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BDF_189

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Ano 4 • Número 189

Uma visão popular do Brasil e do mundo São Paulo • De 12 a 18 de outubro de 2006

R$ 2,00 www.brasildefato.com.br

Esquerda quer maior compromisso de Lula com mudanças ACNUR

Movimentos apóiam reeleição, mas mantêm autonomia em relação ao governo

A

pesar de não ter surtido efeito imediato no governo federal, o apoio dos principais movimentos sociais à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi bem recebido na campanha do Partido dos Trabalhadores. Valter Pomar, da executiva da agremiação, destacou: “agora estaremos todos juntos, para derrotar a direita e o neoliberalismo”. Já Luiz Marinho, ministro do Trabalho, avalia que a participação dos movimentos é importante para soldar os compromissos do governo, para que ele tome posição. Dom Tomás Balduíno, da CPT, anuncia que as mobilizações vão crescer, independente de quem vença o segundo turno, a partir de 1º de janeiro. Pág. 3

Genocídio – Família de refugiados foge de Darfur, no Sudão, em direção ao vizinho Chade. Desde 2003, pelo menos 200 mil pessoas morreram na região

EDITORIAL

Um dever dos lutadores do povo

O

pretexto foi o caso do “Dossiê Vedoin”, filho das práticas escusas do PSDB e outros partidos, e da ilimitada estupidez e arrogância arrivista de um grupo de petistas. A senha de ordem unida e ataque foi a conclamação do senador Jorge Bornhausen (PFL) de que “precisamos acabar com essa raça”, secundada pelo brado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em prol do renascimento do lacerdismo (de acordo com o líder tucano, falta ao Brasil um Carlos Lacerda – o grande articulador das tentativas de golpe da direita brasileira desde os anos 1950, até conseguir sucesso em 1964). Meio a tudo isso, os Clubes Militares (Exército, Marinha e Aeronáutica) fazem circular uma nota-manifesto onde externam sua preocupação com a corrupção e a ética. Para completar o quadro, a mídia conservadora faz soar sua fanfarra no mais alto volume, criminalizando aparentemente apenas o governo Lula, quando na verdade pretende, sobretudo, desqualificar e desmoralizar a esquerda e os trabalhadores: “acabar com essa raça”. Assim, unificada de última hora em torno da candidatura de Geraldo Alckmin (do PSDB e da Opus Dei), a direita histórica liderada pelos Bornhausen, aliada à direita moderna e tecnocrática representada pelas principais lideranças tucanas; respaldada pelos militares mais reacionários das nossas Forças Armadas e servida por uma das mais corruptas imprensas do mundo, foi para a ofensiva e cavou um segundo turno na disputa presidencial. Tratase da mesma aliança que manda no país desde sua descoberta, pois, como diz o governador pefelista de São Paulo, seu partido chegou e está no poder no Brasil desde que aqui aportaram as caravelas. A aliança de classes e

forças que instituiu a escravidão e a corrupção no país, e que hoje hipocritamente afeta sentir-se escandalizada. O mesmo bloco que durante os oito anos de Governo Fernando Henrique Cardoso-Marco Maciel capitaneou a implantação das cláusulas neoliberais em nosso país, desmontando o Estado e privatizando a empresas públicas. A esquerda é contra a apropriação do público por quem quer que seja: indivíduos, famílias, empresas, associações ou partidos. Por isso, é contra toda privatização. Que se apurem todas as corrupções. Mas, TODAS. Que se apurem todas as privatizações. Um balanço dos quatro anos de mandato do presidente Lula deixa um decepcionante saldo para a classe trabalhadora, sobretudo no que diz respeito à economia. Mais que isso, tendo em vista a nova composição do Congresso Nacional e as alianças em curso desde o primeiro mandato, a tendência é que o segundo governo Lula esteja ainda mais comprometido com a agenda neoliberal, principalmente caso se aprofunde ou se mantenha o descenso das lutas populares e de massas. No entanto, é preciso ter claro que, em nenhum momento, as forças que o apóiam vieram a público, ou sequer insinuaram o uso da força e a quebra das atuais instituições democráticas (ainda que frágeis e limitadas), que permitem que nos organizemos e acumulemos forças para aprofundar conquistas e realizar as mudanças estruturais de que necessita a classe trabalhadora e o povo. Diferentemente do que se propala, os trabalhadores, o povo e a esquerda brasileira foram os principais fiadores dessas instituições. A abertura e a transição para a democracia que se preparava entre as elites no final

da ditadura seria mais estreita e minguada, não fossem as grandes greves e manifestações, preparadas por um persistente e clandestino trabalho da esquerda (marxista e cristã), de organização de comissões de fábricas e empresas, de organização dos bairros proletários, de movimentos populares e de retomada das entidades (sindicatos e associações) de trabalhadores ocupadas por interventores e prepostos do regime desde o golpe de 1964. Foi o povo na rua, articulado por suas organizações e movimentos, quem definiu as conquistas mais avançadas de que hoje usufruímos e que se inscreveram na Constituição de 1988. Não devemos isso, nem às elites, nem a qualquer guia genial dos povos, a qualquer pai dos pobres. É preciso lembrar a História, a nossa História. É preciso lembrar que muitos foram assassinados para que conquistássemos e garantíssemos a liberdade que hoje gozamos, ainda que precária, mas que nos garante o direito inclusive de escrever este editorial. É preciso, sobretudo, abandonarmos uma discussão economicista da atual conjuntura e distinguirmos bem quem é o inimigo principal, quem são os adversários e quais são os nossos aliados. Toda vez que nos equivocamos a esse respeito, acabamos derrotados. Hoje,o inimigo principal é o bloco que se aglutina em torno da candidatura Geraldo Alckmin. É esse, portanto, que deve ser derrotado nas atuais eleições. Assim, votar Lula, mesmo sem qualquer ilusão no que diz respeito a sua política econômica, é um dever de todos nós que constituímos a classe trabalhadora e o povo brasileiro. O contrário é apostar no quanto pior, melhor. E o pior só é melhor quando é pior para o inimigo.

Pág. 7

Rebelião cria comuna autônoma no México Desde 21 de junho, os habitantes de Oaxaca, Estado mexicano, vivem dias históricos. A repressão à mobilização por melhores salários de 70 mil professores desencadeou uma insurreição

que colocou no comando político da região seus habitantes originais, os indígenas. Autônomos do governo central, tomam suas decisões por consenso. Pág. 6

Ofensiva da Aracruz contra indígenas

Governo inglês quer privatizar a Amazônia

Desde setembro, a corporação tem distribuído cartilhas no Espírito Santo negando a existência de indígenas no município de Aracruz. Quer reverter decisões do governo que beneficiam as comunidades locais. A ação, vista por organizações de direitos humanos como racista e discriminatória, também conta com outdoors pela cidade. Num deles, a frase “Basta de índios ameaçando trabalhadores”. Pág. 4

Pág. 6

Em encontro de violeiros, arte e política Pág. 8


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De 12 a 18 de outubro de 2006

DEBATE

CRÔNICA

Carta Aberta aos eleitores cristãos Hamlet em Pindorama Frei Betto

Luiz Ricardo Leitão

29 de outubro escolheremos quem governará o Brasil nos próximos 4 anos: Lula ou Alckmin. Os dois são cristãos. Os dois nunca deram mostras de tendência fundamentalista, a de querer submeter a política à autoridade de uma Igreja ou religião. A política é laica, ou seja, neutra em matéria de religião. Ela visa ao conjunto da população, sem levar em conta as convicções religiosas do cidadão ou cidadã. A todos o governo tem a obrigação de servir, assegurando-lhes direitos, proteção e o mínimo de bens para que possam viver com dignidade. Se nenhuma religião tem o direito de tutelar a política, isso não significa que a política deva se confinar no pragmatismo do jogo de poder. A política se apóia em valores éticos. E nós, cristãos, temos como fonte de valores a Palavra de Jesus. É à luz do Evangelho que avaliamos todas as esferas da atividade humana, inclusive a política, que é a mais importante delas, pois influi em todas as outras. Para Jesus, o dom maior de Deus é a vida. Está mais próxima do Evangelho a política que favorece condições dignas de vida à maioria da população. É neste ponto que as políticas do PSDB e do PT ganham contornos diferentes. Os dois partidos tiveram desvios éticos? Sem dúvida. Como ironiza Jesus, atire a primeira pedra quem não tem pecados. Errar é humano. Persistir no erro é abominável. Se um membro da família erra, não se pode condenar por isso toda a família. O grave é quando a família toda abraça o caminho do erro. Este foi o caso do PSDB, partido de Alckmin, nos 8 anos em que FHC (Fernando Henrique Cardoso) governou o Brasil (1994-2002). Empresas públicas foram privatizadas. Grandes empresas brasileiras – Vale do Rio Doce, Embratel, Telebrás, Usiminas etc. – patrimônios do povo brasileiro, cujos lucros engordavam os cofres do Estado, foram vendidas a preço de banana, e os lucros passaram a ser embolsados por corporações privadas, muitas delas estrangeiras. Lula não privatizou o patrimônio público. Eleger Alckmin pode ser o primeiro passo para

Um espectro ronda a pátria dos Bruzundangas. Oxalá fora o fantasma do comunismo, que por aqui andasse a assustar os barões do agronegócio ou os piratas do sistema financeiro que lucram bilhões a cada ano fiscal e oferecem, mui generosos, 2,85% de “reajuste” aos bancários da colônia. Infelizmente, quem nos espreita não é um espírito tão revolucionário quanto aquele que inspirou Marx & Engels a escrever o seu profético Manifesto comunista. Trata-se, ao contrário, de uma alma errante e atormentada, desgarrada talvez de alguma tragédia póstuma de Sir William Shakespeare. Sim, meu caro leitor, o fantasma que nos acossa é o terrível dilema que a propalada “festa da democracia” em Pindorama nos legou neste 2º turno eleitoral. Não irei sequer mencionar o triste quadro a que nos conduziu a decadência política e econômica do meu querido Rio de Janeiro, outrora a caixa de ressonância do sentimento oposicionista inerente ao povo da velha capital republicana. De fato, ter de optar entre a confederação de mafiosos abrigada sob a legenda do PMDB, sob cujas cinzas decerto se revolverá o saudoso liberal Ulisses Guimarães, ou a sinistra aliança orquestrada pelo PFL de César Maia e quejandos, é uma verdadeira “escolha de Sofia”: quem se arrisca a sortear um nome nessa tenebrosa lista de Schindler? Olho para tantos companheiros, taciturnos e apreensivos, e vejo que a inquietude não se resume ao panorama local. Há algo de podre no reino de Pindorama, sem a menor dúvida, e o fantasma que paira sobre o castelo não é o velho rei dinamarquês, assassinado pelo próprio irmão Cláudio, o qual, ao casar-se com Gertrudes, mãe de Hamlet, usurpa o cobiçado trono que tantos crimes e ultrajes motivou. Tampouco seria o jovem príncipe que, no afã de vingar a morte do pai, finge estar louco e abandona a noiva, Ofélia, a qual enlouquece e morre afogada, perda dolorosa que, ainda assim, não impede o herói da tragédia de cumprir o seu destino e matar o tio assassino.

Eleger Alckmin pode ser o primeiro passo para a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e dos Correios a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e dos Correios. No governo FHC, as políticas sociais eram tímidas e assistencialistas. O Comunidade Solidária era uma iniciativa nanica comparada à grandiosidade do Bolsa Família, que hoje distribui renda para mais de 40 milhões de pessoas. Graças a isso, de cada 100 brasileiros que viviam na miséria, nos últimos 4 anos 19 passaram à classe média.

Kipper

A

O governo FHC tratou os movimentos populares como caso de polícia, e não de política. Remeteu o Exército para reprimir o MST e os petroleiros em greve No governo Lula houve, sim, desvios éticos: o caso Waldomiro Diniz; o “mensalão” e os “sanguessugas”; a quebra do sigilo bancário do caseiro de Brasília; o dossiê contra Serra. Não há nenhuma prova de que o presidente soubesse antecipadamente dessas operações inescrupulosas. E ao virem a público, ele tratou de demitir os envolvidos. No governo FHC, dinheiro público foi usado para tentar socorrer bancos privados: o Proer. O Banco Econômico recebeu R$ 9,6 bilhões. Instalou-se uma CPI que, controlada pelo Planalto, justificou a maracutaia e nunca investigou a Pasta Rosa que continha os nomes de 25 deputados federais subornados pelo Econômico. Houve ainda os casos dos precatórios; da compra de votos para aprovar a emenda constitucional que permitiu a reeleição de FHC; do socorro aos bancos Marka e FonteCidam no valor de R$ 1,6 bilhão (os tucanos impediram a instalação da CPI para investigar o caso); as falcatruas na Sudam etc. Nada foi apurado, porque o Procurador-Geral da República, Geraldo Brindeiro, conhecido como “engavetador-geral“, engavetou, até maio de 2001, 242 processos contra o governo e arquivou outros 217, livrando os suspeitos de qualquer investigação: 194 deputados federais, 33 senadores, 11 ministros e ex-ministros, e o próprio presidente da República. O governo FHC tratou os movimentos populares como caso de polícia, e não de política. Remeteu o Exército para reprimir o MST e os petroleiros em greve. Lula jamais criminalizou movimentos sociais e, sob o seu

governo, a Polícia Federal levou à prisão gente graúda, dos donos de uma grande cervejaria a juízes, e inclusive petistas envolvidos no caso do dossiê anti-Serra. O governo Lula reforçou a soberania do Brasil. Repudiou a Alca proposta pelo governo Bush; condenou a invasão do Iraque; visitou a cada ano países da África; abriu as portas de nossas universidades a negros e indígenas; estendeu energia elétrica aos mais distantes rincões; manteve a inflação sob controle; impediu a alta do dólar; reduziu os preços dos gêneros de primeira necessidade; ampliou o poder aquisitivo dos mais pobres, através do aumento do salário mínimo. Lula ainda nos deve muito do que prometeu ao longo de suas campanhas presidenciais, como a reforma agrária. Porém, o Brasil e a América Latina serão melhores com ele do que sem ele. Se você está convencido disso, trate de convencer também outros eleitores. Vamos votar na vida e “vida para todos” (João 10,10). Vamos reeleger Lula presidente! Frei Betto é frade dominicano e escritor, autor de 53 livros, e assessor de movimentos sociais.

Nosso drama começa com a crescente despolitização de um processo que, segundo nos ensinara o velho bolchevique Lênin, deveria ao menos servir para que elevássemos ao máximo o nível de consciência dos trabalhadores Pois o espectro de Pindorama é a velha desconfiança cultivada pelo povo de que mais uma vez seus anseios de mudança se desvaneçam nos céus da pátria-mãe. Desde a pseudo-independência de 1822 até a frustrante campanha pelas “Diretas Já!” em 1984, nenhum projeto de soberania popular e nacional logrou êxito em nossa História. Por isso, o espírito de Hamlet ressurge em Bruzundanga, para atormentar a consciência dos combatentes do nosso povo: “Votar ou não votar? Eis a questão!” É óbvio que o dilema não inclui o coroinha tucano, cuja ida ao segundo turno é muito mais fruto dos erros do presidente-candidato e do PT que dos méritos de seu partido, o PSDB, cujos caciques já estavam ocupados com a campanha para o Palácio do Planalto em 2010... Nosso drama começa com a crescente despolitização de um processo que, segundo nos ensinara o velho bolchevique Lênin, deveria ao menos servir para que elevássemos ao máximo o nível de consciência dos trabalhadores. Até mesmo o grande “debate” do 1º turno, a que Lula não compareceu, revelou-se uma batalha estéril de idéias. Nem ao menos a candidata dos socialistas e libertários, preocupada em “(des)moralizar” o governo dos ex-companheiros, cuidou de discutir a suspensão da dívida externa, a urgente realização da reforma agrária ou até mesmo a revisão das privatizações criminosas patrocinadas por FHC. Pelo rumo da carruagem, mais próxima do Texas que de Pindorama, decerto nem no 2º turno teremos essa chance. E assim, para deleite da imprensa burguesa, ficamos nesse pastiche tupiniquim de democratas x republicanos, como se um mero tele-catch eleitoral satisfizesse a sede de mudanças do nosso povo. Há quem diga que tudo é farinha do mesmo saco, como Clinton e Bush, mas lembrem-se do que aconteceu ao mundo após as eleições dos EUA, em 2000, quando o playboy texano virou o xerife da Casa Branca. O tempora, o mores! Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-americana pela Universidade de La Habana

Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Jorge Pereira Filho, João Alexandre Peschanski, Marcelo Netto Rodrigues • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Eduardo de Sales Lima, Igor Ojeda, Luís Brasilino, Tatiana Merlino • Fotógrafos: Alícia Peres, Alderon Costa, Anderson Barbosa, César Viegas, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga, Gilberto Travesso, Jesus Carlos, João R. Ripper, João Zinclar, Leonardo Melgarejo, Luciney Martins, Maurício Scerni, Renato Stockler, Samuel Iavelberg, Ricardo Teles • Ilustradores: Kipper, Márcio Baraldi, Maringoni • Editor de Arte: Rodrigo Itoo • Pré Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Geraldo Martins de Azevedo Filho • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Salvador José Soares • Endereço: Al. Eduardo Prado, 342 - Campos Elíseos - CEP 01218-010 - Tel. (11) 2131-0800 - São Paulo/SP - redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: GZM Editorial e Gráfica S.A. Conselho Editorial: Alípio Freire • César Sanson • Frederico Santana Rick • Hamilton Octávio de Souza • José Arbex Jr. • Kenarik Boujikian Felippe • Leandro Spezia • Luiz Antonio Magalhães • Luiz Bassegio • Marcela Dias Moreira • Maria Luísa Mendonça • Mario Augusto Jakobskind • Milton Viário • Nalu Faria • Neuri Rosseto • Pedro Ivo Batista • Ricardo Gebrim

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NACIONAL

ELEIÇÕES Ricardo Stuckert

Entidades apoiam Lula. Mas quem novo rumo Movimentos voltam seu peso em direção ao governo Lula na luta para reduzir aspectos neoliberais da campanha e do mandato Luís Brasilino da Redação

N

o segundo turno das eleições presidenciais, os maiores movimentos sociais do país se juntaram à Central Única dos Trabalhadores (CUT) em apoio à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), conforme antecipou o Brasil de Fato na edição 188. A partir da compreensão de que a votação coloca em movimento a luta de classes, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), dentre outros, vão priorizar até o dia 29 a luta eleitoral, como uma forma de impedir a vitória de Geraldo Alckmin (PSDB), o que representaria uma derrota dos pobres. Dom Tomás Balduíno, presidente de honra da Comissão Pastoral da Terra (CPT), explica que,

RESULTADO DO 1º TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS Roraima 26/ 59

Amapá 54/ 32

*33

Amazonas 78/ 12

*66 Acre 42/ 51

*9

Rondônia 45/ 47

*2

Rio Grande do Norte 60/ 31

*22

*29

Pará 51/ 41

Maranhão 75/ 18

*10

*57

Mato Grosso 38/ 54

*16 Goiás 40/ 51

No Brasil inteiro, diferença de pontos percentuais: 7 (Lula 48/ Alckmin 41)

Mato Grosso do Sul 36/ 56

No exterior (93 países), diferença de pontos percentuais: 5 (Lula 39/ Alckmin 44) Santa Catarina 33/ 56

*23

Rio Grande do Sul 33/ 55

para quem as organizações não tentaram agir assim no primeiro mandato. “A não ser o MST, não vi nenhum esforço de outra parte”, afirma.

MOBILIZAÇÕES Após a decisão de apoiar a candidatura à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, os principais movimentos sociais assumiram papel central na conjuntura política. No entanto, para o sociólogo Chico de Oliveira, é importante as organizações manterem em mente que o problema não é ganhar a eleição, mas obrigar Lula a cumprir um programa de mudança social. “Concordo com a leitura dos movimentos (de que o segundo turno colocou em marcha a luta de classes), mas não basta reconhecer isso, pois o principal é que os trabalhadores possam cobrar de Lula”, indica Oliveira,

Distrito Federal 37/ 44

*40

*7

Para a filósofa Marilena Chauí, manter a pressão sobre o governo é o que diferencia a democracia liberal da democracia socialista. Na primeira, a cidadania se exerce no momento do voto, depois é com o governo. Já na segunda, a eleição não serve para delegar a soberania a ninguém. “A sociedade deve continuar em ação, porque precisa empurrar o governo para a esquerda. Isso é a contribuição fundamental dos socialistas para a ética da política, que visa a igualar os cidadãos. Por isso, o segundo turno com Lula nos permitirá fazer o exercício da ética da política uma vez que somos responsáveis

*48

Alagoas 46/ 37

Sergipe 47/ 44

*9

*3 Minas Gerais 50/ 40

*10

Espírito Santo 52/ 37

*15

Rio de Janeiro 49/ 28

*18

*21

*16

*22

Apoio não deve afetar autonomia de movimentos

Bahia 66/ 26

São Paulo 36/ 54

Paraná 37/ 53

*49

Piauí 67/ 28 Pernambuco 70/ 22 39

*21

*11

*20

*38

Ceará 71/ 22

*

Tocantins 58/ 37

Paraíba 65/ 27

Estados onde Lula ganhou. Estados onde Alckmin ganhou.

* Diferença em pontos percentuais

enquanto socialistas a não abandonar o controle para o mercado”, analisa. “Os movimentos de luta por terra estão querendo, no próprio dia da posse, fazer ocupações. É um gesto que acho lindo”, revela dom Tomás Balduíno, da Comissão Pastoral da Terra. Com esse exemplo, ele garante que a atitude dos movimentos será diferente da paralisia que, segundo ele, reinou no primeiro mandato. Para dom Tomás, por falta de experiência, a sociedade organizada ficou atenta apenas ao que vinha do Palácio do Planalto. “Entretanto, em um segundo momento houve uma retomada das articulações, das consultas, das assembléias populares. E isso vai continuar muito firmemente. O importante é a sociedade civil reafirmar a autonomia das diversas entidades, a sua vontade de continuar e não delegar poderes”, garante. (LB)

no primeiro turno, os movimentos quiseram dar um posicionamento de indignação e insatisfação com os rumos do governo Lula. “Agora estamos diante da possibilidade real de retrocesso àquilo que era o Brasil colônia. Na fala do Alckmin se percebe, embora toda a direita tenha vergonha de si mesma, que ele a representa, que é contra as conquistas populares e contra a força do Estado no sentido de garantir o social”, denuncia o religioso.

EFEITO NA CAMPANHA O apoio foi bem recebido pela campanha petista. Valter Pomar, secretário de Relações Internacionais do PT, preferia que a decisão viesse no primeiro turno mas entende que as limitações e os erros cometidos pelo governo, além da ilusão de que Lula ganharia no primeiro turno, pesaram. “O que importa agora é que estaremos todos juntos, para derrotar a direita e o neoliberalismo”, comemora. Em sua avaliação, a eleição é luta de classes, tanto no primeiro quanto no segundo turno. “O que acontece é que, no segundo turno, não existe terceira via. Todos temos que escolher uma trincheira. O segundo turno será mais agressivo, mais politizado e mais programático. A presença da militância dos movimentos sociais pode fazer a diferença entre ganhar ou perder. Quanto mais isso ficar claro, melhor para o segundo mandato, para que não tenhamos nem Roberto Rodrigues (ex-ministro da Agricultura) nem Henrique Meirelles (presidente do Banco Central)”, afirma Pomar. Para o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, o apoio dos movimentos sociais vai servir para que o governo saiba escolher as políticas que privilegiem os menos favorecidos. “Há uma disputa entre os setores da sociedade. A participação dos movimentos é importante para soldar os compromissos do governo, para que ele tome posição, e saiba prorizar as medidas, seja em relação ao salário mínimo e à reforma agrária, em vez de atender a outro setor da sociedade”, diz. Perguntado sobre o que o governo poderia oferecer aos movimentos sociais em um eventual segundo mandato, Marinho explicou que, para um segundo

Lula precisa enfrentar a correlação de forças As dificuldades impostas pela conjuntura não são uma justificativa para um governo deixar de fazer aquilo que acha certo. Essa foi uma das principais conclusões de um debate promovido pela Agência Carta Maior, no dia 9, a respeito das eleições. Participaram do evento o sociólogo Chico de Oliveira, a filósofa Marilena Chauí e o jurista Plinio Arruda Sampaio, entre outros. Como ponto de partida, Oliveira fez um desafio: “Estou disposto a votar no Lula, se o Bolsa Família for transformado, por meio de emenda constitucional, em um direito universal”. O sociólogo duvida que Lula rompa com a política econômica atual e propõe que o presidente, em

período de Lula na Presidência, se criaram as condições para que seja posto em funcionamento um projeto de desenvolvimento, para que se faça uma transição à execução de políticas que correspondam às reivindicações populares: “Lula não conquistou tudo que os movimentos desejavam, mas manteve o diálogo, e nunca os criminalizou, como acontecia antes. Sempre vai haver diferenças entre o governar e os anseios dos movimentos, isso faz parte da democracia. Mas sempre haverá diálogo”. A decisão dos movimentos, contudo, não foi unanimidade dentro do campo da esquerda. Plinio Arruda Sampaio, candidato ao governo de São Paulo pelo Psol e que foi proibido por seu partido de se manifestar a favor de Lula ou Alckmin no segundo turno, acredita que os movimentos deveriam ter mais cautela tendo em vista o que aconteceu no primeiro mandato. “Propondo que a gente intercale e condicione esse apoio a um movimento concreto do presidente Lula demonstrando que nesse segundo turno ele vai, de fato, avançar mais no terreno da nossa proposta”, indica. Em debate promovido pela Agência Carta Maior, no dia 9, Plinio citou o que poderiam ser algumas dessas condições. Dentre elas, o fim dos leilões de privatização de bacias de petróleo, a garantia de não mexer nos direitos trabalhistas ou atualizar os índices de produtividade da agricultura. “Isso pode ser feito amanhã”, conclui.

RISCOS Para Flávio Aguiar, editor-chefe da Carta Maior, os dois intelectuais não dão a devida importância para o verdadeiro inimigo, a direita. “Caso Alckmin vença, pode ser que não tenhamos mais Petrobras e legislação trabalhista para defender”, alerta. Os movimentos sociais também sabem que não terão vida fácil em um novo governo tucano. “O grupo que cerca Alckmin é muito violento em termos de defesa da propriedade privada. A existência do MST para eles é quase uma ofensa. Com certeza haverá mais repressão e violência em relação aos movimentos sociais”, aposta Luiz Marcos Gomes, jornalista e economista. (Colaboraram Dafne Melo e Igor Ojeda, da Redação)

um eventual segundo mandato, promova políticas sociais mais amplas. Ele acusa o governo de usar os pobres como massa de manobra, não como sujeitos da política. “Ao invés de R$ 150 bilhões para o serviço da dívida, R$ 100 bilhões para o Bolsa Família. Viraria o mundo de ponta cabeça”, aposta. Oliveira sobe o tom. “Sei que não dá para fazer isso sem um reascenso do movimento de massa. Mas você tem que usar as armas que a institucionalidade lhe dá. Ela não te dá uma arma por meio do sistema democrático? Não é o Congresso que decide? É para comprar deputado? Então compra para votar isso”, polemiza. Assim, o sociólogo discorda que seja necessário esperar por uma correlação de forças favorável. Para ele, tal argumento desqualifica a democracia.

PUXANDO A CORDA Marilena Chauí admite que, muitas vezes, a correlação de forças deve ser

analisada, mas que não pode paralisar ações do governo. “Por medo, acabamos não fazendo a exigência máxima, mas a correlação só muda ao ser tensionada. Temos que exigir o máximo, se vamos perder ou não é outro papo”, sustenta. Para ilustrar o problema, Plinio Arruda Sampaio lembra que, em 2003, foi convidado pelo governo para produzir o 2º Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA). “Qual era o problema do Plano? ‘Não tinha correlação de forças’, diziam. Mas isso é dinâmico, não estático. O governo não pode deixar de executar suas políticas por medo”, critica. Para ele, pior do que a censura, é a autocensura. “Levei a correlação em conta na elaboração do PNRA. Precisava de quatro milhões de assentamentos. Propus um milhão, mas nem isso deu”, lamenta. A proposta do governo foi assentar 400 mil famílias até o final de 2006. (LB)


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NACIONAL DESERTO VERDE

Espiral destrutiva O processo de fragmentação das esquerdas brasileiras parece não ter fim, especialmente quando colocam como prioridade a atuação institucional, a disputa eleitoral e a ocupação de cargos na máquina pública. Faltam alternativas agregadoras fora do jogo controlado pelas classes dominantes, que contribuam para acumular forças e fazer avançar as lutas concretas contra o poder do capital. Luta unitária A Campanha Pela Anulação do Leilão de Privatização da Companhia Vale do Rio Doce começa a ganhar força em vários Estados. Em São Paulo, teve participação no Grito dos Excluídos, fez manifestação no Bradesco (suposto controlador atual da empresa) e realizou um debate na Faculdade de Direito da USP. O momento exige que se unam forças para recuperar o patrimônio público. Justiça cara Estudo realizado pelo Ministério da Justiça concluiu que as causas econômicas levadas ao Judiciário só valem a pena nos casos de altos valores, tendo em vista as despesas processuais e o tempo gasto para uma solução final. Quando o valor é de R$ 50 mil, por exemplo, o gasto pode chegar a 76% do total; quando é de R$ 500 mil, o gasto alcança 43%. É um desestímulo para se buscar Justiça. Bigode renovado O candidato a governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, do PT, deixou registrado em uma entrevista, no final de 2005, seu pensamento sobre a forma mais eficiente de enfrentamento da corrupção: “O combate à corrupção tem de ser via um processo como o do Orçamento Participativo, que possibilita uma apropriação pública do Estado e provoca uma cidadania ativa”. Muro empresarial Questionado pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 8 de outubro, sobre a preferência por Lula ou Alckmin para promover o desenvolvimento, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Paulo Skaf, afirmou: “Temos conversado e apresentado propostas aos candidatos. Eu diria que há uma consciência tanto de um quanto de outro da necessidade de o Brasil crescer”. Muro financeiro Já a revista Carta Capital, de 11 de outubro, analisa que o mercado financeiro, que apóia os postulados econômicos do governo Lula e obteve bons lucros nos últimos quatro anos, demonstrou alguma euforia com o crescimento eleitoral de Alckmin e a realização do segundo turno. A revista interpreta que o tal “mercado” acabou vestindo a camisa da candidatura tucana. Raciocínio inverso Na disputa de argumentos contra e a favor da reeleição de Lula, tem circulado um bastante curioso, que está assim fundamentado: se a política econômica de Lula segue o mesmo modelo neoliberal da política econômica do PSDB, então interessa mais para as classes trabalhadoras que o PT esteja na oposição, pois assim terá forte motivação para lutar com o povo contra a política econômica do governo. Truculência ianque No debate dos candidatos presidenciais realizado pela TV Bandeirantes, dia 8, o tucano Geraldo Alckmin reproduziu o pensamento da truculência direitista ao defender uma postura mais dura do Brasil na questão do gás boliviano. A direita brasileira continua seguindo a cartilha de subserviência total a Washington no tratamento com os governos populares e de esquerda da América Latina. Simples curiosidade O que vai acontecer com o dinheiro – R$ 1,7 milhão – apreendido pela Polícia Federal, em setembro, com militantes petistas que negociavam a compra de um suposto dossiê elaborado pela máfia dos sanguessugas? Se os donos do dinheiro não aparecerem, a fortuna fica para a Polícia Federal, reverte para os cofres públicos e será doado para entidades beneficentes?

Em campanha, Aracruz usa poder econômico para distribuir material considerado racista e discriminatório

Fotos: Arquivo MST/ES

Hamilton Octavio de Souza

Jogo sujo contra indígenas Luciana Silvestre Girelli de Vitória (ES)

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Aracruz Celulose lançou uma campanha agressiva contra os índios Tupinikim e Guarani no Espírito Santo. Desde setembro, a empresa começou a distribuir cartilhas que negam a existência de índios no município de Aracruz (ES) e que questionam sua identidade. A ofensiva inclui o apoio de grupos empresariais na publicação de notas conjuntas em jornais locais em defesa própria, além da exibição em outdoors de frases como “A Funai defende os índios, quem defende nossos empregados?”. Organizações de direitos humanos acusam a Aracruz de disseminar material com conteúdo racista, xenofóbico e discriminatório. Tais ações foram intensificadas após os indígenas ocuparem a área reivindicada para demarcação, entre os dias 6 e 12 de setembro. Essa mobilização culminou no envio do parecer favorável à demarcação das terras ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, pela Fundação Nacional do Índio (Funai), que rejeitou todas as contestações da empresa. O ministro tem até 12 de outubro para assinar a portaria demarcatória, reconhecendo os 11 mil hectares como terras indígenas.

Há anos violando os direitos de povos indígenas, agora a Aracruz lança campanha racista, em outdoors, para defender seu lucro

e vivem em aldeias parecidas com cidades do interior”, numa tentativa de descaracterizar os Tupinikim como povos indígenas. Não por acaso, eles são apresentados como “supostos índios”. Conforme a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata dos Povos Indígenas e Tribais em países independentes e que foi ratificada no Brasil, quem define a identidade, de ser ou não pertencente a um povo indígena, é a própria comunidade. “A empresa não tem prerrogativa de apontar o dedo e dizer se somos índios ou não ou se os quilombolas são quilombolas ou não”, declarou o cacique Jaguareté em coletiva concedida à imprensa, dia 15 de setembro. “A empresa está temerosa, pois o processo de demarcação das terras já está na fase final. Por isso vem tentando marginalizar os índios”, afirma Paulo Tupinikim, liderança da aldeia Caieiras Velha. A campanha da Aracruz foi considerada discriminatória também pelo Conselho de Direitos Humanos do município da Serra e de João Neiva, que denunciou o caso ao Ministério Público Federal (MPF/ES). “A ação da Aracruz caracterizou abuso de poder e desrespeito ao desenvolvimento dos povos indígenas, assegurado pela Constituição”, afirmou Marta Fal-

CONTRADIÇÕES As cartilhas da Aracruz estão sendo distribuídas em escolas da rede municipal de ensino e também disponibilizadas em agências bancárias de todo o Estado. Em uma delas, intitulada “A Aracruz e a questão indígena no ES”, com conteúdo também disponível na página da empresa, afirma-se que a área reivindicada “nunca foi habitada pelos Tupinikim”. Isso apesar de os laudos antropológicos da Funai confirmarem a ocupação tradicional do território por esses povos. O material ainda argumenta que “há muitos anos os índios tupinikim se integraram à sociedade. Eles não guardam traços da cultura indígena

Eucalipto ou alimentos saudáveis?

queto, conselheira do Movimento Nacional de Direitos Humanos. Ela ainda disse que a empresa viola há muito tempo os direitos dos povos indígenas, mas agora isso foi explicitado numa campanha verdadeiramente racista.

GUERRA DA PROPAGANDA Além das cartilhas, a empresa fixou outdoors com frases racistas (“Basta de índios ameaçando trabalhadores”) na cidade de Aracruz para colocar a população contra os índios, ao sugerir que são uma ameaça aos funcionários da própria empresa. “Isso tem conseqüências graves no dia-a-dia, pois a população do município começou a discriminar os índios. Houve casos em que nossas crianças foram impedidas de assistir às aulas nas escolas por estarem com pinturas indígenas no corpo”, relata Paulo. No dia 15 de setembro, uma manifestação promovida por sindicatos ligados à empresa, como o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Extrativas de Madeira (Sintiema), saiu às ruas da cidade em favor da empresa. Conforme declarações do presidente do Sintiema, Davi Gomes, “a passeata era para mostrar a preocupação com nossos postos de trabalho, ameaçados por ações violentas dos índios”. A Aracruz Celulose difundiu amplamente na mídia local que havia

Douglas Mansur

Fatos em foco

possibilidade de não fazer mais investimentos no Estado devido à “ameaça indígena”. Além de difundir a possibilidade da perda dos postos de trabalho da fábrica entre seus funcionários, a empresa está organizando um abaixo-assinado no comércio local contra os índios e em sua defesa, e pretende entregá-lo ao ministro da Justiça. Conforme informações de moradores, o funcionário que conseguir mais assinaturas receberá uma premiação. Além da denúncia do Conselho Estadual de Direitos Humanos, os próprios índios entraram com uma representação judicial no MPF/ES, redigida pelo advogado e assessor jurídico do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Cláudio Luiz dos Santos Beirão, na qual caracteriza as afirmações da empresa pelos diversos meios de comunicação como “preconceituosas (...) constituindo-se em danos morais coletivos”. Além da medida judicial, Paulo Tupinikim informou que os povos indígenas estão iniciando um trabalho de esclarecimento à população local, por meio de panfletagens e da participação em atividades nas escolas e na universidade do Estado. “Precisamos deixar claro que não somos um risco para a sociedade, apenas estamos reivindicando nossos direitos”, conclui.

investidos na produção de alimentos”, conclui. No último dia 20 de setembro, o BNDES anunciou que investirá R$ 12 bilhões no setor de papel e celulose até 2010.

PEQUENOS PRODUTORES Outra campanha promovida pela Aracruz Celulose, bem mais antiga, é a defesa da monocultura. Em 6 de outubro, a empresa, em parceria com produtores rurais e florestais, prefeitos e secretários municipais de agricultura e meio ambiente e empresários do ramo industrial florestal, realizou o Fórum Norte Capixaba de Florestas Plantadas, no município de Pinheiros, Norte do ES. O seminário teve por objetivo “estimular o negócio florestal no Estado”, ou seja, discutir a ampliação da plantação de eucalipto no Norte do Espírito Santo. Na mesma data, a Via Campesina – Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Comissão Pastoral da Terra (CPT) – Escolas Famílias Agrícolas e também comunidades quilombolas reuniram cerca de 600 pessoas numa mobilização no centro do município, a fim de fazer um contraponto ao projeto da Aracruz com a sociedade local. “Sabemos que o objetivo desse seminário (da Aracruz) é sugerir o

No ES, cidades com eucaliptos têm os menores índices de desenvolvimento humano

plantio de eucalipto como forma de reflorestamento nos municípios. E o que pretendemos é dialogar com a sociedade sobre que tipo de conseqüências traz a implantação desse modelo”, afirma Wonibaldo Rutzen, coordenador da CPT. A produção de alimentos saudáveis, a preservação do meio ambiente e a reforma agrária compõem a proposta da Via Campesina. “O governo precisa investir na produção de alimentos, não na monocultura do eucalipto. Os municípios onde há plantação de eucalipto possuem o

menor IDH do Estado e concentram bolsões de pobreza”, afirma Valmir Noventa, integrante do MPA. Noventa critica os órgãos públicos por financiarem esse tipo de empreendimento, citando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), um dos maiores financiadores da Aracruz Celulose. “O dinheiro público investido na empresa é suficiente para financiar toda a agricultura camponesa deste Estado e de grande parte no Brasil. Nossa proposta é que os recursos do Brasil sejam

Diante da resistência dos movimentos sociais em relação a seu projeto de desenvolvimento, a Aracruz tenta expandir sua plantação de eucalipto a partir do convencimento de outros setores da sociedade, ao mesmo tempo em que desenvolve uma campanha de apologia à produção do eucalipto. “É preciso entender que a Aracruz não está dissociada de um projeto imperialista, que estabelece uma divisão social do trabalho entre os países ditos de primeiro e de terceiro mundo”, afirma Helder Gomes. Ele esclarece que nos países de terceiro mundo é produzida a matéria-prima, processo altamente devastador do meio ambiente, consumidor e poluidor das águas, que ocupa extensas regiões de terras, com mão-de-obra barata. Isso é produto de exportação para os ditos países de primeiro mundo, onde ocorre a industrialização de ponta da celulose. “E é preciso lembrar que a celulose exportada é utilizada para produção de lenços descartáveis e papel higiênico nos países europeus”, conclui. (LGS)


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NACIONAL MITO DA DEMOCRACIA

Um Brasil de desigualdades João Zinclar

Estudo comprova que o racismo e a discriminação de gênero são o retrato da sociedade brasileira Gisele Barbieri de Brasília (DF)

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chegada da democracia no Brasil, na década de 1980, acontece em conjunto com um período de forte recessão econômica. A crise criou um ambiente de incertezas, que dificultou a retomada de investimentos e provocou o aumento das desigualdades sociais. Forma-se uma sociedade ambígua, onde alguns direitos se expandem e outros se retraem. Um país onde, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda por habitante, em 1990, é menor do que a da década anterior. A democratização brasileira, pelo modo como se desenvolveu, convive com acentuadas diferenças entre setores sociais. Dentre os pobres, 42% da população, segundo a Fundação Getúlio Vargas, os que mais sofrem são as mulheres e os negros. Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e do Fundo das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) revela que têm menos acesso a serviços e direitos essenciais. A discriminação aumenta no caso de mulheres negras, pois elas enfrentam o que os pesquisadores chamam de dupla discriminação. No Brasil, 21% destas são empregadas domésticas, e apenas 23% delas têm Carteira de Trabalho assinada. As mulheres brancas representam 12,5% desse mercado de trabalho, porém 30% delas têm registro em Carteira de

Trabalho. A renda média mensal das mulheres negras no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio, do IBGE (PNAD 2003), é de aproximadamente R$ 280, enquanto as mulheres brancas conseguem ter uma renda de R$ 554. Para o sexo masculino essas diferenças também são impostas pela cor da pele. Homens negros recebem aproximadamente R$ 428, homens brancos, R$ 931.

DESVANTAGENS ANTIGAS Segundo o estudo, intitulado “Retrato das desigualdades”, as diferenças entre setores sociais não são recentes, tanto que fizeram com que o Estado brasileiro, na década de 90, reconhecesse formalmente, perante a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a existência de racismo e discriminações baseadas na cor da pele ou na origem étnica dos indivíduos. O estudo também comprova que as mulheres estão em desvantagem quando o assunto é mercado de trabalho, acesso à saúde, remuneração, entre outros. A distribuição desigual pouco se altera entre 1996 e 2003. As mulheres, com a Constituição de 1988, tiveram fortalecidos e aprimorados seus direitos políticos. Estabeleceu-se pela primeira vez na história do país a igualdade entre os gêneros como direito fundamental. Os dados do estudo constatam que as leis não foram respeitadas. “O debate e o reconhecimento da discriminação é muito recente. Inicia-se com

De acordo com o IBGE, a renda média das mulheres negras é pouco superior à metade do que recebem as brancas, R$ 280 contra R$ 554

a preparação da Conferência Internacional das Nações Unidas sobre as questões de racismo, que aconteceu em 2001. O governo brasileiro avançou criando uma secretaria que cuida em específico disso. Você traz à tona este debate. Inclusive o debate que é um pouco complicado, mas necessário sobre as cotas”, diz Vera Soares, coordenadora do programa Igualdade Gênero e Raça do Unifem.

SEM PARTICIPAÇÃO Apesar das conquistas no campo legal, a representação das mulheres nos quadros dos poderes públicos e nas instâncias decisórias está muito aquém dos 50% de participação feminina na população do país, a mesma situação ocorre com os ne-

gros. Isso dificulta a redução dessas desigualdades. A representação dos setores discriminados no Congresso Nacional, outro meio de inserir representantes políticos, é muito pequena, em torno de 30%. Segundo a pesquisadora do Ipea Luana Pinheiro, o regime democrático não consegue garantir ainda a participação dos grupos desfavorecidos; Ela acredita que o caminho para as transformações é ditado mais pela pressão dos movimentos sociais organizados do que por intermédio do processo eleitoral, em que segundo ela, há uma crise instalada. Luana considera que a política de cotas pode contribuir na diminuição das diferenças. “São um caminho para alguns temas no qual a

desigualdade é muito importante, mas não bastam. No caso da saúde, por exemplo, não se trata de ter cotas. Os dados mostram que mulheres negras têm muito menos acesso a serviços muito simples de atendimento. Neste caso, faz-se necessário ter uma compreensão das razões da exclusão”, analisa Vera.

ENSINO DESIGUAL Para os negros, o processo da desigualdade começa no sistema educacional. Apesar do crescimento na média de anos de estudo da população em geral (aproximadamente 1,5 ano) entre 1993-2003, a diferença entre anos de escolaridade para negros e brancos caiu muito pouco no período. Em 1993, essa diferença era de 2,1 anos para os brancos; em 2003,

caiu apenas para 1,9 ano. Enquanto 16,8% dos negros maiores de 15 anos eram analfabetos, em 2003, esse valor era de “apenas” 7,1% para os brancos. “A evasão escolar é maior para negros do que para brancos. Os negros, em geral, estão em idade mais avançada do que a série que deveriam cursar. Então você tem um problema, que começa no ensino educacional e repercute no mercado de trabalho. Por terem menor escolaridade, os negros vão para o mercado de trabalho em condições mais precárias, como a informalidade, com menor proteção social. Isso repercute na aposentadoria, à qual não terão direito porque não conseguiram trabalhar durante seu período produtivo”, explica Luana. Gisele Barbieri

Na comparação entre homens e mulheres, a maior diferença está no mercado de trabalho. Embora o estudo tenha provado que as mulheres são superiores aos homens em todos os índices relacionados à escolarização, como analfabetismo e repetência, no mercado de trabalho elas ficam com uma remuneração menor do que a dos homens. “As mulheres reverteram um quadro histórico que existia até a década de 1960, quando tinham uma escolaridade menor que a dos homens. As mulheres hoje possuem melhor nível educacional em diversos índices, porém isto não se reflete no mercado de trabalho. Na

análise do mercado de trabalho, estão nos postos menos valorizados e recebendo menos. Com o agravante de conciliar as tarefas domésticas com o trabalho,” denuncia Luana Pinheiro, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea). Para as mulheres negras, a situação é pior, pois enfrentam ainda o duplo preconceito, afirma Luana. São discriminadas por ser mulheres e por ser negras. Do total da população negra a metade é composta por mulheres. Elas representam 41 milhões de pessoas, em torno de 23% do total dos brasileiros.

POLÍTICAS SOCIAIS Soluções para a discriminação só foram tentadas, com ênfase, no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que criou a Secretaria Es-

pecial de Políticas Públicas para as Mulheres, que tem como objetivo tratar das questões de raça e gênero. Para a população negra, a dívida é histórica, revela estudo do Ipea e do Fundo das Nações Unidas para a Mulher (Unifem). A realização de políticas públicas deve beneficiar a população dos grandes centros urbanos e das comunidades quilombolas. A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) estima que atualmente existam em torno de 5 mil comunidades de remanescentes de escravos. Embora o governo afirme que elas sejam apenas 2 mil. Destas, 743 comunidades já foram identificadas oficialmente, porém 42 estão reconhecidas e apenas 29 já foram tituladas. (GB)

O sofrimento de Nina

João Zinclar

Duplo preconceito

Maria das Graças da Silva Souza, a Nina, é mulher e negra. Tem 46 anos. Trabalha desde os 12 anos – começou na roça, ajudando os pais. Há 15 anos ela deixou a cidade de Mirandiba (PE), junto com os 5 filhos pequenos e veio para Brasília (DF), na esperança de ter uma vida melhor. Hoje, Nina vive em um lote no Céu Azul, bairro de Valparaíso (GO), “comprado depois de muito sacrifício”. Trabalha como empregada doméstica em Brasília e sustenta uma família de 5 filhos, 6 netos, noras e o marido, que recentemente ficou desempregado. De seus filhos com idade entre 20 e 25 anos, só um trabalha. Nenhum estuda. Todos construíram, com a ajuda da mãe, seus lotes em volta da casa que ela comprou. “Eu sempre fui assim, sempre sustentei todo mundo, eu fico preocupada. Parece que eles não se preocupam”, diz Nina. Ela completou apenas a primeira série. Seu emprego atual

é o segundo de sua vida com carteira assinada. Considera o acesso a serviços básicos, como saúde, difícil. No local onde mora, não existem médicos e o posto mais próximo é na cidade satélite ao lado. “Passei uns quatro meses sem trabalhar. Todos os dias, saíamos, eu e minhas filhas pequenas, para um supermercado perto de onde moramos. Catávamos pão, levávamos coisas. Meus filhos não iam, só as meninas, e mesmo assim elas ficavam longe, acho que com vergonha. Mas eu levava biscoito, carnes. Quando chegava em casa eu escaldava com limão e eles comiam. Mas eu sofri, agora que Deus me ajudou e eu comecei a conhecer o povo aqui em Brasília, tudo ficou um pouco mais fácil. Sou uma pessoa que sempre Deus ajudou, batalho – não faço questão de trabalhar para receber só dinheiro, pode ser comida para os meus filhos”, desabafa Nina. (GB)


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INTERNACIONAL MÉXICO INSURGENTE

Comuna de Oaxaca resiste há 4 meses Estudantes, organizações camponesas e indígenas levantam barricadas, após tomarem 22 prédios públicos

C

om a devida licença para ser sensacionalista, mas a Comuna de Oaxaca, desencadeada pelos professores e indígenas da Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), já durou o dobro de tempo da Comuna de Paris. E não dá para negar que a organização popular é o que assemelha os communards parisienses daquele longínquo 1871 aos oprimidos de um dos Estados de maior diversidade cultural do México. E, ao mesmo tempo, um dos mais esquecidos. O dia 14 de junho deste ano foi a fagulha que bastava. Os 70 mil professores da 22ª seção do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação, havia quase um mês, vinham fazendo plantão na praça do poder (o “zócalo”) da capital. Sua demanda: melhores salários. O então governador do Partido Revolucionário Institucional (PRI), Ulisses Ruiz Ortiz, desalojou os professores, confirmando a veia repressora, sua e do seu partido. Foi aí que estudantes, sindicatos, organizações camponesas e indígenas aderiram ao movimento. Logo no dia 21 de junho, criouse a APPO, que formou barricadas pela cidade, tomou 22 prédios públicos estratégicos, além de rádios. Durante todo esse tempo, pela via dos fatos, Ulisses Ruiz não manda mais. “Uma demanda do campo trabalhista se converteu numa demanda política”, pensa Rolando Gonzales Espinoza, coordenador do Centro de Direitos Humanos Tepeyac del Istmo de Tehuantepec, que agrega 25 organizações civis. A renúncia de URO junto ao Senado na capital federal é a prin-

outros se alinham nos princípios da “Outra Campanha”. Por ora, na opinião de Moreno, o movimento popular em Oaxaca – que já marcou um congresso próprio para novembro – está em construção e não teria condições de substituir encargos que pertencem ao Estado, como saúde e segurança. As demandas imediatas são para a saída do governador “priísta” e para a alteração das leis eleitorais, para que reconheçam o modo indígena.

Eduardo Jimenez Fernandez

Pedro Carrano de Curitiba (PR)

DESUMANIZAÇÃO INVISÍVEL

A organização dos professores é o que transparece na mídia, mas, no fundo, as classes em luta estão entrelaçadas

cipal reivindicação do movimento, e não é negociável.

ASSEMBLÉIAS GERAIS As decisões da APPO são tomadas em assembléias gerais por consenso, aliadas às assembléias tradicionais internas das comunidades. A organização dos professores é o que transparece na mídia, mas no fundo as classes em luta estão entrelaçadas. A maior parte dos oaxaquenhos são indígenas, o que se reflete no magistério, pois os professores são das comunidades ou trabalham nelas, diz Miguel Cruz Moreno, do Conselho Indígena Popular Ricardo Flores Magón (Cipo-RFM). Por outro lado, é interessante notar como o movimento ocorre com pouca presença da classe operária. Oaxaca não possui indústrias. A organização indígena foi o caldo de cultura da revolta de hoje, assim como a organização dos povos maias zapatistas lançou o grito de “Já Basta” no primeiro de janeiro

de 1994. Pelo que conta Espinoza, também se aplica agora o “Somos produto de 500 anos de história” do primeiro comunicado zapatista. As comunidades de Oaxaca se organizam segundo seus “usos e costumes”. Assim, dos 570 distritos que dividem o Estado, 418 se guiam segundo suas próprias leis. A pluralidade está nas 16 etnias indígenas diferentes do Estado. Uma das palavras-chave da revolta é a autonomia – que é bandeira dos povos originários ignorada pelos parlamentares dos três partidos (PRD, PRI, PAN) em 2001. “As experiências organizativas têm a referência no pensamento indígena e no modo como se luta na comunidade”, comenta Moreno.

DEMOCRACIA FORMAL NA UTI Enquanto noutros países latinos a conjuntura política aponta para conquistas a partir da agenda eleitoral, no México, ao contrário, a democracia exibe o sintoma de

estar doente, como indica o jornal La Jornada, no texto escrito por Marcos Roitman Rosemmann: “a democracia representativa esgotou o seu ciclo”, escreveu ele. Desde o ano passado, tivemos a proposta de um movimento contra o neoliberalismo, sem a presença dos partidos, impulsionada pelos zapatistas com a “Outra Campanha”. Tampouco vingou a possibilidade institucional de chegada ao poder em torno do candidato do PRD, López Obrador. Favorito nas pesquisas, o “perredista” foi impedido devido à fraude eleitoral. É nesse contexto que a “Comuna de Oaxaca” respira. Embora a referência esteja nela mesma. Ambas as organizações consultadas pelo Brasil de Fato pensam que a Comuna não tem a ver com o movimento cidadão em torno de Obrador. Por sua vez, Moreno reconhece que as bases da APPO são heterogêneas e existem aqueles que particularmente votam em Obrador, enquanto

Na conversa com Moreno, ele confirma a percepção de que os partidos hoje apenas dão o aval à política das transnacionais, cujos principais afetados são os camponeses e os povos indígenas. Em 2008, está para ser aberta a entrada de sementes de milho transgênico, vindas dos Estados Unidos, o que certamente afetará a população indígena e camponesa que vive do cultivo do alimento, justamente nessa parte do continente onde o milho é um cultivo tradicional desde os povos pré-colombianos. Embora, na nomenclatura dos meios de comunicação comerciais, o México seja classificado como um país de “economia emergente” e “estável”, ao lado do Chile – simplesmente pelo o que indica a numerologia do Produto Interno Bruto (PIB) –, para quem vai ao país e se mistura com la gente, a situação é outra. A precarização do trabalho está exposta na vida dos que trabalham nas fábricas maquiladoras, cuja produção de manufaturados é remetida aos grandes centros do capitalismo. Os trabalhadores não podem se organizar e as fábricas movem-se de um Estado a outro com facilidade, criando e desfazendo cidades ao redor.

INGLATERRA

Privatização da Amazônia, um risco real Eduardo Sales de Lima da Redação David Miliband, secretário do Meio Ambiente do Reuno Unido, disse ao jornal britânico The Daily Telegraph, no dia 3, que pretendia propor a outros países a privatização da floresta amazônica, como uma forma de protegêla e evitar o aumento das emissões de gases-estufa pelo desmatamento. A proposta do político inglês causou a revolta de ambientalistas brasileiros e trouxe à tona a polêmica Lei de Gestão de Florestas, que prevê a concessão de florestas públicas para a exploração sustentável. “Foi uma declaração infeliz. Mostra que ele não entende nada das leis brasileiras. Hoje, 75% da região pertence ao Estado. São áreas que não podem ser vendidas”, disse Tasso Azevedo, diretor do Serviço Florestal Brasileiro (SFB). Os interessados em ajudar na proteção de uma das maiores reservas de biodiversidade do mundo, explica Azevedo, podem colaborar por meio do fundo do Programa de Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa). “Até agora, apenas empresários brasileiros colaboraram com essa iniciativa. Recursos estrangeiros também seriam muito bem-vindos”, afirmou o representante do Ministério do Meio Ambiente.

Em abril deste ano, o milionário sueco, John Eliasch, tornou-se proprietário de 160 mil hectares no Estado do Amazonas para “preservar a floresta” e afirmou que, com 12 bilhões de dólares, seria possível adquirir toda a Amazônia. “Ele comprou uma região que está certificada para a exploração de madeira. Há áreas bem mais ameaçadas” diz o diretor do SFB. Para o ambientalista Henrique Cortez, o pânico do alarde da internacionalização e da privatização interessa principalmente à direita “desenvolvimentista” (aspas dele), porque é o principal argumento da ocupação desenfreada. Lembra que os militares, durante a ditadura, utilizaram desse mesmo argumento, “ocupar para não perder”. Ele conta que serão inauguradas 43 usinas de produção de álcool no Estado de São Paulo nos próximos dois anos, sobretudo na região Oeste, onde há intensa concentração de atividade pecuária.

FLORESTA SAQUEADA Falsos títulos de propriedades rurais e a superexploração do meio ambiente são os elementos que marcaram a história da região Norte. Inúmeros títulos com imóveis de 2.490 hectares são confeccionados para a

obtenção de concessão de terra. Com mais de 2.500 hectares é preciso a aprovação do Congresso Nacional e seria necessário provar a origem da terra. Por isso, um grileiro com 15 mil hectares, por exemplo, divide a terra em lotes de 2.490 e os coloca em nome de várias pessoas. “Se for somar todos os títulos de terras no Pará, o Estado teria três andares, porque 90% dos títulos são frios”, conta Cortez. De acordo com o governo, a Lei de Gestão de Florestas, sancionada em 2 de março, pretende atacar tais problemas. Em seus primeiros dez anos, o novo sistema será operado em caráter experimental e, segundo estimativa do Ministério do Meio Ambiente (MMA), deverá dispor aproximadamente 13 milhões de hectares de florestas na Amazônia para exploração comercial, o que equivale a 3% do território amazônico. Para o diretor do SFB, é possível que, até o início de 2007, as primeiras concessões comecem a ser licitadas, mas somente poderão concorrer empresas ou pessoas jurídicas nacionais.

PROTEÇÃO AMBIENTAL “O objetivo principal da lei é proteger as florestas públicas. O MMA já tem pronto um projeto para iniciar

A floresta amazônica está na Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela

as concessões neste ano, na zona de influência da rodovia BR-163, no Pará”, relata Azevedo. O diretor do SFB explica que, para o monitoramento da exploração sustentável por parte das empresas privadas, haverá várias formas de monitoramento. Além do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), as organizações não governamentais (ONGs) também realizarão auditorias. Para o representante do Ministério do Meio Ambiente, as pessoas confundem a questão da privatização.

“Entre 1994 e 1998, houve, no Brasil, um forte processo de privatização. Todo o cerrado e a Mata Atlântica foram privatizados. Concessão é diferente de privatização”, diz Tasso. A nova lei, segundo o diretor da SFB, propõe o oposto disso. “Trata-se de uma tendência mundial o aumento da participação do Estado para a proteção das florestas. Isso já ocorre nos Estados Unidos, no Canadá, na Índia”, diz.

PREOCUPAÇÃO A Secretária-Geral da Organização do Tratado

de Cooperação Amazônica (OTCA), Rosalía Arteaga Serrano, emitiu uma nota à imprensa manifestando sua preocupação em relação a supostos projetos de países não amazônicos de privatizar ou estabelecer consórcios internacionais na Amazônia. Ela lembra que a soberania dos países amazônicos sobre a região é plena e incontestável. Para Cortez, falta um diálogo maior do Brasil com a OTCA. “O interesse de proteção e preservação da Amazônia é e deve ser compartilhado com as nações que a dividem”, avalia.


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INTERNACIONAL MASSACRE NO SUDÃO ACNUR/M.Pearson

Organizações não governamentais denunciam a falta de ação da ONU para impedir o genocídio no país africano

Criança sudanesa posa em frente à fachada de sua escola completamente perfurada por balas

Darfur: massacre em câmera lenta “E

specialistas chamam Darfur de Ruanda em câmera lenta”, revela Mark Hanis, da Organização Não Governamental (ONG) Genocide Intervention. A comparação com o massacre de cerca de um milhão de pessoas da etnia tutsi em pouco mais de 100 dias no país da África Central é assustadora, mas justifica-se. A diferença é que, no caso da região do Oeste do Sudão, tudo ocorre mais vagarosamente: até agora, calcula-se entre 200 mil e 400 mil mortos em quase quatro anos. Mas o objetivo de eliminar grupos étnicos

específicos é o mesmo, assim como o comportamento da comunidade internacional que, para Hanis, pode ser qualificado como “glacialmente lento e frustrante”. Segundo ele, o mundo, mais uma vez, não está fazendo praticamente nada do que é necessário para pôr fim a um genocídio. Segundo Ahmed M. Mohamedain, da ONG Darfur Call, a comunidade internacional foi rápida para denunciar as “atrocidades”, mas muito lenta para agir. “Ela ficou falando, falando e falando durante os últimos três anos e durante a morte de quase meio milhão de inocentes em Darfur”, lamenta. Somente há alguns dias, no dia 31 de agosto, o

A tática do “dividir para reinar” Há mais de quatro décadas, o Sudão vive uma guerra civil entre o governo árabe muçulmano e grupos rebeldes formados por negros cristãos e animistas, que vivem no Sul do país. A ação mais contundente de Cartum, sede do governo, entretanto, tem como alvo preferancial a região de Darfur. Darfur significa “Terra dos Fur”, denominação de uma das etnias de africanos negros predominantes na região de seis milhões de habitantes – as outras principais são Massaleit e Zaghawa. A maioria da população da área é composta por agricultores e, diferentemente do que ocorre no Sul, geralmente muçulmanos. Também vive em Darfur uma minoria de pastores árabes. Segundo James Smith, chefe-executivo da ONG Aegis Trust, negros e árabes “casavam-se entre eles, dividiam a mesma religião e freqüentemente era difícil diferenciá-los”. Na década de 1980, a seca aumentou a competição entre pastores e agricultores por água e o uso da terra, e a tensão entre os dois povos cresceu. No fim dos anos de 1990, milícias árabes financiadas pelo governo exterminaram mais de 200 vilas de moradores negros entre 2000 e 2002. Nesse mesmo período, rebeldes africanos realizaram ataques a postos do Exército. Em fevereiro de 2003, dois desses grupos, o Exército Popular de Liberação do Sudão (SPLA) e o Movimento Justiça e Igualdade (JEM), lançaram uma revolta contra o governo de Cartum, que resolveu responder com uma campanha de “terra arrasada”

Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas aprovou uma resolução solicitando o envio de 17 mil homens da entidade para a região, mas o presidente Omar El Bashir se nega a aceitar. Desde fevereiro de 2003, o o governo sudanês usa seu exército e a milícia Janjaweed, formada por árabes de tribos nômades, para atacar moradores de vilas não árabes, sobretudo agricultores negros. Cometem assassinatos, estupros, saques, despejos, queimas de casas e, desde agosto, até bombardeios aéreos.

CEM MORREM POR DIA James Smith, chefe-executivo da ONG Aegis Trust,

contra civis inocentes, com o objetivo de eliminar a base social dos rebeldes. No entanto, para Ahmed M. Mohamedain, da ONG Darfur Call, o conflito não pode ser explicado pela dimensão étnica. “Durante séculos, as pessoas de diferentes etnias coexistiram pacificamente. O que ocorre é um resultado da pobreza, negligência e marginalização política na região, insegurança criada pelo governo sudanês para se manter no poder, usando a política do ‘dividir para reinar’ e da expansão das chamadas fronteiras culturais árabe-islâmicas”, afirma.

FORMAÇÃO DE MILÍCIA Desconfiando de seu próprio exército – formado em grande parte por originários de Darfur –, Cartum recrutou homens de tribos árabes locais para formar a milícia Janjaweed (diabos a cavalo, em árabe), que se tornou sua principal força terrestre de contra-insurgência. “Certos grupos étnicos com descontentamentos históricos contra aqueles que constituíam os movimentos rebeldes ou com fortes interesses em ganhar acesso à terra e outros recursos se tornaram o principal suporte da milícia do governo”, explica David Buchbinder, da organização Human Rights Watch. De acordo com ele, para ter sucesso no recrutamento, o governo ofereceu pagamentos e promessas de acessos aos saques, terras e poder administrativo. Mohamedain, da Darfur Call, conta que os janjaweeds têm cartabranca para fazerem o que quiserem, inclusive tomar as terras, as posses e os animais dos africanos negros. Para Smith, da Aegis Trust, o governo financia a milícia como um meio de “arabizar” Darfur, “limpando” a região de sua população negra. (IO)

estima que mais de três mil vilas foram destruídas até agora, fazendo 2,5 milhões de pessoas deixarem suas casas – cerca de 200 mil delas cruzaram a fronteira em direção ao vizinho Chade. Para piorar a situação, Mohamedain conta que a milícia e as forças do governo “obstruem o envio de comida, água, remédios e outros tipos de ajuda humanitária às populações afetadas, levando a mais mortes e sofrimento”. De acordo com Hanis, mais de cem pessoas morrem a cada dia, cerca de cinco mil por mês. No momento, existem 7 mil homens das forças de paz da União Africana (UA) atuando na região, mas, se-

gundo Smith, “são simplesmente incapazes de cumprir seus trabalhos apropriadamente e não tiveram até agora da comunidade internacional o nível de suporte necessário, particularmente das nações mais ricas”. Na opinião de Mohamedain, o mandato do exército da UA é o mais fraco da história: está lá apenas para observar os crimes cometidos contra a população de Darfur e relatá-los, se as autoridades sudanesas permitirem. Além disso, “em diversas ocasiões, as forças do governo e os janjaweeds usam uniformes da força de paz da UA para atacar os civis. Recentemente, o governo do Sudão usou seu helicóptero para atacar localidades

civis”, denuncia. O mandato da UA estava previsto para terminar em 30 de setembro, mas foi prorrogado até o fim do ano. Ainda segundo Mohamedain, Cartum não autoriza o envio das tropas da ONU por temer o julgamento dos responsáveis pelo massacre por crime de guerra no Tribunal Penal Internacional. “Os ditadores do Sudão têm medo que uma força da ONU vá atrás dos criminosos”, diz. Comunicados da organização Human Rights Watch (Observatório de Direitos Humanos) chamam a atenção do pouco empenho dos países ricos em pressionar o governo sudanês a aceitar a resolução do CS.

ACNUR

Igor Ojeda da Redação

SUDÃO – Maior país da África População: 41 milhões (2006) Mortalidade infantil: 61 mortes a cada mil nascimentos Expectativa de vida: 59 anos Taxa de fertilidade: 4,72 crianças por mulher Refugiado deixa acampamento da ONU em direção ao país vizinho, Chade

de material”, explica. Como conseqüência, o MSF teve que encerrar projetos em Darfur e cancelar temporariamente outros.

Ataques dificultam ajuda humanitária

SEM ATENDIMENTO

Cerca de 2,5 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas em Darfur por causa dos ataques da milícia Janjaweed e do exército sudanês. Desde então, vivem em abrigos temporários em campos de refugiados, completamente dependentes de ajuda humanitária internacional. No entanto, a insegurança causada pelo acirramento do conflito desde julho deste ano tem dificultado a distribuição de comida e o atendimento médico a certas áreas da região. Segundo Luc Van Baelen, vicechefe de missão da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Norte de Darfur, a entidade quase não tem acesso à população mais vulnerável. “Desde maio, doze trabalhadores de ajuda humanitária foram assassinados na região, o que é mais que o número total de incidentes desde que o conflito começou. Além disso, estamos enfrentando complicações administrativas crescentes, notadamente no que se refere a vistos de entrada de nossos integrantes e à importação

“Isso significa, em primeiro lugar, que as pessoas que ainda estão vivendo nessas áreas, não têm acesso a atendimento médico no momento”, conta Van Baelen. De acordo com ele, em Korma, no Norte da região, a unidade do MSF chegou a ter, em média, cerca de duas mil consultas por mês. A população de algumas vilas vivem hoje um isolamento geográfico, que a impede de receber ajuda. Segundo o vice-chefe da missão da organização no Norte de Darfur, os moradores dessas vilas estão impossibilitados de criar gado e realizar trocas entre diferentes comunidades. No momento, um surto de cólera atinge a região, causando ainda mais mortes, pela impossibilidade do tratamento. O aumento do conflito, além disso, tem impedido que pessoas gravemente doentes sejam deslocadas nas ambulâncias do MSF para hospitais devido ao perigo nas estradas. “Muitos pacientes têm que ficar onde estão sem a chance de encontrar o tratamento de que precisam”, conta Van Baelen. (IO)

Cronologia Século VII – o Sudão é incorporado ao mundo árabe por meio da expansão islâmica. O Sul escapa ao controle muçulmano. 1820-1822 – o país é conquistado e unificado pelo Egito, entrando posteriormente na esfera de influência do Reino Unido. 1881-1885 – revolta nacionalista expulsa os ingleses. 1898/1899 – o Reino Unido retoma o controle do Sudão e o país é submetido ao domínio egípcio-britânico. 1953 – Egito e Grã-Bretanha concedem ao Sudão autonomia limitada. 1956 – o país obtém a independência. 1969 – o governo democrático do Sudão sofre golpe militar liderado por Jaafar Muhamad Nimeiri. 1983 – estoura uma rebelião contra a ditadura. O coronel John Garang, atualmente líder de um grupo rebelde, se une aos insurretos. 1989 – golpe militar põe no poder Omar El Bashir, atual presidente. 2003 – tem início o conflito em Darfur.


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CULTURA

De 12 a 18 de outubro de 2006

TEATRO Fotos Bel Mercês

Violar é preciso!

Ana Maria Straube de Ribeirão Preto (SP)

A

centenária figueira, símbolo do Sítio Pau D´Alho, serviu de inspiração quatro anos atrás, quando abrigou mais uma roda de viola para a idealização de um encontro de violeiros. Devia ser um encontro diferente, como o próprio nome diz, um espaço onde violeiros e violeiras pudessem tocar e trocar experiências e conhecimento, sem competição ou cachê. Não seria um festival, mas um encontro de amigos que se reconhecem na arte de tocar viola e de levar adiante a cultura caipira brasileira. Estava definido o formato do Encontro Nacional de Violeiros. No ano seguinte, em 2003, acontecia a primeira versão do encontro, com cerca de trinta apresentações em apenas um dia de festa. Realizada no mês de março, época da colheita de milho, ocorreu junto à Festa do Milho Verde, em louvação a São José. Em 2004, segunda edição, mais artistas. Um dia foi pouco para tantas apresentações, o que fez com que a organização optasse por dois dias de festa na terceira edição. Neste ano, confirmando as expectativas, mais de 100 violeiros, violeiras, duplas, orquestras e folias passaram pelo palco montado em frente à grande figueira. Apesar da chuva no primeiro dia, o IV Encontro Nacional de Violeiros foi prestigiado por cerca de 15 mil pessoas, entre militantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) – principal organizador do evento – e apreciadores de boa música de todos os cantos do país.

CONSTRUÇÃO Uma forma diferente de construção do Encontro dos Violeiros foi colocada em prática este ano. Militantes vindos de todas as regionais do MST no Estado de São Paulo participaram de diversas oficinas. A de expressão corporal preparou os participantes da mística de abertura, que contou com uma apresentação de dança e percussão, comandada pelos participantes da oficina de tambor. A ornamentação ficou por conta da oficina de bonecos, que construiu um modelo de São Francisco de Assis, homenageado na festa. Os instrumentos construídos pelos participantes da oficina de fabricação de viola ficaram expostos na galeria de arte, junto com os

Edno/Oficina de foto MST

Ribeirão Preto esquece o country, dança ao som das violas e se rende à cultura caipira

quadros de Blanco Castro, autor do desenho do cartaz do encontro. A oficina de comunicação ficou responsável pela produção de fotos e vídeos, documentando as oficinas e as apresentações.

DIVERSIDADE Apresentar as milhares de maneiras possíveis de lidar com a viola sempre foi uma preocupação da organização do encontro. Como dizem os entendidos, cada violeiro tem a sua mão e, lógico, seu estilo. Tudo cabe na proposta do Encontro, desde as tradicionais duplas, passando por violeiros e violeiras solo, orquestras e grupos modernos. Com toda essa diversidade, fica nítida a impressão de que há cada vez mais gente tocando viola no Brasil. E como nem só de viola vive a cultura caipira, o Encontro abriu espaço para manifestações populares de música e dança, como a Folia de Reis e a Capina. Apresentada por um grupo de senhores vindos de Jequitibá, Minas Gerais, a Capina chamou a atenção do público por usar enxadas em sua dança e também pelo discurso do líder do grupo. Nelson Jacó afirmou que seu grupo é o último que ensaia e apresenta a dança em sua região. Para ele, a dispersão das manifestações culturais dos camponeses se dá pelo avanço implacável do latifúndio, realidade em todos os cantos do Brasil: “Se nós não dançarmos, ninguém mais dança”. Entre os clássicos, a dupla

Mais de cem artistas se apresentaram para as 15 mil pessoas que passaram este ano pelo IV Encontro Nacional de Violeiros

Zé Mulato e Cassiano, com mais de 25 anos de estrada. Representando a nova geração, Matuto Moderno e Viola Urbana fazem uma releitura da arte de violar. Estiveram presentes violeiros de São Paulo, Mato Grosso, Brasília, Minas Gerais e Paraná.

TRINCHEIRA Para Edvar Lavratti, do MST, realizar o Encontro Nacional de Violeiros em Ribeirão Preto é também um posicionamento político. Capital do agronegócio, a cidade e seus arredores estão tomados pelas grandes propriedades monocultoras de cana-de-açúcar. Ribeirão também é rota de passagem do gênero conhecido como country, com suas roupas de cowboy e músicas pasteurizadas no estilo dos grandes rodeios, como a festa do peão de Barretos. O violeiro e professor Ivan Vilella coloca sua preocupação quando diz que, antigamente, todas as manifestações culturais estrangeiras que chegavam ao Brasil não eram puramente assimiladas, mas se fundiam com nosso repertório. A diferença é que hoje está cada vez mais difícil que a mistura aconteça, pois essas referências nacionais estão se perdendo. A missão de quem procura preservar as raízes culturais brasileiras hoje vai além de uma atitude

puramente xenófoba, de negar o que vem de fora, mas sim garantir que não haja apenas assimilação, mas uma fusão com nossos elementos. Para Ivan, por mais que a cultura country esteja presente na região, muita gente faz questão de ir ao encontro e assistir às apresentações, o que explica a grande quantidade de público.

NATUREZA Ivan Vilella afirma que, apesar de ter sido trazida para o Brasil durante a colonização portuguesa, a viola hoje é instrumento essencialmente brasileiro, já que aqui é que suas pontencialidades foram ampliadas e diversificadas. Felinto Procópio, o Mineirinho, militante do setor de cultura do MST e organizador da festa, explica que a viola está ligada ao camponês, pois fala diretamente da relação com a terra e a natureza. Mesmo nas modas mais antigas, a questão da expansão do latifúndio e a conseqüente expulsão do pequeno agricultor do campo está muito presente. João Ba, artista de 74 anos e 53 de estrada, concorda e afirma que sua música é inspirada pelos pequenos

elementos da natureza, como o trabalho do bicho da seda, por exemplo. João, que não é propriamente violeiro (seu instrumento é o violão) mas sim um cantador, participou do Encontro pela primeira vez, trazido por parceiros que já conheciam a festa. A presença de João Ba no IV Encontro Nacional dos Violeiros foi muito festejada, dada a sua importância para a cultura popular.

DESFECHO Encerrando o IV Encontro Nacional dos Violeiros, Pereira da Viola e outros artistas fizeram o pessoal que permaneceu até às 24h de domingo na frente da grande figueira dançar ciranda. Pereira, velho conhecido das rodas de viola e da militância do MST, também ajudou a organizar a festa. Para o ano seguinte, fica a certeza de que o V Encontro Nacional dos Violeiros será ainda maior em 2007, com a presença de mais violeiros, ansiosos por apresentar sua arte. Fica também a certeza de que, apesar de não estar presente nos meios de comunicação, a arte da viola sobrevive com força total na beleza do trabalho de velhos e novos violeiros.

Festa da Semente Paralelamente ao 4º Encontro Nacional de Violeiros, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em parceria com a Bionatur, realizou a Festa da Semente. O objetivo da celebração, além de divulgar a produção de sementes agroecológicas, foi estimular a troca de experiências e produtos entre organizações de diferentes regiões do Estado. Cada assentamento levou suas sementes. Os trabalhadores rurais também tiveram a oportunidade de levar para seus assentamentos as sementes produzidas pela Bionatur. Sediada no Rio Grande do Sul, a Bionatur é uma cooperativa de assentados da reforma agrária que desenvolve e produz sementes agroecológicas. Além de propagar o uso de sementes ecologicamente corretas, a Bionatur ainda estimula que mais variedades de organismos sejam produzidos, contribuindo assim para a diversidade necessária à agricultura brasileira. (AMS)


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