#29 ÁGUA
Bruna Suzana Pereira Dias Arquiteta e urbanista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. A fotografia integra o projeto “Leito Vivo”, que investiga as relações entre rios urbanos e a cidade a partir do Rio Tietê
Foto: À margem. Ponte do Cruzeiro do Sul, 2025
Sumário 04_ Editorial 04_ Expediente 08_ Palavra da presidente • Camila Moreno de Camargo 10_ Planejar é prevenir e custa menos que reconstruir • Patricia S. Herden
REPORTAGEM
CAU/SP
14_ Atuação em duas escalas: Os caminhos que moveram a gestão 2024-2026 do CAU/SP 38_ Parcerias de impacto: A trajetória da política de fomento do CAU/SP ao longo dos anos 46_ Ideias que viram ação: Parcerias mantidas pelo CAU/SP promovem cidades mais inclusivas e sustentáveis 54_ Um novo imaginário para um novo planeta: Como os legados do arquiteto paisagista Kongjian Yu sobre a relação das cidades com a água podem transformar a gestão urbana global 70_ Rios Vivos 78_ A negação dos rios na urbanização de São Paulo 90_ Metamorfose da Várzea Paulistana • Gabriel Rodrigues Grinspum 96_ As águas, os sonhos e a cidade: O lugar do riacho (urbano) na paisagem • Arthur Pedrosa Rocha 100_ São Paulo em cursos d’água • Fernanda Pinheiro da Silva 104_ Morfogênese da água: Canteiros drenantes e a estética dos moist encounters na paisagem urbana • Adriana Lima e Arthur Lara 108_ Entre territórios e algoritmos: Cidades-esponja a partir da Inteligência Artificial • Gilfranco Alves e Valeska Brandão 112_ Rios urbanos e projeto da cidade: Da lógica higienista às soluções baseadas na natureza em Recife • Rebeca Mello 116_ Manaus Fluvial: Ensaio para uma cidade inundada • Clara de Queiroz e Christian do Nascimento 126_ Suscetibilidade a inundações urbanas: Aplicação da Avaliação Multicritério no Grande ABC • Marina Ribeiro, Marcos Martines e Marcel Fantin 130_ Por onde anda o Córrego das Flores? Arte e caminhada como reanimação simbólica d'água em Bauru/SP • Giovanna Cecchi 134_ A água como escritura da cidade • Vinicius de Lima, Kelvin Bazilio, Pedro Brito e Rafael Martinez 144_ Águas na metrópole: Possibilidades para o bairro de São Norberto nos mananciais paulistanos • Iara Cavalcanti, Alziro Filho, Sofia Alves, Clara Aguillera, Isabela Paletta, Gabriel Grecov e Luis Silva 150_ O rio como sujeito de direito: Uma proposta de intervenção na bacia do rio Maracanã • Giovanny de Lourdes Filho, Louyse Cerqueira e Thyego Feitosa 154_ Exercícios de uma nova composição com as águas urbanas: A Praça da Nascente • Wellington Tibério 162_ Curtas 164_ Biblioteca 166_ Gestão 2024-2026 • CAU/SP 168_ Escritórios Descentralizados 170_ Contatos
ARTES VISUAIS
CHAMADA ABERTA
138_ Espacialidades Sensíveis • Bianca de Lira Silva
Capa_ 6_ 12_ 52_ 71_ 82_ 95_ 99_ 107_ 125_ 149_ 160_ 171_
À margem, Bruna Suzana Pereira Dias Águas urbanas na Bacia do Prata, Paula López Barba Paisagem-água: Lençóis Maranhenses, Laíse Frasão Barros Por aqui passa o Córrego do Sapateiro, Max Sotnik Gonik Águas urbanas na Bacia do Prata, Paula López Barba Mapa hidrográfico da cidade de São Paulo, Leonardo Soares de Sena Gusman Mapa Colorido Topo Hidrográfico Grande São Paulo, Danilo Lessa Bernardineli Águas urbanas na Bacia do Prata, Paula López Barba Águas urbanas na Bacia do Prata, Paula López Barba No caminho das rabetas, Bárbara Costa Água e Sal: No oceano a água expressa a sua força e beleza, Henrique Luís de Paula e Silva de Almeida Por aqui passa o Córrego do Sapateiro, Max Sotnik Gonik Nossas águas, Ralf Correa Scholz
Editorial
Expediente
É
com grande entusiasmo que apresentamos a 29ª edição da Móbile, um espaço consolidado de diálogo, reflexão e difusão do conhecimento para arquitetos(as) e urbanistas. Se antes debatemos a resiliência sob a ótica das estruturas urbanas, este número lança luz sobre a urgência de repensar um elemento vital das dinâmicas territoriais: a água. A emergência climática global e a frequência de eventos extremos nos obrigam a revisar a práxis urbanística e a superar velhos paradigmas da "infraestrutura cinza". Discutir a água hoje é discutir planejamento, justiça climática e o papel social dos profissionais de arquitetura e urbanismo. Das "cidades-esponja" às soluções baseadas na natureza e à renaturalização de cursos d’água ocultos, os trabalhos desta edição demonstram como o suporte hídrico deve reassumir o protagonismo como princípio ordenador do espaço. Como destaque desta edição, trazemos um balanço detalhado das ações e entregas do CAU/SP na gestão 2024-2026. Guiado por um planejamento estratégico focado na valorização, no exercício profissional e no melhor atendimento à categoria, o Conselho operou transformações estruturais profundas. Acompanhe nesta cobertura o impacto de programas pioneiros, como a implantação dos Polos Regionais, a consolidação da sede própria de Ribeirão Preto como "Casa da Arquitetura e Urbanismo", o avanço tecnológico na fiscalização orientativa por satélite, o fomento histórico ao Terceiro Setor por meio de editais e a série de publicações e ações voltadas para a formação continuada. A realização da Móbile #29 não seria possível sem importantes parcerias. Agradecemos imensamente aos mais de 100 concorrentes da Chamada Aberta, que nesta edição teve número recorde! Nosso reconhecimento também ao excelente trabalho da agência e às contribuições fundamentais da equipe técnica do CAU/SP. Um agradecimento especial ao Museu da Cidade de São Paulo pelas belíssimas imagens históricas cedidas de seu acervo fotográfico e, por fim, aos conselheiros e conselheiras que se desdobraram mais uma vez para entregar uma publicação de referência. Boa leitura! Comitê Editorial REVISTA MÓBILE E-mail revista.mobile@causp.gov.br ISSN: 2448-3885
PRESIDÊNCIA DO CAU/SP CAMILA MORENO DE CAMARGO, Presidente ANDREIA DE ALMEIDA ORTOLANI, Vice-presidente PRESIDÊNCIA DO CAU/BR PATRICIA FIGUEIREDO SARQUIS HERDEN, Presidente LEILA MARQUES DA SILVA, 1º Vice-presidente KLEYTON MARINHO DA SILVA, 2º Vice-presidente COMISSÃO DE COMUNICAÇÃO DO CAU/SP PAULA R. DE ANDRADE, Coordenadora / ADRIANA B. CRISTOFANI, Coordenadora-adjunta / MAÍRA L. GEIA / MARCIA M. M. DE MOURA / MARCOS CARTUM / NANCY LARANJEIRA T. DE CAMARGO EQUIPE DE COMUNICAÇÃO CAU/SP ANTONIO DE OLIVEIRA BIONDI, Assessor-chefe de comunicação BRUNO TRIPODE BARTAQUINI, Analista de comunicação CAMILA SANTANA BARBOZA, Analista de comunicação EPAMINONDAS NETO, Analista de comunicação SIMONE LIMA, Analista de comunicação ADRIANO BATISTA BARBOZA, Assistente de comunicação EWERTON LACERDA COSTA, Assistente de comunicação JOSÉ GUILHERME MOURA CABRAL, Estagiário de comunicação JULIA RAMOS MENDES, Estagiário de comunicação STELLA JUBRAIL OLIVEIRA, Estagiário de comunicação EDITADO POR AGÊNCIA LCR EDIÇÃO, PROJETO GRÁFICO, DIAGRAMAÇÃO E IMPRESSÃO AGÊNCIA LCR / REBECCA RAMOS, Coordenadora de projeto / LEO DE CARVALHO, Designer gráfico e diagramador / RAQUEL AQUINO, Jornalista / JOÃO GABRIEL, Jornalista / ALESSANDRA JARRETA, Revisora / IMPRESSÃO: COAN INDÚSTRIA GRÁFICA LTDA / TIRAGEM: 14 MIL EXEMPLARES COMITÊ EDITORIAL EXECUTIVO PAULA RODRIGUES DE ANDRADE / NANCY LARANJEIRA T. DE CAMARGO / MARCOS CARTUM CONSELHO EDITORIAL DA EDIÇÃO Nº 29 ADRIANA BIGHETTI CRISTOFANI / AMANDA ROSIN DE OLIVEIRA / CLARISSA DUARTE DE CASTRO SOUZA / DÂNIA BRAJATO / LUCIANA CRISTINA CERON / MAÍRA DE CAMARGO BARROS / MAÍRA LAURENÇA GEIA / MÁRCIA MALLET MACHADO DE MOURA / MARCOS CARTUM / NALLÍGIA TAVARES DE OLIVEIRA TAVARES / NANCY LARANJEIRA TAVARES DE CAMARGO / PAULA RODRIGUES DE ANDRADE / RENATA BALLONE PARECERISTAS DA EDIÇÃO Nº 29 ENRIQUE STASCHOWER / MAURÍCIO A. DIAS / MARCELO D. O. MONTORO / HELENA A. A. SILVA / TANIA C. B. M. SILVA / VLADIMIR BENINCASA / TATIANI A. D. FREITAS / HÉLIO HIRAO / CAMILA D. D. S. FORCELLINI / ANDRESSA CELLI / VALÉRIA C. D. S. FIALHO / CLÓVIS A. B. LIMA / BIANCA S. BELLEI / TATIANA R. D. CARVALHO / VALÉRIA T. D. PAIVA / SILVANA A. ALVES / LIGYA H. BIANCHINI / BRUNA LUZ / NADJA G. M. F. PADILHA / DENIS F. D. SILVA / MARIA C. D. O. CALIL / PATRÍCIA C. SCARABELLI / GABRIELA M. G. FERREIRA / AMANDA N. P. F. PELLICIARI / AMANDA B. MITRE / BRUNA M. N. COSTA / VERA L. B. MIGLIORINI / VIVIANE M. RUBIO / WILTON F. C. AUGUSTO / GINO C. BARBOSA / RENAN A. TREFT / RAFAEL A. U. D. C. FRAJNDLICH / CLARISSA D. A. PAULILLO AUTORES SELECIONADOS DA CHAMADA ABERTA DE TRABALHOS TEXTUAIS DA EDIÇÃO Nº 29 ADRIANA RICCIARDI RODRIGUES LIMA, ARTHUR LARA / ALZIRO GABRIEL N. FILHO, CLARA Z. AGUILLERA, GABRIEL O. GRECOV, IARA M. CAVALCANTI, ISABELLA K. PALETTA, LUIS OCTAVIO F. SILVA, SOFIA MARIA BRAGA ALVES / ARTHUR PEDROSA ROCHA / BIANCA DE LIRA SILVA / CHRISTIAN ALMEIDA CAMPOS DO NASCIMENTO, CLARA ALBERTINI DE QUEIROZ / FERNANDA PINHEIRO DA SILVA / GABRIEL RODRIGUES GRINSPUM / GIOVANNA CECCHI / GIOVANY B. DE LOURDES FILHO, LOUYSE F. TENÓRIO CERQUEIRA, THYEGO FREDERICO VILHENA FEITOSA / GIFRANCO ALVES, VALESKA OLIVEIRA RESENDE BRANDÃO / KELVIN BASÍLIO, PEDRO BRITO, RAFAEL MARTINEZ, VINICIUS MORENO LOPES DE LIMA / MARCEL FANTIN, MARCOS ROBERTO MARTINES, MARINA PANNUNZIO RIBEIRO / REBECA AMARAL VIEIRA DE MELLO / WELLINGTON TIBÉRIO AUTORES SELECIONADOS DA CHAMADA ABERTA DE TRABALHOS VISUAIS DA EDIÇÃO Nº 29 BÁRBARA F. P. B. DA COSTA / BRUNA S. P. DIAS / DANILO L. BERNARDINELI / HENRIQUE L. DE P. E S. DE ALMEIDA / LAÍSE F. BARROS / LEONARDO S. S. G. GUSMAN / MAX S. GONIK / PAULA L. BARBA / RALF C. SCHOLZ
As opiniões publicadas nesta edição da revista Móbile refletem a visão de seus autores e não correspondem necessariamente à opinião do CAU/SP. Fontes Fold Grotesque Pro Regular / Fold Grotesque Pro Itálico Px Grotesk Bold / Px Grotesk Regular Papel Capa: Couche Fosco Design 250g/m² / Miolo: Couche Fit Fosco 90g/m²
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ERRAMOS Na Móbile nº 28, Cidades Resilientes, informamos incorretamente que a autora Verônica de Freitas, do texto "Pôr do Sol", é mestra. O correto é doutora.
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Palavra da presidente CAMILA MORENO DE CAMARGO PRESIDENTE DO CONSELHO DE ARQUITETURA E URBANISMO DE SÃO PAULO (CAU/SP)
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este texto para a terceira edição da Móbile da gestão 2024-2026, creio ser inevitável um balanço de (quase) tudo o que realizamos. É uma prestação de contas, mas também uma celebração dos resultados de três anos de trabalho de conselheiros e conselheiras, de funcionários e funcionárias e resultantes de muitas parcerias e projetos construídos coletivamente. Ao longo desta trajetória, buscamos tornar o CAU/SP cada vez mais atento, presente, ativo e relevante para os profissionais de Arquitetura e Urbanismo. Coroamento destes esforços, a Conferência Estadual de Arquitetos e Urbanistas, após um hiato de nove anos, é um marco em nossa gestão. Realizamos etapas preparatórias em Santos, Bauru, Presidente Prudente, Taubaté, Guarulhos, Sorocaba, São José do Rio Preto, Ribeirão Preto, Santo André, e finalmente, Campinas, que contaram com mais de 3 mil pessoas inscritas. Agradeço às dezenas de entidades parceiras, autoridades e colaboradores que compartilharam seu tempo e conhecimento durante as mais de 130 atividades realizadas, entre oficinas temáticas, painéis de debate e palestras técnicas, que encontram consolidação e difusão na 3a. Conferência que acontece nos dias 7 e 8 de agosto na capital paulista, ocasião em que se aponta para um panorama e caminhos de valorização e desenvolvimento da nossa profissão.
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O CAU/SP multiplica sua influência quando integra eventos multilaterais. Não vejo melhor demonstração disso do que nossa participação histórica na Conferência Internacional COP 30 no final de 2025, em Belém (PA). Uma iniciativa construída com todo o sistema CAU — especialmente com o CAU/PA e com os demais Conselhos da região Norte — e que, acredito, vai gerar frutos por muitos anos. Outro de nossos legados mais relevantes será a série de publicações técnicas-institucionais que vamos colocar à disposição neste segundo semestre. São guias didáticos sobre temas inescapáveis: exercício profissional, conduta ética, inteligência artificial, contratos de prestação de serviços, mobilidade urbana, acessibilidade, e muito mais. Ainda neste tema da capacitação, temos em pleno funcionamento a inédita plataforma “Trilhas de Conteúdos e Formação Continuada”. Já conta-
← Foto pág. 6 e 7: Águas urbanas na Bacia do Prata, Paula López Barba
mos com mais de 190 materiais catalogados, divididos em quatro eixos temáticos: atuação profissional; gestão e prática diária; uso do SICCAU, e por fim, um quarto grupo voltado à sociedade, esclarecendo a relevância da Arquitetura e Urbanismo e o papel da fiscalização do Conselho na segurança coletiva. Também como expressão dos esforços da gestão na consolidação de um programa de formação continuada, firmamos uma parceria com o IAU-USP e a Superintendência do Patrimônio da União (SPU/SP) para oferecer uma Residência Técnica inovadora. Em foco, processos de regularização fundiária de núcleos consolidados em áreas ferroviárias desativadas, unindo bolsas de estudo, sistema de tutoria e inovação na gestão do espaço urbano em várias cidades paulistas. Indo para as iniciativas de descentralização física, nestes últimos meses, inauguramos os Polos Regionais do CAU/SP de Bragança Paulista, Itatiba, Assis e Avaré (além de contar com processos em andamento para a criação dos Polos de Jaú, Lins, Mogi Guaçu e São Carlos). Esse movimento amplia o alcance do Conselho no estado, que também se cristaliza nas aquisições das sedes próprias de Ribeirão Preto e Campinas. Nosso objetivo é dispor de uma rede capaz de prestar orientação, fiscalização e atendimento ágeis fora da capital. E falando em mudanças: enquanto escrevo este artigo, armários, mesas, computadores e demais equipamentos do CAU/SP são transportados para uma sede temporária no centro da capital. Nosso prédio centenário, obra do escritório de Ramos de Azevedo, vai passar por uma reforma nos próximos dois anos, resultado de um processo importante de concurso público de projeto. Esta reforma vai proporcionar melhores condições de trabalho, maior acessibilidade, mais conforto e uma estrutura ainda mais adequada
MÓBILE #29
para o desenvolvimento de nossas atividades e para o atendimento aos profissionais. Será uma grande transformação! Mudamos, mas também mantemos tradições fundamentais nessa gestão, a exemplo das chamadas públicas. Destinamos milhões de reais para ações de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) e preservação do patrimônio (PAT Cultural). Esse compromisso com a habitação digna estende-se internacionalmente com os projetos Simetria Urbana e ATHIS em Rede, desenvolvidos em cooperação com a ONU-Habitat e a ABC/MRE. E não posso esquecer do número sem precedentes de adesões à chamada pública que credencia arquitetos e urbanistas para prestarem assistência à Defensoria Pública do Estado. Para mim, demonstra o interesse dos profissionais em atuar nas questões mais sensíveis das nossas cidades. Por fim, o aperfeiçoamento normativo e a simplificação dos processos também foram diretrizes de nossa atuação. Trabalhamos na simplificação normativa e desburocratização profissional junto ao CAU/ BR. Propusemos descontos progressivos no RRT para projetos sucessivos e o RRT Público para servidores. Defendemos nossas prerrogativas com a adoção de assinaturas digitais certificadas no SICCAU e exclusividade em regularização fundiária. Também sugerimos multas mais proporcionais, e compartilhamos nossa ferramenta de relatoria digital para fortalecer a fiscalização e a segurança da sociedade. Ao encerrar este balanço, percebo que o espaço não foi suficiente para muitas realizações. Apresentamos outra parte delas em matérias especiais nesta Móbile. E convido vocês para seguirmos construindo juntos um Conselho que faça diferença real e positiva na trajetória de cada arquiteta e arquiteto e urbanista.
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Planejar é prevenir e custa menos que reconstruir PATRÍCIA F. SARQUIS HERDEN PRESIDENTE DO CONSELHO DE ARQUITETURA E URBANISMO DO BRASIL (CAU/BR)
A
s mudanças climáticas têm colocado as cidades brasileiras diante de desafios cada vez maiores. Chuvas intensas, enchentes e deslizamentos passaram a fazer parte da realidade de milhões de pessoas. Mas os impactos desses eventos não são resultado apenas da força da natureza. Eles também refletem a forma como ocupamos e transformamos o território ao longo do tempo.
Durante décadas, áreas verdes foram substituídas por concreto e asfalto, rios perderam espaço, encostas foram ocupadas e o solo tornou-se cada vez mais impermeável. Com isso, a água da chuva deixou de encontrar caminhos naturais para infiltração e passou a escoar rapidamente pelas cidades, ampliando riscos, prejuízos e perdas humanas. Por isso, discutir água é também discutir planejamento urbano. Rios, matas ciliares, áreas verdes e espaços de permeabilização não são obstáculos ao desenvolvimento. Ao contrário, são fundamentais para a segurança e qualidade de vida. Na Conferência Internacional CAU 2025, promovida pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR), o arquiteto chinês Kongjian Yu, referência mundial em arquitetura da paisagem e planejamento urbano ecológico, apresentou o conceito de “cidade-esponja”, que integra natureza e ambiente 10
urbano para reduzir enchentes e fortalecer a resiliência das cidades. Esse desafio exige uma visão de longo prazo. Não basta retirar a água das ruas com mais rapidez. É preciso criar condições para que ela seja absorvida pelo solo e siga os ciclos naturais do território. Da mesma forma, áreas de risco precisam ser repensadas com soluções que priorizem a recuperação ambiental e garantem a segurança das pessoas. A água não respeita limites administrativos. Decisões tomadas em um bairro ou município podem produzir impactos em toda uma bacia hidrográfica. Por isso, planejamento urbano e preservação ambiental precisam caminhar juntos, orientando políticas capazes de antecipar problemas antes que eles se transformem em tragédias. As soluções baseadas na natureza, a ampliação das áreas permeáveis e a proteção dos ecossistemas são caminhos cada vez mais necessários para cidades sustentáveis e resilientes. Afinal, planejar custa menos do que reconstruir. Por isso, o CAU tem atuado junto à proteção e defesa civil e investe na Assistência Técnica de Interesse Público (ATIP), com atuação em locais atingidos por desastres para construir um futuro mais seguro.
JÁ CONHECE OS POLOS ? REGIONAIS DO Um espaço de conexão entre o Conselho e profissionais da região.
Um Polo Regional é o ponto de apoio do CAU/ SP perto de você.
Os Polos são uma estratégia para aproximar o Conselho dos arquitetos e urbanistas em todo o estado. Nos Polos, você encontra: Atendimento mais próximo;
Eventos, encontros e debates;
Articulação com demandas locais;
Apoio à atuação profissional.
Polos implementados (julho de 2026) 1. Assis 2. Avaré
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3. Bragança Paulista
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11
4. Guarulhos
3
1
5. Itatiba
5
2
6. São Roque
4 6
9. Jaú*
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7
7. São Sebastião 8. Suzano
10. Lins* 11. Mogi Guaçu* 12. São Carlos*
*Polos com processo para criação em andamento
Os Polos Regionais já chegaram a 8 regiões – e, daqui a pouquinho, vamos chegar mais perto de você!
CAU/SP 2024-2026
Atuação em duas escalas: Os caminhos que moveram a gestão 2024-2026 do CAU/SP
C
omo aproximar o Conselho das necessidades concretas do exercício profissional da Arquitetura e Urbanismo? Como promover a valorização do(a) profissional arquiteto(a) e urbanista? No triênio 20242026, o CAU/SP respondeu a essas questões, sobretudo, a partir da execução de ações que expressassem um Conselho que acredita na profissão, que está presente em todo o estado de São Paulo, que valoriza e apoia o profissional e que é ativo e propositivo perante a sociedade e o poder público.
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← Foto pág. 12 e 13: Paisagem-água: Lençóis Maranhenses, 2021, Laíse Frasão Barros
A gestão do CAU/SP, presidida por Camila Moreno de Camargo no triênio 2024-2026, estruturou essa atuação a partir do Planejamento Estratégico que estabeleceu os programas e os projetos voltados a gerar esses resultados. São eles: PROGRAMA DE FISCALIZAÇÃO:
PROGRAMA DE DESCENTRALIZAÇÃO:
contempla a elaboração inédita do Plano Estadual de Fiscalização e ações relacionadas à integração digital de tecnologia nas rotinas do Conselho e no acesso a serviços do Conselho por parte dos profissionais.
envolve a transformação conceitual e estrutural dos escritórios descentralizados em “Casas da Arquitetura e Urbanismo”, bem como a capilarização presencial das atividades de atendimento, fiscalização e orientação profissional por meio da implantação dos Polos Regionais do CAU/SP em cidades estratégicas.
PROGRAMA DE VALORIZAÇÃO DO ENSINO DE ARQUITETURA E URBANISMO:
dedicado a projetos de qualificações do Ensino, do Estágio e dos projetos de Residência Técnica em Arquitetura e Urbanismo. PROGRAMA DE ARTICULAÇÃO INSTITUCIONAL:
integra os Projetos de Construção e Implementação de Política Institucional, Convênios e Parcerias, de Apoio aos Municípios, e de redefinição das diretrizes e formas de Representação Institucional junto a conselhos municipais e estaduais. Contempla também projeto dedicado à construção de uma Política de Acervos em reconhecimento à importante massa documental relacionada à produção de arquitetura e urbanismo em cidades paulistas. Além disso, destaca-se o Projeto Clima e Adaptabilidade que reúne esforços do Conselho na atualização e capacitação dos profissionais de arquitetura e urbanismo nos debates contemporâneos sobre os impactos das mudanças climáticas nas cidades, as necessidades de adaptabilidade, resiliência e de novas soluções para a vida em nossa sociedade.
MÓBILE #29
PROGRAMA DE COMUNICAÇÃO E TRANSPARÊNCIA:
promove estratégias de Transparência Ativa e Monitoramento da Gestão, bem como a realização de campanhas voltadas ao exercício e à valorização profissional. PROGRAMA DE AÇÕES AFIRMATIVAS:
aprofunda o olhar sobre o perfil plural dos profissionais de Arquitetura e Urbanismo paulistas, reconhecendo sua diversidade e construindo e realizando a difusão de ações de sensibilização e inclusão profissional em todas as esferas de atuação do Conselho. PROGRAMA DE VALORIZAÇÃO DO TRABALHO DO PROFISSIONAL DE ARQUITETURA E URBANISMO:
reconhece os estágios distintos da jornada profissional por meio dos Projetos de Acolhimento Profissional, de Mentoria e Apoio Profissional e Fomento à Formação Continuada, visando a ampliação dos campos de trabalho.
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Pré-Conferência Estadual de Arquitetos e Urbanistas do CAU/SP, em Santos. Foto: acervo CAU/SP, 2026
Em um primeiro momento, a gestão concentrou esforços na expansão de suas relações ins titucionais, buscando conquistar aproximações e parcerias com ministérios, autarquias federais, consórcios de municípios, associações munici palistas, entidades da construção civil, associações profissionais e entidades sem fins lucrativos, que viabilizassem colaborações técnicas, como a promoção da adequação de normativas internas e de novas formas de operação que dessem base para a ampliação de serviços e a viabilização dos projetos. Com o foco na execução de planos de trabalho conjuntos com esses parceiros, somado ao desenvolvimento de importantes ações construídas no âmbito das comissões do Conselho, a gestão entrega, neste último ano, os resultados previstos, que, por serem fundamentados em preceitos inovadores, podem se consolidar como práticas contínuas de apoio à categoria e de maior aproximação com os profissionais. Muitas entregas acontecerão durante a realização da Conferência Estadual de Arquitetos e Urbanistas, que, após um intervalo de nove anos, retoma o espaço privilegiado de diálogo e de formação profissional. 16
AS DUAS ESCALAS A abordagem dessa gestão se desdobrou em uma atuação organizada em duas escalas. A primeira diz respeito à função social da profissão e ao campo das políticas públicas que incidem sobre o desenvolvimento dos ambientes de vida humana no território. Nessa escala, o foco inicial foi garantir que a profissão seja devidamente valorizada pela sociedade e pelos órgãos públicos, assegurando que os profissionais participem ativamente da solução dos desafios urbanos nas cidades paulistas, posicionando a classe de maneira estratégica em iniciativas governamentais existentes, promovendo o aprimoramento de arquitetos (as) e urbanistas e a conquista de novas oportunidades de trabalho. Na segunda escala, a gestão colocou no foco a realidade cotidiana dos profissionais e os desafios do mercado de trabalho na contemporaneidade, de que a rotina profissional é marcada por múltiplas responsabilidades, sobrecarga de tarefas, normas e burocracias que constituem o cotidiano profissional da maioria, com atenção especial às mulheres e aos recém-formados. Diante desse cenário, em que tais escalas se
entrecruzam, o CAU/SP buscou transformar o planejamento em ação, por meio de iniciativas que ampliaram sua presença no estado, fortaleceram sua atuação nos debates contemporâneos, modernizaram serviços e aproximaram o Conselho do cotidiano dos profissionais de Arquitetura e Urbanismo. As entregas reunidas
nesta seção “CAU/SP 2024-2026” ajudam a dimensionar esse percurso e a mostrar como a gestão respondeu, de maneira concreta, às demandas e às transformações contemporâneas da profissão, das cidades e da sociedade.
UM CAU QUE FORTALECE A PROFISSÃO Arquitetura e Urbanismo são campos fundamentais para a qualificação dos espaços onde a vida se realiza, em diferentes escalas, contextos e usos. Esse papel exige o reconhecimento das transformações contemporâneas no exercício profissional, marcadas pela diversificação de práticas, pela ampliação dos campos de atuação e pela adoção de múltiplos arranjos de trabalho. Seja como profissional liberal ou autônomo, como pessoa jurídica com ou sem fins lucrativos, esse cotidiano é marcado pelo acúmulo de tarefas, pelos custos relacionados à organização e ao fornecimento adequado de serviços profissionais, e pelas diferentes estratégias de posicionamento no mercado de trabalho. Trata-se de um cenário que exige um Conselho eficiente e atento à promoção de ferramentas que qualifiquem a atuação de arquitetas e arquitetos e urbanistas em todo o estado! Nessa direção, a gestão 2024-2026 do CAU/ SP procurou se aproximar dos desafios ligados às rotinas de trabalho da profissão e implementou ações voltadas à ampliação da infraestrutura de apoio ao exercício profissional, ao aprimoramento dos canais de atendimento do CAU/ SP, à promoção de debates e à construção de conteúdos específicos, incluindo materiais voltados também àqueles que contratam serviços de Arquitetura e Urbanismo. Como resultados práticos, a gestão 2024-2026 do CAU/SP apresenta uma série de materiais orientativos capazes de facilitar o dia a dia dos profissionais em suas diversas áreas de atuação.
MÓBILE #29
MATERIAIS ORIENTATIVOS No âmbito das discussões sobre Arquitetura de Interiores — campo que integra a maioria dos profissionais no estado de São Paulo —, destacam-se as aproximações com prestadores de serviços, indústrias, fornecedores e entidades representativas do setor, a exemplo da Associação Brasileira de Design (ABD). Somadas aos acordos de cooperação técnica estabelecidos junto a entidades ligadas ao setor da construção civil, essas iniciativas possibilitaram avanços em posicionamentos consistentes relativos ao exercício ético profissional e na definição de diretrizes claras para a promoção de relações comerciais transparentes com clientes e lojistas. A iniciativa foca na disseminação prática das normas da ABNT e no acompanhamento das
novidades do mercado, orientando os profissionais sobre a maneira certa de especificar tecnicamente componentes e materiais, diminuindo erros na construção e riscos para a estrutura das edificações. Para sustentar essa formação continuada, o plano inclui a criação de roteiros de ensino padronizados em um ambiente virtual próprio, que igualmente divulga e reúne material didático específico de cada indústria aliada para aprimorar e dar mais valor ao serviço técnico dos escritórios do estado de São Paulo. O reconhecimento da importante atribuição de especificação técnica de materiais aos profissionais de arquitetura, desdobrou-se na
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Coleção de Guias de Normas Técnicas da ABNT,
desenvolvida com a Associação Brasileira de Normas Técnicas, que assegura o exercício qualificado de arquitetas e arquitetos. Essa coleção pioneira foi projetada estruturalmente para conter sete volumes didáticos ao todo, cujos temas foram mapeados e selecionados participativamente por meio de uma consulta pública realizada previamente com os profissionais. Marcando o início da série com a obra “Diretrizes e conteúdo técnico para projetos de Arquitetura e Urbanismo: Volume 1 — Projetos Arquitetônicos — Conceituação, elaboração e caracterização de documentos", a publicação teve o objetivo de converter o conhecimento técnico complexo das normas em instruções claras e práticas para o cotidiano dos escritórios, abordando os princípios essenciais para a devida definição do teor de documentos técnicos, uniformização de termos e um minucioso detalhamento de todas as fases para a concepção de um projeto arquitetônico, urbanístico e paisagístico completo.
Outro fruto importante dessa ação foi a campanha "Especificação Consciente", que atuou como um braço de treinamento dedicado ao emprego prudente de materiais na edificação, fruto de Convênios de Colaboração Técnica com importantes entidades de classe, como ABRAVIDRO, ABCEM e ABCLS. A incorporação das ferramentas digitais e das novas dinâmicas virtuais de trabalho no cotidiano da profissão norteou as ações do Conselho voltadas à compreensão e apoio aos impactos da modernização tecnológica. A Câmara Temática que tratou da Inteligência Artificial na Arquitetura e Urbanismo destacou a relevância social, ética e técnica desse debate para os profissionais paulistas, o que se concretizou no Guia de IA Generativa em Arquitetura e Urbanismo. Este material foi elaborado para orientar o uso consciente de algoritmos, ferramentas de renderização e automação, complementado por debates em painéis temáticos durante as pré-conferências estaduais e pela organização de um amplo programa de treinamento em duas edições do Seminário de Tecnologia promovido pelo Conselho.
COLEÇÃO DE GUIAS SOBRE NORMAS DA ABNT Confira a seguir a Coleção de Guias ABNT + CAU/SP na íntegra, desenvolvida para qualificar a atuação profissional de arquitetos e urbanistas.
https://causp.gov.br/guiasabnt/
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Tendo como objetivo o desenvolvimento de materiais e recursos que orientem o profissional na sua atuação responsável, além dos cursos formativos, as comissões de Exercício Profissional (CEP) e Comissão de Desenvolvimento Profissional (CDP) elaboraram guias, procedimentos e recursos de administração descomplicados, esclarecendo as normas sobre cadastros e competência técnica, o que preveniu multas e simplificou processos, garantindo mais confiança aos profissionais no seu dia a dia. Como fruto direto dessas iniciativas, identificamos, por exemplo, que o número de empresas registradas no CAU/SP deu um salto significativo, passando de 9.500 em 2024 para quase 13 mil em meados de 2026.
APOIO E CAPACITAÇÃO PROFISSIONAL Como parte fundamental das ações voltadas à qualificação, capacitação e ao fortalecimento profissional, o CAU/SP estruturou uma trilha de conteúdos em seu Ambiente Virtual de Aprendizagem (Plataforma AVA CAU/SP). A primeira dessas iniciativas, o Curso de Gestão de Negócios em Arquitetura e Urbanismo, foi criado sob o escopo do Projeto de Mentoria e Apoio Profissional do Programa de Formação Continuada para servir como um auxílio prático principalmente a recém-formados, profissionais autônomos e pequenos escritórios diante das novas demandas do mercado, abordando aspectos menos visíveis da rotina corporativa, ensinando o uso de ferramentas essenciais para administração, planejamento de projetos e obras, finanças e estratégias de precificação de serviços. Para reforçar e estender essas habilidades práticas ao cotidiano técnico de forma integrada, a gestão desenvolveu também o Curso de Apoio Profissional ao Arquiteto e Urbanista, que funciona em total sintonia com as ações de acolhimento e o programa de mentoria promovidos pelo conselho, abordando diretrizes
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claras sobre ética profissional, até a definição precisa do escopo de serviços e métodos para criar contratos juridicamente robustos, trazendo ainda atividades educativas focadas em alertar e salvaguardar os profissionais sobre a responsabilidade civil no ambiente de trabalho. Essa iniciativa somou-se à ação de criação de recursos educativos para identificar corretamente os códigos CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) e o lançamento de um checklist digital unificado para facilitar a abertura de novos empreendimentos. De autoria da CEP, sobretudo a partir das discussões da Câmara Temática de Pessoa Jurídica (CTPJ), como resultado direto desta ação, houve um aumento significativo no número de empresas registradas e ativas no estado de São Paulo. Outro tema que esteve presente em diversos projetos desta gestão, como dos mais urgentes e relevantes, foi o das mudanças climáticas. Os eventos extremos já fazem parte da realidade urbana e impactam diretamente as cidades, exigindo novas abordagens no planejamento urbano, na infraestrutura, adaptação dos espaços e redução de riscos. Pensando nesse cenário, o CAU/SP promoveu o curso “Introdução ao papel de arquiteto s e urbanistas no enfrentamento às mudanças climáticas”, uma oportunidade de aprofundar conhecimentos sobre adaptação urbana, mitigação de riscos, resiliência climática e o papel da Arquitetura e Urbanismo nesse contexto.
CHECKLIST DIGITAL DOS CÓDIGOS CNAE Confira o checklist digital dos códigos CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) para os profissionais autônomos de arquitetura e urbanismo. https://causp.github.io/cnae/cnae-accordion.html
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Atendimento 100% digital e modernização de serviços do CAU/SP. Uma das frentes centrais que contribuíram para o aprimoramento dos processos foi a ampliação e a reorganização dos canais de atendimento, com foco em maior agilidade, integração e acessibilidade para os profissionais. A necessidade de modernizar e centralizar a estrutura operacional do CAU/SP surgiu para corrigir falhas históricas reportadas pela categoria, como as instabilidades no sistema SICCAU gerenciado pelo CAU/BR. No modelo anterior - restrito a e-mail, telefone e suporte presencial - os profissionais demandavam a inclusão de ferramentas simultâneas de comunicação rápida, que permitissem solucionar pendências diretamente pelo computador ou celular durante a jornada de trabalho. A resposta desta gestão se materializou na transição para uma plataforma digital unificada, o uso de assistentes virtuais (chatbots) e o atendimento via WhatsApp. A implantação de ferramentas dinâmicas de conversação foi apontada pelas equipes técnicas como um passo essencial para facilitar o trabalho, permitindo que o profissional realize suas atividades no computador e, ao mesmo tempo, mantenha contato com o conselho para esclarecer dúvidas e resolver pendências de maneira prática. Para os arquitetos e urbanistas, o impacto direto ocorreu na agilidade e na autonomia de acesso, uma vez que as respostas automatizadas integradas aos novos canais passaram a solucionar dúvidas frequentes de forma imediata, reduzindo a necessidade de intervenção humana em parte expressiva dos chamados. Para assegurar que a migração tecnológica não resultasse na exclusão de profissionais com menor uso e familiaridade com plataformas digitais, o CAU/SP estruturou a transição mantendo os canais tradicionais ativos. A ampliação das novas ferramentas ocorreu em caráter complementar, diversificando as opções de contato para que cada perfil selecione a via de atendimento mais compatível com sua rotina técnica e comercial. 20
APOIO À ATUAÇÃO PROFISSIONAL A PARTIR DO TERCEIRO SETOR Com um olhar atento sobre as novas formas de trabalho e a tendência de contratação de Organizações da Sociedade Civil (OSCs) para a implementação de políticas públicas em municípios, a gestão priorizou a promoção de OSCs e o treinamento de gestores públicos para esse novo cenário, visando facilitar a contratação dessas entidades por meio do Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC, Lei nº 13.019/2014). Essa iniciativa, focada no fortalecimento do Terceiro Setor, consolidou-se como um meio de descentralizar recursos e expandir o mercado de trabalho para profissionais em todo o estado de São Paulo. Como parte dessas iniciativas, o CAU/SP promoveu oficinas nas Pré-Conferências da gestão (“Como acessar recursos de fomento do CAU/ SP?”). O objetivo foi orientar, sob os aspectos técnico e jurídico, profissionais, entidades e movimentos locais sobre os procedimentos necessários para concorrer a verbas institucionais por meio de editais de fomento e patrocínio. Além disso, o CAU/SP estabeleceu parceria com o Ministério das Cidades e conquistou aproximações com as prefeituras paulistas e entidades como a AMPPESP, a Associação Paulista de Municípios (APM) e o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC. Como fruto dessas parcerias, o Conselho desenvolveu cursos de capacitação voltados ao corpo técnico do poder público visando contribuir, especialmente com as cidades de menor estrutura técnica e administrativa, para elaborar chamamentos públicos, termos de colaboração e de fomento, com segurança jurídica e maior agilidade. A capacitação de gestores e servidores buscou assegurar que o poder público municipal consiga contratar OSCs de Arquitetura e Urbanismo para a execução de projetos de grande relevância social, incluindo planejamento urbano, regularização fundiária e planos diretores estruturados.
UM CAU PRESENTE EM TODO O ESTADO Tornar o CAU/SP presente em todo o estado significa, por um lado, capilarizar a rede física necessária ao desenvolvimento de ações de fiscalização, atendimento e orientação, e, por outro lado, produzir uma programação intensa de atividades que de fato expressem a presença do Conselho na vida dos profissionais. Para tanto, a gestão 2024-2026 do CAU/SP avançou na proposta de transformação conceitual e física dos Escritórios Descentralizados em Casas da Arquitetura e Urbanismo e inovou ao propor e implementar Polos Regionais em todo o território paulista, de modo a reduzir as distâncias entre os profissionais e o Conselho. Por meio dessa rede ampliada e ressignificada de presença do CAU/SP no estado, torna-se mais efetiva a compreensão das demandas locais das cidades paulistas e das formas como se arranja a prestação de serviços de Arquitetura e Urbanismo nesses territórios.
Além disso, ao se fazer mais presente nessas distintas dinâmicas de cada região, o CAU/SP passa a atuar de forma mais diligente nas cidades do interior e do litoral paulista, sobretudo, a partir de acordos de cooperação com entidades municipalistas que convergem o olhar de gestores públicos e representantes do Poder Legislativo para o intercâmbio de notas técnicas e promoção de apoios consistentes que envolvem o trabalho de profissionais de arquitetura e urbanismo.
AS CASAS DA ARQUITETURA E URBANISMO O projeto das Casas da Arquitetura e Urbanismo altera a lógica tradicional de escritórios descentralizados focados estritamente em rotinas administrativas e de fiscalização, com o objetivo principal de transformar as sedes regionais em polos de cultura, integração regional e espa-
A primeira etapa da 5ª edição do Encontro sobre Arquitetura, Urbanismo e Patrimônio Cultural do CAU/SP contou com a participação do arquiteto João Batista Martinez Corrêa, autor do projeto da Residência Clotilde e Sérgio Ferreira, atual Casa da Arquitetura e Urbanismo do CAU/SP em Ribeirão Preto. Foto: acervo CAU/SP, 2025
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ço de aproximação e aprimoramento da relação entre o Conselho e os profissionais. Em termos práticos, dez unidades distribuídas pelo estado estão sendo adaptadas para funcionar como locais de encontro e cooperação entre profissionais, instituições de ensino, sociedade civil e administrações municipais. A proposta prevê que os espaços abrigam exposições, seminários, cursos de capacitação e oficinas, além dos atendimentos habituais. A consolidação desse modelo teve um marco na aquisição das sedes próprias de Ribeirão Preto e Campinas, cidades que concentram as maiores quantidades de profissionais fora da capital. No caso da Casa de Ribeirão Preto, o imóvel escolhido foi a Residência Clotilde e Sérgio Ferreira, um patrimônio cultural tombado e considerado referência da arquitetura brutalista e moderna paulista. Já a nova Casa da Arquitetura de Campinas está em processo de aquisição para atender à região que reúne a maior concentração de arquitetos e urbanistas, empresas e cursos no interior do estado. O imóvel que abriga a sede de Campinas é uma obra representativa da arquitetura moderna campineira de 1981, projetada por Araquém Martinho e Antônio da Costa Santos, o Toninho. A aquisição desses imóveis representou uma ação prática de preservação do patrimônio cultural pelo Conselho, que hoje possui três imóveis representativos da arquitetura paulista, que se constituíram em espaços abertos e de uso dos profissionais. A infraestrutura em Ribeirão Preto passou a abrigar uma programação fixa de eventos como o CineCAU, oficinas e sessões de acolhimento técnico. Também foi implementado um programa de visitas guiadas abertas ao público geral, registrando dezenas de visitas agendadas para a análise dessa arquitetura. O espaço acolhe reuniões institucionais voltadas a parcerias com prefeituras, organizações locais e o local pode ser agendado para uso dos arquitetos e urbanistas.
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POLOS REGIONAIS DO CAU/SP Com a reorganização das grandes sedes regionais pelas Casas da Arquitetura e Urbanismo, a estratégia de interiorização ganhou um novo desdobramento prático por meio da criação dos Polos Regionais do CAU/SP. O propósito central dessa iniciativa inédita foi superar as barreiras geográficas do estado a partir de uma diretriz prática, estabelecendo que nenhum arquiteto e urbanista precise percorrer mais de 50 quilômetros para acessar os serviços, orientações e treinamentos oferecidos pelo Conselho. A modelagem dessa rede exigiu um detalhado estudo logístico e demográfico. O CAU/SP mapeou os municípios com maior densidade de profissionais e escritórios ativos para, em seguida, firmar parcerias estratégicas com associações de classe e instituições de ensino sem fins lucrativos locais dispostas a abrigar as estruturas. Além disso, por se tratar de um arranjo jurídico e administrativo novo para a autarquia, o projeto demandou a criação de normas específicas para dar segurança institucional às parcerias e capacidade de atendimento a realidades regionais muito distintas. Oito polos regionais já operam em capacidade plena nas cidades de Suzano, Guarulhos, São Roque, São Sebastião, Bragança Paulista, Itatiba, Assis e Avaré. O cronograma de expansão prevê atingir 13 unidades em funcionamento até dezembro de 2026, avançando gradualmente em direção à meta final de estabelecer 36 polos distribuídos entre o interior e o litoral paulista. A rotina de atividades em cada polo é adaptada de acordo com as demandas e os temas de interesse da categoria em cada região. Os serviços abrangem desde ações de acolhimento profissional, voltadas a tirar dúvidas de recém-formados e introduzir conceitos de ética e rotina de trabalho, até palestras, cursos de capacitação técnica e workshops promovidos em parceria com as entidades locais.
POLOS 2024-2026
Escritórios Descentralizados do CAU/SP Polos Regionais já implementados (julho de 2026) Processo para criação do Polo em andamento
Mapa dos Polos Regionais do CAU/SP 2024-2026
Ao se fixar nessas microrregiões, o CAU/SP passou a integrar ativamente as discussões sobre o desenvolvimento das cidades, aproximando-se de prefeituras e lideranças civis. Essa articulação ajuda a instruir os gestores públicos locais sobre a importância técnica do arquiteto em debates urbanos essenciais, como a qualificação de espaços públicos e a melhoria da infraestrutura urbana. Assim, os Polos Regionais são uma das principais estruturas de suporte já desenvolvidas pelo CAU/SP. Isso porque os polos estabelecem uma base fixa de qualificação e valorização profissional colada à realidade de quem atua fora dos grandes centros, diminuindo distâncias históricas e oferecendo condições mais justas para o exercício pleno da profissão em todo o território estadual.
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MODERNIZAÇÃO DA FISCALIZAÇÃO A modernização dos métodos de trabalho do Conselho alcançou um novo patamar técnico com a introdução do Plano Estadual de Fiscalização, que reestruturou as operações nas cidades paulistas com base em análise de dados. Com um foco inicial em prevenção e educação, avaliando as informações com mais precisão e análises antes de aplicar sanções, a estratégia produziu efeitos imediatos no setor corporativo. No caso de empresas de arquitetura e urbanismo, este acompanhamento voltado para a regularização consensual resultou na solução de 74,24% das irregularidades antes da aplicação de penalidades, um salto significativo em relação aos 65,42% do período anterior. A eficácia da mediação e a consequente diminuição de
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disputas legais limitaram a fase de sanções efetivas a apenas 25,76% dos processos iniciados. O combate a práticas irregulares e o acompanhamento do desenvolvimento urbano foram ampliados pelo projeto “Tecnologia e Fiscalização”, consolidado por meio de três importantes acordos de cooperação tecnológica. Numa ação inédita entre autarquias profissionais, o CAU/SP estabeleceu uma parceria com o Governo do Estado de São Paulo para integrar sua unidade de inteligência ao Sistema de Monitoramento de Alertas de Riscos por Satélites, passando a monitorar alterações territoriais em tempo real e a identificar construções em andamento no litoral e nas áreas metropolitanas de São Paulo, Campinas e Jundiaí, direcionando as inspeções presenciais das equipes de campo estritamente para locais de alta prioridade, otimizando o tempo de resposta e garantindo precisão operacional. De forma complementar, foram organizadas ações de fiscalização conjuntas diretamente com o poder público municipal. Um dos acordos, firmado com a prefeitura de Suzano e am-
pliado para os 14 municípios do Consórcio de Desenvolvimento do Alto Tietê, integrou os dados de alvarás de obras às responsabilidades técnicas registradas no Conselho por meio de ferramentas de georreferenciamento. Essas inspeções coordenadas ocorreram no Litoral Norte, Litoral Sul e Alto Tietê, resultando na vistoria técnica minuciosa de 246 canteiros de obras. Na esfera jurídica, essa fiscalização para proteger o mercado foi expandida para a análise detalhada de 50 editais de licitações e concursos públicos que apresentavam remunerações inferiores ao salário mínimo profissional ou restrições indevidas.
A atuação resultou no ajuizamento de 23 ações civis públicas e na resolução administrativa de 24 editais, alcançando 85% de decisões favoráveis nos tribunais para salvaguardar a justa contratação da categoria.
Informações Lat: -23.69225126882347 / Long: -45.45335477694835 Alertas (1)
Histórico de Comentários
23/08/2025 (20250823_134401_14_24at)
Cruzamentos (5)
15/09/2025 (20250915_133508_70_2512)
ID do Polígono de Alerta: 12763320 Data do Alerta: 15/09/2025 Tipo do Alerta: Edificações novas ou suprimida/demolida Área do Polígono: 0,46 ha Município: Caraguatatuba - SP Verificação
Fiscalização e ações
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A Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (COMDEC), ao receber o alerta, avaliou a situação e conclui que não cabe mobilização de resposta. O motivo é a não identificação de vulnerabilidade ou risco geológico/hidrológico no local
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O CAU/SP foi o primeiro Conselho a aderir ao programa de monitoramento do Governo do Estado, que utiliza imagens de satélite para acompanhar mudanças territoriais em todo o estado e nos municípios do litoral, da RMSP e das regiões metropolitanas de Campinas e Jundiaí. Imagem: Governo do Estado de São Paulo
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Para avançar ainda mais na área da tecnologia, o CAU/SP fechou uma parceria com o Parque Tecnológico de São José dos Campos. Por meio de um edital de inovação aberta, o projeto foi criado para desenvolver ferramentas modernas de inteligência de dados. O principal objetivo foi criar um sistema capaz de investigar digitalmente ofertas irregulares de serviços de arquitetura em sites e plataformas digitais, como também de facilitar a organização dos documentos internos do próprio Conselho.
APROXIMAÇÕES INSTITUCIONAIS E PARCERIAS ESTRATÉGICAS COM MUNICÍPIOS A aproximação com as prefeituras mostrou que o trabalho dos profissionais de arquitetura e urbanismo vai muito além de desenhar casas ou projetos particulares, sendo fundamental para planejar o crescimento das cidades. Desde 2024, os representantes do Conselho participam de grandes encontros de prefeitos e vereadores, como o Conexidades e o Congresso Estadual de Municípios. Nessas ocasiões, foram fechadas parcerias com grandes organizações do estado, como a Associação Paulista de Municípios (APM) e a União dos Vereadores do Estado de São Paulo (UVESP), abrindo espaço para debates sobre melhorias urbanas. Essas colaborações garantiram posições técnicas em comissões ambientais e abriram espaço para artigos especializados em revistas voltadas a gestores públicos, incentivando a realização de concursos e a contratação de equipes técnicas fixas nas administrações municipais. A representação do Conselho também cresceu nos espaços onde as grandes decisões sobre a sociedade são tomadas, como na conquista de vaga titular na primeira formação do Conselho Estadual das Cidades, contando hoje com mais de 70 profissionais atuando diretamente em conselhos municipais e estaduais
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voltados para transporte, habitação, meio ambiente e preservação do patrimônio. Esse amadurecimento nas relações institucionais abriu portas para agendas estratégicas com as prefeituras por meio do projeto ATHIS em Rede que viabilizou a adesão direta dos municípios em um amplo programa de treinamento presencial em Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) para gestores públicos, técnicos e funcionários municipais, Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e profissionais das áreas de Arquitetura e Urbanismo.
UM PROGRAMA DE RESIDÊNCIA TÉCNICA PARA ARQUITETOS(AS) E URBANISTAS Com o objetivo de promover a valorização profissional e capacitar os profissionais a atuar em áreas no setor público, o CAU/SP desenvolveu o Programa de Qualificação em Políticas Públicas com a Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP), denominado “Residência Técnica em Arquitetura e Urbanismo”, uma iniciativa pioneira do Conselho para capacitação profissional de jovens arquitetos e urbanistas para atuarem com urbanismo, habitação, desenvolvimento urbano e patrimônio cultural. A Residência Técnica em Arquitetura e Urbanismo concedeu bolsas de estudos aos jovens
profissionais em uma iniciativa piloto, onde recém formados exerceram o dia a dia do(a) arquiteto(a) e urbanista na gestão pública na prefeitura de São Paulo, demonstrando o potencial do Conselho em atuar proativamente no fortalecimento da profissão e da sociedade por meio da capacitação dos jovens profissionais de forma teórica e prática. Como desdobramento dessa experiência, o CAU/SP expandiu o Programa e aprovou em 2026 uma segunda Residência Técnica, agora no interior do Estado, em um projeto que visa capacitar jovens arquitetos(as) e urbanistas a atuarem na gestão territorial.
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Em colaboração com o Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP de São Carlos (IAU/ USP) e a Superintendência do Patrimônio da União em São Paulo (SPU/SP), o Programa tem como objeto de estudo as áreas que pertenciam à extinta Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e que agora fazem parte do patrimônio da União nos municípios na região de São Carlos.
É o CAU/SP promovendo a capacitação profissional, formação continuada, expansão do mercado de trabalho, aproximação com Instituições de Ensino e Governamentais no interior do Estado com potencial de replicação em outros territórios.
ve na solução de problemas complexos, como a regularização de bairros, a mobilidade urbana, a revisão das leis de zoneamento e a aplicação dos programas de moradia popular para famílias de baixa renda. A parceria com a APM, por exemplo, abriu portas para que representantes da categoria ocupem assentos em grupos que discutem o futuro do meio ambiente e das cidades, e faz com que os governantes compreendam a importância de contratar profissionais qualificados, como da necessidade de se ampliar o número de arquitetos concursados nas equipes das prefeituras, garantindo a qualificação dos projetos e a valorização profissional nas diversas esferas em que o arquiteto atua no poder público.
ACORDOS MUNICIPALISTAS O trabalho do CAU/SP junto às prefeituras foca em mudar uma visão antiga, muito comum em cidades menores, de que a arquitetura e o urbanismo servem apenas para projetos particulares ou de luxo, um serviço especial para poucos. Para reverter esse cenário e mostrar como a profissão é essencial no dia a dia das cidades e destinada para todos, o Conselho vem construindo um diálogo próximo com grandes entidades que representam os municípios paulistas e nacionais, como a Associação Paulista de Municípios (APM), a UVESP (União dos Vereadores do Estado de São Paulo), a Associação dos Municípios de Pequeno e Médio Porte do Estado de São Paulo (AMPPESP) e a Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP). Essa aproximação acontece por meio de acordos de cooperação e da participação do Conselho em grandes eventos políticos, marcando presença em debates importantes como o Conexidades e o Congresso Estadual de Municípios. Nesses encontros, o CAU/SP dialoga diretamente com prefeitos, vereadores e secretários para mostrar que o arquiteto é peça-cha-
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Assinatura do Acordo de Cooperação entre CAU/SP e APM. Foto: acervo CAU/SP, 2025
UM CAU QUE VALORIZA E APOIA O PROFISSIONAL Encontrar espaço no mercado de trabalho e construir estabilidade ao longo da vida profissional é desejo e também um enorme desafio a todos aqueles que escolhem a Arquitetura e Urbanismo. A gestão 2024-2026 do CAU/SP reconhece os passos dessa jornada, que se inicia já na graduação, na busca por condições de permanência, no bom desenvolvimento dos estudos e na realização dos estágios.. Esse percurso também é marcado pela necessidade de constante atualização e especialização, na realização de cursos de formação continuada, bem como na participação em eventos e feiras da área.
Do exercício ético-profissional, passando pelas novas ferramentas digitais de trabalho, aos temas importantes que envolvem os serviços de arquitetura e urbanismo, como habitação social, mobilidade urbana, patrimônio cultural, mudanças climáticas e acessibilidade, a realização de palestras teve fluxo redefinido para garantir rápido atendimento e maior aproximação do Conselho com profissionais docentes e estudantes de Arquitetura e Urbanismo.
Com esse entendimento, o CAU/ SP estruturou projetos e ações que revelam um verdadeiro sistema de apoio ao profissional, que envolve o fornecimento de palestras técnicas e institucionais dedicadas aos alunos de todas as fases desta trajetória, como no desenvolvimento de materiais e programas especiais.
Como parte fundamental desse esforço, a gestão atual também disponibilizou um Guia de Estágio que estabelece cuidados e dicas para as instituições de ensino, os estudantes e os escritórios onde os estágios se realizarão. Além disso, vem estruturando um Programa de Estágio, em parceria com o Instituto Aproxima, com o objetivo de conectar estudantes de Arquitetura e Urbanismo do estado de São Paulo a oportunidades de estágios supervisionados em empresas e escritórios parceiros, com atenção ao quadro existente de precarização e dificuldade de inclusão de profissionais jovens.
Nesta gestão, foram desenvolvidos um guia e um programa para o desenvolvimento de estágios, como de diversas ações de acolhimento ao recém-formado, a disponibilização de uma plataforma aberta de aprendizado e cursos com mentoria de profissionais experientes.
A transição da experiência universitária para a primeira fase da jornada, agora, profissional, é trabalhada nas Ações de Acolhimento Profissional do CAU/SP, pelas quais o Conselho apresenta orientações essenciais sobre conduta ética-profissional, noções básicas para a organização da vida profissional e formas de interação com o sistema CAU.
OS PRIMEIROS PASSOS DO PROFISSIONAL Voltados aos primeiros passos da jornada profissional de arquitetos e arquitetas e urbanistas, a gestão 2024-2026 do CAU/SP ampliou e consolidou o fornecimento de palestras técnicas e institucionais cujos conteúdos são resultado dos debates constantes de Comissões que integram os representantes eleitos pelos profissionais de todo o estado de São Paulo. MÓBILE #29
Todas as palestras e eventos estão disponíveis no canal do Youtube do CAU/SP. Entre 2024 e 2026, foram contabilizadas 144 palestras!
Entre 2024 e 2025, foram realizadas 66 ações em 18 cidades paulistas, o que também reforça as estratégias de descentralização da atuação do Conselho pela gestão atual.
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A CAPACITAÇÃO DO PROFISSIONAL NOS CONTEÚDOS DO CAU Um dos grandes passos desta gestão foi conseguir reunir e organizar todo o conteúdo produzido pelo CAU/SP nos últimos anos. Foram identificados aproximadamente 800 conteúdos e capacitações em áreas técnicas e gerenciais. Considerando sua atualidade e aderência às questões atuais da profissão, uma seleção de 190 itens formativos já está organizada e disponível para consulta por meio de uma plataforma de acesso aberto e gratuito. E assim foram desenvolvidos uma plataforma e um programa de formação estruturados e abertos a novas dinâmicas e conteúdos que certamente comporão em definitivo o futuro de atuação do CAU/SP junto aos seus profissionais!
A Plataforma de Trilhas e Formação Continuada reúne esse acervo digital, bem como todos os normativos do Conselho, de interesse dos profissionais de Arquitetura e Urbanismo. Ao recomendar determinadas trilhas profissionais em diferentes campos de atuação, também funciona como um espaço digital de formação dedicado a jovens profissionais que buscam aprendizados para constituírem suas carreiras, bem como a profissionais experientes para que se atualizem tecnicamente. Conectado a essa plataforma, o Programa de Mentoria Profissional oferece cursos de desenvolvimento contínuo em áreas essenciais. Cuidadosamente elaborados, os primeiros cursos a integrarem esse programa são os de “Gestão de Negócios e Arquitetura e Urbanismo”, o de “Apoio Profissional”, ministrado 100%
PLATAFORMA TRILHAS E FORMAÇÃO CONTINUADA
Confira a Plataforma de Trilhas e Formação Continuada, que reúne uma seleção de mais de 190 itens formativos para profissionais arquitetos e urbanistas.
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online e voltado aos aspectos práticos da profissão, abordando temas como a elaboração e gestão de contratos, finanças, aspectos jurídicos, noções contábeis e rotinas comerciais para quem está abrindo um escritório ou atuando de forma autônoma. Também integram o Programa de Mentoria Profissional, cursos voltados ao serviço público, por meio das próprias Prefeituras ou via Organizações da Sociedade Civil (OSCs) que dialogam diretamente com urgências apresentadas pelas cidades, tais como o Curso de Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social e o curso Introdução ao papel de arquitetos e urbanistas no enfrentamento às mudanças climáticas, que oferecem conteúdos importantes relacionados à legislação urbana e ambiental vigente, às políticas governamentais em curso e soluções técnicas contemporâneas, além de terem oportunidade de aprofundar conhecimentos sobre adaptação urbana, mitigação de riscos e resiliência climática.
A VALORIZAÇÃO DAS BOAS PRÁTICAS A celebração da qualidade técnica e da relevância social da profissão ganhou um impulso significativo com o Concurso de Boas Práticas em Arquitetura e Urbanismo. Criado com o objetivo de identificar, mapear e celebrar inovações urbanísticas e arquitetônicas em São Paulo, o prêmio celebra iniciativas alinhadas à sustentabilidade, acessibilidade universal, economia circular e ao desenvolvimento comunitário. Essa edição estabeleceu um novo recorde, com 138 projetos qualificados inscritos! Esta edição trouxe marcos inovadores que redefiniram o papel da premiação. As propostas elegíveis foram distribuídas de forma abrangente em cinco categorias fundamentais, abrangendo as diversas áreas da arquitetura e urbanismo no estado. O concurso trouxe um marco histórico essencial para o estímulo do
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setor. Pela primeira vez, os vencedores das categorias voltadas à atuação profissional receberam um reconhecimento financeiro, com um total de R$100.000,00 distribuídos entre os primeiros colocados, além de menções honrosas. O principal destaque foi o ineditismo da categoria Poder Público, implementada pela primeira vez com o propósito de reconhecer e dar visibilidade às boas práticas de planejamento e gestão desenvolvidas no âmbito da administração pública, valorizando o papel crucial de arquitetos e urbanistas que atuam no serviço público. Já a categoria Setor Privado / Profissionais Autônomos destinou-se a projetos, obras e soluções desenvolvidas por escritórios, empresas e profissionais liberais no mercado. O terceiro setor também foi contemplado por meio da categoria Organizações da Sociedade Civil (OSCs), voltada para iniciativas com impacto social, comunitário e de habitação de interesse social. No âmbito acadêmico, a categoria Ensino e Formação Acadêmica celebrou práticas pedagógicas, projetos de extensão e trabalhos que conectam a universidade às necessidades reais da sociedade. Por fim, a categoria Atividades de Comunicação e Difusão concentrou-se em premiar publicações, mídias e ações que promovessem o letramento urbano e a valorização da profissão perante a sociedade civil.
Com esse desenho renovado, o Concurso de Boas Práticas em Arquitetura e Urbanismo consolida-se não apenas como um prêmio de excelência técnica, mas também como uma vitrine de projetos para melhoria da qualidade de vida das cidades e da sociedade como um todo!
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O RECONHECIMENTO DA DIVERSIDADE Comprometida com a valorização efetiva dos profissionais, a atual gestão iniciou 2025 com um diagnóstico aprofundado sobre o perfil dos arquitetos e urbanistas paulistas. Em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), a Comissão de Políticas Afirmativas promoveu um estudo abrangente — unindo a robustez estatística de mais de 2.000 respostas a uma análise qualitativa detalhada via grupos focais — para mapear como gênero e raça intersectam a realidade da nossa categoria. Os números destacam disparidades gritantes no mercado do estado de São Paulo. O estudo mostrou, por exemplo, que, quando comparadas a homens brancos com a mesma idade e nível de instrução.
Arquitetas negras têm uma probabilidade 91% menor de alcançar rendas médias a altas na carreira, e homens negros possuem 53% menos chances de dedicar-se integralmente à sua área de formação.
Os grupos focais revelaram que os canteiros de obras, majoritariamente masculinos, operam sob uma dinâmica de hostilidade e assédio. Nesse cenário, o constante questionamento do conhecimento e da autoridade das mulheres evidencia um ambiente de trabalho pautado pela misoginia. Profissionais negros compartilharam na pesquisa experiências de racismo explícito e velado, como a de identificarem a surpresa de contratantes ao descobrirem a cor de candidatos qualificados, a desvalorização de referências originárias de periferias por parte de professores universitários e a descredibilidade e invisibilidade em reuniões e grupos de trabalho. A pesquisa também destacou que a maternidade é um fator significativo de exclusão, chegando a motivar demissões sob a alegação infundada de falta de tempo de dedicação ao trabalho. Além disso, o etarismo também se mostrou um obstáculo considerável para profissionais com mais de 40 anos, especialmente mulheres negras que trabalham de forma autônoma sem qualquer contribuição ou planejamento para a aposentadoria. Como uma resposta imediata a esse cenário, a CPAF formulou um Plano de Ações Afirmati-
A visita mediada ao Museu das Culturas Indígenas, em São Paulo, reuniu profissionais e estudantes de Arquitetura e Urbanismo em uma iniciativa do CAU/SP para promover reflexão sobre patrimônio, diversidade e culturas dos povos originários. Foto: acervo CAU/SP, 2025
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Edital do CAU/SP destaca práticas pedagógicas em Arquitetura e Urbanismo voltadas para a comunidade escolar . Foto: acervo CAU/SP
vas voltado para a capacitação profissional e o
acesso a softwares para jovens talentos, com prioridade para arquitetos e urbanistas negros. O Plano ainda inclui o trabalho do CAU/SP pela inclusão de pontuação e critérios de desempate baseados em raça, gênero e localidade nos concursos e seleções públicas. Em colaboração com outros Conselhos, o Plano também contempla ações de combate ao assédio, em suas diversas formas, além do enfrentamento ao etarismo com foco na aposentadoria e em uma atualização cadastral que incorpore obrigatoriamente os campos de raça, cor, gênero e deficiências, corrigindo um problema histórico que dificulta a qualificação e o acompanhamento das políticas públicas. Outra iniciativa no sentido de enfrentar as desigualdades sociodemográficas reveladas pelas pesquisas foi a criação do percurso de aprendizado e dos encontros "Vozes Negras na
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Arquitetura e Urbanismo", compondo a trilha
formativa que oferece um acervo de videocasts, capacitações e conteúdos didáticos voltados à decolonização das referências tradicionais da área da Arquitetura e Urbanismo e do debate sobre a sociedade contemporânea, colocando em primeiro plano as tecnologias ancestrais, a luta contra o racismo ambiental e os métodos construtivos tradicionais. Também foi realizado o encontro "Mulheres na Arquitetura e Urbanismo: Trajetória, Autonomia e Formalização Profissional", que contribuiu ao abordar as consequências da maternidade na trajetória de profissionais autônomas e disponibilizou orientação especializada em administração de contratos, finanças e regularização de negócios.
O compromisso na construção de cidades mais inclusivas e diversas também se deu com
a formalização de um Acordo de Cooperação
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No distrito do Jaraguá, zona noroeste da capital, a 23 km do Centro Histórico, está localizada a Aldeia Tekoá Itawera, uma das 8 “Tekoas” (aldeias), que reúnem os povos guarani e guarani Mbya. Em novembro de 2025, uma comitiva de representantes do CAU/SP visitou esta aldeia como parte das atividades da recém-criada Câmara Temática “Arquitetura e Urbanismo e Diversidade: Quilombolas e Indígenas”. Foto: acervo CAU/SP, 2025
Técnica junto ao Instituto Tebas de Educação e Cultura. Essa união de esforços resultou em ações como a de aprofundar as pesquisas sobre a presença histórica de arquitetos e construtores negros na formação das metrópoles paulistas, que passaram a fornecer materiais didáticos para programas de capacitação e impulsionam a decolonização dos currículos acadêmicos.
Nesta mesma agenda de direitos humanos e direito à cidade, foi realizado o evento "Memória, Resistência e Futuro LGBTQIAPN+ na Cidade", onde foram destacadas as vulnerabilidades territoriais e pautou o desenvolvimento de diretrizes técnicas para que os novos projetos arquitetônicos e urbanísticos combatam ativamente a homofobia, transformando o ambiente urbano em um local de inclusão e proteção da pluralidade na nossa sociedade. Por meio da Câmara Temática de Arquitetura Quilombola e Indígena, a tarefa concreta envolveu o equilíbrio entre os saberes tradicionais e a valorização da formação técnica e acadêmica. Foram realizadas três visitas de campo imersi-
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vas, uma na Aldeia Tekoá Itawera, no Jaraguá, para discutir moradia climática com técnicas de pau a pique. A segunda ocorreu no Quilombo Anastácia, em Araras, com foco em observar métodos de bioconstrução com terra e práticas agroecológicas contra o racismo ambiental, e a última foi nos núcleos urbanos negros preservados em Santos. Em maio de 2025, a Câmara promoveu também uma visita guiada ao Museu das Culturas Indígenas para 24 estudantes e profissionais, detalhando modelos de gestão comunitária liderados por povos originários. Esse trabalho gerou efeitos práticos na destinação de recursos públicos, resultando no Edital de Assistência Técnica para a Habitação de Interesse Social, bem como o Edital CAU+Pesquisa, que incorporou o Inventário de Referências para Patrimônio Cultural de Povos Originários e Afro-diaspóricos no Estado de São Paulo. Esses editais incluíram o recorte de racismo ambiental e estabeleceram uma linha de financiamento exclusiva para o resgate de técnicas construtivas tradicionais.
UM CAU ATIVO E PROPOSITIVO PERANTE A SOCIEDADE Ter um Conselho ativo e propositivo perante a sociedade implica compreender que a Arquitetura e Urbanismo atua na transformação da realidade coletiva e impulsiona à garantia de direitos fundamentais. Pensando nisso, a gestão 2024-2026 posicionou o CAU/SP como ator relevante para as discussões contemporâneas sobre o presente e o futuro das cidades. O cumprimento dessa missão acontece em um ambiente desafiador, marcado pela necessidade de proteger as prerrogativas de atribuição da categoria e responder com urgência aos impactos da crise climática que se somam aos desdobramentos do desenvolvimento urbano e social desigual que marca o território brasileiro. Entre as estratégias lançadas, o CAU/SP age com eficiência na defesa da aplicação do salário mínimo profissional, sobretudo junto a editais de publicação para contratação de profissionais no setor público, bem como na defesa da garantia do exercício de atribuições previstas na lei de regulamentação da profissão. Paralelamente, o Conselho amplia sua influência ao investir em projetos de impacto urbano e social, que também contribuem para sensibilizar o poder público e a sociedade em geral sobre a função social que cumprem os profissionais de arquitetura e urbanismo, sobretudo junto a organismos e fóruns internacionais.
HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL No campo da habitação de interesse social, a consolidação das políticas de desenvolvimento urbano ganhou um marco e projeção internacional por meio do projeto ATHIS em Rede. Desenvolvida em cooperação técnica com o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat) e a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, a iniciativa global estabeleceu um investimento de R$ 8 milhões voltado integralmente a estruturar, dis-
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seminar e articular a Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) no território paulista. O objetivo dessa articulação em rede foi conectar a ATHIS de forma prática às prefeituras municipais, aos profissionais de arquitetura e urbanismo, às universidades e aos movimentos sociais organizados para enfrentar o déficit habitacional e promover o direito à moradia digna. Essa metodologia ganhou visibilidade global com a participação do CAU/SP no Fórum Urbano Global (WUF), realizado em Baku, no Azerbaijão. No evento internacional, o Conselho apresentou os resultados práticos da experiência adotada em São Paulo, compartilhando suas diretrizes com a comunidade internacional. Como desdobramento desse processo de internacionalização, a gestão consolidou sua posição de liderança ao organizar a recepção do Fórum sobre ATHIS Global, evento que reuniu delegações estrangeiras, especialistas e agências parceiras para debater o papel da arquitetura pública no enfrentamento dos déficits habitacionais em países em desenvolvimento. Essa troca de saberes fortaleceu a política de suporte técnico do CAU/SP, tornando-a um modelo metodológico global, o que evidencia a possibilidade de usar meios da própria instituição para corrigir fragilidades urbanas de longa data. Em resumo, a operação do projeto foi estruturada em três pilares de ação, o primeiro focou no mapeamento detalhado e no diagnóstico de dados habitacionais das cidades de menor porte e regiões vulneráveis, com o intuito de detectar as necessidades efetivas da comunidade em termos de saneamento e formalização de propriedades. O segundo pilar consistiu na capacitação técnica contínua e no treinamento de gestores e servidores públicos municipais para que as prefeituras saibam como estruturar editais, captar recursos e implementar escritórios públicos de assistência técnica com segurança jurídica. Por
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Missão técnica da Cathis (CAU/SP) a Cabo Verde no âmbito do projeto-país Cabo Verde, em parceria com a ONU-Habitat e a ABC/MRE. Foto: acervo CAU/SP, 2025
fim, a terceira parte do programa foi sobre o fomento direto à produção de projetos e reformas em assentamentos precários, transformando as diretrizes teóricas em canteiros de obras efetivos.
O engajamento de profissionais autônomos e recém-formados em dinâmicas de assistência comunitária, viabilizado por meio de projetos do CAU/SP, não apenas expandiu as fronteiras do mercado de trabalho para a categoria, mas consolidou a função social da arquitetura como ferramenta ativa de inclusão e transformação urbana. 34
A DEFESA DAS PRERROGATIVAS PROFISSIONAIS E VITÓRIAS JUDICIAIS Para defender as oportunidades de trabalho e assegurar que os serviços de arquitetura e urbanismo sejam contratados de maneira adequada, o CAU/SP entendeu ser fundamental uma ação judicial eficiente frente aos pagamentos abaixo do piso salarial da categoria e para combater exigências inapropriadas que barram a participação de arquitetos e urbanistas em concursos oficiais. Por meio do Plano Estadual de Fiscalização, o Conselho esteve atento a falhas em processos de licitação, concursos públicos e contratações feitas pelo poder público em todo o território paulista. A atividade jurídica levou à análise mi-
nuciosa de 50 editais com restrições inadequadas ou que desvalorizavam o trabalho técnico do profissional. Diante das falhas identificadas, o Conselho priorizou a resolução administrativa, abrindo diálogo com os municípios e órgãos responsáveis pelas licitações. Nos casos em que não houve acordo, o órgão agiu prontamente, movendo 23 ações civis públicas. Esse posicionamento eficiente permitiu a correção e a resolução de 24 editais, atingindo um índice de 85% de resultados positivos nos tribunais. As vitórias judiciais garantiram não apenas a correção dos salários e a reabertura dos prazos, mas também estabeleceram um importante precedente na justiça de São Paulo, garantindo que o desenvolvimento das cidades e os projetos públicos sejam realizados por profissionais qualificados e devidamente remunerados.
O PROJETO CLIMA E ADAPTABILIDADE E O CAU/SP NA COP 30 Por meio do Projeto Clima e Adaptabilidade, o CAU/SP consolidou sua inserção nos debates globais sobre sustentabilidade, resiliência urbana e o papel das cidades no enfrentamento da crise climática. Em Belém do Pará, visando a preparação e a participação estratégica na 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 30), a autarquia desenvolveu um ecossistema completo de suporte técnico para demonstrar que o desenho urbano e as soluções baseadas na natureza são instrumentos centrais na mitigação de desastres socioambientais. Essa articulação institucional foi pensada para colocar arquitetos(as) e urbanistas no protagonismo da adaptação das cidades às mudanças climáticas. Como resultado, o CAU/ SP liderou uma rede de colaboração com outros CAU/UFs, garantindo reconhecimento nacional às contribuições da profissão.
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Os números da COP 30 foram expressivos: a Greenzone teve uma média diária de mais de 24 mil acessos, totalizando 294.262 visitantes. O estande do Conselho atraiu cerca de 3.000 pessoas nos painéis presenciais e obteve 4.200 visualizações nas exposições virtuais. No ambiente online, as transmissões superaram os acessos de anos anteriores, mostrando o grande impacto das 79 atividades e 47 exposições realizadas em parceria com o Poder Público, universidades e movimentos sociais. O evento resultou na Carta da Terra e da Cidade, com reflexões importantes sobre justiça climática. Para que essas diretrizes globais se transformassem em ações concretas nas cidades paulistas, o Conselho agiu na produção e divulgação de conhecimento ambiental e ferramentas de capacitação para profissionais e gestores públicos. Entre as principais realizações, destacam-se o lançamento da “Escola Política do Território” e a organização do “Seminário de Justiça Climática e Adaptabilidade das Cidades", e o “Seminário Cidades: Territórios e Águas”. No âmbito das ações de capacitação, ainda foi promovido o curso "Introdução ao papel de arquitetos e urbanistas no enfrentamento às mudanças climáticas" Das publicações, o Conselho organizou e atualizou o Caderno de Apoio para Profissionais, focado em instrumentos de planejamento e gestão ambiental. Além disso, publicou a
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Estande do CAU/SP na COP30. Foto: acervo CAU/SP, 2025
“Coletânea Ambiental”, um conjunto de quatro publicações de apoio profissional destinadas a orientar o ordenamento territorial adequado e a aplicação de infraestrutura verde nas cidades. O Conselho também atuou em instâncias regulatórias, divulgando orientações técnicas alinhadas ao Programa Cidades Verdes Resilientes e à publicação do decreto regulamentador da Zona de Amortecimento (ZAM), garantindo segurança jurídica e consistência técnica às intervenções urbanas. O conjunto de ações se fortalece por meio do edital de fomento do Concurso de Boas Práticas CAU/SP, que teve como foco principal as respostas à emergência climática. O prêmio é destinado a Trabalhos de Conclusão de Curso, práticas profissionais e iniciativas governamentais que utilizem Soluções Baseadas na Natureza (SBN) e Tecnologias de Baixo Carbono.
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A EXPANSÃO E A PLURALIDADE DOS EDITAIS DE FOMENTO Nesta gestão, a aplicação dos recursos arrecadados pelo Conselho foi direcionada para a expansão e descentralização de investimentos financeiros em projetos de interesse público. Os recursos foram distribuídos por meio de editais com objetivos delimitados. Para melhor administração dos processos, o CAU/SP ainda atualizou todo o procedimento de submissão, avaliação e entregas para a plataforma Prosas. O edital de habitação social, por exemplo, instituído em 2018, liberou R$2 milhões para 14 projetos voltados a melhorias em casas e regularização de terras em áreas carentes, comunidades quilombolas e indígenas, abrangendo pela primeira vez a questão do racismo ambiental. O edital de preservação do patrimônio
cultural contou com R$600 mil na edição atual
para pesquisas, levantamentos e trabalhos de formação, projetos de restauro e valorização de grupos invisibilizados, como do Inventário de Referências de Povos Originários e Afro-diaspóricos. A terceira vertente dos editais foi para projetos de ensino sobre a cidade em escolas públicas, o CAU Educa, lançado em 2022, que entrega ações locais e materiais pedagógicos especiais sobre arquitetura e urbanismo.
BENEFÍCIOS PARA O PROFISSIONAL Instituído com o propósito de valorizar a categoria e oferecer suporte prático ao cotidiano profissional, o Programa de Benefícios foi desenhado para promover o bem-estar, o apoio técnico e a formação continuada de arquitetos(as) e urbanistas. A iniciativa foi formalizada recentemente por meio da Portaria Normativa
nº 221, de 23 de abril de 2025, que dispõe sobre a Política de Relações Institucionais do CAU/ SP. A partir dessa regulamentação, o Conselho conseguiu viabilizar que empresas especializadas negociem descontos e firmem parcerias estratégicas para a oferta de produtos e serviços vantajosos para os profissionais. Na frente voltada à saúde e à segurança, o programa avança na busca por facilitar o acesso a planos de assistência médica, seguros de responsabilidade civil profissional e diferentes iniciativas de qualidade de vida. O suporte deve se estender também à sustentabilidade da atuação profissional, englobando a facilitação de serviços de contabilidade e consultoria jurídica para os profissionais. Para além do ambiente de trabalho, a rede de parcerias prevê convênios que impactam positivamente o dia a dia e o lazer dos profissionais, cobrindo áreas essenciais como alimentação, transporte urbano, entretenimento e atividades culturais.
MONITORAMENTO DAS PARCERIAS A Comissão Permanente de Monitoramento das Parcerias é responsável por acompanhar e avaliar as parcerias firmadas pelo CAU/SP com organizações da sociedade civil e órgãos da Administração Pública.
Acesse, pelo QR Code ou link, as atualizações sobre o monitoramento das parcerias e conheça, por meio do mapa interativo, os fomentos promovidos pelo CAU/SP. https://transparencia.causp.gov.br/monitoramento-das-parcerias/
Mapa interativo com projetos contemplados pelos Termos de Fomento do CAU/SP
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CAU/SP 2024-2026
Parcerias de impacto A trajetória da política de fomento do CAU/SP ao longo dos anos
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ora dos escritórios e dos moldes tradicionais do mercado de trabalho, profissionais de arquitetura e urbanismo encontram cada vez mais um novo horizonte profissional nos editais de fomento promovidos por conselhos profissionais e órgãos públicos. Nesse tipo de iniciativa, a criatividade encontra apoio financeiro e condições favoráveis para o trabalho em parceria, reafirmando a dimensão social e transformadora da arquitetura e do urbanismo. Ao longo de sua história, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP) consolidou os editais de fomento como um dos pilares de valorização profissional, destinando recursos diretos para a execução de projetos apresentados por Organizações da Sociedade Civil (OSCs) — entidades sem fins lucrativos que desenvolvem ações de interesse público. Essa modalidade, regida pelo Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC), criado pela Lei Federal n.º 13.019/2014, permite que o CAU/SP contribua para a realização de trabalhos de impacto, consolidando o papel da autarquia como promoto-
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ra de transformações sociais. Para os profissionais de arquitetura e urbanismo, o fomento abre oportunidades em áreas como habitação social, patrimônio cultural e educação urbanística. As leis que regulamentam o fomento e a licitação são muito distintas. Em uma licitação, o órgão ou autarquia pública disputa com o fornecedor a melhor qualidade pelo menor preço para suprir uma necessidade; enquanto o fornecedor busca maximizar o valor recebido pelo produto ou serviço entregue. Em uma parceria de fomento, por outro lado, os interesses do CAU/SP e das OSCs convergem, pois ambos compartilham um objetivo comum.
TIPOS DE EDITAIS DE FOMENTO Os editais de fomento do CAU/SP são divididos em eixos temáticos já consolidados, que garantem diversas oportunidades de parceria para OSCs ao longo do ano. As modalidades incluem a Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS), a Assistência
Técnica à Preservação do Patrimônio Cultural (PAT Cultural) e os Estudos e práticas ambientais pedagógicas na Arquitetura e Urbanismo junto às comunidades escolares públicas do Estado de São Paulo (CAU Educa).
ATHIS Instituída por lei federal em 2008, a ATHIS integra o direito social à moradia digna e de qualidade e atua na transformação de áreas socialmente vulneráveis, ao articular aspectos ambientais, econômicos, sociais e étnico-raciais. Os editais desta modalidade têm como foco incentivar projetos de melhoria habitacional, regularização fundiária e melhoria de espaços públicos vinculados à moradia, além de provocar os profissionais a mitigar os impactos da crise climática e a criar territórios mais resilientes. Em 2024, o CAU/SP lançou o edital de ATHIS com foco na saúde urbana em comuni-
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dades de baixa renda. Foram contempladas 14 iniciativas, a maioria com os trabalhos já concluídos e prestação de contas aprovadas e publicadas no Portal da Transparência do CAU/SP. Em 2025, o edital teve como tema central Racismo Ambiental e seus impactos na moradia das populações vulneráveis. Foram 18 projetos contemplados em todo o estado de São Paulo, com ações em áreas urbanas consolidadas, áreas rurais, territórios indígenas e quilombolas. Na última edição, lançada em março de 2026, o tema central definido pelo CAU/SP foi Habitação Social Resiliente: eficiência energética, soluções
baseadas na natureza (SbN), clima e segurança territorial, contemplando 14 projetos em dois lotes temáticos: fomento a ações de ATHIS em parcerias — vinculadas a acordos de cooperação técnica que o CAU/SP mantém com órgãos públicos ,(como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária ([INCRA)] no Estado de São Paulo e a Secretaria Nacional de Periferias ([SNP)] do Ministério das Cidades) -, e um segundo lote direcionado a ações inovadoras em habitação social e à valorização de iniciativas já fomentadas em anos anteriores. Ao todo, foram destinados R$215 milhões aos editais de fomento.
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PAT CULTURAL Criado em 2021, o PAT Cultural apoia projetos relacionados à conscientização sobre o patrimônio cultural arquitetônico, paisagístico e natural de São Paulo. Os montantes investidos superaram R$3,2 milhões até dezembro de 2025. O primeiro edital destinou R$225 mil para apoiar três projetos; já o de 2025 mais que dobrou o valor e distribuiu R$624 mil entre seis iniciativas. Ao todo, 24 projetos já foram contemplados nessa modalidade. Na edição de 2025, o PAT Cultural teve dois lotes: Proje-
tos e Metodologia de Preservação e Pesquisa e Formação. O primeiro abrangeu trabalhos com participação social para a conservação, restauração, atualização tecnológica e adequação às normas técnicas (especialmente acessibilidade). Já o segundo apoiou trabalhos de pesquisa e atividades de formação profissional que tinham o patrimônio cultural edificado como objeto. Além dos trabalhos mencionados, houve ainda, em 2025, um chamamento público especial em parceria com a Superintendência do Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em São Paulo (IPHAN-SP). Com abordagem distinta dos demais, ele foi direcionado a OSCs com especialização em patrimônio cultural, associadas a uma Instituição de Ensino Superior (IES), e tinha como objetivo promover formação continuada em patrimônio cultural, com etapas de diagnóstico, ocupação e intervenção no Sítio Santo Antônio — conjunto rural bandeirista do século XVII, tombado em nível estadual e federal e de propriedade do IPHAN-SP.
CAU EDUCA A terceira linha de editais é dedicada à seleção de propostas para ações educacionais voltadas às temáticas do dia a dia da cidade, do espaço urbano e da relação deste com o cidadão. O programa foi criado em 2018 pelo CAU/BR, como concurso para premiar práticas pedagógicas inovadoras voltadas à Educação Urbanística para estudantes dos ensinos Fundamental e Médio. No CAU/SP, a iniciativa foi transformada em edital de fomento como forma de ampliar o acesso de comunidades em todo o Estado e promover iniciativas relevantes de OSCs já engajadas em práticas pedagógicas
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que fortalecem a arquitetura e o urbanismo mais humanos. Na prática, esse fomento incentiva o desenvolvimento de metodologias e materiais paradidáticos voltados à educação arquitetônica, urbanística e ambiental para jovens e crianças e para a comunidade escolar. Além disso, valoriza a atuação profissional na produção de equipamentos escolares e espaços urbanos verdes. O edital de 2024 já tem suas prestações de conta e resultados publicados no Mapa de Monitoramento dos Fomentos do CAU/SP. O edital mais recente, de 2025, teve três lotes. O primeiro teve foco em ci-
dades resilientes, vulnerabilidade ambiental, ocupação de áreas de risco e utilização inteligente da água. O segundo, em pesquisas sobre a história das águas, sua relação com a formação da paisagem urbana e estratégias de sensibilização acerca do patrimônio ambiental. O último teve foco em mobilidade e acessibilidade, especialmente na percepção sensorial de segurança urbana e em percursos adequados a pessoas com limitações físicas e cognitivas. Em 2026, o edital deve ser lançado no segundo semestre, em formato semelhante ao de 2025.
EXPANSÃO E APRIMORAMENTO DOS FOMENTOS A evolução dos investimentos em fomento pelo CAU/SP pode ser medida em números. Em 2012, apenas um ano após a instalação do Conselho, o investimento no patrocínio de seis projetos foi de aproximadamente R$247 mil. Já em 2025, o valor total aplicado em parcerias de fomento foi superior a R$4 milhões, abrangendo 31 termos assinados em um único ano. Nesse percurso, o CAU/SP já acumula quase R$ 23 milhões investidos em 14 anos (2012– 2025), com 292 Termos de Fomento assinados para ações da sociedade civil distribuídas por todas as regiões do Estado de São Paulo — ações que difundem a arquitetura e o urbanismo inovadores e socialmente responsáveis. Além do montante financeiro, os recursos se traduzem em ações concretas. Diversos projetos fomentados pelo CAU/SP avançaram para execução com recursos das próprias comunidades envolvidas ou de entes governamentais nos âmbitos municipal, estadual e federal. Como exemplo, há projetos de ATHIS contemplados no programa Periferia Viva, do Governo Federal. Além disso, o edital de 2024 teve projetos em parceria com a Superintendência
QUANTIDADE DE TERMOS DE FOMENTO POR ANO (CAU/SP)
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do Patrimônio da União em São Paulo (SPU-SP) e entregou produtos técnicos à autarquia federal para viabilizar a regularização fundiária de áreas de interesse social contíguas à malha ferroviária de propriedade da União, no Estado de São Paulo. Já no aspecto geográfico, há um esforço institucional do CAU/SP para a interiorização das propostas, para que os recursos financeiros alcancem OSCs de todo o Estado. Entre 2020 e 2024, por exemplo, a Capital e a Região Metropolitana concentraram 59 projetos fomentados, mas as demais áreas do Estado somaram 87 produtos. O destaque foi para a Baixada Santista, com 37 projetos. Tendo essa pluralidade em vista, a partir de 2024, os coordenadores regionais do CAU/SP foram capacitados para monitorar os projetos in loco, realizar visitas às comunidades e garantir que o impacto social e os objetivos do CAU/ SP em cada edital sejam alcançados. Essa proximidade com os projetos selecionados melhora a divulgação e a qualidade das propostas, especialmente fora da Capital.
VALOR INVESTIDO EM TERMOS DE FOMENTO POR ANO (CAU/SP)
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O QUE É O MROSC?
MODERNIZAÇÃO DO PROCESSO
As OSCs tiveram uma grande conquista com a aprovação da Lei Federal n.º 13.019/2014 e de sua regulamentação pelo Decreto n.º 8.726/2016 — conjunto normativo conhecido como Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC). Com sua entrada em vigor, foram criados novos instrumentos jurídicos para parcerias entre o poder público e as OSCs, com maior segurança nos processos, maior transparência na distribuição de recursos para a sociedade e maior eficiência na aferição de objetivos e metas.
A gestão dos editais de fomento também passou por modernização tecnológica com a adoção de uma plataforma online especializada, desde janeiro de 2025. A ferramenta centraliza o processo da inscrição ao monitoramento de metas e a execução financeira de cada projeto.
“Esta legislação se aplica a todos os órgãos públicos, não cabe ao CAU/SP escolher seguir ou não. Muitos profissionais se ressentem de não poder participar ‘enquanto CPF’ de um edital de fomento, mas podem, prestando serviço para uma OSC. Empresas também podem participar desta forma”, esclarece Antonio Couto Nunes, assessor chefe de Convênios e Parcerias do CAU/SP. Um diferencial nos editais de fomento do CAU/SP é o incentivo à renovação das OSCs. O Conselho introduziu novos critérios de pontuação para projetos que incluam a participação de entidades iniciantes em parcerias com organizações mais experientes — modalidade de colaboração já permitida, agora com pontuação diferenciada. Essa estratégia viabiliza a formação de novas OSCs voltadas a temas relevantes para o campo profissional e para o acesso à arquitetura e ao urbanismo, fortalecendo a rede de assessorias técnicas no Estado de São Paulo.
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Para a assessoria técnica do Conselho, essa mudança agiliza o dia a dia do setor, que antes lidava com um grande volume de arquivos, e amplia o alcance dos editais. A plataforma divulga os editais do CAU/SP para sua base de OSCs, que reúne mais de 240 mil organizações cadastradas em todo o país. Para assegurar que a prestação de contas não se restrinja ao aspecto financeiro e que o investimento gere conteúdo e reconhecimento para a categoria profissional, a entrega final precisa incluir produtos de comunicação de alta qualidade. Os projetos devem anexar fotos, vídeos e textos utilizáveis como referência para outros arquitetos e a sociedade.
CURSO MROSC A Escola Virtual Gov oferece um curso gratuito sobre a Lei nº 13.019/2014. Voltado a gestores públicos, profissionais de organizações da sociedade civil e demais interessados, o curso apresenta os fundamentos do MROSC para a celebração e a gestão de parcerias. Aberto ao público, é gratuito e oferece certificado.
https://www.escolavirtual.gov.br/curso/210
DESAFIOS E APRIMORAMENTOS Diversos avanços ocorreram na última década, mas a Assessoria de Parcerias e Convênios do CAU/SP ainda identifica oportunidades de melhoria. A principal delas é que a complexidade das leis pode assustar os proponentes no início do processo. Muitos profissionais ainda confundem as regras de fomento com as de licitação, o que gera dificuldades na prestação de contas ou na compreensão da autonomia das OSCs na execução do trabalho. Por isso, no início do processo, são oferecidas capacitações para orientar as entidades quanto à participação e ao êxito nos chamamentos públicos, com indicação das principais etapas e regras. Também são realizadas formações internas com as equipes de seleção e monitoramento dos editais disponibilizados anualmente. Neste ano, durante as pré-conferências do CAU/SP, ocorreram oficinas com o público em Santos, Bauru e Campinas, com orientações sobre a participação nos editais de fomento. Destaca-se ainda o novo Marco Regulatório do Fomento à Cultura, instituído pela Lei Federal n.º 14.903/2024, que permite a participação de pessoas físicas em determinadas modalidades de editais. Na prática, a legislação prioriza a entrega do objeto cultural e simplifica a participação de proponentes autônomos, denominados “agentes culturais”. Em março deste ano, foi publicada, pelo Conselho, a Portaria Normativa de Fomento Cultural para regulamentação do dispositivo, com vedação à participação de arquitetos e urbanistas inadimplentes com suas obrigações junto ao Sistema CAU. O Concurso de Boas Práticas do CAU/SP, lançado em março de 2026, já adota esse marco como referência legal. Assistência e assessoria técnica para o enfrentamento de situações de risco no quilombo Coração Valente em Jacareí. Foto: acervo CAU/SP
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Escola da cidade: Projeto de ATHIS "Lá e Cá: Debates sobre Habitação Rural em Aldeias, Quilombos e Assentamentos no Sudoeste Paulista"
Atividade realizada na Ocupação Penha Pietras, no âmbito do Termo de Fomento nº 007/2022. Foto: acervo CAU/SP, 2023
Atividade realizada com o Instituto Socioambiental Suinã, no âmbito do Termo de Fomento nº 008/2022. Foto: acervo CAU/SP, 2023
Oficina promovida pela Associação Amigos do Memorial da Classe Operária (AAMCO-UGT), no âmbito do Termo de Fomento nº 009/2022. Foto: acervo CAU/SP, 2022
Evento de encerramento promovido pela Associação Ambiental Habitacional João de Barro (AAHJB), no âmbito do Termo de Fomento nº 014/2022. Foto: acervo CAU/SP, 2022
Assembleia de moradores promovida pelo Movimento Sem Teto do Centro (MSTC), no âmbito do Termo de Fomento nº 015, 2022. Foto: acervo CAU/SP
Atividade do programa CAU Educa na EMEF Rosângela Vieira, realizada em 11 de abril de 2025. Fonte: acervo CAU/SP
Atividade durante o primeiro dia da missão técnica a Cabo Verde, julho de 2025. Foto: Camilla Almeida, ONU-Habitat
FOMENTOS Escola da cidade: atividade realizada na Aldeia Pyau. Foto: acervo CAU/SP
Intervenção lúdica do programa CAU Educa na Praça Quinta do Sol. Foto: acervo CAU/SP, 2025
Intervenção lúdica do programa CAU Educa na Praça Quinta do Sol. Foto: acervo CAU/SP, 2025
Atividade de campo de ATHIS, realizada pela Peabiru no âmbito de Termo de Fomento de 2021. Foto: acervo CAU/SP, 2022
Oficina sobre a técnica construtiva em taipa, realizada no âmbito de Termo de Fomento de 2021. Foto: Laudenor de Souza/acervo CAU/SP
Oficina promovida pela Associação Amigos do Memorial da Classe Operária (AAMCO-UGT), no âmbito do Termo de Fomento nº 009, 2022. Foto: acervo CAU/SP, 2022
Atividade do programa CAU Educa na EMEF Rosângela Rodrigues Vieira. Foto: acervo CAU/SP, 2025
Lançamento do Programa Morar Melhor ATHIS. Foto: acervo CAU/SP, 2021
Atividade de campo de ATHIS, realizada pela Peabiru no âmbito de Termo de Fomento de 2021. Foto: acervo CAU/SP, 2022
Atividade do programa CAU Educa na EMEF Rosângela Rodrigues Vieira, durante a ação Corrida Amiga. Foto: acervo CAU/SP, 2025
GUIA RÁPIDO — MROSC MARCO REGULATÓRIO DAS ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL No âmbito do MROSC, são realizadas anualmente, pelo CAU/SP, chamadas públicas para selecionar e apoiar propostas de OSCs.
O monitoramento dos canais oficiais é essencial para não perder prazos e pleitear a captação de recursos.
QUEM PODE PARTICIPAR? Os recursos destinam-se principalmente a pessoas jurídicas sem fins lucrativos (OSCs), como associações de classe, culturais ou comunitárias. Profissionais autônomos podem se associar a uma entidade existente ou criar uma nova organização para viabilizar projetos inovadores. Para firmar parcerias com o CAU/SP, a organização deve ter pelo menos três anos de existência (CNPJ ativo) e manter a documentação e a regularidade fiscal em dia.
ENTENDA AS PARCERIAS • Termo de Fomento: Destinação de recursos para proposta apresentada por agente cultural ou OSC. • Termo de Colaboração: A proposta parte do CAU/SP, com seleção da organização responsável pela execução. • Acordo de Cooperação: Parceria para objetivo comum sem repasse de recursos.
PRECISA DE AJUDA? Dúvidas sobre editais, execução ou prestação de contas? Escreva para edital.parceria@causp.gov.br
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PASSO A PASSO DA INSCRIÇÃO O processo ocorre de forma digital para garantir transparência e igualdade de condições:
1. Monitoramento: os editais são divulgados no site e nas redes sociais do CAU/SP. 2. Plataforma especializada: todas as etapas ocorrem nessa ferramenta e é preciso criar o cadastro da entidade. 3. Criação do projeto: propostas claras e alinhadas aos temas do edital devem observar os valores máximos e os objetivos estabelecidos. 4. Envio do material: o formulário online deve ser preenchido com os documentos solicitados em anexo. Alguns editais podem exigir vídeo curto com o resumo da proposta. ← Acesse a Página da Transparência para consultar os editais de chamamento público já realizados e aqueles abertos para recebimento de propostas.
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CAU/SP 2024-2026
Ideias que viram ação Parcerias mantidas pelo CAU/SP promovem cidades mais inclusivas e sustentáveis
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s editais de fomento do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP) incentivam profissionais de arquitetura e urbanismo a ocupar novos espaços nas Organizações da Sociedade Civil (OSCs), unindo competência técnica e compromisso social no Estado de São Paulo. Desde 2012, quase 300 projetos já foram apoiados. Para conhecer iniciativas de edições anteriores, há um mapa georreferenciado no Portal de Transparência mantido pelo CAU/SP, com dados de 2023 a 2025. Nele, é possível verificar onde os recursos foram aplicados, identificar as organizações executoras e acessar os relatórios de monitoramento.
Os projetos contemplados reforçam o compromisso com discussões plurais e multidimensionais. Entre os temas abordados, destacam-se bioarquitetura, planejamento urbano voltado às novas gerações, normas de acessibilidade, regularização fundiária, iluminação natural, desempenho acústico e ocupação de edifícios vazios. Nos últimos anos, ganham destaque propostas que revisitam as ações antrópicas no meio ambiente. A seguir, alguns exemplos. Veja projetos já fomentados em São Paulo
Vulnerabilidade e palafitas sobre o Rio dos Bugres, 2023. Fotos: Marcela Rosário
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Crianças participando de atividades do CAU Educa, 2025. Foto: Coletivo Ponte/Instituto Arte no Dique
ARTE PARA PRESERVAR Transformar o olhar de quem habita uma comunidade vulnerável permite a leitura crítica do espaço e torna os moradores, antes apenas espectadores das carências locais, agentes capazes de identificar lacunas e propor soluções para os territórios. Esse processo já ocorre no Dique da Vila Gilda, em Santos, considerado a maior favela sobre palafitas do país. No local, cerca de 22 mil pessoas vivem em barracos suspensos sobre o Rio dos Bugres. Desde a década de 1950, o adensamento da região avançou sobre manguezais e resultou em uma comunidade com aproximadamente 4 quilômetros ininterruptos sobre estacas, sendo a grande maioria da borda d'água ocupada por habitações com elevado nível de precariedade, sem acesso a saneamento básico ou condições mínimas de acessibilidade. A ocupação gerou impactos ambientais, com destinação inadequada de resíduos sólidos e despejo de esgotos domésticos diretamente nas águas. O projeto Mapa Verde do Dique insere-se nesse contexto de fragilidade socioambiental, a partir de parceria entre o Instituto Arte no Dique, OSC inserida no contexto daquele territó-
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rio e responsável pelo fomento, e um coletivo de profissionais de arquitetura da região, conhecido como Coletivo Ponte, com apoio do CAU/ SP, por meio do edital CAU Educa, em 2024. Entre março e junho de 2025, o projeto teve como objetivo capacitar jovens de 10 a 15 anos a identificar conflitos ecológicos e valorizar intervenções positivas. Um dos principais resultados foi a elaboração de um mapa colaborativo de problemas ambientais do local, incluindo moradias precárias, descarte irregular de lixo e poluição no Rio dos Bugres, permitindo que a comunidade visualize os dados levantados e possa cobrar melhorias ao poder público. A partir dos conflitos, os jovens também reconheceram como as mudanças climáticas afetam a cidade. Transformando conhecimento em prática, criaram uma peça de teatro sobre impactos do desmatamento e um jogo de tabuleiro que percorre diversos pontos da comunidade. Segundo o Instituto Arte no Dique, a territorialização do processo pedagógico contribuiu para a formação de cidadãos engajados na pauta ambiental e capazes de defender uma cidade mais igualitária.
Projeto de revitalização da aldeia Tekoa Pyau, junho de 2024. Imagens: Chão Coletivo/Escola da Cidade
ANCESTRALIDADE DE PÉ Quem observa a agitação de São Paulo pode supor que não há presença indígena na capital. Porém, dados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2022 indicam que a população indígena de São Paulo chega a quase 20 mil pessoas. Um dos principais territórios representativos dos povos originários na capital é a Aldeia Tekoa Pyau, integrante da Terra Indígena Jaraguá, na região noroeste, próxima à Rodovia dos Bandeirantes e ao Pico do Jaraguá. Em 2015, a Aldeia Tekoa Pyau foi considerada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) a “menor aldeia indígena do Brasil”, com apenas 1,7 hectare. Nesse território, cerca de 340 moradores ocupam 84 habitações precárias, em sua maioria erguidas de forma emergencial ou autoconstruídas com madeirite. O diagnóstico técnico integra o projeto Tekó Porã, desenvolvido pela Associação Escola da Cidade, por meio do grupo Chão Coletivo, selecionado no edital de ATHIS 2023 do CAU/SP. Embora cerca de 80% das casas da aldeia abriguem entre um e seis moradores, o levantamento identificou situações críticas de superlotação. Houve casos extremos em que uma MÓBILE #29
única residência acomodava 17 pessoas. Essa realidade evidencia a necessidade de desmembramento de alguns núcleos familiares e da construção de novas moradias, a fim de garantir a manutenção do modo de vida guarani, o nhanderekó, fundamentado em uma relação orgânica, cíclica e sagrada com o território ancestral. Com participação coletiva, o projeto devolveu à comunidade o mapeamento das redes de esgoto e água da aldeia, que historicamente sofria com falta de pressão, associado a um orçamento detalhado para construir novas residências. Também foram criados anteprojetos 3D para casas-modelo, um manual de construção e um projeto básico de arquitetura para um núcleo habitacional, respeitando o caráter das famílias da aldeia. As lideranças também foram capacitadas para dialogar com gestores públicos e articular formas de acesso à renovação e manutenção da infraestrutura da aldeia. A troca de saberes entre a técnica acadêmica e a sabedoria ancestral orientou as estratégias de execução de um modelo de aldeia sustentável na maior cidade do Brasil.
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Exposição com “tesouros” arquitetônicos percorreu três cidades em 2025. Imagens: IPCCIC
MEMÓRIAS CONSTRUÍDAS Grandes cidades têm, embutidas em suas fachadas e ornamentos, vestígios de memórias que resistem ao tempo. É nesse cenário de valorização do patrimônio que se destaca o projeto Arqueologia da Paisagem Urbana: inventário e mapeamento para políticas públicas em São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto, iniciativa do Instituto Paulista de Cidades Criativas e Identidades Culturais (IPCCIC). Contemplado pelo edital de fomento do CAU/SP na modalidade PAT Cultural, em 2024, e executado ao longo de 2025, o projeto revelou “tesouros” arquitetônicos que, muitas vezes despercebidos no cotidiano, definem a paisagem das três metrópoles. Com o objetivo de fundamentar diretrizes para políticas públicas de zeladoria compartilhada e fortalecer redes de preservação da memória coletiva, a proposta utilizou metodologia do Grupo de Pesquisa em Arqueologia da Paisagem da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAUUSP). O trabalho elaborou cartografias detalhadas com planos de datação de imóveis e espaços públicos, integrando os dados a uma plataforma digital colaborativa. Para aproximar o saber aca50
dêmico da sociedade, também foram desenvolvidos mapas e roteiros que convidam moradores e turistas a uma “caça ao tesouro”, indicando edificações que ajudam a contar a evolução histórica das cidades. O principal resultado da parceria foi a exposição itinerante de 80 peças “Tesouros de São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto” – inclusive instalada temporariamente na sede do CAU/SP –, além de rodas de conversa e passeios urbanos guiados. Por meio dos painéis, o público pode conhecer prédios como a Escola do Povo Ferreira Penteado, em Campinas, construída em 1880 para promover a educação básica para alunos carentes; a Casa da Memória Italiana, em Ribeirão Preto, erguida na década de 1920 e ocupada por famílias italianas por mais de 70 anos; e a Casa Palmares, edifício bancário inaugurado em 1922 no Centro Histórico de São Paulo. Ao mapear e valorizar conjuntos arquitetônicos e paisagísticos, além de devolver à sociedade a ação concreta de uma pesquisa acadêmica, o projeto contribuiu para discutir coletivamente e embasar futuras políticas públicas que garantam a identidade cultural e simbólica das três cidades.
OSC:
INSTITUTO ARTE NO DIQUE
PROJETO EM NÚMEROS
Parcerias: Coletivo Ponte, Instituto Procomum e Associação Frente por Moradia da Baixada Santista
6 profissionais de AeU
Cidade/Regional: Santos Tipo de fomento: CAU Educa Valor investido: R$ 75.000 Início e término: janeiro a agosto de 2025
1 estudante de AeU 10 profissionais de outras áreas 126 famílias (505 pessoas) envolvidas direta e indiretamente
Acesse o mapa
OSC:
ASSOCIAÇÃO ESCOLA DA CIDADE
PROJETO EM NÚMEROS
Parcerias: Grupo Chão Coletivo e Comunidade da Aldeia Pyau
6 profissionais de AeU
Cidade/Regional: São Paulo Tipo de fomento: ATHIS Valor investido: R$ 199.914,80 Início e término: setembro de 2023 a maio de 2024
1 estudante de AeU 10 profissionais de outras áreas 334 pessoas impactadas indiretamente
Acesse o mapa
OSC:
INSTITUTO PAULISTA DE CIDADES CRIATIVAS E IDENTIDADES CULTURAIS (IPCCIC) Cidade/Regional: Ribeirão Preto Tipo de fomento: PAT Cultural Valor investido: R$ 50.000 Início e término: janeiro a julho de 2025
PROJETO EM NÚMEROS 4 profissionais de AeU 3 estudante de AeU 5 profissionais de outras áreas 255 pessoas atingidas indiretamente
Acesse o mapa MÓBILE #29
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REPORTAGEM
Um novo imaginário para um novo planeta Como os legados do arquiteto paisagista Kongjian Yu sobre a relação das cidades com a água podem transformar a gestão urbana global
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ongjian Yu (1963–2025), um dos principais nomes do urbanismo e do paisagismo deste século, ganhou destaque global nos últimos anos por um pensamento e uma prática orientados para reconfigurar a relação das cidades e das pessoas com um elemento vital, mas sistematicamente evitado e afastado no planejamento urbano do século XX: a água. Com inspiração na sabedoria ecológica tradicional chinesa que vivenciou na região rural onde nasceu, Yu estabeleceu uma metodologia de “ecologias projetadas”, com base nas respostas da própria natureza e dos ecossistemas
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às mudanças climáticas globais. O fundador do escritório Turenscape e professor da Universidade de Beijing criou, a partir dessa visão, o conceito de “cidade-esponja”, que integra princípios ecológicos e soluções de arquitetura e engenharia. Reconhecido como um dos “líderes da sustentabilidade” de 2025 pela revista Forbes e ganhador de láureas como
← Foto pág. 52 e 53: Max Sotnik Gonik - Por aqui passa o Córrego do Sapateiro
Arquiteto paisagista Kongjian Yu (1963-2025), criador do conceito de “cidade-esponja”, participou da Conferência Internacional CAU em setembro de 2025. Foto: Thiago Sousa/CAU/BR, 2025
o Prêmio Internacional de Arquitetura Paisagística Cornelia Hahn Oberlander ( 2023) e o Prêmio de Arquitetura do Royal Architectural Institute of Canada (RAIC) (ANO), Kongjian Yu consolidou uma trajetória de reconhecimento internacional construída ao longo de décadas. Yu começou a desenvolver essa visão ainda nos anos 1980, quando ingressou no Departamento de Arquitetura Paisagística da Universidade Florestal de Beijing e obteve os títulos de bacharel e mestre em Agronomia. Nos anos 1990, aprofundou seus estudos com doutorado na Escola de Pós-Graduação em Design de
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Harvard, concluído em 1995. Em 1997, fundou, na Universidade de Beijing, o Centro de Planejamento e Projeto Paisagístico, posteriormente renomeado Faculdade de Arquitetura e Arquitetura Paisagística. Segundo material disponibilizado à Móbile pelo escritório Turenscape, a metodologia criada “se concentra na construção e restauração rápidas e eficientes da infraestrutura ecológica, gerando serviços ecossistêmicos integrados que incluem provisão, regulação, suporte à biodiversidade e oferta de valor estético, social e econômico”.
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Na prática, Yu e a equipe da Turenscape reconheceram na própria natureza a capacidade de conter enchentes e enfrentar longos períodos de estiagem. “Pântanos naturais ao longo dos rios podem funcionar como esponjas para reter água durante as cheias e recarregar os aquíferos durante a seca”, escreveu Yu em 2003, em coautoria com Dihua Li, professor da Faculdade de Arquitetura e Paisagismo da Universidade de Beijing. A visão se fundamenta, segundo a Turenscape, na realidade da China, o que levou Yu e outros pesquisadores a escreverem, em 2001, um “guia” voltado ao poder público intitulado Dez Estratégias para a Construção de Infraestrutu-
ra Ecológica Urbana. Nele, o grupo defendia a manutenção e a restauração das formas naturais de rios e orlas, bem como a proteção e a restauração de sistemas de zonas úmidas. Entre os ganhos, apontavam que haveria controle de secas e inundações, preservação de habitats naturais e a criação de espaços de lazer e vivência para habitantes. As dez estratégias foram incorporadas às diretrizes técnicas do Ministério da Construção da China em 2004. Cidades como Beijing, Taizhou, Weihai, Heze e Dongying passaram por planejamento ecológico regional, enquanto outras quase 200 cidades no país adotaram abordagem semelhante.
EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE CIDADES-ESPONJA 1992 Ingressa na Escola de PósGraduação em Design de Harvard, que conclui em 1995;
1963
1998
Nasce Kongjian Yu em Zhejiang, na China;
Funda o escritório Turenscape e inicia pesquisas sobre sistemas hídricos urbanos sustentáveis;
1980 Ingressa no Departamento de Arquitetura Paisagística da Universidade Florestal de Beijing;
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2001 Propõe os conceitos de gestão ecológica de águas pluviais e de controle ecológico da água; e escreve as "Dez Estratégias para a Construção de Infraestrutura Ecológica Urbana";
Torna-se membro da Sociedade Americana de Arquitetos Paisagistas (ASLA);
2015 Dezesseis cidades chinesas são selecionadas como projetos-piloto das cidades-esponja;
2004
1997 Retorna à China e funda o Centro de Planejamento e Projeto Paisagístico, posteriormente renomeado Faculdade de Arquitetura e Arquitetura Paisagística, na Universidade de Beijing;
2012
As "Dez Estratégias" tornam-se diretrizes nacionais na China;
2000 Formula o conceito de cidade-esponja;
2013-2014 Cidades-esponja tornam-se estratégia nacional na China;
A partir dessas experiências, a China desenvolveu alguns projetos de cidades-esponja. O conceito seguiu sendo aplicadodesenvolvido ao longo da década seguinte, até que, em 2014, um projeto-piloto nacional para a construção de cidades-esponja foi oficializado pelo Ministério da Habitação e Desenvolvimento Urbano-Rural a partir do programa Diretrizes Técnicas Provisórias para a Construção de Cidades-Esponja: Construção de Sistemas de Captação de Água da Chuva para Desenvolvimento de Baixo Impacto.
“
Acho que o Brasil é a última parte do Jardim, o quintal de Deus, que precisamos cuidar, projetar e embelezar para curar o planeta. Kongjian Yu
2025
2017 Recebe o título de doutor honoris causa pela Universidade de Roma La Sapienza;
2023 2020 Vence o prêmio Sir Geoffrey Jellicoe Award, da Federação Internacional de Arquitetos Paisagistas (IFLA);
2016 Torna-se membro honorário da Academia Americana de Artes e Ciências;
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Vence o Prêmio Internacional de Arquitetura Paisagística Cornelia Hahn Oberlander;
2019
2021
Recebe o título de doutor honoris causa pela Universidade Norueguesa de Ciências da Vida;
Vence o prêmio John Cobb Common Good; e a Turenscape é eleita uma das 10 companhias de construção mais criativas do mundo pela revista Fast Company;
Vence prêmios da Royal Architectural Institute of Canada (RAIC) e da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e é eleito líder de sustentabilidade pela Forbes; participa da Conferência Internacional CAU e da 14ª Bienal Internacional de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo; falece em 23 de setembro em acidente aéreo no Pantanal, Brasil.
2024 Visita o Brasil para debate sobre reconstrução de cidades e mudanças climáticas no Rio de Janeiro;
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Foto aérea do Pantanal, feita durante visita ao Brasil em 2025. Foto: Kongjian Yu/Divulgação
KONGJIAN YU E O BRASIL O conceito de Yu passou a chamar a atenção de outros países da Ásia e do mundo, chegando ao Brasil, onde o interesse pelo conceito teve como diferencial a relação do próprio arquiteto com o país — visto por ele como terreno fértil para aplicação do modelo. Esse olhar não era abstrato. Em entrevistas realizadas no Brasil, Yu costumava destacar que o território brasileiro reunia “todos os principais elementos” para a aplicação de suas teorias: água abundante, espaço generoso, vegetação rica e um corpo técnico qualificado, capaz de se associar à vontade política para enfrentar enchentes, mitigar inundações e equilibrar as temperaturas nas cidades. Nos últimos anos, Yu visitou cidades brasileiras em diferentes ocasiões e, na passagem mais recente, em setembro de 2025, apresentou ideias e projetos a milhares de arquitetos e urbanistas na Conferência Internacional do
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CAU/BR, em Brasília, onde falou a um público estimado em mais de 4.200 profissionais; e na abertura da 14ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, promovida pelo Instituto de Arquitetos do Brasil - São Paulo, onde reforçou a importância da cooperação internacional e do compromisso com soluções inovadoras diante da crise climática. “Vejo o Brasil como a última esperança para o mundo, para consertar o planeta”, afirmou no evento do CAU/BR. “Nós o destruímos inteiro e é por isso que acho que o Brasil é a última parte do Jardim, o quintal de Deus, que precisamos cuidar, projetar e embelezar para curar o planeta”, acrescentou. A relação do arquiteto com o Brasil é o tema do documentário Planeta Esponja, com direção do cineasta Luiz Ferraz e direção de fotografia de Rubens Crispim Jr. O professor e os diretores visitaram, depois da palestra na Bienal,
Foto do parque de zonas úmidas de Tianjin Qiaoyuan, desenhado pelo arquiteto em 2005. Paralelo visual entre as imagens é destacado pelo escritório Turenscape. Foto: Turenscape/Divulgação
a região do Pantanal para que Yu conhecesse de perto o território definido por ele como “um planeta esponja de verdade” dias antes, no evento paulistano. O entusiasmo de Yu em relação ao bioma brasileiro era visível, como destaca Carlos Lucas Mali, conselheiro federal pelo Mato Grosso do Sul, que vive no Pantanal. Yu demonstrava conhecimento sobre a região e suas características, no que se relacionavam diretamente com as suas ideias. “Prof. Yu frequentemente descrevia o Pantanal brasileiro como o ‘último Éden’ da humanidade, enfatizando a notável convergência entre os sistemas naturais da região e sua filosofia de cidade-esponja”, confirma a Turenscape à Móbile. O escritório cedeu à revista uma foto aérea do bioma registrada por Yu e apontou o “paralelo” entre o Pantanal e o projeto do parque de zonas úmidas de Tianjin Qiaoyuan, de-
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senvolvido pelo arquiteto em 2005. Na última vez no Brasil, lançou uma pergunta que sintetizava sua inquietação diante da crise ambiental: “Quando até mesmo o último Jardim do Éden está recuando, onde a humanidade poderá encontrar esperança de sobrevivência?”. A experiência, porém, foi abreviada na noite de 23 de setembro de 2025, quando a aeronave em que Yu, Ferraz e Crispim Jr. sobrevoavam o Pantanal caiu na zona rural de Aquidauana, resultando na morte dos três e do piloto Marcelo Pereira de Barros. Como legado dessa passagem pelo Brasil, vemos o reconhecimento e a importância das ideias de Yu tomarem cada vez mais lugar nos discursos, estudos e projetos de arquitetura e urbanismo que tem como preocupação a resiliência urbana, a preservação do meio ambiente e a melhoria da qualidade de vida nas cidades.
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APRENDIZADOS MILENARES Nascido em abril de 1963 na vila de Dongyu, condado de Jinhua, província de Zhejiang, na China Continental, Kongjian Yu teve, como descreve o memorial cedido à reportagem pelo escritório Turenscape, “vocação ecológica enraizada na memória rural”. A região onde nasceu e cresceu, às margens do riacho Baisha, é marcada por paisagens e práticas milenares ligadas às águas, como represas de irrigação, diques, lagoas beitang e reservatórios comunitários típicos da região. O contato com os saberes e dores da vida no campo — que incluíam modos de lidar com secas e enchentes típicas do território — forjou desde cedo em Yu a ideia de resiliência e a “reverência” pelo que chamava de “sabedoria da sobrevivência”. Não por acaso, o arquiteto estuda, como referência para projetos de “cidade-esponja”, os conhecimentos, experiências e a relação de povos indígenas e originários com a natureza, as soluções construtivas sustentáveis e as práticas
agrícolas associadas às monções — fenômeno de regiões tropicais e subtropicais marcado por ventos sazonais que alternam estações de chuvas intensas e secas prolongadas. RETER, DESACELERAR E ABRAÇAR A ÁGUA Foi desde o início dos anos 2000 que Yu passou a “sistematizar uma crítica à urbanização impermeável e à dependência exclusiva de diques, canais e tubulações para controlar enchentes”, como contextualiza o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) Paulo Pellegrino, em entrevista à Revista Móbile 29. O conceito de cidade-esponja, conforme Pellegrino, se diferencia por “deslocar” o pensamento na relação com a água. Em vez de buscar formas de expulsá-la, o conceito propõe aprender a conviver com ela. Yu sintetizava sua visão diretamente: era preciso “abraçar a água, retardar a velocidade da vazão e criar espaços paisagísticos de convívio e lazer”, retomando soluções tradicionais que
Kongjian Yu nasceu na vila de Dongyu (foto), no condado de Jinhua, em 1963. Foto: Yu, 2020
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buscavam conviver com a natureza, em vez de dominá-la. Cada ação corresponde a uma “altura” do fluxo de água. A retenção ocorre na nascente, a desaceleração no meio do curso e o “abraço” na foz, por meio de adaptações do local onde o rio desemboca. Em vez de represar ou retificar rios, o conceito defende uma infraestrutura ecológica urbana formada por componentes como wetlands, várzeas e parques que atuem como “esponjas”: retendo, infiltrando e depurando água de chuva para posterior reutilização. Conforme Pellegrino, essa abordagem articula ganhos que incluem mitigação de enchentes, recarga de aquíferos, melhoria de microclimas, biodiversidade e qualidade de vida. Em diálogo, a arquiteta especialista em sustentabilidade e conselheira do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/ SP) Marina Castanheira destaca que este processo inclui a permeabilização do solo, permitindo a infiltração da água; a criação de áreas verdes e jardins de chuva, onde a água pluvial possa ser absorvida; o estabelecimento de
corredores verdes; a construção de bacias de detenção e reservatórios coletivos; e a recuperação de rios canalizados. PROJETOS DE CIDADES-ESPONJA DA TURENSCAPE Ao longo de 27 anos de atuação, Kongjian Yu e a equipe da Turenscape planejaram e executaram, conforme informações do escritório, mais de mil projetos de engenharia ecológica em mais de 200 cidades chinesas e em outros dez países. Os impactos positivos no ambiente e na vida das pessoas — que incluem a regeneração de ecossistemas urbanos, a melhoria da qualidade da água, o fortalecimento da resiliência urbana e a redução da vulnerabilidade da população diante de secas e enchentes — foram ressaltados por Yu na palestra do CAU/BR: “Se você tem um ecossistema saudável, tem pessoas saudáveis, felizes, água limpa. Esse é o processo: remover o concreto, devolver à natureza, integrar as pessoas à natureza, viver em harmonia”, resumiu.
Gráfico representativo das três ações defendidas por Yu em relação à água. Imagem: Turenscape/Divulgação
CURSO SUPERIOR Reter água na fonte MÓBILE #29
CURSO MÉDIO Diminuir a velocidade do fluxo
CURSO INFERIOR Adaptação no enxutório 61
Mapa que representa a distribuição global de projetos da Turenscape. Imagem: Turenscape/Divulgação
Beijing 1 a 3 projetos no mesmo local 4 a 8 projetos no mesmo local Mais de 8 projetos no mesmo local
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PARQUE HOUTAN, em Xangai Em Xangai, uma ampla área degradada com histórico de uso industrial, às margens do rio Huangpu, precisava ser restaurada e reconfigurada para acolher um evento mundial. Foi esse o desafio que Yu encarou ao projetar o Parque Houtan, em 2007. O projeto foi encomendado pelos organizadores da Shanghai World Expo, feira internacional realizada no local em 2010. À época utilizado como depósito de resíduos industriais, o terreno já havia abrigado uma siderúrgica e um estaleiro, cujas estruturas remanescentes foram abandonadas. Na classificação chinesa de qualidade de água, o rio Huangpu estava no pior nível da escala, sendo considerado impróprio para banho e desprovido de vida aquática. O projeto tinha objetivo central de regenerar a área para a realização da Expo 2010, mas tam-
bém transformar o espaço em parque público para uso posterior ao evento. Como objetivos complementares estavam a transformação da paisagem degradada em espaço público seguro, controle de enchentes e restabelecimento do ecossistema natural. A área destinada ao parque era longa e estreita, situada entre o curso d’água e uma via expressa urbana — condição que se impôs como desafio adicional ao projeto. A faixa de água estendia-se por mais de 1,7 quilômetros de comprimento, com largura que variava entre 30 e 80 metros. Pelo projeto, foi construída uma zona úmida linear de 1,7 quilômetros de comprimento e entre 5 e 30 metros de largura, a fim de estabelecer uma orla revitalizada capaz de tratar a água contaminada do rio Huangpu. Diversas
Formato da área foi desafio para construção do parque. Imagem: Turenscape/Divulgação
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espécies de plantas de zonas úmidas foram introduzidas lá para absorver poluentes. A água tratada seria destinada a fins não potáveis durante a Expo 2010 — pelos cálculos do projeto, isso representaria uma economia de US$ 500 mil em relação ao tratamento convencional. Sobrepostos à matriz natural regenerada, foram construídos terraços inspirados em campos agrícolas milenares de Xangai, a fim de suavizar o desnível entre a margem da água e a estrada vizinha e, também, reduzir a velocidade do fluxo do rio. Esses terraços enriqueceram a paisagem — reforçando a preocupação estética defendida por Yu — e incentivaram os visitantes a se aproximar do ecossistema restaurado. O projeto também homenageou o histórico industrial da área, com as estruturas industriais anteriormente abandonadas sendo foram reu-
tilizadas e transformadas em jardins suspensos, espaços de fruição e esculturas artísticas. Por fim, todas as iniciativas descritas — a recuperação ecológica nas margens, os terraços construídos e as estruturas industriais ressignificadas — tornaram-se acessíveis aos pedestres por meio de uma rede de trilhas que conecta o parque aos arredores. Ao longo dos caminhos, plataformas e jardins suspensos foram implantados como espaços de convivência, delimitados por bosques de bambu e sequoias chinesas. O Parque Houtan demonstra, em síntese, que uma infraestrutura ecológica pode fornecer múltiplos serviços: tratamento de água, controle de enchentes, preservação histórica e criação de espaços públicos de convivência.
Antes e depois da construção do Parque Houtan mostra a regeneração natural do espaço. Foto: Kongjian Yu, 2020
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PARQUE DE ÁGUAS PLUVIAIS DE QUNLI, em Harbin Em 2009, o escritório Turenscape foi contratado pelo governo municipal de Harbin para projetar um parque de 34,2 hectares no interior do distrito urbano planejado de Qunli, na periferia leste da cidade. O distrito foi implantado em 2006 para abrigar mais de 300 mil habitantes e, no processo de construção, apenas 16,4% da área edificável foi destinada a espaços verdes permeáveis. A precipitação anual da região era de 567 mm, concentrada entre junho e agosto, com inundações e alagamentos frequentes. As nascentes da zona úmida estavam comprometidas e em risco de desaparecimento. A estratégia do escritório era restaurar e transformar o local em uma “esponja”: um parque urbano de águas pluviais capaz de preservar as nascentes e oferecer outros serviços ecossistêmicos à comunidade. O parque foi projetado para recolher, filtrar e armazenar as chuvas da região, que se infiltrariam no aquífero e promoveriam a regeneração dos ecossistemas naturais. A estratégia adotada foi a de corte e aterro para criar lagoas e
montes ao redor da antiga zona úmida, preservando a parte central intocada para evolução e regeneração naturais. As lagoas e montes criados nos arredores funcionariam como zona de amortecimento para filtragem e purificação da água da chuva no núcleo da zona úmida, além de contribuírem para a qualidade estética da paisagem. Nas lagoas projetadas em diferentes profundidades, foram cultivadas gramíneas nativas de zonas úmidas e espécies de prados para iniciar o processo de evolução natural. Nos montes de diferentes alturas, bosques de bétulas-prateadas nativas foram cultivados para criar um ambiente de floresta densa. Ao redor das lagoas e montes, foi implantada uma rede de trilhas para caminhadas dos moradores. Para estimular o uso do parque para além das caminhadas, plataformas, mirantes e passarelas foram implantados entre os montes e lagoas, criando pontos de passagem, contemplação e convivência.
Passarelas, trilhas, espaços de sociabilidade e mirantes foram construídos no local para estimular a ocupação do parque pelos moradores. Foto: Turenscape/Divulgação
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Confira fotos, vídeos e papers destes e mais projetos no site do escritório Turenscape
Desenho de Kongjian Yu feito no processo de projetar o Parque de Águas Pluviais de Qunli. Imagem: Turenscape/Divulgação Imagem do projeto do Parque de Águas Pluviais de Qunli. Imagem: Turenscape/Divulgação
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Registro que mostra Yu (de vermelho, à esquerda) durante a visita ao Pantanal nas gravações do documentário. Foto: acervo pessoal das famílias
POTÊNCIAS E DESAFIOS DE UM “BRASIL ESPONJA”
LEGADOS REGISTRADOS E EM EXPANSÃO
A adoção das ideias de Yu no Brasil pode trazer ganhos como os já citados, mas as dificuldades para tanto adquirem contornos específicos. Tanto Castanheira quanto Pellegrino reconhecem desafios relevantes como a falta de integração e de planejamento urbano sistêmico.
As passagens de Yu por eventos no Brasil, as conversas de bastidores com arquitetos, urbanistas e paisagistas e o interesse em conhecer os biomas nacionais deixaram registros além da memória de quem o conheceu.
“Possibilidades existem, mas depende de priorização do poder público, capacidade de investimento, mudanças de mentalidade do mercado imobiliário e apoio da população”, aponta Nabil Bonduki, arquiteto e urbanista, professor e vereador de São Paulo. O grande diferencial na opinião do parlamentar foi a adesão do poder público ao conceito de cidade-esponja, mesmo em grandes metrópoles chinesas. Se foi possível incorporar infraestrutura verde em metrópoles como Beijing e Xangai, cabe o desafio de implementá-la em São Paulo e em cidades brasileiras com diferentes dinâmicas de cheias e secas. 68
Esses e outros aspectos devem compor o documentário Planeta Esponja, dirigido por Luiz Ferraz — que na Olé Produções produziu e/ou dirigiu filmes ligados à arquitetura e sustentabilidade ao lado da sócia e esposa Gal Buitoni — e com direção de fotografia de Rubens Crispim Jr. O contato de Ferraz com o conceito de cidades-esponja surgiu durante pesquisa para outro projeto ainda inédito. Paralelamente, ele e Buitoni conheceram representantes da fundação CNEX, voltada à promoção de documentários sobre o povo chinês para fomentar trocas culturais entre a China e o mundo. Após contato inicial por e-mail com Yu, a produtora desenvolveu e apresentou um projeto
sobre o tema em um evento na China em março de 2025, ocasião na qual a equipe realizou a primeira entrevista com o arquiteto. "Estreitamos os laços com ele e sua equipe, e foi também quando comentamos sobre o Pantanal ser a ‘esponja do mundo’”, relata Buitoni. O envolvimento de Crispim Jr. foi natural, como explica a sócia e esposa do diretor de fotografia Heloisa Faria, pela “parceria muito especial” que ele mantinha com Ferraz. Como explica Faria, os dois realizadores já haviam trabalhado juntos diversas vezes, como no documentário O Bixiga é nosso!, produzido por Ferraz e dirigido por Crispim Jr. Para as gravações de Planeta Esponja, os profissionais acompanharam Yu em São Paulo e no Pantanal — região que, segundo Buitoni, “encantou o arquiteto”. “(Ele) teve a oportunidade de fazer um safári na região para conhecer mais de sua exuberante fauna e flora, explorar suas regiões alagadas de barco, além, é claro, de conversar com moradores da região responsáveis pelo manejo agropecuário consciente”, relata. “Ao longo das gravações ficou clara a emoção e alegria de estar vivenciando tantos cenários encantadores, conhecendo uma fauna e flora únicas e, acima de tudo, percebendo a ancestralidade da natureza, e como a solução para muitos dos problemas criados pelas civilizações modernas está descrita no meio ambiente. Basta se permitir observar”, atenta Buitoni.
O documentário é, na avaliação dela, uma forma de preserva ideias e trabalhos do arquiteto e dos realizadores. “Os legados de Yu, Ferraz e Crispim ficam eternizados em suas obras. Suas contribuições para a cultura, sociedade e sustentabilidade servirão como inspiração para as atuais e futuras gerações que cada vez mais se verão obrigadas a promoverem a mudança que o nosso planeta tanto precisa”, afirma. Segundo a Turenscape, a continuidade da visão de Kongjian Yu se dará sob a liderança de Hongjin (Tony) Yu, filho do arquiteto e CEO da companhia. Entre os próximos passos está a combinação da inteligência artificial com o conceito de planeta esponja. “Além de projetos específicos, a filosofia abrangente do Prof. Yu — construir um Planeta Esponja resiliente a partir de seu trabalho pioneiro em cidades-esponja — continua a guiar a Turenscape. Fundamental para essa visão é a água, considerada a chave para enfrentar os desafios em cascata do aquecimento global e garantir a ‘arte da sobrevivência’”, aponta o escritório. A perda de Kongjian Yu mostrou-se irreparável para arquitetos, urbanistas, pesquisadores e estudantes no Brasil e no mundo. Universidades, instituições profissionais, o escritório Turenscape, familiares e amigos expressaram pesar pela morte de um pensador cuja obra ultrapassou fronteiras geográficas e disciplinares, deixando um legado profundo para as gerações presentes e futuras.
REFERÊNCIAS TURENSCAPE. Sponge City + Landscape, 1998-2026. Projetos de cidades-esponja do escritório de Kongjian Yu. Disponível em: https://www.turenscape.com/en/project/index/4.html. Acesso em: 6 dez. 2025. YU, K. The land of peach blossoms and the art of survival: my journey to heal the planet. Landscape Architecture Frontiers, [s.l.], v. 8, n. 5, p. 12-31, 2020. DOI: 10.15302/J-LAF-1-010011. YU, K.; LI, D. 城市景观之路: 与市长们交流 [Um caminho para a paisagem urbana: conversas com prefeitos]. Beijing: China Architecture & Building Press, 2003. YU, K.; LI, D.; CHAO, L. Ten strategies for urban ecological infrastructure construction [Dez estratégias paisagísticas para a construção de infraestrutura ecológica urbana]. Planejador, [s.l.], v. 17, n. 6, p. 9-13, 17, 2001. Disponível em: https://www.turenscape.com/paper/detail/51.html. Acesso em: 6 dez. 2025.
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REPORTAGEM
Rios Vivos Cidades brasileiras buscam aflorar sistemas hídricos para minimizar desastres naturais
O
ficialmente, o Mapa Hidrográfico do Município de São Paulo indica a presença de quase 300 rios, córregos e canais. No entanto, o Projeto Rios e Ruas — que há cerca de 10 anos mapeia os cursos d’água ocultos na capital — estima a existência de pelo menos 500 a 600. Ao considerar afloramentos menores, muitas vezes localizados sob edificações e fora da percepção da população, esse número pode ser ainda maior. As consequências do histórico mau planejamento sobre esses recursos da cidade vêm agravando desastres climáticos cada vez mais frequentes. Em fevereiro de 2025, por exemplo, a passagem do Beco do Batman, na Vila Madalena, virou uma correnteza em apenas 17 minutos, provocando perdas materiais para comerciantes e moradores. Por outro lado, iniciativas comunitárias de resgate dos rios e córregos vêm evidenciando a força de microintervenções. Para José Bueno, arquiteto e urbanista pela Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Projeto Rios e Ruas, é preciso reconhecer que o que era considerado
uma resposta no passado hoje contribui para graves problemas de infraestrutura. O grupo tem como missão promover uma transformação cultural por meio de passeios e palestras, pensando que intervenções em uma nascente, um jardim ou uma calçada operam em escala humana: são rápidas, de baixo custo e capazes de influenciar sistemas urbanos mais amplos no entorno das comunidades. Somente a articulação entre políticas públicas, projetos técnicos e ações comunitárias será capaz de transformar rios ocultos em infraestrutura viva, apta a enfrentar eventos extremos, reduzir desigualdades e reconectar as cidades brasileiras à sua própria geografia.
Águas urbanas na Bacia do Prata. Foto: Paula López Barba 70
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PARQUE DAS CORUJAS O Córrego das Corujas separa a Vila Madalena da Vila Beatriz. Retificado na década de 1940 para viabilizar loteamentos no Alto de Pinheiros, nunca conseguiu absorver adequadamente o volume de água em dias de chuva intensa. Após pressão da comunidade, a Prefeitura implantou, em 2010, um novo sistema de drenagem de águas pluviais da Praça Dolores Ibarruri, conhecida como Praça das Corujas. No novo modelo, a água é escoada por biovaletas de piso drenante, onde passa por um processo de filtragem natural ao atravessar raízes de plantas e camadas de pedras até desaguar no Rio Pinheiros. Após a revitalização, houve redução dos episódios de alagamento em vias do entorno.
entanto, mais de uma década depois, elas sofreram processos de erosão por estarem desconectadas de outras soluções integradas. O caso evidencia, segundo a especialista, a necessidade de manutenção contínua para garantir a durabilidade das SbN. Em 2021, o escritório Guajava chegou a desenvolver um projeto de reabertura do Córrego no âmbito do Programa Córregos Limpos, da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). A proposta prevê trazer a foz do curso d’água à superfície, reintegrando-a à paisagem urbana e restaurando a memória afetiva e a relação da população com o rio. O projeto chegou a ter orçamento definido e licitação aberta, mas não avançou.
Riciane Pombo, arquiteta e urbanista com foco em soluções baseadas na natureza (SbN), avalia as biovaletas implementadas na Praça como eficazes em um primeiro momento. No
Biovaletas da Praça das Corujas. Foto: FCTH/Siurb/Prefeitura de São Paulo
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Projeto de intervenção sobre o Córrego das Corujas. Imagens: Guajava Arquitetura da Paisagem e Urbanismo
PARQUE DO KARTÓDROMO A cerca de 230 quilômetros da capital paulista, na região central do Estado, o antigo kartódromo de São Carlos foi transformado em um parque voltado a atividades ao ar livre, com pistas para caminhada e corrida, ciclovia e área infantil. Porém, a área sofre com alagamentos em períodos de chuva. Isso ocorre porque, nos anos 1970, a pista foi implantada sobre o antigo leito do Rio Monjolinho, em uma área de várzea. Para valorizar espaços inexplorados no entorno do córrego, o Grupo de Trabalho de Planejamento dos Parques Urbanos (GTPU) da USP desenvolveu, em 2019, um projeto de parque linear para a área. A proposta busca aproximar a população do rio por meio da implantação de playgrounds, espaços para arte, campo de futebol e mirante. Renata Peres, professora do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e uma das autoras do projeto, destaca que a cidade possui um sis-
tema de parques fragmentado e pouco qualificado, o que afasta a população de ambientes naturais. Por isso, a implementação vem ocorrendo de forma gradual, com participação tanto do poder público quanto da iniciativa privada. Para garantir a implementação do projeto no longo prazo, o que exige investimentos significativos, foi proposta a inclusão desses espaços livres na revisão do Plano Diretor como Áreas de Especial Interesse Ambiental. Essa designação busca incentivar — e, em alguns casos, exigir — a adoção de infraestruturas verdes de múltiplas funções por parte de empreendedores e gestores públicos. Um conceito-chave é permitir que o próprio Parque funcione como área alagável, capaz de absorver as águas das chuvas. O objetivo final é criar um sistema interligado de áreas protegidas e espaços livres em toda a cidade, conectando o Monjolinho a outros parques e incentivando a arborização urbana.
Projeto de intervenção no Rio Monjolinho. Imagens: GTPU/USP
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JARDINS DO RECIFE Exemplos semelhantes se espalham pelo Brasil. Em 2024, foi inaugurado o primeiro parque alagável do Recife, projetado para receber o volume de água do Rio Tejipió no período chuvoso. No ano anterior, a Prefeitura também implantou os Jardins Filtrantes, canteiros com material permeável que utilizam vegetação para reduzir a carga sobre o sistema de drenagem. Localizados no Parque do Caiara, na Zona Oeste, funcionam como alternativa para a despoluição do Rio Capibaribe.
Pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e especialista em Gestão Sustentável de Águas Urbanas, a urbanista Mila Montezuma avalia que Recife se tornou um “laboratório vivo de experimentações” que ainda precisa amadurecer e avançar além de intervenções pontuais de amortecimento. Para que alcancem seu potencial drenante, regenerativo e sociocultural, devem transcender o perímetro do “parque” e abraçar toda a bacia hidrográfica e os estuários como unidades indivisíveis de planejamento.
Projetados pela Agência Recife para Inovação e Estratégia (Aries), os Jardins tratam aproximadamente 350 mil litros de água por dia, com uso de cerca de 7.500 plantas aquáticas. Esse sistema natural permite a retenção de impurezas, melhorando a qualidade da água antes de seu retorno ao meio ambiente. A iniciativa foi inspirada em experiências de despoluição do Rio Sena, em Paris, estudadas in loco por representantes da Agência.
Sem essa costura entre escalas, corre-se o risco de produzir um futuro composto de fragmentos ecológicos isolados, cercados por um modelo de urbanização que, paradoxalmente, ainda resiste à sua própria geografia anfíbia. A justiça espacial-climática, nesse contexto, não se limita à importação de modelos, mas se constrói de forma colaborativa, a partir da realidade tropical e das características dos biomas do território.
Jardins Filtrantes Gerais. Fotos: CITinova Recife/Giselle Cahú
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PARQUE RACHEL DE QUEIROZ Uma grande área da zona oeste de Fortaleza funcionava como terreno baldio para o despejo irregular de lixo e esgoto clandestino, poluindo o Riacho Cachoeirinha, um dos principais recursos hídricos do bairro Presidente Kennedy. O adensamento dessa região reduziu as áreas permeáveis e sobrecarregou o sistema de escoamento, resultando em alagamentos frequentes no entorno. Em resposta, o Parque Linear Rachel de Queiroz, concluído em 2022, realizou o plantio de mais de 2.400 espécies vegetais e instalou wetlands — um sistema composto por nove microlagoas que utiliza processos naturais para o tratamento da matéria orgânica presente na água. O modelo foi posto à prova no dia 10 de fevereiro de 2024, quando a segunda maior chuva na cidade em 50 anos provocou o transbordamento das lagoas. No entanto, no dia seguinte, o volume de água foi absorvido pelo sistema.
O escritório Architectus S/S, responsável pelo projeto, teve como diretrizes minimizar o uso de concreto e de superfícies impermeáveis e valorizar o paisagismo. Essa abordagem priorizou a implantação de margens inclinadas, permitindo o acesso de animais silvestres ao espelho d’água e favorecendo o aflorar de vegetação nas bordas. Assim, a rugosidade do canal de escoamento aumentou e reduziu-se a velocidade média da vazão. Os arquitetos Elton Timbó e Gerson Amaral, diretor técnico e coordenador do projeto, respectivamente, pontuam que o sistema não foi concebido como uma barragem do Riacho Cachoeirinha, mas sim para simular o espraiamento temporário das águas em momentos críticos. Embora ainda sejam necessários estudos para quantificar o impacto das wetlands no amortecimento das cheias, há indícios de que o Parque se consolidou como uma paisagem urbana resiliente.
Parque Rachel de Queiroz, em Fortaleza. Imagens: Architectus S/S
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MUDANÇA DE PARADIGMA EM NITERÓI Por décadas, moradores do entorno da Lagoa de Piratininga, em Niterói (RJ), conviveram com mau cheiro e acúmulo de lixo ao abrir as janelas de casa. Esse cenário começou a mudar quando a Prefeitura implantou o Parque Orla Piratininga Alfredo Sirkis (POP), atualmente o maior complexo de jardins filtrantes da América Latina e Caribe. Três grandes sistemas de alagados construídos filtram as impurezas das águas pluviais e das três principais bacias hidrográficas que desaguam no espaço — os Rios Cafubá, Arrozal e Jacaré — devolvendo água com melhor qualidade para a Lagoa. Ocorreu, também, a recuperação de conectores de Mata Atlântica em áreas úmidas, que reforçam a conectividade ecológica, ampliam os habitats da fauna local e fortalecem os serviços ecossistêmicos prestados à população.
geógrafa Dionê Castro. Segundo ela, o principal objetivo do parque foi contribuir para a recuperação da lagoa. Para a população, os benefícios sociais são concretos: hoje, a vista das janelas se abre para áreas verdes, dez quilômetros de ciclovias e caminhos para pedestres. Além disso, já se observa a redução de cheias, o aumento da biodiversidade e a eliminação de pontos históricos de alagamento. O projeto adotou uma gestão participativa, envolvendo a população desde a concepção até a execução das obras e permitindo que 85% das demandas locais fossem acolhidas. Atualmente, o parque passa por uma nova etapa de monitoramento da qualidade da água e do desempenho das estruturas implantadas. O objetivo é garantir a manutenção dos indicadores ecológicos recuperados desde a inauguração, em 2024.
A intervenção faz parte do Programa Região Oceânica (PRO) Sustentável, coordenado pela
Execução do Parque Orla. Foto: Leonardo Simplício/Prefeitura de Niterói
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INICIATIVAS FORA DO BRASIL Conheça parques pelo mundo que trocaram a infraestrutura cinza pela verde: Parque Manzanares Madri, Espanha
Parc des Berges du Rhône Lyon, França
Tom McCall Waterfront Park Portland, EUA
Riacho Cheonggyecheon Seul, Coreia do Sul
FONTES CONSULTADAS Renata Peres é arquiteta e urbanista com experiência na área de Planejamento Ambiental Urbano e integrante do grupo de pesquisa Sustentabilidade e Gestão Ambiental (UFSCar). Mila Montezuma é pesquisadora em resiliência e adaptação nos Países Baixos.
Dionê Castro é geógrafa com mestrado e doutorado em Geografia e coordenadora do Programa Região Oceânica (PRO) Sustentável em Niterói (RJ).
Riciane Pombo é arquiteta e urbanista especializada em adaptação climática e diretora da Guajava Arquitetura da Paisagem e Urbanismo. Elton Timbó é arquiteto e urbanista especialista em Projetos de Alta Complexidade e diretor da Architectus S/S. Gerson Amaral é mestre em Paisagismo pela USP e gerente de Arquitetura da Architectus S/S.
José Bueno é arquiteto e urbanista pela Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Instituto Rios e Ruas.
REFERÊNCIAS BEZERRA GUERREIRO, Ana Luiza. Intervenções urbanas com Soluções Baseadas na Natureza e o Direito ao Lazer: Parque Linear Rachel de Queiroz em Fortaleza. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo e Design) – Centro de Tecnologia, Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo e Design, Universidade Federal do Ceará. Fortaleza, 2024. CASTRO, D. M. M. et al. Parque Orla Piratininga em Niterói: realizações, desafios e lições aprendidas com soluções baseadas na natureza. Revista Ineana, Rio de Janeiro: Instituto Estadual do Ambiente (INEA), v. 13, n. 2, p. 31–49, jul./dez. 2025. Disponível em: https://www.prosustentavel.niteroi.rj.gov.br/wp-content/uploads/2025/11/IneanaSolucoes-baseadas-na-Natureza.pdf. Acesso em: 17 abr. 2026. SÃO PAULO. Caderno de bacia hidrográfica: bacias dos córregos Belini e das Corujas. Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica – São Paulo: FCTH/SIURB, 2023. MÓBILE #29
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REPORTAGEM
A negação dos rios na urbanização de São Paulo Ao longo dos últimos 200 anos, a maior cidade do Brasil negou grande parte de seus cursos d’água e hoje enfrenta dificuldades para lidar com as mudanças climáticas
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odo ano é a mesma coisa: basta cair uma chuva grossa, em qualquer época", desabafa Edileuza Silva, funcionária de uma lanchonete próxima à Avenida Nove de Julho, Centro de São Paulo. Quando isso ocorre, as enchentes inundam ruas e invadem estabelecimentos. Para quem trabalha na região, o roteiro já é conhecido: esperar o escoamento, contabilizar os prejuízos e, por fim, limpar a lama. Edileuza não vislumbra solução imediata, pois sabe que sob o asfalto da Nove de Julho corre o Rio Saracura. Até o início do século XX, como a maioria dos corpos d’água da cidade, ele fluía livre, a céu aberto. Com o avanço da urbanização, no entanto, centenas de cursos d'água foram soterrados e desapareceram da paisagem e da memória da população.
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Hoje, como a maioria dos demais cursos d’água da cidade, o Saracura está soterrado sob metros de concreto. Em pontos da Bela Vista e nas proximidades do Terminal Bandeira, ainda é possível ouvir o fluxo da água pelas bocas de lobo. No subsolo, o rio se junta aos “irmãos” Bixiga e ao Itororó e segue em direção ao Rio Anhangabaú, no coração do Centro Histórico. A urbanização do Vale do Anhangabaú começou com a construção do Viaduto do Chá, inaugurado em 1892, após a desapropriação de
chácaras da região. Em 1906, com a ampliação da área urbanizada, o rio encontrava-se canalizado e coberto — destino que o Saracura também teria cerca de 20 anos depois (Jorge, 2017). Mesmo sufocados por vias e edifícios, esses corpos d’água se impõem durante enchentes severas, retomam seus antigos caminhos e alagam ruas, avenidas e túneis. Estudo da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Gonçalves, 2025) reconstitui o histórico de inundações associadas à impermeabilização do Centro Histórico desde a década de 1930 e indica que os eventos extremos não são novos, mas se tornaram mais frequentes e intensos.
Além do Centro, os problemas se espalham por toda a cidade. Chuvas intensas provocam alagamentos em grandes áreas, geram prejuízos econômicos ao invadir prédios e bloquear vias e resultam, em alguns casos, em tragédias humanas. Em 16 de janeiro de 2026, por exemplo, um casal de idosos desapareceu após o carro em que estava ser arrastado pela correnteza para dentro de um córrego no Capão Redondo, na Zona Sul. Segundo o Caderno das Águas, publicado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo (SVMA) em 2020, a cada verão aumentam as demandas da população por soluções para as enchentes, especial-
Vista do Rio Tamanduateí próximo ao Mercado Municipal, abril de 2019. Foto: Lucas Pires/Pexels
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Rua da Cantareira na década de 1940. Foto: acervo fotográfico do Museu da Cidade de São Paulo
mente por meio de obras como canalizações, piscinões e outras estruturas de contenção. Essas soluções, conhecidas como infraestruturas cinzas, estão historicamente incorporadas ao planejamento urbano da cidade. Paralelamente, o Plano Preventivo Chuvas de Verão (PPCV), ativado anualmente entre setembro e março, reúne ações preventivas, emergenciais e assistenciais voltadas ao enfrentamento de eventos climáticos extremos. Na edição 2024/2025, os registros de inundações e alagamentos foram os mais altos dos últimos quatro períodos, o que conforma a persistência e o agravamento do cenário. Esse contexto evidencia que, embora as soluções tradicionais ainda orientem o planejamento urbano, há alternativas — como as infraestruturas verdes e as soluções baseadas na natureza (SbN) — que carecem de maior incorporação às políticas públicas municipais.
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O Mapa Hidrográfico do Município de São Paulo registra 287 rios, riachos e córregos, embora entidades da sociedade civil indiquem a existência de pelo menos 500 cursos d’água. Segundo dados atualizados, o município possui cerca de 5,5 mil quilômetros de rios e mais de 10 mil cabeceiras, muitas delas degradadas ou ocupadas irregularmente.
Cidade de São Paulo, em 2023. Foto: Ranimiro Lotufo Neto/shutterstock.com
PROBLEMAS DA ÁGUA EM SÃO PAULO ALAGAMENTOS E INUNDAÇÕES
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Além das ocorrências, a capital também é citada em nota técnica do Governo Federal que lista 1,9 mil cidades brasileiras — 172 delas no Estado de São Paulo. Esses municípios têm prioridade nas ações federais de gestão de riscos e desastres naturais, como deslizamentos, enxurradas e inundações.
Mapa hidrográfico da cidade de São Paulo. Autor: Leonardo Soares de Sena Gusman
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São Paulo tem características naturais que favorecem alagamentos e enchentes, em razão de sua localização em um planalto, no centro do qual há uma bacia sedimentar formada por numerosos corpos d’água e circundada por morros. O Mapa Hidrográfico do Município de São Paulo registra 287 rios, riachos e córregos, embora entidades da sociedade civil indiquem a existência de pelo menos 500 cursos d’água.
Segundo dados atualizados, o município possui cerca de 5,5 mil quilômetros de rios e mais de 10 mil cabeceiras, muitas delas degradadas ou ocupadas irregularmente. Nesse contexto, a administração municipal reconhece em documento da SVMA que “a ocupação de áreas de risco às margens dos corpos d’água, aliada à perda de cobertura vegetal, agrava as consequências das inundações, deslizamentos e a escassez hídrica”. No processo de urbanização da cidade, as várzeas dos rios foram ocupadas por vias e habitações. De acordo com a Lei n.º 12.651/2012, várzeas de inundação são áreas marginais a cursos d’água sujeitas a enchentes e inundações periódicas, com função essencial de receber e sustentar a vazão das águas nas cheias. Segundo o Caderno das Águas (São Paulo, 2017, p. 10), “ocorre que também devastamos a cobertura vegetal da cidade e impermeabilizamos a maior parte do solo. Quando chove, a água não encontra solo permeável para penetrar e corre para os rios, que, por sua vez, não suportam a carga e transbordam”. Historicamente, as gestões municipais adotaram práticas higienistas, que associavam os rios a doenças e à insalubridade. Essa visão impulsionou o soterramento dos cursos d’água e favoreceu a expansão urbana para atender ao rápido crescimento populacional. Janes Jorge, professor do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), argumenta que o crescimento demográfico e espacial acelerado se deu em escala global. No entanto, em São Paulo, houve uma maior “brutalidade” que tornou rios e córregos as “primeiras vítimas” do processo de degradação. O núcleo urbano central, no Vale do Anhangabaú, antecipou os problemas que se expandiram pela cidade. O córrego foi canalizado e coberto devido à poluição e à crença de que o soterramento seria mais higiênico. Posteriormente, cursos menores que nele desaguavam também foram canalizados, mas com outra finalidade: dar lugar a avenidas. MÓBILE #29
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A cobertura dos rios contribuiu para o surgimento de um novo tipo de enchente, associado ao rápido escoamento das águas em áreas pavimentadas. A cobertura dos rios contribuiu para o surgimento de um novo tipo de enchente, associado ao rápido escoamento das águas em áreas pavimentadas. O que ocorreu no Vale foi replicado por toda a cidade ao longo do século XX, impulsionado por interesses ligados ao mercado de terras, à produção de energia hidroelétrica e à visão dos rios como depósitos de esgoto. Os três maiores rios da cidade — Tietê, Tamanduateí e Pinheiros — sofreram intensas intervenções ao longo da história. O Tietê foi represado, modificado e dragado em diversos trechos, perdeu matas ciliares e teve várzeas ocupadas por construções. Além disso, passou a receber toneladas de resíduos industriais e de esgotos domésticos, o que levou à sua degradação. Desde a década de 1990, o rio é alvo de um programa de recuperação ainda incompleto. Antes um meio de locomoção, o Tamanduateí passou a receber dejetos químicos do polo petroquímico de Capuava a partir dos anos 1950, e também foi degradado e canalizado. O Pinheiros teve o curso invertido para alimentar a represa Billings, com perda de velocidade e de capacidade de absorver as cheias. Hoje, os três permanecem impróprios para uso humano.
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CIDADE SEM CAMINHABILIDADE A pesquisadora Fernanda Padovesi, professora da USP, aponta o rodoviarismo como causa central dos problemas estruturais da capital. A abertura de largas avenidas desconsiderou o traçado natural dos rios, que foram retificados e acelerados, o que ampliou o poder destrutivo das águas.
cente: já em 1927, uma proposta de metrô foi arquivada em favor de projetos de avenidas e outras vias.
Segundo a Escola Politécnica da USP, os principais problemas de inundação no Vale do Anhangabaú decorrem da ocupação das várzeas por vias de tráfego intenso e da retificação e cobertura dos córregos da bacia. A SVMA estima que, sem a impermeabilização, até 90% da água da chuva poderia ser retida pelo solo.
Como consequência, aproximadamente 40% da mancha urbana de São Paulo é ocupada pelo sistema viário e seus componentes, incluindo estacionamentos. Em fevereiro de 2026, a frota do município atingiu 9.996.683 veículos, segundo a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran). Desse total, quase 80% correspondem a automóveis e motocicletas (6,41 milhões e 1,36 milhão, respectivamente). Esse volume se intensifica com a circulação de condutores da Região Metropolitana.
A preferência pelo automóvel particular em detrimento do transporte público e da mobilidade ativa (que inclui pedestres e ciclistas), promove uma cidade segregada e pouco voltada ao convívio social. Esse cenário não é re-
Para conter as cheias, uma das principais apostas da Prefeitura é a implementação de uma rede de 55 piscinões. Desde 2021, seis novas unidades foram construídas e outras oito estão em construção, com o objetivo de reter o
Projeto de melhoramentos entre Osasco e Penha. Comissão de Melhoramentos do Rio Tietê 1924-1925. Fonte: Jorge, 2017, p. 74
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Guia e Planta da Cidade de São Paulo de 1933. Fonte: Jorge, 2017, p. 72
excesso de água das chuvas. Segundo a gestão municipal, essas estruturas visam a reduzir enchentes em regiões historicamente afetadas. Contudo, esse modelo é criticado pelo arquiteto José Paulo Gouvêa, professor da Escola da Cidade, devido aos impactos negativos desses equipamentos. O principal é a dimensão: são espaços “de ordem metropolitana” inseridos em bairros, o que resulta em grandes áreas ociosas ou subutilizadas. Além disso, permanecem a céu aberto durante a maior parte do ano, o que atrai a presença de ratos, insetos e
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outras pragas. Projetos desse tipo deveriam, na verdade, prever coberturas, como camadas de terra, para garantir melhor integração ao tecido urbano e uso qualificado do espaço. A sustentabilidade da cidade exige não apenas mudanças de planejamento urbano, mas também uma redefinição do estilo de vida. Cidades como Madrid, na Espanha, Portland, nos Estados Unidos, e Lyon, na França, têm implementado projetos de parques lineares e a despoluição de rios, revertendo essa lógica ao devolver os entornos dos rios ao convívio público.
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Vale do Saracura nos anos 1900. Foto: Vincenzo Pastore/Domínio Publico
José Paulo Gouvêa reforça que a ocupação das várzeas da cidade resultou na criação de um tecido urbano ordinário. Com isso, São Paulo perdeu a oportunidade de implantar bairros-jardim ou praças com soluções capazes de mitigar os problemas decorrentes da urbanização. Como alternativa a essa abordagem, a cidade poderia investir em “desconstrutoras”: equipes técnicas equipadas de caçambas, britadeiras e projetos voltados à remoção de superfícies impermeáveis, sobretudo o asfalto. A proposta é permitir a infiltração da água no solo e tornar a cidade mais porosa. São Paulo escondeu — e ainda esconde — uma rede pulsante de águas que, embora invisível, jamais deixou de existir. Aprender a reescutar a voz de rios e riachos e tornar visíveis seus caminhos ocultos é o primeiro passo para que a cidade se reconcilie com sua própria geografia e passe a reintegrar a natureza à paisagem urbana.
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Fazer qualquer renaturalização demanda vultosos recursos que poderiam ser hoje melhor aplicados em rios que nunca foram fechados.
Luciana Travassos, coordenadora do Projeto Territórios da Água
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DESCONSTRUIR PARA RECONSTRUIR
Marginal Tietê canaliza o rio próximo ao bairro do Limão, em abril de 2023. Foto: Leandro Barreto/Pexels
FONTES CONSULTADAS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Pérola Brocaneli lecionou na Universidade Presbiteriana Mackenzie e é autora da tese O ressurgimento das águas na paisagem paulistana.
JORGE, Janes. Tietê, o rio que a cidade perdeu: São Paulo 1890-1940. São Paulo: SVMA, 2017.
Luciana Travassos é docente do Bacharelado de Planejamento Territorial e autora da tese Revelando os rios: novos paradigmas para a intervenção em fundos de vale urbanos na Cidade de São Paulo.
Fernanda Padovesi tem experiência em cartografia histórica e integra o Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da USP.
José Paulo Gouvêa é autor da tese A Presença e a Ausência dos Rios de São Paulo: Acumulação Primitiva e Valorização da Água e dirige o escritório JPG.ARQ.
GONÇALVES, Filipe Chaves. Avaliação do potencial de medidas de drenagem urbana sustentável na mitigação de inundações em área urbana densamente povoada. 2025. 184 p. Dissertação (Mestrado em Engenharia de Hidráulica e Ambiental) – Escola Politécnica, Universidade de São Paulo: São Paulo, 2025. SÃO PAULO. Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente. Caderno das águas. São Paulo: SVMA, 2020. Disponível em: https://drive.prefeitura.sp.gov.br/ cidade/secretarias/upload/guia_aguas_1253304123. pdf. Acesso em: 19 jan. 2026.
Janes Jorge é autor do livro Tietê, o rio que a cidade perdeu.
Celso Maran de Oliveira é cientista jurídico ambiental e urbanístico e autor da tese Instrumentos alternativos de solução de conflitos em recursos hídricos: caso da arbitragem.
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CHAMADA ABERTA
Metamorfose da Várzea Paulistana Entre a técnica, a energia e o espaço urbano
GABRIEL RODRIGUES GRINSPUM
A história de São Paulo é indissociável de sua rede hídrica, mas sua configuração atual resulta de uma ruptura técnica ocorrida na transição para o século XX. A Segunda Revolução Industrial impôs uma nova racionalidade produtiva, na qual o advento da energia elétrica substituiu o vapor e a água, antes vista como via de transporte ou obstáculo, passou a ser o "combustível" essencial para as indústrias e para a iluminação das cidades, que cresciam sob o impulso do capital cafeeiro e industrial.
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Nesse período, a capital paulista teve sua expansão condicionada pelas extensas várzeas dos rios Tietê e Pinheiros. Até então, essas áreas funcionavam como reservatórios de equilíbrio natural e fronteiras físicas. A metamorfose desse cenário ocorreu por meio de um projeto capitaneado pelo engenheiro Billings, que subverteu o curso natural das águas para alimentar a demanda elétrica, transformando o antigo "obstáculo" das várzeas em capital imobiliário e energético.
← Foto pág. 88 e 89: Enchente no Centro de São Paulo em 1929. Fonte: acervo fotográfico do Museu da Cidade de São Paulo
Figura 01 – Mapa da 1° Concessão do Projeto da Serra, desenho de F. S Hyde, 1924. (ACKERMAN, 1953, p.35)
O EMBATE DE VISÕES Na década de 1920, o conflito sobre o destino das várzeas opôs duas visões de engenharia e urbanismo. Uma delas, a do engenheiro sanitarista Francisco Saturnino de Brito, que, por meio da Comissão de Melhoramentos do Rio Tietê (1924-1925), apresentou uma proposta que antecipava conceitos modernos de uso múltiplo das águas. Brito defendia que o rio não deveria servir a uma única função; seu plano aliava o combate rigoroso às enchentes, por meio de reservatórios de regularização no Alto Tietê, à navegação fluvial como motor econômico, à criação de grandes parques públicos nas margens e à diluição controlada de efluentes. Para Brito, o equilíbrio entre a técnica e a paisagem era vital. Ele propunha a manutenção
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de trechos da várzea como "respiradouros" urbanos e reservatórios naturais, reconhecendo que a água necessitava de espaço para extravasar. Essa visão sistêmica considerava o rio como um elemento cívico e ambiental, contrapondo-se à tendência de reduzir as várzeas em prol das forças produtivas. Uma segunda visão se desenvolveu, simultaneamente, sob a responsabilidade do engenheiro americano Asa W. Kennedy Billings, da São Paulo Tramway, Light and Power Company, no Complexo Hidroelétrico da Serra de Cubatão. O chamado "Projeto da Serra" adaptou-se às complexidades políticas e técnicas do período. A primeira concessão, obtida em 1924, focava em derivações das cabeceiras do Rio Tietê por meio de túneis e canais gravitacionais.
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Contudo, na segunda versão (1927) o projeto foi radicalmente modificado, introduzindo a reversão do Rio Pinheiros e a criação de grandes reservatórios. A tese central da pesquisa aponta que os estudos de Saturnino de Brito — com seus rigorosos levantamentos topográficos e dados fluviométricos inéditos compilados pela Comissão de Melhoramentos — forneceram o embasamento técnico que permitiu a Billings ousar nesta reconfiguração. Ao ter acesso aos parâmetros de vazão e níveis de inundação, detalhados por Brito, a Light percebeu que poderia otimizar a obra ao transformar o Rio Pinheiros em um canal de derivação com declividade negativa. Esta solução previa elevar as águas do Tietê até a Represa Billings por meio de bombeamento mecânico nas usinas de Traição e Pedreira. Além do ganho energético, essa manobra permitiu o saneamento de grandes extensões de terra, abrindo campo para a exploração econômica complementar através da valorização imobiliária. Essa versão do projeto de Billings (1927) redefiniu a ocupação do solo paulistano ao transformar as várzeas em mercadoria. A Light viabilizou a "conquista" de milhões de metros quadrados de terras antes insalubres. Essa manobra criou uma sinergia única: o capital internacional financiou a infraestrutura energética, enquanto os mecanismos de valorização imobiliária — inspirados nas taxas de remuneração sugeridas por Brito — permitiram amortizar os investimentos. Essa estratégia alterou a lógica de crescimento da cidade: o saneamento do vale do Pinheiros ocorreu antes da urbanização, pre-
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parando o terreno para indústrias e bairros modernos. Assim, a infraestrutura tornou-se a própria matriz da forma urbana, moldando um mercado de terras que privilegiou a expansão liberal da metrópole. Contudo, o uso múltiplo das águas defendido por Brito foi sacrificado. O canal do Pinheiros tornou-se um dreno infraestrutural dependente de bombas, isolado da vida cotidiana por vias expressas e preterido em sua função de lazer e transporte em favor da eficiência monofuncional. O Projeto da Serra operou uma proeza técnica: a inversão do fluxo hídrico da Bacia do Tietê para a vertente marítima. Foi considerada a maior obra de engenharia no Brasil, na primeira metade do século XX, por sua dimensão e ousadia técnica. Este sistema estruturou-se em estágios, de 1926 a 1962, desde o inicial Reservatório Guarapiranga até a Seção Subterrânea da Usina Henry Borden. A morfologia resultante foi a de um meio geográfico artificializado, onde o aterro maciço das várzeas eliminou os reguladores naturais de cheias. A dependência desse sistema foi tamanha que a remoção das águas poluídas do Pinheiros para o reservatório Billings foi restringida em 1992 para proteger os mananciais, reduzindo a geração de energia a apenas 10% do seu potencial. Por outro lado, o reservatório foi redirecionado para o abastecimento da população urbana, evidenciando a complexidade da gestão hídrica metropolitana e o esgotamento de um modelo que negligenciou a qualidade da água em favor da demanda das turbinas. O legado dessas obras é uma infraestrutura de "obra aberta". Diante da emergência climá-
Figura 2 – Foto aérea do canal do rio Pinheiros, no trecho da ponte Sorocabana, com parque Villa-Lobos na margem esquerda e a Cidade Universitária ao fundo. Foto: Nelson Kon, s.d.
tica e da crise hídrica, a visão de Saturnino de Brito ganha nova urgência. A transformação dos rios exige superar o modelo utilitarista de 1920 para tratar a água como recurso multifuncional: abastecimento, transporte, lazer e equilíbrio térmico. O redirecionamento do abastecimento para águas subterrâneas — conforme proposto originalmente por Brito por meio da Comissão de Melhoramentos do Rio Tietê (1924-1925), no futuro, poderá liberar os reservatórios do Alto Tietê, hoje utilizados predominantemente para o abastecimento. Os canais do Pinheiros e do Tietê poderão ser tratados não apenas como dreno, mas como um distribuidor de águas tra-
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tadas, inserindo-os em um sistema de parques metropolitanos. O “Projeto da Serra” de Billings demonstrou que dispomos da capacidade técnica e de recursos legais e financeiros para equacionar esse desafio para o século XXI. Integrar a técnica ao bem-estar social é o desafio para reverter o distanciamento entre a metrópole e sua essência fluvial, transformando a infraestrutura em um agente de regeneração urbana.
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REFERÊNCIAS ACKERMAN, Adolph J. Billings and water power in Brazil: a short biography of Asa White Kenney Billings. [S.l.: s.n.], 1953. BRITO, Francisco Saturnino de. Obras completas de Saturnino de Brito: volume XIX – defesa contra as inundações. [S.l.: s.n.], 1944. GRINSPUM, Gabriel Rodrigues. Metamorfose da várzea paulista: energia, saneamento e urbanização. 2014. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo – Área de Concentração: Projeto de Arquitetura) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. IBEC. Programa de melhoramentos públicos para São Paulo. Robert Moses (coord.). [S.l.]: IBEC, 1950. LIGHT SP. Instalações hidrelétricas da São Paulo Light and Power CO. LTD. São Paulo: Light SP, 1952. LIGHT SP. Secção subterrânea da usina hidrelétrica de Cubatão. São Paulo: Light SP, 1957. SZMRECSÁNYI, Tamás. A era dos trustes e cartéis. Revista História & Energia / Memória Eletropaulo, São Paulo, 1986. VASCONCELLOS, Miguel Couto de. Usos múltiplos da água em São Paulo. Revista História & Energia / Memória Eletropaulo, São Paulo, 1995.
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Imagem pág. 95: Mapa Colorido Topo Hidrográfico Grande São Paulo, Danilo Lessa Bernardineli →
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Entre águas, sonhos e cidade: O lugar do riacho na paisagem e no cotidiano urbano
ARTHUR PEDROSA ROCHA
O nascimento da paisagem como objeto do pensamento humano mostra-se indissociável das imagens das águas. Um dos primeiros vocábulos a significá-la, shanshui, provém da união entre dois sinogramas chineses: shan (山), que quer dizer "montanha", e shui (水), "água" ou "curso d'água" (Berque, 2023). Contudo, apenas no século IV d.C., em um contexto indubitavelmente hídrico, esse termo adquire a noção de paisagem. A ocasião foi um banquete de Liu Shang Qu Shui, realizado na vila de um calígrafo chinês, no qual os participantes eram convidados a beber uma taça de vinho que flutuava ao longo de um riacho (Figura 1). No quadro das categorizações recorrentes sobre a paisagem — urbana, rural, fluvial, entre outras adjetivações — observa-se que um tratamento polissêmico semelhante incide sobre o vocábulo hídrico. Seria apenas a combinação de duas ligações covalentes entre dois átomos
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de hidrogênio e um de oxigênio? Seriam tão fartas como as salgadas e tão escassas como as doces? Antes das técnicas e das classificações, a água se colocava como fundamento, seja na busca pré-socrática por uma arché, seja nas cosmogonias em que aparece como cenário de lastro. Na tradição cristã, ela se associa a renovações, como no dilúvio purificador e no renascimento simbólico pelo batismo. Na cultura iorubá, associa-se a Iemanjá, matriz da vida, divindade associada aos rios e às suas desembocaduras. É a partir desse campo simbólico que os sonhos podem mobilizar a imaginação, fazendo com que as imagens da água deixem de se restringir apenas a traços objetivos, das propriedades químicas ao jogo de reflexos e transparências, e se abram para imagens ativas que “cantam” a realidade.
Figura 1. Qian Gu. Encontro no Pavilhão das Orquídeas, 1560. Rolo horizontal, tinta e cor sobre papel. Fonte: The Metropolitan Museum of Art, Nova York
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa. Passou um homem depois e disse: Essa volta que o rio faz por trás de sua casa se chama enseada. Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que fazia uma volta atrás da casa. Era uma enseada. Acho que o nome empobreceu a imagem (Barros, 2016, p.20).
Sob a figura do rio, o poeta brasileiro Manoel de Barros (1916-2014) destaca a potência imaginal das águas correntes ao descrevê-las como um “vidro mole” ou uma “cobra de vidro”. Essas imagens, porém, se perdem quando um discurso técnico as reduz ao nome “enseada”, redução que não é apenas semântica, mas indicativa de um processo mais amplo de abstração da água. É também por ele que se estabelece, de um lado, “[...] gente que precisa viver de um rio e, no outro, gente que consome rios como um recurso” (Krenak, 2020). Reduzida a recurso, a água do rio é abstraída de suas dimensões ecológicas, sociais e políticas: sua importância para a manutenção de ecossistemas, seus significados construídos por diferentes comunidades e as possibilidades de sua governança mais horizontal. Esse esforço de
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abstração marca a água moderna, o H₂O, fluido manejado que circula por encanamentos. E se os rios, enquanto modeladores do território, permanecem no ponto de inflexão da relação tecnocrática entre sociedade e natureza na cidade, os riachos, cursos d’água capilares e mais entranhados no tecido urbano mostram-se ainda mais vulneráveis a essa dinâmica. Essa vulnerabilidade se manifesta tanto em intervenções tecnocráticas, como vias que se sobrepõem aos cursos d’água e os enterram em galerias pluviais ou canais que eliminam seus meandros, quanto na deformação das imagens produzidas sobre eles. Na matriz hidrográfica dos sonhos, o rio é apresentado como essa figura heroica cuja força provém de fontes longínquas, enquanto os riachos, embora participem da constituição da própria fisionomia desse rei, são postos em segundo plano, pois “a imaginação quase não leva em conta os afluentes. Ela quer que uma geografia seja a história de um rei” (Bachelard, 2013, p. 158). É na cidade que essa preterição assume contornos específicos, culminando na negação física e simbólica das águas correntes, um verdadeiro hidrocídio, processo que se intensifica sobretudo nos riachos, com a reconfiguração de suas qualidades físicas e simbólicas. Esse hidrocídio no cotidiano urbano afasta a popu-
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lação de uma experiência sensível e imaginal com os tênues fluxos hídricos que, outrora, fundaram a paisagem como objeto do pensamento humano (Figura 1). Em paralelo, multiplicam-se projetos que procuram reintroduzir a água como elemento de qualificação paisagística, frequentemente por meio de parques lineares, espelhos d’água, fontes e canais requalificados. Todavia, a maioria ainda tende a espelhar não a água viva, mas o H₂O manejado, que seduz, mas não convida a uma experiência vivida. No fundo, “somos capazes de debater de modo bastante aberto, por exemplo, a seleção do arquiteto que emperiquitará a matéria que corre pelas canalizações [...] sentimo-nos à vontade para criticar a maneira como ele a apresenta e a faz dançar ou cintilar. Mas [...] sabemos que essa ‘matéria’ é descarga sanitária reciclada” e não uma água dos sonhos (Illich, 2025, p. 38-39). Nos riachos convertidos em dispositivos técnicos ou simulacros, a água viva cede lugar a
um fluxo funcional, padronizado e dessimbolizado, cuja lógica responde prioritariamente às demandas de saneamento, eficiência hidráulica ou a tentativas de um falso casamento entre água e cidade (Illich, 2025). Esse processo coloca desafios diretos para arquitetos e urbanistas em contextos contemporâneos marcados por eventos climáticos extremos e sobrecarga dos sistemas de drenagem, mas também pelo vínculo frequentemente esquecido entre infraestrutura urbana, cotidiano urbano e paisagem. O desafio reside em reimaginar as relações desse vínculo de modo que as intervenções projetuais não reduzam o fenômeno do riacho à ciência hidráulica ou a mero pano de fundo. Trata-se de abrir espaço para abordagens que integrem funcionalidade, ecologia e experiência das águas correntes pelos sentidos e pela imaginação. Apenas assim, as águas podem ser vivenciadas no cotidiano urbano, desvelando as paisagens latentes que brotam dos riachos entranhados na cidade.
REFERÊNCIAS BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. Tradução de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2013. BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2016. BERQUE, Augustin. O pensamento-paisagem. Tradução de Vladimir Bartalini e Camila Gomes Sant'Anna. São Paulo: Edusp, 2023. ILLICH, Ivan. H₂O e as águas do esquecimento. Tradução de Silke Kapp. Belo Horizonte: N-1 Edições, 2025.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
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Imagem pág. 99: Águas urbanas na Bacia do Prata. Foto: Paula López Barbai →
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São Paulo em cursos d’água FERNANDA PINHEIRO DA SILVA
Odette Seabra (1987) nos ensina que a produção da natureza se inscreve na política do espaço. Ao atentar para a retificação dos rios Tietê e Pinheiros a partir do século XIX, a autora expõe a produção da cidade de São Paulo como signo de modernidade e chama atenção para o sentido dessas intervenções. De uma perspectiva, a urbanização permitia a incorporação de áreas de várzea ao mercado de terras e criava condições para eletrificar a cidade. De outra, a imposição de um ritmo urbano racionalizado para dinâmicas da natureza criava enchentes e alagamentos no lugar de inundações intermitentes de rios meândricos. Historicamente, a reprodução social capitalista engendrou uma relação dialética entre campo e cidade, sendo esta última alçada à representação “virtuosa” da modernidade. A produção do espaço urbano, sempre renovado, o opõe ao rural e subordina a natureza a ritmos técnicos, supondo dominá-la. As violências desse enquadramento estruturam a modernidade e se desdobram dialeticamente em múltiplas “mediações enganosas do antigo e do novo” (Benjamin, 2009, p. 90), hierarquizando formas de vida e repondo desigualdades socioespaciais. No Brasil, ainda é preciso considerar as contradições de uma formação nacional periférica, na qual a pulsão urbana foi posta pela divisão internacional do trabalho (Oliveira, 1982). Dife100
rentemente de outras capitais litorâneas, esse processo ganhou corpo em São Paulo já no final do século XIX, a partir da expansão do complexo cafeeiro. Com fortes vínculos com o porto de Santos e um comércio pujante que alavancou a indústria, São Paulo assumiu uma nova posição na economia nacional e se tornou lócus de modernas relações de produção e reprodução. Como desdobramento, impôs-se sobre o núcleo urbano do planalto paulista uma política do espaço avessa a seus traços de ruralidade, marcados por abundantes cursos d’água. As retificações se iniciaram nesse período. A imposição de um novo tempo e espaço para rios meândricos fomentou o mercado de terras, inclusive pela criação de solo urbano onde antes eram terras alagáveis, além de interferir em atividades de cultivo, criação e subsistência. Não à toa, os primeiros alvos da nova política se localizavam nas imediações do núcleo central: a várzea do Carmo no rio Tamanduateí e o vale do rio Anhangabaú, descrito como “uma 'ilha' de verdura no meio do casario urbano de uma capital que desejava crescer” (apud Seabra, 1987, p. 30). Mas o desejo de crescer não era propriamente da capital, e sim da acumulação de capital que, ao se concentrar em São Paulo, impôs novos termos para a sua produção. Expressão socioespacial dessa acumulação, os cursos d’água foram varridos por obras que
Figura 1 - Planta de São Paulo de 1890, com destaque para a várzea do Carmo. Fonte: Arquivo Histórico Municipal, Museu Paulista-USP
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expropriavam violentamente os ocupantes das várzeas, os varzeanos, notadamente pessoas negras e/ou identificadas como “caipira” (Silva, 2018). Num primeiro momento, o desmonte de atividades e modos de vida às margens dos rios vinha acompanhado da instituição da propriedade privada e da criação de solo urbano, e forjou um processo no qual “a valorização das várzeas se inscreve na História da Cidade de São Paulo, no processo de valorização do seu espaço, cuja gênese está no próprio desenvolvimento da economia e da sociedade brasileira” (Seabra, 1987, p. 13). Mas o sentido das intervenções se transformou no decorrer do século XX. A partir de 1920, a política do espaço fundiu a retificação de cursos d’água com a eletrificação da cidade, convertendo toda a bacia hidrográfica do Tietê em recurso para a produção de energia elétrica. Uma força motriz para o desenvolvimento
urbano-industrial e para os lucros da Companhia Light, empresa canadense que atuou de forma incisiva na urbanização de São Paulo desde 1899. Muito se pesquisou sobre isso (Souza, 1982; Seabra, 1987; Saes, 2009), e aqui se destaca o rio Pinheiros. Afluente do Tietê, o seu curso foi retificado e invertido, vertendo as suas águas para a represa Billings, rumo à serra do Mar, em Cubatão, onde se localiza a usina Henry Borden. Expressão de um conflito que ainda marca a urbanização de São Paulo, os fundamentos dessa reversão aparecem especialmente em dias de chuva: para controlar inundações e conter a vazão de rios retificados, os reservatórios deveriam estar abaixo de sua capacidade; já para a eletrificação, a própria chuva passava a ser vista como energia em potencial, demandando a manutenção de reservatórios em sua máxima capacidade (Seabra, 1987).
Figura 2 - Recorte da Planta de São Paulo de 1897, com indicação de intervenções em cursos d'água. Adaptação de figura elaborada pela autora, 2026. Fonte: Arquivo Histórico Municipal, Museu Paulista-USP
Retificação do Tietê
Retificação do Tamanduateí
Canalização do Anhangabaú
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Figura 3 - Confluência dos rios Pinheiros e Tietê, de 1929 - data estimada a partir de Souza (1982, p. 116). Fonte: Fundação Energia e Saneamento.
racializada e periférica. Agravadas por obras posteriores, as retificações permanecem no cotidiano paulistano e atualizam a política do espaço que criou enchentes no apelo tecnocrático pela construção de piscinões (Naome, 2022). A produção da natureza está inscrita na política do espaço, o que “não só faz o espaço entrar na produção da mais-valia, ela visa uma reorganização completa da produção subordinada aos centros de inforExecutada entre 1930 e 1940, a reversão alterou drasticamente o curso do rio para aumentar a produção de energia, uma opção por reservatórios cheios em detrimento do controle de inundações. Entre os resultados, que se somaram à velocidade aumentada de suas águas pela retificação, produziu-se uma cidade alagada. O problema nunca afetou a todos da mesma maneira, impondo-se desde o início com maior força sobre varzeanos, população
mação e de decisão” (Lefebvre, 2008, p. 141). Em São Paulo, analisá-la criticamente permite desvendar que “as inundações aparecem como fenômeno histórico, num certo sentido redefinindo o significado das cheias naturais episódicas do rio e das várzeas, para constituir-se em flagelo” (Seabra, 1987, p. 120). Além disso, reforça que desastres não são naturais, algo especialmente crítico diante da atual catástrofe climática.
REFERÊNCIAS BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG, 2009. LEFEBVRE, Henri. A revolução urbana. Belo Horizonte: UFMG, 2008. NAOME, L. Solução para o problema das enchentes em São Paulo vai além dos piscinões. Jornal da USP, São Paulo, 11 jan. 2022. OLIVEIRA, F. O Estado e o urbano no Brasil. Espaço e Debates, São Paulo, v. 2, n. 6, p. 36-54, 1982. SAES, A. Luz, leis e livre-concorrência: conflitos em torno das concessões de energia elétrica na cidade de São Paulo no início do século XX. História, São Paulo, v. 28, n. 2, p. 173-234, 2009. SEABRA, Odette. Os meandros dos rios nos meandros do poder. 1987. Tese (Doutorado em Geografia Humana) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1987. SILVA, F. Natureza e consenso: uma reflexão a partir do Rio Tietê. Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, 11 abr. 2018. SOUZA, E. História da Light: primeiros 50 anos. São Paulo: Eletropaulo, 1982.
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CHAMADA ABERTA
Morfogênese da água: Canteiros drenantes e a estética dos moist encounters na paisagem urbana DRA. ADRIANA LIMA E PROF. ARTHUR LARA
A emergência climática impõe à Arquitetura e Urbanismo a necessidade de superar a dicotomia moderna entre o "seco" (a cidade construída) e o "molhado" (a natureza hidrológica). O legado do arquiteto Kongjian Yu, ao criticar a infraestrutura cinza que aprisiona as águas, permanece vital: precisamos repensar a cidade como uma "esponja". No entanto, para além da funcionalidade hidráulica, é preciso repensar a ontologia dessas infraestruturas. Proponho aqui a adoção do conceito de moist encounters (encontros úmidos), de Roy Ascott (2003), transposto da arte telemática para o desenho urbano: a criação de interfaces onde sistemas naturais e artificiais coevoluem, mediados pela presença da água. Neste cenário, a água deixa de ser um objeto de controle para tornar-se um agente de Morfogênese Colaborativa. O projeto urbano deixa de ser um produto finalizado e passa a ser um processo em aberto, em que a arquitetura provê o suporte estrutural e a natureza completa o desenho. Este ensaio reflete os resultados de uma pesquisa de pós-doutora-
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do em andamento no âmbito da FAUUSP, que utiliza modelagem paramétrica (Rhinoceros 3D e Grasshopper) e ferramentas algorítmicas de geração visual (DALL-E 3) para conceber novas tipologias de infraestrutura ecológica.
DE MUROS A MEMBRANAS: GEOMETRIA PERFORMATIVA Para materializar a transição de margens urbanas impermeáveis para margens absorventes e drenantes, a pesquisa propõe a substituição de estruturas monolíticas por sistemas modulares de elementos biorreceptivos. Em vez de barreiras sólidas, desenvolvemos bioestruturas baseadas em geometria performativa e no design biorreceptivo (Cruz; Beckett, 2016), integrando o conhecimento técnico sobre concretos desenvolvido em colaboração com o laboratório Multiusuário DClab/HUBIC. Estudos de repetição e variação paramétrica geram morfologias compostas por módulos em forma de conchas ou pétalas sobrepostas. Esta configuração cumpre uma tripla função de performance: 1. Hidrodinâmica: a geometria
Figura 1 — Estudo de modulação e montagem de elementos biorreceptivos. A geometria performativa das “pétalas” sobrepostas atua simultaneamente na dissipação de energia hidrodinâmica e na criação de micro-habitats para a fixação de sedimentos, servindo de suporte estrutural para o jundu. Fonte: Adriana Lima e Arthur Lara. Modelagem digital 3D parametrizada (Rhinoceros 3D e Grasshopper), 2025
complexa dissipa a energia do fluxo de escoamento em rios e córregos urbanos por meio da turbulência e fricção, em vez do impacto direto; 2. Biológica: os interstícios funcionam como armadilhas de sedimentos, capturando substrato que permite o enraizamento da vegetação nativa de jundu (Ipomoea pes-caprae) e a formação de biofilmes; 3. Tectônica: a montagem modular permite a fabricação digital eficiente de peças que, integradas, criam um sistema estrutural robusto e permeável. Este sistema híbrido atua como uma pele urbana que respira e reage, mediando a relação entre a força das águas e a estabilidade do fluxo hídrico em microbacias.
CANTEIROS DRENANTES DO JUNDU: INFRAESTRUTURA VIVA A aplicação desta lógica estende-se das margens fluviais para o tecido urbano por meio dos canteiros drenantes do jundu. Essa tipologia, aplicada à escala de praças e parques lineares, reinterpreta as soluções baseadas na natureza por meio de uma ótica tecnobiológica. Em vez
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de canteiros ornamentais estáticos, criam-se sistemas de canalização que mimetizam a morfologia de dunas, em que o sistema radicular atua como um geossintético vivo. Para viabilizar a aplicação prática, o projeto utiliza concreto poroso de alta resistência projetado para estimular o crescimento biológico (Manso et al., 2014). Um dos avanços da proposta é a indução da autorregulação da colmatação dos poros. A geometria das pétalas é desenhada para promover a alternância de direção do fluxo de água na fase de captação superficial; esse dinamismo hídrico gera um efeito de lavagem passiva que reduz o acúmulo de partículas finas. Essa estratégia de design minimiza a necessidade de intervenções externas, embora a durabilidade do sistema seja reforçada por manutenção técnica semestral com hidrojateamento. A acessibilidade é assegurada pelo desenho de bordas niveladas com o pavimento adjacente, garantindo o trânsito seguro. Adicionalmente, a alta taxa de infiltração vertical elimina o acúmulo de água parada na superfície, mitigando riscos sanitários agudos, como a proliferação do mosquito da dengue.
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Cross-Sectional 3D Rhino Schematic
Figura 2 — Diagrama esquemático do funcionamento hidrológico na praça urbana. O pavimento impermeável direciona o escoamento superficial para o canteiro drenante, onde o sistema substrato-vegetação promove a infiltração vertical e a recarga do lençol freático. Fonte: Adriana Lima e Arthur Lara. Imagem desenvolvida por meio de processo iterativo de prompt engineering, com o modelo DALL-E 3, 2026
INTERFACES BIORRECEPTIVAS E RESILIÊNCIA URBANA
REFERÊNCIAS
A implementação destes sistemas transforma o espaço público em uma interface biorreceptiva. O desenho urbano morfogenético não tenta prever a forma final da paisagem, mas projeta as condições para que a vida prospere. Ao integrar os canteiros drenantes, as cidades litorâneas ganham uma infraestrutura anfíbia, capaz de negociar com as inundações em vez de colapsar diante delas. É a materialização da resiliência biofílica: um urbanismo que respira, absorve e se transforma. Nestes encontros úmidos (moist encounters) entre o concreto, a areia e a raiz, a água recupera seu papel fundamental, não como ameaça, mas como a matriz geradora de uma nova estética urbana, funcional e ecologicamente regenerativa.
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ASCOTT, Roy. Telematic Embrace: Visionary Theories of Art, Technology, and Consciousness. Berkeley: University of California Press, 2003. BEESLEY, Philip. Hylozoic Ground: Liminal Architecture. Toronto: Riverside Architectural Press, 2010. CRUZ, Marcos; BECKETT, Richard. Bioreceptive design: a novel approach to biodigital materiality. Architectural Research Quarterly, Cambridge, v. 20, n. 1, p. 51-64, 2016. MANSO, Sandra et al. Bioreceptivity evaluation of cementitious materials designed to stimulate biological growth. Science of The Total Environment, Amsterdã, v. 481, p. 232241, 2014. YU, Kongjian. Sponge City: Theory and Practice. Architectural Design, Londres, v. 88, n. 1, p. 70-77, 2018.
Foto pág. 107: Águas urbanas na Bacia do Prata. Foto: Paula López Barba →
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Entre territórios e algoritmos: Cidades-esponja a partir da Inteligência Artificial
VALESKA BRANDÃO E GILFRANCO ALVES
A contemporaneidade, sob o imperativo da emergência climática, exige reavaliar a práxis urbanística com os ciclos hídricos. Modelos tradicionais de drenagem urbana, pautados por uma engenharia de caráter brutalista que busca domar, conter e esconder a água em “infraestruturas cinzas”, revelam-se progressivamente obsoletos diante da recorrência e intensificação dos eventos climáticos extremos (Yu, 2018). Torna-se fundamental superar a visão dicotômica da água como mero recurso ou ameaça, compreendendo-a como um agente estruturador do território urbano, vital ao seu metabolismo e desempenho ecológico. Nesse contexto de transição de paradigmas, destaca-se a contribuição do arquiteto paisagista chinês Kongjian Yu, que propõe o modelo das cidades-esponja. Sua abordagem sub-
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verte a lógica convencional do urbanismo ao estabelecer a infraestrutura ecológica hídrica como a base permanente e estruturante do desenho urbano. Ao priorizar os sistemas naturais de drenagem, infiltração, retenção e armazenamento da água, Yu propõe uma verdadeira “arte da sobrevivência” (Yu, 2006), na qual a paisagem deixa de ser elemento residual e/ ou ornamental para assumir um papel ativo na adaptação das cidades às dinâmicas ambientais contemporâneas. Repensar a relação entre a cidade e a água não se limita à proposição de soluções técnicas, mas implica rever os próprios modos de imaginar e projetar futuros urbanos. Em contextos marcados pela incerteza climática, a simulação de imagens torna-se uma ferramenta central do pensamento projetual, não
como previsão determinista, mas como exercício crítico de visualização e especulação de possibilidades. É nesse ponto que as tecnologias digitais, em especial as inteligências artificiais (IA), surgem como dispositivos capazes de articular teoria e imaginação (Alves; Trujillo, 2025), permitindo ensaiar leituras alternativas da paisagem urbana e tensionar os limites das infraestruturas convencionais.
A experiência foi atravessada simbolicamente pelo falecimento de Kongjian Yu durante a disciplina, em setembro de 2025, quando o arquiteto se deslocava para visitar a região do Pantanal. Reconhecido internacionalmente por integrar paisagem e infraestrutura hídrica, Yu tornou-se o eixo conceitual da atividade, configurada simultaneamente como homenagem e difusão de seus princípios.
A reflexão teórica sobre a água como infraestrutura viva encontrou na disciplina Cibersemiótica e Processos Digitais de Projeto, do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), mediada pelo professor Gilfranco Alves, um lócus de experimentação e retroalimentação entre teoria e prática. A atividade objetivou explorar criticamente o papel das IAs generativas na simulação de cenários urbanos resilientes, frente à realidade hídrica da cidade de Campo Grande (MS), marcada por recorrentes eventos de enchentes e alagamentos.
Foram adotados os seis princípios fundamentais do urbanismo resiliente definidos por Yu: Shèn (infiltrar), Zhì (reter), Xù (armazenar), Jìng (purificar), Yòng (usar) e Pái (drenar). A partir deles, a turma propôs uma ampliação com temas relacionados ao contexto local de Campo Grande: renaturalização e contenção em córregos; intervenção na Lagoa do Itatiaia; bolsão de retenção; e intervenção nos arredores do Shopping Campo Grande. A partir disso, cada discente desenvolveu uma proposta de projeto associada a um dos princípios, utilizando IAs como Nano Banana, Perplexity, ChatGPT e Midjourney.
Figura 1 - Contenção versus renaturalização. Fonte: discentes com auxílio de IA (2025)
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Figura 2 - Xù versus Yòng. Fonte: discentes com auxílio de IA (2025)
As experimentações evidenciam a transição morfológica da paisagem. A Figura 1 ilustra a contenção e renaturalização aplicadas a diferentes eixos viários; a Figura 2 explora como os sistemas de armazenamento (Xù) se articulam com o uso produtivo (Yòng) da água; e, por fim, a Figura 3 tensiona o conceito de requalificação urbana frente à criação de bacias de retenção (Zhì). Conforme observado, as imagens não são soluções projetuais acabadas, tampouco focam no aprofundamento técnico de ferramentas de drenagem ecológica; mas configuram-se como simulações especulativas capazes de provocar análises críticas sobre o território, expandindo o repertório imaginativo acerca da água como infraestrutura viva. Para além da dimensão individual, a atividade revelou um forte caráter colaborativo: as diferentes interpretações dos princípios resultaram em imagens diversas, tanto em estética quanto em abordagem conceitual, e a troca coletiva possibilitou comparar métodos, discutir alguns ajustes e refinar
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as estratégias projetuais. Nesse processo, a IA generativa atuou como agente mediador do pensamento projetual, evidenciando uma dinâmica de cocriação humano-máquina alinhada às transformações contemporâneas da cultura digital. Como etapa final da proposta, foi criado um perfil no Instagram (@yu_yan_cg) para divulgar os resultados da atividade. A escolha da plataforma justificou-se pela intenção de comunicar de forma acessível e visual os conceitos do urbanismo resiliente, ampliando o alcance do debate para além do ambiente acadêmico. A reflexão no campo teórico aprofundou a compreensão dos princípios das cidades-esponja e de sua aplicabilidade ao contexto local, reconhecendo-os como fundamentos para se repensar a forma urbana. No campo crítico, evidenciaram-se os limites da IA, em especial sua tendência à estetização descontextualizada do território, ao mesmo tempo em que se reconheceu seu potencial para testar cenários e comunicar ideias. Por fim, no campo formativo,
Figura 3 - Requalificar versus Zhì. Fonte: discentes com auxílio de IA (2025)
a atividade reforçou a importância da experimentação e da abertura a novas metodologias no processo projetual contemporâneo, especialmente potencializadas pela mediação digital e pelas IAs. Diante da emergência climática, projetar com a água implica também reinventar os modos de imaginar a cidade. Nesse sentido, a IA, quando utilizada de maneira crítica, pode contribuir para a construção de visões urbanas resilientes e integradas aos processos naturais que sustentam o território.
REFERÊNCIAS Alves, G.; Trujillo, J. Imagine: a Inteligência Artificial aplicada à Arquitetura e Urbanismo. Tríades Em Revista: Transversalidades, Design e Linguagens, Juiz de Fora, 2025. KAUFMAN, Dora. Desmistificando a Inteligência Artificial. Belo Horizonte: Autêntica, 2025. YU, Kongjian. Artificial Intelligence and Future Landscape Architecture. Landsc. Archit. Front., [S. l.], 2018. YU, Kongjian. The Art of Survival: Recovering Landscape Architecture. [S. l.]: Images Publishing, 2006.
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CHAMADA ABERTA
Rios urbanos e projeto da cidade Da lógica higienista às soluções baseadas na natureza em Recife
REBECA VIEIRA DE MELLO
A gestão das águas urbanas tem assumido papel central na adaptação das cidades à emergência climática. Por um lado, o estresse hídrico impõe uma ruptura com o modelo higienista tradicional, exigindo que o urbanismo incorpore o ciclo hidrológico como um elemento estruturante do desenho urbano. Isso implica ir além da preservação de áreas protegidas, avançando na restauração das funções ecossistêmicas e da qualidade das águas superficiais. Por outro lado, a intensificação de eventos extremos exige que a resiliência urbana ultrapasse a lógica da infraestrutura cinza, incorporando estratégias de absorção e retardo de fluxos no espaço da cidade. Nas duas últimas décadas, consolidou-se uma mudança de paradigma: a água deixou de ser um obstáculo a ser domado — canalizações de cursos d’água, retificação de meandros —
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para ser compreendida como eixo estruturante de projetos urbanos. A lógica funcionalista da drenagem — escoar a água com velocidade — cede lugar à compreensão de que o funcionamento da cidade depende da integridade do ciclo hidrológico. Projetos pioneiros, como o do Rio Cheonggyecheon (Seul) e a revitalização do Rio Don (Toronto), abriram caminho para o conceito de cidades-esponja, ao focar no redesenho do espaço (parques inundáveis, pavimentos permeáveis) a fim de restaurar a permeabilidade e mitigar inundações. Embora representem avanço, essas abordagens operam apenas na escala do desenho urbano, sem necessariamente implicar uma reconfiguração mais profunda das relações entre cidade e ecossistemas. Avançar qualitativamente requer que o projeto urbano deixe de ser uma solução de drenagem e se transforme em um
Figura 1 – Jardim Filtrante do Cavouco no Parque do Caiara. Fonte: fotografia da autora (2026)
agente ativo de despoluição, enfrentando o paradoxo de margens visualmente recuperadas, mas biologicamente mortas. A fim de superar o descompasso entre o desenho urbano e a integridade dos corpos d'água, os projetos contemporâneos passaram a incorporar a água como critério de qualificação do espaço público. O caso do Rio Sena, em Paris, ilustra essa transição com o plano de balneabilidade, que possibilitou a apropriação direta da água, evidenciada no verão de 2025 com a reabertura do banho à população. Em metrópoles do Sul Global, como Recife, a busca pela qualidade da água enfrenta um duplo desafio: a ocupação das margens e zonas úmidas por assentamentos precários e a precariedade do saneamento básico1. Como já apontava Josué de Castro, ao analisar a ocupação dos mangues recifenses, a população 1 Dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento (SINISA), Ministério das Cidades, indicam que apenas 41,6% da população de Recife possui acesso a serviços de esgotamento sanitário.
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mais vulnerável é impelida a se instalar em áreas ambientalmente frágeis, nas bordas de rios e zonas alagadas, para onde são direcionados tanto os efluentes domésticos dessas comunidades quanto os do restante da cidade. Nesse contexto, a reconquista do rio exige enfrentar simultaneamente o déficit habitacional — uma vez que essas margens provêm o suporte físico para a moradia, por meio de aterros e palafitas — e a poluição da água, um obstáculo central à reapropriação dos rios pela população. Em Recife, a partir dos anos 2000, projetos como Capibaribe Melhor e a intervenção no bairro de Brasília Teimosa marcaram os primeiros esforços de requalificação das áreas ocupadas por palafitas. Essas ações transformaram zonas inundáveis em solo urbano estabilizado, utilizando métodos tradicionais de aterro, construção de diques de contenção e pavimentação, baseados na infraestrutura cinza. Embora tenham resolvido o problema imediato da insalubridade habitacional nas margens, essas intervenções privilegiaram a fluidez viária e a criação de espaços públicos
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Figura 2 – Jardim Filtrante do Cavouco no Parque do Caiara. Fonte: Fotografia da autora (2026)
secos, muitas vezes em detrimento da recomposição do ecossistema de manguezal. A pavimentação de bordas fluviais, em detrimento da recomposição da vegetação nativa, revelou um descompasso com os princípios da hidrologia urbana. Uma vez suprimidas as palafitas, a oportunidade de restauração do manguezal — ecossistema que atua como filtro biológico natural e regulador de marés — foi preterida em favor da construção de avenidas e da infraestrutura cinza. O argumento técnico da época, registrado em reportagem do Jornal do Commercio e atribuído à Companhia de Urbanização do Recife (URB), justificava a rejeição à “replantação exagerada de manguezais”, sob a alegação de que a vegetação encobria a paisagem urbana e monumentos históricos (Jornal do Commercio, 2004). Esse posicionamento ilustra a prevalência do partido estético sobre a função ecológica da água, ignorando que a integridade biológica do rio sustenta, a longo prazo, a qualidade do próprio espaço que se pretendia regenerar. Mais recentemente, o projeto Parque Capibaribe avançou em relação a esse modelo, adotando as águas como suporte para a reinvenção do território ao propor um sistema de 114
parques lineares articulado às dinâmicas hídricas. Trechos já implantados ampliaram áreas de convívio e lazer e foram rapidamente apropriados pela população. Os parques descortinaram a paisagem do rio e contaram com ancoradouros para barcos, conectando as pessoas ao ecossistema fluvial, à sua fauna e flora. Persiste, todavia, um desafio qualitativo relacionado à integração efetiva com o saneamento: a requalificação das margens não pode se limitar a um espaço de lazer, devendo operar como infraestrutura verde capaz de mitigar a poluição e retardar o escoamento das águas. Isso implica incorporar ao desenho urbano dispositivos como jardins filtrantes e bacias de retenção que atuem diretamente na qualidade da água e na minimização de inundações. Nesse sentido, destaca-se o Jardim Filtrante do Cavouco, implantado no Parque do Caiara, como protótipo de solução de tratamento de efluentes que chegam ao Rio Capibaribe. Desenvolvido pela Prefeitura do Recife em parceria com o CITinova e a Agência Recife para Inovação e Estratégia, o sistema utiliza técnicas de fitorremediação, realizando o tratamento da água por meio de quatro tanques com diferentes substratos e plantas macrófitas. Integrado
Figura 3 – Parque do Caiara. Fonte: Fotografia da autora (2026)
ao parque, o dispositivo associa desempenho ambiental e qualificação paisagística, evidenciando o potencial de articulação entre saneamento, desenho urbano e infraestrutura verde. Não há espaço público de qualidade à margem de rio poluído, assim como não se recupera a qualidade da água sem redesenhar o espaço ao seu redor. A experiência de Recife — da erradicação das palafitas às recentes iniciativas de jardins filtrantes — demonstra que a eficácia de um projeto não reside na opo-
sição entre infraestrutura técnica e desenho paisagístico, mas na integração entre ambos. Ao articular saneamento, paisagem e dinâmica ecológica, fomenta-se a possibilidade de constituir novas formas de coexistência entre cidade e água. Com sua extensa rede hidrográfica, Recife se apresenta como um laboratório para a experimentação de soluções baseadas na natureza capazes de reconciliar qualidade ambiental e vida urbana.
REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério das Cidades. Sistema Nacional de Informações em Saneamento (SINISA). Brasília, 2026. JORNAL DO COMMERCIO. Urb identifica 35 regiões sem palafitas. Recife, 13 jun. 2004. MELLO, Rebeca. Qualité des espaces, qualité de l'eau: la reconquête des berges de rivière en milieu urbain. 2006. Dissertação (Mestrado em Urbanismo e Planejamento) – Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne, Paris, 2006. MONTEIRO, C. M. G.; VIEIRA FILHO, L. G.; MONTEZUMA, R. C. C. (org.). Parque Capibaribe: a reinvenção do Recife Cidade Parque = Capibaribe Park: the reinvention of Recife Park City. Recife: Editora UFPE, 2019. PARIS. Conseil de Paris. Rapport de la Mission d'Information et d'Évaluation (MIE): la Seine et ses berges, un espace public partagé, un corridor écologique à préserver. Paris: Groupe PPC, 2021. RECIFE. Prefeitura da Cidade do Recife; Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES). Jardim filtrante do Cavouco: inovação e estratégia urbana. Recife, 2024.
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CHAMADA ABERTA
Manaus Fluvial: ensaio para uma cidade inundada1 Imagem-pensamento: forjando realidades entre o cinema e o projeto CLARA ALBERTINI DE QUEIROZ E CHRISTIAN ALMEIDA CAMPOS DO NASCIMENTO
Gilles Deleuze já advertia sobre a particularidade do cinema enquanto fenômeno artístico: ele não apenas reproduz a realidade, mas a cria por meio de formas de pensar centradas na imagem. Os cineastas são pensadores que operam com conceitos próprios – a imagem em sua relação com o tempo e o movimento. É por meio dessa potência criativa que a sétima arte se une à arquitetura para dar forma à imaginação utópica: se o cinema pensa pela imagem, a arquitetura pensa e especula por meio do projeto. É munida dessa capacidade de forjar novas realidades que nossa equipe, tensionada pela atual emergência climática, definiu o escopo
deste projeto. Ao buscar uma narrativa que articulasse cidade, memória e água, encontramos no filme Narradores de Javé (Eliane Caffé, 2003) o nosso ponto de partida. Na obra, os moradores narram a história de Javé, um povoado prestes a ser inundado por uma barragem — uma marca humana em nome do "progresso". Os personagens empenham-se na criação de um dossiê que dê roupagem científica à história oral, buscando uma legitimidade histórica que garanta a sobrevivência de um futuro. Definida nossa linha-guia teórica, bastava ancorá-la em uma proposição real: o contexto das metrópoles amazônicas.
1 Trabalho final da disciplina AUP0197 – Projeto: Arquitetura e Cinema no primeiro semestre de 2025, sob orientação dos Profs. Marta Bogéa, Felipe de Souza Noto e Marcos Acayaba na FAU-USP. Apresentado também na 14° Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, na categoria Concurso de Escolas representando a FAU-USP.
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Figura 1 - O personagem Antônio Biá (José Dumont) contempla o povoado de Javé, inundado pela represa da usina hidrelétrica. Fonte: captura de tela do filme Narradores de Javé (Eliane Caffé, 2003)
O DIVÓRCIO DA TERRA: A MODERNIDADE PREDATÓRIA E A NEGAÇÃO DAS ÁGUAS “A lei do rio não cessa nunca de impor-se sobre a vida dos homens. É o império da água. [...] O rio diz para o homem o que ele deve fazer. E o homem segue a ordem do rio. Se não, sucumbe.” Thiago de Mello “Quando despersonalizamos o rio [...], nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos.” Ailton Krenak
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Nas metrópoles amazônicas, o processo de produção do espaço operou por meio de uma negação ontológica da natureza. Guiadas por um ideal de modernidade predatória – sintetizado por Ailton Krenak como um "divórcio" da Terra –, essas metrópoles sufocaram seus igarapés em nome do desenvolvimento. Sob um forte caráter desenvolvimentista, essa ação foi brutalmente violenta, construindo cidades desiguais onde populações ancestrais tiveram seu modo de vida deslocado de seus significantes próprios. A água, reduzida a mercadoria, foi escanteada. Em contrapartida, nas cidades menores ainda resiste uma relação urbana aclimatada ao território. As tradições ribeirinhas moldam estratégias em profundo diálogo com os rios: de Careiro a Afuá, das cidades flutuantes aos trapiches e passarelas, demonstra-se como é possível habi-
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tar a natureza. É dessa sabedoria ancestral que as grandes metrópoles, engolidas pela dinâmica capitalista, perderam seus vínculos. Ao negar o meio, a cidade colhe hoje as consequências nefastas de suas relações renegadas: tragédias, enchentes e inundações severas. É necessário, portanto, evocar a imaginação utópica para pensar novos futuros: como as cidades amazônicas se adaptariam ao avanço das águas? Quais as consequências dessa transformação para as cidades em geral? Que estratégias de mitigação seriam possíveis diante de uma nova ordem imposta pela natureza?
O PROJETO COMO MEMÓRIA: ESPECULAÇÕES PARA UMA CIDADE SUBMERSA NA COTA +50,0 M Estudos apontam que o ecossistema amazônico é vulnerável à crise climática, manifesta
na intensificação de eventos extremos. Em Manaus, particularmente em seu centro histórico, junto à orla do Rio Negro, a "cidade inundada" já deixou de ser exceção para tornar-se cotidiano. Essa aclimação forçada revela-se na resiliência de soluções práticas: da elevação dos barrotes nas comunidades tradicionais às passarelas improvisadas adotadas pelos comerciantes do centro. São saberes locais que operam como estratégias de sobrevivência diante de uma água que retoma seus leitos negados. Nossa narrativa toma como epicentro o antigo Igarapé do Espírito Santo – hoje Avenida Eduardo Ribeiro –, sob a sombra do Teatro Amazonas. Ali, a régua fluviométrica do Porto de Manaus monitora as "cotas" que ditam o pulso da cidade. Assim como em Javé, a subida das águas possui digital humana, mas, enquanto lá é decisão deliberada – a barragem – aqui
Figura 2 – Placa de inauguração da Rodovia Transamazônica (BR-230). O simbolismo da imagem, que utiliza o tronco de uma castanheira ancestral como marco zero, materializa a aversão da modernidade à natureza, convertida em obstáculo a ser transposto pelo "progresso" nacional. Fonte: Revista Manchete, 1972, ed. 1069
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Figura 3 – Progressão de níveis d'água (da esquerda para a direita; de baixo para cima): representação das cotas +22,5 m (nível médio), +25,0 m, +35,0 m e +50,0 m — cota adotada para o plano de projeto. Fonte: elaborada pelos autores (2025)
é consequência estrutural de um modo de produção predatório. Com o nível médio em +22,5 m e o recorde de +30,02 m em 20212 , pesquisadores já consideram a cota +35,0 m um cenário crível para um futuro próximo3. Diante disso, este ensaio propõe um salto especulativo: a cota +50,0 m. Sob este paradigma, emerge a "Manaus Fluvial". A morfologia urbana reorganiza-se a partir de um léxico ri-
beirinho: estivas, ruas suspensas e plataformas tornam-se a matriz de novas espacialidades, costurando permanência e deslocamento em meio às águas. O exercício concentra-se em três escalas irradiadas do Teatro Amazonas, operando com a cota +47,5 m como o "novo normal" e a cota +50,0 m como o horizonte de cheia extrema – e nossa cota de projeto.
2 Após a maior cheia da história, nível do Rio Negro baixa e fica em 30 metros em Manaus. G1 Amazonas, Manaus, 25 jun. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2021/06/25/apos-a-maior-cheia-da-historia-nivel-do-rio-negro-baixa-e-fica-em-30-metros-em-manaus.ghtml. Acesso em: 22 abr. 2026. 3 Dados estimados durante a disciplina AUP0193 – Arquitetura: Projeto Manaus, ministrada pelos profs. Alexandre Delijaicov e Angelo Bucci, em parceria com o MIT, a UFAM e a UFMS, no segundo semestre de 2024.
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1. O EDIFÍCIO CIDADE DE MANAUS Neste exemplar do moderno, implantado sobre um amplo embasamento de uso misto, o terraço intermediário assume nova centralidade: transforma-se em uma praça elevada, articulada por passarelas urbanas. O terraço passa a ser um espaço público de embarque e permanência, funcionando como nó de conexão entre as circulações elevadas, enquanto as antigas avenidas tornam-se canais navegáveis.
2. O CASARIO DA RUA 10 DE JULHO Para que a lógica se efetive, a massa construída existente adapta-se ao novo piso definido pelo plano de inundação. Os pavimentos inferiores deixam de ser habitáveis e passam a operar como pilotis — estruturas de suporte para os níveis superiores. A passarela aco-
moda-se aos múltiplos desníveis, garantindo acessibilidade independentemente da cota. Se em Javé a memória é oralidade, aqui ela é física: as fachadas inundadas marcam o tempo, mantendo o térreo original intacto, porém inacessível — um patrimônio congelado no espaço-tempo.
3. O TEATRO AMAZONAS As estratégias assumem caráter simbólico e funcional. À semelhança do Coliseu romano, o espaço é preparado para a inundação. Na cota +50,0 m, a água atinge cerca de 3 metros de altura dentro da estrutura. O acesso permanece possível e o espetáculo passa a ser observado a partir de embarcações, contando com um palco elevado e móvel capaz de acompanhar a flutuação das águas.
Figura 4 – Perspectiva inundada entorno do teatro amazonas. Fonte: elaborada pelos autores (2025)
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Figura 5 – Salão de espetáculos inundado. Fonte: elaborada pelos autores (2025)
Figura 6 – Perspectiva da Av. Eduardo Ribeiro com o Edifício Cidade de Manaus à esquerda. Fonte: elaborada pelos autores (2025)
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Figura 7 – Elevação do Edifício Cidade de Manaus. Fonte: elaborada pelos autores (2025)
CONSIDERAÇÕES FINAIS: ENTRE A DISTOPIA CLIMÁTICA E A UTOPIA PROJETUAL “Mesmo porque a imaginação utópica é um projeto, algo que o homem lança à sua frente para, a seguir, partir em busca de sua consecução. A imaginação utópica luta pela materialização de um desejo que estivera antes, talvez e no máximo, ao nível do inconsciente.” Teixeira Coelho
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Ensaio utópico ou distópico? É discutível. Distópico na medida em que tem um evento climático extremo como indutor, mas utópico na medida em que vê o rio não mais como obstáculo, mas como princípio ordenador da vida urbana. Em Narradores de Javé, a comunidade recorreu à invenção e ao registro de sua própria memória oral para tentar sobreviver ao avanço implacável das águas do “desenvolvimento”. A Manaus Fluvial opera sob a mesma urgência, mas propõe um desfecho diferente: diante de uma inundação climáti-
Figura 8 – Corte do teatro amazonas inundado. Fonte: elaborada pelos autores (2025)
ca inescapável, o próprio projeto arquitetônico torna-se o nosso dossiê. Ao aceitar a água como condição, e não como ameaça, a arquitetura assume o papel de escritura física da memória, preservando a permanência da cidade ao permitir que ela flutue e se adapte sobre sua própria preexistência. Retornamos, assim, à provocação inicial de Deleuze. A Manaus Fluvial aqui vislumbrada prova que a aliança entre cinema e arquitetura é, de fato, uma forma de pensamento capaz de forjar realidades. Por meio da centralidade da
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imagem cinematográfica, unida à potência especulativa do projeto, este ensaio transcende a simples ilustração de um futuro trágico. Ele se consolida como um ato de sobrevivência: um convite urgente a resgatar nossas memórias e relações fluviais silenciadas, projetando novas formas de estar no mundo antes que a água, definitivamente, nos alcance.
Figura 9 – Corte geral da Av. Eduardo Ribeiro, tomando as três escalas de intervenção junto ao porto de Manaus, na orla, totalmente inundada. Fonte: elaborada pelos autores (2025)
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Figura 10 – As três escalas propositivas do projeto. Da esquerda para a direita: Edifício Cidade de Manaus, Teatro Amazonas e o casario da Rua 10 de Julho. Fonte: elaborada pelos autores (2025)
REFERÊNCIAS COELHO, T. O que é utopia. São Paulo: Editora brasiliense, 1980, p. 9. DELEUZE, G. A imagem-movimento: cinema 1. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983. FLORES, B. M. et al. Critical transitions in the Amazon forest system. Nature, v. 626, n. 7999, p. 551-556, fev. 2024. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41586-023-06970-0. KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das letras, 2020, p. 49. MELLO, T. Mormaço na floresta. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1983, p. 71. NOTO, F. Cinema e Temas Urbanos: Sete Filmes, Sete Textos, Sete Ensaios. São Paulo: Edusp, 2025.
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Foto pág. 125: No caminho das rabetas. Foto: Bárbara Costa →
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CHAMADA ABERTA
Suscetibilidade a inundações urbanas: Aplicação da Avaliação Multicritério no Grande ABC
MARINA PANNUNZIO RIBEIRO, MARCOS ROBERTO MARTINES E MARCEL FANTIN
A frequência das inundações tem aumentado em decorrência da urbanização desordenada, das mudanças climáticas e das alterações no uso da terra, provocando danos severos ao meio ambiente e às estruturas antrópicas. A suscetibilidade a inundações em áreas urbanas é compreendida como a propensão relativa do território à ocorrência de processos de inundação, resultante da interação entre critérios físicos e antrópicos, independentemente da exposição ou vulnerabilidade dos
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elementos potencialmente afetados (Zhao et al., 2019). Dada a natureza multicriterial desse fenômeno, nenhuma variável isolada é capaz de representá-lo adequadamente, o que torna necessária a integração de múltiplos critérios na análise (Shrestha et al., 2025). Nesse contexto, a Avaliação Multicritério (AMC), associada a Sistemas de Informação Geográfica (SIG), tem sido amplamente utilizada para organizar, ponderar e integrar critérios espaciais de diferentes naturezas (Malczewski
e Rinner, 2015), o que resulta em mapeamentos consistentes em relação à realidade local e contribui para a qualificação do diagnóstico territorial, bem como para a definição de prioridades na gestão municipal. A partir dessa perspectiva, este trabalho teve como objetivo determinar a suscetibilidade a inundações em áreas intraurbanas do Grande ABC por meio da aplicação de uma abordagem de AMC em ambiente de SIG, buscando evidenciar padrões e contrastes no espaço urbano e subsidiar análises territoriais voltadas ao planejamento urbano e à adaptação às mudanças climáticas. Para atingir esse objetivo, o modelo AMC em ambiente de SIG compreendeu a definição de critérios físicos e antrópicos comumente associados à suscetibilidade a inundações em áreas urbanas, considerando exclusivamente os setores censitários urbanos da região do Grande ABC, que engloba os municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Entre os critérios selecionados incluem-se atributos topográficos, como elevação, declividade e altura relativa à drenagem (HAND), a proximidade de corpos hídricos e o grau de impermeabilização urbana, representado pelo índice espectral derivado de dados de sensoriamento remoto, Normalized Difference Built-up Index (NDBI). A escolha desses critérios foi fundamentada em uma revisão de literatura especializada em modelagem de suscetibilidade a inundações urbanas, bem como em consultas a especialistas.
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Para viabilizar a integração dos critérios, realizou-se a normalização para uma escala comum entre 0 e 1 por meio de funções de pertinência fuzzy lineares (Malczewski; Rinner, 2015), permitindo a representação contínua da contribuição de cada critério para a suscetibilidade à inundação. Nesse processo, funções decrescentes foram aplicadas aos critérios topográficos e à proximidade de drenagem, enquanto funções crescentes foram atribuídas aos critérios associados à impermeabilização urbana. A ponderação dos critérios foi realizada por meio do método Analytic Hierarchy Process (AHP) (Saaty, 1986), a partir de comparações pareadas entre os critérios, resultando em pesos relativos utilizados na Combinação Linear Ponderada (CLP). Como resultado, obteve-se um índice contínuo de suscetibilidade a inundações, variando de 0 (baixa suscetibilidade) a 1 (alta suscetibilidade). O modelo foi validado com base em 4320 pontos in situ de inundação, obtidos por meio do projeto de Cadastro Georreferenciado de Eventos Geodinâmicos, referente ao período de 1993 a 2013 (Instituto Geológico, 2017).
PADRÕES ESPACIAIS DE SUSCETIBILIDADE E DESEMPENHO DO MODELO A aplicação da abordagem multicritério resultou em um índice espacial contínuo (Figura 1), que evidencia a diferenciação de áreas com maior e menor suscetibilidade à inundação. A classificação do índice em classes qualitativas facilita a interpretação dos padrões espaciais. As regiões que apresentam maior suscetibilidade à inundação estão associadas a valores
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mais próximos de um, sendo caracterizadas principalmente por menores elevações e declividades, maior proximidade da rede de drenagem e elevados níveis de impermeabilização. Em contraste, os setores menos suscetíveis à inundação (com valores mais próximos de zero) estão localizados em áreas mais elevadas e com maior potencial de infiltração. A validação realizada por meio de pontos in situ evidencia a coerência do índice sintético na identificação de áreas suscetíveis à ocorrência de inundações no contexto urbano do
Grande ABC (Figura 1). Os 4.320 pontos apresentaram média elevada (0,8025), baixo desvio padrão (0,0498) e baixo coeficiente de variação (6,21%), indicando baixa dispersão dos valores e bom ajuste do modelo. A abordagem de AMC em ambiente de SIG constitui um arcabouço conceitual e metodológico robusto para a análise da suscetibilidade a inundações em áreas urbanas. O caso aplicado ao Grande ABC evidencia seu potencial para integrar critérios espaciais de forma transparente e replicável, fornecendo subsídios qua-
Figura 1 — Mapa de suscetibilidade à inundação no Grande ABC no Estado de São Paulo, Brasil
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lificados à análise territorial, à priorização de intervenções e ao suporte à gestão municipal, especialmente no contexto da adaptação às mudanças climáticas. Trata-se de um modelo estático de suscetibilidade, orientado à identificação de áreas com maior propensão à acumulação de água a partir de condicionantes morfológicos do terreno. Nesse sentido, seu papel consiste em atuar, subsidiar o planejamento urbano e ambiental, bem como o direcionamento de estudos e ações futuras.
REFERÊNCIAS INSTITUTO GEOLÓGICO. Cadastro georreferenciado de eventos geodinâmicos: 50 municípios da Região Metropolitana de São Paulo, Baixada Santista e Litoral Norte. Projeto Transporte Sustentável de São Paulo (P127723). [S. l.: s. n.], [20--]. Acesso em: 3 jun. 2025. MALCZEWSKI, J.; RINNER, C. Multicriteria decision analysis in geographic information science. Berlin: Springer, 2015. SAATY, T. L. Axiomatic foundation of the analytic hierarchy process. Management Science, [s. l.], v. 32, n. 7, p. 841-855, jul. 1986. SHRESTHA, S. et al. Flood susceptibility analysis with integrated geographic information system and analytical hierarchy process: a multi-criteria framework for risk assessment and mitigation. Water, [s. l.], v. 17, n. 7, p. 937, 23 mar. 2025. ZHAO, G. et al. Assessment of urban flood susceptibility using semi-supervised machine learning model. Science of the Total Environment, [s. l.], v. 659, p. 940-949, 1 abr. 2019.
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CHAMADA ABERTA
Por onde anda o Córrego das Flores? Arte e caminhada como reanimação simbólica d'água em Bauru/SP GIOVANNA CECCHI
Os rios urbanos são memórias vivas das escolhas que fizemos enquanto sociedade: escolhas que, repetidas vezes na história, priorizaram o concreto e o asfalto, soterrando os fluxos naturais e vínculos afetivos com a paisagem. Nas cidades brasileiras, a partir do século XX, a água tornou-se raramente aliada no projeto urbano. Os rios e córregos, já essenciais para os primeiros povoamentos, estruturando e auxiliando assentamentos, passaram a ser tratados como obstáculos. Canalizados, retificados ou preferencialmente ocultados, em detrimento de uma cidade considerada limpa e moderna. Esses corpos, que permanecem vivos e nunca são calados por completo, retornam ao imaginário público essencialmente quando a força inevitável da água retorna, com alagamentos, enchentes e tragédias. A cidade de Bauru, no interior paulista, tem um exemplo contundente dessa realidade: o Córrego das Flores. O curso d’água foi elemento essencial na estruturação inicial da cidade,
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mas, em nome do progresso rodoviarista, foi tamponado para dar espaço a uma das principais avenidas, a Nações Unidas. A iniciativa da pergunta “Por onde anda o Córrego das Flores?” não vem como uma indagação geográfica, mas parte de uma questão simbólica, política e intrínseca à memória daqueles que convivem com seu leito intangível diariamente. Seu apagamento veio de seguidas decisões desde a década de 1970, em que seu plano físico e, consequentemente, o plano imaginário foram igualmente apagados. O córrego se tornou uma cicatriz do tecido urbano que a modernidade desejava ocultar sob o concreto. Assim, a escala do pedestre, do encontro e da permanência torna-se irrelevante diante da hegemonia da circulação automotiva. O local, que até então era espaço de lazer, vira problema sanitário e obstáculo físico ao desenvolvimento. Com o argumento principal de conectar zonas cortadas pelo vale, o projeto de tamponamento e construção da Nações
Figura 1 — Colagem Corre(go) por aqui. Fonte: elaboração da autora, 2025 →
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Figura 2 — Registro intervenção artística. Fonte: acervo da autora, 2025
Unidas foi realizado (Constantino, 2005, p. 55). Tamponado, o córrego permanece vivo e manifesta-se por meio de alagamentos, sobretudo em chuvas torrenciais. Diante desse cenário, a arte urbana se oferece como elemento capaz de tensionar essa invisibilidade. A arte, quando inserida no espaço público, pode atuar como dispositivo de revelação, abrindo fissuras na paisagem, instigando perguntas sobre o que está oculto. Relembrando o que Pallamin (2015, p. 19) explica: a arte pública não atua como ornamentação da cidade, mas como agente de reflexão sobre os espaços de urbanidade; ela desestabiliza significados consolidados, atua como voz de conflito, podendo resultar em uma reconfiguração simbólica e cultural. Quando direcionadas para esse e outros elementos naturais silenciados no meio urbano, subsidiam aproximações sensíveis e olhares pouco usuais. Esquecido sob o asfalto, este curso d’água poderia mobilizar na arte caminhos de respiro para si e para uma cidade que ainda não aprendeu a lidar com as várzeas. Assim, um sentimento de paisagem um dia pertencente aos moradores pode ser restaurado com a observação sensível de seus vestígios.
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As caminhadas, nesse sentido, assumem papel central como método artístico e investigativo. Percorrer a Avenida Nações Unidas a pé e sobre o leito oculto permite uma aproximação sensível com o território, ativando percepções que escapam à experiência acelerada da cidade motorizada. Como já faziam artistas como dadaístas e surrealistas (Cabral, 2020, p. 15), práticas artísticas e teóricas se reúnem no caminhar, podendo trazer à tona o material e o simbólico. Besse afirma que caminhar é uma maneira “de se juntar à paisagem” (Besse, 2013, p. 43). Ao caminhar, o sujeito atravessa a cidade e assim se reescreve nela, produzindo leituras sensíveis. Assim, percorrer o Córrego das Flores torna-se gesto de reapropriação emblemática, devolvendo-o ao imaginário urbano, ainda que de maneira efêmera e poética. Essa ação pode ser também, como lembra Lefebvre (1969, p. 124), um gesto lúdico que desafia a cidade a se reinventar. Fazer do percurso sobre o leito oculto não apenas um trajeto, mas um gesto de brincar com o urbano, permitiria, no limite, transformar o invisível em presença. A partir desse conjunto de vivências, uma intervenção artística efêmera foi realizada. Ela
Figura 3 — Frame do vídeo da intervenção artística. Fonte: elaboração da autora, 2025
buscou reviver elementos naturais já experienciados naquele mesmo lugar: uma das nascentes do córrego, o então Parque Vitória Régia. Tratou-se da projeção temporária de imagens associadas à água, ao fluxo, à vegetação e às pessoas que um dia estiveram presentes sobre o espaço da atual avenida, fazendo referência ao, um dia aberto, Córrego das Flores. Ao interagir com as imagens projetadas, os corpos dos participantes tornavam-se parte da obra, atravessando simbolicamente o rio invisível e reativando sua memória. Mais do que propor soluções técnicas, a ação propõe a arte como gesto inaugural, um chamado à atenção e à escuta. Reativar simbolicamente o córrego é também questionar a cidade que insiste em ocultar suas águas. Por meio de um discurso sensível, estético, político e efetivamente em contato com o público,
é possível reabrir, ainda que metaforicamente, seus caminhos soterrados, reconectar sua presença à história da cidade e ativar afetividades entre o urbano e o natural, alterando sentidos e criando pertencimento. Talvez seja justamente aí, no inesperado encontro entre corpo, cidade e arte, que reside uma potência interessante da criação contemporânea: a de transformar o mundo, uma imagem, uma ação por vez, como um efeito cascata. Ao perguntar “Por onde anda o Córrego das Flores?”, a intervenção artística realizada não busca uma resposta definitiva, mas cria condições para que a cidade volte a lembrar, sentir e, assim, continue a se perguntar sobre a cisão entre cidade e meio natural, denunciando o apagamento, criando imagens contra-hegemônicas e reescrevendo o imaginário da água na vida urbana cotidiana.
REFERÊNCIAS BESSE, J.-M. Estar na paisagem, habitar, caminhar. In: CARDOSO, I. (org.). Paisagem e patrimônio. Lisboa: Dafne Editora, 2013. CABRAL, A. S. C. Caminhar, descobrir, projetar: reflexões sobre a deriva e o fazer projetual em paisagismo. Revista Jatobá, Goiânia, v. 2, 2020. CONSTANTINO, N. R. T. A construção da paisagem de fundos de vale: o caso de Bauru. 2005. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005. PALLAMIN, V. Arte, cultura e cidade: aspectos estético-políticos contemporâneos. São Paulo: Annablume, 2015. MÓBILE #29
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CHAMADA ABERTA
A água como escritura da cidade
VINICIUS DE LIMA, KELVIN BAZILIO, PEDRO BRITO E RAFAEL MARTINEZ
Mitos são formas de transmissão de conhecimento através das gerações, servem como aviso de desafios enfrentados por antepassados, tentativas de explicar o motivo da realidade ser do jeito que é, os porquês. A lenda do dilúvio aparece em diversas culturas ao redor do mundo, dos tupis aos chineses, como mito de destruição, resiliência e renovação da espécie humana. Apesar de que a história diluvial mais famosa seja a bíblica, a mais antiga é a mesopotâmica de Atra-Hasis, do século XVIII a.C.:
“[...] Os deuses tinham que cavar canais, Tinham que abrir os canais, as vias vitais da terra, [...] Os deuses cavaram o leito do rio Tigre, E então cavaram o Eufrates. [...] Eles contavam os anos de carga, Por 3.600 anos suportaram o excesso, Trabalho duro, noite e dia. [...] ‘A deusa mãe está presente, Deixemos ela criar o humano primordial, Para que ele carregue o jugo, Deixe o humano carregar o fardo dos deuses. [...]”
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No mito, a criação do ser humano está vinculada à construção de canais, assim como o Tigre e o Eufrates, esses creditados aos deuses. Pode-se entender, portanto, que a diferença entre humanos e deuses seja a proporção entre rios e canais. Tendo os rios no pensamento contemporâneo um caráter ligado ao natural, há aqui uma interpretação harmônica homem-natureza. Nesse sentido, a ideia de ruína florestal presente na obra de Ailton Krenak, descreve como a cida-
de moderna nasce de uma dissociação cognitiva, a crença equivocada de que a humanidade existe separada da natureza. Onde a água antes desenhava alimento, troca e cuidado, o progresso passou a traçar um mundo de consumo que a Terra não consegue sustentar. A orla fluvial foi confiscada pelo asfalto, convertendo a coexistência em um regime contínuo de extração. A cidade deixou de viver com o rio para viver apesar dele, sugando sua vitalidade e descartando seus restos até reduzi-lo a um conduto de dejetos. “[...] Enlil organizou a reunião, Direcionada aos deuses seus filhos, 'O barulho da humanidade se tornou excessivo. Estou exausto de seu ruído. O sono não me recai mais por conta de sua balbúrdia.’ [...] Deixemos Shullat and [Hanish] marcharem [à frente] [Deixemos Erakal retirar] os pilares de atracação. Deixemos [Ninurta] marchar, Deixemos ele fazer [as represas] transbordarem. [...] Ninguém podia se ver, Não podiam se reconhecer na catástrofe. O dilúvio rugia como um touro. [...] ‘Como enviamos o dilúvio. Mas um homem sobreviveu à catástrofe?’ [...]”
Figura 1: Imago Mundi, Mapa do Mundo. Fonte: The Trustees of the British Museum
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No relato, o dilúvio não é apenas desastre, mas uma força que ao mesmo tempo pune e renova, abrindo espaço para que a história recomece, da chuva fabrica-se a primeira arquitetura. Ao proteger-se das intempéries, o ser humano cria o significado de abrigo, encontrado precipuamente nas cavernas, onde o homem se ampara e utiliza da água armazenada nas entranhas da terra para sobreviver. A arquitetura então mimetiza a caverna - cria-se a casa, onde há o domínio do homem sobre seu espaço. Em Imago Mundi, datado do século VI a.C. Tem-se uma representação do mundo definido pelas águas que o encerram e o delineiam, bordeado por um “rio amargo” e cortado de cima a baixo pelo rio Eufrates, que por sua vez é atravessado de uma margem à outra por um retângulo que simboliza a cidade da Babilônia. Portanto, interpreta-se que cidade e rio interseccionam-se e criam no mapa um lugar onde coexistem, trecho onde não se pode desenhar um em completude sem a aparição do outro.
O signo cuneiforme sumério para “água”, o ideograma 𒀀 (A), reúne dois traços paralelos que evocam a ondulação de um fluxo. Há nessa forma uma fusão poética e técnica significativa: o escriba, ao sulcar a argila úmida para registrar a palavra “água”, repetia o gesto dos deuses que abriam canais no barro da Mesopotâmia. Naquela sociedade, a vida dependia diretamente do ritmo dos rios, que espalhavam limo fértil nas margens e, ao recuar, deixavam o solo propício ao cultivo. Se a casa advém do abrigo, a cidade se pauta na coesão dos seres humanos para produzir alimento. A água era a primeira letra da civilização, e a cidade, o texto resultante desse mutualismo: o rio definia as condições de existência urbana, e a cidade o reconhecia como seu eixo sagrado produtivo. Assim como os deuses mesopotâmicos moldaram o Tigre e o Eufrates, os povos Tamoios e Guaianás operavam numa relação com a natureza onde a água era fundamental. Para esses grupos, os rios Tietê e Pinheiros não eram
Figura 2 — Tradução do Imago Mundi, 23 fev. 2024. Fonte: Encyclopædia Britannica 136
barreiras, mas eixos de subsistência, em uma lógica que desconhecia a separação entre humanidade e ambiente. No entanto, a “modernidade” operou uma ruptura nessa antiga caligrafia. O que outrora era água viva e sagrada foi reduzido apenas a um recurso técnico e quantificável. Se na São Paulo antiga o homem escrevia com a água, moldando-se ao ritmo das cheias, a metrópole do século XX passou a escrever sobre a água, empenhando-se em sua expulsão. O estilete do escriba foi substituído pelo rolo compressor, e o urbanismo rodoviarista atuou como um revisor autoritário que apaga as margens para impor a rigidez das avenidas de fundo de vale. Como lembra Milton Santos, "A técnica impõe uma disciplina ao território que ignora a história e o ritmo dos lugares". Em São Paulo, o rio deixou de traçar a cidade para ser apequenado e contido. Contudo, nenhuma contenção é absoluta. A água comprimida retorna como sintoma, uma escrita de protesto que irrompe no asfalto
e escancara a "dissociação cognitiva" descrita por Ailton Krenak. As enchentes não são erros de cálculo, mas o rio recuperando sua caligrafia adormecida sobre o papel impermeável da metrópole. Compreende-se, então, que mesmo encoberta e suprimida, a água continua sendo a base física e histórica do território - sob o asfalto, os rios ainda existem e moldam a cidade. Reconhecer as relações mitológicas milenares com a água é fundamental para entender que o ser humano não é externo à natureza, mas participa dela ao construí-la. Recordar que a água foi a primeira letra da civilização é essencial para que o planejamento urbano passe a dialogar com os fluxos naturais que sustentam a vida, compreendendo que a retomada desse diálogo é a única forma de converter o regime de subordinação em um regime de coexistência.
REFERÊNCIAS BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo: Martins Fontes, 1998. DALLEY, Stephanie. Myths from Mesopotamia: Creation, the flood, Gilgamesh, and others. Oxford: Oxford University Press, 2008. ILLICH, Ivan. H2O and the Waters of Forgetfulness: Reflections on the Historicity of “Stuff”. Dallas: Dallas Institute of Humanities and Culture, 1985. KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.
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CHAMADA ABERTA
Espacialidades Sensíveis Entre a cidade e o rio, um gesto de reconciliação
BIANCA DE LIRA SILVA
A água é, simultaneamente, condição de vida e força de transformação do território, tendo historicamente estruturado assentamentos humanos, definido paisagens e orientado práticas cotidianas. Com a urbanização moderna, passou a ser tratada como algo a ser contido ou ocultado, produzindo cidades afastadas de seus sistemas naturais e instabilidades ambientais que hoje se manifestam em enchentes, alagamentos e na perda da relação sensível entre habitantes e paisagem hídrica. No contexto da emergência climática, repensar essa relação torna-se indispensável, reconhecendo a água como aliada em sua dimensão simbólica e comunicativa, capaz de revelar memórias territoriais, denunciar falhas de planejamento e apontar possibilidades de adaptação e resiliência. O Rio Pinheiros constitui um caso emblemático desse debate.
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No passado, o Rio Pinheiros integrava a paisagem natural e social de São Paulo, configurando um espaço de convívio cotidiano entre água, território e população. Esse cenário começou a se transformar a partir das décadas de 192030, quando intervenções promovidas pela Light alteraram seu curso natural, promoveram desapropriações nas várzeas e subordinaram o rio à lógica da geração de energia e controle hidráulico (IPT, 2013). O que antes era entendido como obstáculo natural converteu-se em suporte para a expansão urbana, resultando na retificação do leito e na consolidação de novas infraestruturas viárias e imobiliárias. Esse processo afastou progressivamente o rio da vida cotidiana, silenciando sua presença e reduzindo-o a uma infraestrutura sanitária.
A persistência dos alagamentos revela, contudo, que o traçado original do rio permanece inscrito no território, aflorando sempre que as chuvas expõem a antiga geografia das águas (IPT, 2013). Entre torres corporativas, infraestruturas de mobilidade e vazios urbanos, o Pinheiros apresenta hoje uma paisagem fragmentada, marcada pela tensão entre controle técnico e natureza residual. É nesse contexto que o experimento-projeto proposto se insere, visando um gesto de reconciliação entre cidade e rio, memória e futuro, por meio da criação de espaços que devolvam à experiência urbana um tempo mais lento, atento e comunicativo. A investigação iniciou-se com uma pesquisa de campo realizada em 2025, dedicada à observação das materialidades do território, a partir da qual foi construído um moodboard sensorial que organizou percepções visuais, táteis, sonoras e olfativas locais. A leitura comparada desses cenários evidenciou a ciclovia como fronteira física e simbólica entre o edificado e o natural, reconhecida por sua cor vermelha que comunica proteção e desaceleração. A proposta se apropria desse signo para subverter seu papel original, deslocando a ciclovia de barreira a elemento de conexão e, ao deslizar geometricamente esse limite e evocar o traçado
sinuoso do curso original do Pinheiros, busca dissolver fronteiras perceptivas e reinscrever a memória da paisagem no cotidiano urbano. A partir das reflexões que articulam arquitetura, comunicação e memória, o projeto se materializa em uma estrutura leve, contínua e sintética, concebida para dialogar com a cidade sem se impor a ela. O gesto arquitetônico acompanha o curso fluvial como extensão da margem, buscando recompor a relação entre terra e água e devolver à cidade a possibilidade de se inclinar novamente em direção ao rio. Como método projetual, definiram-se três raios de curvatura: 30 m, 60 m e 120 m, orientados pela largura do rio e por pontos de tensão do traçado original, resultando em uma curva contínua de aproximadamente 10,5 km que serpenteia pela margem, aproxima-se do rio em certos trechos e avança sobre a cidade onde os antigos meandros eram mais sinuosos, evitando áreas residenciais e ocupando com delicadeza espaços subutilizados. O vermelho torna-se a pele do projeto, retomando o código visual da ciclovia e assegurando continuidade perceptiva. O concreto pigmentado do passeio foi escolhido por sua durabilidade, acessibilidade e resistência, dialogando cromaticamente com a estrutura metálica.
Figura 1 — Diagrama generativo. Fonte: elaborada pela autora (2025)
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A tectônica estrutural busca mínima presença no solo e máxima leveza visual, por meio de estruturas metálicas esbeltas capazes de vencer vãos com poucos apoios, conferindo ao conjunto uma aparência quase flutuante, criando uma espacialidade orgânica que integra passagem, permanência e contemplação sem interromper o fluxo das águas. Os apoios pontuais funcionam como momentos de ancoragem simbólica, nos quais o gesto arquitetônico toca o solo e se expande em plataformas, mirantes, áreas de descanso, alimentação e eventos. Essas ativações ao longo do percurso buscam atrair diferentes públicos, aproximá-los do rio e transformar o deslocamento em experiência coletiva. Os programas não possuem posições definitivas, mas são concebidos para se adaptar a diferentes locais do experimento,
permitindo flexibilidade, debate e experimentação de múltiplas possibilidades dentro de um mesmo projeto. São esses: Piscina pública: aproxima simbolicamente corpo e água, evidenciando a inacessibilidade do rio; Horta urbana: reconecta pessoas por meio da participação comunitária; Parque infantil: promove convivência intergeracional; Mirante: reforça o rio como referência paisagística; Feira livre: ativa o espaço público e valoriza trocas sociais, culturais e econômicas locais; Pracialidade: cria pausas sensíveis de descanso e contemplação; Quiosques: estimula permanência e uso cotidiano; Espaços de eventos: converte áreas subutilizadas em plataformas culturais; Esportes: transforma vazios urbanos em espaços de movimento e convivência.
Figura 2 — Contextualização axonométrica do desenho escolhido, inserido na cidade. Fonte: elaborada pela autora (2025) Figura 3 — Passarela sobre o rio. Fonte: elaborada pela autora (2025)
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Nesse contexto, é necessário ampliar a leitura crítica sobre o papel dessas ativações como promotoras de urbanidade, sobretudo por se inserirem em um território já valorizado. Se potencializam encontros e a reaproximação com a paisagem hídrica, podem também reforçar dinâmicas de valorização e acessos seletivos, tensionando seu alcance democrático. Assim, a urbanidade aqui produzida não é neutra, mas campo em disputa.
Assim, a proposta evidencia o potencial comunicativo do Rio Pinheiros ao ativar usos e permanências que o reinscrevem no imaginário urbano. Não se trata de limpar o rio para usá-lo, mas de torná-lo tão integrado à vida da cidade que sua degradação se veja inconcebível. A arquitetura, ao ativar sentidos e memórias, aponta para uma relação mais consciente e justa entre cidade, água e paisagem.
Figura 4 — Ativações propostas. Fonte: elaborada pela autora (2025)
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Figura 5 — Área de convivência abraçada pela passarela. Fonte: elaborada pela autora (2025)
REFERÊNCIAS SILVA, Bianca de Lira. Espacialidades sensíveis: interações entre design, comunicação e cidade. 2025. Trabalho de Conclusão de Curso – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025.
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CHAMADA ABERTA
Águas na metrópole: Possibilidades para o bairro de São Norberto nos mananciais paulistanos
IARA CAVALCANTI, ALZIRO FILHO, SOFIA ALVES, CLARA AGUILLERA, ISABELLA PALETTA, GABRIEL GRECOV E LUÍS SILVA
O Curso de Pós-Graduação em Habitação e Cidade da Escola da Cidade forma profissionais em Assistência Técnica em Habitação de Interesse Social, capacitando-os para elaborar habitações e planos urbanos voltados à regularização fundiária. A equipe responsável por este artigo é composta por arquitetos e urbanistas, que são alunos e docentes do curso. Este artigo reflete e apresenta uma contribuição ao debate acerca do futuro dos mananciais da Região Metropolitana de São Paulo, a
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partir de uma demanda da Secretaria Municipal de Habitação, no âmbito do Programa Mananciais, com o objetivo de investigar possibilidades de requalificação e regularização para o bairro de São Norberto, em Parelheiros. O objetivo foi consolidar a área como território de proteção ambiental, evitando adensamentos incompatíveis com a fragilidade dos mananciais, alinhando-se a abordagens que entendem a dimensão ambiental como indissociável da urbanização popular. Pensar os mananciais im-
Figura 1 — Relação da comunidade de São Norberto com as águas. Fonte: elaborada pelos autores (2025)
plica compreender a histórica separação entre natureza e metrópole e enfrentar os conflitos socioambientais nas periferias metropolitanas, onde determinados grupos sociais sofrem com os impactos da degradação ambiental. O território localiza-se na zona sul do município de São Paulo, abrangendo as subprefeituras de Parelheiros e Capela do Socorro, com área aproximada de 2km² e população de 13.647 habitantes (Censo IBGE, 2022). A topografia é marcada pela presença de um vale que atravessa o território, descaracterizado pela construção de um leito ferroviário, hoje desativado. A região abriga espécies remanescentes de Mata Atlântica e nascentes que contribuem para as represas Billings e Guarapiranga. Configura-se como um eixo natural de drenagem e evidência no seu processo de ocupação a ausência histórica do Estado na garantia de condições adequadas de habitação, favorecendo a ocupação de áreas de nascente e de margens de córregos por meio de uma dinâmica em que precariedade habitacional, alagamentos recorrentes e degradação ambiental se reforçam mutuamente, configurando um quadro típico de injustiça ambiental, no qual os ris-
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cos associados à urbanização recaem de forma desigual sobre a população de menor renda (Acselrad, 2002). Para a elaboração deste plano urbano, foram identificadas ações recentes voltadas à preservação de áreas vegetadas, à valorização da Mata Atlântica e à proteção dos recursos hídricos, que resultaram em propostas para um parque que contemplasse as margens dos cursos d'água. Nesse sentido, o enfoque multidimensional da questão ambiental, que articula localização, infraestrutura e qualidade de vida no território, reforça a compreensão de que os recursos hídricos não podem ser tratados de forma dissociada das dinâmicas sociais e urbanas do bairro (Ferrara; Cardoso; Machado, 2022). A proposta parte da premissa de que o futuro do território depende da proteção das águas, da recomposição da vegetação ciliar e da recuperação de nascentes. Nesse contexto, reconhece-se a necessidade de remoções de famílias localizadas em áreas de risco e insalubridade junto aos cursos d’água, situação que compromete tanto a segurança da população quanto a qualidade hídrica dos mananciais que abastecem grande parte da região metropolitana.
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As águas assumem o papel de eixo organizador do território, tratadas tanto como elementos livres, integrados a parques lineares com lagoas intermitentes, áreas alagáveis e vegetação voltada à fitodepuração, quanto como águas controladas, por meio da requalificação de áreas historicamente alagadas associadas ao antigo leito ferroviário. Nas linhas desativadas, propõe-se um sistema de canais hidroviários, conectados à represa Billings, com eclusas e praças d’água, permitindo navegação de baixa velocidade voltada à contemplação, ao turismo comunitário e ao escoamento de produtos agrícolas, articulando preservação ambiental e usos sociais da água. O plano para o bairro prevê a implantação de dispositivos de manejo das águas pluviais. Nas áreas mais altas, propõem-se jardins de chuva, preservação e recomposição de matas, favorecendo a infiltração e a recarga dos aquíferos. Nas encostas, biovaletas e terraços de infiltração reduzem a velocidade do escoamento superficial e conduzem as águas de forma controlada aos fundos de vale. Nas áreas baixas, os
parques alagáveis reforçam a função ecológica dos cursos d’água e sua integração à vida cotidiana, compreendendo a infraestrutura verde como parte constitutiva do desenho urbano. As Soluções Baseadas na Natureza (SbNs) são estratégias que utilizam processos e ecossistemas naturais para enfrentar problemáticas urbanas, promovendo ambientes mais resilientes, atuando como aliadas para o convívio harmonioso entre população e águas urbanas. Elas poderão substituir elementos convencionais de drenagem ou atuar de maneira complementar. É importante, portanto, que estejam sempre presentes, por contemplar também o elemento de participação e apropriação social e comunitária, além das múltiplas funções estruturais (Ferrara; Cardoso; Machado, 2022). O plano propõe soluções de saneamento alternativo descentralizado nas áreas não atendidas pela rede convencional. O sistema viário é requalificado com prioridade ao pedestre e ao ciclista, articulando-se aos espaços públicos e às SbNs. As áreas ocupadas sem riscos recebem um planejamento urbano, que respei-
Figura 2 — Relação do território com as águas. Fonte: elaborada pelos autores (2025)
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Figura 4 — Desenvolvimento de estudos territoriais e propostas. Fonte: elaborada pelos autores
Foto pág. 149: Água e Sal: No oceano a água expressa a sua força e beleza. Foto: Henrique Luís de Paula e Silva de Almeida, Ubatuba →
ta a ocupação existente, consolidando áreas passíveis de regularização e reconhecendo as diferenças entre as regiões de caráter urbano e rural. Incentiva-se a educação agrícola, além de cultivos voltados à segurança alimentar e à geração de renda. Estudos orientados para a resiliência climática são imprescindíveis no cenário atual. O bairro de São Norberto, apesar de sua fragilidade
socioambiental, apresenta elevado potencial de transformação para a região de Parelheiros. Ao articular ações de manejo dos recursos hídricos com a qualificação dos espaços públicos, melhoria habitacional, fortalecimento da mobilidade e da economia agrícola, ampliam-se as oportunidades de desenvolvimento e proteção das águas.
REFERÊNCIAS ACSELRAD, H. Justiça ambiental e construção social do risco. Rio de Janeiro: FASE, 2002. FERRARA, L. N.; CARDOSO, A. L.; MACHADO, É. (org.). A dimensão ambiental e as infraestruturas na urbanização de favelas. Rio de Janeiro: Observatório das Metrópoles; Letra Capital, 2022.
Proposta desenvolvida para a requalificação do bairro de São Norberto a partir das águas. Fonte: elaborada pelos autores (2025)
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CHAMADA ABERTA
O rio como sujeito de direito: Uma abordagem metodológica aplicada ao Rio Maracanã
GIOVANY B. DE LOURDES FILHO, LOUYSE F. TENÓRIO CERQUEIRA E THYEGO FREDERICO V. FEITOSA
O Rio Maracanã é o principal afluente que integra a Bacia Hidrográfica do Canal do Mangue. Este rio nasce nas altas escarpas do Maciço da Tijuca e percorre cerca de 8 km antes de desaguar nas planícies de baixada no Canal do Mangue, área inundável composta anteriormente por manguezais, hoje aterrados pela urbanização. Tais aspectos, em conjunto ao clima tropical úmido e aos altos índices pluviométricos, conferem à bacia um papel estratégico na drenagem urbana como subsistema hidrológico da Baía de Guanabara, como apresentado na Imagem 1. Marcado por décadas de ocupação urbana em suas margens, o Rio Maracanã encontra-se em um estado de descaracterização e esquecimento, enfrentando complexos problemas de poluição, assoreamento, inundações, canaliza150
ção e demais perdas ambientais. A intensa impermeabilização do solo e a supressão da mata ciliar nas margens aumentam significativamente o volume e a velocidade do escoamento superficial. Consequentemente, o sistema enfrenta graves desafios ambientais, destacando-se o crônico problema de alagamentos em áreas de baixada (como a Praça da Bandeira), o elevado nível de poluição devido ao despejo de esgoto in natura e o intenso assoreamento do Canal do Mangue e dos rios contribuintes. Tais fatores não apenas comprometem a saúde pública e a infraestrutura urbana, mas também impactam diretamente a ecologia da Baía de Guanabara, ressaltando a urgência de abordagens sistêmicas e de soluções baseadas na natureza para a recuperação da funcionalidade hidrológica desta bacia. A Imagem 2 apresenta o uso do
Imagem 1 — Localização e mapa da bacia hidrográfica do rio Maracanã. Fonte: elaborada pelos autores a partir de dados do DATA.RIO e Rezende (2018), 2025
Rio Maracanã como eixo estruturante para tais abordagens, destacando-o como o corredor ecológico que conecta a Floresta e a Baía. Para reverter esta degradação, o presente trabalho, desenvolvido no Mestrado Profissional em Arquitetura Paisagística da UFRJ, propõe uma estrutura metodológica para o reconhecimento do rio como Sujeito de Direito, deslocando a abordagem tradicional antropocêntrica para uma perspectiva ecocêntrica, alinhada ao campo do Direito Ecológico. Nessa perspectiva, a natureza é compreendida como portadora de valor intrínseco, sendo reconhecida como ente jurídico cuja integridade ecológica constitui um interesse protegido em si mesmo. Metodologicamente, essa conceituação implica a definição de categorias analíticas capazes de traduzir princípios normativos em MÓBILE #29
instrumentos de leitura e intervenção territorial, permitindo que o rio seja interpretado não apenas como suporte físico, mas como entidade dotada de direitos associados à sua manutenção, regeneração e continuidade. A partir desse enquadramento, a pesquisa organiza-se em duas etapas complementares. A primeira corresponde à fundamentação teórica, voltada à consolidação do conceito de sujeito de direito aplicado aos sistemas fluviais urbanos, articulando referenciais do Direito à Paisagem e do Direito Ecológico. A segunda etapa consiste na análise empírica, na qual esse referencial é instrumentalizado por meio de categorias como interface rio-cidade, infraestrutura verde e Soluções Baseadas na Natureza. Essas categorias funcionam como mediadoras entre o campo jurídico-conceitual e a leitura 151
Imagem 2— Diagrama de conexão e fluxos da bacia. Fonte: elaborado pelos autores, 2025
espacial da bacia, permitindo a identificação de dinâmicas, conflitos e potencialidades. Como desdobramento dessa estrutura, foi elaborado um diagrama metodológico, exposto na Imagem 3, com o objetivo de sistematizar a transposição do conceito do Rio Maracanã como Sujeito de Direito em níveis operacionais. O ponto de partida conceitual desdobra-se da ideia central de resgate da integridade ecológica do rio e da possibilidade de manutenção dos seus ciclos vitais dentro de um equilíbrio ecossistêmico. A partir disso, surgem um conjunto de questões ambientais e urbanas a serem enfrentadas, como erosão, assoreamento, poluição, ilhas de calor e inundações. Para medir a vulnerabilidade dos locais e a eficácia da intervenção, definem-se os medidores, focados na sensibilização, biodiversidade, caminho da água e qualidade hídrica, que impactam — ou são impactados — diretamente nos sujeitos de análise, o Humano, a Flora, a Fauna e o Solo. As diretrizes de ação (sentir, cuidar, tratar, condu-
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zir e articular) são operacionalizadas por meio de estratégias como visibilizar, contemplar, infiltrar, armazenar e acessar. Essas estratégias, por sua vez, aplicam-se a diversos meios urbanos — ruas, praças, lotes, margem e leito do rio — culminando em uma série de elementos de projeto, como piso drenante, jardins, hortas, arborização, entre outros. Finalmente, a implementação dessas propostas é atribuída a diferentes agentes envolvidos, incluindo coletivos, instituições, poder público e associações. Essa abordagem evidencia a necessidade de compreender o sistema fluvial urbano como uma entidade interdependente, cuja integridade depende da articulação entre processos ecológicos, dinâmicas urbanas e agentes institucionais. A proposta metodológica se alinha, portanto, com a escala do problema e com o conceito de que o rio e seu entorno devem ser manejados como um organismo vivo e integrado ao tecido urbano, demandando uma articulação coordenada entre todos os eixos de
Imagem 3 — Diagrama metodológico. Fonte: elaborada pelos autores, 2026
análise (hidrológico, urbano, paisagem, usos e agentes) para alcançar soluções sustentáveis a longo prazo. Nesse sentido, a adoção do rio como sujeito de direito implica não apenas uma mudança conceitual, mas a construção de um modelo analítico capaz de orientar intervenções de caráter sistêmico, superando soluções pontuais e fragmentadas. Assim, mais do que propor um conjunto específico de ações projetuais, o tra-
balho estabelece uma estrutura metodológica replicável, na qual o reconhecimento constitucional da natureza orienta a leitura, a análise e a intervenção em territórios marcados por conflitos e disputas ambientais. Ao integrar dimensões jurídicas e espaciais, essa abordagem contribui para a formulação de estratégias mais consistentes de requalificação paisagística e urbana, alinhadas à complexidade dos sistemas hidrográficos contemporâneos.
REFERÊNCIAS BENEDICT, M.; MCMAHON, E. Green infrastructure: linking landscapes and communities. Washington, DC: Island Press, 2006. ESCOBAR, Arturo. Autonomía y diseño: la realización de lo comunal. Popayán: Universidad del Cauca, Sello editorial, 2016. LEITE, J. R. M.; MELO, M. E.; BAHIA, C. M. (org.). Direito ecológico na prática: ação estrutural da Lagoa da Conceição. 1. ed. Blumenau, SC: Amo Ler Editora, 2023. REZENDE, O. M. Análise quantitativa da resiliência a inundações para o planejamento urbano: caso da Bacia do Canal do Mangue do Rio de Janeiro. 2018. Tese (Doutorado em Engenharia Civil) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2018.
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CHAMADA ABERTA
Exercícios de uma nova composição com as águas urbanas: A Praça da Nascente
WELLINGTON TIBÉRIO
A referida praça, localizada no bairro da Pompeia, chama-se, de fato, Homero Silva, mas foi rebatizada por conter em seu interior e nas imediações uma série de afloramentos que compõem o córrego Água Preta. Antes mesmo de conhecer essa realidade, um grupo de moradores do entorno resolveu, em 2013, se organizar para cuidar do local e, assim, surgiu o coletivo Ocupe e Abrace. A água que havia na praça era conhecida pelos antigos, mas não era percebida pelos novos. No entanto, considerando o contexto de emergência do interesse pelas águas urbanas (Bartalini, 2004; Prata, 2022), rapidamente as atenções se voltaram para essa característica
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do local e uma das primeiras ações que fortaleceu a iniciativa foi a construção de um lago. Logo foram identificadas várias nascentes, e essa realidade, somada à realização de diversos festivais artísticos, tornou a praça conhecida e foco de atenção e cuidado. Pode-se afirmar que a presença da água foi um fator agregador da energia de defesa desse espaço público. Não tardou para que o capital imobiliário tentasse incorporar essa realidade em seus projetos especulativos. Assim, várias casas vizinhas à praça foram adquiridas por uma construtora com a intenção de erguer ali uma torre de 22 andares e dois subsolos, tentando apropriar-se da vizinhança como um ativo de seu projeto. Tal
Lago da Praça da Nascente (2015). Fonte: acervo do autor
situação é mais ou menos comum pela cidade quando movimentos por melhoria da condição de vida local produzem, como efeito colateral, a valorização dos terrenos e, assim, passam a atrair interesses de reprodução do capital imobiliário. Mas, nesse caso, o rio transformou-se em parceiro de uma importante luta, especialmente suas nascentes. No processo de aquisição das casas pela incorporadora, o coletivo Ocupe e Abrace teve a iniciativa de identificar e mapear as nascentes que existem ali. Isso foi realizado pelo Instituto Geográfico e Cartográfico do Estado de São Paulo (IGC), o qual reconheceu uma série de nascentes no local e as georreferenciou em um mapa de caráter oficial.
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Algumas dessas nascentes estão exatamente nos terrenos que foram adquiridos pela incorporadora para realização de seu projeto e, por isso, o coletivo acionou o Ministério Público, denunciando a sua ilegalidade, pois causaria impactos em bens coletivos protegidos por lei (Brasil, 2012). Cabe destacar, no entanto, que essa disputa, que assumiu o caráter jurídico, é sustentada pela força que emana das ações realizadas por vários apoiadores da causa. Entre elas, destaca-se uma do coletivo (se)cura humana, que diante da alegação de que não há nascentes no local, realizou a abertura de um pequeno lago na calçada dos terrenos em disputa, divulgando-o por meio do seguinte texto:
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Figura 3 – Parque do Caiara. Fonte: Fotografia da autora (2026)
A NASCENTE E O EDIFÍCIO A cidade cresce, para os lados, para cima e para baixo, sobrepõe-se à natureza, a cidade recria a paisagem, a cidade se impõe. Mas frestas se abrem aqui e ali, brechas, vãos. Há uma manifestação silenciosa e incansável de algo que escapa aos controles do asfalto e do concreto. O sol promove rachaduras, a chuva desgasta, as plantas abrem fendas, a água cria fissuras. A cidade fica mais interessante quando reparamos nessa delicada disputa por espaço. Somos produtores de uma cidade que sufoca, de um projeto de espaço urbano opressor; assim se fez a nossa querida São Paulo. Somos também força capaz de dar vez às trincas, ao que rompe os pisos, ao que emerge no deserto cinza. Na Av. Pompeia, há uma calçada em que a água teimosamente insiste em brotar da terra. Casas foram construídas sobre esse local, depois foram derrubadas. Interesses imobiliários querem secar a área para que seus áridos planos sejam tocados em frente, mas ela está lá, minando e umedecendo essa cidade dura. Podemos ignorá-la e, cedo ou tarde, técnicas modernas de rebaixamento de lençol freático darão um jeito de tirá-la de nossas vistas, mas também podemos lhe dar uma força e abrir espaço para que sua presença se manifeste de forma mais visível e talvez funcione como uma pedra no sapato dos grandes interesses que tomam a forma de gigantes torres de concreto. A nascente e o edifício, versão contemporânea de Davi e Golias. E então, eis que surge um lago, com peixes e plantas, para que a água possa fluir e, quem sabe, afogar mais uma investida do velho projeto de uma cidade sem vida. Venha ver, conhecer, se benzer, venha ser testemunha dessa possibilidade de uma outra cidade (Tibério; Barollo, 2022, p. 60).
Além dessa, destacam-se também as manifestações festivas/artísticas que foram realizadas na Av. Pompeia, contando com a participação do Bloco do Água Preta e do coletivo (se)cura humana. Nesses eventos, as músicas do bloco foram cantadas como uma evocação das águas na luta contra o capital imobiliário em meio ao happening “Parque Aquático Móvel”, em que as pessoas são convidadas a se banharem em piscinas enchidas com água das nascentes, a qual é então lançada para o alto, criando a situação de uma cachoeira em pleno asfalto.
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Essas ações, entre outras, reverberam e amplificam o desejo de uma outra relação com as águas da cidade e somam-se à movimentação social que possibilitou ao Coletivo Ocupe e Abrace avançar para a reivindicação da incorporação do terreno liberado à praça. A possibilidade de tomada de um terreno privado, que seria usado para a reprodução do capital imobiliário, em nome do bem comum, tendo como força motriz as águas urbanas, é algo significativo no cenário das disputas territoriais na cidade.
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Por ocasião da última revisão da lei de zoneamento da cidade, o Coletivo Ocupe e Abrace conseguiu alterar o enquadramento da área em disputa para Zona Especial de Proteção Ambiental (ZEPAM), o que fortalece a luta pela sua desapropriação e incorporação à praça.
águas urbanas e que essas têm incitado uma nova imaginação política sobre a cidade.
Destaca-se, portanto, que a Praça da Nascente tem um considerável histórico de aglutinação de forças que reivindicam uma experiência de cidade diferente do que herdamos do urbanismo que a moldou ao longo do século XX. E essas forças vêm se produzindo no interior do movimento de valorização da rede hídrica capilar urbana (Bartalini, 2006). Dessa forma, podemos considerar que estão em curso práticas e exercícios de uma nova composição com as
Como desdobramento objetivo dessas movimentações na Praça da Nascente, está em curso uma Ação Civil Pública junto à 8ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de São Paulo, encaminhada pela Promotoria de Justiça do Meio Ambiente da Capital, que defende o reconhecimento do local como Área de Proteção Permanente (APP) devido à existência de nascentes e, assim, a impossibilidade de realização do empreendimento imobiliário pretendido. Essa disputa sugere que algo se desloca na histórica prática de uso e ocupação do solo urbano a partir de uma nova atenção dedicada às águas que correm pela cidade.
Foto: Laguinho da Pompeia (2019). Fonte: acervo do autor
Foto: Parque Aquático Móvel na Av. Pompeia (2019). Fonte: acervo do autor
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Área em disputa em destaque. Fonte: Google Earth, 26 fev. 2024
REFERÊNCIAS BARTALINI, Vladimir. Os córregos ocultos e a rede de espaços públicos urbanos. Pós: Revista do Programa de Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU/USP, São Paulo, p. 82-96, 2004. BARTALINI, Vladimir. A trama capilar das águas na visão cotidiana da paisagem. Revista USP, São Paulo, v. 70, p. 88-97, 2006. BRASIL. Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012. Dispõe sobre a proteção da vegetação nativa e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2012. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2011-2014/2012/lei/l12651.htm. Acesso em: 28 fev. 2026. PRATA, João. Rios e ruas. São Paulo: Prata Editorial, 2022. TIBÉRIO, Wellington; BAROLLO, Flávio. Água e urbanismo: ações artísticas para uma cidade (im)possível. In: Revista Redobra, Salvador, UFBA, n. 16, ano 7, p. 57-75, 2022.
Foto pág. 160 e 161: Por aqui passa o Córrego do Sapateiro. Max Sotnik Gonik, 2025 →
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CURTAS
Parceria inédita viabiliza residência técnica no interior O CAU/SP, o Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP e a Superintendência do Patrimônio da União em São Paulo formalizaram em maio, um acordo para a implementação de um programa de residência. Em foco, a recuperação do patrimônio ferroviário em São Carlos e municípios vizinhos, integrando atividades de formação continuada e gestão urbana. O projeto marca um passo pioneiro na cooperação institucional, unindo bolsas de estudo, sistema de tutoria e inovação na gestão do espaço urbano O projeto prevê a capacitação de 30 residentes e a elaboração de ao menos três propostas de intervenção territorial. Saiba mais: ↗ https://bit.ly/causp-residencia-acordo-2026
Rede de Polos Regionais em expansão Desde 2025, o programa de Polos Regionais está em andamento. O projeto complementa os dez escritórios descentralizados do CAU/SP. No primeiro semestre de 2026, foram abertas unidades em Assis, Avaré, Bragança Paulista. Itatiba, Suzano e São Sebastião, além de Guarulhos e São Roque no final de 2025. A meta institucional é alcançar 36 Polos Regionais no território paulista. A instalação destes pontos de atendimento ocorre mediante parcerias com associações de engenheiros e arquitetos, instituições de ensino e outras organizações. Estes espaços concorrem para descentralizar a prestação de serviços pelo Conselho.
Trilhas de Conhecimento e Formação Continuada O CAU/SP lançou em junho uma nova experiência de desenvolvimento profissional para arquitetas e arquitetos urbanistas: a Trilha de Conteúdos e Formação Continuada. Trata-se de um ambiente pensado para conectar formação continuada, conteúdos especializados, capacitação e apoio à prática profissional. Cursos, biblioteca, trilhas temáticas e conteúdos estão organizados por áreas de atuação, perfis profissionais e desafios do presente e do futuro. Acesse a plataforma: ↗ causp.gov.br/trilhas
Mais de 400 profissionais habilitados para colaborar com a Defensoria Pública Em junho saiu a lista definitiva de profissionais de Arquitetura e Urbanismo habilitados para a prestação de assistência técnica à Defensoria Pública do Estado de São Paulo (Chamamento Público 001/2026). O número de profissionais credenciados em relação a 2025 saltou de 220 para 420 profissionais, um aumento de 91%. Veja a lista completa: ↗ https://bit.ly/causp-defensoria-2026 162
Prêmio reconhece excelência de estudantes, profissionais e poder público Em março, foi lançada a Premiação CAU/SP de Boas Práticas em Arquitetura e Urbanismo 2025/2026, com foco em mudanças climáticas e adaptabilidade. Realizada em parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), a iniciativa vai distribuir R$111 mil em prêmios para os primeiros colocados das categorias estudantes e profissionais. E, pela primeira vez neste certame, o Conselho também vai destacar iniciativas da gestão pública. A divulgação dos resultados finais ocorre no segundo semestre de 2026, com cerimônia de premiação prevista para a Conferência Estadual de Arquitetos e Urbanistas do CAU/SP.
Editais apoiam ações de Assistência Técnica para Habitação Mais de R$2 milhões do orçamento do CAU/SP foram destinados para dois editais lançados em março dedicados a apoiar iniciativas na área de Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS) no estado de São Paulo. Organizações da Sociedade Civil (OSC) sem fins lucrativos foram o público-alvo. O primeiro chamamento público foi feito em parceria com a Secretaria Nacional de Periferias do Ministério das Cidades e o INCRA-SP com foco em eficiência energética, Soluções Baseadas na Natureza (SBN), clima e segurança territorial. O segundo visa apoiar o Programa de Assistência Técnica para Preservação do Patrimônio Cultural. Os resultados estão disponíveis no Portal da Transparência do CAU/SP.
Guia de normas técnicas dedicado a projetos e documentação O CAU/SP e a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) fizeram a primeira entrega do contrato firmado em 2024 para ampliar o acesso de arquitetos(as) e urbanistas às normas técnicas essenciais para o exercício profissional. Já está disponível para consulta o primeiro volume do guia “Diretrizes e conteúdo técnico para projetos de Arquitetura e Urbanismo”. Este compêndio é dedicado a “Projetos Arquitetônicos — Conceituação, elaboração e caracterização de documentos”. A coleção completa será formada por sete volumes. Acesse o e-book: ↗ https://causp.gov.br/guiasabnt/
Mudança para endereço temporário para reforma da sede Em junho, a sede do CAU/SP foi transferida temporariamente para um novo endereço na capital paulista devido aos procedimentos de reforma e modernização do prédio centenário no Centro Histórico. A equipe do Conselho está atendendo aos profissionais e demais cidadãos no 14º andar do Edifício Andraus (Rua Pedro Américo, 32 - Centro, a 290 m da estação de metrô República). O horário de funcionamento institucional permanece das 8h às 19h, com atendimento
ao público das 9h30 às 12h e das 13h às 15h.
O retorno à sede na rua Quinze de Novembro está previsto para junho de 2028. MÓBILE #29
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BIBLIOTECA
CÓDIGO DE ÉTICA E DISCIPLINA PARA ARQUITETOS E URBANISTAS – ED. 2022 Compilado de princípios, regras e recomendações para a conduta ética dos(as) profissionais de Arquitetura e Urbanismo. Total de páginas: 40. ↗ https://bit.ly/3vVBhpj
AGENDA URBANA E AMBIENTAL PARA O TERRITÓRIO PAULISTA E-book que reúne eixos temáticos, diretrizes e ações estratégicas para promover cidades e regiões inclusivas, sustentáveis e resilientes. Total de páginas: 48. ↗ https://bit.ly/3qRQJ3m
GUIA PARA DIVULGAÇÃO PROFISSIONAL E BOAS PRÁTICAS EM MÍDIAS SOCIAIS E-book sobre as atividades da Fiscalização, as responsabilidades de arquitetas, arquitetos e urbanistas, o uso das redes sociais e a divulgação online de trabalhos; traz exemplos práticos e sugestões. Total de páginas: 16. ↗ https://bit.ly/4dXOSNy
GUIA: DIRETRIZES E CONTEÚDO TÉCNICO PARA PROJETOS DE ARQUITETURA E URBANISMO – VOLUME 1 Guia com diretrizes para a conceituação, elaboração e caracterização de documentos de projetos arquitetônicos, com orientações baseadas nas normas técnicas ABNT NBR 6492, ABNT NBR 16636-1 e ABNT NBR 16636-2. Total de páginas: 65. ↗ https://causp.gov.br/wp-content/uploads/2026/03/CAU_GUIA1_2025.pdf
GUIA: DIRETRIZES E CONTEÚDO TÉCNICO PARA PROJETOS DE ARQUITETURA E URBANISMO – VOLUME 2 Guia com diretrizes para a documentação, elaboração e terminologia de projetos urbanísticos e de arquitetura paisagística, com orientações baseadas nas normas técnicas ABNT NBR 16636-3 e ABNT NBR 16636-4, em complemento ao Volume 1. Total de páginas: 70. ↗ https://causp.gov.br/wp-content/uploads/2026/06/CAUSP-e-ABNTGuia-2.pdf
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GUIA DE ATHIS PARA OS MUNICÍPIOS E-book com os conceitos e bases atualizados e necessários à estruturação de instituições locais voltadas à promoção e valorização da assistência técnica para habitação de interesse social. Total de páginas: 44. ↗ https://bit.ly/3C8xAwH
GUIA ORIENTATIVO PARA ESTÁGIO EM ARQUITETURA E URBANISMO O guia reúne, de forma clara e acessível, os principais dispositivos legais que regulamentam o estágio em Arquitetura e Urbanismo, bem como traz recomendações de boas práticas que visam qualificar essa experiência. Total de páginas: 19. ↗ https://causp.gov.br/wp-content/uploads/2025/11/251119_ Guia-Estagios_v2-Interativo.pdf
ATLAS DA ARQUITETURA E URBANISMO NO ESTADO DE SÃO PAULO Desenvolvido pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – CEBRAP, e-book traz informações sobre a população profissional, mercado de trabalho, ensino, políticas públicas entre outras. Total de páginas: 121. ↗ https://tinyurl.com/mr36j68j
PROFISSIONAIS DE ARQUITETURA E URBANISMO NO ESTADO DE SÃO PAULO E-book produzido pelo CEBRAP, contém informações sobre perfil socioeconômico dos(as) arquitetos(as) e urbanistas, sistema de trabalho, ganhos etc. Total de páginas: 43. ↗ https://tinyurl.com/2sbarpmx
INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR COM CURSOS DE ARQUITETURA E URBANISMO NO ESTADO DE SÃO PAULO Publicação com dados sobre perfil de coordenadores(as), aspectos dos cursos, parâmetros curriculares e muito mais. Total de páginas: 30. ↗ https://tinyurl.com/2jp5a5sm
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CONSELHO DE ARQUITETURA E URBANISMO DE SÃO PAULO (CAU/SP) | Gestão 2024-2026 CONSELHO DIRETOR Camila Moreno de Camargo Presidente do CAU/SP Andreia de Almeida Ortolani Vice-presidente do CAU/SP Viviane Manzione Rubio (Coordenadora) Clarissa Duarte de Castro Souza (Coordenadora-Adjunta) Comissão de Ensino e Formação do CAU/SP (CEF – CAU/SP) Gilberto Silva Domingues de Oliveira Belleza (Coordenador) Ricardo Aguillar da Silva (Coordenador-Adjunto) Comissão de Ética e Disciplina do CAU/SP (CED – CAU/SP) Renata Ballone (Coordenadora) Roberto Carlos Spina (Coordenador-Adjunto) Comissão de Exercício Profissional do CAU/SP (CEP – CAU/SP) Eduardo Salgado Marconi (Coordenador) Nallígia Tavares de Oliveira Tavares (Coordenadora-Adjunta) Comissão de Fiscalização do CAU/SP (CF – CAU/SP) Hainra Asabi Alves Costa (Coordenadora) Amanda Rosin de Oliveira (Coordenadora-Adjunta) Comissão de Organização e Administração do CAU/SP (COA– CAU/SP) Adriano Cotrim Pita (Coordenador) Aline Alves Anhesim (Coordenadora-Adjunta) Comissão de Planejamento e Finanças do CAU/SP (CPFi –CAU/SP) Tatiana Reis Pimenta (Coordenadora) Dânia Brajato (Coordenadora-Adjunta) Comissão de Athis do CAU/SP (CATHIS – CAU/SP) Paula Rodrigues de Andrade (Coordenadora) Adriana Bighetti Cristofani (Coordenadora-Adjunta) Comissão de Comunicação do CAU/SP (CCom – CAU/SP) Melyssa Maila de Lima Santos (Coordenadora) Nadir Moreira da Silva (Coordenadora-Adjunta) Comissão de Políticas Afirmativas do CAU/SP (CPAF – CAU/SP)
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Aline Alves Anhesim - Titular Marina Machado de Souza Castanheira - Suplente Amanda Rosin de Oliveira - Titular Lucas Ricardo Cestaro - Suplente Ana Maria de Biazzi Dias de Oliveira - Titular Denis Oliveira de Souza Neves - Suplente Ana Paula Giardini Pedro Trevisan - Titular Luís Alexandre Amaral Pereira Pinto - Suplente Ana Paula Preto Rodrigues - Titular Patrícia Rodrigues Quesada - Suplente André Gonçalves dos Ramos - Titular Natalia Corbett Geretto - Suplente Andreia de Almeida Ortolani - Titular Franciele Amaral de Oliveira - Suplente Angela Hiromi Kamogari Baldan - Titular Maria Ligia Nakamura Guillen Vianna - Suplente Arlete Maria Francisco - Titular Ricardo Zammarian - Suplente Bárbara Maria Francelin - Titular Jeferson Cristiano Tavares - Suplente Bruna Beatriz Nascimento Fregonezi - Titular Tainã Antunes Valgas Dorea – Suplente Camila Moreno de Camargo - Titular Carina Serra Amancio – Suplente Clarissa Duarte de Castro Souza - Titular Adriel Fernandes Passos Neto – Suplente Dânia Brajato - Titular Claudia Bastos Coelho – Suplente Daniel Passos Proença - Titular Alessandra Curadi Joazeiro Cucorocio – Suplente
Rafael Paulo Ambrósio (Coordenador) Vera Lúcia Blat Migliorini (Coordenadora-Adjunta) Comissão de Relações Institucionais do CAU/SP (CRI – CAU/SP)
Danielle Skubs - Titular Camila Martins Mastrorocco – Suplente
PLENÁRIO
Danila Martins de Alencar Battaus - Titular Maurílio Ribeiro Chiaretti – Suplente
Luciana Bongiovanni Martins Schenk - Titular Federal Rosella Rossetto - Suplente Federal
Eder Roberto da Silva - Titular Paula Katakura – Suplente
Adriana Bighetti Cristofani - Titular Luís Fernando Cardoso - Suplente
Ederson da Silva - Titular Anita Affonso Ferreira – Suplente
Adriana Corsini Menegolli - Titular Michelle da Silveira Rosa - Suplente
Edison Borges Lopes - Titular Júlia Mattos de Castro – Suplente
Adriano Cotrim Pita - Titular Gabriel Manzi Frayze Pereira - Suplente
Eduardo Salgado Marconi - Titular Luiz Antonio Nigro Falcoski – Suplente
Afonso Celso Bueno Monteiro - Titular Fabiana Zanquetta de Azevedo - Suplente
Fernanda de Macedo Haddad - Titular Fernanda Amorim Militelli – Suplente
Airlana Fernandes Silva Polzatto - Titular Frederico da Costa Marins - Suplente
Fernando Netto - Titular Linda Teresinha Saturi – Suplente
Alda Paulina dos Santos - Titular Dawerson da Paixão Ramos - Suplente
Francisco Otaviano Merli do Amaral - Titular Ana Paula Koury – Suplente
Gilberto Silva Domingues de Oliveira Belleza - Titular Lúcio Gomes Machado – Suplente
Nallígia Tavares de Oliveira Tavares - Titular Bárbara Caetano Damasceno – Suplente
Hainra Asabi Alves Costa - Titular Felipe Garcia de Sousa – Suplente
Nancy Laranjeira Tavares de Camargo - Titular André Luís Avezum – Suplente
Iara Ribeiro de Barros Camacho - Titular Rafaela Engler Ribeiro – Suplente
Nilce Cristina Aravecchia Botas - Titular Carolina Maria Pozzi de Castro – Suplente
Jane Marta da Silva - Titular Kedson Barbero – Suplente
Paula Rodrigues de Andrade - Titular Fernanda Craveiro Cunha – Suplente
José Antonio Lanchoti - Titular Mirtes Birer Koch – Suplente
Paulo André Cunha Ribeiro - Titular Aline Marques Analha – Suplente
José Borelli Neto - Titular (in memorian) Violeta Saldanha Kubrusly – Titular
Rafael Paulo Ambrósio - Titular João Sette Whitaker Ferreira – Suplente
José Marcelo Guedes - Titular Maria Eneida Barreira – Suplente
Reginaldo Peronti - Titular Luiz Fisberg – Suplente
Leticia Rocco Kirchner - Titular Karina Andrade Mattos – Suplente
Renata Ballone - Titular Paula Francisca Ferreira da Silva – Suplente
Luciana Cristina Ceron - Titular Gabriela Gonzalez Peronti – Suplente
Ricardo Aguillar da Silva - Titular Tomas Gioia Brunoro – Suplente
Luciana Rando de Macedo - Titular André Rogério de Santana – Suplente
Roberto Carlos Spina - Titular Ana Maria Leão Wey – Suplente
Luiz Antonio Cortez Ferreira - Titular
Rosana Ferrari - Titular Ronaldo Jose da Costa – Suplente
Maíra de Camargo Barros - Titular Marco Antonio D’Elia Junior – Suplente Maíra Laurença Geia – Titular Marcelo de Oliveira Montoro - Titular Selma Cristina de Sá Moreira Simões – Suplente Márcia Mallet Machado de Moura - Titular Gustavo Ramos Melo – Suplente Marcos Cartum - Titular Igor Cortinove – Suplente Maria Cristina Pinheiro Machado Sanches - Titular José Quirino de Arruda – Suplente
Ruth Cristina Montanheiro Paolino - Titular Wilton Flávio Camoleze Augusto – Suplente Samira Rodrigues de Araujo Batista - Titular Dante Nabuco Leva – Suplente Silvana Serafino Cambiaghi - Titular Patrícia Ceroni Scarabelli – Suplente Soriedem Rodrigues - Titular Iracy Fortes Squillaro – Suplente Tatiana Reis Pimenta - Titular Mel Gatti de Godoy Pereira – Suplente
Maria Ermelina Brosch Malatesta – Titular
Thais Borges Martins Rodrigues - Titular Leticia Faidiga – Suplente
Maria Isabel Rodrigues Paulino – Titular Flávia Santos Santana – Suplente
Vera Lúcia Blat Migliorini - Titular Catherine D’Andrea – Suplente
Maria Jocelei Steck - Titular Eduardo Nogueira Martins Ferreira – Suplente
Victor Chinaglia Júnior - Titular Daniella Farias Scarassatti – Suplente
Mariana Cicuto Barros - Titular Ana Carolina Alencar Nunes – Suplente
Viviane Leão da Silva Onishi - Titular Thaís Vicente Santos – Suplente
Marineia Lazzari Chiovatto - Titular Marco Antonio Teixeira da Silva – Suplente
Viviane Manzione Rubio – Titular
Melyssa Maila de Lima Santos - Titular Jéssica Aparecida da Silva Oliveira – Suplente Monica Antonia Viana - Titular Denis Ferri da Silva – Suplente Nadir Moreira da Silva - Titular Cristiane Lopes dos Santos – Suplente
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Escritórios Descentralizados S 1
SEDE (11) 3014-5900 (Telefone e WhatsApp) E-mail: atendimento@causp.gov.br Coordenador: Gabriela Raimundo
BAURU (11) 3014-5902 (Telefone e WhatsApp) E-mail: regionalbauru@causp.gov.br Coordenadora: Ludmilla Sandim Tidei de Lima Pauleto
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CAMPINAS
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MOGI DAS CRUZES
4
PRESIDENTE PRUDENTE
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RIBEIRÃO PRETO
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SANTOS
7
(11) 3014-5903 (Telefone e WhatsApp) E-mail: regionalcampinas@causp.gov.br Coordenadora: Elaine Pereira da Silva
(11) 3014-5904 (Telefone e WhatsApp) E-mail: regionalmogidascruzes@causp.gov.br Coordenadora: Samira Manoel dos Santos Lima
(11) 3014-5905 (Telefone e WhatsApp) E-mail:regionalpresidenteprudente@causp.gov.br Coordenadora: Jacqueline Sana
(11) 3014-5906 (Telefone e WhatsApp) E-mail: regionalribeiraopreto@causp.gov.br Coordenadora: Vanilde de Castro
(11) 3014-5907 (Telefone e WhatsApp) E-mail: regionalsantos@causp.gov.br Coordenador: Gustavo Teixeira de Miranda
ABC (11) 3014-5901 (Telefone e WhatsApp) E-mail: regionalabc@causp.gov.br Coordenador: Licio Gonzaga Lobo Júnior
8
SÃO JOSÉ DOS CAMPOS
9
SÃO JOSÉ DO RIO PRETO
10
SOROCABA
168
(11) 3014-5908 (Telefone e WhatsApp) E-mail: regionalsjcampos@causp.gov.br Coordenador: Paulo Romano Reschilian
(11) 3014-5909 (Telefone e WhatsApp) E-mail: regionalsjriopreto@causp.gov.br Coordenadora: Maria Heloisa Maltarolo
(11) 3014-5910 (Telefone e WhatsApp) E-mail: regionalsorocaba@causp.gov.br Coordenador: Luiz Antonio de Paula Nunes
4
Atendimento remoto:
Atendimento presencial:
9h às 12h e 13h às 16h (segunda a sexta-feira, exceto feriados)
9h às 12h e 13h às 16h em todos os escritórios, mediante agendamento (quartas e sextas-feiras)
9 5
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S
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7 6
Acesse aqui para saber qual é o seu Escritório Descentralizado →
MÓBILE #29
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Contatos CENTRAL DE ATENDIMENTO CAU/SP Telefone (11) 3014-5900 Whatsapp (11) 3014-5900 E-mail atendimento@causp.gov.br CHAT • Atendimento online ↗ https://causpatendimentodigital.powerappsportals.com/ Horários de atendimento presencial: 09h30 às 12h das 13h às 15h (segunda a sexta-feira) Horários de atendimento demais canais: 09h às 18h (segunda a sexta-feira) Endereço da Sede Provisória Rua Pedro Américo nº 32, 14º Andar - República - CEP 01045-010
CENTRAL DE ATENDIMENTO CAU/BR Whatsapp 0800 833 0113 Ligação gratuita 0800 833 0113 Atendimento presencial Segunda a sexta-feira, das 9h às 19h E-mail atendimento@caubr.gov.br
Ralf Correa Scholz, Nossas águas. → 170
MÓBILE
revista do CAU/SP
#29 ÁGUA ISSN: 2448-3885