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WAVE MAGAZINE 2026 DIGITAL Nº 3
5 Leia nesta edição – Resumo editorial
7 Entrevista com Mariana Ikuta – Arte no Canadá. Entre Mundos e Afetos
14 Maria Leopoldina – A imperatriz que ajudou a construir o Brasil 18 Toronto em flor – Diversidade cultural colore a cidade na primavera
22 Monique Messier – Cantora e compositora brasileira faz carreira no Canadá
24 Abrigo Centre – Apoio a mães e cuidadores em contexto de vulnerabilidade familiar
28 Maternidade – Parto e acolhimento para imigrantes em Ontário
30 Mama Doula Canada – Apoio humanizado e em português para futuras mamães
33 Entre o paraíso e a sobrecarga – O que a maternidade realmente exige
36 Receita: Torta de morango – Um carinho em forma de sobremesa
MÃESFeliz Dia das
Luis Camara Secretar y Treasurer
Ricardo Teixeira
Recording Secretar y
Jack Oliveira Business Manager
Nelson Melo President
Marcello DiGiovanni Vice -President
Jaime Cor tez E-Board Member E-Board Member
David McCluskey
Leia nesta edição
Por Redação Wave, Toronto
Aprimavera chega trazendo histórias de transformação, pertencimento e inspiração para a comunidade brasileira no Canadá. Nesta edição, dedicada às mães, reunimos personagens e iniciativas que conectam cultura, memória, maternidade e novas oportunidades.
Abrimos com a trajetória da ilustradora e designer brasileira Mariana Ikuta. Vivendo em Vancouver desde 2016, a artista construiu uma carreira internacional ao transformar temas como maternidade, identidade e imigração em criações marcadas por sensibilidade e autenticidade.
Nossa matéria de capa fala sobre Maria Leopoldina da Áustria. Aqui revisitamos um dos capítulos mais importantes da história do Brasil. Muito além do título de primeira imperatriz do Brasil, teve papel decisivo no processo de Independência, atuando como estrategista política em um momento fundamental para a formação do país.
Na editoria de cultura, celebramos a primavera em Toronto, quando flores, cores e diversidade transformam a cidade. Destacamos ainda a cantora e compositora Monique Messier, representante de uma nova geração de artistas brasileiras que constrói sua identidade musical entre diferentes culturas.
Na editoria de maternidade, conheça iniciativas que oferecem acolhimento, suporte em português e apoio humanizado para famílias brasileiras no Canadá. Dentro do tema, Izabel Dolhy escreve em sua coluna: Entre o paraíso e a sobrecarga – O que a maternidade realmente exige.
Receita da edição? Torta de morango. Um carinho em forma de sobremesa.
Boa leitura e até a próxima edição!
Ilustração de Mariana Ikuta: My Son/Sun
MarianaIkuta
Arte no Canadá. Entre Mundos e Afetos
Por Alethéa Mantovani, São Paulo
Vivendo em Vancouver desde 2016, a ilustradora e designer brasileira Mariana Ikuta construiu uma carreira que ultrapassa fronteiras e transforma experiências como maternidade, identidade e pertencimento em inspiração para a sua criação artística.
Formada em design gráfico, Mariana iniciou a sua carreira em Porto Alegre, em 2014. Pouco tempo depois, mudou-se para Nova Iorque, onde trabalhou como freelancer, até se es-
tabelecer no Canadá. Foi em Vancouver que encontrou um novo caminho artístico: o universo dos livros infantis. Após estudar na Emily Carr University, deu início ao projeto que viria a se tornar “Dia de Inventar”, obra publicada no Brasil pela editora Carochinha e que celebra a criatividade e o olhar sensível da infância.
É na maternidade que a sua arte ganha ainda mais profundidade. Em trabalhos autorais como My Son/Sun,
Ilustração de Mariana Ikuta: Maiden, Mother, Crone
Mariana traduz a dualidade intensa de ser mãe, entre a plenitude e o esgotamento, a luz e a fragilidade. A obra, já exposta em galeria, reflete o equilíbrio delicado entre presença e transformação, sentimentos que se intensificam em datas como o Dia das Mães. “Meu filho é minha maior fonte de luz, mas a maternidade também traz desafios profundos. Existe uma linha tênue entre dar tudo de si e sentir que não resta mais nada”, revela a artista.
A vivência entre culturas — brasileira, japonesa e canadense — também marca o seu trabalho. Em Triptych, Mariana explora as três fases da vida e identidades culturais distintas, conectando infância, maternidade e pertencimento em uma narrativa visual poética. Essa sensação de viver “entre mundos” acompanha a artista desde a infância e se fortaleceu ao longo de sua jornada internacional.
Apesar das oportunidades no mercado criativo canadense, Mariana destaca os desafios. “É um mercado vasto, mas extremamente competitivo. Ao mesmo tempo, há espaço para quem constrói uma trajetória consistente e busca conexões reais”, afirma.
Hoje, além do trabalho como designer, ela mantém uma produção autoral ativa. Mariana compartilha os seus processos criativos por meio de uma newsletter. Para o Dia das Mães, prepara também novos produtos inspirados nesse universo afetivo que atravessa a sua obra.
A história de Mariana Ikuta é, acima de tudo, sobre reinvenção. Entre países, linguagens e diferentes fases da vida, a sua arte encontra no afeto, especialmente no materno, um espaço para existir, florescer e emocionar.
Entrevista com Mariana Ikuta
WAVE – Como foi o processo de adaptação à vida em Vancouver e de que forma essa mudança impactou na sua identidade artística?
MARIANA IKUTA – Foi aqui em Vancouver que tive o meu primeiro contato com a produção de livros infantis. Fiz alguns "continuing studies" na Emily Carr University, em Vancouver, e aprendi sobre o processo e o mercado. Em uma dessas aulas, comecei um livro que acabou se tornando o "Dia de Inventar", publicado no Brasil pela editora Carochinha. Me apaixonei pelo processo e pelo universo de possibilidades que esse mercado permitia. Também tive a experiência de conhecer vários artistas de diferentes áreas por aqui. Vancouver é uma cidade com muita produção voltada ao cinema e à TV, então, tem muita gente que trabalha nesse mercado. Meu marido trabalha em uma empresa de animação, então ficamos rodeados de pessoas muito incríveis e talentosas. Um dos meus melhores
Mariana Ikuta
As culturas brasileira, japonesa e canadense se fundem e marcam o seu trabalho artístico
amigos trabalhava desenvolvendo jogos indie, outra também era ilustradora e animadora, vários trabalham fazendo efeitos especiais em filmes. Aqui tem muita gente que vive bem trabalhando em indústrias criativas, algo que era muito raro de ver no Brasil na época em que fomos embora.
WAVE – Você menciona viver "entre dois mundos". De que maneira essa dualidade cultural se manifesta nas suas ilustrações e narrativas?
MARIANA IKUTA – Mesmo quando eu morava no Brasil, nunca me senti "única". Por ter descendência japonesa e morar no Sul, questões culturais e de pertencimento sempre foram bem presentes na minha vida. Desde pequena,
parecia que existiam vários mundos que não coexistiam fora de mim. Minha família é do interior de São Paulo, e boa parte da minha infância passei por lá. Trago bastante inspiração de elementos específicos dessa época. Desde que me mudei para o Canadá, duas coisas se tornaram mais evidentes: a conexão com a natureza, daqui e de lá, e a busca por comunidade e conexão humana.
WAVE – O mercado criativo no Canadá é bastante diversificado. Como você enxerga o espaço para ilustradores e autores de livros infantis no país?
MARIANA IKUTA – O mercado norte-americano para livros infantis é extremamente vasto e rico, com muitas
Ilustração de Mariana Ikuta: Shower Ilustração de Mariana Ikuta: Flowers
vozes e oportunidades. Em compensação, é extremamente competitivo. Então, apesar de existirem muito mais opções e uma linha de trabalho que permite viver disso, é bem difícil entrar e se estabelecer nele. O mercado de ilustração está bem diferente no momento com o advento da IA. Existem oportunidades, mas estamos em um período difícil e bem competitivo.
WAVE – Trabalhar com clientes como
The Globe and Mail e Vancouver Aquarium lhe trouxe quais aprendizados sobre o mercado editorial e comercial canadense?
MARIANA IKUTA – O que posso dizer de similar sobre esses dois trabalhos é que foram clientes incríveis, tanto pela liberdade artística quanto pela comunicação no processo. Também trabalhei com eles logo quando me mudei, o que foi muito motivador e inspirador.
WAVE – Há diferenças marcantes entre o mercado brasileiro e o canaden-
se no que diz respeito à valorização da ilustração e dos livros infantis?
MARIANA IKUTA – Com certeza. Talvez não em termos de apreço ao trabalho em si, mas monetariamente e em oportunidades. Aqui, pelo mercado ser mais estabilizado (isso considerando os EUA, porque só o canadense é mais restrito), conheço vários artistas que conseguem viver só como ilustradores. Criar livros infantis é um processo bem longo. Um projeto curto dura quatro meses de trabalho; tem livros que podem levar mais de um ano. O tempo de publicação nas editoras também é bem lento. No geral, depois que você vende um livro, precisa esperar pelo menos um ano até ele ser realmente publicado. Você tem que trabalhar com o "long game" e ter produção constante, mas é possível. No Brasil acho que também é, mas acredito que seja mais difícil trabalhar só nesse nicho. O que, por um lado, é bom também. Acho que essa é uma tendência para os criativos no momento: ter várias fontes de renda.
"Para mim foi bem positivo fazer aulas e conhecer pessoas das áreas criativas por aqui."
No Brasil fiz vários freelas no mercado infantil para produção educacional, muitas vezes atrelados a editais do governo. Infelizmente o mercado de livros, tanto aqui quanto lá, não é muito linear ou monetariamente estável, e no Brasil existe pelo menos esse incentivo governamental que estimula o mercado criativo de forma constante.
Aqui no Canadá, há muitas publicações de revistas, jogos e também projetos educacionais que podem trazer outras fontes de renda.
WAVE – Como a vivência em Vancouver influencia o seu processo criativo, especialmente ao explorar emoções e o "mundo interior" nos seus trabalhos?
MARIANA IKUTA – Uma coisa muito diferente daqui é que a noção de individualidade do canadense é muito diferente da do brasileiro. Onde você termina e o outro começa é muito mais separado. É muito fácil se sentir isolado em um mar de pessoas, o que, por um lado, permite que você seja um indivíduo sem tanto julgamento do outro; porém, também torna mais difícil a conexão humana.
Por eu ser uma pessoa mais introspectiva, essa percepção do mundo e a existência nele me inspiram bastante. É algo que reflito e tento explorar: a contradição entre liberdade e isolamento pessoal.
WAVE – Para artistas brasileiros que desejam atuar no Canadá, quais desafios e oportunidades você destacaria a partir da sua experiência?
MARIANA IKUTA – Acho que morar no exterior amplia a visão sobre as oportunidades que existem fora do Brasil, pois todos apresentamos nossos trabalhos nas mesmas plataformas online. Acho que o principal é encontrar comunidades criativas e espaços onde você consiga desenvolver a sua arte, expô-la e se conectar com outras pessoas.
Entrar em qualquer mercado sem conexões é sempre difícil. Para mim foi bem positivo fazer aulas e conhecer pessoas das áreas criativas por aqui. Através disso, você aprende mais sobre oportunidades e possibilidades de crescimento artístico.
A maior oportunidade que existe é, realmente, a concentração de pessoas com interesses parecidos, sensibilidades artísticas e ideais criativos. O importante é achar esse grupo que te inspira a ser quem você quer ser. Um espaço para você existir como ser criativo.
Visite o site de Mariana Ikuta: marianayi.com
A imperatriz que ajudou a construir o Brasil – Mãe da Rainha de Portugal Maria II –Maria Leopoldina
Por Redação Wave, Toronto
Muito
antes de o Brasil se consolidar como nação independente, uma mulher já exercia, nos bastidores do poder, um papel decisivo nesse processo. Maria Leopoldina da Áustria não foi apenas a primeira imperatriz do país — foi também protagonista política, estrategista e figura central em um dos momentos mais importantes da história brasileira.
Nascida em Viena, em 1797, filha do imperador Francisco I da Áustria, Leopoldina cresceu em um ambiente marcado por ciência, cultura e política. Recebeu uma educação incomum para mulheres de sua época, com forte formação em botânica, mineralogia e ciências naturais, o que ampliou sua visão de mundo e sua capacidade de leitura política. Esse repertório intelectual seria fundamental em sua atuação no Brasil.
Maria Leopoldina ao centro, com o marido Pedro I e o filho Pedro II. É sempre lembrada como uma mulher que exerceu influência real sobre os rumos do Brasil em um momento decisivo de sua formação. (Ilustração histórica livre / Domínio público —AI ChatGPT)
Do casamento à chegada ao Brasil
Seu destino mudou radicalmente em 1817, quando deixou a Europa para se casar com Dom Pedro I. Ao chegar ao Rio de Janeiro, encontrou uma realidade distante das cortes europeias, mas rapidamente se envolveu com o novo lugar, assumindo, no Brasil, um importante papel histórico.
O caminho para a Independência
Em 1822, o Brasil vivia um período de forte tensão com as Cortes portuguesas, que exigiam o retorno de Dom Pedro a Lisboa e buscavam restringir a autonomia do Reino do Brasil. Nesse contexto, Leopoldina assumiu a regência do país enquanto o príncipe viajava por São Paulo.
Instalada no Paço de São Cristóvão, no Rio de Janeiro — então capital do Reino do Brasil — Maria Leopoldina operou diretamente em um dos momentos mais críticos do processo de independência de Portugal. Documentos da época indicam que ela presidiu reuniões do Conselho de Estado no início de setembro de 1822 e participou ativamente das discussões sobre os rumos políticos do país.
Monumento à Independência do Brasil, em São Paulo
Diante do agravamento da crise com Portugal, Leopoldina defendeu a ruptura como caminho inevitável, alertando Dom Pedro I para a urgência da separação. Em 7 de setembro de 1822, foi então proclamada a Independência do Brasil às margens do rio Ipiranga, em São Paulo.
Maria Leopoldinha
Imperatriz e mãe
Como imperatriz, sua atuação na esfera política tanto do Brasil quanto de Portugal foi muito importante. Mas na vida pessoal enfrentou desafios, como um casamento marcado por dificuldades e problemas de saúde.
(Foto: Leticia Lima. Wikimedia, Creative Commons)
O casamento com Dom Pedro I foi conhecido por tensões e infidelidades, especialmente com Domitila de Castro, mas Leopoldina manteve sua postura institucional e seu compromisso com a família imperial.
Educada em valores dinásticos, apoiava a consolidação da posição dos filhos na Casa de Bragança. Sua filha mais velha, Maria da Glória (1819–1853), foi proclamada Maria II, Rainha de Portugal e seu filho mais novo, Dom Pedro II (1825–1891), tornou-se o imperador do Brasil, revelando sua influência nessas duas nações.
Maria Leopoldina faleceu em 1826, aos 29 anos, por complicações obstétricas e fragilidade do organismo. Sua morte comoveu a população e consolidou sua imagem como uma figura respeitada e admirada. Mesmo com uma trajetória breve, foi figura central na história do Brasil. É vista por historiadores como Paulo Rezzutti e Mary Del Priore como uma das grandes estrategistas do nascimento do Brasil independente.
Mãe de Maria II – Rainha de Portugal –
Maria da Glória, filha mais velha de Maria Leopoldina da Áustria e Dom Pedro I, tornou-se a rainha Maria II de Portugal ainda criança, após a abdicação de seu pai, em 1826. Seu reinado foi interrompido em 1828, quando Miguel I de Portugal, seu tio, tomou a coroa. Este governo marcou o período do miguelismo, caracterizado por uma monarquia absolutista e culminou na Guerra Civil Portuguesa (1828–1834). Com a derrota de Miguel I, Maria II foi restaurada ao trono e permaneceu como rainha até sua morte em 1853. Nesse segundo período, consolidou-se como referência da monarquia constitucional em Portugal. Maria II é lembrada como uma monarca ligada à modernização do sistema político português e à afirmação do liberalismo, apesar das turbulências que marcaram seu governo.
Diversidade cultural colore a cidade na primavera Toronto em flor
Por Redação Wave, Toronto
Ascores rosa, branco e lilás estão cada vez mais presentes em flores e arranjos naturais no mercado de Toronto. Essa tendência traduz não apenas a busca por uma estética diversa, mas também a valorização de gestos personalizados. Essa preferência ganhou força tanto pela influência cultural das comunidades quanto pelas novidades que o mercado apresenta.
Um exemplo marcante dessa influência cultural é o da cerejeira Sakura, símbolo nacional do Japão, plantada aqui no Canadá. Reconhecida pela beleza e delicadeza, a cerejeira Sakura oferece um espetáculo de floração que pode ser admirado entre o final de abril e o início de maio, em diferentes locais de Ontário. Essa presença amplia o espetáculo da primavera e fortalece os laços culturais entre japoneses e canadenses.
Em Toronto, a floração das cerejeiras pode ser apreciada em espaços como High Park, Centennial Park, York University, Cherry Street e Toronto Islands. Muitas dessas árvores especialmente as do High Park, foram um pre-
sente do Japão, logo após a Segunda Guerra Mundial, simbolizando a amizade e o acolhimento de nipo-canadenses. Mais de 2.000 cerejeiras Sakura foram doadas e plantadas, com contribuições adicionais em 1984 e por meio do Sakura Project, em 2001.
Diversidade floral ganha espaço
Floristas locais e online indicam que as rosas continuam liderando as preferências dos consumidores em Toronto, especialmente em datas românticas. No entanto, observa-se uma diversificação nas escolhas: tulipas e orquídeas ganharam espaço como opções sofisticadas e duradouras. Entre brasileiros e latino-americanos, flores tropicais e coloridas, como as gérbe-
ras, são populares. Já portugueses e luso-canadenses mantêm forte preferência por rosas e cravos, importantes símbolos históricos e culturais.
Essa diversidade se reflete nas vitrines das lojas da cidade. Floristas independentes em bairros como Kensington Market e Scarborough têm se destacado em revistas locais por oferecem arranjos personalizados de flores naturais que atendem às preferências pessoais e culturais. Além deles, plataformas online como Toronto Blooms, Tonic Blooms e Flora Queen
facilitam o acesso a um tipo de produto natural e delicado, conectando os consumidores aos floristas locais. Todas essas modalidades acompanham a crescente demanda por diferentes tipos de flores naturais, reforçando a satisfação dos clientes, seja pelas tradições culturais, seja pelas preferências individuais. Flores naturais de muitas cores e tipos estão presentes em ocasiões marcantes como Valentine’s Day, Dia das Mães, Thanksgiving, festas de aniversários e casamentos.
As ruas de Yorkville, em Toronto, se destacam pelos adornos florais no período da primavera e do verão
(Foto: Raysonho, Wikimedia Creative Commons)
Monique Messier Cantora e compositora brasileira faz carreira no Canadá: “Me
sinto inteira no palco”
Por Bárbara Muniz, Ottawa
Aos20 anos, a jovem cantora e compositora Monique Messier representa uma nova geração de artistas brasileiras que constroem sua identidade musical entre culturas. Nascida em São Luís do Maranhão, ela chegou ao Canadá em 2019, aos 14 anos, trazendo na bagagem não apenas a herança brasileira, mas também uma vivência artística que começou ainda na infância.
Filha de mãe brasileira e pai canadense-brasileiro, Monique se mudou para Ottawa para ficar mais próxima da família paterna e em busca de uma melhor qualidade de vida. A música, no entanto, sempre foi uma constante.
Monique Messier (Foto: Arquivo pessoal)
“A música faz parte da minha vida desde que me entendo por gente”, conta. Criada em uma família musical, ela cresceu acompanhando de perto a carreira da mãe, cantora e fonoaudióloga, frequentando shows, ensaios, gravações e entrevistas.
Essa convivência precoce com o universo profissional da música foi decisiva. Além disso, a diversidade de sons que marcaram sua infância — da MPB, samba e forró ao folk americano, pop e rock — ajudou a moldar seu estilo e sua forma de compor. Hoje, Monique escreve suas próprias canções e toca violão, piano e ukulele, instrumentos que também fazem parte do seu processo criativo.
“Eu descreveria meu estilo como uma mistura de pop, rock e folk, com elementos acústicos. Minhas principais referências na música são The Cranberries, Shania Twain e as estrelas pop da Disney que eu cresci assistindo. Minha mãe também fez questão de me apre-
sentar a todos os grandes cantores e bandas brasileiras, como Marisa Monte, Tribalistas, Clara Nunes, Rita Lee e Ney Matogrosso, que, com certeza, influenciaram muito a maneira como eu canto e me apresento hoje e são grandes inspirações para mim”, afirma a cantora.
A formação acadêmica veio como um passo natural. Monique acaba de se formar no programa Music Industry Arts, do Algonquin College, onde teve contato com diferentes áreas da indústria musical, como gravação em estúdio, produção de áudio, empreendedorismo e negócios. “Quero me dedicar profissionalmente à música”, afirma, sem hesitação.
Atualmente, ela se apresenta ao lado da banda Polarized, também de Ottawa. A parceria começou em 2025, quando Monique realizou seu primeiro show como atração principal. “Começamos a fazer shows juntos em julho de 2025 e vamos continuar em 2026”, diz a artista, que destaca a afinidade musical e a troca criativa com o grupo.
Apesar de jovem, Monique já acumula experiências de palco dentro e fora do Canadá. Além de apresentações em São Luís, ela já cantou em Gatineau, foi finalista da competição Secondaire en Spectacle e participou de diversos eventos beneficentes. Para ela, subir ao palco é mais do que uma performance. “É uma sensação única. Eu me sinto livre, inteira e completamente pertencente”, resume.
Monique Messier descreve seu estilo como uma fusão de pop, rock e folk, com influências acústicas. (Foto: Instagram pessoal)
Abrigo Centre,Toronto
Apoio a mães e cuidadores em contextos de vulnerabilidade familiar
Por Redação Wave, Toronto
Ao apoiar mães, pais, avós e cuidadores, a organização Abrigo Centre quebra ciclos de violência familiar, transforma vidas e projeta impacto positivo direto na sociedade. Serviços em inglês e português garantem maior acessibilidade cultural.
pleno século XXI, a violência contra mulheres e crianças segue sendo um quadro global triste e urgente. Segundo a ONU, cerca de 50 mil mulheres e meninas foram assassinadas em 2022 por parceiros íntimos ou familiares. No Canadá, embora os índices sejam bem mais baixos, a situação também é grave, colocando a violência de gênero como prioridade nacional.
Segundo o Statistics Canada, em 2021 foram registrados 34.242 casos de violência sexual. Essa condição é reforçada pelo Ministério de Crianças, Comunidade e Serviços Sociais de Ontário ao estimar que 1 em cada 3 mulheres sofrerão algum tipo de violência sexual ao longo da vida no Canadá. Isso mostra que, mesmo em um país com políticas avançadas de equidade de gênero, a violência continua sendo uma realidade.
Em 2022, em resposta a esta situação, o governo canadense lançou o Plano Nacional para Acabar com a Violência Baseada em Gênero (NAP-GBV, sigla em inglês). Estruturado em cinco pilares estratégicos — apoio a vítimas e famílias, prevenção, justiça responsiva, abordagens lideradas por povos indígenas e fortalecimento da infraestrutura social — o NAP-GBV serve como um guia nacional.
Mas é na outra ponta, na ação local de organizações comunitárias e de abrigos de apoio que os resultados se tornam reais, transformando a vida de mulheres, meninas e famílias vítimas de violência. É nesse contexto que o Abrigo Centre demonstra toda a sua importância e aparece como referência. Há mais de 30 anos investindo na qualidade de
seus programas e iniciativas, essa organização, localizada em Toronto, trabalha para atender, orientar e encaminhar mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade em prol de uma sociedade mais equilibrada.
Abrigo Centre: ação comunitária transformadora contra a violência
Fundado em 1990, o Abrigo Centre oferece serviços em inglês e português, garantindo maior acessibilidade cultural. Isso faz com que mulheres e crianças da comunidade luso-canadiana sejam seu maior público. O Abrigo Centre assiste cerca de 500 mulheres e crianças vítimas de abuso doméstico, anualmente. Para isso, atua como centro comunitário de acolhimento e integração. Organizado em diferentes programas, oferece serviços de orientação jurídica, apoio psicológico, cursos de capacitação e encaminhamento para políticas públicas e programas sociais. Em entrevista à revista Wave (2022), Cidalia Pereira, gestora de Casos de Violência de Gênero destacou que “A violência doméstica não vai desaparecer magicamente. Portanto, é nosso dever garantir que os nossos clientes recebam o melhor atendimento, o mais rápido possível, em nossa agência ou em uma de nossas agências parceiras”.
É nesse esforço de prevenção à violência doméstica que se insere-se o Programa de Parentalidade do Abrigo Centre. Esse programa é o eixo central da instituição, fortalecendo vínculos familiares e rompendo ciclos de violência. Ao apoiar mães, pais, avós e cuidadores, o abrigo quebra ciclos de violência familiar, transforma vidas e projeta impacto positivo direto na sociedade.
O Programa de Parentalidade do Abrigo Centre
O Programa de Parentalidade do Abrigo Centre oferece sessões contínuas de acompanhamento emocional. Desenvolve competências parentais apoiando quem está diretamente envolvido nos cuidados diários da criança (mães, pais, avós e outros cuidadores). Atua para reforçar os vínculos familiares e fortalecer redes de apoio a famílias imigrantes de forma gerar uma convivência mais positiva. Confira, a seguir, quatro programas oferecidos pelo Abrigo:
"Success By 6"
Sessões: 8 semanas – A ideia central é a de apoiar quem está diretamente envolvido no cuidado diário da criança (do nascimento aos seis anos), fortalecendo a conexão com a criança e oferecendo ferramentas para responder melhor às necessidades da primeira infância.
Alguns tópicos abordados são: os diversos estágios do desenvolvimento, o brincar como forma de conexão e comunicação, os comportamentos desafiadores na infância e o manejo do ciúme entre irmãos.
O Success By 6 foi criado em 1988 pela United Way dos EUA. Em 1990 e 2000, foi promovido no Canadá pela United Way Canada em parceria com cooperativas de crédito e organizações comunitárias, espalhando-se por diversas províncias, com foco no desenvolvimento integral da criança na primeira infância (de zero a seis anos de idade).
Em 1998, com o apoio da Way Greater Toronto, o Abrigo Centre iniciou seu bem-sucedido programa Success By 6, voltado principalmente para mães, avós e cuidadoras. Com isso, o Abrigo investe na melhoria das relações nas famílias, rompendo ciclos de violência doméstica e ajudando a construir ambientes mais saudáveis.
"Children
Have Stress Too"
Sessões: 4 semanas – Ajuda mães, pais, avós e cuidadores a entenderem como seu próprio estresse pode impactar o relacionamento com os filhos. Aprofunda o conhecimento sobre o estresse infantil nos diferentes estágios do desenvolvimento, oferecendo uma variedade de estratégias para apoiar os participantes no autogerenciamento do estresse.
Alguns tópicos abordados são: o impacto do estresse de mães e pais no relacionamento com os filhos, formas de expressão do estresse infantil e técnicas de autorregulação para adultos e crianças.
"Raising Sexually Healthy Children"
Sessões: 4 semanas – Nesse workshop, mães, pais, avós e cuidadores têm a oportunidade de refletir sobre suas próprias atitudes. Assim, preparam-se para lidar com questões que surgem ao longo do crescimento de crianças e adolescentes. A proposta é incentivar, desde cedo, conversas abertas sobre corpo e sexualidade, promovendo o diálogo, confiança e conhecimento. Alguns tópicos abordados são: atitudes e crenças sobre sexualidade; como falar com crianças pequenas sobre seus corpos; promoção da segurança sexual; diversidade familiar e de gênero; estratégias para lidar com mensagens confusas recebidas na infância e adolescência.
Para informações sobre o Programa de Parentalidade do Abrigo Centre e outros serviços, consulte o site: www.abrigo.ca
"Caring Dads – Mindful Fathering Program"
Sessões: 12 semanas – Desenvolvido pelo Yorktown Family Services em parceria com o Abrigo Centre, Toronto, este programa é voltado para homens que já praticaram violência contra parceiras e expuseram seus filhos à essa situação. O objetivo está em ajudar os pais a refletirem sobre o impacto de suas atitudes e prática de paterniade seguras e positivas. Alguns tópicos: construção de uma visão pessoal de mudança e de esperança para o futuro; estratégias para lidar com o estresse e a raiva; conscientização sobre masculinidade e papéis de gênero que contribuem para os abusos; compreensão dos efeitos da violência nos filhos e na família.
Maternidade Ser mãe em um novo país: parto e acolhimento para imigrantes em Ontário
Osistema de saúde no Canadá oferece uma variedade de opções de parto que podem surpreender positivamente muitas mulheres imigrantes. Para quem vem de países onde o modelo é mais restrito ou altamente medicalizado, entender essas alternativas é essencial para viver a maternidade de forma mais informada, segura e alinhada às próprias escolhas.
Em Ontário, o parto pode ser assistido por obstetras, médicos de família ou parteiras. As parteiras, regulamentadas pelo College of Midwives of Ontario, têm um papel de destaque no acompanhamento de gestações de baixo risco, oferecendo um cuidado contínuo, humanizado e centrado na gestante. Muitas mulheres optam por esse modelo justamente pela proximidade e pelo tempo dedicado ao acompanhamento.
Outra característica importante é a possibilidade de escolher o local do parto. Além dos hospitais, há centros de parto e até a opção de parto domiciliar, quando clinicamente indicado. Em cidades como Toronto, esses centros oferecem um ambiente acolhedor, com suporte profissional e integração com hospitais, caso seja necessária uma transferência.
Para mulheres imigrantes, especialmente brasileiras e portuguesas, esse sistema pode representar uma mudança significativa. Em muitos casos, há maior incentivo ao parto normal (vaginal) e menor uso de intervenções desnecessárias. Além disso, o sistema valoriza o chamado “plano de parto”, incentivando a gestante a expressar suas preferências — desde métodos de alívio da dor até quem estará presente no momento do nascimento.
Dentro desse contexto, cresce também a procura por doulas. A doula é uma profissional que oferece apoio emocional, físico e informativo durante a gestação, o parto e o pós-parto. Ela não substitui médicos ou parteiras, mas atua como uma presença contínua ao lado da mulher — algo especialmente valioso para imigrantes que muitas vezes estão longe da família ou enfrentam barreiras culturais e linguísticas.
O trabalho da doula pode incluir encontros pré-natais, apoio durante o trabalho de parto com técnicas de respiração e conforto, além de acompanhamento no pós-parto, auxiliando na adaptação com o bebê e na amamentação. Diversos estudos apontam que esse suporte contribui para uma experiência mais positiva e segura.
No entanto, o tema ainda gera debates. Em Ontário, a profissão não possui
Quanto custa e como acessar um serviço de doula em Ontário?
Os serviços de doulas geralmente não são cobertos pelo sistema público de saúde, o que pode representar um desafio financeiro. Em Ontário, os valores costumam variar entre $1.000 e $2.000 CAD para acompanhamento completo (pré-natal, parto e pós-parto), podendo ser menores em casos de profissionais em formação ou pacotes mais simples. Para imigrantes com poucos recursos, há caminhos possíveis. Algumas or-
regulamentação obrigatória, o que significa que a formação pode variar entre profissionais. Também há discussões sobre os limites de atuação, já que a doula não deve interferir em decisões médicas. O consenso atual é que seu papel é complementar — e funciona melhor quando há colaboração com a equipe de saúde.
ganizações comunitárias e coletivos oferecem apoio gratuito ou a baixo custo. Além disso, algumas doulas oferecem escalas de pagamento flexíveis (sliding scale) ou descontos para recémchegadas. Mais do que um custo, muitas famílias veem o serviço como um investimento em bem-estar e segurança emocional. Para mulheres imigrantes, em especial, a presença de uma doula pode representar não apenas apoio no parto, mas também um elo de confiança em um momento de grande transformação.
Ao pesquisar e conhecer as opções disponíveis, cada mulher pode tomar decisões mais conscientes e viver a maternidade de forma mais acolhida — mesmo longe de casa.
Brasileiras oferecem apoio humanizado e em português para futuras mamães no Canadá
Por Redação Wave, Toronto
Ser mãe é, também, um processo de aprendizagem, superação de barreiras invisíveis e boas escolhas. Brasileiras encontram suporte em português no grupo Mama Doula Canada, para transformar os desafios da maternidade em confiança, bem-estar e segurança.
Equipe da Mama Doula Canada. (Foto: site oficial)
Para
muitas mulheres brasileiras que vivem no Canadá, a experiência da maternidade pode vir acompanhada não apenas de desafios físicos e emocionais, mas também de barreiras culturais, linguísticas e de acesso ao sistema de saúde. Nesse contexto, a atuação de coletivos como a Mama Doula Canada, formado por brasileiras, ganha relevância ao oferecer um tipo de suporte que combina acolhimento, informação e presença contínua durante a gestação, o parto e o pós-parto.
Um cuidado que vai além do técnico
Diferente do acompanhamento médico tradicional, o trabalho das doulas está centrado no suporte emocional, informativo e físico à gestante e à família. A Mama Doula Canada reúne profissionais que acompanham a mulher em diferentes etapas da jornada materna, oferecendo orientação, escuta ativa e apoio prático. Entre os principais serviços estão:
• Apoio durante a gravidez, com informações e preparação para o parto.
• Acompanhamento no trabalho de parto, com técnicas de conforto e suporte contínuo.
• Apoio no pós-parto, incluindo orientação com amamentação e adaptação à nova rotina.
• Suporte emocional para a mãe e também para o parceiro ou acompanhante.
O objetivo não é substituir a equipe médica, mas complementar o cuidado, ajudando a mulher a se sentir mais segura, informada e respeitada em suas escolhas.
Atendimento culturalmente sensível
Um dos diferenciais do grupo é o foco em atendimento multicultural e multilíngue. Com profissionais que falam português, espanhol e inglês, a Mama Doula Canada atende especialmente famílias imigrantes que muitas vezes enfrentam dificuldades para se comunicar dentro do sistema de saúde canadense.
Para muitas brasileiras, poder conversar sobre parto, dores, expectativas e dúvidas em sua língua materna faz uma diferença significativa na experiência. Além disso, o entendimento de referências culturais, hábitos e valores contribui para um atendimento mais humano e personalizado.
Apoio acessível e inclusivo
Outro aspecto importante é o compromisso com acessibilidade. O coletivo busca oferecer opções de pagamento flexíveis, incluindo modelos ajustados à realidade financeira de cada família. Isso é especialmente relevante para imi-
grantes recém-chegados, estudantes ou famílias com renda limitada, que nem sempre conseguem arcar com serviços privados tradicionais.
A proposta é tornar o suporte de doula mais inclusivo, permitindo que mais mulheres tenham acesso a esse tipo de acompanhamento durante a maternidade.
Rede de apoio e senso de comunidade
Mais do que um serviço individual, a Mama Doula Canada funciona como uma rede de apoio. As doulas atuam de forma colaborativa, criando um modelo de cuidado que valoriza continuidade, vínculo e confiança ao longo de toda a experiência perinatal.
Esse aspecto comunitário é particularmente importante para imigrantes, que muitas vezes estão longe de suas redes familiares de origem. O suporte oferecido pelas doulas ajuda a reduzir a sensação de isolamento e contribui para uma vivência mais segura e acolhedora da maternidade.
Educação e informação como ferramentas de autonomia
Além do acompanhamento direto, o coletivo também investe em educação perinatal por meio de workshops, conteúdos informativos e orientações práticas. A ideia é que as famílias tenham acesso a informações claras para tomar decisões conscientes sobre parto, cuidados com o bebê e saúde materna. Em um país como o Canadá, onde o sistema de saúde é estruturado, mas nem sempre acolhedor às especificidades culturais de imigrantes, iniciativas como a Mama Doula Canada ajudam a preencher uma lacuna importante: a do cuidado humanizado, contínuo e culturalmente sensível.
Para muitas famílias brasileiras, esse tipo de apoio representa não apenas assistência prática, mas também um espaço de pertencimento, escuta e confiança em um momento tão marcante da vida.
Entre o paraíso e a sobrecarga O que a maternidade realmente exige
Cresci
ouvindo de muitas mães, inclusive da minha, que “ser mãe é padecer no paraíso”. A frase, atribuída ao poeta maranhense Coelho Neto, foi por muito tempo usada para romantizar a maternidade, transformando o sofrimento em algo inevitável, virtuoso e como experiência a ser vivida com gratidão constante. Por décadas, esse imaginário sustentou a ideia de que a dor fazia parte do pacote de ser mãe. Nas últimas décadas, porém, esse romantismo perverso começou a se desfazer, abrindo espaço para conversas mais honestas sobre os desafios reais de uma responsabilidade tão profunda.
Expectativas sociais
A gravidez e a maternidade são atravessadas por uma exigência social persistente, que sugere que tudo seja vivido com alegria e sem espaço para desconforto, dúvida ou ambivalência. Apesar de sentirem felicidade e realização, futuras mães também experimentam vazios e inquietação. Para muitas, a gravidez não é só encantamento, sendo também marcada por transformações corporais intensas e difíceis, como enjoos, dores, cansaço e a perda das referências do próprio corpo. Por não corresponderem ao que se espera que uma mãe sinta, esses estranhamentos são muitas vezes vividos em solidão e silêncio, sobretudo quando a maternidade se desenvolve longe da família, em outro país e sem rede de apoio próxima.
E o que isso significa, na prática, para muitas de nós, mães? Significa que o peso se amplia quando a experiência vivida e o cuidado precisam ser sustentados quase inteiramente de forma solitária. Nesse contexto, a maternidade expõe os conceitos de carga mental e trabalho emocional, ou seja, formas invisíveis, repetitivas e pouco reconhecidas de trabalhos, que estruturam o cotidiano de muitas mães.
A carga mental envolve manter em funcionamento uma rede constante de decisões, lembretes e antecipações em consultas médicas, rotinas de sono, alimentação, segurança, organização da casa, etc. Mesmo quando essas tarefas não são executadas diretamente pela mãe, é geralmente ela quem sustenta a responsabilidade de pensá-las, acompanhá -las e coordená-las. As exigências, que são contínuas, deixam pouco lugar para o descanso mental e sobrecarregam as mães.
O trabalho emocional compreende a gestão constante das emoções. As respostas às exigências da criança são demandas permanentes que, por vezes, levam a frustrações da mãe. Mesmo quando há pausas físicas ou alguma divisão de tarefas com o companheiro, a preocupação persiste para além daquele momento imediato e da presença direta.
A carga mental e o trabalho emocional nas etapas de gestação e pós-parto tratam de um trabalho profundo, silencioso e exigente, que organiza a maternidade de dentro para fora. Embora tudo isso, esses esforços são raramente reconhecidos
O que diz a neurociência
A neurociência ajuda a compreender por que esse peso é tão concreto: gravidez e início da maternidade correspondem a um dos períodos de maior reorganização cerebral da vida adulta. Regiões ligadas à atenção, regulação emocional e leitura de sinais sociais passam por mudanças significativas, afinando o cérebro para o cuidado. Essa adaptação torna a mãe mais sensível às necessidades do bebê e ao ambiente, deixando-a mais vulnerável a sobrecargas, quando estão sem o apoio adequado. Nesse contexto, o chamado “mom brain” deixa de ser um defeito individual ou sinal de incompetência e passa a ser compreendido como o efeito previsível de uma mente constantemente ocupada.
Entre hormônios
e emoção
O pós-parto é igualmente delicado: o nascimento do bebê provoca queda abrupta de hormônios, afetando o humor, a motivação e a regulação emocional. Embora oscilações de humor sejam comuns, uma parcela significativa das mães desenvolve depressão pós-parto, um quadro com características próprias, ligado a alterações em áreas do cérebro associadas ao vínculo e ao cuidado. O sofrimento materno, portanto, não é falta de preparo nem fragilidade individual, mas é parte de um processo biológico profundo vivido em condições frequentemente adversas.
Para além do sacrifício silencioso
Estudos recentes indicam que os efeitos da maternidade no cérebro vão além dos primeiros meses. A parentalidade tem sido associada a uma transformação duradoura, fruto da complexidade da atenção e adaptação contínuas. Esses potenciais benefícios, porém, não surgem do sacrifício silencioso, mas das condições em que o cuidado acontece.
Desfazer o mito de que ser mãe é “padecer no paraíso” exige reconhecer que a maternidade acontece na interseção entre cultura, corpo e cérebro. Deixar a carga
BrazilianWave.org
mental e o trabalho emocional invisíveis, reduz o sofrimento materno a uma falha individual. Também, ignora o desequilíbrio estrutural que existe entre o que se exige de quem cuida e o que se oferece em troca.
A questão maior, então, não é “por que essa mãe não dá conta?”, mas “que suporte coletivo estamos dispostos a construir?”. Cuidar das mães não é um gesto individual indulgente. É sim, responsabilidade social e investimento na saúde de todos.
(*) Izabel Dolhy é psicoterapeuta registrada (Q) e diretora clínica da Inner Clarity Wellness and Mental Health Clinic. Contato: info@ innerclaritywellness.ca. Para informações, visite o site: https://innerclaritywellness.ca
Torta de morango
Um carinho em forma de sobremesa
OPor Redação Wave, Toronto
Dia das Mães é uma ocasião marcada por afeto, memórias e encontros ao redor da mesa. Entre cafés demorados, conversas em família e receitas passadas de geração em geração, algumas sobremesas carregam o sabor especial da infância — e a torta de morango está entre elas. Combinando creme delicado, fruta fresca e uma cobertura brilhante, essa receita conquista diferentes gerações por sua simplicidade e apresentação elegante. Muito popular em almoços de domingo e comemorações familiares em algumas regiões do Brasil e no Canadá, ela atravessa o tempo como símbolo de cuidado e carinho preparado em casa.
Ingredientes
(8 porções)
• 1 pacote de biscoito doce (tipo maisena)
• 3 colheres (sopa) de manteiga derretida
• 1 lata de leite condensado
• 2 gemas peneiradas (sem a película)
• 500 ml de leite
• 2 colheres (sopa) de amido de milho
• 1 colher (chá) de essência de baunilha
• 2 caixas de morango fresco
• 1 pacote de gelatina de morango
• 250 ml de água quente
Modo de preparo
1. Triture o biscoito até formar uma farofa fina e misture com a manteiga derretida.
2. Forre o fundo de uma forma para torta e leve ao forno por 10 minutos.
3. Em uma panela, misture o leite condensado, as gemas, o leite e o amido de milho. Cozinhe lentamente em fogo baixo até engrossar. Acrescente a baunilha e deixe esfriar.
4. Espalhe o creme sobre a massa já fria e distribua os morangos cortados ao meio por cima.
5. Dissolva a gelatina na água quente e espere amornar.
6. Despeje cuidadosamente sobre os morangos.
7. Leve à geladeira por cerca de 3 horas antes de servir. Feliz Dia das Mães!
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