Ano 4 • Número 180
Uma visão popular do Brasil e do mundo São Paulo • De 10 a 16 de agosto de 2006
R$ 2,00 www.brasildefato.com.br
Haitham Moussawi/IRIN
Lucros da Vale, prejuízos do povo Cresce campanha pela reestatização da empresa cujos resultados poderiam propiciar casa para 125 milhões de famílias
N
o primeiro semestre deste ano, a Companhia Vale do Rio Doce (CVDR) lucrou R$ 6,1 bilhões. Esse dinheiro, que vai engordar os bolsos de acionistas, seria suficiente para construir 125 milhões de moradias populares. A comparação entre os privilégios do mercado financeiro em detrimento dos programas sociais ilustra os argumentos da campanha pela
reestatização da companhia, que ganha fôlego em todo o país. A campanha questiona, entre outras irregularidades na licitação feita pelo governo Fernando Henrique Cardoso, em 1997, a venda da Vale por R$ 3,3 bilhões – valor baseado apenas nas ações da companhia, sem computar o patrimônio formado por importantes jazidas minerais. Pág. 4
Cuba: a revolução segue com tranqüilidade
Segundo a ONU, pelo menos meio milhão de libaneses precisam de ajuda humanitária até agora
EDITORIAL
H
oje, o maior negócio das elites econômicas e políticas tem sido controlar o Estado brasileiro. Com a crise do modelo de desenvolvimento de industrialização dependente, que organizou a produção e o Estado brasileiro de 1930 a 1980, o neoliberalismo entrou em cena. Temerosa de perder seus privilégios, a classe dominante se unificou, se rearticulou e, a partir das eleições de 1990, passou a imprimir a agenda definida pelo Consenso de Washington. O neoliberalismo é apenas uma forma de apresentar a ideologia dos ricos e, em termos econômicos, trata-se da subordinação de toda economia brasileira aos interesses do capital internacional, agora dominado pelo mercado financeiro. E do ponto de vista dos interesses da nação, representou o abandono das elites brasileiras de esboçarem um projeto de desenvolvimento nacional, baseado na expansão de seu mercado interno e na industrialização. Em termos políticos, essa nova etapa equivale a uma recolonização do Brasil. Com as políticas econômicas neoliberais, o centro do processo de acumulação de riquezas é o capital financeiro, os bancos. E nesse novo modelo de acumulação, a classe dominante impôs mudanças fundamentais no comportamento e no papel do Estado brasileiro. No modelo anterior, o Estado tinha um papel ativo nos investimentos produtivos, na infraestrutura básica e na garantia de serviços públicos para a maioria da população. Agora,
em termos econômicos, o Estado privatizou todos os investimentos públicos, das ex-empresas estatais lucrativas, e entregou a infraestrutura para a iniciativa privada. Privatizou, inclusive, os projetos futuros, através das Parcerias Público Privadas (PPPs). Cabe hoje ao Estado garantir o processo de acumulação do sistema financeiro, garantindo as mais altas taxas de juros e sua transferência através do orçamento público para os bancos e especuladores. Assim, cerca de 30% de toda receita federal recolhida em impostos de toda população é transferida para o sistema financeiro via pagamento de juros dos títulos públicos. Enquanto isso, todos os serviços públicos de educação, saúde, transporte publico, e infraestrutura se degradam. Esse modelo concentra cada vez mais riqueza e renda. Gera cada vez mais pobres. E freia a mobilidade social. De outro lado, o neoliberalismo construiu também uma receita para os pobres. Obviamente, nada que ameace os pilares desse sistema que privilegia a acumulação de capital das elites. Aos “carentes”, a fórmula são os programas de compensação social, como uma espécie de amortização das prováveis revoltas sociais. Paliativos para que a vida miserável seja menos insuportável. Daí, os programas de bolsa-familia, bolsa-escola, bolsa gás, valetransporte, vale-refeição e tantos programas secundários, que não alteram a renda das pessoas e muito menos permitem a ascensão social.
E para conter os sonhos de rebelião, é preciso não descuidar da repressão social, essa sim, a fórmula permanente para manter a paz (??) em um país de desigualdades sociais desumanas. Mas a um Estado soberano não cabe o papel de mero administrador (e zelador) dos negócios do mercado financeiro. É de se esperar de uma nação digna que defenda a dignidade de seu povo, atenda às camadas mais pobres e aos anseios de igualdade e democracia verdadeira – aqui entendida não como representatividade política, mas como poder do povo, poder econômico, social, cultural e político. A única forma de reverter esse papel perverso do Estado brasileiro é a organização e a luta popular. Resistir, nos unir e agir articuladamente é necessário se queremos fazer valer nossos direitos, que estão consolidados na própria constituição, mas sistematicamente ignorados pelas elites, tão histérica em defender o “cumprimento dos contratos”, mas que se esquece das obrigações do Estado mais primárias – como a educação e a saúde para todos. Sem mudanças no modelo econômico e nas prioridades do Estado, a sociedade não trilhará outro caminho que não seja o de um futuro cada vez mais desigual, injusto e violento.
a normalidade constitucional em Cuba. A instabilidade vem é dos EUA, em mensagem da secretária de Estado, Condoleeza Rice, transmitida ilegalmente, incitando a “transição democrática”. Pág. 5
EUA fornecem arsenal para guerra de Israel
A luta contra os madeireiros no Pará
Dois fatos que a imprensa comercial não noticia: 1. Dos 700 aviões-caça que Israel possui, ao menos 102 foram recentemente adquiridos do país governado por George W. Bush. 2. Antes do seqüestro do soldado israelense Gilad Shalit, Israel havia cruzado a fronteira do território palestino e raptado um médico e seu irmão – segundo revelou o intelectual estadunidense Noam Chomsky. Pág. 7
Palco de disputas entre trabalhadores sem terra e madeireiros, a fazenda Amaraji, na região de Paragominas (PA), é apenas um exemplo dos conflitos rurais que marcam o Estado. A população, alvo de ações violentas dos latifundiários, enfrenta um paradoxo: de um lado, ouve o discurso de desenvolvimento econômico do agronegócio; de outro, protagoniza o avanço da desigualdade e social. Pág. 3
Douglas Mansur
O Estado a serviço das elites
A profecia dos analistas ouvidos pelas grandes corporações de mídia, como a CNN, não se concretizou. Em vez do caos anunciado com o afastamento do presidente Fidel Castro por motivos de saúde, prevalece a calma e
Educação – Com a presença do professor emérito da Universidade de São Paulo, Antônio Cândido, da professora Heloísa Fernandes, filha de Florestan Fernandes, e de João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), foi inaugurada, dia 5, a biblioteca da Escola Nacional Florestan Fernandes. Heloísa ressaltou a grandiosa trajetória de vida e de trabalho de Cândido, um dos patronos da escola. Cândido destacou a importância do livro na vida do ser humano: “O livro mata a fome da cabeça, serve para a instrução e para a imaginação, direitos tão importantes quanto a alimentação”. Para ele, o MST tem um grande significado histórico para o Brasil, pois representa uma força popular que mostrou que o trabalhador rural tem plena capacidade de reivindicar politicamente suas necessidades.
2
De 10 a 16 de agosto de 2006
DEBATE
CRÔNICA
Até quando?
Entre Beirute e Havana
Eduardo Galeano
Luiz Ricardo Leitão
m país bombardeia dois países. A impunidade poderia ser assombrosa, se não fosse costumeira. Alguns tímidos protestos dizem que houve erros. Até quando os horrores continuarão sendo chamados de erros? Esta carnificina de civis começou a partir do seqüestro de um soldado. Até quando o seqüestro de um soldado israelense poderá justificar o seqüestro da soberania palestina? Até quando o seqüestro de dois soldados israelenses poderá justificar o seqüestro de todo o Líbano? A caça aos judeus foi, durante séculos, o esporte preferido dos europeus. Em Auschwitz desembocou um antigo rio de espantos, que havia atravessado toda a Europa. Até quando palestinos e outros árabes continuarão pagando por crimes que não cometeram? O Hezbollah não existia quando Israel arrasou o Líbano em suas invasões anteriores. Até quando continuaremos acreditando no conto do agressor agredido, que pratica o terrorismo porque tem direito de se defender do terrorismo? Iraque, Afeganistão, Palestina, Líbano... Até quando se poderá continuar exterminando países impunemente? As torturas de Abu Ghraib, que despertaram certo mal-estar universal, nada têm de novo para nós, os latino-americanos. Nossos militares aprenderam essas técnicas de interrogatório na Escola das Américas, que agora perdeu o nome, mas não as manhas. Até quando continuaremos aceitando que a tortura continue legitimando, como fez o Supremo Tribunal de Israel, em nome da legítima defesa da pátria? Israel deixou de ouvir 46 recomendações da Assembléia Geral e de outros organismos das Nações Unidas. Até quando o governo israelense continuará exercendo o privilégio de ser surdo? As Nações Unidas recomendam, mas não decidem. Quando decidem, a Casa Branca impede que decidam, porque tem direito de veto. A Casa Branca vetou, no Conselho de Segurança, 40 resoluções que condenavam Israel. Até quando as Nações Unidas continuarão atuando como se fossem outro nome dos Estados Unidos? Desde que os palestinos foram desalojados de suas casas e despojados de suas terras, muito sangue correu. Até quando continuará correndo sangue para que a força justifique o que o direito nega? A história se repete, dia após dia, ano após ano, e um israelense morre para cada dez árabes que morrem. Até quando a vida de cada israelense continuará valendo dez vezes mais? Em proporção à população, os 50 mil civis, em sua maioria
“Existe guerra justa?”, indagava a capa da Veja na primeira semana de agosto. E a resposta aparecia estampada logo abaixo, com uma ressalva que surpreendeu aqueles que já estão habituados à retórica neoliberal da revista: “Existe. Mas não esta.” Tradicional porta-voz do capital financeiro internacional e da banca judia, em particular, o recado dado pelo magazine atesta o mal-estar que a agressão genocida de Israel ao Líbano tem provocado no mundo. Embora condenem o Hezbollah pelo suposto uso de “escudos civis” contra os bombardeios da força aérea israelense, os redatores da manchete acrescentaram: a reação de Israel foi desproporcional. Enquanto redijo estas linhas, as bombas seguem destroçando Beirute e outras cidades do Líbano. Centenas de civis já foram mortos pelos ataques aéreos, inclusive dezenas de crianças atingidas em escolas ou dentro de suas próprias casas. Desta vez, o imperialismo não disfarçou seus métodos, nem tampouco dissimulou seus objetivos. A pretensão de Israel, sob o terrível beneplácito dos EUA, é dizimar o país vizinho e instalar uma “zona livre” no território ocupado, a fim de intimidar a Síria e, se possível, estabelecer livre trânsito no corredor que, na faixa litorânea do Mar Mediterrâneo, abre passagem até a Turquia. O seqüestro de seus soldados, não há dúvida, foi apenas um pretexto para a feroz ofensiva israelense. Sob o pseudoargumento de “responder” à ação do Hezbollah (partido libanês a que Bush & cia. insistem em chamar de “terroristas”, mas que a própria União Européia vê como grupo de resistência nacional), uma meticulosa ação militar, planejada em conjunto com Washington, foi deflagrada no Oriente Médio. Para compreendê-la, basta recorrer à velha geopolítica imperial: qual o melhor caminho para um oleoduto que desça pela Turquia até Israel? Petróleo, sangue e armas. O mundo árabe, berço de nossa civilização, não merecia tamanho infortúnio. Infelizmente, essa é a lógica que rege o planeta neoliberalmente globalizado. De Beirute a Havana, toda e qualquer resistência às pretensões do imperialismo deve ser aniquilada. É por isso, aliás, que há tanto rebuliço com a atual crise de saúde do velho comandante Fidel Castro. Cuba é apenas uma ilha, seu petróleo é sujo e escasso, os recursos naturais são pouco abundantes, mas o país e seu povo resistem ao modelo único do neoliberalismo (que péssimo exemplo para o mundo!). Há contradições na ilha? Existem, bem o sabemos. Mas perguntem a um cubano ou uma cubana se eles não têm orgulho do capital humano que o projeto socialista edificou, não apenas das conquistas materiais (como a saúde gratuita, a vacinação das crianças), mas também das espirituais, como o amplo conhecimento que seu sistema de ensino lhes propicia e que faz uma dona-de-casa discutir a direção de um filme de Almodóvar com as amigas na saída do cinema, ou até mesmo a proeza (inconcebível para muitos jovens latino-americanos) de desconhecer os prostíbulos e iniciarse sexualmente sem pagar por esta “mercadoria” a quem as Playboys da vida chamam de sexo... Soou-lhe anacrônica a observação, caro leitor? Não estranhe: ainda existem utopias neste planeta e, de Beirute a Havana, nem todos os discursos se pautam pela frágil retórica pós-moderna.
U
mulheres e crianças, mortos no Iraque equivalem a 800 mil estadunidenses. Até quando continuaremos aceitando, como se fosse costume, a matança de iraquianos, em uma guerra cega que esqueceu seus pretextos? Até quando continuará sendo normal que os vivos e os mortos sejam de primeira, segunda, terceira ou quarta categoria? O Irã está desenvolvendo a energia nuclear. Até quando continuaremos acreditando que isso basta para provar que um país é um perigo para a humanidade? A chamada comunidade internacional não se angustia em nada com o fato de Israel ter 250 bombas atômicas, embora seja um país que vive à beira de um ataque de nervos. Quem maneja o perigosímetro universal? Terá sido o Irã o país que lançou as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki? Na era da globalização, o direito de pressão pode mais do que o direito de expressão. Para justificar a ocupação ilegal de terras palestinas, a guerra se chama paz. Os israelenses são patriotas e os palestinos são terroristas, e os terroristas semeiam o alarme universal. Até quando os meios de comunicação continuarão sendo medos de comunicação. Esta matança de agora, que não é a primeira nem será – temo – a última, ocorre em silêncio? O mundo está mudo? Até quando seguirão soando em sinos de madeira as vozes da indignação? Estes bombardeios matam crianças: mais de um terço das vítimas, não menos da metade. Os que se atrevem a denunciar isto são acusados de anti-semitismo. Até quando continuarão sendo anti-semitas os críticos dos
crimes do terrorismo de Estado? Até quando aceitaremos esta extorsão? São anti-semitas os judeus horrorizados pelo que se faz em seu nome? São antisemitas os árabes, tão semitas como os judeus? Por acaso não há vozes árabes que defendem a pátria palestina e repudiam o manicômio fundamentalista? Os terroristas se parecem entre si: os terroristas de Estado, respeitáveis homens de governo, e os terroristas privados, que são loucos soltos ou loucos organizados desde os tempos da Guerra Fria contra o totalitarismo comunista. E todos agem em nome de Deus, seja Deus, Alá ou Jeová. Até quando continuaremos ignorando que todos os terrorismos desprezam a vida humana e que todos se alimentam mutuamente. Não é evidente que nesta guerra entre Israel e Hezbollah são civis, libaneses, palestinos, israelenses, os que choram os mortos? Não é evidente que as guerras do Afeganistão e do Iraque e as invasões de Gaza e do Líbano são incubadoras do ódio, que fabricam fanáticos em série? Somos a única espécie animal especializada no extermínio mútuo. Destinamos 2,5 bilhões de dólares, a cada dia, para os gastos militares. A miséria e a guerra são filhas do mesmo pai: como alguns deuses cruéis, come os vivos e os mortos. Até quando continuaremos aceitando que este mundo enamorado da morte é nosso único mundo possível? Eduardo Galeano é escritor e jornalista uruguaio, autor de As veias abertas da América Latina e Memórias do fogo. Este artigo foi publicado originalmente na Agência IPS/Envolverde, www.envolverde.com.br
Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Literatura Latino-americana pela Universidade de La Habana, é autor de Lima Barreto: o rebelde imprescindível (Editora Expressão Popular).
CARTAS DOS LEITORES INDISPENSÁVEL Sou um leitor assíduo deste jornal. Nos últimos tempos foi uma grande novidade poder dispor das informações nele contidas. E interessei-me por ele por ser o único jornal que conheço no Brasil que publica informações da África. Gostaria de solicitar-lhes que mantenham a coluna pois sou estudante da história africana e o jornal tornou-se um indispensável suporte de informações sobre o continente. Tenho feito a divulgação do mesmo e espero que futuramente possamos voltar para as 16 páginas. Parabéns a todos os redatores, colaboradores e leitores que oxigenam uma mídia alternativa de alta qualidade no Brasil de Fato. José Walter Júnior Por correio eletrônico PROTESTO O comitê do Pan cometeu um equivoco. A palavra Kuará (a palavra Kuará, com esse acento, não existe) não significa sol. Tanto no Tupi como no Guarani o certo é Kuarahy ou kuaracy. Kuará é buraco. Buraco! Será referência a buracos de balas, escopetas, e outras porcarias de matar? É um desrespeito com uma língua indígena! Se a palavra escrita errada fosse em inglês, milhares de brasileiros estariam protestando. Cecy Fernandes Por correio eletrônico FELIZ COM O BF Estou feliz por ter um jornal desse porte em nosso pais, um jornal que difere da mídia que ai está, empurando informações que só interessam a eles e aos governos que os alimentam. Quero passar a receber e acompanhar as
Editor-chefe: Nilton Viana • Editores: Áurea Lopes, Jorge Pereira Filho, Paulo Pereira Lima • Repórteres: Beto Almeida, Claudia Jardim, Dafne Melo, Igor Ojeda, João Alexandre Peschanski, Luís Brasilino, Marcelo Netto Rodrigues, Tatiana Merlino • Fotógrafos: Alícia Peres, Alderon Costa, Anderson Barbosa, César Viegas, Douglas Mansur, Flávio Cannalonga, Gilberto Travesso, Jesus Carlos, João R. Ripper, João Zinclar, Leonardo Melgarejo, Luciney Martins, Maurício Scerni, Renato Stockler, Samuel Iavelberg, Ricardo Teles • Ilustradores: Kipper, Márcio Baraldi, Maringoni • Editor de Arte: Rodrigo Itoo • Pré Impressão: Helena Sant’Ana • Revisão: Miguel Cavalcanti Yoshida • Jornalista responsável: Nilton Viana – Mtb 28.466 • Administração: Valdinei Arthur Siqueira • Programação: Equipe de sistemas • Assinaturas: Salvador José Soares • Endereço: Al. Eduardo Prado, 342 - Campos Elíseos - CEP 01218-010 - Tel. (11) 2131-0800 - São Paulo/SP - redacao@brasildefato.com.br • Gráfica: GZM Editorial e Gráfica S.A. Conselho Editorial: Alípio Freire • César Sanson • Frederico Santana Rick • Hamilton Octávio de Souza • José Arbex Jr. • Kenarik Boujikian Felippe • Leandro Spezia • Luiz Antonio Magalhães • Luiz Bassegio • Marcela Dias Moreira • Maria Luísa Mendonça • Mario Augusto Jakobskind • Milton Viário • Nalu Faria • Neuri Rosseto • Pedro Ivo Batista • Ricardo Gebrim
atualização da página de nosso jornal Brasil de Fato. José Carlos Brizolla por correio eletrônico SATISFAÇÃO Expresso minha satisfação em constatar que há uma iniciativa que busca mostrar a face esquecida do Brasil e que só é vista pelo povo. Desejo me cadastrar para receber regularmente o boletim eletrônico do Brasil de Fato. Saudações Jefferson Ildefonso da Silva Por correio eletrônico COLABORAÇÃO Gostaria de continuar recebendo as publicações regularmente e encaminharei para o maior número de pessoas possível, por se tratar de uma das poucas publicações neste país, que diz a verdade sem comprometimentos e sem aquela ética mentirosa, que para encobrir fatos obomináveis, alega ética jornalística. Estou me convidando, se for prática do Boletim, a encaminhar textos políticos da atualidade. Francisco Telles Por correio eletrônico INGRATIDÃO Chega a ser engraçado. De um lado os movimentos campesinos reclamam que o governo Lula nada ou pouco faz para a reforma agrária, agricultura familiar etc. Do outro, os ruralistas (CNA, ABA...) vociferam contra o governo, pois esse só ajuda a agricultura familiar e dá dinheiro aos movimentos campesinos e etc. Se eu fosse o Lula faria o que dizia Raulzito: “...pare o mundo que eu quero descer...” É muita ingratidão dos dois lados. Samuel Freccia Por correio eletrônico Para assinar o jornal Brasil de Fato, ligue (11) 2131- 0812 /2131- 0808 ou mande mensagem eletrônica para: assinaturas@brasildefato.com.br Para anunciar, ligue (11) 2131-0815
3
De 10 a 16 de agosto de 2006
NACIONAL PARÁ
A voracidade dos madeireiros Carlos Nonato Resende de Paragominas (PA)
A
Trabalhadores rurais sem-terra cobram o fim da impunidade dos assassinatos decorrentes da violência no campo
A ampliação do latifúndio
Beatriz Pasqualino
fazenda Amaraji, que fica a 71 quilômetros de Paragominas (PA), tem uma área de 5.999 hectares com grande potencial de fertilização e fontes de água abundantes, além de uma fauna diversa, onde se encontram animais raros como onça, veado vermelho e anta. Essas terras também abrigam uma mata de árvores centenárias, com grande valor comercial, como ipê amarelo, maçaranduba, táxi, copaíba, jatobá, piqui, cupiúba, amapá e cedro. Algumas dessas árvores têm propriedades medicinais: cascas, leite, frutos, flores, raízes e folhas são usados para fazer remédios. Não foi à toa que a região virou palco de disputas entre trabalhadores sem terra e madeireiros, uns dependendo dos recursos naturais para a subsistência; outros interessados na exploração predatória das riquezas naturais. A pressão dos madeireiros sobre as comunidades locais tem sido violenta. Três trabalhadores rurais já foram presos, sob acusações não fundamentadas de assassinato, formação de quadrilha e roubo de madeira. Mais nove trabalhadores estão com pedido de mandado de prisão. Idosos, crianças, jovens e mulheres já enfrentaram várias expulsões violentas, algumas sem mandados de reintegração de posse, feitas pelas policias civil e militar. De acordo com os trabalhadores, o fazendeiro Amantino Mafra, que seria o mandante dos despejos, não tem título de propriedade das
terras, apenas um recibo de compra e venda, que não comprova a posse da terra. Os camponeses contam que Mafra vendeu a mata, ou, as árvores, para o madeireiro Moacir Balestrere (acusado pelos trabalhadores de ser o “contratador dos pistoleiros” que ameaçam as comunidades), que terceiriza a extração – responsável pela derrubada das árvores que entopem córregos e braços de igarapés, caracterizando crime ambiental. Segundo relatos de trabalhadores, todas as árvores da área foram etiquetadas, cerca de 300 alqueires já foram derrubados e transformados em pasto. Mais recentemente, 441 árvores foram cortadas, mas o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) proibiu a retirada da madeira, alegando derrubada ilegal. Depois de alguns dias, segundo os sem terra, “apareceu uma placa do Ibama autorizando a extração da madeira”. Logo deuse início à etiquetação das árvores, sob o argumento de que se tratava de um projeto de manejo florestal – projeto que só foi feito após a interdição do Ibama. Os trabalhadores rurais contam que outros pistoleiros foram vistos no projeto de assentamento, que fica a 14 km da Amaraji. No dia 13 de julho, quatro policiais militares fortemente armados foram vistos nas proximidades das terras onde se concentram os trabalhadores sem terra. Segundo os camponeses, Mafra estaria ameaçando um pequeno proprietário, alegando que ele tem apoiado e ajudado os posseiros a resistir na área.
Arquivo Brasil de Fato
Na disputa pela floresta, latifundiários aterrorizam populações e cometem crimes ambientais
Crédito: MST/RN
Monumento em homenagem aos sem-terra mortos no Eldorado de Carajás, em 1996
Apenas um exemplo dos conflitos pela terra que marcam o Pará, a fazenda Amaraji, na região de Paragominas é conhecida como “a capital do boi gordo”. Tem o quinto Produto Interno Bruto do Estado e uma população com renda per capita de meio salário mínimo ao mês. Cerca de 80% do território estão ocupados por médios e grandes proprietários. A cidade vive um novo ciclo de desenvolvimento, sob o signo do agronegócio, com a produção de grãos como a soja, e mais recentemente, com a extração de minério, cujo direito de exploração é exclusividade da empresa privatizada Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) (Veja reportagem sobre reestatização da Vale na página 4). No entanto, o povo enfrenta um paradoxo: de um lado, ouve o discurso de desenvolvimento econômico; de outro, protagoniza o avanço da desigualdade social. Esse modelo de desenvolvimento econômico tem sido a política mestra do governo do Estado, que deixa às margens de suas prioridades os pequenos agricultores, camponeses e povos nativos. A monocultura da soja, na perspectiva do agronegócio, requer grandes extensões de terras para cultivo. A geração de postos de trabalho é insignificante, devido à tecnologia usada pelos sojeiros. Além disso, o monocultivo de grãos nesse sistema exige grande quantidade de agrotóxicos no ciclo de desenvolvimento das plantas. A utilização de agrotóxicos destrói o meio ambiente, prejuicando a fertilização da terra e contaminando os lençóis freáticos. Por se tratar de grandes extensões de terras, os produtos tóxicos também são lançados de aviões, o que impede o controle da área a ser atingida pelos produtos químicos. Segundo estudiosos da Universidade Federal do Pará, tem acontecido inclusive a contaminação do ar: devido à evaporação dos líquidos contidos na terra, os produtos químicos tornam-se sólidos e são lançados pelas chuvas, tornando as águas das chuvas ácidas e impróprias para o consumo, além de causar problemas respiratórios.
CICLO CRUEL
Agroecologia – A 3ª Festa das Sementes da Paixão, em Lagoa Seca (PB), enfatizou a importância das técnicas agroecológicas e denunciou os danos sociais e ambientais provocados pelo agronegócio. O evento, organizado pela Articulação do Semi-Árido (ASA), ocorreu entre os dias 23 e 25 de julho. Na programação, debates, teatro, reuniões e palestras com foco na formação dos trabalhadores rurais paraibanos. No último dia, 1,5 mil agricultores marcharam apresentando à população a necessidade do resgate das sementes crioulas. A feira livre, com comércio de produtos agroecológicos e a troca das “sementes da paixão”, fez o encerramento.
A estratégia de domínio do território utilizada pelos sojeiros e fazendeiros da região, cujo fim é o plantio da monocultura de grãos e a pecuária extensiva, se dá de forma processual. Primeiro vem a exploração ilegal da madeira, começando com a seleção das árvores rústicas e de maior porte. Depois as árvores são extraídas e destinadas às madeireiras. Como matéria-prima (tábuas, ripas, compensados) são exportadas para outros Estados e países. As demais árvores, de menor porte, e os resíduos das madeireiras, servem para a fabricação de carvão
vegetal, que por sua vez é vendido para as siderúrgicas de Açailandia (MA) e Marabá (PA). Muitos donos de siderúrgicas vieram de Minas Gerais, após destruir completamente o serrado de seu Estado de origem. Na maioria, as carvoarias que produzem carvão vegetal são ilegais e praticam trabalho escravo ou infantil. Nas fazendas, o trabalho escravo é utilizado geralmente na hora de “fazer a fazenda” (formação de pastos), ou, em alguns casos, na broca de juquiras (nome dado ao processo de roçagem de moitas em meio ao pasto). Nas carvoarias, abrange todo o ciclo de produção: a construção dos fornos, a extração da madeira, o enchimento e a retirada dos fornos, até o carregamento das gaiolas. O processo é mais intenso, obrigando os trabalhadores a apagar os fornos ainda em chamas, para completar a quantidade necessária das gaiolas. Estima-se que existam cerca de 12 mil pessoas trabalhando em condições precárias nas carvoarias do Pará. Após todo o processo de extração, a natureza, consideravelmente destruída, tem que cumprir as exigentes etapas do modelo de desenvolvimento: o passo seguinte é a formação de pastos para a pecuária extensiva – o que aumenta a concentração de terra e o latifúndio. Exaurida a terra pelos pastos, planta-se a soja a pretexto de recuperação do solo. Sabe-se que os objetivos não são exatamente esses, pois há outras leguminosas com capacidade de nitrogenação da terra superior à da soja. Tenta-se conquistar a opinião publica para aceitar o monocultivo da soja com promessas de que haverá mais empregos e aumentará a qualidade de vida da população. Mas os dados mostram o contrário: “O Brasil tem 388 milhões de hectares de terras agriculturáveis com pequenas, médias e grandes propriedades. A propriedade em-
presarial controla 70% dessa área e as pequenas, 30%. Mas a propriedade familiar fica com 10% dos créditos dados pelo governo e produz 50% da safra anual. Enquanto a empresarial fica com 70% desses créditos e também produz 50%”, afirma Bernardo Mançano, professor do Departamento de Geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
FALSOS DISCURSOS Esses falsos discursos têm sido utilizados para justificar a concentração de terras e a consolidação do latifúndio, além de motivar muitos trabalhadores a migrar com suas famílias de outras regiões do país e do Estado para Paragominas – cerca de 300 pessoas chegam à cidade por mês, segundo dados da Secretaria de Ação Social do município. Frustrando-se e sem condições de retornar para seus locais de origens, esse trabalhadores vão para a periferia da cidade, formando verdadeiros bolsões de pobreza. Ou ocupam terras improdutivas, na esperança da sobrevivência. Assentamentos foram criados em locais distantes, nas proximidades de fazendas e em áreas de matas conservadas. Dessa forma, sem estrada para escoar a produção, ou sem condições de deslocamento para outras áreas da região, os trabalhadores se tornam alvo fácil e mão-de-obra barata dos fazendeiros. Além disso, ficam à mercê da manipulação dos madeireiros, que os utilizam para destruir as florestas e vender a madeira a preços baixos. Quando os trabalhadores ocupam áreas não planejadas pelos “donos do poder”, se acirra o conflito pela área. Outra realidade da região muito comum é o incentivo dos políticos para a ocupação de áreas nas proximidades da sede do município, com o intuito de formarem curral eleitoral que os ajudará a se manter no poder. (CNR)
4
De 10 a 16 de agosto de 2006
NACIONAL VALE DO RIO DOCE
Depósito externo No dia 2, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou medida provisória que permite a simplificação das operações simultâneas de compra e venda de moeda estrangeira proveniente de exportações. Na prática, significa que as empresas importadoras e exportadoras poderão deixar até 100% de suas receitas depositadas em bancos fora do Brasil. Acaba de ser criada uma nova versão do caso Banestado. Investigação negociada Finalmente uma decisão do Supremo Tribunal Federal derrubou a blindagem – existente desde 2001 – contra a criação de CPIs na Assembléia Legislativa de São Paulo. Durante algum tempo, um acordo entre as bancadas do PT e PSDB impediu investigações que não interessavam aos dois partidos. Resta saber se agora os casos mais escandalosos serão mesmo apurados. Campanha eletrônica Começa no dia 15 o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, com 25 minutos diariamente. A campanha eleitoral para a presidência da República será nas terças, quintas e sábados. Para os governos estaduais, será nas segundas, quartas e sextas. Por sorteio, o horário será aberto pela candidata do Psol, senadora Heloísa Helena, no rádio às 7 horas, e na TV, às 13 horas. Paraíso financeiro A nova safra de balanços dos bancos privados confirma que o setor financeiro continua sendo o de maior rentabilidade no atual modelo econômico e que, no governo Lula, bateu recordes históricos. O segundo maior banco brasileiro, o Itaú, divulgou que teve lucro de R$ 2,9 bilhões no primeiro semestre, 19,56% superior ao do mesmo período de 2005. Alguém está perdendo! Exigência telefônica Desde janeiro de 2006, os contratos de telefonia fixa determinam que as empresas concessionárias são obrigadas a detalhar as ligações locais quando houver solicitação dos consumidores. Agora a Justiça de São Paulo aprovou que a Telefonica deve fornecer extrato detalhado gratuitamente mesmo sem a solicitação do consumidor. A empresa transnacional recorreu da decisão em instância superior. Crime perpetuado Entre os vários estragos do governo de Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, um dos mais graves foi o desmantelamento do precário sistema de fiscalização trabalhista do Ministério do Trabalho. Embora porcamente, o serviço conseguia identificar as péssimas condições de trabalho nas empresas, a falta de registros em carteira, o desrespeito às profissões regulamentadas. Nem isso o governo Lula conseguiu restaurar. Fome paulista Em carta pública, dom Mauro Morelli renuncia à presidência do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de São Paulo (Consea-SP), após dois anos de trabalho tentando organizar a ação contra a fome no Estado mais rico do Brasil. Segundo o bispo, o Consea-SP morreu por desinteresse e falta de apoio dos governadores Geraldo Alckmin (PSDB) e Cláudio Lembo (PFL). Mausoléu quatrocentão Antigo ponto de encontro da fina flor da burguesia paulistana e parada obrigatória dos generais da ditadura militar, o Jockey Club de São Paulo abrigou, dia 4, jantar de gala para arrecadar fundos para a campanha de Aloízio Mercadante. O presidente Lula e a alta cúpula do partido recepcionaram empresários, socialites e inúmeras personalidades do mundo artístico. O Jockey mudou muito!
Resultados da empresa poderiam viabilizar moradias para 125 milhões de famílias Pedro Carrano de Curitiba (PR)
C
om um lucro de R$ 6,1 bilhões no primeiro semestre de 2006, a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) cresceu 19,5% em relação ao ano passado e elevou o volume de exportações. O anúncio dos lucros da Vale ocorre justamente quando a sociedade civil e parlamentares se mobilizam para anular o leilão de 1997, que transferiu da União para o capital financeiro o controle da empresa, seguindo o Programa Nacional de Desestatização, criado durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Em uma conta rápida, os lucros da companhia – que vão engordar as contas de acionistas – poderiam garantir a construção de moradias populares ao custo de R$ 50 mil cada, para 125 milhões de famílias. São quase seis vezes o orçamento do Ministério da Previdência (R$ 1,2 bilhão), mais do que o dobro dos recursos da pasta de Desenvolvimento Agrário (R$ 2,3 bilhões) e da pasta de Cidades (R$ 2,7 bilhões) e pouco menos do que todo o orçamento da Educação (R$ 7,8 bilhões). Em outubro de 2005, o Tribunal Regional Federal (TRF) de Brasília julgou que 69 das cerca de 100 ações populares questionando o leilão da empresa não continuariam arquivadas. A decisão questionou a avaliação feita na época da venda da empresa. Na verdade, o leilão da empresa nunca deixou de estar sob julgamento, tampouco as ações populares podiam ter sido arquivadas, explica o jurista Eloá Cruz, que acompanha o caso. A decisão do TRF reacendeu o interesse da opinião pública pelo tema.
Em 2004, bancários do Paraná lutaram contra a privatização do Banestado, que deixou um rombo de 1,8 bilhão de dólares
da Vale pertence aos brasileiros”. Estão sendo recolhidas assinaturas para um plebiscito popular, a exemplo do que ocorreu para questionar a assinatura da Área de Livre Comércio das Américas a (Alca). Também reivindica-se um plebiscito oficial, no qual a sociedade decidiria o destino da mineradora.
RETROCESSO Na opinião do ex-superintendente da Rede Ferroviária Federal, Saulo de Tarso, a posição estratégica da empresa mudou quando a União deixou de ter o controle acionário. Para o engenheiro, o lucro da empresa é anterior ao
para o minério de ferro igual ao do aço. Segundo ele, já havia a previsão desse cenário antes da venda da companhia. Tarso critica o papel que a empresa tem assumido nos últimos dez anos: “A Vale iniciou (na década de 1940) com exportação de minérios, mas era uma empresa que vinha agregando valor. Porém, hoje volta a se concentrar na exportação de minério de ferro, ou seja, no extrativismo para exportação. E por que não transformar o minério em chapas de aço para carros, navios etc.? Antes, a Vale estava centrada em vender valor agregado e, agora, em vender volumes”.
ANÁLISE
Campanha pela reestatização
AMPLO PATRIMÔNIO Há nove anos a Companhia foi vendida por R$ 3,3 bilhões, valor baseado nas suas ações, sem computar o patrimônio da empresa, formado por jazidas minerais – com destaque para a produção de minério de ferro na jazida de Carajás, no Pará, a maior do mundo. Compõem esse complexo empresarial, que atuava com independência do Tesouro Nacional, 54 empresas, além de dois sistemas de mineraçãoferrovias-porto, que a tornam a segunda maior empresa nacional, e a que mais contribui para o superávit comercial da balança brasileira. Entre as 69 ações populares, boa parte questiona o edital de licitação da venda da empresa. A deputada estadual Dra Clair (PT-PR) critica a parcialidade da consultora estadunidense Merril Lynch em relação aos acionistas da empresa. Já a ação encabeçada pela deputada estadual Socorro Gomes (PC do B – Pará) contesta os argumentos usados pelo governo FHC ao justificar o leilão da Vale. O jurista Eloá Cruz moveu uma ação indicando que o presidente Lula deve tomar uma posição, por se tratar do patrimônio público. Como o caso ainda não está encerrado, segundo Cruz, os dividendos da Vale deveriam ser depositados em um fundo da União, como medida cautelar, e os investidores deveriam ser informados do julgamento. A sociedade civil também está na briga: comitês estaduais se articulam em São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Pará, sob o mote de que “o patrimônio
leilão de 1997; a diferença era o reinvestimento e a aposta no tripé investimento interno, qualificação dos empregados e desenvolvimento da sociedade brasileira, em saúde e educação. “Hoje, o lucro está nas mãos dos acionistas”, diz. Para ele, a empresa passou por um processo de terceirização dos quadros e deixou de desenvolver tecnologia. O contexto para os lucros atuais, segundo Tarso, está no crescimento da demanda mundial por aço, no último ano, no setor de construção civil. Na condição de segunda maior mineradora do mundo, a CVRD pressionou os mercados, atingindo um preço
Hamilton Octavio de Souza Entidades da sociedade civil e movimentos sociais estão realizando uma ampla campanha Brasil afora, em defesa da reestatização da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), que é a maior empresa mineradora do mundo e foi privatizada, em 1997, durante o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), pela bagatela de R$ 3,3 bilhões. O que justifica essa campanha agora, em período pré-eleitoral, anos depois da privatização? Na verdade, a privatização da CVRD nunca foi devidamente debatida com a sociedade brasileira. O seu processo foi fulminante e a sua retirada do controle público tem demandado uma análise mais cuidadosa, especialmente sobre os efeitos negativos da privatização no desenvolvimento do país. Além disso, uma decisão sur-
preendente do Tribunal Federal de Recursos deu prosseguimento à ação popular de anulação do leilão de privatização realizado no governo FHC. Um dos motivos para essa anulação é a disparidade existente entre o valor pago pela empresa no leilão (R$ 3,3 bilhões) e o valor estimado do patrimônio líquido da CVRD, de aproximadamente R$ 40 bilhões.
FRAUDE Outra irregularidade no processo de privatização foi a participação da corretora Merril Lynch, dos Estados Unidos, que fez a avaliação da empresa estatal para o leilão e depois se tornou uma das acionistas da empresa privatizada – o que é ilegal e imoral. Sem contar que se tratou também de uma atuação fraudulenta, uma vez que favoreceu os novos donos e causou grandes prejuízos à União e ao povo brasileiro.
Arquivo Brasil de Fato
Hamilton Octavio de Souza
Arquivo Brasil de Fato
Mais lucro para os acionistas
Fatos em foco
A estatal foi vendida durante o governo FHC por apenas R$ 3,3 bilhões
Também não se sabe até agora quem são os verdadeiros proprietários da Vale, pois o Bradesco assumiu a compra da empresa, fez o pagamento, mas existem indícios de que os donos sejam empresas estadunidenses, inclusive o Nation Bank, dos Estados Unidos. Isso é fundamental, uma vez que a empresa detém informações e direitos sobre as principais reservas minerais do Brasil, o que torna a privatização inconstitucional. Quando foi privatizada, a Companhia Vale do Rio Doce reunia 54 empresas em várias áreas de atividades, tinha milhares de empregados, investia milhões de reais por ano no Brasil, trazia para o país milhões de dólares com exportações, contribuía com inúmeros projetos ambientais e sociais – era, na verdade, um importante instrumento de desenvolvimento nas mãos do Estado para beneficiar o povo brasileiro. Privatizada, a CVRD não tem mais esses compromissos com o Brasil. A campanha de reestatização procura conscientizar as pessoas sobre a importância da recuperação da Vale para o patrimônio nacional. Para tanto, as entidades e movimentos sociais estão organizando comitês populares, promovendo debates e produzindo materiais informativos. Maiores informações podem ser obtidas nas páginas da Caritas Brasileira, CNBB-Norte-2, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e em muitos outros. Entre na campanha “A Vale é do povo”. Participe. Hamilton Octavio de Souza é jornalista
5
De 10 a 16 de agosto de 2006
AMÉRICA LATINA CUBA
A revolução permanece Jorge Pereira Filho da Redação
Fidel Castro pediu afastamento provisório no dia 31 de julho para se recuperar de uma complicada intervenção cirúrgica feita em decorrência de um sangramento no intestino. Foi a primeira vez, desde a revolução em 1959, que o líder revolucionário se afastou do governo. Em um comunicado, ele disse que precisaria ficar em repouso “durante semanas”. Depois disso, houve novos relatos sobre o estado de saúde do líder revolucionário, que segue estável. O último pronunciamento (até o dia 8, fechamento desta edição) foi o do escritor Fernández Retamar, presidente da Casa das Américas, renomada instituição cultural cubana. “O caos não se apoderou desse país. Dentro de alguns meses, Fidel Castro estará de volta”. A declaração de Fernández ocorreu em meio à divulgação de um manifesto assinado por mais de 400 intelectuais, de dezenas de países, em defesa da autonomia de Cuba. Subscreveram o documento, entre outros, o cineasta brasileiro Walter Salles Jr., o cantor francoargelino Mano Chao, o escritor português José Saramago e o colunista do Brasil de Fato Leonardo Boff. “Ante a ameaça crescente contra a integridade de uma nação, a paz e a segurança na América Latina e no mundo, exigimos que o governo dos Estados Unidos respeite a soberania de Cuba”, conclui o documento.
J
á passada mais de uma semana após o afastamento do presidente Fidel Castro, os ansiosos analistas internacionais que na CNN previam a irrupção de uma convulsão social na ilha revolucionária vão, pouco a pouco, vendo-se obrigados a alterar o tom de seus discursos. Em vez do caos, a normalidade constitucional. Como estabelecido na Constituição – e não simplesmente por desejo de Fidel –, assumiu o posto o presidente dos Conselhos de Estado e dos Ministros, Raúl Castro Ruiz, que passou também a comandar as Forças Armadas Revolucionárias. “Não há improvisações nem surpresas. Em Cuba, a revolução construiu uma ordem institucional que está baseada em um ideal de sociedade compartilhado amplamente e sustentado em realizações concretas que tornaram reais muitos direitos para todos os cubanos e cubanas”, escreveu José Vidal, professor de Comunicação da Universidade de La Havana e do Centro Martir Luther King, em artigo divulgado na Agência Brasil de Fato (www.brasildefato.com.br). Relatos vindos de Cuba mostram que, nas ruas, prevalecem a calma e a tranqüilidade. Mas tampouco, em sua maioria, os cidadãos da ilha deixaram de manifestar preocupação e de torcer pela recuperação da saúde do comandante em jefe. “Cuba não cairá diante da ausência temporária ou definitiva de Fidel. Isto não significa que tal ausência não tenha importância. Ao contrário, Fidel é o líder histórico de um processo profundo de mudanças sociais e lideranças não são transferidas tal como são os cargos”, assinala Vidal.
A SOMBRA DOS EUA O manifesto dos intelectuais é uma respostas ao movimento desencadeado por Washington, apoiado por seus aliados na América Latina e pela mídia conservadora, para aproveitar o afastamento de Fidel e colocar em pauta o que chamam de “transição democrática”, ou seja, o fim do regime socia-
Arquivo Brasil de Fato
Mesmo com Fidel afastado, Cuba vive dias tranqüilos e calmos; EUA transmitem mensagem ilegal para a ilha
Manifesto assinado por intelectuais defende a autonomia de Cuba, ameaçada por interesses do governo Bush
lista. O governo dos Estados Unidos possui um plano estabelecendo o passo-a-passo dessa transição. Um parte das ações planejadas foi divulgada; outra foi mantida em sigilo para “assegurar sua efetiva realização”. No mesmo dia em que o presidente George W. Bush afirmou que o “futuro dos cubanos será decidido pelos cubanos”, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, gravou uma mensagem direcionada aos moradores de Cuba. Dizia Rice: “Nesses momentos de mudanças, vocês devem saber que não têm um melhor amigo que os Estados Unidos”. A mensagem foi transmitida ilegalmente para os cubanos, via rede pirata de rádio e TV, desrespeitando a legislação local.
Fidel, 80 anos Houvesse uma fábrica de produtos lúdicos destinados ao mercado político, talvez “Onde está Wally?” ganhasse a versão “Onde está a esquerda?” Uma parcela da esquerda sente-se vexada porque não é tão ética quanto propala; outra, porque o socialismo faliu, exceto em Cuba. Na Coréia do Norte, predomina um regime totalitário e, na China, o capitalismo de Estado. As carpideiras da falência do socialismo não perguntam por suas causas nem denunciam o fracasso do capitalismo para os 2/3 da humanidade que, segundo a ONU, vivem abaixo da linha da pobreza. Assim, abraçam o neoliberalismo sem culpa. E o adornam com o eufemismo de “democracia”, embora ele acentue a desigualdade mundial e negue valores e direitos humanos cultuando a idolatria do dinheiro e das armas. O que é ser de esquerda? Todos os conceitos acadêmicos – ideológicos, partidários e doutrinários – são palavras ocas frente à definição de que ser de esquerda é defender o direito dos pobres, ainda que aparentemente eles não tenham razão. Por isso, causa arrepio ver quem se diz de esquerda aliar-se à direita. Fidel é um homem de esquerda. Não fez, entre 1956 e 1959, uma revolução para implantar o socialismo. Motivou-o livrar Cuba da ditadura de (Fulgêncio) Batista, resgatar a independência do país e libertar o povo da miséria. Em visita aos EUA, logo após a tomada do poder, foi ovacionado nas avenidas de Nova York. A elite cubana resistiu a ceder os anéis para que toda a população tivesse dedos. Apoiada pela Casa Branca, instaurou o terror, empe-
nhada em deter as reformas agrária e urbana e a campanha nacional de alfabetização. Kennedy, festejado como baluarte da democracia, enviou 10 mil mercenários para invadir Cuba pela Baía dos Porcos, em 1961. Foram derrotados. E a Revolução, para se defender, não teve alternativa senão aliar-se à União Soviética.
No trajeto do aeroporto de Havana ao centro da cidade há um outdoor com o retrato de uma criança sorrindo e a frase: “Esta noite 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana.” Algum outro país do continente merece semelhante cartaz à porta de entrada?
SAÚDE E EDUCAÇÃO
DUPLA MORAL
Cuba é o único país da América Latina que logrou universalizar a justiça social. Toda a população de 11 milhões de habitantes goza dos direitos de acesso gratuito à saúde e à educação, o que mereceu elogios do papa João Paulo II em sua viagem à Ilha, em 1998. Seria o paraíso? Para quem vive na miséria em nossos países – e são tantos –, a cidadania dos cubanos é invejável. Para quem é classe média, Cuba é o purgatório; para quem é rico, o inferno. Só suporta viver na Ilha quem tem consciência solidária e sabe pensar em si pela ótica dos direitos coletivos. Ou alguém conhece um cubano que deu as costas à Revolução para, em outra parte do mundo, defender os pobres?
A simples menção da palavra Cuba provoca arrepios nos espíritos reacionários. Cobram da Ilha democracia, como se isso que predomina em nossos países – corrupção, nepotismo, malversação – fosse modelo de alguma coisa. Ora, por que não exigem que, primeiro, o governo dos EUA deixe de profanar o Direito Internacional e suspenda o bloqueio e feche seu campo de concentração em Guantánamo? Protesta-se contra os fuzilamentos da Revolução, e faço coro, pois sou contrário à pena de morte. Mas cadê os protestos contra a pena de morte nos EUA e o fuzilamento sumário praticado no Brasil por policiais militares? Cuba é, hoje, o país com maior número de médicos e bailarinos de balé clássi-
Arquivo Brasil de Fato
Frei Betto
Foi a primeira vez que Fidel se afastou do governo desde a revolução de 1959
co por habitante. E desenvolve um programa para atender, nos próximos 10 anos, 6 milhões de latinoamericanos com deficiência visual – gratuitamente. Fidel está recolhido ao hospital. O que acontecerá quando morrer, ele que sobrevive a uma dezena de presidentes dos EUA e a 47 anos de esforços terroristas da CIA para eliminá-lo? O bom humor dos cubanos tem a resposta na ponta da língua: “Como pessoas civilizadas, primeiro trataremos de enterrar o comandante.” Mas será que o socialismo descerá à tumba com o seu caixão? Tudo indica que Cuba preparase para o período pós-Fidel. O que não significa que, como esperam os cubanos de Miami, isso ocorrerá em breve. Em novembro, na Universidade de Havana, o líder revolucionário advertiu que a Revolução pode ser vítima de seus próprios erros e deixou no ar uma indagação: “Quando os veteranos desaparecerem, o que fazer e como fazer?” Às vésperas de seu aniversário, a 13 de agosto, Fidel já começa a expressar seu testamento politico. A maioria dos membros do Birô Político do Partido Comunista tem de 40 a 50 anos, e cada vez mais jovens são chamados a ocupar funções estratégicas. Como 70% da população nasceu no período revolucionário, não há indícios de anseio popular pela volta ao capitalismo. Cuba não quer como futuro o presente de tantas nações latino-americanas, onde a opulência convive com o narcotráfico, a miséria, o desemprego e o sucateamento da saúde e da educação. Feliz idade e pronta recuperação, comandante. Frei Betto é escritor, autor de A mosca azul – reflexão sobre o poder (Rocco), entre outros livros
O que disseram sobre Cuba? “Fidel Castro fez algo fantástico: abriu as portas para o surgimento do novo homem” Oscar Niemeyer – Arquiteto brasileiro
“A visão de Fidel sobre o futuro da América Latina é a mesma de (Simon) Bolívar e (José) Martí, uma comunidade integral e autônoma, capaz de mover o destino do mundo” Gabriel García Marquez – Escritor colombiano
“Democracia é o poder do povo e confesso que não conheço outro país onde esse poder é exercido diariamente pela população como em Cuba. Fidel é o maior personagem do Século 20 que tem ainda muito o que dar no Século 21” Theotônio dos Santos – Sociólogo brasileiro
“Por uma razão moral e ética, todos os humanistas no mundo devem defender Cuba” François Houtart – Sociólogo belga e membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial
“Jamais a Igreja em Cuba daria respaldo, ou tampouco aceitaria minimamente qualquer intervenção estrangeira” Cardeal Jaime Ortega – Arcebispo de Cuba
“Fidel Castro é uma figura do passado e há tempos já não representa um caminho para o futuro” Geraldo Alckmin Candidato à Presidência pelo PSDB
“Estamos encorajando outros países democráticos a pressionar Cuba pela transição. Esse é o nosso objetivo e, nesses momentos de mudanças, vocês devem saber que não têm um melhor amigo que os Estados Unidos” Condoleeza Rice – Secretária de Estado dos EUA em mensagem endereçada aos cubanos transmitida ilegalmente por rede clandestina de rádio e TV
6
De 10 a 16 de agosto de 2006
INTERNACIONAL
O povo vota; as transnacionais ditam o rumo
ECHO
ÁFRICA
Pouco muda com as primeiras eleições presidencias no Congo, em mais 40 anos Igor Ojeda da Redação
C
erca de 25,7 milhões de eleitores, ou 80% do total, compareceram no dia 30 de julho para votar nas primeiras eleições na República Democrática do Congo (RDC), em mais de 40 anos. Desde o último pleito, o país, localizado na África Central, passou pela ditadura de Mobutu Sese Seko (1965-1996) e por duas guerras civis (entre 1996 e 2003), acontecimentos que inviabilizaram a consolidação de qualquer tipo de democracia. Entretanto, apesar do momento histórico que as eleições (presidenciais e legislativas) deste ano representam, e do alto comparecimento às urnas, as possibilidades de grandes mudanças nas condições de vida da população são pequenas. A opinião é do professor de História da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), José Gonçalves. “A economia da RDC é baseada na mineração, é bom não esquecer isso”, diz ele. E quem domina a exploração de minérios, sobretudo no Leste do país, são transnacionais que se beneficiam dos generosos contratos com o governo. O país africano tem importante reservas de ouro, diamante, cobre, cobalto, urânio e coltan – este último, valioso componente da fabricação de equipamentos eletrônicos,
como os telefones celulares. Muitos analistas relacionam diretamente as duas guerras civis ocorridas na década de 1990 à disputa pelo controle desses recursos.
NADA AO POVO Segundo Gonçalves, nenhum dos três candidatos favoritos (de um total de 33) propôs durante a campanha eleitoral algo como a nacionalização dos bens naturais, a exemplo do que ocorreu na Bolívia do atual presidente Evo Morales – as companhias estatais foram privatizadas nos últimos anos da ditadura de Mobutu, como forma de se ajustar às políticas do Banco Mundial. “O que eles propõem é maior distribuição desses benefícios e talvez melhoria em alguns contratos”, afirma o historiador. Por essa razão, os recursos gerados pela extração mineral seguirão sem ser aplicados em melhorias para a população mais pobre. Após o fim da guerra civil e a reunificação do país – decididos em acordo de paz assinado em 2003, na África do Sul –, o Estado congolês, ainda muito fraco, foi obrigado a aceitar as cláusulas impostas pelas mineradoras. A Assembléia Nacional (contando com integrantes não eleitos) redigiu um Código Mineiro e um Código Florestal, com termos ditados pelo Banco Mundial. Ou seja, muitas vantagens e poucas obrigações
A precariedade do sistema de saúde intensificou a transmissão de doenças e o aumento de taxas de mortalidade no Congo
para o setor privado. Entre outras coisas, o governo da RDC concedeu às empresas isenções fiscais por períodos de 15 a 30 anos. “Na forma como está sendo feita, a mineração tem servido muito pouco ao povo congolês. Por um lado, a RDC é um país que não investe há muito tempo. Por outro, a extração é em bruto, ou seja, não dá lugar à indústria transformadora no país. E não havendo transferência de recursos do setor mineiro para outras áreas, uma parte da população vive na miséria”, ressalta Gonçalves. Estima-se, por exemplo, que cerca de 1.200 pessoas morrem a cada dia no país, devido à desnutrição e à falta de acesso à água potável. O diretor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no país, Babar Cissé, concorda que somente a realização das eleições não é o bastante: “Democracia é mais do que ir às urnas. O que a RDC precisa é de um esforço intenso de reconstrução, que inclui cuidados com
a saúde, educação, água limpa e oportunidades de trabalho”.
VIOLÊNCIA POLÍTICA Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o processo eleitoral foi tranqüilo e transparente. Cerca de 1.700 observadores internacionais estiveram no RDC para supervisionar o pleito, além de 35 mil observadores internos. No entanto, em comunicado à imprensa divulgado dois dias antes das eleições, a organização Human Rights Watch (HRW) mostrou preocupação com a legitimidade do pleito: “A violência política ameaça minar as eleições históricas na República Democrática do Congo”. De acordo com a entidade, os principais casos ocorriam na província de North Kivu, causando a fuga de políticos e cidadãos, inclusive para fora do país. Ainda segundo a nota, cerca de 175 mil pessoas poderiam não estar aptas para votar, pois haviam fugido dos locais onde estavam registradas nos últimos quatro meses, quando as hostilidades aumentaram. Ataques a
comícios e a candidatos às eleições legislativas tornaram-se freqüentes. De acordo com a Comissão Eleitoral Independente, responsável pela organização do processo eleitoral, os resultados provisórios da apuração serão divulgados no dia 20. No dia 31, deverão ser proclamados os resultados definitivos. Caso nenhum candidato atinja 50% mais um dos votos, um segundo turno será realizado em 29 de outubro. Três candidatos despontam como favoritos. Joseph Kabila, candidato independente, Antoine Gizenga, do Partido Lumumbista Unificado (Palu) e um dos vicepresidentes, Jean-Pierre Bemba, do Movimento de Liberação do Congo (MLC). Um dos termos do acordo de paz de 2003 decidiu por um governo de transição presidido por Kabila e quatro vices indicados por diferentes grupos rebeldes. As chances da eleição ter que ser decidida no segundo turno é grande. (Com informações da IPS/Envolverde, www.envolverde.com.br, e de agências internacionais)
EQUADOR
Base de Manta: pesadelo para a população água da montanha, de alta qualidade. A água era engarrafada e vendida. Porém, desde que os estadunidenses começaram as explosões, a água foi muito contaminada. As pessoas perderam a possibilidade de vender água como forma de sobrevivência.
Igor Ojeda Enviado especial a Assunção (Paraguai) Desde a assinatura de um convênio, em 1999, para que os Estados Unidos pudessem usufruir da base militar localizada na cidade de Manta, na costa do Equador, a população daquela região vive um pesadelo. Aumentou a prostituição infantil, os recursos naturais foram contaminados e moradores foram literalmente expulsos de suas terras. Além disso, os militares estadunidenses falam mais alto inclusive do que as autoridades locais. Quem conta essa história é o equatoriano Juan Carlos Peñafiel, integrante da Visita de Observação Internacional que foi ao Paraguai com a missão de recolher informações sobre a presença de tropas estadunidenses no país e sobre as denúncias de violações de direitos humanos de camponeses por parte dos militares paraguaios. Brasil de Fato – Como funciona a base de Manta desde a assinatura do convênio entre EUA e Equador, em 1999? Juan Carlos Peñafiel – A base estadunidense fica no interior da base equatoriana. Está dividida metade para o Equador, metade para os EUA. Os militares equatorianos não podem passar para o outro lado. Além disso, os estadunidenses estão estendendo a base e tomam a terra da população ao redor, que vive da agricultura – as pessoas não têm a terra de direito, uma vez que nunca conseguiram a escritura. Há outros casos de violações de direitos humanos. Uma senhora grávida abortou de medo quando chegaram os militares armados para tirá-la de sua casa. Houve um caso também em que queimaram uma casa porque o morador não queria sair. BF – Quais são os termos do convênio? As tropas estadunidenses têm imunidade, como no Paraguai? Peñafiel – Não, não têm. Mas podem andar livremente pelo Equador.
BF – O que os soldados fazem em Manta? Peñafiel – Exercícios militares. Vou contar uma experiência pessoal. Estávamos fazendo uma investigação, acompanhados por um companheiro de Quito, que preparava um documentário. Ele pediu para me entrevistar e fomos para uma parte atrás da base. Quando estávamos filmando, começamos a escutar algumas coisas que detonavam. Ou seja, eles realizam exercícios militares. BF – Quais as demais conseqüências da instalação da base estadunidense para a população de Manta? Peñafiel – Existem investigações confidenciais feitas por algumas instituições sobre prostituição infantil. Antes, havia prostíbulos em volta da base. Mas eram prostíbulos pobres, de pequena infra-estrutura. Quando chegaram, os militares estadunidenses começaram a freqüentá-los e a colocar dinheiro neles. A partir daí, o índice de prostituição de meninas de 13 anos em diante foi aumentando muito. Agora, em lugares em volta de Manta, como Jaramijó e Porto Viejo, meninas dessa idade (13, 14 anos) vão trabalhar nos prostíbulos, que já
são “cinco estrelas”. Também tem a questão das embarcações, que é muito preocupante. Guarda-costeiras estadunidenses afundaram dois barcos de pescadores que não tinham nada a ver com o narcotráfico, porque o convênio diz que eles estão em Manta para prevenir o narcotráfico. Quatro pessoas morreram. BF – Há outras conseqüências para os moradores próximos da base? Peñafiel – Tem a inflação do preço das terras. Antes da presença estadunidense, um terreno perto da base custava entre 3 mil e 4 mil dólares. Mas os militares dos EUA compraram vários terrenos, por um preço muito alto. Então as cotações começaram a subir. Um terreno custa hoje 12 mil dólares. Um cidadão de Manta não pode pagar isso. E tem a questão ambiental. Havia um grande morro, numa localidade chamada Chorrillos. Os estadunidenses, para construir a base, necessitavam de material. A pedra desse morro era muito boa para isso. Então, eles começaram a implodir o morro. Danificaram o sopé da montanha, afetando a população de Chorrillos, que subsistia da
BF – Como é a relação dos militares estadunidenses com a polícia equatoriana? Peñafiel – Os militares estadunidendes têm autoridade sobre a polícia nacional do Equador. Nós levantamos um acampamento, em março deste ano, chamado “Acampamento por uma cultura de paz”, em frente à base. Procuramos o prefeito com 15 dias de antecedência e ele nos deu permissão. No dia marcado, armamos o acampamento durante a madrugada e, quando amanheceu, chegou um militar estadunidense perguntando quem éramos, o que fazíamos. Dissemos que estávamos fazendo um acampamento não-violento. Ele se retirou. Meia hora depois, chegou um ônibus com 40 policiais e com uma ordem para que saíssemos de lá, assinada no mesmo dia, pelo mesmo prefeito que havia autorizado anteriormente. Ou seja, logicamente o militar deu ordem ao prefeito para que revogasse a permissão e nos tirasse de lá. BF – Por que acha que os estadunidenses escolheram a base de Manta? Peñafiel – É uma posição estratégica. Eles têm aviões sofisticados, super-modernos, que podem ir rapidamente de um lugar a outro. A Colômbia e o Peru estão bem perto dali. A Colômbia é o centro da militarização, é outra colônia estadunidense.
Quem é Juan Carlos Peñafiel é integrante da Coalização Não às Bases no Equador, da Província de Manabí, onde está localizada a base de Manta, e integrante da Associação Cristã de Jovens de Portoviejo.
7
De 10 a 16 de agosto de 2006
INTERNACIONAL ORIENTE MÉDIO
Arsenal israelense vem dos EUA Marcelo Netto Rodrigues da Redação
A
ndando sobre os escombros de Beirute, a capital libanesa, uma correspondente do canal de televisão estadunidense CNN pergunta, em tom de desaprovação, a um jovem porta-voz do grupo Hezbollah: “É verdade que vocês são controlados pela Síria e pelo Irã?”. A resposta é rápida: “Isso é um insulto. Nós somos libaneses, nascemos aqui, nossos ancestrais são daqui. Agora, eu é que pergunto: por que os Estados Unidos podem financiar Israel e nós não podemos ser amigos da Síria? Por que o seu país pode municiar Israel com bombas e aviões – enquanto vocês acham isso a coisa mais normal do mundo – e nós é que somos vistos por vocês como terroristas? Nós não matamos crianças, como vocês têm visto Israel fazer, com a ajuda do seu país”, diz ele, com as mãos trêmulas, enquanto mostra fotos das vítimas civis dos ataques israelenses. A indignação do integran-
Anderson Barbosa
Caças e bombas dirigidas utilizados por Israel para destruir o Líbano são de fabricação estadunidense bombas comuns e aparelhos eletrônicos que as tornam armas inteligentes, guiadas por laser e monitoradas por um sistema de satélite. A participação direta no conflito da Grã-Bretanha e de seu primeiro-ministro, Tony Blair, também está relegada a pequenas notas na mídia. No dia 7, por exemplo, sete ativistas do grupo Trident Ploughshares foram presos pela polícia britânica, quando três deles conseguiram entrar em um avião militar estadunidense estacionado em um aeroporto da Escócia, conhecido por ser utilizado como rota de transporte de bombas fabricadas nos Estados Unidos para Israel. Milhares de pessoas se reuniram em São Paulo, no domingo do dia 6, em passeata pela paz no Líbano
PLANOS DE GUERRA
te do Hezbollah baseia-se em fatos que não aparecem com destaque na mídia comercial. Se a todo instante diz-se que a munição usada pelo Hezbollah é de origem síria ou iraniana, não se informa, na mesma proporção, que a “máquina de guerra” israelense é providenciada pelos Estados Unidos. Dos 700 aviões-caça
No campo diplomático, o rascunho de um plano de paz que deveria ser votado como resolução das Nações Unidas (ONU) – costurado pelos Estados Unidos e pela França – foi recebido pelo ministro das Relações Exteriores da Síria – país que oficialmente ainda não está envolvido no conflito – como “uma receita para a guerra”, uma vez que
que Israel dispõe, ao menos 102 foram recentemente adquiridos do país governado por George W. Bush. Conhecidos como F-16l Sufa – “tempestade”, em hebraico –, esses supersônicos têm sido os responsáveis pela destruição de estradas e pontes no Líbano, lançando bombas de até 500 quilos.
Assim, não é de se estranhar que Bush use a primeira pessoa do plural para falar da guerra entre Israel e o Líbano. “Nós não devemos dar espaço para o Hezbollah e seus patrocinadores moverem suas armas”. Além dos caças “tempestade”, Bush ainda vendeu a Israel, no mesmo pacote, cerca de 5 mil
não contemplava a retirada imediata das tropas israelenses do Líbano. Outro plano, apresentado pelo primeiro-ministro libanês, Fouad Siniora, que prevê o deslocamento de 15 mil soldados libaneses para o Sul do Líbano e a retirada imediata de cerca de 10 mil soldados israelenses que invadiram o país, aparentemente foi bem recebido por ambos os lados – mas parece que entendido de forma diferente. Mesmo após a apresentação do plano libanês, Israel ainda estava disposto a lançar uma invasão em grande escala, para expandir sua ofensiva por mais 30 quilômetros dentro do território libanês, até o rio Litani, e dizia que só sairia do Líbano com a chegada de uma força multinacional que substituísse a Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil), instalada na região desde 1978. Os libaneses, de sua parte, incluem a cooperação de 2 mil soldados da Unifil em seu plano e não aceitam a força multinacional proposta pelos Estados Unidos e pela França.
ENTREVISTA
Um dia antes do seqüestro do soldado israelense Gilad Shalit – provavelmente por militantes da Jihad Islâmica, que vivem na Faixa de Gaza –, Israel havia cruzado a fronteira do território palestino e raptado um médico e seu irmão. A notícia, que não ganhou as páginas dos jornais, veio à tona dia 15 de julho, em entrevista dada pelo lingüista estadunidense Noam Chomsky aos jornalistas estadunidenses Amy Goodman e Juan González. A informação revelada por Chomsky põe por terra a alegação israelense de que o país estaria se defendendo ao ter sido atacado sem razão. Em maio, Chomsky viajou a Beirute, onde se reuniu, entre outros, com o líder do Hezbollah Hassan Nasrallah. Leia trechos da entrevista publicada, dia 14 de julho, na página da internet da rede de comunicação Democracy Now (www.democracynow.org). Amy Goodman – Qual sua opinião sobre o que acontece no Líbano e em Gaza? Noam Chomsky – Não tenho informações privilegiadas. O que acontece em Gaza começa com a eleição do Hamas, no final de janeiro. Israel e os EUA imediatamente anunciaram que iam castigar o povo palestino por não votar corretamente em uma eleição livre. E o castigo está sendo duro. Parcialmente em Gaza, porém de forma ainda mais grave na Cisjordânia, onde o primeiro-ministro israelense Ehud Olmert anunciou seu programa de anexação – eufemisticamente chamado de “convergência”, e aqui chamado de “retirada”, mas que de fato consiste em uma formalização do programa de anexação de terras valiosas e da maioria dos recursos, incluindo água da Cisjordânia, assim como na divisão do restante, uma vez que Olmert também anunciou que Israel ocuparia o vale do jordão. E isso se leva a cabo sem violência extrema e sem que se fale muito sobre o assunto. Em Gaza, a última fase começou em 24 de junho, quando Israel raptou dois civis, um médico e seu irmão. Não sabemos seus nomes. Supõe-se que tenham sido levados a Israel e nada se sabe do que ocorreu com eles. No dia seguinte aconteceu algo sobre o que aí, sim, sabemos muito: militantes de Gaza, provavelmente da Jihad islâmica, seqüestraram um soldado israelense, o cabo Gilad Shalit. Isso é bem conhecido. O primeiro seqüestro, não. A isso se seguiu a escalada de ataques a Israel e a Gaza. A fase seguinte foi o seqüestro, pelo Hezbollah, de dois soldados israelenses, dizem que na fronteira. A razão oficial é que querem a libertação de prisioneiros liba-
Haitham Moussawi
da Redação
Arquivo Brasil de Fato
Israel raptou primeiro, afirma Noam Chomsky
Quem é
Eleito por uma pesquisa recente o principal intelectual vivo, Noam Chomsky é professor de lingüística e filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seu último livro, Estados falidos: o abuso de poder e o ataque à democracia, retoma seu assunto preferido: a crítica à postura dos Estados Unidos frente ao mundo. neses em Israel. Ninguém sabe quantos. Oficialmente, há três prisioneiros libaneses em Israel. Mas há algumas centenas de pessoas desaparecidas. A real razão do seqüestro, creio que nisso os analistas estão de acordo, é – vou ler do [jornal] Financial Times: “A magnitude do ataque e a data escolhida apontam que a intenção era, em parte, reduzir a pressão sobre os palestinos, forçando Israel a lutar simultaneamente em duas frentes”. Se trata de um ato irresponsável. Para os libaneses, pode dar lugar, sem dúvida, a muito terror e possivelmente a um desastre extremo. Pode dar algum resultado, na questão secundária da liberação dos prisioneiros ou na questão primária, de algum tipo de solidariedade com a população de Gaza – eu gostaria que assim fosse. Mas as possibilidades não me parecem boas. Juan Gonzalez – A imprensa comercial daqui [Estados Unidos], nos últimos dias, tem insistido em dizer que Irã e Síria estão por trás do ressurgimento dos combates no Líbano. Qual sua opinião sobre essas análises que parecem subestimar a importância do movimento de resistência que existe na região e tentam focar a questão no Irã? Chomsky – Não temos informação sobre isso e duvido muito que as pessoas que têm escrito essas coisas tenham. Duvido que o serviço de informação dos EUA tenha informação. É plausível. Quero dizer, indubitavelmente há conexões, provavelmente fortes
conexões entre Hezbollah, Síria e Irã. Mas se essas conexões contribuíram para motivar os últimos atos, não temos a mínima pista. É uma possibilidade, na verdade, uma probabilidade. Por outro lado, há todas as razões do mundo para acreditar que o Hezbollah tem suas próprias motivações. Goodman – Há também informações de que o Hezbollah poderia tentar enviar ao Irã os soldados israelenses seqüestrados. González – Israel diz que tem provas concretas de que isso é o que vai acontecer, por isso está bloqueando o mar e bombardeando o aeroporto. Chomsky – É o que afirmam. Mas repito que não temos provas. As informações de um Estado que está levando a cabo ataques militares, realmente, não têm muita credibilidade. Se têm provas, seria interessante vê-las. Se o Hezbollah decidir que não pode mais manter os prisioneiros no Líbano, devido à magnitude dos ataques de Israel, poderia querer enviá-los a outro lugar. Duvido que a Síria ou o Irã aceitariam isso, neste momento, ou mesmo se eles conseguiriam deslocá-los. Mas é possível que essa seja a intenção deles. Goodman – O que tem a dizer sobre as declarações do embaixador de Israel, Dan Gillerman, diante das Nações Unidas, de que a reação de Israel se justifica. Chomsky – Bem, ele tem razão ao dizer que foram lançados foguetes, e claro que isso deve cessar. Mas não mencionou, ao
menos não nessa fala, que os os foguetes foram lançados depois dos fortes ataques israelenses contra o Líbano – que mataram umas 60 pessoas e destruíram muito da infra-estrutura da cidade. Como sempre, as coisas têm precendentes, e há que se ver o que detonou tudo isso. Do meu ponto de vista, o que provocou essa situação foi a repressão intensa e constante, abundantes seqüestros, numerosas atrocidades em Gaza, a ação na Cisjordânia – que, se continuar, significará o assassinato de uma nação, o fim da Palestina –, o seqüestro, em 24 de junho, de dois civis em Gaza, e por último a reação ao seqüestro do cabo Shalit. Existe uma diferença, certamente, entre seqüestrar civis e seqüestrar soldados. A legislação humanitária internacional estabelece essa distinção. Se soldados são capturados, devem ser tratados de forma humanitária. Não se trata de um delito da ordem da captura de civis. Isso é um delito grave. Em Gaza se produzem ataques constantes. Gaza é uma enorme prisão, todo tempo submetida a ataques, sendo estrangulada economicamente, há ofensivas militares, assassinatos. Em comparação com isso, o seqüestro de um soldado não ocupa um lugar muito destacado na escala de atrocidades. Goodman – Os líderes do mundo industrializado estão em São Petersburgo, para a reunião do G8 [de 15 a 17 de julho]. Certamente esse assunto estará na pauta. Que papel desempenha os EUA nesse conflito? Chomsky – Creio que se assemelhará à resolução da ONU. O veto dos EUA é um padrão há décadas. Eles têm bloqueado, praticamente sozinhos, a possibilidade de um acordo diplomático. Quando Israel invadiu o Líbano em 1982, os EUA vetaram várias resoluções que pediam o fim dos combates, e aquela foi uma invasão espantosa. O mesmo ocorreu com todas as administrações. Os EUA consideram Israel praticamente como uma ramificação militar; os protegem de críticas e ações, apóiam passivamente e, de fato, abertamente, sua expansão, os ataques aos palestinos e a progressiva apropriação daquilo que permanece em território palestino. Atuam para tornar realidade um comentário feito por Moshe Dayan, no começo dos anos 1970, quando era o responsável pelos Territórios Ocupados. Ele disse a seus colegas de gabinete que devia ser dito aos palestinos que não há solução para eles, que viveriam como cachorros, e que quem tivesse que sair, ia sair. (Leia a íntegra desta entrevista na Agência Brasil de Fato, www.brasildefato.com.br)
8
CULTURA
De 10 a 16 de agosto de 2006
MOSTRA DE ARTE
Uma visão política da sexualidade Artistas de todo o país colocam sua arte a serviço do combate à discriminação Fotos: Divulgação
PROGRAMAÇÃO
Cristina Alvares Beskow de Campinas (SP)
3ª Mostra de Arte Lésbica
A
Centro de Convivência Cultural de Campinas 4 a 31 de agosto Todos os eventos são gratuitos
Exposição de artes plásticas “O poder do feminino na criação” 4 a 31 – galerias A, B e C do Centro de Convivência Cultural de Campinas. De terça a domingo, das 14h às 21h.
Exibição de filmes 11 de agosto, às 19h – Centro de Convivência Cultural Melhor que chocolate, dirigido por Anne Wheeler. Duas jovens lésbicas, Maggie e Kim, encontram-se em Vancouver, no Canadá, e desenvolvem um romance. Enquanto isso, Maggie tem que receber sua conservadora mãe, Lilá, que acaba de divorciar-se.
A 3ª Mostra de Arte Lésbica de Campinas exibe filmes longa-metragem, uma peça de teatro e exposição de artes visuais
serão entregues dois prêmios, o de melhor obra pela comissão avaliadora e outro escolhido pelo júri popular, em que o público da exposição poderá votar durante o evento. Além da exposição, a Mostra deste biênio conta com um diferencial em relação às duas anteriores: a primeira instalação artística da ONG Mo.Le.Ca, intitulada “Histórias MAU Contadas”. Em forma de um caracol feito de telas de alumínio, ocupando um espaço de 200 metros quadrados do Centro de Convivência Cultural, o público tem a oportunidade de se deparar com uma viagem na história de mulheres
vaso e a concha, assim como objetos que fazem referência à figura da mulher. Para Andréa Eduardo, integrante da Mo.Le.Ca, que concebeu o projeto, “essas mesmas mulheres fascinantes não têm em comum apenas suas lutas internas e externas em busca da felicidade e da realização pessoal, profissional ou amorosa, mas a peculiaridade em amar outras mulheres, em viver plenamente sua lesbianidade, sua bissexualidade”. O mês de agosto não foi eleito por acaso para apresentar a Mostra: este foi escolhido como o mês da visibilidade lésbica no 1º Seminário Na-
lésbicas e bissexuais no decorrer dos últimos séculos. Na instalação, são relembradas algumas personalidades históricas, como a pintora Frida Kahlo, a rainha Kristina da Suécia, Dolly Wilde – sobrinha de Oscar Wilde – e as atrizes Marlene Dietrich e Greta Garbo, além das brasileiras Paula Siqueira e Maria Peralta e a portuguesa Felipa de Souza, moradoras do Brasil no início do século 16 e condenadas pela igreja por serem lésbicas. Nesse “túnel do tempo”, além da referência às diferentes mulheres, o espaço apresenta peças representativas da vagina em diferentes períodos históricos, como o
cional de Lésbicas (Senale), ocorrido em 1996. Neste mês, se celebra a homossexualidade feminina e se aproveita para discutir com a sociedade temas relativos às mulheres homossexuais. Dessa forma, a 3ª Mostra de Arte Lésbica torna-se um projeto políticoartístico, “para as pessoas começarem a ver a lesbianidade como uma coisa natural, como parte da sexualidade humana”, segundo Maria Amélia Manarini. E acaba sendo mais uma forma de combate à discriminação e ao preconceito, a grande bandeira da parada gay deste ano, que teve como tema “homofobia é crime”.
Mo.Le.Ca: seis anos pela visibilidade lésbica O grupo Mo.Le.Ca (Movimento Lésbico de Campinas) surgiu há seis anos com a intenção de criar um espaço de discussão entre mulheres que já tiveram alguma experiência homossexual. No ano 2000, se tornou uma organização nãogovernamental e, desde então, promove atividades com o objetivo de incluir as mulheres homossexuais na sociedade, de forma igualitária. As principais bandeiras do grupo são fortalecer a auto-estima de mulheres lésbicas e bissexuais, combater o preconceito e a discriminação e pensar em atividades que dêem visibilidade à homossexualidade feminina. Além disso, reivindica políticas públicas na área da saúde, como treinamento de profissionais da saúde para melhor atendimento às mulheres lésbicas e bissexuais e suas especificidades e apóia as bandeiras históricas do movimento homossexual, como a união civil entre pessoas do mesmo sexo. O grupo realiza reuniões semanais na sede em Campinas, com apresentação de palestras e filmes, rodas de conversa, realização de cafés literários, “promovendo a ajuda mútua entre mulheres no resgate de suas auto-estimas e o fomento de um novo posicionamento frente à sociedade”, de acordo com a integrante Maria Amélia Manarini. Além disso, promove projetos artístico-culturais como a Mostra de Arte Lésbica e o curso de cidadania. Também promove e participa da Caminhada de Lésbicas e da Parada de Orgulho, em Campinas e em São Paulo. O Mo.Le.Ca atua em conjunto com outros grupos, na defesa e ampliação dos direitos sociais, civis e políticos das
Divulgação
arte se colocando para o público não apenas por suas características estéticas, mas também como um instrumento político – no caso, como forma de combate à discriminação. Esse é o propósito da 3ª Mostra de Arte Lésbica de Campinas, evento bienal que durante todo o mês de agosto exibirá uma programação gratuita, voltada a tornar visível a homossexualidade feminina e trazer à tona esse debate na sociedade. A mostra é uma iniciativa do grupo e organização não-governamental Mo.Le.Ca (Movimento Lésbico de Campinas). É a segunda vez que o evento acontece no principal espaço cultural de Campinas, o Centro de Convivência Cultural – uma vitória para o movimento lésbico da cidade, que conquistou privilegiado espaço para mostrar à população uma outra visão da sexualidade. Para Maria Amélia Manarini, integrante do Mo.Le.Ca e organizadora da Mostra, “acontecer pela segunda vez no coração da cidade é algo que sai do gueto e estimula a sociedade a entender que o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo é natural”. A Mostra traz quatro filmes longa-metragem, três dos quais serão exibidos pela primeira vez na cidade (Melhor que chocolate, Livrando a Cara e Imagine me & you), uma peça de teatro adaptada, As sereias da Rive Gauche, de Vange Leonel; e uma exposição de artes visuais, sob curadoria de Ismar Curi, intitulada “O poder do feminino na criação”, para a qual foram convidados artistas plásticos de Campinas e da região, além de artistas selecionados de vários Estados. Entre esculturas, pinturas e fotografias, o feminino se faz presente de maneira sensível, por meio de imagens que sugerem diferentes interpretações. Sem necessariamente tratar da lesbianidade de forma direta, as obras são uma mistura de representações sobre a mulher. Como na arte-objeto “Atrás do muro...”, da artista plástica Narege, pintura sobre um manequim que mostra uma menina vendo o que existe por trás de um muro. Essa obra integra a série “Casa da memória” e remete a algumas lembranças de infância da artista. Segundo ela, as obras fazem referência ao “desenvolvimento da mulher que, antes de tudo, não é lésbica, é uma mulher que tem uma vida, que tem sentimentos”. Na fotografia intitulada “Minha máscara e eu”, Mauro Machado expõe uma mulher tirando uma máscara, representando a revelação de uma outra identidade. De acordo com o fotógrafo, um dos grandes méritos dessa exposição é a divulgação da temática na sociedade, uma forma de “tornar a lesbianidade mais assimilada pela população”. No dia 31 de agosto, data de encerramento da Mostra,
16 de agosto, às 19h – Museu da Imagem e do Som (MIS) A incrível aventura de duas garotas in love, dirigido por Maria Maggenti. Uma comédia cheia de aventuras de duas garotas de diferentes classes socias que se apaixonam. 16 de agosto, às 19h – Museu da Imagem e do Som (MIS) Livrando a cara, dirigido por Alice Wu. Romance entre uma médica e uma bailarina dentro de uma tradicional comunidade chinesa. 24 de agosto, às 19h – Museu da Imagem e do Som (MIS) Imagine me & you, dirigido por Ol Parker. Comédia romântica em que Rachel casa-se com seu melhor amigo e namorado de anos, Hector. No entanto, percebe que está apaixonada por Luce, a florista de sua cerimônia de casamento. 25 de agosto, às 20h – Centro de Convivência Cultural de Campinas Adaptação da peça As sereias da Rive Gauche, de Vange Leonel. Direção e adaptação de Marcelo Rocco. 31 de agosto, às 20h – Encerramento da 3ª Mostra, com premiação dos artistas.
Endereços Centro de Convivência Cultural Praça Imprensa Fluminense s/nº, Cambuí, Campinas Fone: (19) 3232-4148 Sensibilidade feminina se faz presente em Sonho, de Patrícia Melo
lésbicas e bissexuais e participa de diversos fóruns e organizações homossexuais, como a Liga Brasileira de Lésbicas, além da participação em ações visando a elaboração de leis antidiscriminatórias municipais, estaduais e federais. Em 2005, o grupo, junto com outros grupos homossexuais, conquistou uma grande vitória na cidade de Campinas: a promulgação da lei municipal que institui o dia municipal de visibilidade lésbica, 29 de agosto. Para saber mais sobre o Mo.Le.Ca, veja www.moleca.org.br/conteudo/quemsomos.htm
Museu da Imagem e do Som (MIS) de Campinas Palácio dos Azulejos, Rua Regente Feijó, 859, Centro, Campinas Fone: (19) 3236-7851
Mais informações: Rua Costa Aguiar, 197, sobreloja, Centro, Campinas.