6 meses de Ásia
BRUNO SALMONI

CAPÍTULO 2C

CLAN JETTIES
Parte da herança cultural histórica da Malásia



As casas simples e ambiente rudimentar em palafita dos Jetties constrastam com as construções modernas que passaram a subir na ilha de Penang.
Comunidade
nascida nas transformações da Malásiacolônia, os Clan Jetties são uma figura que se desconecta do restante da ilha de Penang, ao mesmo tempo que são um registro marcante da história da região.
Georgetown é uma cidade malaia que, como tantas outras cidades por onde passamos em nossas viagens, tem um centro histórico que está registrado na Unesco como “Patrimônio Histórico da Humanidade” (World Heritage Site).
Praticamente todo o interesse turístico da região está justamente nesse centro histórico agora patrimônio, com arquitetura colonial preservada e que mistura elementos europeus com elementos asiáticos, principalmente chineses, o que deixa tudo bem bonitinho e dá charme à cidade.
Parte da área histórica está à beira-mar, e a região portuária está incluída nessa área de preservação. Junto ao porto atual, onde desembarcam as balsas e outros barcos que fazem a comunicação entre a ilha de Penang e a península malaia e outras ilhas ao redor, existe uma comunidade que habita em casinhas de madeira ao redor de

Casas de palafita à beira-mar às margens do Estreito de Penang constituem o distrito dos Clan Jetties, elemento do centro histórico de Georgetown, patrimônio da humanidade pela Unesco.

extensos píeres.
A simplicidade dessas casas e até das vias de circulação – tudo de madeira sobre palafitas –lembra muito algumas comunidades ribeirinhas do Brasil. E formam um contraste marcante em relação aos edifícios históricos de alvenaria, que ficam logo atravessando a avenida. Na nossa percepção, é uma favela à beira-mar. Segue a tendência vista na última década em vários distritos antigamente marginalizados pelo mundo e que após campanhas de revitalização passam a ser atrações turísticas de suas regiões.
O distrito costeiro conhecido como Clan Jetties tem origem história complexa, que data do século 18 e sua relação com a região portuária de George Town enquanto cidade colonial e entreposto comercial. Geograficamente, a Malásia está situada em uma região estratégica que liga o
Oceano Índico e o Mar da China, historicamente conectando os diversos povos que habitavam o sul e sudeste asiático. O estreito de Melaka era o grande centro mercantil da região até que, uma vez que os ingleses dominaram e colonizaram a região, outros entrepostos foram instalados, incluindo na Ilha de Penang, que operava como zona franca.
A atividade comercial difundida pelos ingleses atraiu muita mão-de-obra vinda do sul da China. Muitos dos trabalhadores imigrantes trabalhavam como barqueiros, transportando bens e produtos ou pessoas entre a ilha e a península, ou abastecendo e trazendo carga fracionada de grandes navios que ancoravam em alto-mar. Os barcos desses trabalhadores ficavam ancorados em longos píeres (jetties, em inglês) na região de costa.
No início, esses abrigos eram ocupados apenas por homens solteiros. Com o passar do tempo, conforme esses homens foram se casando com mulheres malaias ou trazendo suas famílias da China, junto dos abrigos e ao longo dos píeres foram construídas casas sobre palafitas.
Os grupos se dividiam entre membros com mesmas raízes de ancestralidade ou clãs, e cada um desses grupos ocupava um dos diferentes píeres. Daí, o termo Clan Jetties, ou “píeres dos clãs”. A mudança na economia e declínio da importância comercial do porto levaram à decadência do distrito dos píeres. A região passou a ser vista como uma favela, e por este motivo não faltaram tentativas de demolir as palafitas e construir modernos complexos de prédios, mas por uma série de motivos sociais e políticos o bairro resistiu, até que foi incluído na zona de proteção quando George Town se tornou Patrimônio Histórico.
Andar pelos Jetties é uma experiência curiosa. As vielas estreitas têm piso de madeira e pelas frestas entre as casas é possível ver o mar. As construções de madeira dali são residências antes de tudo, com paredes externas decoradas com temas chineses como lanternas e pequenos estandartes, às vezes pequenos altares. Muitas vezes estão com janelas e portas abertas de frente para as vias, então é possível ver seus interiores onde as pessoas estão vivendo normalmente suas vidas - essa aparente total falta de privacidade é um elemento comum em várias cidades do Sudeste Asiático.
Direita Uma das casas do distrito, com portas abertas para qualquer um ver de fora.
Abaixo
Duas senhoras iniciam um pequeno ritual matinal no templo situado na entrada de um dos clãs.



A arquitetura urbana dali consiste de uma via principal que desemboca num píer, atravessada por diversas vias menores que levam para blocos residenciais e outras vielinhas paralelas. Muitas das casas junto à via principal são de uso misto, com lojinhas na varanda que vendem todo tipo de coisa – essas lojinhas, aliás, são um tanto polêmicas, pois há quem diga que elas “estragam o ambiente histórico do lugar”, embora naturalmente os moradores precisem dar um jeito de se sustentar e o comércio par ao turismo é uma boa maneira de fazer isso.
A entrada de cada clã tem um pequeno portal e um pequeno templo.
O nascer do sol é um momento particularmente bonito por ali. Em primeiro lugar, claro, pela beleza cênica: o sol nasce sobre os prédios em Butterworth, do lado oposto ao Estreito de
Penang. A luz alaranjada do sol nascente espalha sobre as águas do mar, e à medida que sua intensidade cresce vai revelando lentamente a fachada de todas as casinhas de palafita ao redor.
Em segundo lugar, porque o nascer do sol é um momento raro de paz e tranquilidade na cidade e na região. Nos primeiros momentos da manhã na comunidade é possível observar as pessoas em suas rotinas matinais em ações tão simples como varrer a varanda, pescar e realizar pequenos rituais em altares e nos templos na entrada dos corredores.
Os Clan Jetties parecem ser deslocados do resto de Georgetown no tempo e no espaço. Mas formam uma comunidade real que guarda um pouco do registro da história da Malásia que vai além dos predinhos bonitinhos do lado de lá da avenida.

Elementos dos Jetties que lembram outros que encontramos em comunidades ribeirinhas, como barcos e canoas ancorados nas laterais das vias (acima) e extensos píeres de madeira (à direita) de onde antigamente saíam dezenas de barcos para carregar e descarregar os navios cargueiros que chegavam para o comércio na região outrora Zona Franca de Penang.


Os primeiros momentos da manhã são um período tranquilo no distrito, que é bonito com ornamentos diversos nas fachadas das casas e sobre a via principal que conduz aos píeres.
As pessoas estão acordando e se preparando para a jornada, e é possível ver várias delas em suas tarefas matinais como limpar a varanda, cozinhar, pescar ou sair para fazer

compras no mercado, e até mesmo fazer as primeiras orações do dia nos diversos altares espalhados pelas vielas ou nos templos principais de cada clã.


As vias e vielas são estreitas passagens com piso de madeira (acima), que deixam todas as casas muito próximas entre si. Do lado de fora das construções, ornamentos dão o caráter da ancestralidade chinesa no distrito.
A construção sobre palafitas (à esquerda) é percebida no espaço entre as casas. Dependendo do horário, na maré baixa o assoalho com lama e pedras fica exposto.

Os Clan Jetties não são apenas um parque turístico, são antes de mais nada um distrito residencial onde dezenas de famílias moram, até hoje. Têm suas rotinas diárias, precisam ir trabalhar e circulam por ali de diversas maneiras como em qualquer bairro comum. As vielas estreitas não são acessíveis por carros (o que é um problema para quem

precisa, por exemplo, de ambulâncias ou bombeiros), mas são acessíveis por bicilcletas, motocicletas e scooters.


As palafitas tremulam no reflexo das águas calmas que banham os Jetties.