IIIII EDITORIAL Sou freqüentador do Bocada-Forte desde sua criação em 99. Antes, não havia muito o que procurar na internet sobre hiphop no Brasil. Contato feito, tempos depois passei a fazer parte da equipe, escrevendo, do Rio de Janeiro, matérias, entrevistas, resenhando discos e fazendo mixtapes. Tenho muito orgulho de dizer que o Bocada-Forte e sua equipe foram a minha primeira “família” em São Paulo. O tempo passa e já lá vão 10 anos de historia; agora começa uma nova fase com a revista impressa. Prova de um trabalho bem feito e reconhecido. Tive a honra de ser chamado para criar uma edição neste projeto, e pra mim, a honra ainda foi maior, pois a minha vontade foi a mesma de toda a equipe: uma homenagem a Alexandre Muzzilo Lopes, ou simplesmente DJ PR!MO. Primo foi, e ainda é minha maior inspiração como DJ, e tive o prazer de tê-lo não só como ídolo, mas como amigo. Apesar da distancia entre as cidades, sempre que nos encontrávamos era um fato histórico na minha vida. Exemplo de humildade, perseverança, raça e determinação. Correu atrás de seus objetivos e em muito pouco tempo, conquistou notoriedade por onde passou, seja no Brasil ou no exterior. Infelizmente, sua história nesse plano onde vivemos foi de curta duração. Cabe a nós passarmos às gerações futuras tudo que o nome DJ PR!MO significou. Um dos melhores dj’s do mundo: técnica perfeita, repertório intocável e uma simpatia que transbordava para todos que o conheciam. Nessa edição especial, tentei mostrar quem foi o Alexandre, contando sua trajetória desde quando era um “piá” em Curitiba. Com a ajuda de sua família (obrigado Dona Regina, você criou uma jóia rara nesse mundo) e de amigos de infância, traçamos sua historia desde os primeiros contatos com a música, quando viajava nos passos de Michael Jackson, até sua ida para São Paulo. E através de depoimentos de amigos você poderá conhecer um pouco do DJ, que foi PR!MO. Daniel Tamenpi
EXPEDIENTE A Revista Bocada Forte é uma publicação da Associação de Promoção Humana SERUMANO CNPJ 05.446.423/0001-53 Diretores André Cesário Fábio Pereira Textos Cristiane/Tamenpi FOTOS Arquivos Dj Primo Diagramação Luiz S. Anderson APOIO Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - SEPPIR 5.000 Exemplares, conforme convenio nº 700703/2008
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a história de PRIMO Alexandre Muzzilo Lopes era o nome dele. Mas todos o conheciam como Primo, DJ Primo. Filho de Dona Regina e Seu Ivan, irmão de Juliana, nascido em Curitiba, e com uma base musical vinda da própria família, recheada com muito samba, funk e soul. Desde criança, convivia em rodas de samba em festas de parentes, e até arriscava um repique e um pandeiro de vez em quando. Seu ídolo de infância? Michael Jackson. “O Alexandre sempre foi muito brincalhão, gostava de imitar os artistas, dançando. Amava o Michael Jackson. Imitava tudinho e era a sensação na família. (risos) ‘Billie Jeans’. Não podia ouvir que saia dançando”, lembra sua irmã, Juliana. Seu pai adorava mexer com caixas de som, cabos, montando e desmontando, e o filho sempre por perto, rodeando, observando, dando sinais que seu destino estaria por ali. Na escola ele conheceu o rap e o basquete. Apresentado por seus amigos, o interesse pelo “ritmo e poesia” foi crescendo gradativamente. Formou grupo com amigos onde fazia rimas. Mas a iniciação aconteceu numa loja no centro de Curitiba. A loja SPIN 94 era o ponto de encontro dos adoradores da cultura hip-hop. De dia funcionava como loja, com venda de roupas, discos e etc. De noite ela virava um estúdio de ensaio. Ali aconteciam os ensaios do grupo Black Out, um dos pioneiros do rap curitibano. Formado, inicialmente, pelo Jonathan (dono da SPIN 94), Bill e DJ KR, o grupo ensaiava três vezes por semana quando o expediente da loja acabava. Marlão, amigo dos integrantes do Black Out, estava sempre na loja e levava com ele um garoto franzino, calado e tímido, que ficava por lá até quando Marlão ia embora. Esse menino de roupas largas simples e boné que escondia o rosto foi tornando-se meio que um mascote da loja. Todos brincavam com ele. E como não sabiam seu nome, o chamavam de “o primo do Marlão”. E, de tanto o chamarem assim, acabou ficando somente “PRIMO”.
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Primo começou a ficar fascinado com os ensaios e, principalmente, com os toca-discos. Nessa mesma época, ele começou a trabalhar na SPIN 94. Quando KR não podia comparecer aos ensaios, colocavam o Primo para virar os instrumentais. Mesmo não sabendo e não tendo a técnica, ele ficava super feliz. Isso foi acontecendo cada vez com mais freqüência. A cada ensaio sua evolução era assustadora. Trazia novas propostas para as musicas, colagens e bases que ele mesmo editava em um toca-fitas. “Sim, ele tinha a manha de fazer loops com um deck de cassete incrível!”, conta Jonathan. “Seu crescimento era notável a ponto de eu ter de decidir colocá-lo no grupo, pois seu nível era bem superior ao dj atual. Que situação delicada trocar de dj sendo que os dois envolvidos eram meus amigos. Fiz uma reunião com o KR e expliquei o inexplicável: ele seria substituído pelo tal piá que há tempos atrás nem sabia pegar direito no vinil.”, complementa. Jonathan foi o principal incentivador nesse início de carreira. Com a saída do KR, os toca-discos foram-se embora também, já que pertencia ao exdj. Mas Jonathan apostou suas fichas no garoto Alexandre e, através de empréstimos de amigos e cachês de shows, conseguiu comprar um par de MKII. A partir daí foi só historia. “Primeiro show com o Primo como dj oficial do grupo foi na abertura do show do Thaide & Dj Hum em Curitiba, no dia 8 de março de 1997, foi foda !!! Ele tremia pela pouca experiência de palco, imagine, quase quatro mil pessoas. Ele errou já no inicio e uma galerinha ali no pé do palco não perdoou e, em coro, gritava ‘amador, amador, amador’. Fiquei mordido, afinal ele era meu orgulho, mas eu sabia que ele tinha uma carta na manga. No meio do show eu e Bill trocaríamos de figurino e era o momento do DJ PRIMO fazer uma performance de scratchs e colagens que deixou todos de boca aberta. Enfim, ele destruiu e ao final eu falei no microfone ‘é isso que este menino é? Amador? Imagine quando ele for profissional! (risos)’ . DJ Primo se tornou uma figura ativa no hip-hop curitibano. Mesmo com pouca idade, organizava festas memoráveis. “Peso Pesado” teve três edições, e em uma delas o Black Out foi o convidado. “Ele veio até nós e nos contratou. Eu achei muita atitude e moral de um piá do nada, vir e ter uma postura profissional que muitos adultos nunca tiveram.” Numa dessas festas, no bar Era Só O Que Faltava, Primo convidou os paulistanos DJ Nuts, Keffing, Negro Rico e Zé Gonzáles, que, impressionados com a técnica do garoto, retribuíram o convite e o levaram pra tocar em São Paulo. A partir daí a história do garoto franzino e tímido, começa a tomar o mundo. Em 2000, foi DJ da Drop Tour, com o time de skate da grife Drop Dead, e foi convidado pra abrir a final do Hip-Hop DJ, na época, o único campeonato dedicado a arte dos toca-discos no Brasil.
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Com diversas idas a SP, Primo foi impressionando a todos com sua técnica e simpatia. Em uma dessas ocasiões, na festa de aniversario do DJ Zé Gonzáles, um dos produtores do evento, Guigo, o viu tocar pela primeira vez e ficou chocado com a apresentação. Cismou de trazer o garoto para São Paulo. Foi a época de acontecimentos que mudaram a vida de Alexandre para sempre. A Red Bull Music Academy estava fazendo sua edição em São Paulo, e estavam por lá dj’s como Cut Chemist, Babu, J.Rocc e Madlib. Nuts e Zégon o convidaram para ir no evento e por lá ele ficou, impressionando a todos, dos gringos aos brasileiros. Exatamente nesta época, o produtor Guigo (veja entrevista), formou a Chocolate. Uma produtora/ agencia com um projeto inovador: os melhores dj’s do Brasil tocando a verdadeira musica Rap. A festa Chocolate estreou no club MOOD com os convidados gringos que estavam no país e com Zégon, Nuts, Dubstrong e Primo como residentes. Foi a primeira residência dele em São Paulo e de lá ele tomou a cidade, firmando-se de vez. Tocou ao lado de Afrika Bambataa, Lyrics Born, fez trabalhos com Mamelo Sound System, Otto e Max B.O. Em 2003, foi chamado pelo rapper Marcelo D2 (veja entrevista) para ser o dj oficial da turnê do disco “A Procura da Batida Perfeita” e fixou-se com o artista durante três anos seguidos, rodando o mundo. Durante esse período, porém, não parou de fazer trabalhos próprios, seja em palco, pista ou estúdio. Tocou ao lado de nomes de peso do rap alternativo internacional, como Hieroglyphics, Aesop Rock & Rob Sonic, e participou do projeto Brasilintime, sessão de improviso entre bateristas lendários (Wilson Das Neves, o nigeriano Tony Allen e Pupillo, da Nação Zumbi) e heróis do scratch (J-Rocc, Babu, do grupo Dilated Peoples).
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Outras paixões surgiram na vida de Alexandre. Uma delas foi a produção. Primo começou a produzir beats de muita qualidade. Produziu para Marcelo D2, MC Cindy, Helião & Negra Li, Kamau, Emicida, Subsolo, entre outros. A outra paixão foi sua mulher, Patrícia de Jesus, com quem conviveu até o fim de sua vida. Após a saída da banda de Marcelo D2, DJ Primo começou a trabalhar com Rappin’ Hood em shows e em seu programa na TV Cultura, o “Manos & Minas”. Também passou a ser figura ativa nas festas de break, tocando na Rockmaster Party e trabalhando com o Tsunami All-Stars, dos b.boys Pelézinho, Chaverinho, Kokada, Catatau, Aranha e Neguim. Primo produzia as trilhas pros campeonatos, ajudava nas coreografias e até na vestimenta da crew. Em 2008, uma conquista inimaginável, começou a dar palestras e aulas de DJ e scratch na Faculdade Anhembi no Morumbi, apresentando para os acadêmicos, o instrumento que é um toca-disco. Infelizmente pouco tempo depois sua história foi interrompida, mas jamais será esquecida. “Ele tinha uma pressa incrível. Eu dizia ‘calma filho, tem tempo, vamos fazer isso amanhã’. E quando chegava o amanhã ele já tinha feito. Hoje entendo sua pressa. Ela foi responsável por conquistas, por realizações, por reconhecimento, por respeito, por admiração. Pelo orgulho que sinto do meu filho. Com tudo isso, nunca deixou de ser humilde, de se lembrar de todos, de desejar sempre que todos estivessem bem. Sempre foi muito família, tinha muitos projetos, muitos sonhos. Quando paro para pensar em como ele se foi cedo, penso também que cedo ele começou a batalhar para que tudo acontecesse a tempo, e foi o que aconteceu.”, finaliza Dona Regina, mãe de Alexandre.
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Depoimentos Patrícia de Jesus A primeira vez que ouvi falar do PR!MO eu estava em NY, há pouco mais de 5 anos. Havia um burburinho enorme em SP sobre um moleque de Curitiba que tava indo pra SP e que tocava muito. Falava-se tanto disso que eu dei um jeito de ouvilo tocar logo que voltei pra cá. Que surpresa maravilhosa vê-lo tocar pela primeira vez... underground no sangue!!! O PR!MO tinha tanta técnica, que hipnotizava as pessoas... E foi exatamente o que aconteceu comigo, fiquei hipnotizada pela técnica, pela postura, pela sensibilidade musical e pela luz daquele menino... E depois que o conheci, essas qualidades só se confirmaram e se reforçaram. Como DJ, digo sem sombra de dúvida, que foi o melhor brasileiro que já vi tocar. Pra ele, música tinha cor... “nega, essa música é meio laranjinha... tá vendo?”. A música era a alma dele. O PR!MO levava tão a sério a profissão, que perdi as contas das vezes que eu acordava de madrugada, olhava pro lado e ele não tava. Aí, eu ia até o estúdio na ponta dos pés, abria a porta e ficava um tempão vendo ele treinar scratch, fazer um beat... e ele era tão concentrado que demorava a perceber minha presença ali. “vem dormir, Alexandre! “ “Não nega, preciso treinar...” Generoso demais, nunca se negou a passar pra frente o que sabia, nunca se negou a ajudar quem merecesse. Não tinha essa de vou tocar primeiro, vou tocar depois... qualquer hora era hora e ele arregaçava sempre!
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Conheceu, trocou idéias e tocou ao lado dos melhores djs do mundo... Acho que quando se é especial, acaba-se atraindo coisas especiais... DJ PR!MO era muito especial... Lembrar do que aconteceu no Redbull Academy, quando ele estava numa das salas fazendo scratch e o Cut Chemist (um dos djs que ele mais admirava) ia passando, não só parou pra ouvi-lo como “pediu” pra fazer scratch junto... Ou o que aconteceu em NY, quando ele estava numa loja de discos, minutos após conhecer o Nu-Mark, encontrou ninguém menos que “Grand Wizard Theodore” (inventor do scratch) e foi parar na escolinha que o cara tinha perto da loja, pra mostrar-lhe um pouco de suas habilidades... ou ainda quando foi pra LA e ficou gripado, de cama. Foi acordado pela dona da casa e uma amiga, que tinha feito um super chá pra ele melhorar. Nome da amiga: Erikah Badu!!! Sem falar da magia do BRASILINTIME, ou de como ele chorou e ficou deprimido quando teve que comprar o serato, porque achava que tava se desprendendo de suas raízes... ele realmente era muito especial. Pensando bem, seria difícil enumerar momentos emocionantes na carreira dele. Ele era tão dedicado, que qualquer festa era festa. Toda vez que saía pra tocar, cumpria o mesmo ritual: treino e concentração. E quando tudo saía do jeito que ele queria, ele se emocionava feito criança. Do ALEXANDRE, posso dizer que misturava a alegria de um menino, com a postura e responsabilidade de um homem. A vida não era nada complicada, tudo se resolvia ou se deixava pra lá, sem maiores ressentimentos. Adorava um samba, uma cervejinha e dançar break na sala de casa! Era um perfeito cavalheiro, cozinhava, ajudava a arrumar a casa. Tinha um guarda-roupa impecável e um bom gosto ainda maior, mas sempre demorava muito pra se arrumar... Saudades... Tenho muitas coisas pra dizer sobre ele, mas ainda é muito difícil... dói demais e não passa. O bom, é que são sempre lembranças de coisas boas. Até dos momentos mais difíceis de nossas vidas, ficou uma lembrança positiva e uma lição: quando duas pessoas se amam e se respeitam de verdade, são capazes de chegar a qualquer lugar juntas. A gente era uma equipe, um time muito bem treinado que não perdia nem no par ou ímpar. Nos chamávamos de “sócios da vida”... Saudades... Um dia, comprei um livro pra ele e escrevi a seguinte dedicatória: “DJ... Inspiração é a palavra que melhor ilustra a consequência de estarmos juntos e felizes. Que esse livro de alguma forma te sirva de estímulo ao pensamento, a sua atividade criadora, que te traga idéias, ou prenda um pouquinho sua atenção... A inspiração faz com que você não se acomode, queira sempre inovar, melhorar. Instiga desafios, novas metas. E isso diferencia o padrão do TALENTO, o normal do EXCEPCIONAL, o amador do PROFISSIONAL. Então, que você continue sendo esse profissional excepcionalmente talentoso: DJ PRIMO (o céu é o limite)” É isso... O CEU É O LIMITE!!!
“quando duas pessoas se amam e se respeitam de verdade, são capazes de chegar a qualquer lugar juntas...”
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DJ Dubstrong DJ Primo foi sem duvida um dos maiores DJs a aparecerem no Brasil e no mundo, uma verdadeira ‘safra rara’ que aparece apenas de tempos em tempos e que faz muita falta nos dias de hoje, onde tudo é nivelado por baixo. DJ Primo chegou pra elevar o nível da arte e foi um dos companheiros de trabalho mais exigentes e coerentes que eu já tive a oportunidade de tocar junto, foram 7 anos de convivência, muitas risadas, festas, viagens e aprendizado. Primo, algumas coisas nessa vida simplesmente não tem explicação, você foi embora cedo demais, mas o seu legado permanecerá para sempre, sua estrela brilha eternamente e você será sempre lembrado por tudo o que fez e representou, cedo ou tarde nos encontraremos ai em cima pra fazer de novo aquele back to back. One Luv... Do seu amigo, Pedrinho (DJ Dubstrong)
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Entrevista: Guigo Chocolate Bocada Forte: Você foi um dos grandes responsáveis pela vinda do DJ Primo para São Paulo. Conte pra nós como isso aconteceu? Como você o conheceu? E qual impressão ele te passou de primeira? Guigo: Bom... por muito tempo eu ouvia os DJs Zegon e Nuts falarem sobre um DJ de Curitiba que era bem foda, e eles me falavam em dar uma oportunidade para ele, mas naquela época eu trabalhava com mais duas pessoas e todos precisavam concordar com a decisão... Eles não se cansavam em repetir, e a esta altura eu já estava louco para conhecer este DJ... Mas quando chegou o aniversário do DJ Zegon, achamos a ocasião certa para ter o Primo tocando pela primeira vez em nossa festa, pois os outros dois não iriam negar um pedido de aniversário... Ele não teve um ótimo horário para tocar, mas com o pouco tempo que teve mostrou que tinha qualidade para ser residente de qualquer festa de SP, e no final da festa bateu a sintonia... Eu passava pela pista que ele tocava, o club que acontecia a festa na época tinha duas pistas, e ouvi uma musica do Quanum Spectrum que eu pirava, mas que ninguém tocava, e quando corri pra ver quem estava tocando aquela musica, dei de cara com o Primo, e fiz questão de comentar o quanto curtia aquele som, e aí tudo começou. Alguns meses depois, eu e o DJ Zegon estávamos conversando para montar o projeto Chocolate e decidimos que o Primo seria um dos residentes da festa, pois ele tinha algo diferente, que era exatamente o que procurávamos, além do bom gosto, técnica e a sintonia que fazia parecer que ele sempre esteve ali, vendo o que fazíamos, aguardando o momento certo para mostrar a sua cara. A Chocolate, inicialmente, era um projeto de Hip Hop Underground, feito pra chocar e chacoalhar o mercado, e para isso precisávamos montar um time de responsa,
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pois seríamos julgados por todos, pois estávamos indo contra tudo e todos, para montar o que hoje é um dos maiores, se não o maior, selo de festas Hip Hop do Brasil... Com isso o DJ Primo começou sua primeira residência em SP, garantindo sua estadia na babilônia e ajudando ele a mostrar todo seu talento... De SP ele ganhou o mundo, e sou feliz por ter feito parte disso, pois eu só abri uma porta, dali em diante foi com o talento e persistência dele, pois ele sabia onde iria chegar... Inicialmente a festa acontecia no Mood Club, com os DJs Primo, Zegon, Nuts e Dubstrong... Depois de um tempo o DJ Nuts saiu... E mais na frente o DJ King viria substituir o DJ Zegon, que partia para L.A para iniciar seu projeto NASA... E quando o DJ Zegon voltou, formamos o “Quarteto Fantástico”... A melhor equipe de DJs com que trabalhei em 13 anos de noite em SP... DJs Primo, King, Zegon e Dubstrong... Trabalhei com o Primo por 6 anos todas as terças... Algumas quintas, sábados, sextas... Em SP, POA, Floripa, Maresias e Caxias do Sul. BF: Fale um pouco do DJ Primo como DJ, e do Alexandre como pessoa? G : Eu sou suspeito para falar sobre ele, seja como DJ, ou como pessoa... Pois sempre fui seu fã e “irmão”... E às vezes, pela responsabilidade que eu sentia em manter uma boa estrutura para ele em SP, ele era como meu filho... O DJ Primo foi um dos melhores DJs que eu vi tocar na minha vida, e eu já vi vários que são ditos como os maiores do mundo, como J-Rocc, Cut Chemist, Nu-Mark, Roc Raida, Shadow, Craze, Q-Bert, entre outros. O DJ Primo era completo... Mixava como poucos, cortava como poucos, seus scratches ficaram famosos no mundo todo e imortalizados no Brazilintime, e seu estilo nos toca-discos era único... Por mais que alguém tentasse ou tente copiá-lo isso será impossível! Seus sets sempre eram diferentes um do outro, cada dia uma novida-
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de... E o melhor, sempre diferente de qualquer outro DJ. Perfeccionista ao extremo, sempre cobrou de si mesmo mais do que qualquer outra pessoa poderia imaginar em cobrar... DJ confiante, que sabia do que era capaz... Eu vou citar um bom exemplo disso... Nos dias de SERATO quase todos os DJs tem as mesmas musicas, pois quase todas estão disponíveis na internet, mas muitos DJs insistem em manter certas musicas como seu “ouro sagrado” e não passam para ninguém, mas o DJ Primo dizia o seguinte sobre isso: “Eu passo a musica mesmo, quero ver ele tocar esta musica da mesma forma que eu toco !!!”. O Primo tinha uma dedicação absurda, e um bom exemplo disso é um fato ocorrido quando fazíamos uma festa que se chamava Chocolate Beats, no extinto PIX... Eu, como sempre fazia, chegava cedo, antes do club abrir, e o Primo, DJ residente deste projeto, ia comigo... Na primeira edição chegamos uma hora antes do club abrir, e enquanto eu organizava tudo, o DJ Primo estava sentado num banco com o seu mixer no colo, e já fazendo seu aquecimento dedilhando o crossfader de seu mixer... Depois de alguns minutos ali, ele pergunta: “será que eu posso ir ligando meu mixer ?”... E lá foi ele, ligar o mixer e começar seu aquecimento... Ele ficou por uns 50 minutos fazendo scratch usando apenas seu fone de ouvidos, com o som todo desligado, até o dono do club, André Juliani, perguntar... “Ta tudo bem ali com ele ? Será que eu ligo o som ? O cara tá a quase uma hora fazendo scratch só no fone de ouvido...” O DJ Primo treinava todos os dias... Pelo menos umas seis horas por dia... Tem uma frase de um atleta famoso das antigas, conhecido como Pre, um dos maiores corredores de todos os tempos, que dizia o seguinte... “Se não for para você dar o melhor de si, é perda de tempo !!!”... Acho que o Primo era como ele, e esta frase resume em poucas palavras quem era o DJ Primo.
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O Alexandre era um menino simples, que gostava que as coisas fossem feitas sempre da melhor maneira, e o mais importante, da maneira correta... Menino de valores simples, que são esquecidos hoje em dia, como respeito, dignidade, amor ao próximo, e muita paciência... Menino que soube lidar com o sucesso repentino, pois veio muito mais rápido do que podíamos imaginar, de maneira grandiosa, sem nunca esquecer quem ele era e nem de onde veio... Menino que adorava comer uma boa comida acompanhada de um bom vinho, mas que comia o Hot Dog com refrigerante na saída da festa com o mesmo prazer !!! O Alexandre vivia o momento, com muita alegria, segurança e calma... Costumava brincar com ele dizendo que ele era um ET... Que nós somos homo sapiens, e ele era da espécie Primus tranquilus... O Alexandre sempre foi um grande homem, um grande amigo, um grande marido e um grande filho... Pena que o tempo não deixou que ele fosse um grande pai... A companhia do Alexandre era diversão garantida !!! BF: Você presenciou sets do Primo ao lado de Dj’s de ponta, como Roc Raida, Cut Chemist, J.Rocc, entre outros. O que os gringos achavam do trabalho do Primo? E o que você pode nos dizer, na sua opinião, em relação ao set do Primo e os sets dos gringos. Qual era a diferença? G : O que eu posso dizer sobre isso é que todos os DJs que vieram de qualquer parte do mundo e que viram o Primo tocar ficaram fãs dele... Hoje em dia em qualquer área profissional a carência maior esta na criação, e não por que a criatividade está em baixa, mas por que as pessoas não são mais criativas... As pessoas sabem copiar muito bem e não sabem mais a diferença entre você ter referências e influências, de copiar literalmente... O DJ Primo foi influenciado por vários artistas, como os DJs Q-Bert, D-Styles, Melo-D, Revolution, J-Rocc, Cut Chemist, Z-Trip... Mas ele criou seu próprio estilo, um estilo agressivo, extremamente técnico, que não permitia um segundo
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de descanso durante seus sets... DJ de encher os olhos e ouvidos de quem podia acompanhar de perto o seu trabalho!!! A diferença entre o Primo e os gringos muitas vezes chegava a ser ridícula... Cansei de ver ele colocar grandes nomes mundiais no “bolso”... Mas a grande diferença dele para os outros era a sua vontade de tocar, sempre!!! Seu apetite assustava certos DJs, que às vezes não conseguiam entender de onde vinha tanta vontade... A vontade de melhorar sempre... E quando uma pessoa chega no topo, alguns acham que de lá não tem mais para onde subir, mas quem faz a trilha sempre sabe por onde continuar, e quem segue precisa esperar uma nova trilha se abrir... E o Primo sabia exatamente para onde ir. O Primo conquistou o respeito de todos por onde passou, com sua humildade, competência e alegria. O DJ Primo é um DJ que faz e fará falta, pois ele era um gênio, sem exagero, e vai demorar muito para termos no Brasil outro DJ do mesmo calibre, se é que vamos ter um dia. A historia do Primo é uma lição de vida, de um garoto humilde, que saiu de sua cidade natal atrás de seu sonho, deixando sua família, namorada e conforto da casa dos pais, um sonho a ser conquistado em uma das maiores cidades do mundo, sem garantia de nada, de nada mesmo, acreditando em seu potencial e destino, acreditando o tempo todo que era capaz, capaz de conquistar e de manter, capaz de mudar coisas, capaz de ser quem ele realmente queria ser, capaz de ser feliz em uma cidade onde todos querem apenas ganhar cada vez mais dinheiro, capaz de ser verdadeiro consigo e com tudo ao seu redor, capaz de ser homem, de manter a sua dignidade acima de tudo, capaz de ser o DJ Primo e o Alexandre ao mesmo tempo !!!
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Depoimentos Kamau Tenho um respeito enorme por todos os DJs. Sempre fui admirador dessa arte e de quem a exerce com maestria. Poucos tinham o dom que PR!MO tinha nas mãos. A mais simples mixagem se tornava uma apresentação que atraía pessoas dos mais diversos lugares. Eu ficava muito feliz em vê-lo tocando nos mais diversos lugares ou até saber que ele estava tocando onde queria e como queria. Mas trabalhar lado a lado com ele sempre foi um sonho compartilhado pelos dois e agarramos a oportunidade assim que ela apareceu. E cada minuto dessa parceria definiu meu trabalho como é hoje e faz parte dos melhores momentos da minha vida. Meu irmão, meu amigo, meu parceiro, meu sócio, meu DJ... PR!MO
MC Marechal Pessoalmente falar do Primo é bem simples. Ele sempre fez parte de um grupo de pessoas com quem eu me comunico sem muitas palavras. É o sentimento de ter o hip hop vivo dentro de nós mesmo, isso transparece. Essa energia está e sempre estará presente. Os verdadeiros reconhecem os verdadeiros. De coração. Muito respeito e luz. Um só caminho...
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Entrevista: Marcelo d2 Como você conheceu o Primo? Quais foram os primeiros contatos? Então.. o Zé e o Nuts já falavam bastante dele pra mim. Diziam que tinha um dj de Curitiba que era sinistraço. Aí quando fui tocar lá, conheci ele pessoalmente. Trocamos varias idéias. Sempre que ia fazer show em Curitiba, ele ia. Mas não conhecia ele discotecando. Aí teve uma época, acho que 2003, que eu fiquei fazendo umas festas numa boate em Goiânia. Eu tocava, e convidava uns dj’s pra tocar tb. Levei mó galera, dj’s do Rio e de São Paulo. Um dia o cara da boate me ligou pra marcar uma data, e eu já tinha levado todo mundo. Num me vinha mais ninguém em mente. Aí lembrei do Primo. Liguei pra ele e fomos. Foi foda! Ali eu vi que o cara realmente era tudo o que falavam. E na época, eu tinha acabado de gravar o “A Procura....” e tava procurando um dj. Foi coisa do destino. Porque ele também tava em um momento muito empenhado. Tinha acabado de se mudar pra SP e tava no gás total. Eu também estava morando em SP, e morávamos por coincidência um do lado do outro. Então vivemos muito tempo juntos, ou na casa dele, ou na minha. Ensaiando, montando o show. Ele realmente tinha um dom. O cara conhecia um scratch novo, e em um dia de treino, ele já fazia igual. Tinha muita vontade. Aprendi muito com ele e vice versa. Vocês viajaram muito pra gringa. Como você via a receptividade do publico em relação a ele? Foram vários episódios. Nego passava mal com ele. Na Europa, então! Sempre que acabavam os shows, ele ficava tocando. Naquele estilo dele. Os gringos, novatos futuros dj’s, não levavam fé. Lembro de uma vez na gringa, acho que na França, que o show acabou, ele ficou tocando, e tava em um dia muito inspirado. Mas tocando muito mesmo. Acho que foi a vez que a galera da banda realmente começou a pagar pau pro cara. De falar “Pô, esse maluco realmente é dos melhores que tem!”
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E como eram o dj’s gringos em relação a ele? Cara, o Primo não devia nada pra nenhum deles. É aquilo né, esses caras: J.Rocc, Cut Chemist, Babu nasceram com a parada no sangue. Eles realmente viveram o hip-hop. Desde a infância. Todos os booms que tiveram. Então é diferente. É igual gringo com samba. Aquilo ali é deles. Mas eu vi todos esses que citei, literalmente passando mal com o Primo no Red Bull Music Academy. E, na minha opinião, ele era tão bom, ou até melhor que geral. Acho que o único que eu achava mais foda que ele é o Mix Master Mike (Beastie Boys). Ele produziu uns beats pro disco “Meu Samba É Assim”. Você acha que ele teria o mesmo sucesso com produção? Acho. Ele tinha muito talento pra esse lado também. Era algo novo, e ele já fazia muito bem feito. Apresentava vários discos pra ele. De samba, bossa nova, musica brasileira, né. E ele absorvia muito bem. Lembro de um beat que a gente fez no ônibus, na gringa. Ele juntou todo mundo, pegamos os instrumentos, gravamos peça por peça e ele foi montando. Tudo dentro do ônibus. Depois incluímos uma ou outra coisa no estúdio. Ele teria muito futuro nessa área também.
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Rodrigo Brandão Tive o prazer de desfrutar da amizade, assim como a honra de dividir palco e estúdio com esse que é, desde já, um dos mais talentosos artistas da história do hip hop em específico (assim como da cultura dj, independente do estilo que toca), mas mais ainda: da música brasileira em geral. Na noite seguinte à partida dele, depois de ver todos os momentos em que estivemos juntos loopando na minha mente sem parar, escrevi a rima abaixo, mais por desabafo do que inspiração. Acho que sintetiza bem a história dele comigo e o Mamelo - já que ele participou de dois discos e vários shows do grupo, desde 2002, e sempre falávamos sobre fazermos outras colaborações no futuro. Dizia assim... Hoje escrevo pois exprimo a perda de quem muito estimo Nesse verso rimo seu vulgo, Dj Primo, Mas sei q ‘cê é meu irmão, mesmo sem conexão De sangue entre as famílias Lopes e Brandão. A apresentação oficial foi no final De 2-0-0-1, no Paraná (capital) E menos de um ano depois, a batata Já assou no primeiro show com Bambaataa Tua estrela nata te levou pra tantos cantos... Nunca vou esquecer da vez do Aesop Rock em Santos! Ou com Nutz na Pompéia, mais Pupillo, prestando aquela Homenagem bela (q comoveu até o truta do Fela), De scratch e bateria, dedicada ao Dilla Jamais imaginaria q tu tava na fila Pra fortalecer a firma no Firmamento Se pá, tá com o Sabota nesse exato momento Muzillo é um amigo q carrego comigo Seja céu aberto, tempestade ou abrigo Pra qualquer lugar onde for colar Se ouvir falar q vai tá o Rodrigo Brandão, então podicrê q vou levar Sua memória e não ligo se maluco me tirar De otário ou antigo: aqui segue meu grito De saudades - do Ano Oito até o infinito.
“Tive o prazer de desfrutar da amizade, assim como a honra de dividir palco e estúdio com esse que é, desde já, um dos mais talentosos artistas da história do hip hop...”
Depoimentos
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Entrevista: dj primo Por: Zeca MCA Rádio Boomshot: Você tá em SP ha quanto tempo? Dj Primo: Desde 2002. RB: Naquela época tinha muito mais festas, teve o boom das festas black. Como você tá vendo a parada hoje em dia? Tá mais fácil, tá mais difícil. Como é? Dj Primo: Eu sentia que antes era tudo um pouco mais livre. Eu vim pra cá e comecei em uma festa na Mood, da Chocolate e eu tocava o som que eu gostava, independente de fazer pista dançar ou não. Ia e tocava e a festa funcionava dessa maneira. Hoje acho que tem muito mais gente consumindo rap. Por um lado tá legal pois tem muito mais festas, mas a pista tá pedindo outro som que às vezes não é bem meu estilo de música, mas dentro do meu estilo, eu consigo chegar em um meio termo entre eu e quem está na pista. Ao mesmo tempo, que tá difícil por esse lado da musica, tá bom pois tem bastante trabalho. Do mesmo jeito que aumentou o numero de djs, aumentou o numero de festas. RB: E essas tecnologias como o Serato. Facilitou pra você? Dj Primo: Eu comprei o Serato quando comecei a mexer muito com discos brasileiros antigos, que a qualidade não é tão boa pra tocar, e dependendo do lugar que você vá tocar, não dá pra tocar certos disco por causa da qualidade de som. Pra mim, o Serato me ajudou nisso. Hoje em dia é mais pela facilidade também de não precisar levar um monte de case e ter muito mais musicas. Posso tocar o que eu quiser em qualquer festa. Eu vou estar com meu quarto inteiro ali dentro do meu computador.
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RB: Você ta fazendo varias produções tb. O que é mais prazeroso pra você? Estar discotecando ou estar produzindo? Dj Primo: Os dois, né? A sensação é quase a mesma. Às vezes eu tô no centro, num sebo ouvindo um disco, e eu acho uma musica que eu possa trabalhar em cima e fazer um beat. Eu vou pra casa e começo a trabalhar, do mesmo jeito que vou entrar numa festa e começo a tocar. É a mesma coisa, o prazer é o mesmo. RB: Quando tocava com o D2, você viajou bastante, fez muitos shows. Como foi de aprendizado? De estar tocando com um artista, fazendo shows e não em festas? Dj Primo: A experiência que eu carrego comigo, é a experiência de ser um dj comandando uma banda independente do artista. Como era ele, sempre me deu liberdade pra comandar o show. A princípio o show do D2 é um show de rap com samba. O show de rap é o dj que tá ali fazendo scratch, tocando o instrumental, só que também tinha uma banda de samba junto, então tudo que eu fazia, tinha que pensar como eu ia transmitir pros outros músicos pra fazer a parada funcionar junto. E não dá pra todo mundo sair tocando o que quer. Tem que ter alguém pra dar uma direção, e eu fazia isso no show. Desde a hora de fazer o setlist até a hora de subir no palco e olhar pros músicos, dar o sinal pra eles pararem, pra começar a tocar. Isso foi a parada mais louca pra mim. E além de fazer tudo isso, ser um dos únicos a comandar um show desse tipo usando 4 toca-discos, 1 MPC e sendo meio que um maestro ao mesmo tempo. Tendo somente dois braços. (risos) Funcionava tudo ao mesmo tempo. Eram dois toca-discos com o instrumental tocando, virava de um instrumental pro outro, tinha os outros dois q eu fazia scratch, fazia as frases e tinha o sample que às vezes eu disparava alguma coisa, ou às vezes eu tocava a MPC junto com o baterista pra dar uma outra textura ao som.
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RB: Você viajou bastante pra fora do Brasil. Queria que falasse um pouco do Brasilin’time. Como é visto isso lá fora. Como o povo de fora vê esse lance da musica brasileira no rap, do rap brasileiro. Eles têm noção do que esta acontecendo com o rap aqui? Dj Primo: Não sei se eles têm noção do que é o rap aqui. Eles têm noção da musica brasileira, eles têm noção até do que a gente não tem noção, né. Falando de musicalidade brasileira, principalmente antiga. Não posso te dizer exatamente como eles estão vendo isso lá, mas eles estão vendo djs e bateristas e outros músicos fazendo a musica brasileira que eles gostam, sabe. Fazendo isso agora. É uma parada que na real não sei como explicar. RB: E como foi a repercussão da homenagem ao Dilla. Saiu em diversos meios de comunicação gringos. Como foi isso pra você? O que era o Dilla pra você? Dj Primo: Eu comecei a entender mais do Dilla a partir do momento que comecei a fazer meus beats na MPC. Eu fazia e escutava muita musica de vários produtores e a dele pra mim era um outro tipo de musica, sabe, é um outro tipo de batida de rap. Quando comecei a produzir, comecei a entender um pouquinho, tipo “po, o jeito que esse cara faz não é normal” tanto do tipo de som que ele usa pra construir a musica dele, e uma pesquisa muito cabulosa. E a parada do Dilla, da homenagem, surgiu logo que ele faleceu. Teve o Brasilintime aqui no SESC e a formação original do BT não tinha a minha participação, nem o Pupilo. E dai o Brian (B+) que é o idealizador da parada me convidou junto com o Pupilo pra participar da segunda edição que ia ter no Brasil. E ele falou “vê o que vocês querem
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fazer, tá livre”. Porque o BT é livre, ninguém ensaia nada, todo mundo chega lá e sai tocando. Ai teve umas duas noites antes de acontecer o show, eu tava na casa do Nuts e a gente tava ouvindo uns discos e pensando no que a gente poderia fazer junto, aí ouvimos o Stan Getz e tivemos a idéia. Fazer alguma coisa com a original do “Runnin’”. E ao mesmo tempo em que veio a idéia de fazer a musica com o “Runnin’”, que era do Dilla, e ele tinha acabado de morrer, além de ter sido uma musica que marcou época no mundo inteiro. Todos os lugares que eu viajei pra tocar, e toquei “Runnin’” ela foi recebida sempre da mesma forma, todo mundo grita e dança e canta, igual é aqui nas festas. RB: E esse lance dos gringos estarem descobrindo a musica brasileira, de virem nos sebos e pegar tudo, você não acha que os discos aqui estão acabando? Dj Primo: Tem disco que não se acha mais. Depois do começo dessa era digital e agora com Serato, disco é uma parada que se você tem é porque coleciona, porque pagou caro e não é apenas um disco. Nisso, a era digital ajudou, a valorizar o vinil preto, rs. São certos colecionadores que tem os discos. Tem cara que compra 5, 6 discos iguais, tem disco que não saiu tantas cópias, discos que saem 500, 200 cópias. Tem disco que saiu somente 100 copias na época. E 100 discos em uma cidade some rapidinho e quando você acha é caro, e os caras já tão pesquisando e comprando disco ha muito tempo. A gente acha que é de agora, mas tem japonês que tá ai há muito tempo com um livro com todos os discos brasileiros raros. RB: O Ed Motta conta uma historia que ele foi pro Japão e entrou numa loja só de vinil de musica brasileira, e não conhecia 80% do que tinha lá. Dj Primo: Rola. Eu olhei esse livro. Na mão de um japonês, ele virava a pagina pra mim (rs), tipo “você não vai pegar nesse livro” rs. É um catalogo, que eu sei que tem dois volumes, não sei se já tem um terceiro. Mas tem muita musica e a ficha técnica de todos os discos. É muita informação, dá pra ver que levou um tempo pra fazer aquilo.
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Então há muito tempo tem alguém aqui vendo disco, comprando, escutando, vendo o que é legal e agora com certeza vai acabar isso, vai chegar uma hora que você não vai mais encontrar disco, vai ter q esperar uma geração morrer pra saber o que vão fazer com os discos da pessoa. RB: O que você tem ouvido de musica. Quando não esta tocando? Dj Primo: Tenho comprado muito disco de batucada mesmo, só com instrumentistas de percussão, é o que tenho ouvido, disco de macumba, disco de samba só com percussão, é o que eu tenho escutado muito. RB: O que é um set perfeito na sua opinião? Dj Primo: Um set que eu sairia satisfeito, seria começar tocando rap e terminar tocando rock. No meio disso tocar um pouco de samba, samba-rock e macumba, toda minha pesquisa musical. Isso pra mim é um set perfeito. Isso só aconteceu umas três vezes. Eu consegui tocar todos os estilos de musica que eu gosto.
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Depoimentos Dj Nuts Primeiro, encontrei Primo numa dessas idas para Curitiba em 99 na apresentação do meu grupo com o Napoli. o Nitro. Nosso show seria no Bar 66, era um campeonato de b-boys. Na passagem de som eu estava praticando scratch e chegou o Primo, perguntando como é que eu fazia meu flare. Eu olhei para ele chapadão e fiz assim com a mão e falei “ tipo assim caraaa...” Momento engraçado, mal eu poderia esperar que ele me superaria com sua técnica de scratch em pouco tempo. Com a sua vinda para São Paulo começamos a praticar com quatro toca discos e montar rotinas de equipe no projeto que chamava “Tupinikings”, brincadeira que durou até o tempo em que ele entrou para turnê do D2. Passamos a se ver menos até o fim desse periodo, daí então, sendo residente em varias festas e se destacando nas pistas aqui em Sampa, em clubs como o Mood, aonde sempre iamos embora juntos no fim de noite para comer, conversar, dar risada sei lá, nunca para fazer nada de errado tipo vadiagem, e foi até numa sexta feira dessa; a ultima vez que nos encontramos nesse plano. Quero lembrar que é importante celebrar e amar as pessoas em vida e não só depois de sua passagem, e o que fica é o ensinamento da pessoa que vai. Sempre vi nele um espelho pelo seu perfil e acredito que isso vai valer para outras gerações de DJs que querem ser profissionais, e tocar a vida com o som. Agradeço a Deus por ter tido Primo ao lado em momentos inesquecíveis, altos rolês, com muito som, desafios e conquistas, sem grilo. Será lembrado em alegria em todos lugares que passou aqui e lá fora como um melhores DJs que todo mundo viu. Do seu brother Águia ...para a Família e Patrícia.
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Dj King Falar do ‘Primo’ é Simples... Como amigo... Pra mim ele era o cara mais espiritualizado e puro (verdadeiro), que tive o prazer de conviver durante alguns anos. Brincalhão, Homem com jeito de Moleque, parceiro, sem jogo. Amigo de Verdade... Como profissional... Muito complexo!!! Ele era notável pela sua determinação e dedicação como DJ... Sempre concentrado no Estilo único de tocar, não tem como explicar... Com certeza um exemplo de integridade como pessoa e artista, renovação no cenário Hip Hop. O Alexandre deixou pro mundo... além de muita saudade, positividade no coração de todos a sua volta... (Festa no Céu com DJ PRIMO!!!) Salve!!!
Pedro Gomes Não esqueço aquela madrugada, aquela mensagem fria, mas também não esqueço das vezes que tocou na Rinha dos mcs, quando deu o dedo do meio para um cara no meio de seu set em Joinville. Gostaria que todos pudessem ter ouvidos suas historias, suas piadas, ter visto suas danças performáticas. Um belo dia em um grande evento que tinha como convidados DJs gringos, entre eles o Cut Chemist, uma pessoa boicotou o Pr!mo (que era participante do evento) de se apresentar com os outros DJs (como todos os participantes fizeram), ele nada fez, preferiu ir a uma sala tocar sozinho e, ali ficou por horas como sempre curtiu fazer – tocar sozinho. Passando pelo corredor o grande DJ norte-americano Cut Chemist ouviu os “riscos” do Alexandre, voltou, pediu permissão para se achegar e por ali ficaram os dois por horas tocando juntos. Essa é apenas uma das muitas historias de superação de meu amigo. Gostaria de poder contar mais, como foi sua vinda a São Paulo para comprar seu mixer, como foi sua chegada definitiva a cidade, como ele superou o fato de ter sido deixado na Italia “com uma mão na frente e outra atrás” após falsos amigos terem virado as costas para ele, e por ai vai. Mas, o importante é que todos saibam que o Alexandre realizou seus sonhos, traçou suas metas e alcançou seus objetivos, foi bem sucedido na vida e foi definitivamente o melhor no que fez. De seu amigo Pedro Gomes
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DJ Pogo (UK) Logo que eu comecei a vir pro Brasil todo mundo sempre me falava sobre o DJ Primo. Foi um dos melhores DJs aqui. Eu não o vi tocar por algum tempo já que voltava sempre para a Inglaterra. A primeira vez que o vi tocar foi com J. Rocc e o Rasta Qtip em São Paulo e depois de ver muitos DJs tocando dava pra ver que ele tinha algo especial. Ele tinha um estilo próprio, dava pra saber quando ele estava tocando pelo estilo dele. É assim que se separam os bons DJs dos excelentes DJs. (sem desrespeito aos bons DJs que existem por aí) Ele era uma ótima pessoa. Eu saia bastante com ele. A gente trocava muitas idéias e muita música. Ele me ensinou muito sobre o hip-hop brasileiro e música. Sempre que eu estava no Brasil eu procurava ele primeiro porque tínhamos uma ligação muito boa e nos demos muito bem fora da música. A gente fazia compras juntos, saia pra jantar ou simplesmente ficávamos de bobeira. Era mais que música. Ele foi uma das razões principais de eu ter me mudado para o Brasil. A gente planejava fazer várias coisas juntos. Eu o via como um irmão mais novo. Todos os meus amigos amavam esse cara. Ele nunca teve uma má palavra para dizer sobre ninguém e simplesmente amava a vida e amava a música dele. Eu não acho que irão perceber o tamanho da perda que ele foi para o hip-hop por alguns anos. Ele estava apenas começando a mexer com produção musical e alguns de seus beats são clássicos. Estávamos planejando levar ele para Londres para fazer um show case para o DMC Brasil e ser juiz oficial. Então sua ida foi realmente um choque para todos nós. Ainda me dói pensar nele porque éramos muito próximos. A melhor coisa que eu posso fazer é sentar e pensar em todos os momentos loucos que passamos juntos e continuar fazendo o que fazíamos, pois é como ele gostaria que fosse. Saudades do meu irmão do Brasil.