CARBONO
CARBONO uomo
Nº 25 J O H N N Y M A S S A R O O ator posa para
nossas lentes no auge de sua liberdade criativa e fala sobre escolhas e reinvenção
Nº 25 - R$ 50,00
E N T R E V I S T A S A construção da
paternidade do apresentador Pedro Andrade e a mente de campeão mundial do piloto de rally Lucas Moraes
L I V R O S Indicados por Tony Bellotto
E S P O R T E Relatos cheios de adrenalina de quem vive o lifestyle da escalada V I A G E N S Peru sobre rodas, um roteiro
de e-bike, o melhor do countryside inglês e uma imersão na cordilheira marroquina
P Á G I N A S A M A R E L A S Tendências para ficar de olho: de projetos sociais a perfumaria de nicho e jardinagem
IOF
ZERO Se você quer viajar o mundo e não pagar IOF nas compras, o BTG é o seu Banco.
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ENTRE EM CONTATO
Embarque em um oceano de possibilidades com a Norwegian. Prepare-se para experimentar ainda mais nas suas férias dos sonhos, onde há algo para todos a bordo. Você pode navegar pelo melhor do Caribe em nossos mais novos navios, mergulhar na imensa beleza natural da Europa ou ver as geleiras encantadoras do Alasca de uma perspectiva totalmente nova, a escolha é sua! E depois de um dia emocionante explorando, você pode relaxar em nosso spa premiado, saborear a culinária de classe mundial em nossos restaurantes de especialidade e desfrutar de um entretenimento que sempre rouba a cena. Com mais de 400 destinos ao redor do mundo para descobrir e 21 navios contemporâneos disponíveis para reserva, a melhor maneira de ver mais do mundo é em um itinerário inspirador com a Norwegian.
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St. Thomas, Ilhas Virgens Americanas
Reykjavík, Islândia
Glaciar Mendenhall, Alasca
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Onde tem SOL, tem GOL O verão é nosso destino favorito.
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“
A gente vive num mundo de muitas desigualdades. Isso começou a me fazer pensar que era bom eu fazer um testamento, e achei por bem deixar meu patrimônio para Médicos Sem Fronteiras. Me traria uma paz de espírito, sabendo que eu poderia ajudar de alguma maneira. Porque somos assim, uma gotinha no oceano.” Márcia Villas-Bôas Doadora de Heranças de MSF
Escreva um novo capítulo da sua história com MSF. Nomeie MSF em seu testamento.
Transforme o seu patrimônio em um cuidado que salva vidas. Com a doação em testamento, você se torna um doador de heranças de Médicos Sem Fronteiras e garante que nosso trabalho chegue a quem mais precisa, onde quer que esteja.
O processo é simples e pode ser feito a qualquer momento em apenas 3 passos: 1. Decida qual parte do seu patrimônio deseja destinar a MSF; 2. Em um cartório de notas de sua preferência, realize uma escritura pública de testamento. Para isso, você precisará de algumas informações cadastrais de MSF; 3. Envie uma cópia digital do seu testamento para ser arquivada de forma sigilosa por MSF (esta é uma etapa opcional).
Faça como Márcia e deixe um legado de esperança com MSF. SAIBA COMO INCLUIR MSF EM SEU TESTAMENTO:
www.msf.org.br/herancas heranca@rio.msf.org (21) 98921-6158 de segunda a sexta, das 09h às 18h
Pr i meiras P al avras
O Menino Imenso que o Tempo Encolheu Era uma vez, um menino tão pequeno, tão pequeno, que parecia grande. Cabia no colo do mundo. Mas o menino cresceu. E dentro dele nasceu uma dor tão funda, tão funda, que mal cabia. E ninguém via. Ficava escondida. Atrás da pele, do peito, do osso. Guardada no coração. E o sentir do menino crescido era tão vasto, tão vasto, que um dia não coube em si. A dor transbordou e escorreu pelos olhos. – Oxe, menino crescido, chore não. – Choro sim. – Choro a saudade de quando ser miúdo era ser gigante. – Porque hoje, tão grande, fiquei pequeno. – Nada além de um adulto, que carrega no peito o menino imenso que o tempo encolheu.
Lili Carneiro Publisher
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Expediente
REDAÇÃO EDITOR A CARBONO
COLABORADORES
P U B L I S H ER
Adriana Glaviano Alessandra Tucci Alex Hanazaki Alex Woloch Ana Paola Pollini Artur Tavares Bia Nauiack Bruno Fioravanti Carol Siqueira Caroline Bittencourt Claude Troisgros Claudio Angelini Cuca Elias Daniel Nunes Gonçalves Daniela Mac Adden Denise Meira do Amaral Takeuchi Devian Zutter Diogo Lucatelli Edu Fragoso Fernanda de Almeida Carneiro Fred Fernandes Fred Sabbag Glaucia Seixas Gui Casagrande Helena Rubano Henri Hideki Isabel de Barros Jennifer Glass João Bertholini Kanucha Barbosa Leonardo Freire Lu Prezia Lucas Rosin Luisa Alcantara e Silva Manuela Stelzer Marcelo Mujalli Mariana Orsi Mario Mele
Lili Carneiro lili@editoracarbono.com.br D I R E TO R E X E CU T I VO E D E L I FES T Y L E
Fábio Justos fabio.justos@editoracarbono.com.br D I R E TO R A D E A R T E
Mona Conectada ED I TO R A CO N V I DA DA
Adriana Nazarian P R O D U TO R A E X E CU T I VA
Ana Elisa Meyer revistas@editoracarbono.com.br R E V I S ÃO
Paulo Vinicio de Brito T R ATA M EN TO D E I M AG EN S
Cláudia Fidelis
COMERCIAL E BACK OFFICE D I RE TO RIA D E CO M U N I CAÇÃO E N EG Ó CI OS
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Fernanda Gibeli comercial@editoracarbono.com.br FI N A N C EI R O
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Nathalia Hein Nicolas Calligaro Pedro Arieta Rafael Felix Rafael Salvador Roberto Klabin Rodrigo Azevedo Rui Nagae Ruy Teixeira Samuel Antoniti Sandrinho Gagli Shoichi Iwashita Tadeu Nunes Telma Shimizu Thays Bittar Thiago Brito Tininha Pietrocola Tony Bellotto Toty Victor Hugo Germano Victoria Cavalcante
EDITORA CARBONO EN D ER E ÇO
Av. Rebouças, 3575 Jardim Paulistano 05401-400, São Paulo, SP C T P, I M P R ES S ÃO E AC A B A M EN TO
Stilgraf C I R CU L AÇ ÃO
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C A PA F OTO G R A FI A
Pedro Arieta ED I Ç ÃO D E M O DA
• Nº 25 •
Cuca Elias
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Gui Casagrande CO N C EP Ç ÃO ED I TO R I A L
Carbono Uomo é uma publicação da Editora Carbono | CNPJ 46.719.006/0001-14 A Editora Carbono não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos assinados. As pessoas que não constam do expediente da revista não têm autorização para falar em nome de Carbono Uomo ou retirar qualquer tipo de material para produção de editorial caso não tenham em seu poder uma carta atualizada e datada, em papel timbrado, assinada por um integrante que conste do expediente da redação.
AG R A D E C I M EN TO S
Galeria Verniz @vernizsp
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Jaqueta e calça À La Garçonne e regata Oriba
@CARBONOEDITORA
• Nº 25 •
A SEGUIR:
V I A G E N S 104. Peru 108. Atlas Mountains 112. E-bikes 118. Inglaterra
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38. MEU BAIRRO Telma Shimizu
84. MEU ESTILO II Kaywa Hilton
42. ENT RE VI S TA I Pedro Andrade
86. CRE AT IVES I I Pegge
46. LIVROS Tony Bellotto
88. ESPORTE Escalada
50. PERFIL Johnny Massaro
94. VINHOS Sem barrica
68. MINDS I Rafael Yunes
98. MINDS III Rodrigo Pipponzi
70. MEU ESTILO I Beto Galvez
10 0. GASTRONOMIA Bangkok
72. CRE AT IVES I Dualde Cornelsen
12 2 . L I T ER AT U R A Esquisita
74 . ENT RE VI S TA I I Lucas Moraes
12 4 . PENSATA Escrita à mão
78. COLEÇÃO Moedas
12 6 . CARBONO ZERO Um panorama sustentável
82. MINDS II Giovanni Venturini
131. PÁG I N A S A M A R E L A S Guia de tendências Carbono
Retrato Johnny Massaro, por Pedro Arieta; obra O Mensageiro, de Pegge; e o hotel Kasbah Tamadot, no Marrocos
32. CU RTAS Dicas quentes Carbono
O primeiro Hotel com piscina de surf da América Latina.
Operação
Propriedade
Est Mun PFZ 373-B Lote 01 Boa Vista Village Porto Feliz-SP 18548-406 www.boavistasurflodge.com.br | @boavistasurflodge
C U R T A S | Carbono Uomo
CURTAS Pitadas gastronômicas, eventos esportivos para ficar de olho, achados de design e moda, e muito mais. Bem-vindo ao universo Carbono Por Carbono Uomo
NA NEVE Em busca de uma viagem eletrizante para 2026? Em fevereiro, tem Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno na Itália e a gente garante que vale o pit-stop para ver provas emocionantes e, claro, aproveitar refúgios cheios de bossa nos vales nevados das Dolomitas, onde acontecem algumas das competições.
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DESIGN EM MOVIMENTO
DE OLHO NO GOL
A Lacoste Watches apresentou no Brasil seus principais lançamentos, reforçando o encontro entre design francês, herança esportiva e alta performance. Ícone da marca, o Lacoste.12.12 tnasmite o espírito do tênis para o pulso: caixa leve, linhas minimalistas e pulseira inspirada no petit piqué, tecido da polo criada por René Lacoste. No Brasil, a Vivara é a distribuidora exclusiva dos modelos da marca. @lacoste | @vivaraonline
2026 tem Copa do Mundo de Futebol e a contagem regressiva está a todo vapor. Principalmente porque os primeiros jogos do Brasil já foram anunciados e nós demos a sorte de pegar três cidades incríveis para assistir ao evento – e passear –: Nova York, Filadélfia e Miami. Façam suas apostas!
PANINI NA ITÁLIA É COISA SÉRIA: É ALTA GASTRONOMIA!
SÃO PAULO Rua Iguatemi, S/N– Itaim Bibi Shopping Cidade Jardim – Av. Magalhães de Castro, 12.000 – 3º piso Catarina Fashion Outlet – Rod. Castello Branco, km 60 @fasano #fasano
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Ca rb ono Uom o + J A GUA R
JAGUAR TCS RACING: ONDE A PERFORMANCE ELÉTRICA ENCONTRA O FUTURO DA MOBILIDADE DE LUXO A Fórmula E, hoje a principal plataforma global de competição elétrica, tornou-se um território essencial para entender o futuro da mobilidade. E poucas marcas assumem esse protagonismo com tanta clareza quanto a Jaguar, que utiliza cada etapa do campeonato como um verdadeiro laboratório vivo: um ambiente onde tecnologia, eficiência e emoção se encontram para moldar os carros elétricos que veremos nas ruas nos próximos anos. Em 2025, essa visão estratégica ganhou força renovada. A Jaguar reafirmou a conexão direta entre sua equipe de corrida, a Jaguar TCS Racing, a mobilidade elétrica de alta performance e a transferência real de inovação para toda sua linha de veículos de luxo.
o carro de competição que simboliza o ápice da engenharia elétrica da marca. Mais do que um monolugar veloz, o I-Type 7 é um ecossistema de inteligência: software avançado, regeneração aprimorada de energia, altíssimo nível de eficiência e controle preciso em cada curva. E o que acontece dentro do cockpit – impulsionamento, frenagem regenerativa, telemetria, leitura de consumo – não termina na bandeirada. Esses aprendizados seguem diretamente para o desenvolvimento dos carros de rua, fortalecendo a visão global da Jaguar de que tecnologia de ponta nasce na alta performance das pistas e ganha sofisticação nos modelos de produção.
JAGUAR I-T YPE 7 e o auge da engenharia elétrica
Uma das equipes mais tradicionais e visionárias da Fórmula E
No coração dessa transformação está o Jaguar I-Type 7,
Desde sua estreia, a Jaguar estabeleceu um novo patamar
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“A Fórmula E é um laboratório vivo para o futuro da Jaguar”
@jaguarracing
de ambição na categoria elétrica. Não por acaso, foi a primeira marca de luxo a ingressar na Fórmula E, reforçando um pensamento que sempre esteve em seu DNA: inovação como motor de transformação. Ao longo das temporadas, a Jaguar TCS Racing se consolidou como uma das equipes mais competitivas, equilibrando performance e consistência. Mais do que lutar por títulos, a equipe ajuda a definir o futuro da mobilidade elétrica.
Fotos divulgação
A Fórmula E como laboratório para a eletrificação de luxo
É ali, entre curvas, estratégias de energia e disputas milimétricas, que nascem avanços que vão muito além do esporte: avanços que sustentam a eletrificação como potência, unindo eficiência, design, inovação e emoção. A Jaguar acredita que a mobilidade do futuro exige mais do que autonomia e performance: exige uma experiência
completa, onde engenharia, estética e emoção convivem em harmonia. A Fórmula E acelera esse processo, antecipa tendências e transforma desafios competitivos em soluções para a vida real. Performance que transcende a pista
A Jaguar TCS Racing não representa apenas vitória, velocidade ou estratégia. Representa uma filosofia de marca: performance elétrica de verdade – nas pistas e fora delas. Com a união entre engenharia avançada, visão de futuro e excelência estética, a Jaguar estabelece hoje um novo capítulo da mobilidade e do luxo no mundo, um capítulo movido por energia limpa, inteligência e emoção. Na pista, no desenvolvimento tecnológico e no imaginário de quem acredita em inovação, a Jaguar acelera rumo a um futuro onde eletrificação e sofisticação caminham juntas. E esse futuro já está acontecendo. 31
C U R T A S | Carbono Uomo
VOO ALTO Quatro perguntas para Marcos Amaro, fundador da Amaro Aviation e do Museu Fama, presidente do Museu Asas de um Sonho, autor de livros e artigos, colecionador e patrono de diversos artistas brasileiros @amaroaviation “Caminhamos para uma aviação executiva mais acessível, conectada e com menor impacto ambiental”
Carbono Uomo Como você enxerga a evolução da aviação executiva no Brasil nos próximos anos? Marcos Amaro A aviação executiva deve passar por uma transformação importante, marcada pela democratização do acesso, com cada vez mais pessoas e empresas reconhecendo o valor da mobilidade aérea como instrumento de produtividade e competitividade. Também vivemos um momento tecnológico estimulante, com os eVTOLs e drones tornando o transporte mais eficiente, tanto nos grandes centros quanto em aplicações logísticas e aeromédicas. Caminhamos para uma aviação mais acessível, conectada e com menor impacto ambiental. Carbono Uomo Quais iniciativas de inovação você considera mais transformadoras para a empresa hoje? Marcos Amaro Temos uma frota diversificada, capaz de atender com segurança e eficiência às múltiplas demandas de um país de dimensão continental como o Brasil. Isso nos dá flexibilidade para oferecer a solução ideal para cada cliente e rota. Além disso, nossa adesão ao IS-BAO (padrão internacional de melhores práticas para aviação executiva) demonstra nosso compromisso com segurança, excelência operacional e governança profissional. Isso reduz riscos e nos coloca em um patamar global de qualidade. Carbono Uomo Como a Amaro Aviation enxerga a sustentabilidade?
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Marcos Amaro A sustentabilidade é um compromisso contínuo, que começa na eficiência da nossa frota, composta de aeronaves mais modernas, com menor consumo de combustível. Mantemos uma política permanente de renovação e manutenção preventiva, o que nos permite operar com maior eficiência energética, menores ruídos e impacto reduzido. Estamos alinhados às melhores práticas regulatórias e operacionais, com monitoramento das emissões, rastreabilidade de dados e uma agenda clara de evolução em direção a tecnologias ainda mais limpas, como o uso crescente de SAF (combustíveis sustentáveis de aviação), à medida que sua disponibilidade se amplia no Brasil. E a sustentabilidade, para nós, também tem um caráter social. Um exemplo é o convênio com a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, que nos permite atuar no transporte de órgãos para transplantes, garantindo agilidade e salvando vidas. Carbono Uomo Você criou um importante polo de arte no País com a FAMA (@famamuseu), em Itu. Como a gestão do museu influencia sua visão empreendedora? Marcos Amaro A arte sempre fez parte da minha vida. O trabalho no museu me aproxima da memória e da história, do que deve ser preservado. Já na Amaro Aviation, o olhar é para o futuro e a inovação. Essas duas dimensões se completam. A arte me ajuda a enxergar a vida mais sensivelmente e a fazer escolhas com propósito, enquanto a aviação me desafia a transformar ideias em movimento e serviço real para as pessoas. No fim, é sobre aproximar e gerar pertencimento.
C U R T A S | Carbono Uomo
REENCONTRO NA COZINHA O chef nova-iorquino Sei Shiroma, criador da premiada Ferro e Farinha – hoje entre as 50 melhores pizzarias do mundo –, iniciou um novo capítulo no Rio. Além de expandir sua pizzaria para cinco endereços, Sei reposicionou seu restaurante japonês, Suibi, agora em Ipanema. A mudança marca também a chegada do pai, Atsuo “Mike” Shiroma, que deixou o comando do Suibi original, de Manhattan, para dividir o balcão com o filho. No novo endereço, o menu ganhou uma cozinha quente própria, com pratos como Gyu Katsu Karê e guiozas autorais, além de uma carta de drinks criada pela mixologista Vitória Kurihara, vencedora do World Class Brasil 2023. @ferroefarinha | @suibi.restaurant
ESTILO CAMPEÃO Ricardo Almeida, maior referência brasileira de alfaiataria de luxo, renovou pela terceira vez sua parceria com a CBF para assinar os trajes oficiais da Seleção Brasileira de Futebol para o Mundial de 2026. A novidade? As peças inéditas da RA2 – linha experimental criada por Ricardo ao lado dos filhos, Ricardinho e Arthur, e de Gabriel Pascolato – trazem inovação e disrupção ao estilo clássico da marca. @ricardoalmeidaoficial
O U T R O C A R N AVA L O Botanique Hotel Experience propõe para 2026 um “Carnaval de Silêncio” na Mantiqueira: quatro dias voltados à contemplação, ao bem-estar e à conexão profunda com a natureza. Entre yoga, trilhas, spa, piqueniques e gastronomia de terroir, o feriado ganha um ritmo desacelerado e sensorial. No período, o hotel também vive sua temporada em família, com atividades leves, cinema e vivências guiadas que aproximam gerações. Um convite a celebrar o silêncio como luxo e a paisagem como refúgio. @botaniquehotel
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POESIA EM DESIGN Os designers Jay Boggo e Bruno Rodrigues lançaram a coleção de mobiliário Ritos, que une pedras, aço e biotecidos como micélio e folha orelha-de-elefante. As peças – aparadores, bancos, mesas e poltronas – exploram matéria e ancestralidade, em um diálogo entre solidez e fluidez. A série estreia na SP-Arte 2026, com vendas na J.Boggo Gallery. @j.boggo
V I N H O À V I S TA Estamos de olho em mais um empreendimento que une condomínio residencial e enoturismo, dessa vez em Água Doce, Santa Catarina. Com investimento estimado em R$ 50 milhões, o projeto da LN Urbanismo em parceria com a Ippes Urbanizadora será implantado em uma área de 640 mil m² pertencente à vinícola Villaggio Grando, reconhecida por rótulos célebres como o Inominable. Além dos 200 lotes, o empreendimento terá um hotel boutique e a área de enoturismo, batizada de Vinícola Grando. Segundo o CEO Guilherme Grando, os futuros moradores e visitantes poderão fazer desde passeios pelos vinhedos até participar de um Clube do Vinho. E mais: em breve, a LN Urbanismo, junto com a Vinícola Guaspari, lançará um hotel com bandeira própria em Espírito Santo do Pinhal, interior de São Paulo, para atender à crescente demanda turística da região. @ln.urbanismo
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C U R T A S | Carbono Uomo
A TIRACOLO Como você imagina uma parceria entre a Apple e a marca japonesa Issey Miyake – duas referências quando o assunto é design? Pois ela acaba de ganhar vida na forma do iPhone Pocket, um acessório criado para guardar iPhones, AirPods e afins. Elástico, ele é feito de tecido 3D tricotado. @apple | @isseymiyakeofficial
VOA, VOA
O FUTURO DA SAÚDE
São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belém, Belo Horizonte e muitas outras cidades: você sabia que a TAP tem 91 voos por semana na rota Brasil–Europa? Em 2026, inclusive, Curitiba entra no hall de destinos atendidos – serão 14 no total. Voamos em um deles e um ponto chamou a atenção: a seleção de produtos portugueses servidos a bordo, ajudando a entrar no clima da terrinha – das louças Vista Alegre ao pastel de nata, passando pelo Porto branco que dá as boas-vindas aos viajantes. @tapairportugal
Puríssima é a nova healthtech de Flávio Passos, fundador da Puravida (vendida à Nestlé em 2022). Trata-se de uma plataforma que propõe uma revolução do bem-estar: transformar suplementação em um ritual diário e customizado. Com uma avaliação clínica on-line que cruza mais de 90 variáveis – como sintomas e estilo de vida –, a IA cria fórmulas personalizadas validadas por médicos, nutricionistas e farmacêuticos. São shakes que reúnem nutrientes bioativos, ômega-3, vitaminas e antioxidantes em doses clinicamente eficazes. @purissima.saude
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C U R T A S | Carbono Uomo
C O N Q U I S TA S C O N S TA N T E S
TERCEIRIZANDO ÍCONE À BEIRA-MAR O DPNY Beach Hotel & SPA celebra duas décadas como referência em sofisticação à beira-mar em Ilhabela. Reconhecido entre os 11 melhores hotéis do Brasil e no seleto 1% dos melhores do mundo, o hotel combina conforto, privacidade e uma estética única marcada por arquitetura artesanal e design autoral. Cada ambiente foi criado para oferecer uma experiência sensorial completa, com espaços que valorizam bem-estar, contemplação e conexão com a natureza. O SPA, as piscinas, os lounges e as áreas de relaxamento reforçam o compromisso do DPNY com uma hospitalidade que prioriza tranquilidade e elegância. A gastronomia, outro destaque, une técnica refinada e ingredientes selecionados, completando uma jornada que faz do DPNY um dos destinos mais desejados do País. @dpnybeach 36
Que tal ter um robô que assume as tarefas da casa? O programa de pré-venda do Neo, projeto da empresa de robótica 1X Technologies, já começou nos Estados Unidos e as primeiras máquinas devem ser distribuídas em 2027. Até lista de compras e aniversários ele promete fazer. Estamos de olho!
Fotos João Bertholini, Lu Prezia, Mariana Orsi, Rodrigo Azevedo e divulgação
A Ornare viveu um 2025 cheio de novidades, reforçando sua presença nos universos do design, da arte e da moda. O projeto Art All Around ganhou novas edições em São Paulo e Milão, enquanto a coleção Minimal redefiniu a atmosfera do showroom na Gabriel Monteiro da Silva. A marca também expandiu suas fronteiras com showrooms inaugurados em Recife, Campo Grande, Lisboa, Palm Beach, Boston e Washington D.C., além da renovação em Houston e de um novo endereço em Dubai. No mercado imobiliário, o Next Itaim by Ornare marcou uma nova etapa das branded residences no Brasil, unindo arquitetura contemporânea e luxo sob medida. Desde 1986, a Ornare reafirma seu protagonismo global no mobiliário de alto padrão, sustentado por design, personalização e um forte compromisso com a sustentabilidade. @ornare_official
C U R T A S | Carbono Uomo
DOCE DE OURO MODA E CONFORTO A Air France lançou um pijama exclusivo criado pela Maison Jacquemus para os passageiros da cabine La Première. Em azul-marinho ou vermelho, o conjunto eleva o conforto e reforça a sofisticação da nova experiência a bordo, celebrando a parceria entre as duas marcas francesas. @airfrance
Depois dos doces gelados que imitam perfeitamente o formato das frutas, Cédric Grolet agora faz chocolates que mais parecem obras de arte. Hit absoluto, o confeiteiro francês, cujas lojas parisienses têm fila de espera, lançou há pouco um endereço dedicado aos produtos feitos com cacau premium – e outros segredinhos. A inspiração da Cedric et la Chocolaterie? Willy Wonka e sua fantástica fábrica de chocolates, oui, oui. @cedric.et.la.chocolaterie
N A S C I D A S N A I TÁ L I A A S.Pellegrino anunciou há pouco uma parceria com a Ferrari, seguindo um movimento crescente do mercado de bebidas: buscar ações que envolvam lifestyle para se conectar com novos públicos. Entre os destaques da novidade, espere por produtos desenvolvidos no centro de design da Ferrari e experiências imersivas. @ferrari | @spellegrino
É PROIBIDO BEBER Que os drinks sem álcool vieram para ficar, você já deve saber. Mas a onda agora, ditada por NY, é um clube exclusivo para membros dedicado ao assunto. Batizada de The Maze NYC, a novidade fica no Flatiron District e tem restaurante, bar e até um pequeno espaço para coworking. @themazenyc
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U r b a ni s mo | T E L M A S H I M I Z U
MEU
Retrato Rafael Salvador
BAIRRO
Thelma Shimizu, chef de cozinha
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Urbanism o | S A Ú D E
Há mais de 30 anos, a chef Telma Shimizu escolheu a Saúde como seu bairro do coração pela ligação com a comunidade japonesa – e com a boa gastronomia Por Telma Shimizu
Morei na Saúde por quase 30 anos. Saí recentemente, depois que me separei, mas continuo frequentando e adorando o bairro. Apesar de muitas pessoas só pensarem na Liberdade, a Saúde é a área que tem mais japoneses e descendentes em toda São Paulo. Depois da Segunda Guerra Mundial, houve um grande movimento da comunidade para lá. Minhas duas filhas nasceram e cresceram ali, mais especificamente na Rua Catulo da Paixão Cearense – olha que interessante, ela tem o nome de um poeta brasileiro! Sempre fomos muito ligados à nossa cultura e a escolha da Saúde foi estratégica: é o bairro mais amigável e tem escolas com essa conexão, restaurantes familiares e mercearias de produtos japoneses. Para as minhas filhas, estudar lá foi crucial para a formação, tanto que uma delas hoje trabalha em um escritório de arquitetura em Tóquio. A parte gastronômica merece um capítulo à parte. Afinal, comigo as histórias sempre precisam envolver comida. Tanto que todas as minhas dicas são relacionadas ao tema. Eu ainda
volto ao bairro para fazer minhas compras mais especiais. Além do Hortifruti Imigrantes, a feira de domingo, em uma travessa da Carneiro da Cunha, é sagrada: faz parte da minha história e dos meus restaurantes. Ali tem coisas que não encontro em outros lugares, como o ruibarbo, uma planta asiática que uso bastante. Ainda me lembro da primeira vez que a vi nessa feira. Nunca tinha achado um ruibarbo fora da Ásia, da Europa ou dos Estados Unidos. Até hoje, alguns verdureiros trazem ingredientes especialmente para mim. Outro ponto que sempre gostei é a sua localização estratégica, com fácil acesso a diversas regiões da cidade, como a Vila Mariana, o Ibirapuera e a Imigrantes. Tanto é que, mesmo não morando mais na Saúde, meu terceiro restaurante Aizomê será inaugurado no bairro em janeiro, como parte de um projeto inteligente voltado para a terceira idade. Meu bairro de coração é a Saúde e faço questão de estar por lá sempre que posso. Os hábitos não morrem.
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U r b a ni s mo | T E L M A S H I M I Z U
saúde 01 TA R T E L I E R PAT I S S E R I E
“Essa doceria é especializada em massa folhada e tem um mil-folhas incrível. Pedimos em todos os aniversários da família. O croissant também é bem gostoso! Em alguns finais de semana, eles colocam um food truck na rua para vender itens especiais.” @tartelier
02 HORTIFRUTI IMIGRANTES
“O lugar onde sempre fiz minhas compras, uma vez que tem absolutamente de tudo lá dentro! Destaco a Galeria do Queijo, comandada por um grande especialista nas variedades brasileiras e responsável por colocar nossos queijos na rota mundial.” @hortifrutiimigrantes
03 O BRAZEIRO
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“Gosto de ir pelo menos duas vezes por mês, geralmente aos domingos, para comer o galeto deles, maravilhoso – e olha que eu sou a louca do galeto assado (risos). É um local tradicional, com mais de 50 anos.”
“O empório perfeito para quem busca produtos libaneses. Gosto muito das frutas secas, a variedade é enorme. Tudo o que você imaginar eles têm. Além, claro, das pastinhas e das especiarias.”
@obrazeiro
@emporiokssara
04 KSSARA
Urbanism o | S A Ú D E
sete acertos
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FEIRA LIVRE CARNEIRO DA CUNHA
BAR DO LUIZ NOZOIE
“As comidas de boteco desse endereço são imbatíveis. O Luiz já morreu, mas sua família continua tocando com maestria. Funciona desde 1962 e tem salgados maravilhosos.”
“A maior feira de rua da cidade. Frequento há tantos anos que alguns comerciantes trazem ingredientes exclusivos para mim e para os meus restaurantes. Se estou em São Paulo nos domingos, é para lá que vou.”
@bardoluiznozoie
Rua Carneiro da Cunha
07 Fotos divulgação
OMOIDE SAKABA
“Um autêntico izakaya, ou boteco japonês, onde sempre gostei de ir com minhas filhas para cantar no karaokê e comer takoyaki. É bem raiz, parecido com o que temos no Japão.” @omoide.sakaba 41
Entrevi st a | P E D R O A N D R A D E
Pai da temporada Mergulhado na paternidade antes mesmo de Isabel chegar ao mundo, o jornalista e apresentador Pedro Andrade fala sobre a viagem mais transformadora de toda a sua vida Por Isabel de Barros Retratos Nicolas Calligaro
A paternidade sempre foi uma grande certeza na vida de Pedro Andrade. Tanto é que o jornalista, pai de Isabel, começa o nosso papo reafirmando o que diz na abertura de sua nova série, Um Tanto Familiar, que estreou em outubro na HBO Max: “A paternidade, para mim, era tão certa quanto a morte. Não sabia como, quando ou com quem, mas sempre soube que não faria sentido a minha vida sem um filho”. Essa vontade visceral, quase como um instinto paternal, que o acompanha desde que o seu mundo é mundo, nasce, segundo ele, de sua faceta mais determinante: a curiosidade. “Tornei-me jornalista porque o leque de possibilidades de falar sobre tudo me abastecia. E a paternidade vem desse mesmo lugar, de poder explorar esse outro ângulo, esse outro aspecto da vida”, diz. Como se não fizesse sentido passar pela vida e negar essa chance de viver mais esse personagem. Aos 46 anos, conhecido como apresentador do extinto (e aclamado) programa Manhattan Connection e mais tarde pela série Pedro pelo Mundo, que durante quatro temporadas o levou a conhecer mais de 90 destinos e mergulhar nas 42
mais diversas culturas, Pedro resolveu entrar de cabeça no universo das famílias. Ao decidir ser pai, junto do marido, o americano Benjamin Parker Thigpen, ele estudou. E muito. Foi entender tudo sobre as possíveis formas de construir sua família e se deparou com um material muito amplo, que trouxe a necessidade de se aprofundar. Esse novo lugar ocupado por Pedro, o de pai em (trans)formação, atravessou quase todo o seu tempo – e daí a ideia da série. “Todas as pautas vêm da minha casa. É quase uma terapia pessoal que costura episódio por episódio”, diz. Esse alinhavo feito pelo jornalista tem também o intuito de informar a população sobre a diversidade de modelos de família que a maioria desconhece. “Apaixonei-me pela série genuinamente porque entendo que todo mundo é filho de alguém, independentemente de ser pai ou mãe.” É essa verdade que vem criando uma real conexão com quem assiste aos episódios – são oito no total – de Um Tanto Familiar, que está disponível na HBO global. E que tem feito sucesso para além do Brasil. A escolha do casal por ter a filha por meio de uma barriga solidária, termo mais atual para barriga de aluguel,
Entrevist a | P E D R O A N D R A D E
Pedro Andrade e a filha, Isabel 43
não aconteceu sem antes cogitar, por exemplo, a adoção. “Dedico um episódio à adoção, que mostra o quão pouco conhecemos do assunto. Chocou-me saber que, dependendo do país, se você for gay não pode adotar. Eles preferem que a criança fique no orfanato a ser amada por um casal do mesmo sexo. Não é o caso do Brasil. Mas aqui existe uma fila de espera que geralmente demora entre cinco e seis anos. A ideia não é desestimular ninguém, é fornecer informação para que cada um possa fazer sua escolha de forma consciente”, explica. Pedro e Ben, como ele chama o marido, entenderam que essa cronologia não cabia no plano deles de se tornarem pais. A barriga solidária também foi, afinal, uma maneira mais próxima de eles conquistarem algum tipo de controle no processo. “Eu virei pai quando soube que os óvulos tinham sido fecundados. A minha vida mudou ali. Apesar de a rotina e a logística se manterem intactas, minha cabeça já estava no Pedro do futuro”, conta ele, que durante os nove meses de gravidez passou por uma montanha-russa de emoções. “Medos, ansiedade, expectativas. Eu quis fazer parte de cada ultrassom, cada exame... Teve de tudo até a Isabel nascer, que foi um evento apoteótico na minha vida. De um lado, senti um alívio vê-la ali, saudável, mas de outro existiu um luto daquele Pedro pré-pai.” Tudo foi, literalmente, acompanhado de perto pelo casal, que escolheu 44
uma barriga solidária que topasse se relacionar. No caso deles: Whitney Caskey, moradora do Havaí, com quem Pedro e Benjamin criaram vínculos e a quem são eternamente gratos. Ao longo da série, vamos conhecendo essas e outras histórias que se misturam ao dia a dia da rotina de Pedro e Ben. Os episódios são montados como uma analogia à vida do bebê: começa dentro da casa – a de Pedro –, e depois se expande, levando o espectador a entender os desafios e as belezas dos diversos formatos familiares mundo afora. “A série tem, de um lado, o reality da minha família, da minha intimidade, e, do outro, a exploração global do tema, que é a marca registrada do meu estilo de storytelling”, diz. Quando soube, por exemplo, que seria pai de menina, Pedro viajou para o Tibete. “Fui visitar o único matriarcado
que existe no mundo. Queria entender como seria o mundo onde as mulheres são mais poderosas do que os homens”, conta. O mesmo aconteceu ao perceber que tinha 45 anos quando Isabel nasceu, a mesma idade de seu avô quando ele chegou ao mundo. “Ao entender que talvez eu não presencie momentos importantes da vida da minha filha eu fui atrás da realidade de pais velhos, assim como de mães solo.” No começo, as pautas causaram certa estranheza, mas o resultado fez sentido. “Existe ali um teor emocional que faz o telespectador se conectar. Existe uma entrega, uma verdade, uma vulnerabilidade minha”, diz. E emenda em um spoiler: “Tem um episódio sobre barriga de aluguel em que contamos por que a Whitney fez essa escolha – ela é adotada e decidiu proporcionar essa oportunidade para outra família”.
Fotos divulgação
“A paternidade, para mim, era quase tão certa quanto a morte”
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Pedro, Ben, Isabel e Whitney em alguns dos momentos que envolveram o processo de barriga solidária e nascimento da filha
Uma porta para você entrar Nascido no Rio de Janeiro e morador de Nova York há mais de 20 anos, onde chegou pela primeira vez como modelo (descoberto nas ruas do Leblon pelo fotógrafo peruano Mario Testino e pelo empresário Sérgio Mattos), Pedro sempre foi encantado por viajar. Essa paixão traz à memória sua avó, que, segundo ele, foi determinante. “Ela me ensinou que o bom viajante viaja antes, durante e depois. Vem dela também o meu hábito de enviar cartão-postal – está ficando cada vez mais difícil atualmente, mas eu mantenho. E eu acho que tudo é culpa dos livros As Aventuras de Tintim, presente dela e responsável por despertar minha paixão por viajar e pela leitura.” Quando aterrissou em Manhattan, Pedro se encantou. “Tenho uma
“Fui visitar o Tibete, o único matriarcado que existe. Queria entender como seria o mundo onde as mulheres são mais poderosas do que os homens” gratidão gigantesca por NY. Cheguei aqui com inglês mequetrefe, sem conhecer ninguém, e consegui me tornar o primeiro e único apresentador brasileiro em rede americana [NBC].” Um carioca urbano, que ama a vibe cidade e se movimenta, para além do mundo, entre NY e SP, Pedro usa uma frase de Ben, seu marido, para definir onde e o que é casa para ele. “Ben fala que ‘family to me is home’, ou seja, família é lar. E eu que tenho e sempre tive apetite por outras realidades e universos distantes do meu, agora tenho um ímã que me faz voltar com ainda mais urgência: a Isabel”, diz ele, que vê na paternidade forças antagônicas: fonte de amor e alegria e de stress e caos. Ainda este ano, Pedro e Ben vão trazer a filha pela primeira vez ao Brasil.
O trio desembarcará no Rio para ver a família, e, em Alagoas, mais especificamente São Miguel dos Milagres. “Para mim, é fundamental que a Isabel valorize a origem. Ela não vai se lembrar dessa viagem, mas acredito que as experiências ficam com a gente”, diz ele, que, junto da filha, ouve música brasileira, come comida brasileira e fala português. Sobre o futuro, Pedro tem ideias incipientes para novos projetos. “Não quero que ser pai seja minha identidade inteira, mas hoje me sinto capaz de detectar lacunas na sociedade justamente porque sou pai.” Realmente, essa nova identidade veio para ficar e atravessar todas as áreas da vida de Pedro, agora muito mais completa. Sorte da Isabel. 45
L i vr os | T O N Y B E L L O T T O
U M G U I TA R R I S TA E S C R I T O R Nem só isso, nem só aquilo. Ao comentar seu fascínio pela leitura – e pela escrita –, o músico e escritor premiado Tony Bellotto mostra como as artes que marcam sua vida se conectam e se complementam
Imagens. No princípio foram imagens e não palavras ou sons. Decidi ser um guitarrista de rock ao ver uma foto do Jimi Hendrix. Mas essa foi uma decisão consciente e madura, tomada do alto de meus dez anos. A paixão pela literatura se manifestou antes, e de maneira mais subjetiva: uma gravura de Dom Quixote e Sancho Pança numa edição ilustrada da obra de Cervantes na estante de livros na casa dos meus avós. Nesse dia, quando ainda mal sabia ler, percebi que aqueles eram personagens inventados. O momento em que descobri que, por trás dos livros, havia alguém que não só imaginava histórias como se dava ao trabalho de escrevê-las! Sensacional. Desvendei o truque! Aquilo era algo que eu gostaria de fazer. Daí naturalmente vieram as Caçadas de Pedrinho, as Reinações de Narizinho, As Aventuras de Huckleberry Finn e de Tom Sawyer, A Ilha do Tesouro, a Pequena Sereia, Nas Terras do Rei Café, outdoors e placas de trânsito, Moby Dick, Meu Pé de Laranja Lima, as caixas de Sucrilhos, os gibis da Mônica e do Pato Donald, os catecismos do Carlos Zéfiro, bulas de remédio, Capitães de Areia, Dom Casmurro, Viagem a Ixtlan, Siddharta e os contos de Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, Domingos Pellegrini, Dalton Trevisan e Bukowski. A conexão entre a música e a literatura se dá de forma complementar na minha cabeça: a música é o som e a fúria, um trabalho que exerço coletivamente. A literatura é o silêncio e o abismo, um ofício solitário em que só eu tenho de tomar as decisões. Nas letras das canções se trabalha palavra por palavra, como na poesia. Na prosa literária são as frases que vão formando a engrenagem, como na engenharia. No meu entender, tanto música quanto literatura se constroem de ritmos e pausas, mas esses elementos se diferenciam muito na forma. Gosto de pensar nas artes como sugere o mito das musas da mitologia grega: irmãs que se especializam cada uma em uma ocupação diferente. Desde garoto li muito e ouvi muita música. Queria ser um escritor guitarrista de rock. A música chegou antes como profissão e o desejo de escrever foi sendo empurrado
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com a barriga, transformando a intenção em sonho. Um dia, aos 33 anos, disse a mim mesmo: se você quer realizar o sonho e se tornar um escritor, precisa escrever! Simples assim. Imaginei que uma história de detetive seria perfeita para uma estreia literária. Afinal eu teria um rumo a seguir: um cadáver na primeira página e um assassino na última. Entre as duas, um personagem decifrando o crime. Segui os cânones da literatura policial e depois fui me desfazendo deles: a cada livro que escrevo, desvendo um enigma e crio outro. E em vez de escritor guitarrista de rock, tornei-me um guitarrista de rock escritor. Sou meio caótico ao escolher os livros que quero ler. Uma capa, uma matéria no jornal, conselho de um amigo, presente de aniversário, cisma sem razão. Qualquer coisa pode me motivar. Aprecio má literatura também e descubro qualidades em obras ruins. Anos atrás, quando finalmente me convenci de que, sim, eu sou um escritor, decidi ler clássicos que nunca tinha lido. Passei uns dois anos mergulhado em todos os volumes do Em Busca do Tempo Perdido, li Anna Karenina, O Vermelho e o Negro, Irmãos Karamazov. Já Ulysses faz uns 50 anos que venho tentando e ainda não consegui. Sou caótico também para escolher os livros que quero escrever, embora tenha muita disciplina depois que começo. Os temas surgem espontaneamente, como inspiração. Pode ser uma frase, uma lembrança ou uma notícia no jornal. Se a centelha continua a brilhar na minha mente, espero que se forme uma labareda para só então passá-la para o computador ou, como se dizia antigamente, para o papel. A internet e os smartphones atrapalham meus hábitos de leitura. Leio bastante, mas me sobra menos tempo atualmente. Até poucos anos, por exemplo, eu comprava obras de bolso para poder ler em cafés da manhã de hotel ou em balcões de sushi-bar. Hoje isso é raro e me faço acompanhar de um iPhone de triste figura em minhas refeições solitárias.
Retrato Caroline Bittencourt
Tony Bellotto, músico, guitarrista e escritor. Recentemente, ganhou o prêmio Jabuti na categoria Romance Literário pela obra Vento em Setembro
Fotos divulgação
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L i vro s | T O N Y B E L L O T T O
CRÔNICAS DE MOTEL
PEDRO PÁRAMO
LÚCIA MCCARTNEY
Sam Shepard | L&PM
Juan Rulfo | Editorial RM
Rubem Fonseca | Companhia das Letras
Traz a prosa única de Sam Shepard, uma escrita charmosa e melancólica, que evoca as paisagens dos desertos americanos e revela os paradoxos do sonho americano sob ótica de personagens desajustados.
Esse pequeno livro é uma obra-prima que contém o Big Bang da literatura fantástica latino-americana. Sem Juan Rulfo não existiriam García Márquez, Vargas Llosa e tantos outros. O personagem narrador tem um tom seco e lúgubre que poucos escritores conseguem imprimir com tanta nitidez.
Rubem Fonseca é meu grande mestre, junto com Hemingway. Quando li os contos de Lúcia McCartney na pré-adolescência, percebi que a literatura brasileira podia ser bem mais excitante que os livros de José de Alencar sugeridos pela escola.
DETETIVES SELVAGENS
PERGUNTE AO PÓ
CONTOS VOLUME 2
Roberto Bolaño | Companhia das Letras
John Fante | Editora Brasiliense
Ernest Hemingway | Bertrand Brasil
A grande obra de Roberto Bolaño. Eu descobri o escritor mais tarde. Não é um livro que me “formou”, mas uma obra que me fascina e inspira pela força e pela originalidade da escrita. É também uma grande e enigmática homenagem à literatura visceral.
Tenho uma ligação sentimental com esse romance. O personagem Arturo Bandini é de uma força incrível, um Holden Caulfield turbinado. E foi decisivo para a criação do meu Bellini. Na melhor tradição ítalo-americana, o autor mistura humor ácido e sentimentalismo com perfeição. A primeira edição brasileira foi traduzida por Paulo Leminski, um bônus de liberdade poética e bom humor.
Hemingway é um capítulo à parte. Aprendi a escrever com ele. Seus contos são monumentos, seus diálogos são perfeitos. A prosa seca, a teoria do iceberg, o elogio da coragem. Um monstro. Como ele, só o Cortázar.
MACBETH
LOLITA
MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS
William Shakespeare | Pé da Letra
Vladimir Nabokov | Alfaguara
Às vezes eu leio textos de teatro, criados para serem encenados, e, no entanto, grandes peças de literatura estão no teatro. Tchekhov e Shakespeare são exemplos. Macbeth é uma peça mágica, transcendente e brutal. Lady Macbeth é uma personagem fascinante e Shakespeare gasta pouquíssima tinta com ela.
Obra magna do genial e provocativo Nabokov. Um livro que me ensina muito e a qual sempre recorro. A canalhice fenomenal de Humbert Humbert faz muita gente ter uma percepção errada da obra, conferindo a Lolita uma personificação do mal, quando o único vilão da história é o próprio narrador.
A ERVA DO DIABO
GUERRA E PAZ
POEMA SUJO
Carlos Castañeda | Record
Liev Tolstói
Ferreira Gullar | Companhia das Letras
Pouca gente descobrirá valor literário nos livros de Carlos Castañeda, mas é uma obra que me encanta. Existe magia e muita imaginação em suas narrativas, e as paisagens são deslumbrantes.
Tolstói é o maior romancista de todos os tempos, e não é só pelo domínio técnico extraordinário e pela imaginação flamejante. Existe algum fenômeno físico, tipo uma força da gravidade, que age poderosamente nos subterrâneos de seus textos.
Não poderia faltar a poesia nessa lista. E Ferreira Gullar é um dos grandes. Esse texto marcou minha geração e redefiniu, para mim, o significado de um poema.
VIDAS SECAS Graciliano Ramos | Record
Machado de Assis | Martin Claret
Machado é nosso Shakespeare, uma leitura obrigatória a qualquer brasileiro. Genial, profundo, surpreendente, irônico e sempre atual. O grande clássico brasileiro, na minha opinião.
Sei que eram só 12 livros, mas, numa releitura do texto, lembrei-me dessa obra prima. Sacanagem colocar Erva do Diabo e deixar Vidas Secas de fora. A prosa seca que eu enalteci no Hemingway já era praticada com maestria por Graciliano Ramos. Vidas Secas me marcou e me ensina até hoje. 49
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O INTÉRPRETE Cheio de personalidade, o ator Johnny Massaro encarna com atitude um estilo marcado por tecidos sofisticados e shapes contemporâneos
Fotos Pedro Arieta Edição de moda Cuca Elias Grooming Gui Casagrande Agradecimentos Galeria Verniz (@vernizsp)
FULL LOOK LOUIS VUITTON R E L Ó G I O TA G H E U E R S A PAT O S C N S BANCO GALERIA VERNIZ
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FULL LOOK BOSS S A PAT O S C H R I S T I A N L O U B O U T I N OBRAS COLABORAÇÃO GALERIA VERNIZ & YOHANNAH DE OLIVEIRA
FULL LOOK EMPORIO ARMANI
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CALÇA E POLO TRICOT ALEXANDRE WON B O L S A M O N T B L A N C • B O TA S M I S C I BANCO GALERIA VERNIZ ABAJUR COLABORAÇÃO GALERIA VERNIZ & TIAGO TORMIN
FULL LOOK ZEGNA • OBRA COLABORAÇÃO GALERIA VERNIZ & YOHANNAH DE OLIVEIRA
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Produção Executiva Ana Elisa Meyer; assistente de fotografia Eric Albano; assistente de moda Tininha Pietrocola e camareira Tot y
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Produção Executiva Ana Elisa Meyer; assistente de fotografia Victoria Cavalcante; assistente de st yling Tininha Pietrocola; e camareira Tot y
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MOVIMENTO Na televisão, no cinema e até atrás das câmeras, Johnny Massaro coleciona trabalhos tão sensíveis quanto inspiradores e promete dar o que falar em 2026 Por Artur Tavares Fotos Pedro Arieta
Johnny Massaro está feliz consigo mesmo, dá para notar. Sorridente, desenvolto e carismático, passeia pelo set deste ensaio com a leveza típica dos bons atores, daqueles que têm domínio de como cativar todos ao redor. Com quase 34 anos, e 20 de trajetória profissional, o carioca vive o que pode ser considerado um sonho: sua carreira está consolidada e ele ainda é jovem demais. Em casos assim, o céu parece estar longe de ser o limite. Colecionador de bons papéis, Johnny encerrou 2025 triunfante, tendo protagonizado o seriado nacional Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, uma história real sobre comissários de bordo que, na virada da década de 1980 para a de 1990, contrabandeavam medicamentos contra o HIV para o Brasil; o filme O Filho de Mil Homens, primeira adaptação de um romance do português Valter Hugo Mãe para
o cinema; além de ter retornado aos teatros após quatro anos longe dos palcos com uma temporada de Visitando o Sr. Green. E não é dizer que 2024 foi diferente: desde 2020 esteve em nove longas-metragens, entre eles Os Primeiros Soldados e O Pastor e o Guerrilheiro, cinco novelas ou seriados de televisão, como Terra e Paixão, além de ter dirigido o longa premiado A Cozinha e os curtas Depois Quando e Amarillas. “As pessoas me perguntam sobre os convites que recebo e os trabalhos que escrevo, e não consigo deixar de remeter ao Johnny de 12 anos, que queria muito fazer Chiquititas, queria muito ser ator. E todo esse percurso até chegar a um momento onde eventualmente posso escolher, posso dizer ‘não’ para um ou outro trabalho”, ele afirma. “Quantos colegas ‘talentosérrimos’ não têm esse privilégio?” Fã de Valter Hugo Mãe desde que leu A Desumanização, Johnny
ficou sabendo que Daniel Rezende (Bingo, Turma da Mônica: Laços) estava trabalhando em O Filho de Mil Homens para a Netflix por uma postagem nas redes sociais: “Falei que serviria até cafezinho no set – e servi mesmo. Queria muito participar da primeira adaptação literária do Valter Hugo Mãe para o cinema”. Depois de fazer alguns movimentos para contatar o diretor, descobriu que já estava sendo considerado para o papel de Antonino: “Foi uma grande coincidência e um imenso presente do universo, que considero um milagre, porque realmente queria estar ali”. O filme, que também conta com Rodrigo Santoro, Livia Silva, Juliana Caldas, Rebeca Jamir e Grace Passô no elenco, tem sido considerado sucesso de público e crítica, embora a plataforma Netflix não divulgue os números oficiais de sua audiência. Para além de Johnny, toda a equipe estava realizando um sonho durante
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“Na cena em que dou gritos na praia, dava para ver o diretor atrás das câmeras chorando, às vezes abraçado da primeira assistente, também em prantos”
as gravações: “O Daniel tem um grande afeto por essa história. Queria tanto contá-la que dá para enxergar, como leitor, o amor que ele colocou no filme. Na cena em que dou gritos na praia – a primeira que filmei – e em muitas outras, dava para vê-lo atrás das câmeras chorando, às vezes abraçado da continuísta, às vezes da primeira assistente, também em prantos”. SCRIPT Johnny não faz parte da elite carioca tradicional que forma atores e atrizes por influência tanto quanto por talento. É filho de pai taxista e mãe secretária de escola, parentes que nunca deixaram de apoiá-lo em seu sonho de ser ator. Começou aos 12 anos na novela Floribella, da Bandeirantes, fez Malhação na concorrência e continuou no Projac pelos 15 anos seguintes. “Gosto de não me esquecer de que quis muito estar neste lugar. Sinto que, quando chegamos aonde queríamos, nos esquecemos do quanto queríamos, banalizamos isso. Então, faço muita questão de lembrar a mim mesmo de que é especial poder viver trabalhos que acho muito incríveis”, diz. Aos 20 anos, ele conta: “Não cogitava a possibilidade de me assumir gay por medo de perder trabalho”. Foi somente na época do lançamento de Os Primeiros Soldados que se assumiu, após 16 anos fazendo somente papéis de homens heterossexuais. “Depois 66
que me assumi, vivi protagonista de novela das oito, irmão do Cauã Reymond, disputando mocinha com ele. E sei que isso não seria possível há cinco, dez anos”, ele diz. Entre uma foto e outra, admirando os looks belíssimos escolhidos pela equipe desta Carbono Uomo, diz sentir-se em um mundo de sonhos quando participa de ensaios fotográficos, e que, hoje em dia, adora fazê-los. “Gosto porque foi uma descoberta da minha beleza. Eu tinha uma atitude muito esquisita quando era mais novo. E aí, como fazia muitos papéis de nerd, naturalmente não explorava esse outro lado. De repente, assisti a Os Sonhadores, achei o Louis Garrel bonito e percebi que aquilo poderia parecer comigo. Então passei a querer brincar disso, de me movimentar, vestir umas coisas, fotografar, sabe? É um outro lugar de apreciação e de consumo.” DE OLHO NO PÚBLICO O ator retornou este ano ao tema do HIV – abordado em Os Primeiros Soldados –, na minissérie, em cinco capítulos, Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, uma produção nacional de altíssimo nível sobre a história real de comissários de voo da companhia aérea Varig que traziam AZT, o primeiro medicamento inibidor do vírus, para o Brasil, em uma época em que o
Ministério da Saúde ainda proibia sua circulação no País. Com produção da Morena Filmes para a HBO Max, a série também conta com Ícaro Silva e Bruna Linzmeyer no elenco. Foi exibida na Berlinale e venceu o prêmio de melhor série no Festival de Valência, além de ter recebido um prêmio da audiência jovem [embora a classificação etária da série seja para maiores de 18 anos]. “Máscaras foi um trabalho daqueles que você não sabe como vai chegar ao público. É literalmente esperar e rezar para que seja bem recebido, para que as pessoas gostem, fiquem tocadas, e que eventualmente faça sucesso.” E por falar em repercussão, Johnny faz uma revelação: “Não uso Twitter, mas tenho uma conta falsa que vira e mexe uso para procurar e ver o que as pessoas estão falando, porque, enfim, somos humanos. Tudo bem as pessoas não gostarem, mas não houve ninguém falando mal da série, a não ser do nome”. Dias antes da nossa entrevista, Johnny havia gravado uma campanha do Ministério da Saúde em prol da conscientização do Dia Mundial de Combate à Aids, e Bruna deu entrevista na TV Brasil também. “A série realmente acabou me levando para lugares que não imaginei quando estava gravando.” Em 2026, Johnny Massaro protagonizará três obras ambiciosas do audiovisual brasileiro. Além de um longa-metragem ainda não anunciado e do qual ele não podia falar,
E ntr e vi sta | N I C O L A S P R A T T E S J A Q U E TA E C A L Ç A À L A G A R Ç O N N E R E G ATA O R I B A • S A PAT O S P R A D A P O LT R O N A G A L E R I A V E R N I Z
o ator estará também em Delegado, uma realização da Cinemascópio, produtora de Kléber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux para o Canal Brasil, e em Emergência Radioativa, uma dramatização do incidente nuclear com Césio-137 em Goiânia nos anos 1980. “Estou bem animado. Tive que interromper a temporada de Visitando Sr. Green para começar as gravações. Tem direção de Fernando Coimbra, um cara que eu já admirava pra caramba e diretor de um dos meus filmes nacionais prediletos, O Lobo Atrás da Porta.” Fato curioso é que Johnny não conhecia a história do incidente e, quando chegou aos testes de elenco, após ler o roteiro, foi surpreendido com a confirmação da veracidade. “Queria muito fazer, era tudo o que eu precisava, um protagonista na Netflix. Fui com muita sede para o teste. Quando descobri que era uma história real, fiquei ainda mais motivado.” Há poucos meses, Johnny levou o táxi amarelo de seu pai do Rio de Janeiro para São Paulo para gravar cenas de seu novo curta-metragem, Consolo, baseado no conto do autor gaúcho Tobias Carvalho. “É a história de um pai de família que chega a sua casa durante o Carnaval e acha um consolo (consolo dildo, como é chamado o objeto em formato fálico) imenso e melado ainda na sala. Ele começa a pirar para tentar entender de quem é, se é da esposa, dos filhos – que seria o maior problema –, mas, no fim, pode
ser uma viagem do próprio pai de família, de seus desejos reprimidos.” O ator não descarta fazer novos longas no futuro e diz que tem um livro que quer adaptar para as telas. Mais uma vez, não revela qual. “Curioso você, né?”, ele brinca, mas dá a entender que prefere não dizer por prudência, para garantir que nenhuma coincidência inoportuna se desenrole a partir daqui. Mais concretamente, diz que, além de atuar, é bem interessado em escrever, produzir e dirigir: “Acho que, em algum momento, vou dar uma reequilibrada.
Não farei uma transição total porque curto ser ator, mas quero investir mais em direção, eventualmente.” Se protagonizaria um filme dirigido por si mesmo? “Não entrei muito nessa pira de me dirigir. Tive uma experiência muito forte nesse sentido quando fiz O Filme de Minha Vida, em que o Selton Mello se dirigia. Ele é um grande gênio, incomparável, mas vi que é possível. Só não sei se seria um pouco confuso para mim. Se aparecer uma história que eu sinta que queira dirigir e atuar também, acho que tudo bem.” 67
Ca rbo no Minds
Rafael Yunes Guarita
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R A FA E L Y U N E S G U A R I TA
“O esporte muda destinos. Dar oportunidade a talento pode transformar uma comunidade inteira” Empreendedor em série e atleta por vocação, Rafael Yunes Guarita transformou a vontade de ajudar talentos esportivos em uma ONG que apoia dezenas de jovens promissores Por Nathalia Hein
Desde muito cedo, Rafael Yunes Guarita desejava trabalhar com ideias que pudessem causar um impacto significativo. Hoje, aos 26 anos, o jovem formado na Fundação Getúlio Vargas já tem uma trajetória marcada por inquietude, ambição e a convicção profunda de que oportunidades podem mudar vidas – especialmente por meio do esporte. Ainda na faculdade criou a empresa de coworkings YouWork, posteriormente batizada de Yunity, que personaliza, equipa e aluga espaços corporativos sob demanda – atualmente são mais de 12 mil metros quadrados em operações. Nos últimos anos, Rafael também tem trabalhado no desenvolvimento da Conecta, empresa de mapeamento socioemocional de crianças entre seis e nove anos, que úne neurociência, psicologia e pedagogia. Mas foi por meio de um gesto cotidiano, o de mandar uma mensagem pelas redes sociais, que viu sua vocação e o entusiasmo pelo esporte – Rafael chegou a ser federado no tênis – ganhar um novo rumo. Na ocasião, ele assistiu a uma reportagem na TV em que Tamara Alexandrino, uma heptatleta campeã sul-americana, contava estar trabalhando em uma padaria por falta de recursos para treinar. “Escrevi dizendo que queria ajudá-la até as Olímpiadas de Paris. Quando entendi o impacto desse incentivo, notei também que aquilo não podia parar ali. A Invictus (@invictus.ad) nasceu dessa vontade de multiplicar oportunidades”, conta Rafael, sobre sua ONG, que hoje soma 32 atletas de diversas regiões do Brasil. S E M F R O N T E I R A S “Trabalhamos com modalidades diversas. Basta atender dois critérios: estar em vulnerabilidade social, com renda familiar per capita inferior a um salário mínimo, e topar ser treinado pelo nosso coordenador de polo esportivo. É ele quem acompanha competições, faz avaliações técnicas e mentais. Como não possuímos um espaço físico, orientamos pessoas no Piauí, no Rio de Janeiro, no interior de São Paulo e na capital. Nossa metodologia permite que o esporte chegue onde ele raramente chega.” T R A N S F O R M A Ç Õ E S R E A I S “A evolução da Tamara é marcante: ela foi campeã do Troféu Brasil nos dois últimos anos, uma das principais competições do País. Outro exemplo é o polo que apoiamos em Paraisópolis, voltado para atletas de Muay Thai. Um jovem de 19 anos viralizou
com uma luta em que nocauteou o adversário. Na mesma noite, um amigo dele de infância que escolheu outro caminho, o do crime, foi assassinado. Essa história sintetiza o poder do esporte: ele salva vidas.” I D A E V O L TA “Pedimos a cada atleta apoiado que apadrinhe dois jovens da sua comunidade. É um efeito dominó positivo: um talento descoberto inspira outros. E assim criamos uma rede de transformação que não depende só de nós, mas dos próprios beneficiados.” A C R E D I TA R É P O D E R “Trabalhamos com dois pilares de impacto. O primeiro trata as questões físicas e técnicas do atleta, como equipamento, suplementação, treinos, passagens. Já o mental atua na habilidade, que é a mentalidade de crescimento. Ele é um reflexo da realidade dos brasileiros: mesmo sem uma luz no fim do túnel, nossos atletas batalham, se dedicam muito e conseguem triunfar. Daí o nome Invictus, vindo de um poema de William Ernest Henley: ‘Sou o senhor do meu destino e o condutor da minha alma’. É nisso que acreditamos: não desistir, apesar dos desafios.” F E R R A M E N TA S O C I A L “O esporte é uma das maiores potências de transformação. No Brasil, há talento de sobra – falta oportunidade. Quando um atleta muda sua vida, ele vira espelho para sua comunidade. E isso transforma bairros, famílias, perspectivas. Existem leis de incentivo e projetos governamentais bem estruturados, mas falta continuidade. O esporte exige anos de trabalho e consistência, e muitos projetos acabam interrompidos. Também falta uma base esportiva verdadeira nas escolas, algo fundamental para a formação do atleta brasileiro.” F U T U R O “No ano que vem, vamos implementar nossa lei de incentivo. Há também uma possível parceria com uma grande empresa farmacêutica, que ampliaria nossa atuação. Criamos um conselho consultivo empresarial, social e governamental e estamos estudando metodologias do Comitê Olímpico e Paralímpico para desenvolver atletas de alto rendimento. Queremos ser o elo entre empresas e esportistas, mostrando como investir da forma correta e mensurável para que o talento floresça.” 49 6 3
MEU ESTILO Fotos João Bertholini
2 Melhor Amiga
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Lolla é uma companheira inseparável. Está sempre do meu lado, trazendo leveza e alegria ao meu cotidiano.
Companheiras Coloridas Flores nunca faltam na minha casa. Os arranjos são sempre feitos pelo Praid Picarelli Floral Design, que entende meu gosto.
3 Na Estrada Essa mala Rimowa me acompanha em todas as viagens, especialmente quando visito minhas obras fora de São Paulo. 4 Bela Luz
BETO GALVEZ DESIGNER DE INTERIORES @BETOGALVEZINTERIORES
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Minha peça favorita de iluminação é a luminária Pipistrello, criada por Gae Aulenti em 1965. Ela ilumina meu espaço com design e beleza.
5 Dia a dia
Arte e Afeto
Adoro óculos, de sol ou de leitura. Tenho paixão por modelos clássicos como Persol, Moscot e Ray-Ban, que me acompanham todos os dias.
Ganhei de um grupo de amigas essa escultura feita de aço, de Yutaka Toyota. É uma peça especial e cheia de significado. 6 Ritual Sempre acendo velas durante meus drinks e jantares com amigos. Gosto do clima criado pelas peças da Diptyque, da L’Objet e da Fornasetti. 7 Presente Especial Ganhei de um amigo esse livro sobre Gio Ponti. A história do arquiteto milanês, nascido em 1891, inspira meu olhar para design e arquitetura.
Joias com História Meus acessórios favoritos são do meu amigo Jack Vartanian. Ele fez minha aliança de casamento, além dessa corrente com pedra e essa pulseira masculina que uso sempre.
8 Meu Mundo Verde Sou fascinado pela malaquita. A cor intensa me inspirou a colecionar cerâmicas, caixas, esculturas e vasos em tons de verde. 71
Fotos Adriana Glaviano, Rafael Felix e Ruy Teixeira
Cr ea ti ve s | D U A L D E C O R N E L S E N
A dupla de designers e algumas de suas mais emblemáticas criações, entre gaveteiros flutuantes, mesas e bancos. Na página ao lado, a mesa de centro com o pé feito com uma pedra pintada à mão, um dos destaques da segunda coleção. 72
Cr ea ti ves | D U A L D E C O R N E L S E N
A N AT U R E Z A C O M O M AT É R I A Com peças artesanais e afetivas, o estúdio Dualde Cornelsen conecta Brasil, Espanha e Estados Unidos de forma autêntica Por Denise Meira do Amaral Takeuchi
Dualde Cornelsen Amigos há duas décadas, os designers Lucas Dualde (@lucasjdualde) e Pali Cornelsen (@palixc) se conheceram quando ainda circulavam no universo da moda. Lucas, espanhol radicado no Brasil e sobrinho-neto do arquiteto catalão Josep Lluís Sert – que projetou a Fundação Joan Miró – , tinha uma marca de roupas feitas a partir de tecidos naturais e com forte pesquisa de tinturas e pigmentos. Pali, carioca que vive nos Estados Unidos desde a adolescência e filho de Jejo Cornelsen, multiartista conhecido por suas experimentações com argilas e pigmentos naturais, criava vitrines e instalações para marcas como Comme des Garçons, Dries Van Noten e Calvin Klein. A transição para o mobiliário começou quando Pali recebeu sua primeira encomenda: um sofá de nove metros, pedido de uma cliente que viria a se tornar sua mulher. Lucas já trabalhava como arquiteto de interiores no escritório de Isay Weinfeld quando ele e Pali, atraídos por um senso estético comum, criaram a Dualde Cornelsen – um estúdio que hoje se divide entre Brasil, Estados Unidos e Espanha. “Era uma sensação de que havia algo em nosso interior que queria se manifestar. A gente se enriquecia com o mundo do outro, e nossa própria existência fazia mais sentido juntos”, conta Pali. “A Dualde Cornelsen chegou no momento em que queríamos colaborar, porque a gente se entendia muito bem, e começamos a desenvolver uma coleção de mobiliários no nosso tempo livre”, explica Lucas. O interesse do espanhol pela brasilidade e pela sensibilidade de Jejo – especialmente na pesquisa de elementos naturais e de cores – fez Pali revisitar a trajetória do pai com um olhar renovado, fortalecendo a parceria. A primeira coleção conjunta inclui escrivaninhas, mesas de cabeceira, sofá-cama e mesa de centro, feitos de madeiras tropicais, aço, juta e técnicas tradicionais de vime e
confeccionados por artesãos. A segunda foi criada com madeira de cerejeira, granito, rochas e tintas aplicadas em peças sinuosas. A terceira, produzida na Espanha, priorizou tecidos densos, coloridos e linho antigo, tingido e bordado à mão. Filho de uma vida nômade, marcada por mudanças sucessivas, Pali aprendeu cedo a buscar estabilidade no espaço que o acolhe. Como referência de harmonia, a natureza. “Ela é perfeita. Você pode estar num deserto com cactos, ou num bosque e tudo parece certo. Ninguém olha para um lugar assim e pensa que falta uma árvore. Existe uma harmonia. Busco recriá-la quando penso no interior de uma casa”, reflete o designer.
Para Lucas, o primeiro passo é pensar na proporção do espaço onde a peça vai estar e deixar o todo harmonioso, em comunhão com a elegância e o aconchego. “Sinto-me mais confortável desenhando quando o produto já tem uma função clara, quando sei do que a pessoa vai precisar e, a partir disso, começamos a inventar”, conta ele. Quando trabalham juntos, o tempo adquire outro ritmo. As decisões são tomadas devagar, em diálogo permanente. “É a única pessoa cujas decisões eu escuto sem questionar”, diz Lucas, sobre Pali. E é essa confiança que molda as coleções. Agora, a parceria ganha sua primeira apresentação oficial. Depois de participarem da SP-Arte em um estande ao lado de outros nomes, na próxima edição do evento terão um espaço inteiramente dedicado ao seu trabalho. Algo inédito. Uma série nova de luminárias feitas de cerâmica e madeira e “com muita cor”, prometem. 43 7
Entrevi st a | L U C A S M O R A E S
Fenômeno do Rally Vivendo um momento único na carreira, o piloto brasileiro Lucas Moraes se torna o primeiro campeão mundial de automobilismo depois de Ayrton Senna e já mira outro título inédito: o Dakar 2026 Por Mario Mele
O brasileiro Lucas Moraes (@lucasmoraes23), Campeão Mundial de Rally em 2025, ainda pode andar como anônimo em seu país. Ou melhor, quase isso. Em novembro, poucos dias depois de conquistar um dos campeonatos mais disputados do automobilismo mundial, o Rally Raid (W2RC), o piloto de 36 anos acabou sendo reconhecido na rua por dois fãs, enquanto tirava férias com a família na Bahia. Eram dois europeus. Infelizmente, entre os brasileiros, o rally ainda é um esporte praticamente desconhecido. Durante os 60 minutos em que conversamos para esta entrevista, em uma mesa na calçada de uma movimentada padaria no Itaim Bibi, em São 74
Paulo (SP), não fomos interrompidos por ninguém para tirar foto ou pedir autógrafo – apesar de Lucas usar um boné da famosa marca que o patrocina, algo que poderia facilitar sua identificação. “Reconhecimento não é exatamente o que eu busco”, diz, sem hesitar. “Claro que seria legal eu me tornar uma referência, saberem que existe um piloto brasileiro de rally relevante no circuito mundial. Mas, para mim, o mais importante é que o esporte apareça mais do que o Lucas.” Pelo menos nos programas de esporte, tanto na TV quanto na internet, a presença dele foi bem requisitada. E não por acaso: a própria FIA, órgão máximo do automobilismo
Entrev ist a | L U C A S M O R A E S
mundial, lembrou que Lucas foi o primeiro brasileiro, em 34 anos, a conquistar um título mundial em um evento promovido por eles. Desde 1991, quando Ayrton Senna se sagrou tricampeão mundial de Fórmula 1, o Brasil não celebrava um triunfo dessa magnitude. O Rally Raid é reconhecido como a “Fórmula 1 do rally”. É onde as montadoras mais renomadas colocam seus protótipos à prova e grandes marcas buscam associar seus nomes ao automobilismo de alta performance. Para conquistar o título inédito para o Brasil, Lucas precisou superar, ao longo das cinco etapas do Mundial de Rally Raid, adversários como o catari Nasser Al-Attiyah (pentacampeão do Dakar e tricampeão do W2RC) e o francês Sébastien Loeb (nove vezes campeão mundial no WRC). A consagração definitiva veio só nos últimos segundos do Rally do Marrocos, a última etapa da temporada. Curiosamente, Nasser e Loeb – duas lendas do esporte que ainda competem em altíssimo nível – serão seus parceiros de equipe na Dacia em 2026.
De “casa nova”, Lucas já iniciou a contagem regressiva para buscar o título inédito no Dakar. Faltando pouco mais de um mês para a competição mais cobiçada de seu esporte, ele compartilhou um pouco da sua história, de suas expectativas e da preparação para defender o troféu que o colocou entre os grandes do rally mundial.
Carbono Uomo O esporte a motor começou na sua vida a partir do motocross. Como foi esse início?
Silício, estudei tecnologia, tive uma empresa… Aí voltei a competir de forma mais profissional só em 2018, dessa vez nos carros.
Lucas Moraes Dos meus 15 aos meus 21 anos, foquei no motocross, que era onde eu estava evoluindo e onde eu realmente queria estar. Eu sabia que seria uma carreira curta – normalmente os pilotos profissionais de moto se aposentam antes dos 30 anos. Mas cheguei a ser top cinco do motocross no Brasil. Ia para os Estados Unidos também competir. Lá tem o Supercross, aquelas corridas dentro de estádios de beisebol e de futebol americano. Carbono Uomo E quando foi a transição para o rally e para os carros? Lucas Moraes Como meu pai organizou o Rally dos Sertões ao longo da minha carreira inteira como piloto de moto, eu via o rally como o passo seguinte. O Sertões cresceu muito nesses anos em que eu estava nas motos, mas aí eu tive uma lesão no quadril, o que levou a uma mudança drástica na minha vida. Na época, eu não sabia o que faria, pois tinha planejado ser piloto profissional de moto e estava indo muito bem. Tinha 19 anos e contava ainda com uns dez anos pela frente competindo em alto rendimento. Fiz três cirurgias, até finalmente colocar uma prótese – e foi aí que me vi bem perdido. Cheguei a abandonar o esporte profissional por um período. Fui morar no Vale do
Carbono Uomo Você já pilotava carros de rally naquela época? Lucas Moraes Sim, como um hobby. Uma vez por mês íamos para o interior de São Paulo, próximo a Botucatu, andar em um circuito de 10 km que fizemos, e até hoje usamos para treinar. Comecei a evoluir e percebi que poderia fazer algo interessante no rally. Participei de provas no Brasil e os resultados começaram a melhorar. Quando me dei conta, já estava focado em uma nova carreira profissional. Carbono Uomo Ter sido piloto de motocross te ajudou nessa transição para a modalidade off-road dos carros? Lucas Moraes Não tenho dúvidas de que a moto me ajuda. No rally off-road, como não estamos num autódromo, num ambiente controlado, temos que
“Cheguei a abandonar o esporte profissional por um período” 75
Entrevi st a | L U C A S M O R A E S
“A parte mental é a mais difícil” “ler o terreno” o tempo inteiro. A gente interpreta onde pode acelerar mais e onde tem que frear. Por exemplo, há curvas em que posso frear 100 metros antes, quando o navegador “canta”. Mas há pisos em que é preciso reduzir a 150, 200 metros da curva, senão você passa reto. Essa leitura acontece o tempo inteiro. E o motocross me deu, desde muito cedo, essa base de leitura de terreno. Ainda mais para o Dakar. Carbono Uomo Muda muito pilotar no Dakar? Lucas Moraes No Dakar pegamos trechos de dunas. E passar rápido por elas requer habilidade. Você não pode saltar e passar reto, porque pode varar e ter um acidente feio, capotar. Mas também não dá para entrar devagar demais, porque aí vai atolar. Portanto, é muito similar a um salto de moto. Tem que aterrissar no lugar certo. Nem antes, nem depois. Carbono Uomo Quando você percebeu que poderia realmente despontar no rally internacional? Lucas Moraes Em 2022, fiz algumas etapas do Mundial como piloto privado e tive um ótimo resultado na Espanha. O pessoal da Red Bull me viu e, no fim daquele ano, recebi uma ligação: “Olha, a Red Bull quer fazer um dia com você como atleta e você precisa ir para o Dakar de 2023”. Portanto, 2022 foi um ano superimportante para essa virada. Foi quando eu finalmente entendi que dava para competir na Europa com uma marca como a Red Bull. Carbono Uomo O que faz do rally off-road um esporte tão desafiador? Lucas Moraes Nessa modalidade – que inclui provas como o Dakar, os Sertões ou o Campeonato Mundial – nunca se sabe muito bem para onde se está indo. Você recebe a informação cinco minutos antes da largada e tem que ser o mais rápido possível em um lugar onde nunca passou. Hoje, com a evolução dos carros, o Dakar, que sempre foi considerado uma prova de endurance, virou quase um 76
sprint diário. A gente finaliza cada etapa, entrega o carro à equipe e eles trabalham para que no dia seguinte você largue de novo. É um ritmo acelerado, mas os carros não precisam mais ser poupados. Eles evoluíram em matéria de velocidade e performance. No Dakar andamos uma média de 400 km por dia durante duas semanas. É punk! Carbono Uomo Imagino que isso exija muito mentalmente também… Lucas Moraes Na minha opinião, a parte mental é a mais difícil. Tem a exaustão física – você toma muita pancada dentro do carro – mas a exaustão mental, de estar focado todos os dias, com o navegador lhe ajudando a interpretar o que vem pela frente e você tendo que transformar isso em pilotagem, é muito violenta. Carbono Uomo E como você lida com isso? Lucas Moraes Faço trabalhos frequentes com um psicólogo do esporte que a Red Bull oferece. Isso me ajuda muito a ter cabeça para encarar uma prova como o Dakar. É muita pressão, muitos dias e horas dentro do carro. A cabeça precisa estar muito ajustada para aguentar. A bike também me ajuda muito. Além de contribuir fisicamente, pedalar é um esporte que me leva para uma montanha, por exemplo, onde não tem barulho. Outra coisa que alivia o stress é viajar com a família [Lucas é casado, pai de uma menina de 5 anos e de um menino de 2]. Sempre que dá, a gente escapa para a praia, montanha… Mais no Brasil mesmo. Carbono Uomo Qual é o seu estilo de pilotagem? Lucas Moraes Eu gosto de pensar, modéstia à parte, que sou um piloto muito rápido e que consigo ter uma constância relativamente boa também. Características que são essenciais num campeonato longo como o Mundial. Os resultados comprovam isso. Carbono Uomo Você teve tempo de virar fã do Senna?
Fotos divulgação
Lucas Moraes O Senna sempre teve um peso enorme para mim, apesar de eu me inspirar muito mais no motocross. Mas não cheguei a vê-lo de verdade, tinha só quatro anos quando ele morreu. Carbono Uomo Você acredita estar abrindo um novo caminho para o automobilismo no Brasil voltar a crescer? Lucas Moraes Eu acho que o Brasil ainda tem um longo caminho. Quando fiz meu primeiro pódio no Dakar, em 2023 [Lucas conquistou um inédito terceiro lugar para o Brasil na categoria Carros], pensei: “Tomara que isso ajude o esporte a crescer”. E eu sinto que sim. Depois do título Mundial, recebi muitas mensagens, saímos em programas de TV, YouTube… Lugares onde o rally nunca tinha aparecido antes. E isso é muito legal. Se o Sertões um dia virar uma etapa do Mundial – isso não é simples, envolve a FIA – acho que ajudaria mais ainda. O brasileiro gosta de torcer em cenário mundial: Brasil x Qatar, Brasil x França, Brasil x Espanha… Carbono Uomo Os esportes a motor no Brasil parecem viver uma fase de renovação, com você no Mundial de Rally e o Gabriel Bortoleto chegando à Fórmula 1. Você acredita que o País pode voltar a brilhar como nos anos 1980 e 1990? Lucas Moraes Sim, pela primeira vez na história estamos presentes
em duas modalidades de campeonatos mundiais chancelados pela FIA, disputando o título. Temos ainda o Diogo Moreira, campeão na Moto2, que vai para o MotoGP [categoria rainha da motovelocidade], que terá uma corrida no Brasil em 2026 [o Grande Prêmio do Brasil de MotoGP acontece nos dias 20, 21 e 22 de março, no Autódromo Ayrton Senna, em Goiânia (GO)]. Tudo isso coloca o motorsport brasileiro em um patamar muito legal. Carbono Uomo Tem algo que o espectador não consiga ver no rally? Lucas Moraes A velocidade no deserto. As pessoas não têm noção do que é isso. Eu já levei o Rubinho [Barrichello], o Christian Fittipaldi e o Lucas Di Grassi. O Christian falou que aquela sensação só se comparava a pilotar um F1 em Mônaco, que ele nunca tinha andado em nada parecido. A gente tenta mostrar pelas câmeras onboards, mas não passa a sensação real. É difícil. Carbono Uomo Seu próximo grande desafio é o Dakar, quando você irá atrás de mais um título inédito. Quais as suas expectativas? Lucas Moraes Vai ser um evento muito novo para mim: nova equipe, novo navegador e novo carro. Mas estou feliz e confiante com a minha decisão. Espero que os brasileiros torçam e acompanhem, nas redes e nos canais. 77
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Cole ç ão | M O E D A S
Com uma moeda na mão você escreve um livro Exímio colecionador de moedas há longa data, o brasileiro Claudio Angelini conta, por meio de histórias e curiosidades, como elas guardam um rico conhecimento da história mundial
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l olecionador de moedas raras, pesquisador, escritor, economista e ex-presidente da Sociedade Numismática Brasileira, Claudio Angelini percebeu muito jovem que as imagens, as datas e os textos estampados no dinheiro poderiam abrir portas para um conhecimento profundo da história mundial, revelando impérios, batalhas, colonizadores e colonizados, migrações, peregrinações, cruzadas, eventos históricos, amores e traições. O que começou com uma moeda argentina de 1893, encontrada na gaveta do pai, tornou-se um hobby, uma forma de investimento e um estilo de vida. Descubra a seguir mais detalhes sobre a paixão de Claudio Angelini pelas moedas.
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ra uma vez uma moeda Aos 14 anos, mexi nas coisas do meu pai e encontrei uma moeda argentina de 1893. Nunca tinha visto aquilo e acabei me interessando, fiquei curioso em relação ao seu valor, porque ela já tinha mais de 100 anos. Fui até uma loja vendê-la, mas descobri que estava pedindo alto demais. Em vez de vendê-la, comprei outra, uma moeda inglesa com uma caravela. Muito bonita. Aquilo aguçou minha curiosidade de estudar um pouco. Quis descobrir porque tinha uma caravela naquela moeda e porque havia desenhos diferentes em cada uma. Comecei assim, sem livros nem nada. Continuei insistindo, voltando àquele comerciante para comprar
outras moedas, usando o dinheiro que meus pais me davam para pagar o lanche da escola. Até que eles foram chamados pela direção porque eu estava perdendo peso. Não consumia nada na cantina. Claro que a preocupação era com o que eu estava gastando o dinheiro. O medo dos meus pais era que fosse com cerveja e cigarro. Santa preocupação, né? Falei para o meu pai que eram moedas, expliquei que aprendia história por meio delas, que elas me inspiraram a pegar os livros. Aprendi sobre países, geografia, sobre metalurgia, astronomia, governantes, a história de cada país. E isso me fez abrir um leque de conhecimento muito grande e peculiar.
Fotos Arquivo Claudio Angelini
Por Artur Tavares
Co l eção | M O E D A S
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1. Moeda do Império Romano Tardio 2. Moeda romana do séc. I a.C. Deusa Roma (anverso) 3. Moeda romana do séc. I a.C. Deusa Roma (reverso) 4. Grécia - Lydia Stater séc. VI a.C. Uma das primeiras moedas cunhadas na história 5. Moeda grega - 1 Tetradrachma de Athenas com a coruja no anverso e Athenas no reverso 6. Moeda da Grécia, considerada uma das menores do mundo 7. Moeda do Brasil, comemorativa a Santos Dumont
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istórias gravadas Com uma moeda na mão, qualquer uma, você escreve um livro. Quer ver? A moeda brasileira de cinco centavos tem a figura de Tiradentes. A de 50, do Barão de Mauá, que muita gente nem sabe quem é. Se eu te der uma moeda do Uzbequistão, talvez encontre um pato. Este pato pertence a uma espécie em extinção no país, e a moeda é uma forma de chamar a atenção para o fato.
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uando as moedas surgiram? Ainda no século sétimo antes de Cristo, pelas mãos dos gregos, que encontravam um metal muito abundante em rios na região da Turquia, o eléctron. A partir daí, as moedas foram evoluindo. As gregas e romanas sempre divulgaram a mitologia e parte do que as ilhas mais produziam. Então havia moedas com cavalos, trigo, entre outros itens, que representavam as especialidades de cada território. Existem moedas sobre a fauna, a flora, sobre dinossauros, gastronomia, pessoas famosas, esportes olímpicos, Copa do Mundo, sobre animais que já estão extintos e até sobre super-heróis!
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ique atento! As moedas mais importantes são aquelas com o melhor estado de conservação, e nunca limpas. Moedas não precisam ser limpas, e têm um valor maior se continuarem intactas com o tempo.
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umismática A numismática estuda moedas, cédulas e medalhas. Normalmente, moedas são mais valiosas que cédulas, embora existam algumas cédulas muito, muito raras também. Mas as moedas são feitas de ouro e outros metais, e isso também tem um valor. 79
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escoberta particular Existe uma história muito mais profunda sobre a colonização holandesa do Brasil daquela que é contada nas escolas. Comecei a estudar e descobri que os holandeses fizeram uma série de três moedas, em duas datas, 1645 e 1646. Eles viram a possibilidade de exportar açúcar para a Europa, era o petróleo da época junto com o Pau-Brasil. Os portugueses queriam expulsá-los. Chegou um momento em que os holandeses não tinham dinheiro para pagar as tropas que estavam no Brasil, então produziram moedas de três, seis e doze florins. Foram os primeiros a cunhar versões de ouro no Brasil, com o nome do país escrito nelas. Nem os portugueses fizeram isso! São moedas muito, muito raras. São chamadas de obsidionais porque foram cunhadas durante um cerco, ou uma guerra. Seu formato losangular era o padrão que a Holanda usava na Europa e nas colônias Essas moedas circularam por muito pouco tempo e as últimas afundaram no navio Utrecht, em uma batalha contra os portugueses. O que não afundou foi recuperado, incluindo exemplares que foram embora do País. Cheguei a um número de 126 peças. No livro que lancei, mapeei onde estão todas. A última unidade vendida foi há dois anos, por 70 mil euros, sendo que há 15 anos, valia em torno de 10 mil dólares.
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11. 8. III Florins 1645 (anverso) 9. III Florins 1645 (reverso) 10. Moeda da época do ciclo do ouro no Brasil (75 réis de Vila Rica) 11. A versão de 8 Reales do México, que originou o dólar americano
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uem descobriu a América? No século XIV, em 1300 e pouco, templários franceses cunharam moedas de prata no Sul do país. Muito recentemente, um estudo determinou que a prata delas não era europeia, mas sim do México. Mas como, se os europeus só chegaram à América a partir de 1492? Isso levanta muitas teorias. Há quem diga que os vikings já estavam na Flórida no final do século décimo.
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Claudio Angelini (@cmangelini), o grande especialista, e seu livro dedicado às moedas 80
brasileira mais rara Quando Dom Pedro I foi coroado Imperador do Brasil, o governo resolveu fazer uma moeda para comemorar. A peça o retratava usando uma coroa de louro, como a de um imperador romano, que Dom Pedro rejeitou. Ele mandou recolher e derreter as 64 moedas feitas, mas 14 sobraram. A maioria delas está em museus, como no Museu Histórico Nacional, o Banco Central, a Caixa Econômica, o Itaú. Há outras em coleções particulares. São extremamente raras, um colecionador comum jamais conseguirá comprar. A última, vendida nos Estados Unidos, foi arrematada por meio milhão de dólares.
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12. Moeda de Alexandre, o Grande Séc. IV d.C. 13. Moeda de Augustus, o 1º imperador romano 14. Denário de prata Romano de Cleópatra & Marco Antonio (anverso)
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15. Denário de prata Romano de Cleópatra & Marco Antonio (reverso) 16. Moeda bizantina com as primeiras imagens de Cristo (séc. VII d.C.) 16.
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o tempo de Jesus A moeda que Judas recebeu para mostrar quem era Cristo é um ícone dos colecionadores. Ele ganhou 30 shekels, que eram moedas elaboradas pelos fenícios. Uma moeda de prata, grande, como se fosse a nota de 100 dólares de hoje. Os fenícios já faziam essas moedas cerca de 80 anos antes de Cristo, mas as versões criadas entre 30 e 33 antes de Cristo são as mais raras, enquanto as feitas após a crucificação são bem comuns e não ultrapassam 3 mil dólares de valor.
gape Os únicos objetos em que havia o rosto de Cleópatra estampado eram moedas. Existem ainda poucas peças de uma edição raríssima com o rosto de Marco Antônio de um lado e o dela do outro. Essa moeda tem dois tipos de cunha, uma feita em Roma, com a inscrição latina, e outra produzida na colônia, no Egito, com a inscrição em grego. É um ícone de procura dos colecionadores, tanto que, há poucos anos, uma dessas – inscrita em latim, em excelente estado de conservação – foi vendida por meio milhão de dólares para um museu.
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esouros perdidos De vez em quando aparece uma moeda nova no Brasil. Há alguns anos encontraram, na costa da Inglaterra, um exemplar de ouro do Brasil, com uma data de cunhagem que não era conhecida. Depois, surgiu uma segunda, uma terceira… Ou seja, alguém descobriu um tesouro de moedas brasileiras na Inglaterra. Nessa época, Portugal tinha uma dívida enorme com o país. Então, muitos lotes das nossas moedas iam direto para lá. 81
Ca rbo no Minds
Giovanni Venturini 82
G I O VA N N I V E N T U R I N I
“Costumo falar que eu não gosto de inclusão. Odeio essa palavra porque ela pressupõe que a gente está fora” Ator, poeta e roteirista, Giovanni Venturini busca nas artes uma nova forma de existir Por Denise Meira do Amaral Takeuchi Retrato Jennifer Glass
Filho de uma professora de literatura e de um cenógrafo que também dava aulas de educação artística, Giovanni Venturini (@gioventurini) cresceu atravessado pelas artes desde as primeiras lembranças. Além das leituras que partilhava diariamente com a mãe, ele se recorda da garagem de casa: o espaço virava palco quando o grupo de teatro da escola pública onde o pai trabalhava o ocupava com figurinos, textos e improvisos. Foi dali que se formou o olhar do ator, roteirista e poeta que hoje circula por teatro, cinema, TV e literatura para reivindicar lugares historicamente negados – e desmontar as representações caricatas que por tanto tempo empurraram corpos como o seu para fora do centro. O desconforto com os papéis recebidos, quase sempre ligados ao humor, o levou à escrita. Primeiro a poesia, depois o roteiro, onde conseguiu criar seus próprios personagens e vislumbrar outras narrativas. O resultado foi a trilogia formada por A Não Ser, solo em que encara a experiência de ser um homem com nanismo; Corpo Celeste, sobre a sexualidade negada a corpos com deficiência; e Invisível por Um Dia, performance em que devolve ao público o olhar invasivo que acompanha seu corpo, às vezes disparando flashes na cara de quem assiste. Sua identificação com a cultura DEF, termo criado dentro da própria comunidade de pessoas com deficiência como forma de afirmação identitária e resistência ao capacitismo, ampliou sua atuação política, hoje também visível em seu perfil no Instagram, com quase 400 mil seguidores. A projeção internacional veio com Big Bang, curta dirigido por Carlos Segundo e premiado em Locarno, em 2022. Nele, Giovanni interpreta um técnico de fogão que se rebela contra o sistema. Giovanni também participou de filmes como Veneza e Maior que o Mundo, e de séries como Justiça 2 e Dias Perfeitos, thriller da Globoplay. A seguir, reflexões sobre sua vida e carreira. PA L AV R A S “Eu já escrevia poesia. Tinha esse gosto pela escrita. Mas a atuação era minha atividade central. Até que comecei a me cansar dos convites: sempre o mesmo tipo de papel, sempre o humor, sempre o estereótipo. E decidi aprender a escrever para criar as histórias em
que eu queria atuar. Acabei descobrindo um prazer muito grande também em fazer roteiro. Não só para mim.” E S P E TA C U L A R I Z A Ç Ã O “Dentro da luta das pessoas com deficiência, o nanismo ainda é visto muito nesse lugar do entretenimento. E isso vem desde o Egito antigo, quando o deus dos recém-nascidos, que tinha nanismo, foi retratado fazendo palhaçadas e caretas. Na Idade Média, era muito comum bobos da corte com vários tipos de deficiência, principalmente pessoas com nanismo. Depois vieram os freak shows, os circos... Essa coisa dos corpos fora da norma, que gera espetacularização.” A L É M D A R I S A D A “Por muito tempo, evitei fazer comédia porque queria ser visto como um ator que tem possibilidade de elaborar outros personagens. Mas topei encarar meu primeiro papel na TV aberta em um esquete de humor, justamente porque era um programa que questionava essas estruturas, o Falas de Acesso. E depois participei do Falas Negras como um personagem qualquer, o que foi muito legal.” I N V I S Í V E L P O R U M D I A “É o fechamento da minha trilogia. Na performance eu observo o público e inverto a lógica. Às vezes disparo um flash na cara da pessoa, tiro uma foto sem permissão. É impressionante como existe uma permissividade enorme com o corpo com nanismo. Ao fundo, ruídos quase como de um zoológico.” E S TA R N O M U N D O “O DEF surgiu como uma gíria nossa e virou conceito. Não é uma sigla técnica como o PCD, com um caráter médico, técnico, que colocam na gente quase como para catalogar. A cultura DEF é um modo de produzir, de falar, de caminhar, de existir e de estar no mundo.” I M P L O S Ã O “Costumo falar que eu não gosto de inclusão. Odeio essa palavra porque ela pressupõe que a gente está fora. Quem está errado é o sistema. E eu não quero ser incluído num sistema errado. Prefiro a implosão. Muitas vezes eu acabo aceitando algumas coisas para poder entrar no sistema, implodir por dentro e mexer nas estruturas.” 43 8
MEU ESTILO Fotos Leonardo Freire
1 Profundidade Sempre digo ao meu time que cozinhar exige estudo, repertório e curiosidade. Alguns livros, além de decorativos, são minhas fontes de aprendizado diário.
4 Corpo em Movimento Esporte é indispensável para mim. Me acalma, me foca e me coloca no presente. Boxe, jiu-jitsu, surfe... Cada um me equilibra em um ritmo. É o que me prepara para essa vida intensa.
2 Mesa e banho Meu estilo de me vestir segue a lógica de montar um prato: clima, textura, cor e boa matéria-prima. Valorizo marcas brasileiras que trabalham com respeito e entregam peças de qualidade. Assim como na cozinha, quero saber de onde vem cada um dos ‘ingredientes’. 3 Amor Verdadeiro A Tonka é minha parceira há oito anos e me inspira todos os dias com sua lealdade e amor. Tem muito a ensinar e, por isso, não poderia ficar de fora dessas fotos.
Além do Horizonte Depois de 13 anos longe da Bahia e do mar, voltei com uma única exigência: vê-lo todos os dias. Acordar e olhar o horizonte me dá paz e um senso gigantesco de pertencimento. É um privilégio que me reconecta com quem eu sou.
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KAYWA HILTON CHEF NOS RESTAURANTES BOIA E MARÉ (BA) @KAYWA_HILTON
5 Faca Velha, Comida Boa Não mostrei minhas facas novas: preferi trazer a que me acompanha há 17 anos! Aposentada na gaveta, ela carrega as marcas da minha história na gastronomia. É mais representativa que qualquer outra.
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Artsy
Design
Marcas da Vida
Esses quadros refletem minha origem: retratam o trabalho tradicional da ilha de Itaparica, o mar e os barcos. Sempre que olho me transporto para casa. Me dão paz e reforçam minha forte conexão com o mar.
A decoração me move: linhas, cores e objetos garimpados que contam histórias. Depois da correria da cozinha, gosto de chegar em casa e ver essa harmonia. É criação – como na gastronomia – e um jeito de valorizar peças e marcas responsáveis.
O mais marcante das minhas tatuagens não é o desenho, mas a data: cada uma registra uma fase, uma transição ou um desafio. Quando olho para elas, me lembro exatamente do momento em que foram feitas.
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Cr e a t ives | P E G G E
A obra O Mensageiro, e Pegge, em seu atelier
Três trabalhos de destaque, criados pelo artista autodidata: Dead Man Walking, I Love Music PT2 e Swamini
Na mente criativa de Pegge, música e artes plásticas se fundem em uma coisa só 86
Creatives | P E G G E
SINESTESIA Da Zona Leste para o MASP. Conheça a jornada autodidata do artista visual e músico Pegge Por Kanucha Barbosa
Pegge
Amor Supremo
A arte de Pegge (@pegge_), 28 anos, não cabe em caixas. Nascido e criado em Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo, o artista visual e músico autodidata construiu uma poética que é um cruzamento de culturas: do Jazz e Hip Hop à estética dos Mangás e a profundidade dos símbolos afro-brasileiros. Sua trajetória, que começou a ganhar corpo em 2018 e rapidamente alcançou espaços como a SP-Arte e o MASP, é fruto do poder da observação, da curiosidade e da representatividade. Apesar de desenhar desde criança, a ideia de se tornar um artista fazia parte de um caminho invisível. O desenho era uma atividade solitária, supervisionada pela mãe viúva, e o clique para a profissionalização veio um pouco antes dos 20 anos. “Fiz uma oficina gratuita de grafite em Ermelino Matarazzo, onde conheci artistas e vi que também poderia ser um deles. Eu nunca tinha sido colocado nesse caminho. Sou o primeiro artista da família. Quando vi uma pessoa que se parece comigo fazendo algo que eu só via na TV, entendi que poderia haver um novo caminho.” O aprendizado, tanto na pintura quanto na música, foi impulsionado pela observação atenta e pela autonomia. “Ao observar os outros, estudei e descobri como poderia criar do meu jeito. Ser autodidata me fez ter mais vontade
de ser bom e de querer me tornar uma referência.” A dualidade entre a arte visual e a música é o cerne da pesquisa de Pegge, que também se define como artista sonoro. “Toda vez que eu pinto uma tela eu já ouço o que tem nela”, explica. “O meu trabalho não tem mais a diferença entre o visual e o áudio, é uma coisa só.” Sua recente exposição, JAZZMATAZZ — Todos Meus Manos Ouvem Jazz (2024), reflete essa união. Curiosamente, a liberdade do improviso, tão característica do Jazz, é reservada para a música, não para a tela. “Na música eu fico muito mais livre do que na pintura,” confessa. “Na pintura, eu já começo pelo objetivo. Eu desenho muito antes de começar. É muito minucioso mesmo, eu resolvo tudo no desenho e aí eu vou pintar. Eu passo muito mais tempo desenhando do que pintando.” Já a ancestralidade presente em sua obra se manifestou de forma orgânica: “Ela vem quando eu me reconheço no próximo e me reconheço como uma voz sendo ouvida.” Para o artista, fazer retratos é também um ato político. “Existem registros de pinturas de pessoas pretas, mas a maioria foi feita por brancos. Então eu vejo algo muito importante em uma pessoa preta pintar outra pessoa preta ainda viva, concretizando a vida daquele ser na Terra”. O autorretrato, peça central em seu trabalho, também é uma ferramenta para desafiar estereótipos: “Se eu me pinto hoje vivo, tocando jazz, lendo um mangá, isso já é contra uma cultura que quer me ver morto ou preso.” Para Pegge, o conhecimento é a forma mais poderosa para essa quebra de clichês. “Quando você entende quem você é, de onde veio, para quem é o seu trabalho, isso é uma ferramenta muito forte”. E, embora reconheça a importância da cena de artistas independentes e das novas plataformas digitais, ele ressalta o valor do acesso físico à arte. “O maior museu de São Paulo só é de graça às terças-feiras. Nenhum trabalhador, pelo menos da minha quebrada, pode tirar uma terça-feira à tarde para ir lá”, argumenta. Para Pegge, as galerias e museus têm o papel de “apresentar esse mundo para as pessoas”, para que a arte não permaneça elitizada. “Eu entendo que eu faço parte. Então, a minha parte é devolver. Porque alguém fez isso comigo. Alguém também aprendeu e me ensinou.” 47 8 3
O instrutor David Henrique – que atende mais de 50 alunos por mês – em escalada em Minas Gerais
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PA R A O A LT O E AVA N T E Mais do que um hábito divertido, escalar é um esporte e uma paixão levada a sério por cada vez mais entusiastas. A seguir, histórias de uma turma que é fã da modalidade
Quem já viu o filme Free Solo há de concordar que observar alguém escalando pode ser arrepiante. Nele, o americano Alex Honnold realiza seu sonho de desbravar sozinho e sem cordas um dos paredões rochosos mais emblemáticos do mundo, o El Capitan, no Parque Nacional do Yosemite, na Califórnia. O telespectador sabe que ele sobreviveu à façanha, mas nem isso garante a tranquilidade ao assistir ao longa, vencedor do Oscar na categoria documentário em 2019.
São 914 metros de subida, com alguns trechos de escalada positiva, quando o ângulo da rocha é maior do que 90° e qualquer deslize pode ser fatal. Não por acaso, Honnold se tornou a única pessoa a realizar tal feito. Mas não é preciso se apegar à escalada mais difícil do mundo. Com conhecimento, treino – e os equipamentos certos –, a modalidade pode virar hábito para os mais diversos perfis. Tanto é que espaços dedicados ao tema, como o paulistano Casa de Pedra, têm tido cada vez mais procura.
“Nos finais de semana, formam-se filas aqui”, diz David Henrique, instrutor que atende 50 alunos por mês. Há dez anos, o número não chegava a 20. Os dados da Confederação Brasileira de Escalada Esportiva (CBEscalada) confirmam: o primeiro ginásio de escalada indoor foi inaugurado no Brasil em 1993; em 2015, havia 16 espaços do tipo; e, agora, são 90. “Vai muito além da diversão”, complementa David. Conheça histórias inspiradoras de apaixonados pela prática. Pronto para subir?
Fotos Victor Hugo Germano e divulgação
Por Luisa Alcantara e Silva
MAIS ALTOS DO QUE BAIXOS
Praticante desde a adolescência, Gabriel se prepara para escalar em Rocklands, um dos cenários mais desafiadores de bouldering
“Ainda sinto medo, mas é um sentimento que faz com que eu me concentre para fazer o meu melhor” Gabriel Mariutti
Como acontece com muitos escaladores, o esporte virou uma paixão para o engenheiro e marceneiro Gabriel Mariutti, 29 anos. É algo tão forte que gostar da atividade é pré-requisito na hora de namorar alguém. Sua parceira, com quem está há um ano, escalava “um pouquinho” antes do relacionamento. Em breve, vai com ele para Rocklands, na África do Sul, um dos locais de bouldering mais famosos do mundo. Afinal, é difícil não se deixar contagiar pelo entusiasmo de Gabriel, que compete desde 2014. Ele foi o sexto melhor escalador de via (paredões de grande altura) do Brasil em 2018 e 2019. Neste último ano, ainda ficou na mesma colocação na modalidade Boulder (leia mais a seguir). E tudo começou aos 17 anos, quando descobriu alguns equipamentos do pai em um armário. Gabriel já havia experimentado o esporte antes, com um primo, mas foi só na adolescência que mergulhou com tudo. De lá para cá, já sofreu algumas lesões. A pior delas foi em 2020, pouco antes de uma prova no Chile e do Campeonato Brasileiro. Gabriel foi participar de um simulado e deslocou o ombro. “Rompi praticamente todos os ligamentos do ombro. Foi muito complicado.” O período que se seguiu ao episódio foi desafiador, com muita fisioterapia, mas bastaram 11 meses para ele se tornar campeão paulista de boulder. A adrenalina segue presente nas provas, nos treinos ou nas viagens, mas o medo também o acompanha – e o protege. “Por mais que eu escale há muito tempo, ainda sinto medo, mas é um sentimento que faz com que eu me concentre para fazer o meu melhor.” 89
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Minas Gerais, Yosemite e Pedra Branca: o paulistano David Henrique transformou a paixão pela escalada em profissão
DE PAIX ÃO A PROFISSÃO David Henrique começou a escalar aos 18 anos, ao fazer um curso despretensioso. E, apesar de ter se apaixonado de cara, mal sabia que a atividade viraria uma profissão. Formado em comércio exterior, ele trabalhou no mercado financeiro enquanto via o interesse pelo esporte falar cada vez mais alto. Foi se especializando e passou a fazer viagens voltadas à prática, inclusive para destinos de neve, como Argentina e Chile. Até que, no início dos anos 2000 e com curso de alpinismo no currículo, ele foi convidado para acompanhar cientistas brasileiros em uma expedição à Antártica. Na maior parte do tempo, sua função era guiar a equipe nos deslocamentos, mas houve situações em que ele teve que escalar um paredão para coletar amostras do local. “Era muita responsabilidade. O comandante dizia para mim: ‘Volta com todo mundo vivo’”, lembra David. A missão deu certo e ele esteve no Polo Sul outras seis vezes. E foi aquela primeira experiência no destino que
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David foi convidado para acompanhar cientistas brasileiros em uma expedição à Antártica
instigou sua mudança profissional, além de um empurrãozinho da mãe, que sugeriu o curso de educação física. Hoje, aos 51 anos, o paulistano é guia de turistas e personal na Casa de Pedra, um dos mais conhecidos ginásios de escalada indoor de São Paulo. Entre uma aula e outra, David escala rochas Brasil – e mundo – afora. Sua próxima aventura será na Argentina. Estamos de olho!
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SEM QUERER QUERENDO Foi quase sem querer que o gerente de produtos digitais Lucas Castellari, 31 anos, entrou para o universo da escalada. Quando um colega de trabalho o convidou para ir a um ginásio especializado no esporte, ele topou porque, como conta, “não tinha nada mais para fazer”. Bastaram três idas ao local para se tornar obcecado. Eram momentos que, segundo ele, o desconectavam dos problemas do dia a dia. Desde então, planeja suas viagens pensando na possibilidade de escalar, seja na modalidade esportiva ou boulder. “Eu só assistia a vídeos de escalada e era inegociável eu não treinar.” Na pandemia, quando teve que parar, bateu o desespero. “Eu estava evoluindo de forma muito rápida e, de repente, não podia mais praticar”, lembra. Mas assim que o mundo voltou a abrir as portas, Lucas viajou com um grupo para a Serra do Cipó, em Minas Gerais. Foram dez dias que o marcaram bastante, não só pela proximidade do fim da pandemia como pelas amizades que fez. “A escalada tem um fator de comunidade muito forte. Você coloca sua vida na mão de outra pessoa”, diz. Atualmente, ele tem conseguido treinar três vezes por semana e manter o foco, que inclui boa alimentação e menos bebida alcoólica. Com toda a dedicação, participa do festival organizado anualmente pelo ginásio onde treina e, inclusive, já subiu no pódio duas vezes.
Lucas Castellari começou quase ao acaso, mas hoje tem no esporte sua grande paixão 91
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“A escalada trabalha nossas fragilidades psicológicas no ponto mais extremo” Felipe Faccio
PARTE DE MIM “Dá para fazer uma analogia da escalada com a vida. Ela trabalha nossas fragilidades psicológicas no ponto mais extremo. Mexe com a capacidade de vencer desafios, de nos assumir como uma pessoa que pode ou não fazer tal coisa.” Assim o montanhista Felipe Faccio, 41 anos, filosofa sobre a atividade que trouxe mudanças consideráveis para sua história. Ele, que sempre gostou do contato com a natureza e de adrenalina – aos 14 anos, já escalava com o pai –, viu seu interesse crescer depois de ir a um local especializado pela primeira vez. Ainda assim, recém-formado em marketing, foi trabalhar em multinacionais, comandou algumas empresas de tecnologia e deixou o desejo de lado. Na pandemia, depois de um fartão da rotina que levava, voltou a escalar e se reconectou com uma amiga do passado, também fã da prática. Ela o convidou para ir a São Bento do Sapucaí, um dos principais pontos de escalada no interior paulista, onde morava. Ele não só foi, como não saiu mais de lá. 92
Como bom estudante que sempre foi, Felipe fez cursos, inclusive de resgate e resgate no gelo, e transformou o hobby em trabalho – na última temporada, a procura foi tanta que precisou recusar clientes. Entre tantas histórias, Felipe relembra um episódio desafiador em Mendoza, na Argentina, quando subiu em um platô sem se amarrar para pegar uma ponta de corda, colocou as mãos e os pés em um formigueiro e levou cerca de 100 picadas. “Muitos acidentes ocorrem por erros de procedimento. E engana-se quem pensa que só há perigo fora do ginásio. As questões são mais complexas, mas nenhum lugar é livre de risco.” Mas, apesar dos riscos, as alegrias são mais frequentes e recompensam, acredita Felipe. A vontade de escalar é tanta que ele e a mulher fizeram uma parede de agarras em casa para quando está chovendo. “A escalada é nosso momento de felicidade.”
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PODE SUBIR Dicas de escaladores experientes para quem quer começar no esporte
“Vá para se divertir, sem vergonha. Tem que tentar, e se entregar sem grandes expectativas. A chance de você se surpreender é grande.” Lucas Castellari
“A rocha precisa ser lida. Você tem que conhecer um pouco da textura dela, saber se as agarras vão ou não quebrar. Há uma série de fatores, incluindo o que chamamos de crux, o ponto mais difícil da escalada, que, no Brasil, costuma ser os animais.” Felipe Faccio
“É preciso prestar atenção no que está fazendo, esquecer de tudo. Preocupe-se em fazer o seu melhor, e você vai ver que isso funciona como uma fuga da rotina, do caos.” Gabriel Mariutti
“Os riscos existem, e um dos maiores é não ter consciência do que está fazendo. Tome cuidado.” David Henrique
Q U A L É A S U A ? Ao ar livre ou indoor, há duas modalidades mais praticadas de escalada DE VIA
BOULDER
Com cordas e rotas mais longas. Ela pode ser esportiva (primeira modalidade a se tornar olímpica, em Tóquio, em 2021), com pontos de proteção fixos; e tradicional, em que o escalador coloca as proteções. O termo “via” refere-se ao percurso, a via que o praticante percorre.
Costuma ser feita em paredes de até cinco metros de altura, sem cordas e com colchões de segurança no chão. Exige mais força. 93
SÓ UVAS
Na época mais quente do ano, mergulhamos na tendência dos vinhos brancos que não envelhecem na madeira. A seguir, sommeliers e especialistas indicam rótulos conhecidos como unoaked
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om a solidificação da tendência de vinhos com mínima intervenção, pequenos produtores conseguiram se estabelecer com produções inventivas e cheias de criatividade. Nos brancos, tirar a madeira da equação revelou um mundo de notas cítricas, frutadas, florais e minerais por trás de um escudo de aromas e paladares amanteigados, tostados e abaunilhados. Categorizados como unoaked, esses vinhos são leves na boca, frescos, por vezes têm uma acidez vibrante e presente, mas também podem apresentar uma boa mineralidade ou, em alguns casos, até certa neutralidade. Além de versáteis, mesmo os melhores vinhos unoaked vão apresentar, na média, preços menores em relação a outros brancos que passam por madeira, já que não precisam de tempo de envelhecimento ou guarda. Dados divulgados pela Organização Internacional da Vinha e do Vinho referentes a 2024 registraram os piores números para a produção e o mercado desde 1961. E as 94
perspectivas para o fechamento de 2025 não são mais animadoras. O consumo mundial caiu para 214 milhões de hectolitros e a produção para 226 milhões de hectolitros em uma confluência de fatores que incluem desde a adoção de hábitos mais saudáveis e a redução no consumo de álcool pelas pessoas até as mudanças climáticas, que têm dificultado o cultivo de uvas mesmo nos lugares mais tradicionais do planeta, como a França, que teve queda de 24% em sua produção, a Espanha, com queda de 17%, e a África do Sul, 16%. Esse mix de razões é perfeito para os consumidores e para os produtores de bons brancos unoaked, que conseguem oferecer produtos versáteis, com menores teores alcoólicos e de altíssima qualidade com preços médios mais baixos que os dos seus pares envelhecidos em tonéis, e isso é mais verdade quando falamos dos produtores de Sauvignon Blanc – uma das poucas uvas que registraram alta nas vendas em 2024, na casa de 1,2% a mais que no ano anterior.
Fotos Henri Hideki; Unsplash e divulgação
Por Artur Tavares
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Os vinhos neozelandeses da casta hoje são nº 1 de venda nos EUA, superando os Chardonnay, historicamente os preferidos dos americanos. Já a uruguaia Bodega Garzón registrou um aumento de nada menos que 33% nas vendas de seu Albariño nos EUA, o que fez do branco seu produto mais consumido no país. Com a chegada do verão, que tal expandir o leque de opções? Convidamos sommeliers e especialistas em vinhos para recomendar boas opções de brancos unoaked – naturais ou não. Eleja o seu favorito e prepare-se para o brinde.
Vinicius Santiago head sommelier Grupo Vissimo
Zuccardi Polígonos San Pablo Albariño Mendoza, Argentina Este Albariño expressa com pureza o caráter vibrante da casta em clima de montanha. Mostra frescor, acidez elétrica e notas de frutas cítricas, pêssego branco e flor de laranjeira, com leve salinidade. Harmoniza com ceviche de peixe branco ou salada de polvo com limão e ervas. Barone Montalto Due Mondi Pinot Grigio Terre Siciliane IGT Sicília, Itália Fresco e direto, traz aromas delicados de pera, maçã verde e toques florais, com paladar leve e harmônico. Um Pinot Grigio fácil de se beber, ideal para o clima quente da Sicília ou do Brasil. Harmoniza com bruschettas de tomate e manjericão ou camarões grelhados.
Moselland Rebgarten Riesling Nahe, Alemanha Riesling fresco e cítrico, com mineralidade. Exibe aromas de maçã verde, lima, pêssego fresco e notas florais, com acidez vibrante e leve doçura natural que equilibra o conjunto. Harmoniza com culinária tailandesa levemente picante ou truta grelhada com ervas.
Domaine Tariquet Classic Côtes de Gascogne IGP Gascogne, França Blend de seis castas (Gros Manseng, Ugni Blanc, Colombard, Sauvignon Blanc, Chardonnay e Chenin Blanc), apresenta aromas de frutas tropicais, cítricas e ervas frescas. É um branco leve e refrescante, para consumo jovem. Vai muito bem com salada niçoise ou queijo de cabra fresco com ervas. 95
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Federica Cecchi fundadora da importadora e distribuidora Barbagianni
Monte Astral Vert, 2023 Farroupilha, Brasil Com menos de uma década de atuação, a Monte Astral vem revolucionando a Serra Gaúcha com sua produção biodinâmica certificada de vinhos. O Vert é um branco de uvas Sauvignon Vert, também conhecidas como Friulano. As notas remetem a chás e frutas cítricas, com boa presença no paladar.
Marina Palusci Senzaniente, 2022 Pianella, Itália As uvas Pecorino são algumas das estrelas da microrregião de Colline Pescaresi, em Abruzos, na Itália. As vinhas com cerca de 70 anos de idade da produtora Marina Palusci produzem alguns dos exemplares mais deliciosos dessa uva autóctone. A maturação acontece em tanques de inox com borra. Um vinho vibrante, fresco e com um amarelo-palha belíssimo.
Maria Emilia Atallah sommelière de la Croix Vinhos
Domaine Giachino Primitif, 2023 Savoie, França Savoie é a segunda menor região produtora da França, apenas atrás do Jura. Fica nos Alpes, entre a Suíça, a França e a Itália. A uva Jacquère é autóctone de lá, conhecida por gerar vinhos levinhos, quase bobos, chamados de Après Ski – para depois de esquiar. Mas nas mãos desses produtores, os irmãos David e Frederic, a bebida torna-se deliciosa, com uma acidez impressionante. É um dos poucos vinhos que vão bem com ceviche, por exemplo, sem ser um espumante. No paladar é bem cítrico.
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Ricardo Santinho sommelier Grupo Vila Anália e Vila Medí
Esporão Vinho de Talha Branco, 2017 Alentejo, Portugal A produção em talha dessa região é uma técnica ancestral da época dos romanos. As uvas vão para as talhas em cachos inteiros e a fermentação ocorre naturalmente. Depois, as massas sólidas se depositam no fundo da talha e funcionam como um filtro natural, quando o vinho é extraído por um orifício na ânfora. O Esporão tem notas amendoadas e cascas de frutas cítricas.
Sauska Dry Furmint, 2023 Tokaj e Villány Tokaj, Hungria Sauska Dry Furmint é a versão seca e moderna do clássico Tokaj, emblemático vinho doce húngaro. As uvas Furmint são colhidas à mão e a fermentação ocorre espontaneamente, com leveduras do próprio vinhedo, em tanques de aço inoxidável, onde ainda estagiou por dois meses com suas borras. Tem aromas de frutas cítricas e de caroço, com delicado floral. Na boca, é fresco, mineral e levemente salino.
Domaine Bott-Geyl Points Cardinaux, 2021 Alsace, França
Domaine Vincent Caillé Gorges, 2018 Loire, França
Um vinho muito elegante e bem mineral. É feito com quatro variedades de Pinot: Pinot Blanc, Pinot Auxerrois, Pinot Gris e Pinot Noir. Com boa acidez, harmoniza muito bem com comida oriental, principalmente se ela apresentar temperos exóticos.
Os vinhos Muscadet são quase clichês, mas dos bons, funcionando com ostras, mariscos e frutos do mar, sempre muito leves, minerais e salinos. Este é um Muscadet de guarda, um Cru feito de vinhas velhas, complexo, bem mineral, muito fresco e classudo, com notas de flores brancas e cítricos. 97
Ca rbo no Minds
Rodrigo Pipponzi
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RODRIGO PIPPONZI
“É preciso coragem para que nossa sociedade possa ter conversas honestas e construir novas bases de equilíbrio” Depois de desafiar o caminho de carreira mais óbvio, o empreendedor social Rodrigo Pipponzi fundou um instituto dedicado a mobilizar uma sociedade doadora Por Isabel de Barros Retrato Carol Siqueira
Até os 45 minutos do segundo tempo, a vida de Rodrigo Pipponzi seguia o script esperado. Neto do fundador da Droga Raia, rede farmacêutica fundada em 1905 e hoje conhecida como grupo RD, o primogênito dessa família empresária se formou no tradicional Colégio Santa Cruz, em São Paulo, entrou para a FGV (Fundação Getúlio Vargas) e considerava o plano lógico de ingressar como trainee nos negócios da família. Só que esse jogador de futebol apaixonado deu ali o maior drible da sua vida. “Sentia falta de uma vida universitária mais intensa e decidi cursar Jornalismo. Foi meu primeiro ato de rebeldia.” Apesar de não concluir o curso, Rodrigo viu despertar seu interesse pelo empreendedorismo e começou sua empresa de comunicação, a MOL. “Abri esse espaço em mim, mas quis empreender do meu jeito.” Hoje um empreendedor social, Rodrigo parece olhar para essa história certo de que havia ali uma missão maior. “Sempre fui o questionador da família diante dos privilégios”, diz. A sua Editora Mol, fundada com a sócia Roberta Faria, em 2007, cresceu rápido: no começo por meio da parceria com a Raia, que topou vender a revista Sorria, criada para levantar fundos para o GRAACC (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer). Depois, com projetos aliados a outras empresas, como o Grupo Petz, que já doou mais de R$ 11 milhões. Atualmente, Rodrigo participa do conselho da MOL e transformou em propósito espalhar a cultura da filantropia. Faz parte de conselhos, fundou o Instituto MOL, para estimular uma sociedade mais doadora, e criou o IACP, instituto que leva o nome do pai, Antonio Carlos Pipponzi. “Sonho com o dia em que doar seja parte de todos os ambientes da nossa sociedade.” Leia a seguir outros insights inspiradores. E M B R I Ã O “Quando conheci o GRAACC fiquei encantado e quis ajudar. Assim nasceu a Sorria, revista vendida na Raia, com parte da renda destinada à associação. Isso foi em 2008. Em cinco anos, com o dinheiro arrecadado, construímos um hospital. Percebi a potência e quis escalar o modelo. Assumi o chapéu de empreendedor social. Hoje, a MOL acumula números importantes: são mais de 20 redes varejistas parceiras; R$ 90 milhões doados a 200 organizações sociais; mais de 150 produtos sociais lançados e um time executivo que é 90% formado por mulheres.”
R E D E “Eu fui a porta de entrada da minha família na filantropia. Quando comecei a empreender, o tema era incipiente no Brasil. Então, existia uma barreira. Precisei de algumas realizações para me reconhecerem, como ter ganhado o Prêmio Empreendedor Social e o Empreendedor Social do Ano pela Fundação Schwab, do Fórum Econômico Mundial. Hoje, eles me veem como especialista na área e meu trabalho serviu como uma semente para a empresa familiar também. A Sorria fez nascer uma área voltada ao setor na RD, que só no ano passado mobilizou R$ 42 milhões.” C U L T U R A D E D O A Ç Ã O “Doar é um exercício de cidadania. É colocar a favor da sociedade aquilo que você tem de melhor: tempo, dinheiro, conhecimento, relacionamento, roupa. Mas a essência do doar é a cidadania. É você entender que tem recursos que servem aos outros. No Brasil, ainda existe a crença de que doar é só para quem tem muito dinheiro. Gosto do termo cultura de doação, pois mostra que fazemos parte de um todo. O brasileiro é um povo muito generoso, mas pouco doador. Temos que mudar a mentalidade. Sonho com o momento em que doar seja parte de todos os ambientes da nossa sociedade.” G O L “Sou um cara do esporte e sinto que isso sempre ajudou a ampliar meus horizontes. Comecei no futebol, aos sete anos, jogando em clubes da periferia de São Paulo, onde via realidades diferentes da minha. Sempre notei meus privilégios e isso me fez questionar a vida. Era o inconformado da família. Hoje, gosto de mostrar aos meus filhos diferentes culturas e vivências. Meu trabalho me ensinou a circular em ambientes diversos, tanto que as pessoas me leem de formas variadas: há quem ache que sou de direita, outros de esquerda. Eu transito.” T E M P O R E I “Tirei um ano sabático e foi um momento importante de pausa e de ressignificações. Trabalhar com impacto social é duro, demanda resiliência, vontade e resistência. Amo o que faço e sei que essa é a minha missão. Então pude pensar em como fazer isso com mais potência, paz e equilíbrio. Tive muitas respostas legais e sei que isso é resultado de não estar engolido pela rotina. Fui sozinho surfar na Costa Rica e isso foi muito especial.” 49 9 3
GASTRONOMIA B A N G K O K Por Fred Sabbag
Tailândia gastronômica Apaixonado pelo mundo gastronômico, o colunista Fred Sabbag comenta a respeito da cena foodie tailandesa, que só faz crescer, e compartilha endereços que valem cada mordida
Já faz um tempo que Bangkok deixou de ser apenas um destino exótico para se firmar como um dos centros gastronômicos mais relevantes do mundo. A cidade aparece hoje com frequência nos principais guias e rankings internacionais, mas o reconhecimento não é fruto de modismo e se sustenta em uma construção longa, coerente e profundamente conectada à cultura local. A culinária tailandesa formou-se a partir de camadas históricas bem definidas. Influências chinesas, indianas e do Sudeste asiático se misturam sob a lógica do equilíbrio, conceito central também no budismo, e fazem com que doce, ácido, salgado e picante coexistam de forma controlada e prazerosa. Comer, na Tailândia, sempre foi mais do que saciar a fome. É um gesto cultural, cotidiano e compartilhado. Bangkok soube preservar essa base enquanto estruturava uma cena contemporânea sólida, investindo na valorização da comida de rua, mantendo os mercados vivos e estimulando uma geração de chefs a reinterpretar o repertório local com linguagem atual. Esse equilíbrio entre passado e presente ajuda a entender 100
por que Bangkok passou a ganhar protagonismo nas grandes premiações internacionais, sendo que nos últimos anos diversos restaurantes da cidade apareceram com frequência crescente nas listas do Asia’s 50 Best Restaurants, do The World’s 50 Best Restaurants e no Guia Michelin. A cerimônia do Guia Michelin Tailândia, realizada em novembro, foi mais uma confirmação do amadurecimento de uma cena que alia tradição local, técnica apurada e identidade própria. Inspirado nesse momento, selecionei abaixo endereços premiados que considero imperdíveis. E vale lembrar que, além deles, a comida de rua – opções mais acessíveis – segue como alicerce. Um prato simples de noodles ou um mango sticky rice servidos na calçada concentram os aromas e sabores que definem a culinária tailandesa e, nesse ambiente, a identidade se mantém viva e possível. Por essas e outras, Bangkok alcançou um estágio de maturidade gastronômica raro, conseguindo ser tradicional e contemporânea, popular e autoral. Para quem observa a gastronomia como fenômeno cultural, a cidade deixou de ser promessa e tornou-se referência. Vamos à lista dos estrelados?
G A S T R O N O M I A | Bangkok
GAGGAN Representa a face mais disruptiva da cidade, com uma proposta que rompe formalidades e transforma o jantar em uma experiência narrativa, com perfeita harmonia entre comida, bebida, música, luzes e um verdadeiro show conduzido por Gaggan Anand e seu time. Técnica e emoção caminham juntas, sem rigidez, entregando refeições cheias de provocações, humor e referências culturais amplas, criando uma linguagem própria que influenciou os cenários local e internacional.
SÜHRING O restaurante dos irmãos gêmeos Thomas e Mathias Sühring ocupa o polo oposto da cena do Gaggan. A casa aposta na precisão, no silêncio e no controle absoluto. A cozinha de base alemã é executada com rigor técnico e clareza estética. A experiência é contida, elegante e extremamente consistente. Bangkok absorve essa proposta estrangeira sem conflito, reforçando sua vocação cosmopolita. 101
POTONG Instalado em um edifício histórico no bairro chinês de Bangkok, o Potong oferece uma leitura mais introspectiva. O restaurante constrói sua identidade a partir da herança thai-chinesa da família de Pichaya “Pam” Soontornyanakij, eleita a melhor chef do mundo na última premiação do 50 Best mundial, e a narrativa se desenvolve de forma gradual, com pratos que privilegiam memória, textura, intenção e homenagens a diversos pratos típicos de ambos os países.
LE DU No restaurante do chef Thitid “Ton” Tassanakajohn, o foco está no território. Ingredientes locais, técnicas tradicionais e processos como fermentação e maturação formam a base da cozinha, com uma abordagem direta e precisa, que mostra um retrato contemporâneo da Tailândia feito a partir de dentro. 102
NUSARA Também comandado pelo chef Thitid “Ton” – do Le Du –, mas agora com um registro mais afetivo. Inspirado na cozinha familiar, o restaurante trabalha receitas clássicas com leveza e refinamento, em um ambiente íntimo, e a experiência se constrói a partir da memória e da familiaridade, sem perder consistência técnica.
SRA BUA BY KIIN KIIN A casa de Henrik Yde Andersen e Chayawee Sutcharitchan completa esse panorama com uma proposta mais contemporânea e bem resolvida, explorando formas, apresentações mais ornamentais (algumas em excesso, confesso), temperaturas e texturas, mas mantém o sabor como eixo central. A tradição tailandesa permanece reconhecível, mesmo quando a apresentação é uma tentativa de apontar para o futuro. 103
VIAGEM P E RU
Por Claude Troisgros
Um caso do acaso Ao ver uma brecha inesperada surgir em sua agenda, o chef Claude Troisgros encarnou a veia motoqueiro raiz para conhecer – sobre duas rodas – um lado do Peru nada óbvio e absolutamente fantástico
Cerca de duas vezes por ano, eu gosto de embarcar em uma viagem de moto. Me considero um motoqueiro raiz, fiz Enduro competitivo por muito tempo e Rally do Sertões. Mas, com a idade, troquei essas aventuras por long rides. E são elas que têm me pautado. Quando penso em um roteiro, tento ao máximo fugir dos lugares muito turísticos. Eu já percorri o Peru de moto outras vezes e estava de olho em um lado do país que ainda não conhecia. Quando comecei as pesquisas, do nada, tive três jantares cancelados na minha agenda e fiquei com 20 dias livres. Não pensei duas vezes: comprei uma passagem para Lima e embarquei, sem um programa tão definido. 104
É claro que aproveitei o pretexto para comer em alguns dos meus restaurantes favoritos em Lima, como o Central – gosto muito da ligação entre os pratos e a cultura peruana. Também estive no Maido, hoje o melhor do mundo, e no Astrid y Gastón, do meu amigo há 30 anos, Gastón Acurio. PELA ESTRADA AFORA Aluguei uma moto e, quando entrei na Cordilheira, cheguei à cidade de Huaraz, que era um dos meus objetivos, e comecei a pesquisar melhor essa região. Muito se falava sobre a lagoa Parón e decidi ir até lá, sem imaginar que a estrada
“Percorri algumas das estradas mais bonitas das minhas viagens. Não imaginava que essa região teria paisagens tão lindas”
Montanhas nevadas marcaram a viagem. Acima e ao lado, registros do motoqueiro solo nas estradas sinuosas da Cordilheira Branca
seria tão ruim, cheia de pedras. Ela fica a 4200 metros de altura, mas é espetacular: aquela água azul-turquesa no meio das montanhas nevadas, que visual! Não tinha absolutamente ninguém, até que apareceu um guia peruano especializado em passeio de moto. Dá para acreditar?! Ele estava acompanhando um grupo, mas me deu seu telefone, caso precisasse de algo. Quando voltei ao hotel, decidi enviar uma mensagem e ele me sugeriu um roteiro que fez toda a diferença. Eu, que só conhecia a Cordilheira localizada no Sul do Peru, do Chile e da Argentina, não imaginava que essa região da Cordilheira Branca teria paisagens tão lindas, com picos nevados inacreditáveis.
Posso dizer que percorri algumas das estradas mais bonitas das minhas viagens. Passei por inúmeros campos de milho. Milhos tão diferentes: roxos, amarelos, vermelhos, pretos... Eles que tornavam as montanhas coloridas com suas secagens. Algo lindo de se ver. Mas os caminhos não eram para iniciantes. Percorri trechos 100% de terra com péssimas condições, muito frio, altitude de 5200 metros. Mas de uma beleza difícil de explicar. Em especial, cito a route 106, que saía de Yungay, passava pelo Parque Huascarán, por Yanama e chegava a Chacas. Foram oito horas para fazer 120 km. Mas que presente: Chacas é uma gracinha! 105
Diferentes cenários da região de Huaraz, com montanhas e cordilheiras altíssimas, adoradas pelos viajantes mais aventureiros 106
PELAS CONEXÕES ADENTRO Em Chacas, dormi três noites na casa de uma família com a qual me conectei profundamente. Nessas minhas viagens, gosto de me aproximar da comida de verdade, que é servida nas residências locais. E, dessa vez, como os vilarejos praticamente não tinham restaurantes – estamos falando de pueblos com dez casas –, me aproximei muito disso. Chegava de moto, fazendo barulho, pedia um copo de água, me apresentava aos poucos, aproveitando ao máximo o que eles tinham a oferecer. E Chacas entregou tudo isso: cozinhamos juntos, fizemos uma sopa com os restos da geladeira, conversamos sobre a história da cidade. Em meus dias lá, também aproveitei para observar o dia a dia local sem pressa: as crianças jogando bola, o vendedor de sorvete, uma vida completamente diferente. Acabei conseguindo dicas totalmente únicas, como o túnel Punta Olímpica, com um visual inacreditável, mas feito de gelo puro! Deslizei e caí várias vezes. Afinal, para conhecer esses lugares únicos é preciso ter paciência, mas a sensação de acolhimento é única e o Peru me relembrou tudo isso. 107
VIAGEM
MO NTAN H A S
AT L A S
Por Fernanda de Almeida Carneiro
Entre montanhas, chás e silêncio A advogada Fernanda de Almeida Carneiro, viajante de carteirinha, conta para a Carbono como foi sua jornada de reconexão em um roteiro alternativo no Marrocos
Sempre quis conhecer o Marrocos. Como a maioria das pessoas, minha imaginação me levava direto a Marrakesh, aquela explosão de cores, aromas e pequeno caos que fazem a cidade vibrar. Mas, além disso, havia um desejo mais discreto, mas igualmente presente: alcançar as Montanhas Atlas e conhecer a cultura berbere, povo ancestral que vive entre suas cristas áridas. Não queria apenas observar de longe; queria me aproximar do silêncio, da terra e das histórias. Viajei com meu namorado em outubro de 2025. Não estávamos exatamente em busca de respostas, talvez apenas de espaço. KASBAH TAMADOT: OÁSIS COM ALMA PRÓPRIA Com esse objetivo, o Kasbah Tamadot (@kasbahtamadot) surgiu no horizonte como um verdadeiro oásis, onde a sofisticação se esconde por trás da argila e das pedras, 108
dissolvendo qualquer fronteira entre luxo e natureza. Não é um hotel, mas uma espécie de refúgio secreto. Nossa vila tinha piscina privativa, sala e varanda, espaços que equilibravam intimidade, acolhimento e grandeza. Tudo parecia pensado para desacelerar o corpo e afinar os sentidos, como se dissesse: “Fiquem. Respirem”. A experiência da sauna hammam ali foi um capítulo à parte. Não sei se era o vapor, o calor, ou a forma como o tempo pareceu ficar mais lento, mas senti que algo realmente se desprendia: cansaço, rotina, camada sobre camada de automático. Saí leve, mas de um jeito diferente do “leve” europeu; era uma leveza que vinha da terra. Se tivesse que descrever o Kasbah Tamadot em três palavras, seriam estas: luxuoso, intimista Nesta página, o jardim do estonteante Kasbah Tamadot; Fernanda em jantar no deserto; panorama das Montanhas Atlas. Na página ao lado, piscina, rooftop, spa e chá da tarde no Kasbah Tamadot
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Fauna e flora da região em trilha liderada pelo guia local Muhammad, onde só se ouvem os passos, o vento e o movimento dos burricos
e impecável. Há algo quase cinematográfico na forma como o hotel se encaixa na paisagem árida, como se tivesse brotado ali para lembrar que a beleza também pode vir da terra. TRILHAS, NOZES E O “UÍSQUE BERBERE” E então chegaram as trilhas, longas e silenciosas de um jeito que quase desorienta no início. Só se ouviam passos, vento e o movimento preguiçoso dos burricos e cabras que pastam nas encostas (quase não existe gado por ali). Muhammad, nosso guia, caminhava à frente com a tranquilidade de quem conhece cada curva daquelas montanhas. No meio do trajeto, ele se abaixou, pegou algumas nozes do chão e começou a quebrá-las ali mesmo, com uma pedra. Fizemos igual – talvez tenha sido o lanche mais simples e mais especial de toda a viagem. Horas depois, sentados com a família dele, tomando chá, Muhammad sorriu enquanto se servia da terceira xícara e brincou: “Isto é o uísque berbere”. Só aí me dei conta de que estava em um país onde mais de 90% da população é muçulmana, e, por isso, jamais experimentou qualquer bebida alcoólica. Caminhar entre aquelas montanhas, partilhar daquele cotidiano tão diferente do meu, me deu a sensação rara de que o tempo pode ser outro. Mais lento, mais honesto, mais humano. 110
Montanhas Atlas “Saí leve, mas de um jeito diferente do “leve” europeu; era uma leveza que vinha da terra”
DAR AHLAM: QUANDO O LUXO É NÃO TER ESCOLHA Do Kasbah fomos para o Dar Ahlam (@dar_ahlam). Um hotel sem recepção, menu, restaurante fixo. Aparentemente isso poderia ser desconcertante, mas a ausência de estruturas formais dissolve qualquer sensação de se estar hospedado. Você se sente em sua própria casa. A lógica é simples e genial: todos os dias, uma experiência diferente. Você nunca sabe onde vai jantar, se em um jardim iluminado por lamparinas, em um terraço escondido, ou em um salão que parecia ter sido aberto só para nós. Sempre em privacidade absoluta. É um luxo que não faz barulho. Um luxo que se move na contramão, que confia no inesperado.
Casablanca ROYAL MANSOUR CASABLANCA: O ENCERRAMENTO NECESSÁRIO
Detalhes do Royal Mansour Casablanca: Suite Royale, o restaurante La Grande Table Marocaine, a entrada e o aquário do lobby. Momentos que ficam na memória
A parada final, no Royal Mansour Casablanca (@royalmansourcasablanca), colocou a viagem em outra perspectiva: mais urbana, porém igualmente cuidadosa. A arquitetura é impecável, mas o que me ganhou foi o imenso aquário no lobby e a vista do rooftop: aquela moldura ampla da cidade, a medina ao longe, a sensação de que o Marrocos tem muitas camadas e que eu tinha visto apenas uma delas. A degustação no La Grande Table Marocaine foi desses momentos que ficam. Provei o pigeon pastilla – massa folheada recheada de pombo, coberta com açúcar e canela. Estranho, doce, salgado, aromático… Uma combinação improvável que funcionou de um jeito que ainda não consigo explicar direito. Talvez a melhor metáfora para a viagem inteira. O INSTANTE QUE FICOU Se eu tivesse que resumir tudo em uma única imagem, seria um fim de tarde no Kasbah Tamadot: o sol descendo atrás das montanhas, o vento começando a esfriar e a sensação – quase física – de que eu estava exatamente onde deveria estar. Nem antes, nem depois. Simplesmente ali. Voltei diferente, mas não por causa do luxo, dos hotéis, das paisagens. Voltei diferente porque, em algum momento entre o chá, as trilhas, as nozes e o silêncio, percebi que reconexão não é um destino. É um retorno. E ele, às vezes, acontece muito longe de casa. 111
VIAGEM
S O B R E
D U A S
RO DA S
Por Daniel Nunes Gonçalves
Vou de bike – elétrica! Com a popularização mundial das e-bikes, roteiros cênicos para cicloturismo estão cada vez mais acessíveis a viajantes comuns
Viajar pedalando por paisagens espetaculares, sentindo o vento no rosto, percorrendo distâncias antes inimagináveis com o esforço do próprio corpo – e com o empurrão valioso do botão propulsor quando as pernas se cansam: os prazeres do cicloturismo viraram tendência no Brasil e no mundo depois da popularização das bicicletas elétricas. Até mesmo pedaladores urbanos de fim de semana, como eu, têm se transformado em cicloviajantes nas férias, graças a bikes mais tecnológicas e acessíveis, agências de turismo especializadas que organizam roteiros refinados e hotéis adaptados para carregar as baterias e mimar os viajantes. Nos últimos quatro anos, desde a pandemia, o mercado de e-bikes vive um boom no Brasil. Segundo pesquisa dos especialistas da Aliança Bike, só em 2024 foram importadas ou produzidas no País 53.591 novas e-bikes, sete vezes mais que em 2016. Boa parte desses ciclistas têm investido também nas viagens com e-bikes, sejam elas próprias ou alugadas em agências no destino final. “O Brasil é o 112
mercado da América Latina com crescimento mais rápido no cicloturismo”, afirma Guilherme Padilha, sócio-fundador da Auroraeco, operadora pioneira em roteiros de bike de alto padrão no Brasil, com opções enogastronômicas que vão do Sul do Brasil à Europa. “O segmento projeta movimentar USD 2,8 milhões no País até 2030”, complementa. Mesmo quando eram realizadas só com bicicletas comuns, as cicloviagens já vinham ganhando adeptos. Afinal, as férias ativas ao ar livre são saudáveis e boas para o meio ambiente por não emitir tanto carbono como as viagens de carro ou de avião. “A novidade é que a bicicleta elétrica democratizou os roteiros”, explica Padilha. “Agora casais e famílias com preparos físicos distintos podem pedalar juntos, por distâncias mais longas e se cansando menos.” Para inspirar, listamos a seguir quatro regiões lindas em que pedalei nas últimas férias. Todas as e-bike trips são realizadas em pequenos grupos, com vans que acompanham os ciclistas nas estradas e que servem como base para manutenção das bikes, lanches e descanso.
Chile
DOS LAGOS E VULCÕES À PATAGÔNIA
A jornada por ciclovias e acostamentos das estradas da Patagônia e de todo o Sul do Chile é das mais cênicas da América Latina. Na rota de oito dias na Região dos Lagos e Vulcões, entre Temuco, Pucón e Puerto Varas, pedala-se contemplando, por vezes, três vulcões com cumes nevados. Quando eu soube que percorreria entre 65 e 80 quilômetros diários, achei que não fosse dar conta. Mas as distâncias pareceram curtas com as modernas e-bikes da grife Specialized manejadas pela Amity Tours, operadora de cicloturismo líder na região, e que viu a busca por e-bike trips crescer 40% desde 2019. “Atualmente, metade dos nossos passageiros prefere viajar com bicicletas de estrada, gravel e mountain bikes elétricas”, conta Cristian Levy, diretor da empresa. O percurso é convidativo para fotos de paisagens e para interagir com as comunidades. Em nossa viagem, curtimos piqueniques com vinhos chilenos à beira de lagos de águas turquesa e provamos a deliciosa gastronomia dos hospitaleiros indígenas Mapuche. O pedal patagônico passa por paisagens cênicas – prepare o corta-vento –, mas não deixa de lado paradas estratégicas para vinhos e experiências hospitaleiras com os povoados locais
Amity Tours | amity-tours.com
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Viagem | R O T E I R O S D E E - B I K E
Pedaladores urbanos de fim de semana têm se transformado em cicloviajantes nas férias
Pedalar na Suíça é opção certeira para ciclistas em busca de paisagens belíssimas, mas também estrutura e serviços impecáveis – um bom mix para os iniciantes 114
Suíça
AOS PÉS DOS ALPES EUROPEUS O ciclismo é uma paixão europeia. No continente sede de megaeventos como o Tour de France e o Giro d’Italia, a estrutura para cicloturismo inclui estradas seguras e impecáveis, apps e equipamentos de última geração, sinalização perfeita e hotéis com recarregadores elétricos para e-bikes. Testei a estrutura da Suíça com a agência Eurotrek e fiquei impactado com a paisagem absurda dos Alpes embelezando cada quilômetro percorrido. Os cinco dias da Rota dos Lagos entre Genebra, Vevey, Interlaken e Lucerna cruzam as esquinas e as águas mais lindas do país, o que inclui cidades graciosas como Montreux (famosa pelo Festival de Jazz) e Gruyères (ótima parada para provar queijos e vinhos). Diferentemente de outras rotas ciclísticas da Suíça dos chocolates, esta não possui grandes desníveis de altitude nos 250 quilômetros percorridos. Protegido com as roupas certas contra o vento, me apaixonei pela região e entendi que a Suíça é perfeita para cicloturistas iniciantes. Eurotrek | eurotrek.ch 115
Viagem | R O T E I R O S D E E - B I K E
MOUNTAIN-BIKE POR MINAS Entre as montanhas e cachoeiras bucólicas do Sul de Minas Gerais, nos arredores de Juiz de Fora e do Parque Estadual de Ibitipoca, o Ibiti Projeto abriga o mais refinado roteiro para pedalar mountain bikes elétricas do Brasil. Ao longo dos seis dias da Travessia Ibiti, percorri até 25 quilômetros por dia em estradas de terra pacatas, trilhas estreitas de single track no alto de mirantes e também no ambiente de vegetações que se alternam entre Mata Atlântica e Cerrado. Nesse circuito, aprendi que a versão elétrica das bicicletas de montanha requer destreza em terrenos com areia e lama. Uma das melhores surpresas no caminho é se deparar com as majestosas esculturas da série The Big Family, da artista-plástica estadunidense Karen Cusolito, originalmente criadas para o festival Burning Man de 2007, no deserto de Nevada. Também surpreendentes são as experiências de hospedagem rústico-chique e de gastronomia saudável na fazenda Engenho Lodge e nas charmosas casas caipiras que passaram por retrofits de muito bom gosto. Ibiti Projeto | ibiti.com
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Ibitipoca
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De Hiroshima às Ilhas do Mar de Seto, o roteiro do Japão emociona pela beleza e pela hospitalidade. Na página anterior, a jornada percorrida na Travessia Ibiti mistura natureza, arte e a boa gastronomia mineira
Japão DE HIROSHIMA ÀS ILHAS DE SETO As razões para o Japão ter virado o destino da vez no turismo mundial vão bem além da urbanidade de Tóquio e de Kyoto. Uma delas é a vocação para o turismo de aventura. A pedalada de sete dias de Hiroshima às Ilhas do Mar Interior de Seto já emociona na largada: no pedal no entorno do Memorial às vítimas da Segunda Guerra, o guia Shintaro Fukuhara, o Shin, começa a cantar Milton Nascimento em português. “É o início de uma série de experiências que buscam a cultura de paz a partir da primeira cidade do mundo a sofrer o ataque de uma bomba atômica”, explica Ryota Sato, fundador da Hiroshima Adventure Travel. No percurso, a rota cênica de Shimanami Kaido conecta o arquipélago do Mar Interior de Seto por meio de 70 quilômetros de ciclovias fantásticas que incluem pontes entre as ilhas. A jornada alterna as pedaladas em e-bike com muita imersão cultural, o que inclui gastronomia típica, meditação nos templos xintoístas de Miyajima e banhos termais nas águas de origem vulcânica dos tradicionais onsens japoneses. Hiroshima Adventure Travel | hiroshima-at.org 117
VIAGEM I NG LAT E RRA Por Adriana Nazarian
Deliciosamente Posh Mais do que passar dias em Londres seguindo a elegância dos ingleses, é hora de combinar a temporada com um refúgio de campo inglês no melhor estilo posh e em ritmo de slow travel
Coworth Park: no entorno de Londres, a propriedade serve de refúgio para os ingleses
Qualquer viajante com um mínimo de experiência sabe que não precisamos listar aqui motivos para ir a Londres. Às margens do rio Tâmisa, a cidade é cosmopolita, histórica, plural e mais uma lista infindável de adjetivos que a tornam indicada para os mais diversos estilos, motivos e perfis. A grande dica dessa reportagem, portanto, é combinar uma temporada na metrópole com alguns dias no charmoso countryside inglês, mais precisamente 118
nos arredores de Ascot. É lá que o grupo Dorchester mantém um refúgio erguido no cenário de uma casa de campo do final do século XVIII, o Coworth Park. Único hotel do país a ter seu próprio campo de polo, o local traduz perfeitamente aquele refinamento inglês que não se mede com marcas, brilhos ou qualquer tipo de excesso. Talvez a melhor definição seja mesmo uma palavra que só os ingleses têm e que ninguém nunca traduzirá à altura: posh.
“Talvez a melhor definição seja mesmo uma palavra que só os ingleses têm e que ninguém traduzirá à altura: posh ”
Referência no polo inglês, o Coworth usa a inspiração equestre em detalhes mil. Destaque também para a gastronomia, que prioriza ingredientes locais
Diante dessa elegância discreta e do cenário privilegiado, o tempo passa em ritmo de slow, slow travel. O que, convenhamos, é uma delícia em uma região que costuma ter diversos dias cinzentos – e com chuva – por ano: ninguém se sente culpado de mergulhar no ócio e no descanso enquanto a água cai lá fora. E isso pode acontecer no spa completíssimo (com direito à ducha de neve!), claro, mas também em experiências como falcoaria – mais british impossível! –, passeios de bicicleta e partidas de tênis. 119
O PRÍNCIPE TAMBÉM FOI Foi em busca desse descanso, inclusive, que o príncipe Harry desembarcou no Coworth na noite anterior ao seu casamento com Meghan. E fez isso da forma mais posh possível: se hospedou em um cottage de 1776, destinado às mulheres viúvas da propriedade, que hoje funciona como uma villa privativa. A escolha também tem a ver com a tradição do polo presente no Coworth, não só nas aulas e campeonatos, geridos por um clube respeitado e frequentado pela mais alta sociedade inglesa. Do docinho deixado no quarto em formato de cavalo à ferradura que estampa as roupas de cama, passando pelo restaurante instalado no antigo celeiro da propriedade – o delicioso The Barn –, detalhes de charme com essa temática estão por toda parte. E por falar na gastronomia, impossível não citar o Woven, restaurante do chef Adam Smith, premiado com uma estrela Michelin. Ali, a culinária britânica alcança interpretações criativas, com toques de vanguarda e ingredientes selecionadíssimos. Afinal, se tem uma coisa que o inglês parece saber fazer é descansar em grande estilo.
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Coworth Park Acima e à direita, o spa da propriedade, que mais parece um oásis. Entre as opções de hospedagem, estão quartos instalados no antigo estábulo
The Dorchester LONDON IS (ALWAYS) CALLING
Em frente ao Hyde Park, o The Dorchester é um ícone londrino desde 1931. Destaque para a loja de flores e doces – os arranjos do hotel são famosos mundo afora
O clássico estilo inglês desenha o projeto do hotel. Entre os destaques, o restaurante no salão principal, onde é servido o lendário chá da tarde; e o bar Vesper
Antes ou depois do Coworth, quando chegar a vez de visitar Londres, nossa recomendação é se hospedar em um local que desde 1931 é considerado um ícone na cidade, o The Dorchester. Ou, para os que preferem hotéis menores e mais contemporâneos, no 45 Park Lane, logo ao lado e parte da mesma coleção. O The Dorchester, em especial, vale por motivos mais óbvios, como a localização no bairro de Mayfair, em plena Park Lane e em frente ao Hyde Park; ou pela oferta gastronômica, que inclui um restaurante premiado de Alain Ducasse. Mas principalmente pelos detalhes que envolvem a história e reforçam a alma britânica da experiência. Afinal, qual outro hotel você conhece que criou sua própria variedade de rosa para honrar sua fama de espalhar as mais lindas no décor? De tão aclamados que são os arranjos criados pelo florista Philip Hammond exclusivamente para o endereço, o The Dorchester tem sua própria floricultura, a Cake & Flowers, que ainda serve docinhos artesanais. Outro trunfo local é o chá da tarde servido no restaurante The Promenade e conhecido por ser um dos mais lendários da cidade. Há décadas, locais e visitantes ocupam o concorrido salão em busca de scones fofinhos, sanduíches no estilo finger e chás perfumados – peça o de jasmim. Já a história de bastidores por trás do bar Vesper é que ele ganhou esse nome em homenagem a Ian Fleming, autor de 007 e frequentador assíduo do hotel – foi ele quem inventou o drink batizado de Vesper Martini. Entre um drink e outro, você aproveita Londres com pompa e aquela elegância discreta que só os ingleses sabem ter.
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L i te r a tur a | L I V R O S E S Q U I S I T O S
ESQUISITO É MAIS LEGAL Seja pela linguagem, seja pela abordagem, mergulhamos em um tipo de literatura tão difícil de categorizar quanto divertido de ler Por Manuela Stelzer
Todo pequeno projeto de leitor, quando começa a se aventurar em livros mais longos, inevitavelmente vai cair naquela prateleira de best-sellers das livrarias – quase sempre escritos por autores de língua inglesa, publicados por grandes editoras e que narram a clássica trajetória do herói, a luta do bem contra o mal, etc. Eu fui esse projeto de leitora. Mas peguei gosto pelo hábito e fui me aprofundar. Além da formação em jornalismo, fiz pós-graduação em escrita de ficção e li muitos, muitos livros meio estranhos. Explico com um exemplo: o conto Carta a uma Senhorita em Paris, do argentino Julio Cortázar. Nele, o narrador descreve em detalhes a indisposição física que o faz vomitar coelhinhos. A escrita trata como se o ato fosse realmente possível, apesar de absurdo. E é nessa brincadeira entre o real e o inventado, a incoerência e a lógica, que mora a literatura que batizei carinhosamente de ‘Esquisita’.
CR EDO, QUE DELÍCIA!
DELICIOSAMENTE ESQU ISITAS
A América Latina parece ser pró na literatura esquisita. Relembre os destaques
Newsletters que, além de dicas valiosas e por vezes estranhas, são um lembrete de que literatura não precisa ser tão séria assim
O colombiano Gabriel García Márquez, autor consagrado de Cem Anos de Solidão e vencedor do Nobel de Literatura em 1982, é um dos expoentes de um gênero, essencialmente latino, chamado realismo mágico, que incorpora elementos fantásticos, só que de maneira natural e aceita pelo contexto proposto. Diferentemente da fantasia, não se abandona a realidade concreta para construir outro universo: no realismo mágico, além de apoiado por mitos e lendas de povos latinos, o que prevalece é a convivência harmônica entre o real e o fantástico. É o livro esquisito por definição. Como faz Cortázar: de repente, o protagonista, até então adequado às normas, passa a vomitar coelhinhos. Além de García Márquez e Cortázar, e do estranhíssimo O Aleph, um clássico do argentino Jorge Luís Borges, que explora temas tão complexos quanto o infinito e a memória, Monica Ojeda, Silvana Ocampo e Mariana Enriquez são algumas das contemporâneas que contribuíram para o sucesso do gênero. Enriquez que o diga: sua coletânea de contos Os Perigos de Fumar na Cama reúne histórias que, como define a orelha do livro, “mergulham no sinistro que espreita o cotidiano, investigam os abismos sombrios da alma humana, as correntes ocultas da sexualidade e da obsessão, enquanto conta histórias familiares a quem compartilha o imaginário fantástico latino-americano”. É de se deliciar! 122
No livro Escrita em Movimento, a escritora e professora Noemi Jaffe afirma: “Na literatura, ‘como se diz’ é tão ou mais importante do que ‘o que’ se diz, e é no ‘como’ que se localiza a marca autoral de um escritor”. Há quem diga que os assuntos para a escrita se esgotaram – por isso, o que torna um livro singular e memorável é a maneira como é escrito. Nessa batalha pela atenção do leitor, a solução pode misturar coisas tão contraditórias quanto ficção e fatos científicos; tão criativas quanto puerpério e mitologia grega; tão bizarras quanto fetiche e doenças cardíacas. A seguir, indico obras que podem ter passado despercebidas pelo olhar dos que se restringem aos mais vendidos. Mas que serão uma grata surpresa para os que estiverem dispostos a desvendar esquisitices literárias. Ainda tem um destaque no gênero na América Latina e newsletters que valem o olhar.
A Hortaliça Da jornalista Vanessa Barbara, tem periodicidade incerta. Seja uma vez na quinzena, seja uma vez no mês, chega um apanhado de citações tiradas de contexto, trocadilhos e imagens toscas e textos aparentemente bobos — para o bom leitor e observador, entretanto, são sacadas inteligentíssimas. A Lábia Da ex-curadora da Flip, Ana Lima Cecílio, que está empenhada em combater o que ela chama de sedentarismo cognitivo. Suas armas são indicações de livro certeiras. Tem para todos os gostos, de todos os tamanhos, publicados por todas as editoras. O que une tamanha diversidade é a paixão pela leitura. Impossível não cair na lábia dela.
L i ter a tura | L I V R O S E S Q U I S I T O S
QUANDO DEIXAMOS DE ENTENDER O MUNDO
Benjamín Labatut
Ágota Kristóf
O ÚLTIMO HOMEM BRANCO
Mohsin Hamid
Dois irmãos são deixados na casa da avó, em uma cidade pequena, para que tenham chance de sobreviver à guerra. Parece uma história nada anormal (infelizmente), mas a genialidade aqui é a escrita, que reflete a escassez e a cisão que uma batalha é capaz de causar. É muito do que a própria autora enfrentou: nascida na Hungria, fugiu para a Suíça e sobreviveu trabalhando em fábricas. Adotou a língua francesa e, em sua trilogia, escreve como se tivesse perdido sua identidade, seu lugar no mundo, e estivesse reaprendendo a língua.
Um pouco como Kafka em A Metamorfose, Anders, protagonista do livro, acorda um dia e, em vez de inseto, descobre que não é mais branco. Sua pele escureceu. Nessa alegoria sobre a branquitude, o autor paquistanês aposta todas as suas fichas no poder da ficção ao escancarar uma verdade bem incômoda: como a cor da pele muda a maneira como somos vistos e tratados, até por amigos, familiares e pessoas próximas.
FELIZES OS FELIZES
TRÊS CAMADAS DE NOITE
Yasmina Reza
Vanessa Barbara
O VERÃO EM QUE MAMÃE TEVE OLHOS VERDES
É um verdadeiro quebra-cabeça sobre a felicidade: em 18 textos, que podem ser lidos como capítulos ou contos, Yasmina Reza ironiza o clichê da alegria dos pequenos momentos. São personagens esquisitíssimos, mas também engraçados, como um adolescente que encarna a Celine Dion ao ponto de rechaçar seu antigo nome e sua identidade. As histórias, tão ordinárias quanto a briga de um casal no supermercado sobre o queijo gruyère, servem como um retrato do caráter tragicômico daquilo que a gente entende como “felicidade”.
Pode parecer estranho, mas esse livro que acompanha uma mãe em depressão profunda durante a pandemia é cheio de humor. O registro é híbrido: a autora varia entre passagens autobiográficas, mitos gregos e investigações sobre outros escritores que sofreram de depressão, como Sylvia Plath, Clarice Lispector e Henry James. Entre aleitamento e privação de sono, ela usa acidez e sagacidade para construir uma narrativa muito original sobre temas como maternidade e saúde mental.
Já começa pelo título, que parece não fazer muito sentido – mas dê tempo à leitura. Uma mãe torpe e um filho neurodivergente passam um verão juntos no litoral da França e ele, a pedido de seu psiquiatra, faz um diário da viagem. O relato em primeira pessoa torna o narrador não muito confiável, mas é desse olhar que ele direciona à mãe, e que muda ao longo da leitura, que nasce uma literatura cheia de nuances. Amor e ódio, com muita sensibilidade, são colocados na mesma prateleira.
Albert Einstein, Erwin Schrödinger, Robert Oppenheimer e outros cientistas são protagonistas dessa história que, apesar de baseada em biografias e teorias reais, não passa de pura ficção. É uma investigação literária sobre o gênio humano, sobre o poder e a angústia de pensadores cujas descobertas e experimentos mudaram para sempre a vida humana.
Fotos divulgação
TRILOGIA DOS GÊMEOS
Tatiana Tibuleac
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Pens a ta | C O M P O R T A M E N T O
Caneta em punho Em meio a uma realidade digital, o hábito de escrever à mão tem se perdido. O jornalista Tadeu Nunes reflete sobre os motivos para não deixar a caneta de lado, especialmente entre as crianças e os jovens Por Tadeu Nunes
Você, ao ler este texto, sabia que ele não foi escrito à mão? Não fisicamente, num papel com caneta ou lápis. Minhas palavras foram colocadas em um computador, tecla por tecla, digitalmente. Mas o repórter que a digitou tem o hábito de escrever. Muito por conta da profissão, sim, mas porque é algo que sempre existiu – e pretende manter assim. Num mundo em que a grande maioria das tarefas diárias é feita por um celular e/ou algum dispositivo eletrônico, quem ainda tem o hábito da escrita manual?
“A escrita nos obriga a escolher o que realmente importa, pois não conseguimos acompanhar a velocidade da fala de uma aula ou de uma reunião” Pesquisas mostram que escrever à mão favorece o nosso desenvolvimento cognitivo, além de facilitar o aprendizado em longo prazo. Um estudo feito por Audrey van der Meer e Ruud van der Weel, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia de Trondheim, publicado na Frontiers in Psychology, aponta que escrever ativa mais áreas do cérebro em conjunto, especialmente a de aprendizagem, na comparação 124
com a digitação. Para o teste, foram conectados 256 eletrodos na cabeça de 36 estudantes, que escreviam com uma caneta digital ou digitavam palavras que apareciam na tela. O resultado foi claro: escrever manualmente ativa bandas de baixa frequência, chamadas de alfa e teta, que dão suporte à área de aprendizagem do cérebro. Além disso, aumenta a conectividade entre regiões parietais (ligadas à motricidade) e centrais (as envolvidas com a formação e a codificação da memória). Ou seja, anotar aciona dois processos de ativação diferentes em nós. Apesar de importante, a conclusão do estudo ainda não nos permite ter muitas certezas. Os próprios autores destacam que os resultados podem variar de acordo com a tarefa, o perfil dos participantes e o objetivo da atividade. Mas uma coisa é certa: escrever é um processo cognitivamente mais rico do que digitar. De acordo com a Dra. Virgínia Chaves, neurocientista e educadora, fundadora da Glia Neurociência, a escrita nos obriga a escolher o que realmente importa, pois não conseguimos acompanhar a velocidade da fala de uma aula, ou de uma reunião, do mesmo jeito que digitando. “Essa necessidade de sintetizar faz com que a pessoa compreenda melhor o que está anotando. A informação não é apenas registrada. Ela é reorganizada pelo próprio ato de escrever. É
essa reorganização que aprofunda a aprendizagem e a memória. Digitar permite velocidade, mas velocidade nem sempre significa entendimento. A escrita manual cria um ritmo mais condizente com a construção do conhecimento”, diz. Para essa reflexão, vale frisar que uma coisa não anula a outra – digital e analógico podem caminhar juntos. Eles facilitam atividades rotineiras e, quando utilizados de forma organizada, devem tornar nossa vida mais fácil – e rápida. Atentas a esse movimento, marcas como Montblanc e Moleskine estão adaptando seus produtos. Pensados para unir tradição e tecnologia, a centenária suíça de canetas, historicamente associada à tradição e ao luxo, surpreendeu ao lançar o Digital Paper em 2024, uma tela digital que simula papel, tinta e resistência de uma caneta tradicional. A ideia é atingir consumidores que rejeitam tablets e ainda querem integrar escrita manual no fluxo digital. A italiana Moleskine fez movimento semelhante com a Smart Writing Set, apostando que o mercado premium quer o melhor dos dois mundos. Há, ainda, outros exemplos parecidos, como o MatePad Paper, da Huawei, a Safari All Black, da Lamy, ou o Paper Pro, da reMarkable. Isso sem falar, claro, dos tablets tradicionais, como iPad (Apple) e Galaxy Tab (Samsung), que oferecem suas canetas especiais.
Pens ata | C O M P O R T A M E N T O
Aprendizagem na infância A discussão, inerentemente, deve passar pela educação dos mais novos. Segundo uma pesquisa da National Literacy Trust, mais de um terço das crianças e jovens de oito a 18 anos raramente – ou nunca – escrevem à mão no tempo livre. Ela aponta também que os níveis de satisfação caíram para todas as crianças e jovens em 2024 – com queda acentuada nos meninos entre cinco e oito anos, com uma redução de 11,9% entre 2023 e 2024. Para as crianças, a escrita manual é parte da própria aquisição da linguagem, afirma a neurocientista Virgínia Chaves. “Enquanto aprendem a formar letras, elas também estão desenvolvendo coordenação fina, percepção visual e a capacidade de estruturar o pensamento. O movimento da mão ajuda a consolidar o símbolo, e é por isso que esse processo continua sendo central nas séries iniciais”, avalia.
O benefício, no entanto, não se esgota aí. Mesmo diante de tantas distrações e atividades aceleradas que o mundo nos impõe, práticas como essa ajudam a recuperar a concentração. “O digital encurta nossos ciclos de foco. Por isso a escrita manual continua fazendo sentido na adolescência, na vida adulta e até na maturidade. Não existe idade máxima. Em qualquer fase, ela funciona como uma espécie de pausa mental que nos permite organizar melhor o que pensamos”, explica a educadora. E o que fazer, então, para manter a caneta em uso? Os tradicionais cadernos, agendas ou blocos de notas seguem como opções mais fáceis. Encaixar o hábito em momentos cotidianos também ajuda. “Um caderno de estudos, por exemplo, cria continuidade. Escrever resumos de leituras ou reuniões, registrar perguntas que surgem, organizar a semana no papel”, sugere Chaves.
Criar intervalos sem o celular por perto é outra estratégia simples e valiosa. E eles não precisam ser longos. O segredo é permitir que a mente e o pensamento tenham espaço suficiente para se desenvolverem sem interrupções. “O objetivo não é gerar competição com o digital, mas sim complementação”, reforça Virgínia. Então, que tal seguir o caminho ideal? Primeiro aprender a escrever e, depois, digitar? Não precisamos escolher um ou outro. Podemos operar cada uma das ferramentas de acordo com a tarefa que temos em mãos. Se buscamos foco e profundidade, vamos de escrita manual. Se o que queremos é agilidade, seguimos com o digital. Vale a nossa reflexão. Afinal, a caneta sempre foi símbolo de poder, criação e intencionalidade. Agora, as marcas estão dizendo: você não precisa escolher entre tradição e futuro. Pode ter ambos.
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3. 1.
1. MatePad Paper, da Huawei 2. Montblanc Digital Paper 3. Smart Writing Set, da Moleskine 12 45 3
CARBONO ZERO POR
The earth has music for those who listen
ESG EM AÇÃO A Flexform consolidou seu destaque em sustentabilidade ao conquistar o Selo ESG Ouro e a certificação Impacto Positivo ESG 2025. Com processos limpos, redução de resíduos e insumos recicláveis, a empresa mostra que inovação industrial e impacto positivo caminham juntos – agora reforçados pela expansão para um novo parque fabril sustentável em 2026. @flexformbr 126
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O SOL VEM AÍ PÃO DO BEM A padaria carioca The Slow Bakery se destaca pelo compromisso com a gastronomia sustentável: transforma 100% do lixo orgânico em compostagem, trabalha apenas com alimentos orgânicos e mantém parcerias diretas com pequenos produtores e artesãos locais, valorizando o meio ambiente e a economia comunitária. @theslowbakery
A rede Tapí Tapioca e Açaí lançou o Tapí Solar, projeto de compensação de energia renovável que reduz a fatura elétrica das lojas sem necessidade de instalação de placas ou investimento. A iniciativa, proposta pela sócia-fundadora Mariana Ferolla, funciona por meio de compensação de créditos com base em fazendas solares compartilhadas. @tapitapioca
SEM DESPERDÍCIO REDE SUSTENTÁVEL A Indústria Atlântica Cama e Banho amplia sua sustentabilidade com alto investimento na tinturaria, elevando em 30% a produtividade e reduzindo o consumo de energia. O processo de tingimento usa agora apenas quatro litros de água por quilo de tecido – metade da média do setor. A nova secagem do lodo de efluentes, feita com energia limpa, diminuiu em 75% os resíduos destinados a aterros. A empresa também recicla 100% dos materiais, reutiliza a água tratada e mantém áreas preservadas, reforçando seu compromisso ambiental. @toalhasatlantica
A Joya Boulangerie, comandada pela chef Isabela Honda, une sabor e sustentabilidade: transforma cascas de frutas em vinagres, sucos e chás, reduz resíduos e opera com energia solar. Um modelo de cozinha consciente na Vila Madalena. @joyaboulangerie
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VIAJANDO VERDE Um giro consciente no turismo brasileiro
SLOW FOOD Carbono adora o conceito do Mangaba Satu, restaurante dos sócios Shoichi Iwashita e Francis Castro, na Costa Sul da Bahia. Aberto diariamente das 10h30 às 17h, o espaço oferece apenas sete mesas-tendas na areia, diante de uma praia totalmente deserta e com vista livre de uma lagoa. A sustentabilidade é o fio condutor: hortaliças orgânicas de agrofloresta local, peixes exclusivamente da costa, opções veganas com leites e cremes vegetais, reciclagem total e energia 100% solar. O acesso pode ser a pé, pela praia ou de barco, seguindo o humor das marés. Imperdível! @mangabasatu
MAR ABERTO O restaurante Ocyá, localizado em um arquipélago na Barra da Tijuca e comandado pelo chef, pescador e sócio Gerônimo Athuel, adota pesca consciente, valoriza espécies pouco comerciais e aplica técnicas de maturação e aproveitamento integral dos peixes, reduzindo desperdício e fortalecendo a sustentabilidade na gastronomia. @ocyá.rio
REFÚGIOS RESPONSÁVEIS Do Atacama a Santa Catarina, os lodges Awasi – recentemente reconhecidos pela Jacada’s Positive Impact Collection – mostram em cada destino um novo padrão de sustentabilidade no luxo. As ações da rede são concretas e viram impacto positivo real: água reciclada, energia solar, bioconstrução, resíduos zero, proteção da fauna e apoio direto a projetos ambientais e comunitários. Um modelo de viagem que encanta enquanto preserva. @awasiexperience 128
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ESCOLA O NANNAI celebrou dois anos do IANNAN, instituto de capacitação profissional para o turismo que já formou mais de 300 jovens em Ipojuca – 38% contratados pelo próprio hotel. Finalista do Prêmio Braztoa de Sustentabilidade 2025, na categoria Gestão e Governança, o projeto reforça o impacto social da marca. Em Noronha, o NANNAI opera com energias solar e eólica, reciclagem, reúso de água e parcerias ambientais que tornam o hotel referência em sustentabilidade na ilha. @nannairesortespa | @nannainoronha
NÚMERO UM O Grupo City&Sea reforçou sua liderança em ESG ao conquistar o 1º lugar em Sustentabilidade no Top Hotel RJ 2025 com o Hotel Arpoador, rumo ao Carbono Neutro. Com matriz de energia limpa, gestão Lixo Zero certificada, política de compras sustentáveis e apoio a iniciativas socioambientais, o grupo avança de forma consistente na agenda ESG da hotelaria carioca. @arpoador.rio
ECOGASTRONOMIA
BOAS PRÁTICAS A pousada Haya, em São Miguel dos Milagres, integra práticas ESG, incluindo matriz 100% solar. Ao preservar o entorno entre rio, mar e Mata Atlântica, valorizar ingredientes locais e apoiar a economia da comunidade, opera com impacto mínimo em uma região de alta sensibilidade ambiental. @pousadahaya
O Grupo Origem, de Salvador, à frente do restaurante Origem (52ª posição no ranking do Latin America’s 50 Best Restaurants), comandado pelos chefs Fabrício Lemos e Lisiane Arouca, reafirma seu compromisso com a ecogastronomia. Pelo Instituto Ori, promove pesquisa e impacto social nos biomas baianos, ajudando a fortalecer comunidades tradicionais e preservar saberes ancestrais. A Aliança Kirimurê, braço do instituto, apoia a rede de marisqueiras da Baía de Todos-os-Santos, integrando sustentabilidade à cadeia produtiva. @restauranteorigem
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Coordenador-geral do Museu de Ciência da Amazônia (MuCA), Luiz Felipe Moura é também diretor de sustentabilidade e desenvolvimento social da Ama Brasil – Oscip, dedicada à preservação do patrimônio histórico, artístico e ambiental associado ao desenvolvimento cultural na região. Empreendedor social de trajetória singular, ele ainda fundou a MAD – Made in Amazônia, empresa paraense que produz cianobactérias e extratos voltados ao setor de superalimentos. À frente dessas iniciativas, Luiz criou um ecossistema inovador no coração da Floresta Amazônica, transformando Belterra,
no Pará, em referência de educação, ciência aplicada e desenvolvimento sustentável. No MuCA, integra laboratórios, quintais agroflorestais, escolas comunitárias, restaurante-escola, casa de chá, serpentário e experiências culturais – tudo operado com a participação ativa da comunidade local. Com masterplan doado pelo Studio Arthur Casas, o museu se abre para a paisagem e reafirma seu princípio central: a floresta não é cenário, é conteúdo. Seu trabalho defende um modelo de futuro em que a economia da região floresce com a floresta de pé e com seus moradores como protagonistas. @mucamazonia
Carbono Uomo O MuCA estruturou iniciativas educacionais próprias. Qual é o papel delas hoje?
integrado que une conservação, identidade territorial e autonomia econômica.
Luiz Felipe Moura A educação é o grande motor do museu. Criamos módulos e escolas que aproximam crianças e jovens da ciência e da bioeconomia, além do programa Embaixadores MuCA, que forma moradores como mediadores, monitores e guias. As visitas incluem trilhas, práticas laboratoriais e experiências botânicas, ampliando horizontes e mostrando que a floresta pode ser caminho profissional e de pertencimento para as novas gerações. Carbono Uomo Como os Quintais Agroflorestais e a Escola Agroflorestal se complementam? Luiz Felipe Moura Os Quintais garantem segurança alimentar, renda e manejo sustentável sem desmatamento, usando apenas sementes crioulas. Já a Escola oferece capacitação contínua em agrofloresta e economia da floresta, aplicando o aprendizado nos próprios quintais e nas cadeias que abastecem o restaurante-escola do MuCA. É um sistema
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Carbono Uomo Qual é o papel dos laboratórios dentro do museu? Luiz Felipe Moura Os laboratórios aproximam ciência e comunidade, desenvolvendo pesquisas sobre espécies nativas, sistemas produtivos e novos modelos de bioeconomia. Para muitos moradores, é a primeira vivência científica concreta – e isso muda a percepção de futuro e de possibilidades de inovação no território. Carbono Uomo Depois da COP30, o que vem para o MuCA e para Belterra, no Pará? Luiz Felipe Moura A COP30 foi um marco, mas nosso horizonte é maior. Queremos consolidar Belterra como polo de turismo responsável, educação ambiental e economia regenerativa. O MuCA seguirá como laboratório vivo da Amazônia, testando e implementando soluções sustentáveis com a comunidade como protagonista.
Fotos Alex Woloch, Bruno Fioravanti, Daniela Mac Adden, Leonardo Freire, Rui Nagae, Samuel Antoniti, Shoichi Iwashita, Thays Bittar e divulgação
A AMAZÔNIA C O M O L A BO R ATÓ R I O V I VO
PÁ G I N A S A M A R E L A S Tendências para ficar de olho: um guia inteligente por Carbono Uomo Ilustração Mona Conectada
Bola furada — finalmente chegou o dia de jogar com uma.
SAQUE
NA MIRA
M E TA M O R F O S E
Nem tênis, nem badminton, nem pingue-pongue, mas uma mistura de todos eles. Conheça o pickleball!
O tiro como esporte de alta performance, das histórias às curiosidades, passando pelos clubes dedicados à prática
A arte de Ipe Moraes: transformar clássicos estabelecimentos de bairro em hype – o mais novo deles é o Bar Europa
N O P L A N E TA
AROMA
C R I AT I V O
O ambientalista Roberto Klabin indica iniciativas que buscam a conservação da fauna e da flora Brasil adentro e que dependem de doações. Comece o ano engajado!
Números, curiosidades e caminhos da última tendência no mundo da beleza: a perfumaria de nicho
Marcelo Mujalli, designer de interiores com vasta bagagem, indica os eventos, feiras e mostras de design que não devem ficar fora do radar em 2026
ORGANISMO VIVO Das velas customizadas a um mercado de flores, o paisagista Alex Hanazaki indica marcas e endereços que adicionam mais vida à rotina
E S T R A N H E Z A Os robôs do artista Beep questionam nossa dependência do virtual
Pá g inas am arel as
PICKLE O QUÊ? Esporte que ganha cada vez mais adeptos no Brasil, o pickleball é uma mistura de diferentes atividades com raquete. Descubra mais sobre a modalidade Por Luisa Alcantara e Silva
Talvez você já tenha ouvido falar em um esporte que mistura tênis, pingue-pongue e badminton. É o pickleball, que, nos Estados Unidos, onde surgiu, é praticado há décadas – por nomes como Bill Gates e LeBron James –, e no Brasil, começou a ficar conhecido só nos últimos anos. Mas, mesmo em pouco tempo, já virou moda em alguns círculos. Desde 2023, espaços públicos como o Parque Ibirapuera, em São Paulo, e a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, além de clubes particulares, como Paulistano, Monte Líbano e Pinheiros, na capital paulista, ganharam quadras, atendendo a pedidos de seus frequentadores. Agora, até empreendimentos imobiliários estão sendo erguidos com espaço para o pickleball.
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Quem acompanha de perto o crescimento do esporte, voltado a todas as idades, é o empresário José Eduardo Guilger. Conhecido como Mado, ele teve participação importante na introdução da modalidade em São Paulo e abriu a academia Pickleball Point. “O movimento se triplicou desde que inaugurei o espaço, em 2023. No início, vinham cerca de 60 pessoas por semana. Agora, são 180”, diz. Segundo Paulo André de Moraes, presidente da Confederação Brasileira de Pickleball, o Brasil viu uma explosão tão grande do esporte que já tem representatividade mundial. “Somos o país com o maior número de praticantes da América Latina”, afirma André. A seguir, saiba onde aderir e conheça curiosidades sobre a prática.
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P R E PA R E - S E Endereços no Brasil para quem quer entrar na onda
PICKLEBALL POINT – SP
OLÍMPIA ARENA PICKLEBALL – SP
São três quadras no espaço paulistano, que se autointitula “a primeira academia de pickleball indoor do Brasil”. Praticante e sempre em busca dos melhores materiais, Mado, o proprietário, fez uma loja no espaço, onde vende produtos da marca Joola. @pickleballpoint Aula: a partir de R$ 120 a hora. Rua Antônio de Oliveira, 595 - Chácara Santo Antônio
Edson Tioda trabalhava na área de tecnologia e tinha planos de se aposentar, mas o pickleball, que praticava no Ibirapuera, o levou para outro caminho. “Em vez de parar com tudo, me tornei empresário e professor do esporte”, diz ele, que abriu um espaço em São Paulo com duas quadras, em 2023. Em breve, ele deve abrir outra arena com três quadras na Vila Madalena. @olimpiapickleball Aula: R$ 200 a hora. Rua Quatá, 283 - Vila Olímpia
ARENA CAFT PICKLEBALL – RJ
Há 33 anos no Rio de Janeiro, o Centro de Avaliação Física e Treinamento (CAFT) inaugurou há dois a Arena CAFT Pickleball. “Vi que o esporte estava começando a crescer no Brasil e abri o único espaço coberto da modalidade no Rio”, diz Victor dos Santos Júnior. Mensalmente, são cerca de 150 pessoas jogando nas três quadras do local. @arenacaft.pickleball Aula: R$ 160 a hora. Rua Cosme Velho, 60 - Cosme Velho
O QUE É, O QUE É? Curiosidades sobre o pickleball
Jogadores Um contra o outro ou em duplas. Raquete Lembra a do frescobol, mas é quase retangular. Bolinha Leve, de plástico e cheia de furos. Objetivo Como em outros esportes de raquete, é marcar pontos fazendo a bolinha passar por cima da rede.
ARENA RM – MG
VALADARES PICKLEBALL CLUB – MG
Inaugurado em Belo Horizonte pelo ex-jogador de futebol Raphael Moura, no início de 2024, apenas com quadras de beach tennis e pádel, o complexo passou a oferecer pickleball poucos meses depois. São três quadras descobertas, frequentadas “por quem busca um esporte de raquete de baixo impacto, se comparado a outros, como o pádel”, como diz Raphael Fonseca Sousa, professor e coordenador do pickleball do local. @arenarm.bh Aula: R$ 90 a hora. Rua Adriano Chaves e Matos, 100 Olhos d’Água, Belo Horizonte
A cidade mineira de Governador Valadares é considerada o berço do pickleball no Brasil. E um dos responsáveis por isso é Toninho Coelho, que fundou a Associação Brasileira de Pickleball por lá em 2018. Hoje, ele, que já presidiu a entidade, comanda um clube com sete quadras cobertas. Aula: R$ 80 a hora. Rua Israel Pinheiro, 610 - Universitário, Governador Valadares
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A LV O C E R T O Instrutor e atirador esportivo, Alessandro Gagliani fala sobre o papel dos clubes de tiro, principalmente como modalidade de alta performance Por Alessandro Gagliani O tiro esportivo no Brasil tem raízes profundas, embora muitas vezes seja visto apenas pela lente da defesa ou do uso recreativo. Na verdade, ele carrega uma rica trajetória esportiva, modalidades competitivas de alto nível e desafios que refletem tanto o esporte quanto a sociedade. Desde os primórdios, o esporte de tiro foi incorporado aos clubes e associações no Brasil. Segundo consta, ele figurava entre as primeiras práticas adotadas por clubes no Rio Grande do Sul, o que impulsionou a criação de associações de atiradores. Como instrutor e atirador esportivo, destaco a seguir curiosidades e dicas sobre o tema.
A PRIMEIRA VEZ
Nem todo mundo sabe, mas a primeira medalha de ouro da história olímpica brasileira foi por meio do tiro esportivo. Nos Jogos da Antuérpia, em 1920, o atirador Guilherme Paraense conquistou o primeiro lugar na prova “30 m pistola militar”. Tal feito inaugurou uma narrativa importante: o tiro como modalidade esportiva de alto desempenho, não apenas como atividade amadora ou de recreação.
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TIRO PRÁTICO Entre as várias modalidades do panorama competitivo contemporâneo, o esporte denominado IPSC Brasil, ou tiro prático, merece destaque. Saiba mais:
COMO FUNCIONA
Essa forma de tiro reúne precisão, potência e velocidade em percursos variados – os atletas se movem, mudam de posição, enfrentam cenários dinâmicos e devem lidar com diferentes armas, como a arma curta e a carabina.
Mauro Thompson
PARA FICAR DE OLHO
O Brasil reúne grandes atiradores com destaque internacional, com títulos importantes conquistados, como o campeão Mauro Thompson e os talentosos membros da família Saldanha, referências em técnica e responsáveis por elevar o nome do País nas pistas de tiro.
Jaime Saldanha
OS CLUBES DE TIRO
Além de impulsionarem as modalidades competitivas, os clubes de tiro cumprem um papel essencial na formação e na capacitação de cidadãos e profissionais de segurança pública para o uso responsável e defensivo das armas de fogo. Em um país onde a legislação impõe diversas restrições à posse e ao porte, o acesso à informação e ao treinamento técnico se torna ainda mais importante. ONDE PRATICAR
Indico a escola Ops Range, em São Paulo, onde o foco vai muito além da pontaria. A ênfase está em segurança, controle emocional e domínio técnico, pilares que diferenciam o atirador esportivo do uso irresponsável. A filosofia aparece nos treinos e competições esportivas, nos cursos voltados a defesa pessoal e do lar, manuseio seguro de armas de fogo e procedimentos de resposta sob stress. @opsrangesp 135
Pá g i na s a ma rel as
VIRA-VIRA Ipe Moraes transformou mais um endereço clássico de bairro em hype, o Bar Europa. Relembre a história por trás de suas casas e conheça outros endereços imperdíveis Por Isabel de Barros Empresário e restaurateur, Ipe Moraes é o nome por trás dos restaurantes Adega Santiago, Taberna 474, Casa Europa e, há poucos meses, Bar Europa. Este último, um bar italiano com a mesma vibe característica de suas outras casas e que oferece crudos, pastas, chopp, cerveja, vinho e – a grande novidade – pizzas. Mas a especialidade de Ipe, além da cozinha Ibérica, que se baseia em receitas típicas de Portugal e Espanha, é pegar pontos antiguinhos e transformá-los em verdadeiros hypes. “Gosto de manter a vocação do ponto, a história. Na Taberna 474, que sempre foi um bar, inaugurado em 1950, só trabalhamos o conceito”, conta. Inspirados na novidade, relembramos os bastidores de seus principais empreendimentos.
ADEGA SANTIAGO
O primeiro Adega Santiago (são cinco no total), na Rua Sampaio Vidal, ocupa o lugar de uma antiga farmácia de bairro que, segundo Ipe, faliu com o forte crescimento das grandes redes de remédios. Em 2000, ele e seus sócios abriram um restaurante chamado Pharmacia focado em comida orgânica – muito antes de se falar nisso. O projeto foi fechado porque, segundo Ipe, “ninguém queria tomar sopa de beterraba à noite”. Cinco anos depois, surgia o Adega Santiago número um. @adegasantiago 136
O número 1! Ipe abriu seu primeiro negócio, o bar Flamingo, com dois sócios, em 1993, onde hoje é o bar Espírito Santo. “Ali funcionava uma floricultura, a rua era muito calma, não tinha comércio. Quando compramos, o terraço todo era de sapê. Não tínhamos grana, deixamos assim. Pintamos de rosa caiado e serviríamos comida simples, chopp. Foi um sucesso”. Após cinco anos, o Flamingo deu lugar ao Espírito Santo, que Ipe abriu e vendeu em 2009.
BAR EUROPA
O Bar Europa, novo empreendimento de Ipe, é onde funcionava o Bar do Zé. “Diferentemente do Leo, o Zé servia cerveja quente e dizia aos meus amigos: ‘Com cerveja quente vocês não vão embora, imagine se fosse gelada’. A gente apelidou o local de mesa de plástico – escrevíamos no grupo: ‘Hoje tem mesa de plástico’”, relembra Ipe, que pedia sempre um bauru. Ao se aposentar, o Zé ofereceu o ponto e o empresário arrematou mais esse, numa negociação sem contrato. “Com esses portugueses é tudo no fio do bigode, olho no olho”, brinca. @bareuropa
TABERNA 474
Em 2011, mais uma vez a história se repete: o Bar do Leo dá lugar à Taberna 474. O botequim de esquina do Leo, um português que, segundo Ipe, “servia cerveja estupidamente gelada”, era um sucesso entre moradores do bairro, o Jardim Paulistano, e trabalhadores da Faria Lima. “O Léo ficou doente e me ofereceu o ponto. Negociamos e fiquei com ele”, conta. @taberna474
RETROFIT DE BOTECO Essas transformações, ou “retrofit de boteco”, como Ipe apelidou, também acontecem em muitos outros lugares do mundo. Entusiasta do tema, ele indica dois endereços fora do Brasil que valem a visita
TABERNA DOLORES
FAZ FRIO
“Descobri esse bar em Madri durante uma pesquisa para os meus restaurantes, há 15 anos. Era agosto, calor absurdo. Vi uma taberna de esquina com azulejos e entrei. Pedi uma canhita, o garotinho deles, e chegou absurdamente gelada. O lugar era simples, poucas mesas e eu fiquei em pé pedindo chopps. No primeiro, veio uma batata chips. No segundo, uma azeitoninha. Conforme consumia, o aperitivo melhorava. Tempos depois, li num livro sobre tabernas antigas a história do La Dolores: um bar de 1908, que servia vinho e comida vagabundos. Em 1982, decadente, foi comprado pelo dono de um empreendimento ao lado. Ele manteve a estrutura e o nome, mas melhorou a comida e a bebida.” @tabernaladolores
“Tem acontecido muito em Lisboa esse retrofit de boteco. O comércio mudou, se sofisticou, há mais turistas. O Faz Frio era uma tasquinha super-rasgueira. Fui a primeira vez nos anos 2000 porque me falaram que o pastel de bacalhau, o bolinho de bacalhau deles, era bom. Cheguei e só tinha o dono e umas seis mesas. Sentei-me pedi uma Imperial, que é o chopp de lá, e o pastel de bacalhau. O português se recusou a me servir, pois era uma porção de seis unidades e eu não aguentaria sozinho. Naquele dia, comi as sardinhas — deliciosas —, tomei vinho e batemos papo. Anos depois, uma turma jovem comprou o ponto, o deixou transado e manteve o nome. Hoje, o local é bombado, com mesas na calçada e comida muito boa.” @fazfrio 137
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POR ELES E POR NÓS Ambientalista de longa data, Roberto Klabin indica iniciativas em prol da fauna e da flora – muitas delas sediadas dentro do seu refúgio ecológico no Pantanal – que precisam do apoio de todos para seguir com sua missão fundamental pela biodiversidade Por Roberto Klabin
Há 40 anos, o ambientalista Roberto Klabin decidiu transformar a fazenda que herdou de sua família no Pantanal em um refúgio ecológico com a missão de conservar a fauna, a flora e a cultura de um lugar que conheceu – e se apaixonou – ainda na infância. Em uma época em que o potencial econômico do destino era reduzido à pecuária, Klabin implementou um modelo pioneiro, que aliava ecoturismo, geração de conhecimento e pecuária extensiva de corte. Hoje, mais do que um hotel, a Caiman Pantanal é tida como um verdadeiro laboratório em prol do bioma. Além de suas próprias iniciativas, a fazenda de 53 mil hectares serve de base para organizações diversas, que realizam
ali seus estudos e pesquisas em prol de diferentes animais. “São projetos voltados ao estudo da conservação da espécie e da capacidade de refaunação tanto da área da Caiman como do seu entorno. Por meio deles, nosso objetivo é garantir que o Pantanal mantenha sua biodiversidade e criar corredores biológicos que facilitem o movimento desses animais e a beleza da área em geral“, conta Roberto. São iniciativas inspiradoras, que hoje ultrapassaram as fronteiras do Pantanal para atuar em diversas localidades. Mas que também dependem de doações para seguir mudando a realidade ao redor. A seguir, Roberto indica projetos relacionados à Caiman e em outras regiões para quem deseja contribuir com essa missão pelo planeta.
ONÇAFARI
Revolucionou a maneira de se apreciar a presença das onças na natureza por meio do projeto de habituação de onças a veículos. Graças à iniciativa, as onças são valorizadas, mais conhecidas e respeitadas. @oncafari
PROJETO ITATIAIA
Uma iniciativa que apoia a gestão do primeiro Parque Nacional criado no Brasil, o Parque Nacional de Itatiaia. Como papel fundamental, o fortalecimento da fiscalização e o uso público do local. @parquenacionaldoitatiaia 138
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PROJETO PRIMATAS
INSTITUTO ARARA-AZUL
Conseguiu multiplicar a população criticamente ameaçada desses animais na natureza por meio da oferta de ninhos artificiais, visto que os naturais rarearam. Esse projeto é o mais longevo na Caiman e, em seus 30 anos de existência, foi capaz de tirar a arara da categoria de extinção. @institutoararaazuloficial
Elaborada com a consultoria Sauá dentro da Caiman, a iniciativa visa entender onde se concentram e como se movimentam as populações de primatas na fazenda. Assim, é possível aumentar a resiliência dos locais habitados contra mudanças climáticas que, por meio dos incêndios, assolam o Pantanal. @sauaconsultoriaambiental
PROJETO PAPAGAIO-VERDADEIRO
PROJETO TAPIRAPÉ
Mais uma parceria da Caiman com o Onçafari. O projeto é dedicado às antas, o maior mamífero terrestre da América do Sul. A espécie é considerada o “jardineiro da floresta”, pois sua presença contribui para a propagação das sementes, mas está ameaçada pela caça e pela perda de habitat. @oncafari | @caimanpantanal
Outro parceiro de longa data da Caiman: na fazenda, eles estudam a concentração dessas aves e aumentam a oferta de ninhos (artificiais). A partir de campanhas de educação ambiental no Estado, alertam para o tráfico ilegal desses animais, vendidos como pets. A maioria dos papagaios apreendidos pela polícia morre e a espécie se encontra muito pressionada pela perda de habitat e presença humana. @projetopapagaioverdadeiro ASSOCIAÇÃO PEIXE-BOI
Localizada no Estado de Alagoas, no município de Porto de Pedras, a associação luta pela conservação de uma espécie criticamente ameaçada de extinção. É também uma iniciativa que envolve as comunidades locais, oferecendo geração de renda para mais de quarenta famílias que trabalham na Associação com o turismo de observação da fauna e educação ambiental. @associacaopeixeboi INSTITUTO TAMANDUÁ
Há mais de 20 anos, a organização estuda tamanduás (bandeira e mirim), tatus e bichos-preguiça na natureza. No Pantanal e na Caiman, além de inaugurar a sua base de estudos e apoio às espécies, acaba de ser aberto um hospital veterinário para atender os tamanduás e até outros animais que sofrem acidentes nas estradas ou são queimados em incêndios. @institutotamandua 139
Pá g inas am arel as
A VOZ DA PELE
Em plena expansão no mundo, a perfumaria de nicho atrai um mercado que busca muito além das fragrâncias – ele quer experiências sensoriais. Conheça marcas e movimentos dessa tendência Por Ana Paola Pollini
S
urgida na Europa, na metade do século XX, por meio de marcas como Diptyque, L’Artisan Parfumeur e Serge Lutens, a perfumaria de nicho só faz crescer. As projeções da Euromonitor International apontam que, até 2027, esse mercado deve movimentar R$ 6,8 bilhões, com crescimento de 89% desde 2022 – mais que o dobro do mercado de massa. Mas o que exatamente torna a perfumaria de nicho tão especial? Nascida do desejo de criar fragrâncias verdadeiramente originais e artesanais, ela simboliza exclusividade, criatividade e sofisticação. É o luxo que não se mede apenas pelo preço, mas pela experiência sensorial. No processo criativo, os perfumistas têm liberdade rara. Muitos não são exclusivos de uma marca, mas trabalham para as grandes casas de fragrâncias – como as suíças Givaudan e Firmenich, a alemã Symrise e a americana IFF – responsáveis por composições capazes de evocar desde a lembrança da casa da avó até o cheiro de chuva no verão. E já que o Brasil é o segundo maior consumidor de fragrâncias do mundo, em valor, atrás apenas dos Estados Unidos, fomos atrás de marcas e especialistas para saber mais do tema. AMOR ANTIGO Para Renata Ashcar, uma das maiores autoridades em perfumaria do País e autora do Guia dos Perfumes, a maior fatia do mercado brasileiro continua de olho em marcas mais populares. O que não impede que elas também olhem para questões como exclusividade: a Natura e O 140
Boticário, por exemplo, já investiram em linhas premium. Renata também vê com entusiasmo o surgimento de novas marcas nacionais: “Produtos de alta qualidade e grande originalidade – como os da Granado e da Amyi Perfumes – têm surpreendido o mercado externo e ampliado o reconhecimento da perfumaria brasileira”.
FORA DA CAIXA
Crítico de fragrâncias e criador de conteúdo, Esper Leon (@frangipaniperfumes) destaca uma marca que aposta em perfumes provocativos, feitos para desafiar o mercado: Etat Libre d’Orange A francesa cria justamente para contestar. Seu Secretions Magnifiques combina odores de suor, sangue e esperma para formar verdadeiras “instalações olfativas” – fragrâncias pensadas para serem sentidas, e não necessariamente usadas. Já o Sensual beira o ato sexual ao unir as flores brancas da virgem ao couro amadeirado e quente do toureiro.
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PARA MERGULHAR
Quem quiser conhecer mais a fundo o universo da perfumaria de nicho deve ficar de olho na Neeche. Com três lojas em São Paulo, a label apresenta uma curadoria cuidadosa de fragrâncias especiais, de marcas como Creed e Parfums de Marly. Evelyse Brito, sócia-fundadora, garante que há cada vez mais pessoas interessadas em descobrir as peculiaridades por trás de cada nota, entre ingredientes, processos criativos e perfumistas. @neechebr
NARIZ
Você sabia que existem cursos de avaliadores olfativos? E não é só: em 2025, as modalidades oferecidas na Paralela Escola Olfativa tiveram suas maiores turmas. Alessandra Tucci, fundadora do local, comenta a tendência analisada em sala de aula. “A perfumaria de nicho avança em três direções: autoria, qualidade e experiência. Em primeiro lugar, há uma forte revalorização do criador, e abre-se uma oportunidade para que o perfumista – agora de volta ao centro da narrativa – assine obras mais autorais e menos preocupadas em agradar a todos. Paralelamente, cresce a busca por ingredientes nobres, naturais e rastreáveis, impulsionada por consumidores mais conscientes e pelos avanços em extrações sustentáveis.” Para desvendar a jornada olfativa, o curso on-line “Ateliê de Criação”, para iniciantes, é a sugestão. @paralela_escola_olfativa
NO PÓDIO
Fundada em 2019, a Amyi foi pioneira no País ao criar perfumes autorais e 100% brasileiros. Para tal, oferece aos seus perfumistas total liberdade criativa e o mesmo nível de investimento das casas internacionais. Como resultado, seu perfume Amyi VIII, obra de Samuel Moraes, foi indicado ao The Art and Olfaction Awards cinco meses após o lançamento. Em seguida, vieram as menções nos relatórios da WGSN, reforçando o posicionamento da Amyi como uma beautytech inovadora. A ideia é também ajudar o público a entender mais do assunto, o que acontece por meio da Experiência Amyi, que reúne um kit de experimentação de perfumes de nicho e um minicurso on-line. @amyi_perfumes
ETERNO
Quando se fala em perfumaria, é impossível não citar a Granado – marca que, apesar de seguir se reinventando, preserva a herança da botica fundada em 1870. Há algum tempo, suas lojas invadiram a Europa e os Estados Unidos com uma brasilidade sofisticada. “O que mais surpreende os consumidores internacionais é o uso de matérias-primas que fogem do repertório tradicional com a presença de ingredientes típicos da flora brasileira”, explica Sissi Freeman, diretora de Marketing e Vendas da Granado. @granado
PARA FICAR DE OLHO
A nova Becquer, fundada por Fernando Skiarski e suas filhas, é o destaque brasileiro desse mercado. Artesanal, a produção é criada por “aromistas” em parceria com a IFF e envolve a mistura de fragrâncias – prática conhecida como layering. Já são quatro lojas em São Paulo e muitos planos de expansão, sem abrir mão do olhar autêntico e autoral. “O foco é a experiência, o sentir”, afirma Fernando. @becquerfragranceslab 141
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ROTA DO DESIGN Designer de interiores com vasta bagagem, Marcelo Mujalli traça, Brasil adentro, um mapa de feiras e eventos dedicados ao tema que não podem ficar de fora da agenda de 2026 Por Marcelo Mujalli Com mais de três décadas dedicadas ao design de interiores, construí uma trajetória pautada pela observação sensível, pela busca constante da excelência e pelo compromisso com a valorização da profissão no Brasil. Ao longo desses 30 anos, testemunhei transformações profundas no modo como habitamos, trabalhamos e nos relacionamos com os espaços. Depois de três anos como presidente da ABD – Associação Brasileira de Designers de Interiores, a entidade mais representativa do
setor, sigo como membro do Conselho Deliberativo, atuando de forma estratégica na construção de políticas, diretrizes e ações que impulsionam o design brasileiro. A seguir, destaco os eventos nacionais que venho acompanhando de perto e que são fundamentais para reforçar a importância do diálogo entre profissionais, indústria, varejo e educação. Entre feiras, mostras e experiências imersivas, o ano do design se desenha como um convite permanente à descoberta.
CASACOR
Uma plataforma fundamental para acompanhar novas linguagens, talentos emergentes e soluções criativas para espaços residenciais e comerciais por todo o Brasil. De 16 de julho a 6 de setembro.
DESIGN WEEK DW!
Um dos maiores movimentos urbanos de design do país. Por meio dele, pude acompanhar e incentivar a integração entre marcas, profissionais e o público. De 5 a 15 de março.
ABD CONAD
O maior congresso nacional da categoria é palco de discussões que moldam o futuro da profissão. Data ainda a confirmar. 142
EXTENSÃO
Além das grandes feiras, o calendário nacional se fortalece com a programação cultural de importantes lojas do setor. Ornare, BY Kamy e Artefacto Beach & Country promovem palestras, lançamentos e exposições que aproximam o público das novidades, oferecendo espaços de troca e atualização constante. E para quem circula pela capital paulista, recomendo fortemente uma visita à Galeria Metrópole, prédio icônico na Avenida São Luís, projetado na década de 1950 por Gian Carlo Gasperini e Salvador Candia. Ali, concentra-se um reduto criativo com o melhor da arte e do design em um ambiente vibrante, capaz de renovar repertórios e inspirar novos olhares.
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CAMPINAS DECOR
Um dos eventos regionais mais consistentes do país, que valoriza a arquitetura e o design de interiores no interior paulista. De 10 de abril a 7 de junho.
SALÃO RIO DE JANEIRO DE INTERIORES
É uma vitrine importante para tendências e expressões culturais que influenciam o morar brasileiro. De 11 a 13 de Agosto.
EXPO REVESTIR
A “Fashion Week da Arquitetura e Construção”. Considero uma referência em inovação e tendências de materiais. De 9 a 13 de março.
ABIMAD
Essa feira reúne o melhor do mobiliário e da decoração autoral brasileira, fortalecendo a conexão entre design e indústria. De 27 a 30 de janeiro.
SP ARTE
SEMANA CRIATIVA DE TIRADENTES
A área dedicada ao design brasileiro, com nomes independentes e projetos inovadores, vale a visita. De 8 a 12 de abril.
Um encontro inspirador entre tradição, artesanato e design contemporâneo, que celebra a brasilidade. De 15 a 18 de outubro. 143
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O VERDE ALÉM DAS P L A N TA S Dicas e achados do paisagista Alex Hanazaki para quem deseja adicionar pitadas mais orgânicas à casa – e à vida Por Alex Hanazaki
Mais do que escolher plantas e espécies verdes, o paisagista Alex Hanazaki (@alexhanazaki) constrói atmosferas. Referência no paisagismo contemporâneo brasileiro, à frente do escritório que leva seu nome – com projetos no Brasil e no exterior –, ele cria jardins residenciais, corporativos e hoteleiros que dialogam com arquitetura, cultura local e sensorialidade. Seu trabalho valoriza espécies nativas, soluções sustentáveis e uma estética sofisticada, resultando em jardins autorais que se fundem com o entorno e com o estilo de vida moderno. Para Carbono Uomo, Hanazaki compartilha uma curadoria pessoal de lugares e marcas que traduzem sua relação com o verde, o design e o bem-viver.
CASA SOUQ
Muito mais que uma loja, a Casa Souq é uma experiência estética completa. O espaço reúne roupas, objetos decorativos e peças de design com forte identidade artesanal e curadoria apurada. O grande destaque fica por conta do jardim inspirado no Marrocos (e assinado por Alex Hanazaki), que transforma a visita em um mergulho sensorial: texturas naturais, vegetação exuberante e uma atmosfera que mistura exotismo, aconchego e sofisticação. Um endereço para inspirar. @casasouqjardins 144
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ZANATTA CASA
Referência em cerâmica decorativa, a Zanatta Casa traduz a natureza em formas, cores e texturas. Suas peças têm estéticas atemporais, inspirações orgânicas e acabamentos impecáveis, funcionando como pontos de destaque na decoração outdoor. Vasos, objetos e esculturas que dialogam perfeitamente com o verde, trazendo equilíbrio, sofisticação e um toque artístico aos ambientes externos. @zanattacasa
FIAMMA VELAS
A Fiamma cria velas que vão além do aroma: são objetos de atmosfera. Com fragrâncias envolventes e elegantes, a marca oferece opções que transformam varandas, jardins e áreas externas em espaços ainda mais acolhedores. O serviço de personalização permite fazer velas sob medida, ideais para quem busca exclusividade e identidade olfativa. Um detalhe essencial para compor ambientes que despertam os sentidos. @fiammavelas VASOS DA TERRA
A Vasos da Terra se destaca por sua linha de vasos grandes, de estética contemporânea e acabamento sofisticado. As peças valorizam formas orgânicas, proporções equilibradas e materiais que dialogam diretamente com a natureza. Perfeitos para jardins, varandas e áreas externas, as criações funcionam como verdadeiros elementos escultóricos, elevando o paisagismo e dando personalidade aos espaços. @vasosdaterra
MERCADÃO DAS FLORES
Para quem ama jardinagem, paisagismo ou arranjos florais, o Mercadão das Flores é parada obrigatória. O espaço reúne diversos fornecedores especializados, oferecendo uma ampla variedade de plantas, flores, insumos e acessórios para todos os tipos de projetos – dos simples aos mais elaborados. É o lugar ideal para explorar espécies, descobrir novidades do mercado e se conectar com o universo verde de forma prática, criativa e acessível. @mercadaodasfloressp 145
R E G U L A R A N I M A L S , 2 0 2 5 | Meio escultura, meio ficção científica, os robôs metálicos de Beeple
NÓS, ROBÔS Na edição 2025 da Art Basel Miami Beach, que aconteceu no começo de dezembro, o artista digital Mike Winkelmann, mais conhecido como Beeple, apresentou Regular Animals, uma instalação híbrida – parte escultura, parte ficção científica – que se tornou um dos momentos artísticos mais comentados do ano. Robôs metálicos com cabeças hiper-realistas inspiradas em grandes nomes da tecnologia e da arte encenavam, com humor ácido, a forma como líderes culturais e digitais moldam nosso imaginário coletivo. Mais do que um espetáculo visual, Beeple propôs uma reflexão urgente: até que ponto já nos tornamos personagens submissos de um mundo mediado por algoritmos? A obra escancarou o fato de que nos rendemos ao digital não apenas como ferramenta, mas como lente dominante, capaz de definir desejos, comportamentos e até noções de beleza e poder. Em Regular Animals, o artista devolveu ao público um espelho desconfortável: não são os robôs que imitam os humanos. Somos nós que incorporamos, diariamente, gestos, ritmos e expectativas ditadas por máquinas. Em uma era em que o real e o virtual se colidem sem fricção, a instalação reafirmou a necessidade de questionarmos quanto de nossa autonomia permanece intacta. Uma obra que encerra o ano nos lembrando de que o futuro já chegou – e que negociar nossa humanidade se tornou parte do debate contemporâneo. @beeple_crap 146
Fotos Alessandra Tucci, Bia Nauiack, Devian Zutter, Diogo Lucatelli, Edu Fragoso, Fred Fernandes, Glaucia Seixas, Helena Rubano, Lucas Rosin, Thays Bittar, Thiago Brito e divulgação
Pá g inas am arel as
Curiosamente, tudo o que construímos acaba se tornando um carro esportivo. NOVO CAYENNE TURBO ELÉTRICO. PORSCHE. THERE IS NO SUBSTITUTE.
Desacelere. Seu bem maior é a vida.
CONFIGURE O SEU.