendo e, principalmente, o senso de urgência das providências que precisam ser tomadas”.

O caso do jornalista britânico Dom Phillips, assassinado em junho de 2022 juntamente com o indigenista pernambucano Bruno Pereira, no Vale do Javari, segunda maior terra indígena do país, é a face mais cruenta – e rumorosa – das agruras sofridas por tantos profissionais que buscam trazer à tona a verdade encoberta.
A Amazônia, vítima continuada de garimpo ilegal, extração de madeira sem licença ambiental e tráfico internacional de drogas, para citar três dos muitos problemas que afligem a maior floresta tropical do mundo, é palco ostensivo da violência que tenta diariamente abater o jornalismo, mas não o único.
Ameaças – muitas vezes levadas a cabo – sempre fizeram parte do cotidiano dos jornalistas, mas ganharam intensidade especial no caso da investigação socioambiental, também aqui em território mineiro. Mateus Parreiras conta: “Já recebi e-mail falando para tomar cuidado, dizendo que essa minha curiosidade ‘ia acabar mal’, e recados do tipo ‘o pessoal tá de olho em você’. Se fazem isso é porque o trabalho está indo bem”.
Outra forma de minar esse trabalho é o chamado assédio judicial, que multiplica processos e impõe custos financeiros e estruturais capazes de inibir a atividade jornalística. Os dados evidenciam a persistência — e o agravamento — dessa forma de violência institucional que ameaça diretamente a liberdade de imprensa.
A segunda edição do Monitor de Assédio Judicial contra Jornalistas, lançada em dezembro pela Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), revela o crescimento do uso do Judiciário como instrumento de intimidação de profissionais da imprensa no Brasil.
Com o objetivo de garantir assistência jurídica a jornalistas que, em razão do seu trabalho, estejam sendo silenciados ou constrangidos por meio de processos judiciais, bem como aos profissionais vítimas de assédio, ameaças e perseguições que desejem processar civilmente os agressores, a Abraji criou o Programa de Proteção Legal para Jornalistas.

A corrente que cuida de um fazer jornalístico sintonizado com as necessidades inadiáveis da emergência climática vai ganhando novos elos. Diversos órgãos da imprensa independente se dedicam, Brasil adentro, exclusivamente ao tema, como o Sumaúma, plataforma sediada na Amazônia e iniciativa da conhecida jornalista Eliane Brum; O Eco, fundado em 2004 para documentar desafios, retrocessos e avanços em conservação da natureza, biodiversidade e política ambiental no Brasil; ou o InfoAmazonia, que combina dados, mapas e reportagens georreferenciadas para contar histórias sobre a floresta. Outros, que tratam de assuntos variados, dão a essa pauta o destaque merecido, como Agência Pública e Repórter Brasil.
Somam pontos na frente de defesa do meio ambiente e dos recursos hídricos vários veículos locais e regionais, caso de A Sirene. Como bem sintetiza o repórter do Estado de Minas, “são muito próximos da fonte do problema e dos atingidos, muitas vezes conhecem cada pessoa, estão vendo o impacto. Esse jornalismo é que traz o conhecimento para as pessoas que vivem ali. Desses fragmentos é que se constroem as grandes histórias”.
Outro braço importante nessa construção vem dos Comitês de Bacia Hidrográfica (CBHs). Mais uma vez, Parreiras define: “Os CBHs te contam a história completa. Um agente de Estado, uma Semad [Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável], não tem essa percepção”.
No CBH Rio das Velhas, cultiva-se o que se pode chamar de tradição: somente a Revista Velhas, impressa como nos velhos tempos, já completou uma década de vida. Com um jornalismo comprometido com a preservação, mas também em encontrar caminhos e estimular o desenvolvimento sustentável, o Comitê é referência nacional também por seu cuidado com a qualidade e o papel transformador da informação.
Trigueiro cutuca com vara curta: “A crise tem o nosso DNA, nasce de uma cultura insustentável. Mudar a cultura não se faz por decreto, por lei, por Medida Provisória, é um processo e o jornalismo faz parte dessas engrenagens da mudança – ou deveria fazer”.
Em seu manifesto de apresentação, o site do Sumaúma reivindica um novo eixo para o planeta: “Os centros mais essenciais de um mundo em colapso climático não são Washington ou Pequim, não são os bunkers do sistema financeiro, mas os enclaves de vida dos quais depende a nossa sobrevivência, como os oceanos, as florestas tropicais, os vários biomas”. O jornalismo do CBH Rio das Velhas assina embaixo.
É como diz André Trigueiro: “Temos o desafio de não apenas informar, mas ser vitrine de soluções que consigam a um só tempo gerar a nobre expectativa de redução do impacto climático e o desarme da bomba-relógio do clima no mundo, mas gerando outros benefícios, que sejam emprego e renda, que sejam linhas de crédito e financiamento facilitadas para quem adere a uma economia de baixo carbono, seja uma visão de desenvolvimento que traga como eixo das políticas públicas tudo o que vá na direção da mitigação e da adaptação”.



cenas do rio, a equipe de
e educação socioambiental.


Casarão histórico na região, testemunha da herança colonial e da arquitetura que atravessa o tempo.
Região reúne patrimônio histórico, belezas naturais e iniciativas de preservação que conectam passado, presente e futuro na bacia do Rio das Velhas
Texto: Luiza Baggio
Entre serras que guardam memórias seculares e cursos d’água que moldaram caminhos e destinos, Sabará, Santa Luzia e Taquaraçu de Minas integram a Unidade Territorial Estratégica (UTE) conhecida como Poderoso Vermelho. A denominação carrega um sentido profundo: traduz a intensidade do território, o vigor do solo fértil, o tom avermelhado das montanhas marcadas pelo ferro e a força histórica que impulsionou ciclos econômicos, religiosos e sociais desde o período colonial. Nesse cenário, o patrimônio material e imaterial se revela em igrejas centenárias, trilhas antigas, saberes populares e na relação íntima entre a comunidade e a natureza.
Essa identidade territorial também se expressa na própria geografia das águas. O nome da UTE faz referência aos Ribeirões Poderoso e Vermelho, que estruturam hidrograficamente a região e conectam diferentes paisagens e histórias. O Ribeirão Poderoso, localizado no extremo oeste da UTE, em Santa Luzia, deságua no Córrego da Baronesa e, posteriormente, no Rio das Velhas, enquanto o Ribeirão Vermelho nasce no extremo leste, recebe águas da Serra da Piedade e de diversos afluentes, desaguando no Rio das Velhas nas proximidades do Convento de Macaúbas.
É nesse território moldado pelas águas e pela história que se destaca Sabará, um dos berços da formação de Minas Gerais. Elevada à condição de Vila Real em 1711, a cidade teve papel central no ciclo do ouro, tornando-se referência política, econômica e cultural na então Capitania de Minas Gerais.
Suas igrejas barrocas, ruas de pedra e tradições populares refletem um passado que permanece vivo e dialoga com os desafios contemporâneos da preservação ambiental e do desenvolvimento urbano.
Já Taquaraçu de Minas apresenta um ritmo mais tranquilo, com forte vínculo com o meio rural e a paisagem natural. O município se destaca pela presença de áreas preservadas, nascentes e serras, funcionando como elo estratégico entre conservação ambiental, turismo de natureza e qualidade de vida. Juntas, as três cidades formam um território diverso, complementar e de grande importância ambiental e cultural.

Curso d’água cristalino na UTE Poderoso Vermelho, símbolo da riqueza hídrica do território e do esforço contínuo de conservação das nascentes e ecossistemas locais.
Essa ligação profunda com a terra também se expressa nas histórias pessoais de quem luta pela preservação da região. Um exemplo é Regina Caminha, psicóloga e psicanalista, que se tornou uma das vozes ambientalistas em defesa da UTE Poderoso Vermelho. Embora seja moradora de Belo Horizonte, Regina mantém um vínculo afetivo e histórico com o território: seu bisavô Cândido Lúcio Ferreira Pinto, conhecido como Sô Dinho, foi um dos grandes proprietários de terra da região.
Hoje, Regina possui um terreno na região do Brumado e acompanha de perto as transformações do território, atuando em defesa da preservação ambiental e do uso consciente dos recursos naturais. Para ela, que é coordenadora da sociedade civil do Subcomitê Poderoso Vermelho, cuidar do território é também uma forma de manter viva a memória familiar e o compromisso com as futuras gerações. “Eu sonho em levar desenvolvimento para a região, mas um desenvolvimento que respeite a natureza. É uma forma de homenagear meus ancestrais e garantir que esse território continue vivo”, afirma
É nesse encontro entre história, memória, natureza e participação social que a UTE Poderoso Vermelho se consolida como um território estratégico dentro da bacia do Rio das Velhas — um espaço onde o passado inspira o presente e orienta as escolhas para o futuro.

Regina Caminha, conselheira do Subcomitê Poderoso Vermelho, atua na defesa da preservação ambiental e na valorização da memória e identidade do território.
Belezas naturais que elevam o olhar e renovam a fé
O território do Poderoso Vermelho abriga alguns dos mais emblemáticos patrimônios naturais e culturais da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A Serra da Piedade, com seu conjunto paisagístico e espiritual, se impõe como símbolo de devoção, contemplação e biodiversidade. Do alto, o visitante é presenteado com uma vista que alcança quilômetros, reforçando a sensação de pertencimento a algo maior.
Outro destaque é o Refúgio de Vida Silvestre (REVIS) Estadual Macaúbas, uma área protegida, que mantém condições físicas, químicas e biológicas favoráveis para a preservação da biodiversidade. A região desempenha papel fundamental na conservação da fauna, da flora e das nascentes que alimentam a bacia do Rio das Velhas.
Inserido nesse contexto está o histórico Mosteiro de Macaúbas, patrimônio cultural e religioso que une espiritualidade, arquitetura e natureza em um mesmo espaço, atravessando séculos como testemunha viva da história mineira. Com mais de 300 anos de existência, o prédio histórico abrigou uma das primeiras escolas femininas de Minas Gerais. Lá ainda residem, atualmente, 13 freiras que vivem em clausura.
Conectando esses pontos de grande relevância ambiental e simbólica, foi criada oficialmente, em 2023, a Trilha MacaúbasPiedade. O percurso fortalece o ecoturismo, a educação ambiental e a valorização do território. A trilha possui cerca de 35 quilômetros de extensão e liga o Mosteiro de Macaúbas, localizado em Santa Luzia, à Serra da Piedade, no município vizinho, Caeté.
Lagoa Santa
Leo Boi

O Mosteiro de Macaúbas, com mais de 300 anos de história, integra patrimônio cultural e espiritual em meio à paisagem natural da UTE Poderoso Vermelho.
Para além do turismo, a trilha cumpre um papel estratégico na conservação ambiental. Segundo Marcelo Bastos, espeleólogo, guia de turismo e conselheiro do Subcomitê Poderoso Vermelho envolvido diretamente na iniciativa, a trilha ecológica promoverá o desenvolvimento sustentável, pautado na proteção dos recursos naturais. “A Trilha Macaúbas-Piedade é uma ferramenta concreta de preservação, porque aproxima as pessoas da natureza, desperta consciência ambiental e fortalece a proteção das áreas naturais por onde passa”, destaca Marcelo.
A iniciativa conta com a parceria do Projeto Bosque Modelo, reforçando uma gestão territorial integrada, participativa e sustentável. Essa cooperação amplia o alcance das ações, fortalece o envolvimento comunitário e contribui para a construção de um modelo de desenvolvimento que equilibra uso público, conservação ambiental e valorização cultural.
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MAPA DE LOCALIZAÇÃO
SCBH PODEROSO
VERMELHO R i o d a s Ve l has
Vespasiano
São José da Lapa
CórregodaPenha
CórregoAntônioFerreira
CórregoPica-pau
CórregodoLobo
Córrego Andrequice
Córrego Água Limpa
Lagoinha de Fora
Ribeirão da Mata
Córrego do Inferno
RibeirãoBaronesa
São Benedito
Venda Nova
LEGENDA
Rios e Córregos
UTE Caeté/Sabará
Sede
Distrito
Taquaraçu de Minas Sabará Santa Luzia
Córrego Campo Santo Antônio
RibeirãoVermelho
RibeirãoPaciência
CórregoBicas Santa Luzia
CórregoFrio
CórregodaCachoeira
CórregoCalçada
CórregodoBrumado
Ravena
CórregoSantoAntônio

A pressão urbana sobre o território se revela em ruas, construções e expansão irregular, lembrando o desafio de conciliar desenvolvimento e preservação ambiental na região.

Apesar de toda a riqueza histórica e natural, a UTE Poderoso Vermelho enfrenta desafios ambientais significativos, especialmente relacionados à gestão de resíduos sólidos, à pressão urbana e à necessidade de inclusão socioambiental. Nesse contexto, políticas públicas estruturantes tornam-se fundamentais para promover soluções duradouras.
A Lei de Incentivo à Reciclagem surge como um importante instrumento de transformação no território. Regulamentada em 2024, a legislação abriu caminho para a expansão de projetos com impacto socioambiental concreto e mensurável. Empresas tributadas pelo lucro real podem destinar até 1% do Imposto de Renda devido (pessoas físicas, até 6%) a iniciativas aprovadas pelo Ministério do Meio Ambiente, em um modelo similar ao da Lei Rouanet. O valor é abatido do imposto devido, e os repasses são feitos para contas controladas pelo governo federal, vinculadas aos projetos autorizados.
A Associação Mãos Amigas dos Catadores de Materiais Recicláveis de Sabará (AMA) já recebeu um aporte de R$ 1,8 milhões, viabilizado pelas empresas Vale, AngloGold Ashanti e ArcelorMittal. O valor será investido em aquisição de equipamentos e a realização de obras de melhoria no galpão da associação, fortalecendo a estrutura de trabalho, a geração de renda e a dignidade dos catadores e catadoras do município. Para Genessi Ferreira, catadora e liderança local, esse recurso representa mais do que investimento financeiro. “É o reconhecimento do nosso trabalho e da importância dos catadores na preservação do meio ambiente e na construção de uma cidade mais justa”, afirma Genessi.
A experiência reforça que a reciclagem é também uma estratégia de desenvolvimento socioambiental. “Sensibilizar empresas para que direcionem recursos diretamente aos catadores é fortalecer a economia solidária, reduzir impactos ambientais e valorizar quem está na linha de frente da gestão adequada dos resíduos”, finalizou Genessi.

Criado em maio de 2025 como um espaço de diálogo e construção coletiva, o Subcomitê Poderoso Vermelho desempenha um papel estratégico na gestão participativa das águas e do território. Sua atuação busca integrar diferentes realidades locais, fortalecendo a governança e promovendo soluções que consideram as dimensões ambiental, social e econômica da UTE.
À frente dessa articulação está João Sarmento, coordenador geral do Subcomitê Poderoso Vermelho, eleito em outubro de 2025. João traz consigo a experiência adquirida na coordenação do Subcomitê Rio Taquaraçu, função que exerceu entre 2023 e 2025, período marcado pelo fortalecimento do diálogo territorial e pela implementação de ações estruturantes.
Segundo João Sarmento, que representa o IEF (Instituto Estadual de Florestas) no colegiado, a atuação do Subcomitê parte de uma visão integrada da região. “Pensamos o território como um todo e exercemos o que chamamos de gestão socioambiental, atuando em uma articulação permanente entre os Subcomitês Poderoso Vermelho, Rio Taquaraçu e Ribeirão Caeté–Sabará. Nosso foco é trabalhar de forma conjunta em ações que sejam realmente boas para o território”, afirma.
Essa articulação se desdobra em parcerias estratégicas com iniciativas como a Rede Bosque Modelo e a Gestão Integrada de Paisagens, que ampliam o alcance das ações e fortalecem a busca por uma melhor qualidade e quantidade de água na bacia do Rio das Velhas. “Atuamos de forma integrada para promover soluções que tenham impacto positivo no território, conciliando conservação ambiental, produção rural e desenvolvimento local”, explica João.
João Paulo Sarmento, coordenador do Subcomitê Poderoso Vermelho, lidera ações integradas de gestão socioambiental, conectando conservação, turismo e desenvolvimento local.

Entre as ações desenvolvidas, destacam-se aquelas voltadas ao fortalecimento da capacidade produtiva das propriedades rurais, à melhoria do saneamento rural e ao incentivo ao turismo sustentável. “São iniciativas que dialogam diretamente com a realidade das comunidades, valorizam o território e contribuem para a preservação dos recursos hídricos, ao mesmo tempo em que geram oportunidades e qualidade de vida para a população”, completa o coordenador.
Ao longo dos anos, diversos projetos hidroambientais foram implementados na UTE pelo Subcomitê Poderoso Vermelho em conjunto com o CBH Rio das Velhas, envolvendo recuperação de nascentes, educação ambiental, saneamento rural, apoio a iniciativas comunitárias, fortalecimento do ecoturismo sustentável e incentivo à gestão integrada do território. Essas ações têm como objetivo central preservar, revitalizar e garantir a qualidade ambiental da região, assegurando água em quantidade e qualidade para as gerações atuais e futuras.

Áreas naturais preservadas no Poderoso Vermelho garantem biodiversidade, proteção das nascentes e equilíbrio ecológico, fundamentais para o futuro sustentável do território.

