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“CÁRCERE” Um Roteiro De Barbara Lassance e Manuela Monjardim

STORY LINE Tairo, empresário e alpinista nas horas vagas, decide explorar cânions novos sem levar qualquer aparelho de comunicação. Após descer em uma fissura, seu braço direito fica preso sob uma pedra de cerca de meia tonelada. Ele passa seis dias no cânion


entre fome, sede e supostas alucinações, culminando na única saída para sobreviver: amputar-se. Inspirado em fatos.

PERSONAGENS TAIRO Tem 32 anos de idade, empresário, que tem como hobby fazer escaladas. No entanto, ele não é iniciante no assunto e possui bastante experiência. Ele usa esse hobby para escapar das pessoas, se arriscar e se sentir mais vivo. Desde a morte do irmão – da qual se sente culpado, ele se tornou mais solitário e não deixa as pessoas se envolverem na sua vida. É calado e orgulhoso; nunca cedia a opinião para ninguém, nem nas discussões com o irmão, por quem tinha grande admiração apesar dos conflitos. IRMÃO O irmão de Tairo tem 40 anos, é arrogante, confiante e cheio de si. Vê-se como figura protetora do caçula, apesar de expressar issoduramente. Morreu em decorrência dos problemas com bebida. VOZ Não possui corpo físico. De caráter duvidoso, pode representar uma entidade maligna que se manifesta na fraqueza de Tairo, seu próprio irmão, ou uma alucinação do alpinista que se dá nessa forma. Inicialmente oferece conselhos, mas se apresenta a fim o fazer desistir de sobreviver e/ou enlouquecê-lo.

1.INT./SALA DE TAIRO/ DIA Tairo mostra expressão concentrada. Veste uma camisa branca por cima de uma regata azul, bermudas de ciclismo e passeio, uma por cima da outra, pochete, meias brancas e tênis surrado de corrida. Nas costas, está uma pequena e magra mochila (camelbak) da qual sai uma pequena mangueira que se pendura nos seus ombros, caindo em frente ao peito. Ele está em frente à mesa de jantar, colocando objetos em uma mochila de cinquenta litros. Busca coisas pela sala, todas próximas dele. Em um aparador, vêem-se latas empilhadas ao lado de três garrafas de um litro de água. Cordas, mosquetão, freios, mapas e outros


equipamentos estão ao lado da mochila. Ele coloca as provisões de alimentos primeiro e, depois, os equipamentos. Restam sobre a mesa joelheiras, lanterna de cabeça, luvas, mochila de hidratação, canivete, alicate e um saquinho com pó branco. Tairo veste os itens. Coloca a mochila grande por cima da Camelbak de modo que, mesmo assim, a mangueira fique livre e móvel. Um close mostra Tairo colocando o saquinho, o canivete e o alicate em sua pochete. A cena mostra toda a sala, com um aparelho celular em primeiro plano. Tairo está pronto, com a mochila nas costas. Ele olha pela sala com olhar inquisitivo e se vira para a porta. Logo, torna a olhar para trás, focando diretamente o aparelho celular. Tairo então volta para a porta e sai do apartamento.

2.EXT./ TRILHA/ DIA Tairo está correndo de bicicleta por uma trilha descampada. O vento bate contra seu rosto, ele parece está animado; sorri em meio à expressão de esforço. Ele passa por uma abertura no solo que chama sua atenção, para a bicicleta e volta até o local.

3.EXT./ BEIRA DO CÂNION/ DIA Tairo vê-se em frente à abertura no solo. Desce da bicicleta e observa o seu interior. Por dentro, o cânion é estreito, mas possui espaço suficiente para um homem ficar em pé e se mover. Tairo empurra sua bicicleta até uma rocha e a deixa encostada lá. Ele volta para a beira da fissura, observa concentrado durante algum tempo a mais, a profundidade não passa de 10 metros. Abre sua pochete, pega um saquinho com um pó branco e despeja nas mãos, esfregando-as. Quando termina, Tairo devolve o saco à pochete e fecha-a. Ele tira a mochila das costas e a joga cânion adentro. Em suas costas resta a Camelbak.

4.INT./ FUNDO DO CÂNION/ DIA A mochila cai a alguns metros de uma pedra presa entre as paredes do cânion, a uns três metros do chão.

5.EXT./ BEIRA DO CÂNION/ DIA Tairo se põe a descer, sem equipamentos, a parede do cânion. Procura apoios para os pés e mãos, sempre mantendo três pontos do corpo apoiados. A uns três metros do fim da descida, Tairo vê adiante uma pedra presa entre as paredes do cânion. Ainda com três pontos de si


seguros, ele usa a ponta do pé esquerdo para testar a pedra. Dá pequenos empurrões que parecem mover muito pouco a pedra. Desliza até ficar de cócoras sobre ela. Ele se segura à pedra com os dois braços para trás e começa a esticar as pernas devagar a fim de encontrar o chão com os pés. A parte de trás da pedra começa a levantar quando ele faz isso. Tairo olha assustado. FADE OUT. Tela preta. Segue um estrondo de coisas caindo e um grito. Silêncio.

6.INT./ DENTRO DO CÂNION/ MEIO DA TARDE Lettering no canto esquerdo inferior da tela: “Dia 1”. Som de bipe de relógio. Câmera subjetiva na visão de Tairo. Ele começa a abrir os olhos lentamente. Pode-se ouvir sua respiração pesada. Vê a parede do cânion em sua frente e um pedaço de um céu que entardece. Por uma vez, fecha os olhos totalmente e quando os abre novamente, ele está olhando para a direita, onde uma pedra enorme de cerca de meia tonelada está sobre o final de seu pulso e sua mão. FADE OUT. Câmera objetiva. Tairo está sentado em um ambiente que deixa pouco espaço para as suas pernas, não é possível que as estique. Ele está um pouco torto e olha para a direita, onde seu braço está preso pela pedra. O lugar está parcialmente iluminado por uma luz quente, amarelada e cobre parte de seu corpo. É possível ver sua respiração forte pelo movimento do peito e ouvi-la. No quadro, Tairo está de frente, com parte da pedra aparecendo e, consequentemente, seu braço. Ele está com uma expressão apavorada e estática, olhando fixamente para o seu braço. Ele leva o braço esquerdo até próximo de seu pulso direito e começa a tocá-lo. Ao primeiro toque, reage à dor com um grito. O espaço entre a pedra e a parede, onde sua mão está, é extremamente pequeno, deixando claro que uma forte compressão é exercida. As pontas dos dedos tocam uma pele que já se mostra arroxeada. Na parte visível em que a pedra encontra a pele, há um pouco de sangue. Tairo deixa de olhar para seu braço, ofegante, com expressão de dor. Encosta sua cabeça contra a pedra e encara o alto, apenas respirando. Então, com o braço esquerdo, pega a mangueira da


Camelbak que se pendura por sobre seu ombro, destampa-a, leva a boca e suga a água ávida e rapidamente. Em poucos segundos já se pode ouvir o ruído da mangueira encontrando ar e algumas poucas gotas de água. Cospe a mangueira, respira fundo de olhos fechados. Ao fim da sua expiração, arregala os olhos com uma expressão assustada. TAIRO (assustado e nervoso) Puta que pariu! Lá se vai 1/3 da porra do meu estoque de água. Imediatamente, Tairo começa a tatear sua pochete em busca de algo. TAIRO (com um suspiro) Putz!

7.INT./SALA DE TAIRO/DIA (flashback da 2ª cena) Mostra toda a sala, com um aparelho celular em primeiro plano. Tairo está pronto, com a mochila nas costas. Ele olha a sala com olhar inquisitivo e se vira para a porta. Logo, torna a olhar para trás, focando diretamente o aparelho celular. Ele então se volta para a porta e sai do apartamento.

8.INT./DENTRO DO CÂNION/MEIO DA TARDE Tairo dá um grito quase gutural e sacode o corpo, o que machuca seu braço e arranca outro grito. Ele então começa a empurrar com força a pedra com o braço esquerdo. O esforço lhe arranca um grunhido. FADE OUT.

9.INT./DENTRO DO CÂNION/MEIO DA TARDE Tairo abre sua pochete e pega seu canivete de lá. Tira a faca e se põe a tentar cavar a parede do cânion ao redor de seu braço. FADE OUT.

10.INT./DENTRO DO CÂNION/ ENTARDECER


Tairo ainda está cavando com seu canivete. A luz alaranjada do final da tarde tomou o ambiente. Ele parece cansado, está suado e ofegante. FADE OUT. Continua cavando a parede. Pode-se ver que tudo que ele conseguiu produzir foram alguns riscos na parede. Tairo arfa, grunhe e desiste de cavar. Começa então a gritar por socorro, a plenos pulmões. FADE OUT.

11.INT./DENTRO DO CÂNION/CREPÚSCULO Ainda chama por socorro, mas sua voz agora é fraca e suas palavras soam mais como balbúcias. Ele intercala esses pedidos com pequenas caídas no sono. Logo, cede e dorme. FADE OUT.

12.INT./DENTRO DO CÂNION/DIA Lettering no canto esquerdo inferior da tela: “Dia 2”. Som bipe de relógio. Tairo está dormindo com a cabeça encostada na pedra. A luz da manhã se aproxima de seus olhos até atingi-los. momento, pisca os olhos com força. Parece cansado, pálido, e com dor. Ele estala a língua na boca, expressando sede.

de clara Nesse fraco

TAIRO (Falando baixo) Preciso de água... Ele olha ao seu redor. A mochila é mostrada em primeiro plano, as paredes do cânion formam uma moldura, Tairo e a pedra estão no fundo do plano. Ele encara a mochila, que está longe de seu alcance. VOZ Parabéns! Mais jogada! Por que mata, logo?

uma você

(jocosa) grande não se


Tairo, balançando a cabeça, ainda olhando para a direção da mochila, pondera: TAIRO Não está tão longe, eu ainda posso alcançar. VOZ Claro! Você sempre pode se levantar, pegá-la e sentar de volta, não é? Ele tenta esticar o braço esquerdo, mas seu movimento não é o suficiente para alcançá-la. Ele grita de dor e volta rapidamente à posição original. VOZ (condescendente) Deixa isso pra lá, por ora. Estabeleça prioridades. O que você tem no corpo? E na mochila? Quanto tempo de vida? TAIRO (pensativo) Comigo, tenho um canivete, um alicate, pó de magnésio e a lanterna na cabeça. Na mochila, duas latas de comida, cordas, equipamentos e dois litros de água. Uma pessoa saudável pode viver até seis dias sem água, semanas sem comida. VOZ Sim, seis dias, em temperatura agradável e situação extremamente confortável. Exatamente seu caso! TAIRO Um homem, sob o calor, pode perder até 1,5 litro de água por dia. Tenho dois litros sobrando. A essa altura, eu já devo ter suado toda água que bebi e mesmo que alcance a mochila...quanto tempo até alguém me achar?


VOZ Considerando que um braço parcialmente esmagado não caracteriza uma pessoa exatamente saudável... TAIRO Devo morrer desidratado. Isso se não morrer de alguma hemorragia, falência pancreática, infecção... Deus sabe quanto tempo eu vou ficar aqui, posso morrer de desespero, até onde eu sei. VOZ Você não tem chance. TAIRO (resignado) Nenhuma.

12.INT./DENTRO DO CÂNION/NOITE A luz da noite ilumina fracamente o cânion e Tairo, que está de

A câmera enquadra um fio de água e acompanha seu movimento, que termina por encostar-se à perna de Tairo. O quadro só mostra um pedaço da sua perna cabeça

baixa.

e a água começa a acumular rapidamente, até formar uma poça. Close no rosto abaixado revela que ele está dormindo e não percebeu o acúmulo de água. O plano mostra o outro lado do cânion, escuro no fundo, mal iluminado pela luz da noite no início. Um estrondo fortíssimo de água precede uma grande quantidade da mesma que sai da escuridão do fundo do cânion e invade a parte clara como uma onda. Tairo levanta o rosto rapidamente e olha para a esquerda assustado. Encolhe o corpo e levanta a mão esquerda para proteger o rosto. A água o atinge logo depois que ele faz isso. FADE OUT. O nível da água já atinge a metade do corpo sentado de Tairo e sobe rapidamente. Ele, molhado, começa a buscar ar, sacudindose, gritando, batendo a mão na água e olhando para os lados, assustado.


FADE OUT. Um plano mais próximo mostra o rosto desesperado de Tairo e a água, logo abaixo de seu queixo. FADE OUT. A água o cobre totalmente. Ele levanta o nariz, que fica para fora da superfície, buscando por ar. Os sons que antes eram de água se movendo e caindo são substituídos por sons de movimentos dentro d´agua. FADE OUT. Tairo está completamente submerso. Ele se volta para a mão presa e tenta puxá-la, o que resulta em várias bolhas e barulhos de ar perdidos dentro d'água. FADE OUT. Tairo está parado, dentro d'água, olhando o infinito, com o braço, cabelo e roupas boiando. VOZ Então é isso. Finito.

13.INTERNA/DENTRO DO CÂNION/DIA Tairo acorda com um sobressalto, tentando sugar todo o ar de uma vez. Assustado, respira rápido, olhando para todos os lados e para sua roupa. Está seca. Ele encosta a cabeça na parede. O sol bate em todo seu corpo. Lettering no canto esquerdo inferior da tela: "Dia 3". Som de bipe de relógio. Sua aparência está péssima. Pode-se ver além da altura da pedra, no seu braço, uma mancha negra arroxeada. Ele está suando, respirando rapidamente. Suas pernas dão pequenos espasmos e ele pisca muito. TAIRO (fraco) Preciso pegar essa mochila. A mochila em primeiro plano, Tairo e a pedra estão no fundo do plano a alguns poucos metros dela. Ele encara a mochila. Estica a perna esquerda na diagonal, empurrando seu tronco para o lado oposto. Ele estica o pé e tenta encostar-se à mochila que está


com as alças viradas para ele. A ponta do tênis raspa a ponta de uma das alças. Ele faz mais uma tentativa de esticar seu corpo, o que lhe arranca um grito, mas não o aproxima mais. Ele está ainda mais suado e ofegante, então para nessa mesma posição para descansar. Joga a cabeça para trás e respira. FADE OUT. Vê-se que algum tempo passou, embora ainda seja dia, pela cor da luz que cobre o cânion. Tairo começa a se movimentar. Ele abre sua perna esquerda de modo que seu pé fique ainda na diagonal, mas totalmente no chão. O movimento não é muito natural e Tairo fica com uma aparência torta, além de claramente estar sentindo dor. Ele então começa, lentamente, a bater o pé no chão tentando acertar o pedaço de alça que está ali. Depois de algumas tentativas ele acerta e, com a ponta do pé, puxa o pedaço de alça para uma distância mais confortável. Quando consegue, ele enfia o pé por dentro da alça até que ela fique por cima de seu tornozelo. Então, meio desajeitado e rapidamente, ele puxa a mochila contra si. Nesse movimento, a mesma, que estava um pouco aberta, deixa uma garrafa de água cair e rolar contra a parede, ainda mais distante de onde a mochila estava antes. Tairo fecha os olhos e respira fundo. VOZ Mais uma jogada de mestre do Tairo! Com a mochila ao seu lado, Tairo tira outra garrafa lá de dentro, prende-a entre as pernas, abre e a segura ao mesmo tempo em que segura a tampa. Em seguida dá um grande gole, com prazer. VOZ Você deveria racionar isso, não? TAIRO (fala Foda-se.

jocoso,

lentamente)

14.INTERNA/ DENTRO DO CÂNION/ DIA Lettering no canto esquerdo inferior da tela: "Dia 4". Som de bipe de relógio. Tairo acorda abraçado com sua mochila. Sua aparência está ainda pior. Ele tira a garrafa de dentro da mochila, prende-a entre as pernas, abre e a segura ao mesmo tempo em que segura a tampa. Vira a garrafa na boca, a enche de água e fica com as bochechas infladas por alguns instantes antes de engoli-la. Em seguida joga um pouco de água no rosto. Fecha a


garrafa e a guarda. Ele só tem um pouco de água agora. Então, olha para o seu braço e começa a chorar. TAIRO Ai, meu Deus, me tira daqui, por favor! Eu faço o que for preciso. Eu me batizo, eu pago promessa, mas me tira daqui! Pelo amor de Deus, eu preciso sair daqui. VOZ Acho que Deus não está te ouvindo, Tairo, ou pelo menos não vai ajudar. Quer dizer, se existisse um Deus e Ele fosse atender suas preces para sair daqui, não seria meio contraditório, já que foi Ele quem te jogou aqui, a princípio? TAIRO Que seja! Que o Diabo me tire daqui, qualquer um! Deus, eu daria qualquer coisa para sair daqui. Eu daria a maldita da minha alma para sair daqui. VOZ (extremamente jocosa) Isso sempre pode ser arranjado, Tairo. Só depende de você. Tairo fecha os olhos e respira fundo. Pega a garrafa e bebe todo o restante. VOZ Isso mesmo. Mas, se você não quer uma morte express, pode aproveitar essa garrafa, mijar aí dentro e prolongar um pouco seu tempo para agradar essa sua esperança e restinho de fé que eu sei que você tem. Tairo faz uma cara enojada, mas balança a cabeça em concordância. Ele olha para baixo e ouve-se um barulho de zíper abrindo. FADE OUT.


15.INTERNA/ DENTRO DO CÂNION/ ENTARDECER Tairo acorda de um dos seus espasmos. Sempre ofegante, sempre tremendo, sempre suado. TAIRO Preciso comer. Ele busca na mochila e tira uma lata de comida. Prende a lata entre as pernas, como fez com a garrafa, e começa a procurar algo em sua pochete. Ele tira seu canivete e, usando a perna como apoio, puxa a parte de abrir latas. Mas suas mãos tremem e quando ele tenta pressionar o abridor contra a lata, ele escorrega, arranha, mas não perfura. Tairo desiste frustrado e guarda as coisas. VOZ Precisando Tairo?

de

uma

mãozinha

aí,

Tairo revira os olhos em resposta.

16.INTERNA./DENTRO DO CÂNION/NOITE Como sempre, durante a noite, a luz do luar ilumina fracamente o cânion. Tairo está dormindo, parece quase em transe. O corpo suado, inquieto, tendo pequenos espasmos nas pernas e braços. Balbucia. Ele acorda procurando por ar, enxuga o suor da testa e olha para o braço machucado. Expressa dor e tristeza profundas. Joga a cabeça para trás, encostando-se à parede, suspira e olha para a esquerda. Nesse momento, Tairo vê no fundo do cânion um vulto negro, de aproximadamente um metro de altura. Ele parece ter olhos cor de âmbar, visíveis apesar da pouca luz. Assemelha-se a um grande lobo, sentado. Tairo se assusta com um sobressalto, mas não faz barulho. Mantém os olhos fixos no vulto, enquanto tateia a lanterna na cabeça. Demora a encontrar o botão e, quando o acha, a luz não acende. Ele desvia o olhar do vulto para se concentrar na sua tarefa. Tairo estapeia a lanterna, a luz vacila, fixa uma vez, mas muito fraca para iluminar qualquer coisa e, após outro tapa, funciona. Tairo – nervoso, tremendo e suando – direciona a cabeça para o local onde o vulto estava. Quando o facho de luz atinge, não há mais nada ali. Ele larga a cabeça na parede da pedra, fazendo a lanterna apagar. Pode-se ouvir sua respiração ofegante, extremamente alta.


VOZ: Que é que há, velhinho? perdendo a cabeça?

Close no rosto de Tairo, que arregala os olhos.

17. FLASHBACK. INTERNA/ ESCRITÓRIO/ DIA Em uma sala de escritório, um Tairo mais jovem está aflito, andando de um lado para o outro. Um homem mais velho, seu irmão, está sentado atrás de uma mesa, com os pés sobre ela. Ao lado, um copo cheio de uísque. Com a mão direita ele segura uma caneta, que está mordiscando, e com a outra mexe o gelo da bebida com a ponta do dedo. Parece sereno, porém com ar arrogante e divertido. Plano americano no homem. IRMÃO E ai? Tá perdendo a cabeça? Plano americano no Tairo. TAIRO (impaciente) Dá um tempo, cara. Olha a merda que eu tô. Plano americano no homem. O homem largando a caneta, e olha

endireita-se na poltrona, fixamente para Tairo.

IRMÃO Qual é, eu sou seu irmão mais velho. Me escuta. Primeiro: calma. Andar de um lado para o outro não vai resolver o problema. Você pegou o carro do pai porque quis. Se você não viu o cara atravessar a rua, tanto faz agora. A responsabilidade é sua. Vai ter que pagar as consequências... e sozinho. Não entrou nessa sozinho? Vai sair dessa sozinho. É assim que funciona. É bom que você aprende que, lá fora, no grande mundo mau, não tem papai e irmãozinho mais velho pra resolver suas merdas,


não. Aprende agora a se virar o quanto antes, que vai ser melhor pra você. Tairo olha com desdém para ele, sem responder. Seu relógio faz um bipe, mostrando que entrou nova hora. Ele o olha e volta a encarar o irmão. TAIRO Tenho que ir. Tairo sai da sala, deixando o irmão atrás da mesa, parecendo tenso.

18.INTERNA/ DENTRO DO CÂNION/ DIA Lettering no canto esquerdo inferior da tela: “Dia 5”. Som de bipe de relógio. Tairo está largado contra a parede do cânion, com a mesma aparência ruim. Pálido, com a boca rachada. Seus olhos secos e fundos se fixam em um ponto no infinito. Seu corpo continua tendo reações espasmódicas. Ele pisca lentamente. Tira de dentro da mochila a garrafa que agora contém uns 300 ml de urina. A observa por uns segundos,destampa-a, cheira o bico e expressa nojo. Hesitante, dá goles rápidos, com os olhos comprimidos. Imediatamente tem ânsia de vômito, mas se controla. VOZ Francamente, Tairo. Bebendo mijo pra aumentar sua estadia no maravilhoso Cânion Morte Certa. TAIRO (sem forças) Foi você que sugeriu! VOZ Eu não estava falando sério! Imagina! Além de morrer de hemorragia, o babaca adotou uma dieta de bebeção de mijo pra passar o tempo. TAIRO (sem forças e arfando) Cala a boca, cara. Cala essa boca. VOZ


Oh, você está tentando chorar? Mas que piada, cara. Você tá seco. Não tem lágrima mais. Depois dessa, nem seu mijinho precioso pode ajudar. Lamentável. TAIRO Que se foda. E daí se eu morrer? Melhor. Acaba com essa merda logo. VOZ (deboche) Ta entregando os pontos, velhinho? Caiu a ficha de que não tem saída? Essa foi rápida! Tairo não responde. Ele olha para a garrafa na qual ainda resta urina e a joga para o lado. Com a cabeça encostada na parede, pega o canivete na pochete e começa a riscar de forma mecânica a pedra sobre seu braço. Quando se afasta para observar seus rabiscos, vê-se o escrito: “TAIRO MARPHIN 1977  2009 – RIP, Idiota”.

19.INERNA./DENTRO DO CÂNION/NOITE Tairo está assustado. Olhando fixamente para frente, ele volta a tentar acender sua lanterna de cabeça. Ela acende, mas como da outra vez, claramente, não está segura. Ele direciona o facho de luz para a esquerda. A luz ilumina o grande lobo que está mais próximo dele do que antes, e em pé. Tairo solta um grito, sua lanterna apaga. A escuridão é total. Ruído de luz acendendo. A lanterna funciona: o lobo está andando e está pertíssimo de Tairo. Novamente apaga. Close em Tairo. A lanterna acende mais uma vez e o lobo arfa alto, com o focinho do lado do rosto de Tairo. Ele grita. Corte seco. Tela preta. Lettering no canto esquerdo inferior da tela: “Dia 6”. Som de bipe de relógio.

20.INTERNA/DENTRO DO CÂNION/DIA FADE IN. Tairo acorda, embora esteja péssimo, sua atitude está mais firme e o semblante menos triste.


VOZ Bom dia, velhinho. Tairo não reage. Ele mexe em sua mochila em busca de algo. Tira de lá duas cordas e as coloca sobre o colo. Da pochete ele tira o canivete, o alicate e o pó de magnésio. VOZ (mais alta, levemente irritada) Que foi, não vai me incluir nos planos para o dia? Qual a ideia genial de escapada? Tairo dá uma risada como resposta. Joga o pó de magnésio na mão, a esfrega para espalhar. Pega uma das cordas e começa a enrolála ao redor do antebraço, pouco depois do cotovelo. VOZ Que porra é essa, cara? Deixa de doideira. Quem sabe alguém ainda passa por aqui? Tairo está com uma expressão divertida no rosto. Dá um nó apertado na corda. Várias vozes confusas começam a falar de modo incompreensível. Ao ouvi-las, Tairo começa a rir. VOZ Você tá louco, cara. Não vai dar certo. Vai só aumentar sua dor, acelerar sua morte. Não era isso que você queria, era? Você quer sobreviver! A voz grita e se mistura as outras vozes. Tairo move seu corpo um pouco para frente. O seu rosto está estranhamente animado. Volta, se joga novamente para frente e para baixo, com força e velocidade. Olha para o alto. Um ruído como o de um grande galho partindo ecoa seguido por um grito-gargalhada de Tairo, que se sobrepõe às vozes cada vez mais agitadas. Arfando e rindo, ele abre o canivete. TAIRO Você vê, irmão. Aquele lobo... estou pronto pra morrer de várias formas... quase todas, na verdade, mas comido por um cachorro? Então, com todas as opções de mortes lentas e dolorosas em mente, meus


sonhos me mostraram a solução. Eu tenho a faca e o braço, se me permite o trocadilho. Uso uma corda como torniquete, a pedra, minha querida, como alavanca para quebrar o osso. E quando eu chegar aos tendões: tenho o alicate! E o pó de magnésio, pra não escorregar a mão no trajeto. Se eu morrer, nessa altura, vai ser por sangrar demais e aí tudo bem... vou estar morto, o cachorro pode vir. Pouco me importa. Tairo encosta a faca em seu braço agora negro-azulado e aperta. Sangue escuro e viscoso brota dali. Completamente suado, sorri. Ele está de costas para a câmera, ri, balbucia, faz movimento de vai e vem. As vozes ficam mais altas. Seu movimento se acelera e ele ri cada vez mais histérico. Ele coloca o canivete ensangüentado sobre seu colo. Sua mão está coberta de sangue. Pega o alicate. As vozes continuam, as suas risadastambém, mas logo se pode ouvir, sobre esses sons, o ruído de algo duro e orgânico sendo cortado e um estalo a seguir, duas vezes. Tairo devolve o alicate para o colo e pega o canivete de volta, sempre rindo. Tairo, ainda de costas, deixa o canivete cair no chão. Ele puxa o corpo para trás fortemente, a certa distância da pedra. As vozes param. Ele não ri mais. Tira a camisa com a mão esquerda, a enrola na ponta do braço. Pega a corda que restava em seu colo e a prende sobre a camisa no braço. FADE OUT. Pedra ao fundo. Tairo está de pé, de frente. Rosto, bermuda, pernas, sujos de sangue. Ele segura com a mão esquerda o braço direito, sem mão, enrolado com cordas e uma camisa branca manchada de sangue vivo. Ele está sério e cadavérico.

21.EXTERNA/ TRILHA/ DIA Plano geral mostra Tairo de costas, andando. FADE OUT.


Em outra parte da trilha, um casal de alpinistas com mochilas está com ele. Tairo está ajoelhado, a mulher está ao seu lado, com uma mão nas suas costas e outra oferecendo uma garrafa de água. O homem está de pé, olhando em outra direção, falando no celular. A cena, vista do alto, mostra os três e o grande espaço de trilha, sem ninguém mais ao redor. Logo depois se vê, quando o plano amplia um pouco mais, não muito distante dali, uma bicicleta, encostada numa rocha e uma pequena fissura próxima dela. FADE OUT.

22.INTERNA/ SALÃO DO HOTEL/ DIA Plano geral mostra Tairo em um palco, com uma platéia cheia, sentada em mesas à sua frente. Parece forte, saudável e feliz. Ele usa uma prótese no braço direito. Atrás dele, um pôster com a foto dele e o título: “Extremo – como sair são e salvo das piores situações”. TAIRO (animado) Então é isso, pessoal. Obrigado por virem. A sessão de autógrafos vai ser daqui a meia hora. Espero vocês lá. E lembrem-se: em qualquer situação que você estiver, não se esqueça: há sempre uma saída! As pessoas começam a se movimentar e a conversar entre si. A câmera acompanha Tairo descer do palco, ir até o bar do salão, se sentar. O bartender serve um copo de uísque para ele. Close no copo. FLASHBACK INTERNA/ESCRITÓRIO/ /NOITE O irmão mais velho está deitado no chão. Há vômito próximo ao seu rosto, um copo de uísque está jogado próximo de sua mão. Ruídos de alguém batendo à porta. Tairo, jovem, arromba a porta e entra correndo ao encontro de seu irmão. Tairo o puxa contra si, o corpo do irmão está mole. INT./BAR DO SALÃO DO HOTEL/DIA Plano americano frontal. Tairo está movendo o gelo no copo com a ponta do dedo indicador esquerdo. Close no rosto de Tairo. Alguém fala com ele, mas o close permanece.


VOZ Dia difícil, Sr. Marphin? TAIRO (resignado) Turnês são difíceis. Tairo olha para o lado. O plano abre e não há ninguém ao seu lado. VOZ ”Extremo – como sair são e salvo das piores situações – um guia de bolso”. Rá, boa essa. São e salvo. Imagina se alguém descobre, hein, velhinho? Tairo está olhando fixamente para frente. Ele solta uma risada curta, debochada, sem sorrir. Estende o copo em brinde e bebe encarando o nada. Lettering no canto esquerdo inferior da tela: “Dia 345”. Som de bipe de relógio.

FIM

Cárcere  

Tairo, empresário e alpinista nas horas vagas, decide explorar cânions novos sem levar qualquer aparelho de comunicação. Após descer em uma...

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