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Ibis Libris Rio de Janeiro 2013


Poeticidade Brasileira Copyright © 2013 Sérgio Gramático Junior Editora: Thereza Christina Rocque da Motta Capa, projeto gráfico e diagramação: Bruno Pimentel Francisco 1ª edição em novembro de 2013.

Gramático, Sérgio. Poeticidade maravilhosa / Sérgio Gramático. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2013. 100 p., 21 cm. ISBN 978-85-7823-174-3

Impresso no Brasil. 2013 Todos os direitos reservados ao autor. Ibis Libris Rua Raul Pompeia, 131 / 708 Copacabana | 22080-001 Rio de Janeiro | RJ Tel. (21) 3546-1007 www.ibislibris.net ibislibris@gmail.com Associada à LIBRE. www.libre.org.br


“TRATADO” POÉTICO DO RIO DE JANEIRO Ivan C. Proença Em época de eventos e comemorações, inclusive místicas, de Copa e Olimpíadas, e tentativa de tornar esta cidade como que um símbolo afetivo, arquitetônico e de natureza vária e exuberante, este novo livro do poeta Serginho Gramático serviria aos cariocas, aos brasileiros de norte a sul, aos turistas do país ou do exterior, a todos que ainda têm sensibilidade e plena ânsia de conhecer e ou conviver com o fazer literário, especificamente o gênero Poesia em sua dimensão mais significativa: Poeticidade maravilhosa, título feliz, decassilábico – homenagem maior à cidade do Rio de Janeiro.


O jogo formal Mesmo com a tentativa de retorno às formas fixas e mais tradicionais (austeras) da Poesia a partir dos anos 90, o fato é que hoje convivem tranquilamente – em presença dos melhores poetas – as formas livre e fixa, ambas dependendo da tendência natural do A. e ou da maior ou menor intensidade dos significados. A poética de Sérgio transita, com predominância absoluta, pelos versos livres, despreocupada com a isometria ou com os rígidos esquemas rítmicos, embora aqui e ali as rimas se tencionem com o poema em função da musicalidade intrínseca daquele texto, não raro com maior presença das rimas paralelas (em alternância ou não). No emprego (e seleção) vocabular, o A. não tem a menor precaução e ou contenção no uso de atributos quando a paixão pela cidade assim exige, resultando versos espontâneos, sinceros, rigorosamente exigidos pela natureza do poema-exaltação. As enumerações (Sou o que somos, Assumidos e Brindando, entre muitos outros) se encarregam de tornar-se conjuntivas dentro da ordenação caótica sugerida à primeira vista, tal a adequação plena das sequências que, em estrutura rítmica perfeita, o A. desenvolve. Versos prosaicos, imagística singela (portanto) é o que resulta ao final dos poemas que compõem núcleos temáticos bem estruturados e contendo soluções formais de poeta que mantém a homogeneidade qualitativa ao longo do livro.


E os universos conteudísticos Poesias, pessoas e paisagens (da cidade): o que melhor, e mais significativamente, poderia compor um livro-homenagem? Em prosa, não raro. Mas em poesia, por sua vez, que obra poderia homenagear melhor esta cidade, sua gente, seus hábitos e costumes, sua vida? A dignidade desses versos de Poeticidade maravilhosa faz com que surjam preitos óbvios e conhecidos e explorados, mas também os implícitos, os desconhecidos, os anônimos, os não alardeados, a exemplo de sambistas (e sambas), tipos e caricaturas, e pés-sujos, que existem e ou circulam pelos cantos, recantos ou pelo cosmopolitismo do Rio de Janeiro. Mas também faz com que se evidenciem as Mazelas e balas perdidas que atormentam o existir carioca. Crítico, em princípio, não emite ostensivo juízo de valor. Correto. Mas diante de uma “entrega” tão bela e tão bem conduzida pelo A., na louvação de sua cidade, ao crítico só resta remeter o Leitor à leitura e releitura do poema que envolve (e se envolve com) o domingo carioca, e ao poema-“complemento”, antológico, em que se diz do fim de tarde no subúrbio carioca — “todo domingo merece um fim de tarde no subúrbio”. E é isso mesmo, poeta. Ivan C. Proença é crítico literário, autor e professor


´ Sumario


Poeticidade Brasileira

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Paisagens da Cidade

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PAISAGENS DA CIDADE


Poeticidade Brasileira

MARAVILHOSA DE AMORES

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Amo E amo exagerado Do alto de um corcovado Desse pão açucarado Esse convite aberto Às suas maravilhas Esse encanto certo Por todas as suas trilhas Que revelam tua silhueta Em raio ultravioleta Tão gostosa e esbelta Num voo da asa delta Que pousa e decreta A inspiração de um poeta Amo E amo loucamente Tua face mais simples Essa cara tão sorridente Revelada em tua gente Que escancara satisfação Nesse bom humor eterno Passa Inverno Segue verão Filhos de especial mistura Nesse bronzeado que não se pensara Misto dessa derme escura Mescla pela pele clara Mitos de beleza pura Entes de beleza rara


Paisagens da Cidade

Amo Com o coração em festa Essa tua proposta De se fazer salgada encosta De se brotar floresta Ninada no colo do mar De se assumir montanha Altiva e manifesta Que se assanha nos lábios da praia Que comanda as marés Como a Deusa Maia Com Posseidon a seus pés Amo Com esse amor-simpatia Sua cronologia de Gaia Do paraíso indígena Da tanga à minissaia Nesse urbano paraíso Nesse sacro santo piso De capital da beleza Do reino tupiniquim Entre cimento e natureza Do solo botânico, o jardim Os bulevares floridos O Theatro, a Biblioteca As santas das Candelárias As praças com seu fascínio E a arquitetura tão vária De ocas e condomínios

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Poeticidade Brasileira

Amo E como não amar? Teus cheiros de olor infinito Os teus perfumes benditos De grama cortada no Aterro Da vista de suas Chinas De silvestre na Boavista De fogos do réveillon Aquele torpor de narinas De frango de padaria Das feijoadas nas quadras E arrebóis com sua maresia

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Amo Impossível de não amar Tuas vozes chiadas Nas suas canções encantadas Da Viola e Cavaquinho Cartolas em todos os Tons Todos os soluços de um chorinho Todos os outrossins Dos Pizindins Todos os Bens De um Pagodinho Dos Liras, das Laras Dos Kétis, das Naras Das raízes de Mangueiras De Nogueiras De Carvalhos Das Rosas Das Vilas


Paisagens da Cidade

E do alto das favelas E do asfalto E nessa ciranda, Quiçá que seja de Holanda Amo sem preconceitos Tua famosa acolhida Tua forma de dar boas-vindas A gente de outro lugar Esse braço estendido Essa conversa macia Essa sua democracia Saudada em seu pavilhão Um Cristóvão sadio e são Com sotaques variados Quadros de outras tintas Colorindo muito mais Que se espalham nas quintas Nos passeios imperiais Amo ver a rede estufando O Mário Filho vibrando Com o Olímpico Engenhão Nesses templos da bola Em que um se faz multidão A vibração nunca falta Na estrela de malta Na cruz solitária E na festa solidária De um urubu tricolor Comemorando desde ontem

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Poeticidade Brasileira

Até pra lá de amanhã Pois cada torcedor É seu próprio Maracanã

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Amo Num amor abençoado A salada de fé A oração poderosa De um pastor candomblé A vela que acende um pedido Pedido que seca a lágrima Lágrima que verte a água A água que faz a hóstia Que serve de simpatia Que toma a sorte por guia E lança mais uma jura E o milagre assegura Já que perdão é de graça E todo pecado tem cura Amo embevecido Esses lugares De alegria tão menina Chamados de bares de esquina Da turma que chega com sede E pede amizade gelada Ao garçom do Humaitá Dá um gole em Realengo E sai por aí e por lá Que bebe em Laranjeiras E brinda a todos os fins


Paisagens da Cidade

Na mesa de Cascadura Que pede a conta no Lins E lá na Penha, pendura Amo com singeleza Os domingos na laje Que nascem nas sextas-feiras Molhados pelas mangueiras Com sombras de zinco e telha Vizinhos sentados no chão E carne assando na grelha Com sal grosso, paz e carvão Amo Com a ginga de muitos amores O sapato duas cores Do sambista de velha guarda Que cobre sua pele parda Na elegância inegável De um tecido impecável Na simples postura taful Que passa cera na palha Que firma o seu nobre chapéu E ri pro céu azul Nem sempre azul, mas sempre céu Amo E amo bem informado Os jornais pendurados A emprestar suas manchetes Aos olhos dos advogados

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Poeticidade Brasileira

Dos ciclistas, senhoras, porteiros Contínuos e engenheiros Das estudantes Dos camelôs Das titias e dos vovôs De todo povo passante Que se informa nesse durante Amo teus carnavais africanos De Egitos, greco-romanos Que te fazem Maravilhosa No branco-azul-verde-rosa

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Amo a cuíca sorrindo Para o rodopio infindo Para o sonho sem fim Da porta-bandeira mirim Amo o trabalho presente No corre-corre silente Sem lugar nem hora Dos garis noite afora Amo a sombra diagonal Que os postes produzem à toa E nos dias de sol visceral Abrigam qualquer pessoa Amo a piada de si mesmo Moldada pelo improviso Surgida do fato a esmo Pelo bem de um novo sorriso


Paisagens da Cidade

Amo o dorso da Garça Refletido no sereno rasante Que a baía não disfarça E revela exuberante Amo sem nenhuma censura Esse amor que nunca para Amo a ti, criatura Que em mim cria tara Amo a ti, Cidade Maravilhosa Cidade monumento Amo cada movimento Dessa vida em polvorosa Amo e amo deveras Tuas belezas sinceras Tua alegria indiscreta Amo-te toda prosa Nos versos desse poeta Amo-te como quem não quer nada Só pra te saber amada Amo-te chique, amo-te rota Amo-te em paz, amo-te em luz Amo-te garota Que sai de Santa Cruz E balança em Ipanema Amo-te até um dia Eternizar-te em poema

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Poeticidade Brasileira

ÉDEN TROPICAL

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Então formou o Senhor Deus ao carioca, da areia da praia E lhe soprou nas narinas um choro de Pixinguinha E plantou o Senhor Deus um paraíso nos trópicos Do solo, brotaram amendoeiras, salgueiros e mangueiras verdes de mangas rosas Quatro braços de rios corriam dali até ao Atlântico Maracanã, Carioca, Trapicheiros e Faria Timbó E foi posta no centro do paraíso uma árvore de pernil de cabrito do Nova Capela Deus fez cair sono pesado sobre o carioca (num sábado, após choppinho e feijoada) Tirou-lhe uma costela e fez a carioca Tipo assim, mó gatinha Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos e que vendia DVD pirata na Uruguaiana, fez com que o casal fosse à Lapa O Senhor Deus por isso não tirou o casal do Paraíso Mas deixou crescer muito concreto e abismo social E o pior, péssimos políticos


Paisagens da Cidade

ENQUANTO CARIOCAR Enquanto no Pão de Açúcar, cariocar E enquanto no Corcovado, cariocar E enquanto no Maracanã, cariocar E enquanto na Quinta da Boavista, cariocar E enquanto em Paquetá, cariocar E enquanto na Igreja da Penha, cariocar E enquanto no Aterro, cariocar E enquanto no Calçadão de Bangu, cariocar E enquanto na Vista Chinesa, cariocar E enquanto no CCBB, cariocar E enquanto no Mercadão de Madureira, cariocar E enquanto no Parque Lage, cariocar E enquanto numa quadra de Escola de Samba, cariocar E enquanto no Piscinão de Ramos, cariocar E enquanto na orla inteira, cariocar

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Poeticidade Brasileira

E enquanto desembarcar Rodoviária Novo Rio, cariocar E enquanto aterrissar, Galeão Tom Jobim, ou Santos Dumont, cariocar Em cada oportunidade de riodejaneirice, cariocar E quando cariocar, carioque sem moderação

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Paisagens da Cidade

ATRÁS DA BURGUESIA Tinha uma favela atrás da burguesia Atrás da burguesia tinha uma favela Que trabalhava em sua portaria Que assistia as suas mesmas novelas Que sentava ao seu lado na arquibancada do Maracanã Que alimentava sua cultura Que flanelava seu carro na porta do teatro Que votava nos seus mesmos candidatos Nunca se lembrarão desse fato tão tácito Na vida de suas retinas tão cerradas Nunca se lembrarão que tinha uma favela atrás da burguesia Atrás da burguesia tinha uma favela

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FIM DE TARDE, SUBÚRBIO Todo domingo merece um fim de tarde no subúrbio Cheio de papel pregado em varetas E vontade de bermuda Todo par de chinelo merece um menino cheio de descompromisso Há um voo de menino em cada domingo no subúrbio E há um céu para cada rabiola E na outra ponta da linha Alguém que no futuro vai se lembrar Que um dia sonhou em ser pipa 28


Paisagens da Cidade

UM DIA DE MAR E MATO Ao Caminho do Bem-te-vi Deitei no pó que originou Adão Todo de indolência e desnecessidade Perdi meu olhar no voo bêbado de uma borboleta Ela o devolveu gentilmente na corola de uma margarida As ondas ora silenciavam, ora sonorizavam novidades Não se cansavam das pedras E era tanto formato de folha, tanta quantidade e tamanho, que não me admiraria se o mundo fosse folhocêntrico Eis que uma gaivota se enfiou no mar Emergiu trazendo um peixe no bico Talvez companhia, possivelmente alimento Um lagarto de ócios ventreava a grama Avezinhas desfilavam nos galhos Insetos faziam-me de estacionamento Formiga na coxa Joaninha na nuca Muriçoca no antebraço Percevejo no pé Só eu mamiferava o ambiente E criava raiz Fiquei arbusto por nem sei quanto de eternidade A aura capim

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Poeticidade Brasileira

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O riso jardim O jeito graveto Meu olhar fez amor com orquídeas Geramos samambaias A inveja do tempo fez com que a noite chegasse mais cedo E me expulsasse desse estar silvestre Voltei num lento contragosto ao cimento Para o hipnótico sobreviver entre buzinas, e roupas, e preços, e competições Estava tão planta e tão bicho E tão terra e tão nuvem Que me senti, distraidamente menos humano na fumaça Na ânsia de encontrar afeto nesse braço materno que a Natureza oferece ao homem ingrato


Paisagens da Cidade

CONCLUSÕES DO JARDIM BOTÂNICO Na entrada do Jardim Botânico tem tartarugas São elas que nos dizem, sem palavras, para passearmos por lá com a mesma velocidade que trafegam Belo e justo recepcionar No Jardim Botânico deve-se despir de esteticismos Deve se imbuir de admiração E olhar pro alto No Jardim Botânico é indispensável libertar pescoço Retrair a nuca Para deleitar-se com o serpenteamento quase infinito Que as begônias enamoram nos troncos No Jardim Botânico é necessário ouvir o vento Mesmo que em brisa suavíssima É certo que ele lhe revelará alguma novidade Daquelas que a urbe nos subtrai No Jardim Botânico precisa-se preparar-se para novas avassaladoras paixões Eu mesmo me apaixonei certa vez Por uma Miltônia no orquidário Ela lá, com seu vestido-corola E sua silhueta-esporo Uma espécie de dama de ponta-cabeça Quase fui morar em seu vaso

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Poeticidade Brasileira

No Jardim Botânico turistarás sem que valha um passarinho (os reais cicerones do pedaço) Narinarás o silvestre E Retinarás infindáveis verdes No Jardim Botânico é obrigatório lerdeza Para aprendizado e encantamento

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No Jardim Botânico hei de plantar uma Figueira-de-Bengala E vê-la crescer sua copa transgressora de traços fora da tela de folhas abusadas pela órbita E vê-la derramar seus galhos pelo tronco se revertendo em raiz E me descansar poeta sob uma sombra de cumplicidade indolente Por uma tarde inteira de outono no Jardim Botânico


Paisagens da Cidade

TER A CIDADE Tenho aqui sob meus pés a cidade Do solo lindo que acolhe raízes razão dos sambas Do solo histórico no qual raízes geraram samba Do chão de areia asfalto e mata De algo mágico Com magia tesa em cada pedra portuguesa Tenho aqui sobre minha fé a cidade De estátua cultual no Corcovado De portas de tantas igrejas De terreiros e altares De togas, estolas, turbantes Uniformes que toda religião tece e que desnecessitam da minha prece Tenho aqui em meu peito

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Poeticidade Brasileira

a cidade Que me emociona Que coleciona meus gargalhares Que me conquista na atração irrefutável irrecorrível descontrolada Que faz meus tornados brisas refrescantes na singela sina de ser apaixonante

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Tenho aqui em minhas retinas a cidade Fotográfica Fotogênica Poli-ultra-giga clic-gravada Lugar de flashes de filmes de álbuns Que se revela saliente em mil milhões de lentes em quinquilhões de encantos em três por quatro aos quatro cantos Que verte meu ver-te Que é toda cariocamente atraente de flerte


Paisagens da Cidade

Tenho aqui em meus sonhos a cidade Que em amanhece todos os dias bem humorada Que me anoitece em transe Que me transa e me entorpece Que me deixa acordado em torpor Que me conserva um sonhador Tenho aqui neste verso a cidade Que me invade Que me arcade Que me saudade maravilhosa Toda pose Toda prosa Eis aqui a metacidade a Amacidade a Sacracidade A S찾o S처paix찾o do Rio de Janeiro Que me tem por inteiro

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Poeticidade Maravilhosa