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Blog de Literatura Conto de Domingo #1 Katherine Funke


KATHERINE FUNKE Catarinense, desde 2003 na Bahia, Katherine Funke nasceu em 1981. Em 2009, foi contemplada com uma bolsa de apoio literário da Fundação Pedro Calmon, do governo do Estado da Bahia, para escrever o romance Maria João, em parceria com o escritor Luis Daltro, ainda em fase de finalização. Estreou na literatura no ano seguinte com a coletânea de contos curtos notas mínimas (Solisluna Editora) e irá publicar, em 2013, também pela Solisluna, com apoio da bolsa Funarte de Criação Literária, o livro Sem

Pressa, que inclui crônicas, contos, poesias, perfis e ensaios – um dos contos deste livro integra antologia de jovens brasileiros organizada pela editora alemã Klaus Wagenbach, a ser lançada em 2013. Escreve no momento o romance Viagens de Walter, iniciado em 2008, que deve ser finalizado em 2013, quando Katherine irá passar seis meses interagindo com o Ponto de Cultura Biblioteca Barca dos Livros, em Florianópolis (SC), com apoio de Bolsa Funarte de Residências Artísticas em Pontos de Cultura.

http://historiasdakatherine.wordpress.com


ACONTECE EM TODA PRAIA Dia de semana, nove e meia da manhã. Céu A mulher usou a pedagogia da franqueza, de brigadeiro, sol de garota de Ipanema, um ve- em vez de falsetes com diminutivos ou gritos ranico gostoso dentro de um inverno úmido. autoritários. Uma menina de sete, oito anos, começa a entender as coisas. Ou a não querer entendê-las. – Escuta. Não dá mais tempo. Eu já te expliquei. Agora a vovó vai trabalhar. Tra-ba-lhar. Firme sobre as pernas paradas e cravadas no Um dia você vai entender. Eu prometo. Amachão, grita com a senhora que lhe dá a mão. nhã a gente volta. Aliás, amanhã não, que não posso. Depois de amanhã. Prometo. – Para, por favor! Paaaara! O muxoxo da menina é maior do que o mar, A mulher atende. Tem de se virar, pois a me- maior do que o céu, maior do que o maior nina está exatamente a um passo da sua som- muxoxo que alguém já fez. Mas ela apruma a bra. Ela torce a cintura para ficar de costas, mas postura e resigna-se a andar pisando firme, por mantém os pés para a frente. Não diz nada en- mais uns metros. quanto a criança se acalma; consulta o visor do telefone, ajeita o cabelo e continua a andar. Quando esperam para atravessar a rua, puxa a senhora para baixo como para contar um seA menininha tenta livrar-se daquela mão- gredo, e com as mãos em concha dá o último -algema e alcança um agudo ainda mais estri- golpe. dente. Voz doce: – Paaaaaaaaaaaara! Vamos ficar só mais um pouquinho. Só mais um pouquinho. Por favor, – Por favor, por favor! Amanhã você trabapor favor, por favor, por favor, por favor, por fa- lha, vovó... vor... O sinal abre para os pedestres; elas seguem Aí todos notávamos as duas. em silêncio.

©Katherine Funke, 2012. Todos os direitos reservados.



Acontece em toda praia