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O Herege do 3º Reich

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José Matias

O Herege do III Reich

São Paulo -2009


Dados Internacioais de Catologação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Matias, José . O herege do III Reich/ José Matias. - São Paulo: All Print Editora, 2009. 1. Ficção brasileira. I.Título. 09-06378

CDD - 869.93

Índices para catálogo sistemático: 1. Ficção : Literatura brasileira 860.93

O HEREGE DO III REICH Copyright 2009 © José Matias O conteúdo desta obra é de responsabilidade do autor, proprietário do Direito Autoral.

Proibida a venda e reprodução parcial ou total desta obra sem autorização. Contato com o autor: E-mail: jornalcaldense@yahoo.com.br

ISBN 978-85-7718-439-2 Capa, projeto gráfico, editoração e impressão:

www.allprinteditora.com.br info@allprinteditora.com.br (11) 2478 3413 IMPRESSO NO BRASIL PRINTED IN BRAZIL


O milagre

Um milagre é uma coisa admirável. Nesse caso, tudo é milagre. A ordem prodigiosa da natureza, a rotação de cem milhões de globos ao redor de um milhão de sóis. A atividade da luz, a vida dos animais, constitui perpétuos milagres.

François-Marie Arouet


O programa Roda Viva, do Canal 6, reprisava a entrevista com Monsieur Charcot Dupont sobre a teoria da libertação e a faculdade livre, dirigida por ele, no sul da França. O apresentador conduzia apenas os inícios e as paradas dos blocos para os comerciais. Os jornalistas, convidados especiais, intercalavam as perguntas, com conteúdos profundos para leigos. Ele respondia em sua língua nativa, o francês, seguido de subtítulo. O filósofo contemporâneo falava da nudez de Deus, e mostrava o declínio das igrejas, mesmo com o crescimento vertiginoso e repentino de algumas denominações religiosas. Ele afirmava que a voracidade, em qualquer setor, leva à ruína do próprio setor. E as igrejas imediatistas estão mostrando claramente a iminência de um colapso no setor religioso. Os fiéis viraram clientes e pagam fortunas por um milagre. Diante das fortes declarações sobre a inexistência de Deus, eu pensei no primeiro homem que conheci com tal coragem, em outras épocas, teria sido queimado pela Inquisição, sem nenhum perdão. Mas isso foi em meados de 1965, e a Inquisição era apenas história de um passado longínquo. Eram cinco horas da tarde, numa terça feira. O sol de outono se punha sobre as montanhas da Vila de Santa Bárbara. Eu apreciava aquela paisagem celestial de minha janela e assistia o programa vespertino. Deitado no sofá, eu devaneava sobre fatos de minha infância; lembrei-me da tora gigante depositada em frente à nossa quitanda. Era, talvez, uma estratégia de meu pai, para proteger a casa de possíveis acidentes de veículos que trafegavam na estrada, recém-construída, a poucos metros de nossa janela. Uma história obscura continuava intacta todos esses anos. Um homem desaparecido, sem nome. Mesmo hoje, em 1992, não há quem diga alguma coisa concreta sobre ele.


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Tentei lembrar-me de seu nome por várias vezes, mas foi em vão. Procurei pela Dra. Nair Ramoll, uma advogada de renome, que conhecia todos daquela Vila. Fui visitá-la e quando toquei em sua porta, ela veio, e convidou-me a entrar. Fomos direto para a cozinha onde ela preparava uma pequena ceia. Enquanto conversávamos, ela fazia o café e servia a mesa. Para acompanhar, cortou pequenas fatias de uma deliciosa broa de milho; fomos comendo, conversando e, entre vários assuntos de nossa puerícia, perguntei-lhe se havia conhecido um homem alto, loiro, com aparência de italiano, e que sempre vinha montado em um cavalo de caça, alto e forte talhado para cargas. Ele fazia suas compras e não puxava conversa com ninguém. Eu me referia aos anos 60, quando ainda éramos crianças e corríamos pelas ruas empoeiradas, onde as crianças da Rua Padre João Pina se reuniam para brincar de pique-salvo. — O herege? – perguntou prontamente. — Esse mesmo. Você se lembra dele? — Tenho uma vaga lembrança. Na época, eu era uma mocinha e meu pai nunca me deixava à solta. Só tinha liberdade de sair de casa para comprar miudezas de armarinhos, na venda de Dona Cicinha, que porventura minha mãe necessitasse. Eu gostava de fazer esses favores a ela, era longe e tinha que atravessar o asfalto: o terror dos pais. Referíamo-nos à estrada federal BR-116, como asfalto, pelo motivo óbvio de ser o único lugar pavimentado da vila. — O que você sabe sobre ele? Algo novo? — Qual o seu interesse naquele homem, que todos abominavam? Meu pai fechava as janelas e fazia o sinal da cruz, todas as vezes que ele passava em frente à nossa casa. Eram sinais de proteção divina. 11


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— Curioso é que meu pai fazia a mesma coisa. Vi várias outras pessoas fazendo isso e nunca me esqueci do desprezo que tinham por ele. De repente, aquele homem tem uma história extraordinária, você não acha? Quero descobrir! Afinal, qual era seu grande segredo? — Ele era muito bonito - disse Nair. – Era estranho e assustador. Não sei muito sobre ele, mas vou procurar saber com os homens daquela época . Depois lhe conto. Voltei para casa e comecei a recordar de minha infância por miúdo. Eu estava com sete para oito anos e trabalhava na quitanda de meu pai, engraxando sapatos e vendendo doces e bolos feitos por minha mãe. As caçarolas eram elogiadas por todos da Vila. Eu, particularmente, gostava mais das feitas por D. Geralda do senhor Pantaleão. Naquele tempo, a Rua Padre João Pina, a principal, era de terra socada, empoeirada e havia um poste bem no meio dela, onde a garotada brincava de pique-cola, birosca e carrinho feito de lata de óleo. Só podíamos brincar até o entardecer, quando o sino da igrejinha, lá no morro do cemitério, batia às seis horas da tarde – a hora da Ave Maria. Meus irmãos e eu tínhamos que voltar para casa, tomar banho, comer e fazer os deveres de casa. Minha mãe vivia numa eterna labuta: fazia pastéis, bolos, caçarolas e várias guloseimas para vender. Nos fins de semana saíamos a passear pelo campo, visitando amigos de minha mãe. Lembro-me de muitas pessoas que visitávamos e que sempre foram enigmas em minha vida: Senhor Chico Maia, por exemplo, era um homem misterioso, com a pele cheia de manchas brancas. Eu o via como um ser estranho. Ele guardava um livro onde estava escrito o futuro de todos daquela Vila. Ele previu a passagem de um tapete preto e muitas mortes. Anos depois estavam acabando de construir a rodovia Rio - Bahia. O asfalto era o tapete preto ao qual ele se referira, e muitas pessoas morreram ali. As manchas brancas por todo o corpo eram vitiligo, e não havia cura. Todos tinham uma história interessante, mas a do herege eu nunca pude saber muito, e 12


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ficou uma como lacuna em minha mente. Quem era aquele homem que causava reações estranhas nas pessoas? Calafrios! Saíam do seu caminho e se escondiam, como se ele fosse um demente. Certa vez ele deixou seu cavalo amarrado em um pequeno cercado ao lado de nossa venda, e, saiu para fazer sua compra semanal. Voltou com dois sacos pequenos cheios de mantimento e os amarrou na garupa de seu cavalo, apertou o estribo, desamarrou o cabresto da cerca e subiu naquele enorme animal. Vi o homem, cujos sapatos eu engraxava, fazendo o sinal da cruz e dizendo: — Lá vai o herege! Olhei-o de soslaio. Senti um frio subindo pela espinha. Meus pêlos se arrepiaram. Uma coisa estranha passou por mim. Era o medo do desconhecido. Segui-o com o olhar até sumir na primeira curva. Mais tarde perguntei a meu pai o que significava “herege” e ele, estranhando a pergunta, limitou-se a dizer-me: — É o capeta. — Capeta!...- exclamei baixinho. Eu me assustei com o jeito de meu pai. Era então aquele homem o capeta? A partir daquele dia comecei a entender as reações de repulsa das pessoas. Ele tinha as mãos grandes e calejadas, vestia-se como um trabalhador, e não como um capeta. Não podia imaginá-lo como uma coisa do mal, mas na catequese me ensinaram que ele, o capeta, assume diversas formas, e quem iria discutir os dogmas da igreja? Ele era um homem estranhamente reservado. Não cumprimentava ninguém, nem se despedia. Pagava sua conta e saía como tinha entrado: calado. Dra. Nair estava particularmente envolvida no mistério que rodeava aquele homem, que foi desprezado por toda uma Vila e nunca se soube quem ele realmente era, ou o porquê de tamanho desprezo. Passamos toda a tarde conversando e não conseguimos sair do campo das hipóteses. Fiquei de voltar para almoçar com ela e naquele segundo encontro, ela me contou um fato interessante: 13


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—Meu pai ficava, horas a fio, debruçado sobre o parapeito da janela, acariciando nosso peludo gato Angorá. Certa vez, ele viu esse homem vindo em seu cavalo e antes dele passar em frente da nossa casa, meu papai fechou as janelas, fez o sinal da cruz e proferiu as mesmas palavras: “Lá vai o herege”. Quis olhar, porém meu pai me proibiu terminantemente, dizendo: “Aquele homem tem pacto com o demônio e quem olhar para ele fica enfeitiçado”. Todas as vezes que eu o via, corria para casa e me escondia. Eu pensava que, se olhasse em seus olhos, ele poderia me fazer algum mal. Foi o que meu pai dissera.... Vou desvendar este mistério que todos, de nossa geração, ainda carregam consigo. Depois daquele dia, eu não mais ficava até tarde nas ruas. Às vezes os homens se juntavam nos botecos, para ouvir a belíssima sanfona de oito baixos de Pedro Dico. Nessa mesma época apareceu o Trio Mirim, ironicamente com cinco integrantes: William, Fuca, Didi, João Gatto e Geraldo. Eram crianças prodigiosas que tocavam gaita, sanfona, pandeiro, triângulo e violão, como ninguém. Ficavam até altas horas tocando e cantarolando, mas eu tinha que ir para casa. Sentia pavor do crepúsculo, temia encontrar com o herege e sonhar com ele à noite. Notei que Nair, assim como eu, tinha as mesmas aversões induzidas pelos nossos pais. Acreditávamos em suas verdades, que permaneceram como incógnitas em nossas mentes. No dia seguinte, começamos a investigação. Partimos para a casa de D. Rosária, pois sabíamos que seu marido, antes de morrer, tivera um armazém e o tal homem comprava seus suprimentos lá. Batemos no portão e o papagaio gritou com sua voz estridente: — Dona Ruzária.... dona Ruzária.... purutaco tataco... Ela sabia que alguém estava ao portão. O louro sempre anunciava a chegada de estranhos. Ela amarrou o cachorro e veio nos receber. Entramos e fomos direto para a cozinha, onde se encontravam os biscoitos de polvilho mais deliciosos da Vila de Santa Bárbara. Contamos nossa grande curiosidade, 14


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e ela foi direto ao ponto: — Lembro-me muito bem. Ele era alto e falava pouco. Meu marido, Tatão - que Deus o tenha - certa vez disse que ele tinha parte com o demônio, e que, não era para eu ficar por perto, quando ele estivesse na venda. Sempre que ele chegava à vila, Tatão fechava as portas e ficava quietinho em casa. Pegava a Bíblia e ia ler. Nunca ouvi este tal herege dizer qualquer coisa a seu respeito. Eu pertencia à Congregação das Irmãs de Maria, e éramos expressamente proibidas de dirigir-lhe a palavra. Não dava para esperar. Ninguém falava qualquer coisa a seu respeito. Tinham medo até de seu nome. Encontrar o fio da meada era nosso maior objetivo: uma palavra-chave qualquer, para desvendar tal mistério! Qualquer coisa nos deixaria feliz. Voltamos para casa, sem nenhuma pista. Nossa curiosidade aumentava e parecia estar condenada a permanecer estagnada por muito tempo. Teríamos que encontrar alguém com mais detalhes. Mas, quem? Estávamos partindo do zero. Fui para casa e, dois dias depois, recebi um bilhete da Dr.ª Nair, com os seguintes dizeres:

Pablo, Fui informada que há um homem no final da Rua Padre João Pina, que conversou e fez negócios com o herege. Ele deve ter mais informações. Vou falar com ele hoje à noite. Se você quiser vir comigo, esteja aqui às seis horas da tarde.

Abraços. Nair Ramoll 15


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Cheguei à sua casa no horário marcado. Saímos e fomos ao encontro do senhor Tó Barbalho, um homem de cabelos grisalhos, aparentando seus oitenta e cinco anos. Ele nos esperava ansioso. Sentamos e ele se surpreendeu com tal assunto. O herege era um nome de que ninguém falava, havia anos!. — Diga meus filhos, o que querem saber? — Só queremos saber quem foi o tal homem que todos chamavam de “O herege”. — Esta informação eu não tenho. Eu disse para a amiga da Dra. Nair que eu havia conversado com ele, nada mais. — Do que falaram? — Eu comprei dele algumas sacas de milho e alguns porcos da raça Durock. Falamos só de negócios. Ele não falava bem o português. Combinamos os preços e eu lhe paguei direitinho. Certa vez, perguntei-lhe como ia a família, e ele foi bem seco: “Bem, obrigado” e, quando estava de saída, eu disse: “Vai com Deus”. Ele não respondeu nada. Foi tudo. Eu só descobri que ele era o herege quando, no meio de uma conversa, eu disse: “Se Deus quiser, no próximo ano a colheita será melhor” e ele, com um tom irônico, disse: “Se eu plantar e cuidar”. Foi neste momento que eu desconfiei que ele não acreditasse no nosso Senhor Jesus Cristo. Fizeram vários testes com ele: Senhor Tito o convidou a ir à missa e ele, com aquele português quebrado, disse que se os homens rezassem menos e trabalhassem mais haveria menos miséria no mundo. Naquele momento, entre bandas de capados sobre o balcão, os beatos da Companhia de Jesus estavam bestificados com sua frieza ao tratar das coisas divinas e, dias depois, chegaram ameaçar-me, para não mais fazer negócios com aquele homem. Em pouco tempo, eles pararam de entrar em minha quitanda. Diziam que tudo que vinha das mãos do herege era amaldiçoado, e poderia até matar. O porco que eu comprava dele era a melhor carne, mas ninguém queria. Se eu quis ter minha clientela de volta, tive que fechar minha venda 16


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todas as vezes que ele estava na cidade. Assim como o senhor Tatão fazia, eu também ia rezar. Eu não tinha nenhum problema pessoal com ele. Eram apenas negócios. O homem era excluído e possivelmente nem sabia o porquê, ou talvez não sentisse o boicote que faziam às suas mercadorias. Seu relacionamento com as pessoas daquela Vila era pouco e a cada dia ia diminuindo. Ele passou a trazer menos mantimento, para vender ou trocar. Quando ele parava na primeira venda, na entrada da Vila, um moleque saía correndo para avisar aos demais. Ele poderia ter ligado o fato da saída do menino com as vendas sempre fechadas. A nossa investigação parecia estagnada. Não conseguíamos nenhuma pista mais nítida que nos levasse, pelo menos, a seu nome ou à sua origem. Voltamos à estaca zero. Quando saíamos pela porta da venda, Senhor Tó ainda disse uma última palavra: — Diziam que ele estava envolvido com a morte do delegado Senhor José Reis. Voltamos para casa de mãos abanando, não chegamos a lugar nenhum. Nair achou que aquela acusação, no final, fora apenas mais uma das maldades daquele povo, pois era sabido que a morte do delegado José Reis e seu filho fora uma covardia. Todos os comerciantes da Vila pegaram suas armas – espingardas, garruchas – e atiraram sobre os corpos deitados na poeira. Foi a coisa mais brutal que se viu nas redondezas, e também uma forma de descaracterizar o crime, dividindo assim a culpa entre todos daquele lugar. Aquele crime permanece até hoje na mente de todos e é bem sabido que o herege não estava na cidade. Ele encontrava-se sempre na fazenda. Como estaria envolvido? Ninguém se envolvia com ele, ou será que sim? Mudamos o rumo de nossa investigação. Qual seria a ligação do delegado com ele? — Quem era o delegado José Reis? – perguntei a Nair. — Foi um delegado severo, que colocou ordem na cidade. Acabou com a vadiagem e o banditismo da época. Foi acusado de vários crimes, cometidos em cumprimento da lei, e de ter pacto 17


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com o demônio. Por isso foi alvejado de balas em praça pública. Ele e seu filho, de apenas cinco anos, eu acho! Mas isto é uma história que só a mulher dele pode contar, e ela se mudou para bem longe, sem deixar endereço. Naquela época, várias mortes sem solução foram ligadas ao delegado e ao herege. Falava-se ainda, que os dois tinham planos para dominar a Vila de Santa Bárbara, o que para a doutora Nair era pura crendice, mas começamos a ligar os fatos: a única pessoa que realmente conversou e freqüentou a casa do herege foi esse delegado, e tínhamos que investigar sua morte, sem nenhuma importância jurídica, pois o crime já havia prescrito, há muitos anos. Os criminosos estão quase todos mortos, mas a história permanece viva. D. Geralda Reis, esposa do delegado morto, e seus dois filhos mudaram-se às pressas da cidade, para evitar uma chacina. Ninguém nunca soube para onde teriam ido. Nossa investigação parecia frustrada quanto ao herege, mas ganhava corpo e caminhos diferentes. Um mês mais tarde, Dra. Nair recebeu um recado do Senhor Tó Barbalho. Ele queria vê-la com certa urgência, e, deixou bem claro que era sobre o mesmo assunto da conversa passada. Ela deixou seus afazeres, para saber o que era. Chegando lá, Senhor Tó, sem se preocupar com as formalidades, foi logo dizendo: — Fiquei sabendo que o filho mais moço do Senhor José Reis está na cidade. Ele está hospedado no hotel do Pimenta. Veio visitar o túmulo do seu pai e do irmão, e fazer uma lápide decente para a sua família enterrada aqui. Nair não podia deixar esta chance sair de suas mãos. Foi logo ter com o tal moço. Chegando lá, ela deparou com um homem que parecia ter seus quarenta e poucos anos, bem vestido, com roupas finas. Ela se apresentou: — Boa tarde, sou Nair Ramoll. Fiquei sabendo que você é filho do Sr. José Reis. — Como você ficou sabendo disso? Estou aqui a menos de seis horas, e já sabem quem eu sou. 18


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—Perdão. Não quero perturbá-lo, mas viram você visitando a cova do Sr. José Reis e deduziram ser você o filho dele. Você o é ? — Sim, sou. Estou procurando um pedreiro para fazer um túmulo decente para meu irmão e meu pai. — Vou ajudá-lo a encontrar o pedreiro, e em troca, quero saber como está sua mãe e sua família. Não precisa ficar com medo. — Esse povo parece não esquecer o episódio que marcou nossa família. Minha mãe não pode ouvir falar desse lugar, que passa mal. Ela ainda fala da Companhia de Jesus, como se fosse ontem. Dizem que eram homens possuídos por demônios e que dominaram essa Vila por muitos anos, até culminar na morte de meu pai e meu irmão. Eu sei que podem ser crendices, mas deixaram traumas profundos em toda a nossa família. — Eu também acredito nisso, mas estamos fazendo um trabalho que irá limpar a imagem errada que todos tiveram de seu pai. Poucas pessoas sensatas souberam que ele era um homem de boa alma. — Obrigado, você é a única pessoa que pensa assim. Desculpe-me, meu nome é José Reis Filho, o filho mais novo dele. Quando o fato aconteceu, eu tinha apenas dois anos de idade e só ouvi contar, mas não me lembro de nada. — Estávamos investigando um homem misterioso, sem nome, apenas chamavam-no de “O herege”, e ouvimos dizer que seu pai se relacionava com ele. Esta ligação pode tê-lo levado à morte. — Não tenho a mínima idéia do que você está falando. — Você não, mas sua mãe, sim. Pena que ela está tão longe, senão, eu iria ter com ela. — Como você sabe que ela está tão longe? Ela pessoalmente me disse que ninguém desta vila poderia saber onde estaríamos morando? — Mas fiquei sabendo que ela tinha ido para o Mato Grosso, uma cidade perto da Bolívia. É verdade? — Sim. É verdade, mas isso é segredo. Por favor, não 19


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comente com ninguém. Fomos para Cáceres, sudoeste do Mato Grosso, quando a região estava em plena expansão. Compramos um sítio a sessenta quilômetros, em direção à divisa da Bolívia, às margens do rio Paraguai. — Vocês foram realmente pra longe. É uma pena! Se não fosse tão distante eu iria com você, ouviria de sua mãe a grande verdade e limparia o nome de seu pai. Iria mostrar que a Companhia de Jesus era formada por homens maus, que não saíam da igreja e eram protegidos por ela. — Se você quiser, dou-lhe uma carona e ainda, pagarei sua pesquisa. Tenho interesse em ver esse trabalho pronto para desvendar este mistério que ronda e assusta minha família. Três dias depois, o túmulo de mármore ficou pronto e Nair Ramoll se preparava para viajar. Era uma longa viagem até Cáceres e depois até a Fazenda Paraguai. Saíram pela manhã. Fazia um frio de bater o queixo, e a respiração se transformava em fumaça. Agasalhados em grossas blusas, pegaram o caminho, pelas estradas de Minas Gerais; falavam do passado e das histórias sem fim, que ainda permaneciam vivas naquela Vila. No Mato Grosso, o sol já estava quente e ela se deslumbrava com as revoadas dos pássaros que habitavam no parque do Pantanal. Deixavam para trás os Tuiuiús e seus ninhos nos topos das árvores. As estradas retas e bem cuidadas enfastiavam o motorista já acostumado com a paisagem mato-grossense. Nair devorava cada centímetro daquela maravilha selvagem: os jacarés debaixo das pontes, o gado em bando sobre charco, ao longo daquela estrada comprida. Depois daquele deslumbrante cenário chegaram a Cuiabá, cidade histórica fundada por garimpeiros, em 1719. Estavam a poucos quilômetros de seu destino, mas o cansaço os deixava sonolentos, e acabaram por pernoitar naquela cidade. José sabia que no outro dia iriam direto para a Fazenda Paraguai. Na manhã seguinte, bem cedo, pegaram a BR-070 em direção a Cáceres, e chegaram por volta do meio-dia. Nair se deslumbrava com o caudaloso e límpido rio Paraguai. Ela 20


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observava atentamente os pescadores retirando suas redes repletas de tucunarés listrados. A vasta floresta em suas margens componha um belíssimo cenário. Logo a seguir, apareciam imensos campos de plantações de soja. O panorama verde intercalava com a fumaça das carvoarias amontoando lenhas para fazer carvão, crianças pretas de pó, enchiam os fornos grotescos de formas arredondadas. A fumaça, os montes de carvão, as crianças de caras sujas e maltrapilhas se movimentando em um eterno vai-e-vem dentro dos fornos, voltavame à idade média vendo aquela movimentação grotesca. — Estamos chegando – disse José. —Ainda bem, viajamos demais, apesar de eu estar gostando. Esse nosso país é grande demais! —Agora vamos ficar aqui em Cáceres por algumas horas, ver se há alguma novidade para mim, e partiremos em seguida rumo à fazenda, pois estou louco para ver minha mãe! Há dois caminhos: por água e por terra. O que você prefere? — Por água, é claro! — Por terra é só poeira vermelha como sangue. É melhor pegarmos uma barcaça e descer o rio. Desfrutar as lindas paisagens de nossa terra. Assim foi feito. Colocaram o carro sobre uma imensa barcaça e desceram o rio Paraguai, até à fazenda do mesmo nome. Poucas vezes José Filho perguntou sobre a Vila de Santa Bárbara. Ela se limitou a dizer que o povo ainda vivia como se estivesse vivendo nos anos 50. Apesar de ter luz, boas estradas e telefones, a vila não evoluiu. Nair acreditava que havia acontecido uma paralisação histórica naquele povo, e as idéias antigas ainda permaneciam vivas. Os filhos continuam sem coragem de mudar. A história do pai de José Filho é uma prova de que nada mudou. Até hoje, comentam o fato como se tivesse ocorrido na semana anterior. A cidade resiste a dois partidos políticos, criados para defender a situação e oposição: o Pica-pau e o Corta-goela, remanescentes do PSD e da UDN, anteriores à época da ditadura 21


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militar. Os velhos ainda falam de Getúlio Vargas como se seu mandato estivesse terminado ontem. As perseguições políticas continuam vivas, como na ditadura dos anos 60. A grande balsa estava ancorada, à espera dos viajantes, e uma imensa fila de carros esperava para ser embarcada; lentamente, iam subindo um a um; não esperaram mais do que meia hora, e as grossas cordas que seguravam a balsa no ancoradouro eram desamarradas e deslizavam lentamente sobre os ganchos de ferro. Um apito de partida dava início a mais uma pequena aventura. Dra. Nair nunca tinha saído de sua região, e se deslumbrava com a imensidão e a beleza de sua própria pátria. Entre revoadas de jaburus de cabeças vermelhas, o barco deslizava sobre as águas claras do rio, em cujas margens se escondiam os jacarés, e afugentava as capivaras cotós. O sol já se punha no horizonte, enquanto a névoa fria descia sobre as copas das árvores, como um véu. Nair se enroscava em sua blusa de lã, pressentindo o frio da noite que se aproximava. José sabia que estava perto e, antes do escurecer, chegariam à fazenda. Desembarcaram lentamente o carro, pegaram a estrada rumo à sede da fazenda, e andaram por várias horas. No final da estrada de terra vermelha, e quase sem porteiras, chegaram a uma linda fazenda. D. Geralda Reis cochilava na cadeira de balanço colocada estrategicamente no alpendre da casa. Com o barulho do carro, ela acordou e veio receber o filho e a visitante. Sabendo que ele havia ido para Minas Gerais, e queria saber como tinha sido por lá. Ele, brincando, disse: — Trouxe uma mineirinha comigo. — De onde ela é? — De Santa Bárbara. — Então pode colocá-la no carro e levá-la de volta, porque daquele lugar não quero nem lembranças. — Mãe, ela é advogada, e está fazendo um trabalho maravilhoso, e precisa de sua ajuda. — Já disse: daquele lugar não quero nada. Nem amigos. 22


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O tom da voz não era amistoso, e José teve que contornar a situação: — O pai dela foi um grande amigo do papai, e realmente ela precisa de sua ajuda - disse José. D. Geralda não fazia festa com visitas, parecia não gostar das pessoas. José havia dito isto durante a viagem, que ela era um pouco anti-social. Vivia a maior parte do tempo na fazenda, e não gostava de receber ninguém por lá. Temia que a Companhia de Jesus mandasse capangas para exterminar o resto da família. Ela conviveu com essa neurose por muitos anos. Nair percebeu que se ela a recebesse, já era meio caminho, fazê-la falar não seria tão difícil. Com uma boa habilidade de advogada, ela tiraria algumas pistas para sua busca, mas preferiu ver o desenrolar do encontro, por si só. Com ar de quem não estava entendendo, Dra. Nair mudou de assunto repentinamente, e disse: — Este lugar é um verdadeiro Paraíso. Quem cuida dele? Mesmo com a cara meio amarrada, não quis ignorar os elogios e disse: — Sou eu. — Que lindo pomar! Que lago maravilhoso! Isso é um paraíso!– exclamou Nair. Foram tantos elogios a seus trabalhos, que ela se envaideceu e abriu sua feição; esquecendo-se das ofensas, convidou-a a entrar. Nair se apresentou e disse que estava fazendo um trabalho de história, e que não encontrava respostas para vários enigmas da Vila de Santa Bárbara, mas acreditava que ela as teria. A princípio, não disse o que era, preferiu tomar um banho e descansar da longa viagem. Jantaram e não se delongaram nos casos, pois as pálpebras já pesavam e o melhor seria procurar uma cama, onde dormiram como pedras. Pela manhã, foram despertados com gritos estridentes das Galinhas-d’angolas e da passarada que vinha comer à porta da cozinha. Nair levantou-se e foi ver D. Geralda tratar das 23


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aves: marrecos selvagens e uma imensa variedade de pássaros disputavam a canjiquinha, bem à porta da casa. Micos-leãodourados e vários outros primatas se aproximavam para pegar as bananas que ela fazia questão de descascar. Algumas capivaras saíam da beira do lago e vinham disputar a comida com os outros animais. Era realmente uma festa. —Vamos tratar dos peixes – disse D. Geralda. Nair não podia acreditar no que via: os peixes voavam uns sobre os outros, pareciam famintos. Ela deitava a comida sobre a água, e eles a devoravam numa luta ferrenha. Ela rodeava o lago e eles acompanhavam-na. — Aqui, pescar é traição. Olha como é fácil – disse D. Geralda. Ela apenas estendeu as mãos sobre a água e os peixes pulavam sobre elas e escorregavam entre os dedos, voltando para a água. Ela nem os segurava, por medo de machucá-los. — Meu filho José pesca assim. Eu não gosto! É trair demais a confiança de quem nos confia a própria vida. Você não vai nos trair, vai? — De maneira nenhuma, muito pelo contrário. Estou aqui para desfazer um mal-entendido que aconteceu nos anos 50. A senhora sabe do que estou falando? Estou escrevendo a história da Vila de Santa Bárbara. Tenho informações e acredito que seu marido, senhor José Reis, não era o que diziam. Por isso estou aqui para tirar a nuvem que encobriu a mente dos homens mais influentes daquela vila. — Isto faz tanto tempo! Duvido que alguém ainda se lembre daquele triste dia. Prometi a mim mesma nunca mais falar sobre isto com ninguém. — Mas, D. Geralda, é muito importante que seus filhos saibam que seu marido não foi aquele carrasco que todos dizem ter sido. Seu filho José está custeando toda esta investigação, e quer ver o nome de seu pai limpo. — Há muita gente má naquela vila e a Companhia de Jesus 24


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ainda existe. Ela poderá vir fazer mal a meus filhos. — Não. Não existe mais, isso foi há muito tempo e os homens que mataram seu marido já pagaram por seus crimes, e já estão mortos. O que ainda existe, são histórias de pais para filhos que nunca se acabam. Com estes relatos posso mudar o rumo dessa história e mostrar que o Sr. José Reis era um homem bom. Comentam que ele havia matado muitos capangas, que queriam eliminar um italiano sem nome, conhecido como “O herege”. — Ele não era italiano. Era alemão - disse D. Geralda. —Alemão!? – surpresa. Outro ponto que Drª. Nair não sabia. Toda a Vila o julgava italiano, por ser alto e louro, e também pela influência que a Itália exercia sobre o povo, no período da guerra. Ela continuou: — Os Pracinhas, da Força Expedicionária Brasileira, voltavam da Itália contando os horrores da guerra. Falavam da batalha de Monte Castelo, chefiada pelo General João Batista Mascarenhas, em cujo combate morreram 85 corajosos brasileiros entre os 1500 que foram enviados para o front. Nessa batalha apenas 25 alemães foram tombados. Ela se lembrava dos caminhões do Exército cobertos por lonas verdes, cheios de soldados de caras juvenis, cheirando a fraldas, olhares tristes e sérios, como homens que morrem pela pátria. Passavam naquela estrada empoeirada indo para Salvador, vindo do Rio de Janeiro. Era o fim da guerra na Europa. O grande conflito havia acabado oficialmente havia dois anos, em 1945, coincidindo com a chegada daquele homem alto, que foi morar no Córrego dos Italianos, juntando-se aos demais que já cultivavam a terra. Depois de muito articular, D. Geralda foi rememorando o que havia sucedido em Santa Bárbara, e aos poucos, dispôs-se a relatar aquele fatídico episódio, do qual não fazia menção, havia muitos anos. Entraram na cozinha e D. Geralda foi para o fogão a lenha, que aquecia a casa. Tirou a água adoçada com rapadura e a deitou sobre o coador de pano; o líquido escuro corria para 25


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a chaleira, deixando um aroma inesquecível no ar. Enquanto isso, os biscoitos de polvilho cresciam na panela, e eram colocados no prato esmaltado, nesse ínterim, iam conversando. Para Nair, aquela cozinha, aquele cheiro, aquelas mãos habilidosas fritando biscoitos simbolizavam a paz que ela sempre procurou; talvez a paz que D. Geralda nunca teve, em todos aqueles anos. Assim valeria a pena suavizar aquela alma aflita. Ela ganhava ânimo para escrever, ouvindo D. Geralda, que continuou sua história: — Naquela época, eu pertencia à irmandade “Filhas de Maria”, e meu marido à Companhia de Jesus. Ele ajudava celebrar a missa aos domingos e o padre Rino não saía de nossa casa, éramos uma família feliz. Mas, certa feita, José Reis saiu preocupadíssimo da reunião, da qual só participavam homens, e não quis me contar a razão. Eu insisti, dizendo que era visível sua preocupação e eu tinha que saber. Aí, ele mencionou o tal nome, o herege. — O que foi que ele disse? – perguntou Nair. — Todos os comerciantes haviam notado que aquele homem alto e branco como leite não freqüentava a igreja e não acreditava em Deus. Muitos diziam que ele era o anti-Cristo e que os homens de “bem” teriam que exterminá-lo. Naquela noite, José Reis não dormiu. Ele nunca havia pegado em uma arma de fogo, era um homem santo, mas a pressão dos amigos exigia dele uma postura. Todos teriam que fazer o serviço sujo em nome da Santa Madre Igreja, mas nem esta poderia saber. Era sabido que aquele homem, sem nome, tinha em seu poder várias artimanhas para destruíla. Quem disse isso foi um camponês que trabalhou com ele, na fazenda, mas não lhe era permitido entrar, sequer, em sua sala. O herege era um homem muito estranho para um lugar tão pacato. — Sirva-me mais um pouco de café e não pare, por favor – disse Dra. Nair. D. Geralda sentou-se com sua xícara de café fumegante e continuou o episódio: — Pois bem! Nas reuniões da Companhia de Jesus já não 26


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se falava de amor, como se pretendia. Conspiravam contra a vida daquele homem desconhecido e José Reis era o único com coragem para ponderar tal idéia, e dizer que estariam atentando contra a vida de um homem inocente, e que aquilo ele não iria fazer. Lembrome de uma expressão que usaram na época, a respeito do herege: “Sua alma voltará para onde nunca deveria ter saído”. Era final de semana, o plano estava traçado: iriam matá-lo quando estivesse voltando para casa. Na estrada escura, homens encapuzados iriam pegá-lo de tocaia. Meu marido não dormia e não sabia o que fazer; participar daquele crime sem motivo aparente, matar uma pessoa inocente, apenas por acreditarem que ele não cria em Deus, era um absurdo! Porém, iriam fazê-lo assim mesmo. Padre Rino não sabia de nada, ele apenas dissera em seu sermão que os filhos das trevas estavam entre nós e teríamos que combatê-los, nada mais. Naquela noite, meu marido pegou sua capa preta e o chapéu de camurça de aba larga, arreou o cavalo debaixo de uma chuva torrencial e saiu amassando a lama da rua principal, até pegar a estrada que o levaria ao Córrego dos Italianos. Chegou à casa do tal “herege”, que se chamava Hans Wagner. Meu marido bateu na porta e se identificou. Custaram a abri-la. Eram altas horas da madrugada e o Sr. Hans, meio desconfiado, quis certificar-se de que não era nenhum impostor. Fê-lo entrar, pendurou a capa e o chapéu todo encharcado, perguntando-lhe a que viera debaixo de tanta chuva. E meu marido respondeu-lhe que vinha salvá-lo. “Salvar do quê?”, perguntou Sr. Hans. Era uma situação complicada para meu marido, porque até onde ele sabia sobre sua conduta, não havia feito nenhum mal àquela comunidade, não falava com quase ninguém e não conhecia as pessoas daquela vila. Então, por que queriam matá-lo? Meu marido não podia explicar também, porque pertencia ao grupo que tramava contra a sua vida, e pediu-lhe que se mudasse. Mas ele foi taxativo, dizendo que “não”. Lembro-me de meu marido repetindo sua resposta: “Já estive envolvido em tramas diabólicas e estou vivo. Fui mais esperto que o Führer* 27


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que não agüentou a pressão e se suicidou em seu bunker”. Não tínhamos idéia do que estava dizendo. De vez em quando ele falava em alemão e ninguém o entendia. Meu marido passou-lhe todo o plano da emboscada, e pediu-lhe que fosse à missa se confessar. Ele sentiu que meu marido era um homem bom em quem poderia confiar. No dia da emboscada, os dois capangas que fariam o serviço apareceram mortos, pendurados em uma árvore à beira da estrada, sem nenhum arranhão. A vila ficou apavorada com aquilo. Pessoas se aglomeravam para ver os corpos pendurados e se escandalizavam com tal brutalidade, até que as autoridades os descessem dali. Padre Rino deixou bem claro que aquilo era a mão do Satanás e que cada um deveria orar e jejuar, para se purificar. O demônio estava rodeando nossa Vila. Correntes de orações foram feitas, os boatos corriam de boca em boca. Os homens da Companhia de Jesus se reuniram fora da igreja para discutir o fato. Concluíram que ele era realmente o filho das trevas, a ponto de saber o que estava por vir, ou haveria entre eles um traidor. Contudo, não havia nenhum suspeito. Assim, preferiram acreditar no seu pacto com o demônio e na sua invencibilidade. Muitas coisas estranhas aconteceram naqueles dias. Meu marido, de homem pacato e bondoso, passou a viver assustado; perdia noites de sono, perambulava pela casa nas madrugadas. Algo de mais grave estava para acontecer. Quando senhor Hans passava pelas ruas, todos fechavam as janelas e faziam o sinal da cruz. A notícia havia se espalhado, acusando-o de ser o herege, filho do demônio, e todo aquele que fosse tocado por ele iria padecer no fogo do inferno, junto a ele. Quando ele chegava à cidade, sentia-se um nervosismo generalizado; os gatos fugiam para os telhados, as crianças corriam para casa, os cães uivavam como lobos, as portas batiam com o vento empoeirado que o acompanhava. Era muito estranha aquela movimentação. Várias mortes aconteceram naquela época, muitas das quais, atribuíam ao herege, mas sem provas. Ele continuava vindo semanalmente fazer suas compras, e não dava a mínima para aquele povo que lhe 28


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fechava as portas. Passou a se cuidar mais contra as emboscadas que lhe preparavam. Naquela época, o Brasil trazia seus últimos soldados que lutaram na Itália, pois havia terminado a guerra na Europa e muitos dos chefes nazistas estavam mortos – suicidaram-se nas prisões. Acompanhávamos as notícias pela BBC de Londres e tínhamos conhecimento do que estava acontecendo no mundo europeu. Sabíamos dos campos de concentração de judeus e de quantos foram mortos. Mais tarde, isso foi chamado pelos jornalistas de holocausto. Senhor Hans também ouvia essas notícias e as acompanhava com um interesse peculiar. Nessa mesma época, chegou um novo delegado para aquela Vila, e ele era um homem muito valente, assim diziam. Prendeu e desarmou muitos forasteiros. Ele fora designado pelo major Silas, para desvendar a morte dos dois capangas que foram pendurados na árvore, e o desaparecimento de várias outras pessoas. O delegado Ciranedes Mendonça prendeu várias pessoas, mas as investigações caminhavam em direção ao herege. Era grande a expectativa do povo, posto que, senhor Hans Wagner era mencionado em todos os interrogatórios. Lembro-me da primeira visita que o delegado lhe fez. Levou dois soldados bem armados, e voltou de lá sem nenhuma novidade. Eles acabaram tornando-se amigos dele, pelo menos era o que todos diziam. Chegavam a dizer que havia uma força estranha naquela casa; todos que ali entrassem, saíam diferentes, e nada podiam fazer contra ele. Não demorou muito, a morte do senhor Ciranedes também foi encomendada e executada. Acreditavam que ele, o delegado, havia sido contaminado com o sangue do filho das trevas, e iria contribuir para os planos de dominação do herege. Ciranedes sabia demais, havia prendido vários jagunços e desvendado muitos assassinatos. Com sua morte, foi decretado estado de sítio e o Exército mandou dois caminhões de soldados, dando-se início a uma intervenção federal. A Vila ficou sitiada por mais de trinta dias, até que uma junta nomeou, meu marido, delegado e o senhor Madrona, juiz de paz. Então, 29


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todos foram embora. “A ordem está em suas mãos”, disse o major, minutos antes de partir. Foram trinta dias de calmaria; não houve tiros e muitas armas foram apreendidas. Contudo, meu marido sabia que o herege poderia estar por detrás daquelas duas primeiras mortes, mas das outras ele não tinha certeza. Sabia também que, se as investigações continuassem, outras mortes iriam acontecer. Seria como uma caçada a um monstro acuado. Seu ataque era iminente; ele também corria risco de morte. —Ufa! As coisas naquele tempo eram tensas! Que outros fatos importantes sucederam? – Perguntou Nair. —Depois de um período de calmaria, como disse, senhor Hans esteve em nossa casa e nos convidou para passar um domingo em sua fazenda. Foi um fato inusitado. O alemão não convidava ninguém a entrar em sua moradia – nem os trabalhadores de sua fazenda conheciam o interior dela. Era da sala pra fora. Aqueles cômodos guardavam segredos inimagináveis. Sua esposa, Judite, uma judia, fazia todos os deveres do lar: cozinhava, costurava e cuidava dos animais. Dois homens cuidavam da lavoura de milho e feijão. Era a única fazenda com trator e arado em toda a região. No domingo de nossa visita, arrumei nossos dois filhos. O mais velho estava com nove anos, o mais novo com seis, ambos com boa idade para fazer piqueniques. Eu esperava meu terceiro filho, grávida de quatro meses, fomos a pé pela estrada, vendo o sol nascer e meus filhos se deliciavam com as brincadeiras pelo caminho. Chegamos bem cedo. D. Judite terminava de passar o café, feito com rapadura, cujo cheiro delicioso se espalhava pela casa. O capataz prendia os cães, que temíamos mais pelo tamanho do que pela bravura. O terreiro de terra socada estava limpinho, e as flores ao seu redor completavam a beleza da fazenda. Fomos bem recebidos. Instruí as crianças, antes de chegar, para que não mexessem em nada, e parecessem civilizadas. Ela pôs a mesa mais farta que eu havia visto: bolos, broas e muitas iguarias de seu país. Pães redondos e achatados, cujo nome eu nunca soubera. Comemos tanto quanto 30


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os trabalhadores que partiam para a lavoura de arroz. Passamos à sala, e lá estavam algumas fotos sobre uma cristaleira de época com portas longas e vidros abaulados, contornos arredondos, refletindo a pouca luz do ambiente, havia também fotos de família salpicadas pelas paredes. Meu marido atravessou a sala com olhar curioso e foi com o senhor Hans para a varanda, e lá conversavam em particular. Dias mais tarde meu marido me contou o que havia conversado: — Senhor Hans é realmente um herege – disse meu marido. — Não precisa se assustar. Ele não faz mal a ninguém. Só não acredita nos dogmas da igreja, e é só isso. Mas não faz mal a uma mosca e tem umas idéias sobre religião que dá para tirar o fôlego. D. Geralda continuou contando a conversa com o marido e sua impressão sobre a visita: — Falando aquilo, começou a mostrar alguns de seus pontos de vista. Ele acreditava que as religiões nasceram com pretexto de se salvarem das punições dos senhores feudais, donos de terras e reis, igualando-se a eles em poder sobre os vassalos e fiéis, cobrando-lhes parte de seus soldos, como os impostos. Com o tempo, elas se fortaleceram, superando os reis. A idéia religiosa era uma doença mental, ilógica e absurda, mas lhes rendiam prestígio e fortunas, assim como as drogas. Elas continuam fortes, sempre ameaçando o Estado, mostrando-lhe a obediência cega de seus seguidores. Qual o Estado que se meteria a besta em lutar contra elas? O Estado, tão corrupto, tira proveitos da situação e se junta a elas, na manipulação das massas. Isso vem acontecendo desde quando o homem passou a viver em sociedade. Tudo isso em busca de poder, privilégios e fortuna, enquanto as igrejas querem apenas mordomias sociais, e em troca, prometem um céu imaginário, deixando uma vida miserável a seus seguidores. São poucas as que ensinam a viver bem aqui na terra. O assunto era longo e as horas voavam. D. Geralda parou de contar e foi preparar o almoço. Drª. Nair ouvia sua história, 31


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palavra por palavra, pois não queria perder a chave que a levaria a desvendar quem era realmente o herege, e por que seu marido fora morto. Até ali, só havia hipóteses e filosofias, todavia, ela tinha todo o tempo do mundo. Não lhe importava se aquela conversa durasse semanas, apesar de haver outros casos para investigar. O almoço fora servido e comeram um delicioso bife de panela. À mesa, conversaram sobre vários assuntos: culinária típica da região, bordados, pintura e até ecologia. Um dos pontos que D. Geralda abordou com muita ênfase foi a ignorância social, em relação a seu próprio habitat. Falou das mazelas governamentais, do uso incorreto do dinheiro público, e dos vizinhos. Depois do almoço, chamou Nair e mostrou-lhe as três fossas seqüenciais que filtravam o esgoto que saía de seu banheiro, e disse: — Isso eu aprendi com o Sr. Hans. Aqui o esgoto é tratado, enquanto nas cidades, onde há tanto recurso e pessoas inteligentes, todo o lixo, fezes e óleos são atirados nos rios, de onde coletam a água que vão beber. Isso é ignorância ecológica, senhor Hans tinha razão. — Ele parecia ser muito culto e tinha várias opiniões em diferentes áreas — comentou Nair. —Várias! Ele era um homem muito evoluído. Precisava ver as técnicas de cultivo que usava. Ele não atirava pesticida em suas plantações, fazia seus próprios remédios. D. Judite mostrou-me suas plantas medicinais e disse: Esta é a minha farmácia. Ao pôr-do-sol, ela voltou à cadeira de balanço, na varanda, onde acostumava ficar horas a fio, pensando, e tirando longos cochilos. Desta vez ela tinha companhia, e queria aproveitar o máximo de seu tempo para pôr pra fora toda história que guardava dentro de si. Drª. Nair se deitou em uma rede recém-colocada ao lado, e as duas proseavam até escurecer. Quando voltaram a falar do caso da Vila de Santa Bárbara, Nair perguntou por que senhor José Reis era considerado homem valente, e fora acusado de ter matado cinco homens, coincidentemente na estrada que ia para 32


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casa do herege: —José Reis, meu marido, eu posso garantir, não deu nenhum tiro naqueles homens, mas levou a culpa e teve que ficar calado. Como ele era o delegado não haveria punição; colocaria no boletim de ocorrência como troca de tiros entre bandidos e policiais, e tudo seria esquecido. Foi o que ele fez. — Mas quem foi? E por que ele encobriu os crimes? —Sr. Hans tornou-se amigo de meu marido e suas visitas eram observadas por informantes da Companhia de Jesus. Meu marido foi pressionado a deixar a igreja e acusado de estar tramando a queda da Vila, juntamente com o herege. Um espião postou-se na outra esquina, e seguia os passos do meu marido. Para ele se encontrar com o Sr. Hans teria que fazer uma volta enorme, passando pelo Córrego do Baixio, vinte léguas mais longe, e como delegado, não podia temer aquelas pequenas ameaças. Numa noite fria, ele saiu para atender uma ocorrência no Córrego dos Italianos. Era um engodo. Uma emboscada estava armada para ele, inocentemente iria morrer cravado de balas. Nenhum incidente havia ocorrido no tal córrego. Era um pretexto para atrai-lo até a encruzilhada das terras do Sr. Tito, onde uma pequena mata camuflava os marginais. Mas na volta foi o que você ouviu: cinco capangas mortos, sem disparar um só tiro. Sr. Hans tinha vários informantes leais e precisos, e sabendo que iriam eliminar o delegado José Reis, seu único amigo, foi ao encontro dos capangas, pegando-os de surpresa. Eliminando-os com estratégia de guerrilha sem deixar marcas de luta. Meu marido sabia que o Sr. Hans tinha pertencido ao Terceiro Reich, fora do Partido Trabalhista Alemão, e também, oficial da Gestapo, mas o que ele não sabia era de suas habilidades em guerrilha. Aquilo era seu grande segredo e nunca comentara com ninguém. Foi o que aconteceu: José Reis forjou a ocorrência como se fosse o autor dos disparos contra aqueles malfeitores, e sua fama de valente se espalhou por toda a região. A Companhia de Jesus, em suas reuniões, mencionava que meu 33


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marido havia recebido o sacramento diabólico do herege, e tinha o corpo fechado, e nada poderia acontecer a eles. Já eram dois tomados pela força do demônio: Sr. Hans e meu marido. Daquele dia em diante, ele foi considerado como um delegado valente, e se safou de outros atentados, reafirmando a sua fama, sempre protegido pelo Sr. Hans. — Não estou interrogando, mas a senhora disse que não houve nenhum tiro? — Sim. Não houve nenhum tiro, por parte do Sr. Hans. — O seu marido atirou nos homens já mortos? —Triste história, mas foi o que aconteceu. Por ordem dele, seus soldados descarregaram as armas, dos próprios capangas mortos, sobre seus corpos no chão, deixando transparecer troca de tiros. Era a única maneira de justificar o massacre. — E como ficou o relacionamento com o Sr. Hans, depois daquelas mortes? —Meu marido passou a protegê-lo contra as investigações da lei, e ele passou a salvá-lo das emboscadas e dos inimigos comuns. — Como era ele? — Quem? — Sr. Hans. — Além daquele mistério que escondia debaixo de sete chaves, era um homem amável. Passamos a visitá-lo mais amiúde e José Reis foi expulso da Companhia de Jesus. Passou a ser perseguido pelos membros desse grupo, e pela maioria dos comerciantes influentes da Vila. Sr. Hans confidenciou muitos fatos ao meu marido, e hoje, posso entendê-los um pouco melhor. — Que fatos foram esses? Conte-me. Nair evitava mudar de assunto. Parecia estar assistindo a um filme e não queria perder o enredo. Temia perder detalhes importantes, que iria escrever mais tarde. D. Geralda continuou: — Ele tinha hábitos estranhos. Sua mulher era judia e ele, 34


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alemão, estranha união, não acha?...Durante a conversa, ele explicou ao meu marido que ela sempre o serviu desde antes da guerra. Ele praticamente a viu crescer. Um tal Shindler quis comprá-la junto a centenas que ele vendeu para trabalhar na fábrica de armas, recebia tudo em diamantes, nada em espécie, e com esse dinheiro ele comprou aquela linda fazenda em Santa Bárbara. Judite teve muita sorte; era uma mulher muito bonita, cabelos lisos, olhos negros e vivos, por quem ele se apaixonou, quando ela foi trabalhar em sua casa, bem antes da guerra começar. Ela ficou protegida durante a guerra, por seus dotes culinários e pela sua beleza e lealdade. Depois da guerra ela foi para Marrocos e quando os alemães perderam a guerra contra os aliados no Egito, temendo que o alto comando do Terceiro Reich descobrisse que ele havia participado do plano para eliminar Hitler, Hans não voltou para Alemanha. Alguns de seus amigos oficiais se suicidaram ao ver Adolf Hitler aparecer em público. Ele recebeu uma mensagem do comando central em Berlim, dizendo que a guerra iria continuar – o Fürher estava bem, após o atentado. Desconfiando que o plano não teria dado certo, desertou-se e fugiu para Marrocos. Ficou escondido em Marrakech por algumas semanas, até ouvir a notícia do fim da guerra. Meses depois veio com sua empregada, Judite, para Caratinga, até se misturar aos italianos na região de Santa Bárbara. — Eu acredito que a vida deste homem foi muito mais interessante, pois ele era algo mais do que um simples nazista! – exclama Nair. – Comentam que todos que queriam matá-lo morriam antes, misteriosamente. É verdade? — Ele realmente tinha algo especial, porém o maior enigma era saber como ele eliminava suas vítimas, pois não deixava pistas. Lembra-se dos capangas? — A senhora me disse. Comenta-se que ninguém nunca descobriu quem foi, só há suspeitas. — José Reis assumia os crimes que eram praticados por ele; havia um código, algo que o unia ao herege. O meu marido sabia. 35


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— Por que ele assumia assim as mortes, sem ser ele o autor? Não era uma coisa meio estranha? – pergunta Nair. — Ele tinha suas razões; foram períodos difíceis e tanto a vida de meu marido como a do Sr. Hans corriam perigo, mas ele usava táticas de guerrilha, tinha armas sofisticadas. Em sua casa havia fotos dele com os oficiais da SS. Numa dessas visitas nos confidenciou coisas que eu jamais poderia contar. Hoje, acredito que ele esteja morto, mas há quem diga que ele esteja na Argentina. — O que ele confessou à senhora ? — Não sei se devo... D. Geralda reluta um pouco, evitando aprofundar-se em assuntos tão melindrosos, que a apavoraram no passado. Insistiu Nair: — A senhora vai levar essa história para o túmulo? Não é possível! Tenho certeza de que ninguém irá perturbá-la com isso. Já se passaram muitos anos! Ela começou a dizer: — Nós éramos seus confidentes e ele sabia que meu marido era seu amigo, pois estava tão atolado quanto ele, e foi taxativo: “Ninguém, mas ninguém, pode saber quem sou realmente. Deixem que me chamem de herege, mas enquanto estiverem com essa ignorância, estarei a salvo. Minha verdade é ainda mais cruel que isto...”. Aquilo me deixou de cabelos em pé. O que poderia existir pior que ser um herege? Não queria ouvir, mas senti que seria um desabafo, era uma carga pesada que carregava no peito e precisava contar a alguém, logo fomos obrigados a ouvir e mostrando-nos a foto de um oficial alemão ele disse: “Este é Himmler, o chefe da Gestapo. Ele fazia um relatório diário de todas as atividades dos comandos de guerra, o enviava ao Führer, Adolf Hitler”. Esse homem me colocou num trem que levava os judeus para o campo de concentração de Auschwitz, juntos aos quais iam homossexuais, negros, e toda ameaça à raça ariana. Eu sabia o que iram fazer, mas mentia, pois estava anestesiado e os matava como se fossem gafanhotos, sem nenhuma dor e se eu não o fizesse, seria preso e 36


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morto. Hitler tinha informantes por todos os lados e a Gestapo, polícia secreta dos nazistas, fazia relatórios sobre a atuação dos oficiais, e sobre mim. Este aqui é Oskar Shindler, industrial que tirava proveito da mão-de-obra barata dos judeus; ele me deu muitos diamantes em troca deles, e eu era obrigado a matá-los. Por que não vendê-los? Hoje não durmo. Fecho os olhos e vejo aqueles esqueletos dos campos de concentração, os gritos nas câmaras de gás, onde entravam para tomar banho e saíam carregados em carrinhos-de-mão, diretos para a cremação. Os fornos exalavam um odor terrível de carne queimada, que ainda sinto em minhas narinas. Heinrich Himmler ordenava que os cremassem para despistar a Cruz Vermelha internacional e a igreja que estava sempre por perto querendo ajudar. Assim, nunca desobedeciam às nossas ordens, pois sabiam que Hitler era implacável com seus opositores. A verdade é que estávamos todos loucos, por tanta crueldade. Enquanto isso, os guetos estavam abarrotados de judeus sem comida e a igreja tentava apenas convertê-los ao cristianismo e levá-los para o céu, sem tentar sequer salvar uma vida. Meses depois da invasão da França, eu estava numa expedição para o Egito. Os aliados nos atacaram no Cairo e teríamos que retornar a Berlim. Naquela época, eu mudei de rota e escapei enquanto podia. Muitos de meus colegas de farda já estavam presos. Era o fim da guerra, quando fugi para o Brasil. Eu sou este monstro de que ouvirão falar, futuramente. — Eu não sabia se tinha nojo ou pena dele. Aquelas atrocidades eram contadas com detalhes e, à noite, eu não podia dormir. Ele desabafava conosco, mas eu não tinha com quem falar. Aqueles relatos fizeram-me adoecer, até que, numa visita à minha casa, o Padre Rino, vendo minha angústia, chamou-me à confissão. Eu nada disse, era a minha vida e a de minha família que estavam em jogo. Guardar o segredo de um nazista sanguinário não era nada agradável. Quando o padre viu que era grave, e que eu não falava, deu-me a idéia de escrever todo meu tormento e guardar. Foi quando 37


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peguei um caderno grosso e comecei a escrever tudo que ouvia. — Onde está este caderno? — Não sei, faz muito tempo que o perdi; eu tinha um esconderijo secreto na casa onde morávamos. Era uma tábua solta do assoalho, debaixo de minha cama. Quando José Reis saía, ou estava dormindo, eu pegava meu caderno e escrevia tudo que ele falava. Enchi dois grossos cadernos, com longas histórias. — Estes cadernos devem estar em algum lugar. A senhora tem alguma idéia? — Olha! Quando saímos de Santa Bárbara com as roupas do corpo, não podíamos arriscar nossas vidas, e deixamos tudo para trás. Se a casa ainda existir, talvez estejam lá, debaixo das tábuas do chão do quarto, possivelmente destruídos pelo tempo e pelas traças. Eram hipóteses que Nair não queria considerar. Gostaria de saber desse diário intacto, com detalhes da vida de todos da época, e o Herege estaria ali, por completo, matando a grande curiosidade daquela Vila, acabando definitivamente com o mito. —Diga-me, D. Geralda, onde exatamente a senhora morava? — Sabe onde ficava o goiabal do Barbosa? — Na verdade, não. A vila cresceu e já não há mais goiabal em toda redondeza, mas me lembro da casa do Barbosa. Eu passava em frente ao curral ao lado de sua casa, indo para a escola. Hoje não há mais nada daquilo, é tudo rua calçada. — Por acaso ainda existe a oficina de carroceria do Nelson Cruz, antes do Fubico? — Não sei. Fubico, era assim chamada a cadeia pública, por ter uma minúscula cela, referindo-se a um cubículo. Era também chamada de Cubico. D. Geralda, num visível esforço para se lembrar, começa a descrever a casa: 38


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— Era a melhor casa da Vila, com uma varanda cheia de samambaias, e as tábuas corridas eram tão bem enceradas que refletiam como espelho. Lembrou-se da casa, mas não do endereço, e as mudanças ocorridas com o passar do tempo confundiam a cabeça de D. Geralda. Certamente a casa teria sido demolida. Que pena! Dois diários com relatos tão valiosos perdidos por aí, nas mãos de quem não daria nenhum valor. Estariam talvez em algum sótão, jogados em qualquer canto; a hipótese de estarem em algum sótão era uma grande esperança. Conversaram por vários dias e muitas coisas importantes foram ditas, até que chegou o dia de sua volta. Ela pegou o barco rio acima e, chegando a Cáceres, embarcou num avião bimotor de Goiânia e voou até Belo Horizonte. De lá, fez de ônibus o resto da viagem e depois de trinta longos dias fora de casa, Dra. Nair fora recebida com muita alegria pelos familiares e por mim, que queria saber detalhes de toda a investigação. Ela, porém, trouxe-me outro problema: a busca dos preciosos diários. No outro dia começamos a indagar sobre o paradeiro dos dois cadernos desaparecidos há quarenta e tantos anos. Tínhamos matéria suficiente para escrever um livro, mas os detalhes reais seriam melhores, por isso começamos a busca da antiga casa. Procuramos o Sr. Tó Barbalho, novamente. Ele saberia onde ficava a tal da casa. Dito e feito. Com muita boa vontade, saiu de seu bar, cruzou a rua e, olhando um prédio de três andares, disse: — Era aqui. Nair pôs as mãos na cabeça e disse: —Esses diários não existem mais; nem Sherlock Holmes os encontraria. Enquanto ela reclamava da desventura de ter perdido tal preciosidade, eu tentava imaginar quem poderia ter achado aqueles cadernos. Quem era o pedreiro mais conhecido da época? Quem era seu ajudante? Se conseguíssemos achar esses homens vivos seria 39


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meio caminho andado. Sem que eu dissesse qualquer coisa, Sr. Tó foi logo dizendo: — Lembro-me muito bem do dia em que demoliram a casa. Ela era a mais linda casa da Vila e D. Geralda tinha tantas flores na varanda que causavam inveja a todas as mulheres. Samambaias choronas cobriam toda a parede, vasos de azaléias floridas e um cachorrinho gordo e preguiçoso, que vivia deitado sob as cadeiras de ferro com fios de plásticos trançados. Quando vi o Sr. Nego Rumão deitando a marreta sobre as paredes, eu sentia uma dor no peito e cada faísca de reboco que voava, minha alma se despedaçava junto. Minha mulher sempre quis uma casa como aquela; e eu poderia comprá-la, mas não tive coragem. Seus ajudantes desciam as telhas por uma calha de tábuas, para não quebrá-las, as ripas finas do forro saíam intactas sem nenhuma lasca, até os tijolos eram recuperados. Aumentaram-me as esperanças ao ouvir aqueles relatos. Se esse Sr. Nego Rumão ainda estiver vivo, é possível que ele tenha encontrado os livros, e uma coisa que os idosos sabem fazer bem é preservar as coisas antigas. — O Sr. Nego Rumão ainda está vivo? – perguntei ao senhor Tó. — Ele está, e muito vivo. Morava em Brasília com uma filha, deve ter seus 90 anos, mas está muito lúcido. Quando vem visitar a neta e amigos, senta naquele banco e repete a mesma história: que era o mestre-de-obras mais querido do presidente Juscelino Kubitscheck e recebia ordens diretas de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, o que era um orgulho para ele, apesar de ninguém acreditar. Uma coisa eu posso garantir: ele era o melhor pedreiro da região. Era zeloso e fazia de seu trabalho uma obra de arte; inovava, mudava as formas; esses arcos nas varandas, segundo ele, são de estilo árabe. — Sr. Tó, desculpe-nos, mas voltaremos a falar sobre isso numa outra hora, agora queremos saber como e onde podemos entrar em contato com o Sr. Rumão? 40


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— No cemitério. — Mas o senhor não acabou de dizer que ele está vivo! — Disse e está. É sua neta que mora lá no morro do cemitério, e deve ter notícias e o endereço dele, eu suponho, acho que o nome dela é Raquel, tem dois meninos pequenos, que vivem pelas ruas cheirando cola de sapateiro. Partimos para lá. O morro íngreme nos deixou ofegantes e sem fôlego. Não entendíamos como alguém poderia subir ali. Chegamos a um barraco sem reboco, de telhas coloniais. Do lado de fora havia um banco improvisado de tábuas sobre tijolos, onde estava deitado um menino sonolento e sem camisa, sujo de terra vermelha, e poderia ser a pobre criança que Sr. Tó havia descrito. Quando nos aproximamos, ele gritou a mãe com uma voz fraca e longa. Ela veio até a porta: — O que foi, meu filho? Ele apenas levantou a mão em nossa direção e disse: — Eles estão chamando a senhora. Ela nos recebeu, e prontamente nos deu o endereço de seu avô em uma cidade satélite de Brasília – uma favela imposta aos candangos. Chegar lá seria outra viagem, mas não poderíamos interromper, porque José Reis Filho enviava uma quantia razoável, assim que solicitado. Nair tinha o zelo de enviar-lhe toda nota fiscal e o relatório de seus gastos... O que irá acontecer a Nair e Pablo? e senhor Hans? ... Caro leitor, Essa obra contém 160 páginas de pura emoção. Será que Pablo e Nair irão chegar a esse estranho senhor Hans e ouvirá dele a sua versão da história?. No caminho eles irão 41


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encontrar muitas surpresas, algumas delas perigosas, que farão você arrepiar. Eles não irão parar por nada, uma obstinação. ou será que desistirão da história do Herege e descobrirão o estranho caso do delegado? O fechamento resolverá um enigma surpreendente. Qual será a verdadeira identidade do herege? Mas para isso, você deve ajudar a manter a literatura viva, adquirindo o livro impresso. Pode ser encontrado na livraria Leitura em Governador Valadares, no GV Shopping, pelo site da All print Editora: www. allprinteditora.com.br, ou pelo correios, autografado pelo autor: jornalcaldense@yahoo.com.br. (informe-se e compre o livro) super barato! Breve estará em vários sites das melhores livrarias do país, ou em uma perto de você. peça a seu livreiro. Obrigado por ler minha obra José Matias

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José Matias

Depoimentos: “ O livro O Herge do III Reich é emocionante, eu não parei nem para comer, tem uma boa narrativa e viagens fantásticas, bem como, um final surpreendente, breve cairá no gosto do povo” Milton Mariano ( Escritor) “ O livro de José Matias é estranhamente bom, não consigo deixar de pensar nele, ele viaja na maioneze, e nos prende até encontrar o grande enigma do herege” eu recomendo. Clóvis ( artista plástico)

Eu fui desafiada ler apenas 10 páginas e não o dexei antes do final, é muito bacana, emocionante. Parabens! Vera Lúcia ( Assistente Social)

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O Herege do 3º Reich by José Matias - Issuu