RaĂzes
HistĂłrias sobre a (re)descoberta de um cabelo crespo
Catarina Silva Ferreira
Trabalho de conclusão de curso de graduação em Jornalismo, apresentado ao departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Orientação: Prof. Dr. Wagner Souza e Silva
Catarina Silva Ferreira São Paulo, 2020
INTRODUÇÃO A minha mãe cortou-me o cabelo pela primeira vez aos seis meses. O cabelo, que segundo vários testemunhos e escassas fotografias era liso, renasceu crespo e seco. Não sei se isto resume a minha vida, ainda curta. Mais depressa se diria o contrário. Esse Cabelo, Djamilia Pereira de Almeida¹ Com essa passagem a autora luso-angolana Djamilia Pereira de Almeida abre seu livro Esse Cabelo em que intercala relatos ficcionais à histórias de sua vida. No livro, o cabelo é mais do que uma característica biológica, é o fio condutor das mudanças experimentadas pela protagonista, Mila. As crônicas de seus cabelos ganham vida e um colorido, composto nem sempre de lembranças boas, mas que de certa forma delineiam a relação que ela constrói consigo. Alisar, trançar, cortar o cabelo, representam mudanças que não aconteciam só no topo da cabeça da protagonista, mas marcam momentos importantes da sua história. Assim como acontece com Mila, o cabelo crespo também permeia a história das mulheres negras brasileiras. Então, por que não refletir sobre essa relação conflituosa que se estabelece entre o cabelo crespo e a autoimagem da mulher negra? Um cabelo que ascende, que não se “doma”, que deixa de ser apenas cabelo para se tornar símbolo de luta política, de identidade coletiva. Percebendo, assim, que a história de um cabelo é também a história de uma geração, autoconhecimento e ancestralidade.
“Crespos estão se armando Faço questão de botar no meu texto Que pretas e pretos estão se amando” RINCON SAPIÊNCIA²
Carol Na época da escola eu comecei a pedir para minha mãe deixar eu fazer química no meu cabelo, não queria alisar, queria só que ficasse solto. Minha mãe não deixava, me enrolava, e eu muito nova e insistente não entendia - queria o cabelo bonito para minha cerimônia de primeira eucaristia. A insistência foi tanta que minha mãe me levou em um salão muito famoso na minha cidade, inclusive outras meninas da escola estavam lá e todas da mesma idade que eu - 10 ou 11 anos mais ou menos. Aplicamos o permanente no cabelo e eu me lembro que aquilo tinha um cheiro péssimo. Uma das meninas chorava muito - eu ouvia ela chorando enquanto a mãe dela dizia: Porque você está fazendo esse escândalo? Não queria o cabelo bonito? Olha a Carol, vê como ela tá quietinha, você quer continuar com seu cabelo duro? E eu ficava olhando aquilo e só pensava o quanto queria tirar aquilo da cabeça, mas precisava ser forte porque queria ter um cabelo bonito. Beleza dói. Não é isso que todo mundo diz? CAROL CINTRA, Relações Públicas
Fátima
Quando vou falar sobre racismo com uma criança, não vou trabalhar a brutalidade do racismo com uma criança de três anos, que já vive isso em seu cotidiano. Ela pode não verbalizar, ou não saber verbalizar aquele sofrimento, mas ela presencia o preconceito que acontece com o pai, com a mãe e até com ela mesma. Então quem nasce negro no Brasil, já nasce sentindo o racismo na pele. Na escola que trabalho, nosso objetivo é que ela vivencie a experiência da felicidade, é esse nosso convite pedagógico. Nós fizemos o projeto Ruim pra quem? Ruim por quê?, e é isso que trabalhamos, a experiência da felicidade daquela criança em ser negra. Deixamos que ela mexa com seu próprio cabelo, cuide do cabelo do colega. Fizemos oficinas utilizando óleos, materiais orgânicos como a argila e o urucum, combinamos
isso com música, dança - tudo para que aquela criança se perceba e desenvolva uma relação de afeto com a sua pele, com seus traços. Queremos que ela se fortaleça. E isso não acontece se as professoras não estiverem preparadas. Aqui na CMEI Dr. Djalma Ramos [escola de ensino infantil em Lauro de Freitas/ BA] nós somos um coletivo de professoras negras, então ao estudar esse tema para trabalhar com as crianças, ocorreu também um movimento interno de transformação nas professoras e em toda comunidade escolar. FÁTIMA SANTANA, Coordenadora Pedagógica
Marah
Eu queria cuidar da minha vaidade e queria cuidar da vaidade masculina também, LGBTQ+ principalmente. Dar espaço para homens trans e mulheres que - por fugir dessa coisa da feminilidade - se sentem mal em frequentar esses espaços, salões de beleza tradicionais de mulheres ou barbearias que só têm homens. Rola muito preconceito, rola objetificação da mulher, é desconfortável. Na real, dá vontade de fugir. Então vi a necessidade de criar esse espaço ou até mesmo trabalhar em um espaço que proporcionasse isso. MARAH SOULL, Barbeira
Bruna
Penso que as pessoas que me procuram querem se descobrir, porque eu não utilizo química. O meu prazer é tratar do cabelo como ele é, independente de como ele seja. Quando fui estudar, via que as pessoas ficavam muito ligadas a aprender sobre escova progressiva, botox capilar e outros alisamentos, estava todo mundo remando nesse mesmo sentido, mas eu queria ir na contramão. Não quero isso. Quero que a pessoa se descubra enquanto indivíduo, então isso foi um divisor de águas para mim. As pessoas não sabem finalizar um cabelo crespo, as pessoas não sabem qual o creme para o cabelo crespo, um creme saudável. Quero que elas aprendam sobre si e o cabelo pode ajudar nisso. BRUNA TRAJANO, Cabeleireira
Erlane
Sou mãe de duas meninas, a Isabela e a Marjorye. Diarista, boleira e líder de movimentos aqui na comunidade. Minha desconstrução foi dolorosa, demorou muito para me sentir segura. Quando pequena vivia com o cabelo sempre cortado bem curto por conta de piolhos e minha mãe não tinha tempo pra cuidar - e nem paciência. Depois passei um bom tempo com as químicas, comecei a usar química no cabelo ainda criança minha mãe mesmo que fazia em casa. Para ela era lindo e prático, mas eu não achava isso, vivia com a cabeça queimada. Depois de uma alergia séria com uma progressiva,decidir fazer a transição. Estou com 36 anos hoje, e pelo que me lembro, tem uns três anos que passei pela transição e foi quando consegui me ver realmente bonita. Meu conselho para Erlane antes é que ela se ame. Ame o que vê no espelho, porque é isso que vai te fortalecer para o que você vai encontrar no futuro. Muitas vezes pensei em voltar a alisar, até que consegui enxergar minha beleza. ERLANE CRISTINA, Líder comunitária
Karina Entrei para o convento quando jovem. E no convento, usar o véu era minha zona de conforto. Foi assim até que tive uma alergia ao véu e perdi 20% do cabelo. Fiz o tratamento, mas com isso tive que tirar o véu, e não foi nada fácil. O ambiente da igreja não aceitava bem o crespo, usar meu cabelo natural não era uma opção. Foi quando começou o processo de estica, estica, estica. Alisei o cabelo durante cinco anos seguidos depois de tirar o véu. Por conta da alergia, o cabelo ainda estava frágil, mas mesmo assim continuei a alisar - até que percebi que estava perdendo muitos fios. Decidi procurar uma médica e ela me mostrou como o couro cabeludo estava machucado. Ouvi, mas não dei atenção e continuei alisando. Até que eu perdi 50% do meu cabelo. Nesse momento me vi e falei pra mim: Nunca mais vou alisar o cabelo! Nessa época, fui morar em Taubaté, no interior de São Paulo, e quem me acolheu foi uma irmã da Congregação e, para minha surpresa ela me
acolheu muito bem, me apoiou, não concordava com alisamentos. Ela me deu todo suporte, me ajudou a fazer um tratamento e recuperar meu cabelo. Foi assim que comecei a usar meu cabelo natural. Foi libertador, poder sair daquele monte de cremes, de processos químicos, um tempo depois, acabei por sair da Congregação também. Sempre tive vontade de colocar tranças e depois de assumir meu crespo me permiti fazer isso. Porque eu tenho um cabelo com uma história, e o cabelo crespo me dá oportunidade de usar tranças quando quiser, de usar apliques, de usar ele solto, de usar um turbante, me dá essa possibilidade de mudança. Mas uma coisa que eu não faço mais é alisar. Vivi uma vida inteira presa na ideia de uma estética europeia, e quando fui procurar mais sobre meu cabelo, me envolvi com a cultura negra de um jeito que o cabelo foi só o começo. KARINA CI, Pedagoga
Célia Quando penso em estudar o cabelo é também por conta da minha experiência de vida, como mulher negra e como professora. Vejo que as adolescentes passam uma parte da infância em sofrimento, com a rejeição que o cabelo sofre, ou pela invisibilidade de um cabelo que não aparece em uma situação positiva. Mas para pensar esse lugar do cabelo, precisei olhar para a representação do cabelo ao longo do tempo, não numa visão cronológica, mas em um diálogo entre passado e presente. Para isso, usei também conceito de território, que é muito ligado à geografia, mas se olharmos para a antropologia, território tem ligação com afeto,
com lembranças e experiências. Então olhei o corpo como um lugar. E segui neste caminho para pensar o cabelo enquanto território e espaço de expressão. O corpo negro foi trazido para o Brasil, e para toda América Latina, em uma condição de não opção. Então é necessário olhar para a posição de um corpo em diáspora, e diáspora significa dispersão, foram corpos que chegaram sem nada, sem uma fotografia, uma mala, um símbolo, um objeto. Um corpo que veio e de certa forma continua vindo e ressignificando traços da diáspora. Um corpo que é também espaço. CÉLIA REIS, HiIstoriadora
CONCLUSÃO Geralmente enfatizam nossa capacidade de “sobreviver” apesar das circunstâncias difíceis, ou como poderemos sobreviver no futuro. Quando nos amamos, sabemos que é preciso ir além da sobrevivência. É preciso criar condições para viver plenamente. E para viver plenamente as mulheres negras não podem mais negar sua necessidade de conhecer o amor. Bell Hooks3
Assim como a democracia racial encobre os conflitos raciais, o estilo de cabelo, o tipo de penteado, de manipulação e o sentido a eles atribuídos pelo sujeito que os adota podem ser usados para camuflar o pertencimento étnico/racial, na tentativa de encobrir dilemas referentes ao processo de construção da identidade negra. Nilma Lino Gomes4 O cabelo crespo é alvo de preconceitos herdados historicamente no Brasil, assim como outras características da negritude. O processo de aceitação, de (re)descobrimento desses traços e principalmente da construção de memórias de afeto com o cabelo pode, por vezes, levar a reflexões mais profundas sobre os efeitos do racismo estrutural. Um processo que ocorre em espaços que se dedicam - declaradamente ou não - ao cuidado pelos traços negros, fato que foi evidenciado no estudo da pesquisadora e antropóloga Nilma Lino Gomes, em 2002. “Os cabelos crespos da negritude desestabilizam a ordem; um penteado afro, como o Black Power, cabelo armado, eriçado, perturba a ordem estabelecida“. Em Crespos insurgentes, estética, revolta, memória e corporeidade negra paulistana, hoje e sempre5 a historiadora, Célia Regina Reis da Silva olha para o cabelo
crespo como um território, em constante diálogo entre passado, presente e futuro. O corpo e o cabelo, se tornam espaços em que se manifestam inquietações e insurgências. Desde muito nova, sempre observei minhas irmãs mais velhas e minha mãe também fotografadas neste zine em seus altos e baixos na relação com a autoestima. O ano de 2020 foi um período particularmente atípico para a população mundial. A crise sanitária, causada pela pandemia do novo coronavírus, trouxe à tona problemas sociais e estruturais de diferentes partes do mundo. Neste balanço, a questão racial se mostrou um espaço (ainda mais) urgente de discussão e de enfrentamento de problemas causados pelo racismo estrutural. Neste cenário, falar de afeto e de sua (re)descoberta torna-se uma possibilidade de resistência, em contraponto a brutalidade do racismo evidenciada diariamente.
AGRADECIMENTOS A todas as mulheres que gentilmente compartilharam suas histórias comigo. Às pesquisadoras que abriram caminhos para um tema tão significativo ganhasse espaço dentro e fora da academia. À minha família, que além de disparador do tema deste projeto, também participou e me acompanhou durante o desenvolvimento do trabalho. Ao meu orientador que, mesmo em condições incomuns, disponibilizou tempo para acompanhar o desenvolvimento deste projeto.
1 - ALMEIDA, Djamilia. Esse Cabelo: A Tragicomédia de um cabelo crespo que cruza Fronteiras.1ª ed. Rio de Janeiro: Leya, 2017, p.9. 2 - DJONGA. Ponta de Lança. In Galanga Livre, 2017. Disponível em <https://open.spotify.com/album/52xmMOOQQXlggQF281n47s?highlight=spotify:track:0Y8dSlRPhYGN96MoPCFj8c> 3- HOOKS, Bell. Vivendo de Amor. 1994. Tradução de Maísa Mendonça. Disponível em: https://www.geledes. org.br/vivendo-de-amor/. 4- GOMES, Nilma Lino. Corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Minas Gerais, 2002. Disponível em: http://titosena.faed.udesc.br/Arquivos/Artigos_textos_sociologia/Negra.pdf. 5 - SILVA, Célia Regina Reis da. Crespos insurgentes, estética revolta memória e corporeidade negra paulistana, hoje e sempre. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2016. Disponível em: https://tede2. pucsp.br/handle/handle/19003.