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Tratado da Pele - George Ulysses

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George Ulysses

tratadodapele


tratadodapele George Ulysses


I Ele rasteja sobre mim, rasteja sobre nós Rasteja sobre mim em silêncio Em silêncio rasteja sobre mim, rasteja sobre nós II Omolu, o forte, pode esculpir na carne das pessoas Ele pode Ele esculpe


Sumário

Gênese. . . . . . . . . . . . . . . . 11 Sombra

. . . . . . . . . . . . . . . 17

,Y©WT^P OP `XL QZ_ZR]LʭL

. . . . . . . . 23

Vida alheia e riquezas salvar

. . . . . . . 29

O paraíso perdido. . . . . . . . . . . . 35 O amor de Cristo nos uniu . . . . . . . . 41 Já não sei mais como nomear isso

. . . . . 47

A dermatologia de Obaluayê . . . . . . . . 53


I

Gênese Antigamente eu morava em uma casa. Era um lugar amplo, com quintal e jardim. Era uma casa de esquina no conjunto tupã mirim. Ao contrário de todas as casas por onde passei, essa era “nossa”. Podíamos alterar qualquer coisa nela. Concretamente o que mudou fomos nós. Nos mudamos. Envelhecemos. 0^^L QZ_ZR]LʭL _PX NP]NL OP LYZ^ ?LWaPe XLT^ 0Yvelheceu e um fungo tomou conta da parte de baixo dela. Como tudo no mundo. As coisas vão envelhecendo. Não depende de nós, mas da ação do tempo. Se haverá fungo, talvez isso dependa de nós. Mas o fungo também é um organismo autônomo, ele não precisa da nossa ação, da nossa concessão, para agir. O fungo é, está no mundo. Em algum momento ele irá se mover. Irá consumir a QZ_ZR]LʭL Antes disso eu morava na barra do Ceará. Eu não lembro da casa, mesmo que a minha memória mais antiga ^PUL LY_P]TZ] ¨ QZ_ZR]LʭL L\`PWL \`POL YL QZR`PT]L Z sonho horrível com as bonecas de pano que cantavam “uma pirueta, duas piruetas, bravo, bravo!”). Às vezes

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penso que imaginei uma coisa, mas é impossível. Eu não tenho essa capacidade. Para o bem ou para o mal, tudo o que lembro aconteceu. Imaginar a partir da foto, da sua concretude, seria imaginar um mundo que ocorreu, um mundo igualmente concreto. Absurdo. Eu lembro de uma vez em que vi matarem uma galinha. Fugi. O som da galinha. Suas asas. Bico. Pés. O som da galinha preenchia o mundo. Você já matou um animal? Não um inseto, mas um mamífero, uma ave de porte médio. Qualquer aluno de agronomia matou pelo menos 25 insetos, um de cada família. Se você não matou um animal, mesmo que um mamífero de pequeno porte, então não entende isso. É preciso ter a certeza da capacidade da morte. É preciso ter ciência e respeito e alguma coisa de assombro. É preciso ter ciência. Não da morte, isso todos temos em algum nível, mas da nossa capacidade de morte. Dos efeitos. O cheiro da morte. Suas plumas. Pés. Os olhos vivos. Até a água. Até o barro. Os insetos. O som que preenche Z X`YOZ 0^^L QZ_ZR]LʭL _PX XLT^ OP LYZ^ /TePX que eu sou o bebê que minha irmã segura. Capturado, súbito. Sem ciência da vida. Da capacidade da vida. Sem ciência das galinhas, dos insetos, de suas asas, de seus aparelhos bucais. Sem ciência do fungo que em algum momento comeria esse instante. Conhecimento completo do tempo, conhecimento total da minha ignorância.

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II

Sombra 0YNZY_]PT P^^L QZ_ZR]LʭL YZ 4Y^_LR]LX OP `XL NZWPRL L Gerrara). A salvei e esqueci. Até que a achei dia desses. 0X `X \`LO]Z XLTZ] a©]TL^ N]TLY¯L^ L[L]PNPX TYNW`^TaP XTYSL NZWPRL 0` Y«Z P]L Z ^`UPT_Z OL QZ_ZR]LʭL L[L]P¯Z longe, ao fundo. Meu olhar, eu acho, não mudou. E continuo preferindo aparecer no fundo das fotos - às vezes fora do quadro. Acho engraçado ver fotos onde reconheço que estive lá, no evento, mas distante da lente. Dessa maneira lembro o evento e ele permanece importante, L QZ_ZR]LʭL L[PYL^ `X OP_LWSP ^PX X`T_L NZ] P` Y«Z estou enquadrado. Ausente, minha presença é duvidosa. Sempre foi. 3ZUP [L^^Z PX Q]PY_P LZ NZW±RTZ XTWT_L] P` XZ]Z ¨^ NZ^_L^ da escola militar). Quantas coisas me restringiram fazer. A piscina onde até o Wagner Moura nadou, a academia de musculação que usamos por duas vezes. Será que tivemos `X R]²XTZ* 9L P^NZWL XTWT_L] Y«Z ^PT ?TaPXZ^ ^TX aulas de religião. Aulas de biologia onde havia religião. Lembro de rezar um pai nosso e rir. Não por não ter fé,

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mas pelo excesso dela. Que absurdo rezar antes de uma aula, como se eu necessitasse disso. Eu costumava rezar todos os dias, todas as noites. Queria mesmo era nadar, _P] L`WL^ OP ʭWZ^ZʭL L`WL^ NZYN]P_L^ <`P]TL _P] OZ \`P duvidar. Quando cresci, não sei, eu cativava certezas. Mas nunca as quis. Uma vez descobri que achavam que eu era XTWT_LY_P OZ [^_` 9«Z P]L 9L^ QZ_ZR]LʭL^ OZ XZaTXPY_Z estudantil eu aparecia mais alegre, menos ao fundo. Mas P]LX QZ_ZR]LʭL^ OTQP]PY_P^ QZ_ZR]LʭL^ OP Z`_]Z X`YOZ Outro planeta. Eu organizava as coisas. Hoje em dia eu quase não organizo coisa alguma. Eu trabalho. Escrevo. Faço minhas coisas. Sigo ausente, sigo ao fundo, sigo desimportante, auxiliar, à margem, sigo ao fundo. E com dúvidas, cheio de dúvidas, afogado em dúvidas, cercado por cada d e cada u e cada v e cada i e cada a e cada s das dúvidas. Como se eu não soubesse soletrar. Como se Y«Z QZ^^P ^`ʭNTPY_P P^_L] LZ Q`YOZ \`TP_Z ZM^P]aLOZ] vivendo minha própria história.

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III

Análise de uma fotografia Com o tempo eu vou me parecendo mais com minha mãe. 0WL RP]LWXPY_P Y«Z ^Z]]T PX QZ_Z^ : ]`TX OP ʭNL] MPX YZ XPTZ OZ \`LO]Z ± \`P P` XP ZM]TRZ L ʭNL] P^[]PXTOZ para que todo mundo caiba na foto. 8L^ _LXM±X \`LYOZ ʭNZ YL^ [ZY_L^ P` XP P^[]PXZ \`P é para que eu caiba no quadro, para que meu braço não saia cortado ou meu pescoço espichado. Quando eu era mais novo, na escola, um dos militares me chamava, de maneira irônica, de “pescocinho”. É verdade, meu pescoço é longo. Uma vez vi que a gente não precisava escrever longos textos para postar fotos em redes sociais, mas acontece que toda foto pra mim é ilustração, eu gosto mesmo é de textos. Só que hoje em dia as pessoas leem

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menos nas redes sociais. Então eu escrevo enquanto posto imagens. A minha mãe visitou minha casa de candomMW± `XL ÂYTNL aPe ?LWaPe P` \`T^P^^P `XL QZ_Z NZX PWL nesse lugar, mas não tenho certeza se a gente chegaria L _T]L] `XL YL ZNL^T«Z OL ^`L aT^T_L XLX«P ʭNZ` YL arquibancada enquanto Obaluayê dançava com meu corpo. 0` PWP RT]LaL ¨^ aPeP^ 0^[LWSLaL L^ [LWSL^ /P P^[TNSL] o pescoço, só ele cresceu. Eu cresci pouco. /P[ZT^ \`P XP TYTNTPT [L]L :XZW` LNSZ \`P ʭ\`PT `X pouco mais parecido com minha mãe: quer dizer, eu envelhecia um pouco mais, entendia um pouco mais o mundo, percebia um pouco mais o alcance da energia \`P XTYSL X«P PXLYLaL [L]L Y»^ ^P`^ ʭWSZ^ 0Y_PYOTL mais as disciplinas da vida. A disciplina que eu aprendia na escola militar, a disciplina dos padres, essas coisas eram diferentes do que eu vivia com minha mãe. Com certeza eram diferentes das coisas que eu vivia no terreiro. O terreiro era outro mundo. É outro universo. As hierarquias são outras, as formalidades, L^ OTQP]PY¯L^ ?`OZ ± Z`_]Z P ± YZaZ L[P^L] OP ^P] aPWSZ antigo, antiquíssimo. O novo é o velho atualizado, diz Z XP` ʭW»^ZQZ OP NLMPNPT]L : aPWSZ ± ^`M^_T_`µOZ [PWZ novo, mas este é sempre realização daquele. É um ciclo. Daí eu não me importo, eu pareço com minha mãe e já não uso boinas, não marcho. Sou outra coisa. Realização de outra pessoa. Ancestral. Me aperto no meio da foto e permaneço quieto, quieto, atento. Olhos de ver, ouvidos de escutar. O deus antes não falava comigo. Hoje fala a partir de mim. Dança. Ele dança com meu corpo. -LWLY¯L ^`L^ [LWSL^ >PR`]L ʭ]XP XP` [P^NZ¯Z XP` WZYRZ pescoço. De tanto espichar o pescoço, só ele cresceu. Eu envelheci. Mas não sei se isso é crescer.

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IV

Vida alheia e riquezas salvar Eu não seria um bom soldado. Penso: talvez fosse. Mas não seria. Não há guerra que se lute. Eu também amo OPXLT^ L aTOL NLOL RP^_Z OPWL ?LXM±X Y«Z ^P]TL MZX pintor, eu tive todo o tempo do mundo para ensaiar desenhos, telas - não consegui jamais fazer algo pictórico \`P QZ^^P ^`ʭNTPY_P ;P]N`^^TZYT^_L ^Z` XPOTLYZ ,_LML\`P até gosto de tocar, mas se acelero me bate uma tontura, um ziguezague na vista. Melhor não. Sou rodante. Dançarino não tenho como ser dos melhores, dez anos, onze anos de ensino militar, tantos outros de vergonha cristã. Pudesse me despia. Não consigo. Não sirvo pra guerra, não sirvo para a arte, menos ainda para o pensamento. Espiritualmente eu apenas comecei. Um exercício de

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fracasso, ou ainda: um exercício de mediocridade. Ser XPOTLYZ [ZOP ^P] ^`ʭNTPY_P* Poderia ser agricultor como sugere meu nome, mas não _PYSZ _P]]L 9PX UPT_Z [L]L L _P]]L LQLRL] L _P]]L NZYhecer os desejos da terra, etc). E me dizem que talvez eu seja mesmo muito talentoso: eu sou apenas mais esperto que você. Só isso. É que eu sou inteligente demais pra me Pc[]P^^L] P YP^^L aZ` ʭNLYOZ [L]L _]©^ [L]L _]©^ [L]L LWT [L]L LNZW© ?PYSZ NZX[L]_TWSLOZ NZY_TRZ P^^P L]R`mento para um drama-comédia. Comédia dramática já acho um nome feio. Não escrevo. Não sou autor de interação. Acho igualmente feio. Queria ser um forno. Uma máquina de costura. Peça minúscula mas fundamental de uma fábrica, queria fazer parte de um carro. Não ter dedos que digitam, ou ser uma pétala de rosa, o espinho de laranjeira no qual pisei semana passada, o galho que sustenta uma laranja pequena. Mas tive de escolher entre soldado, artista, pensador, burocrata, espírito, agricultor. Coisa nova: um estudo em dermatologia. Vivo através da pele. Minha superfície. Profundo, não sei, profundo eu sou `X LM^`]OZ OP YLOL aµ^NP]L^ \`P Y«Z ^TRYTʭNLX L[PYL^ ^«Z NZXZ ^«Z L^ ʮZ]P^ L _P]]L ^PNL ]LNSLOL 8TYSL [PWP OPY_]Z QZ]L XTYSL [PWP ^TX PWL ± ^TRYTʭNLOZ ± contexto. A pele é contexto e é pele de soldado, pele de agricultor, pele dura e forte, parede de concreto armado, pele erguida por homens da minha mesma cor, erguida por mulheres da minha mesma cor, da minha mesma origem, do mesmo mar e do mesmo sal, pele erigida por pensadores que insistiam e insistiam e insistiam e insistiam em estudos dermatológicos, insistiam em estudos de compreensão: insistiam naquela coisa de esmurrar um vidro temperado até que se rachasse, até que o dentro e o fora compartilhassem o mesmo ar. A mesma

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fuligem. A mesma brisa gelada dos condicionadores de ar. Burocracia já perseguimos tantas, já nos apavoramos de tantas. O espírito vive. Não é eterno, não será, não tem que ser. O espírito, eu sei, me interessa a mim. Só a mim meu espírito interessa. E não há o que se salve, não existe salvação. Coisa antiga: eu dizia um dois três quatro, ser bombeiro é um barato. Não achava um barato. Não queria entrar mais uma vez no fogo, não queria mais uma vez ter a pele dilacerada pelas chamas. O pavor das chamas. Doía, eu lembro. Às vezes duvidam: é verdade que você foi consumido pelas chamas? É verdade? Que agricultor morreu pelas chamas, que burocrata, que pensador, que artista, que menino morreu pelas chamas? Eu? Não. Carbonizado, fertilizei o solo. Carbonizado pude riscar palavras no papel, carimbar protocolos. Carbonizado invadi o mundo das ideias. Carbonizado eu permaneci com a mesma pele. Mas tive de escolher entre soldado, artista, pensador, burocrata, espírito, agricultor e carvão. Um estudo em dermatologia.

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V

O paraíso perdido Depois desse dia foi só correria. Eu aprendi a ler e a escrever. Só isso já bastava pra que eu percebesse a diferença imensa entre as pessoas. Quando eu olhava para um livro grande, um John Milton, um Machado de Assis, sentia uma pressão assustadora - ainda que eu não entendesse o que era aquele sentimento. Essas obras que segurava eram de pessoas que eram mestras no que eu apenas arriscava. Enquanto eu crescia, a diferença não parecia diminuir - ela aumentava. Quanto mais sabia, mais sabia que não sabia. Me sentia um samurai que tinha a ciência de que jamais seria o mais forte sob o sol. O autor mais habilidoso sob o sol. Isso não existia. Em algum momento XZ]]P]µLXZ^ P` ^LX`]LT 8LNSLOZ XP PYNLY_PT NZX essa imagem do samurai mais forte sob o sol ao ler um NL[µ_`WZ OP `X XLYR© OZ ?LVPSTVZ 4YZ`P

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Até que um dia eu li Bonsai, do Alejandro Zambra. Um livro pequeno, patético. Li de forma pantagruélica. Não havia diferença de nível entre nós, eu apenas tinha, agora, a noção de que cada um de nós morava em um abismo diferente. Não consegui mais me envolver com a possibilidade de ser o escritor mais hábil sob o sol. Eu não seria, ninguém seria. Li Bonsai diversas vezes. Decorei parágrafos. E cada vez mais sentia que tudo o que eu sabia, sabia dali, daquele dia em que juntei B+o+l+a e escrevi Bola. E que era assim com o Zambra, com a Clarice, com a :WTaTL NZX Z 8`]LVLXT ?ZOZ^ _TYSLX L XP^XL _±NYTNL a mesma habilidade. Só habitavam espaços diferentes. Eram pessoas diferentes. Dez, onze anos? Eu voltei ao dia em que segurei uma antologia do Conan Doyle nas mãos. Foi o primeiro livro que eu comprei. Juntei o troco das passagens de ônibus durante muito tempo. Cheguei da escola, tirei as camadas e camadas de farda e corri para a loja. Quando cheguei lá, estava suado, sem blusa, e segurava o livro, uma edição da Martin Claret. A vendedora me olhava entre assustada e admirada. Eu não parecia um leitor. Acho que foi a primeira vez também que senti essa sensação - eu não parecia ser o que era. Mas eu era. Havia essa distância entre a expectativa da vendedora e as minhas expectativas. A distância entre a minha pele e a dela, a distância entre nossos hábitos de leitura. Ela perguntou: você sabe ler, você gosta de ler? E eu, simples, respondi que o único motivo para eu comprar um livro era exatamente porque gostava de ler, sabia ler, era óbvio que eu sabia ler. Voltei pra casa, brigaram comigo porque saí sem avisar, XL^ ʭNL]LX NZY_PY_P^ NZX L XTYSL NZX[]L P NZX XTYSL paciência - o troco da passagem era vinte centavos e o livro custava oito reais. Até hoje eu só gasto dinheiro

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com livros. O mais curioso é que, ao aprender a ler, eu descobri que as pessoas eram diferentes, que as habilidades variavam, mas só na minha ida ao mundo foi que eu aprendi os desdobramentos dessa diferença. Descobri abismos que minha técnica jamais superaria. Algumas vezes eu seria questionado se gostava mesmo de ler, se sabia mesmo ler. É óbvio que eu sei ler, é óbvio que eu adoro ler. Não é? Depois que eu aprendi isso, fui me aproximando do Machado, do Zambra e de outres. Na minha vaidade, eu ʭ\`PT NPRZ 9«Z NZY^PR`TL P^N]PaP] NZXZ 8`]LVLXT Z` Clarice porque, apesar de manejar as palavras como eles, P` Y«Z P]L TR`LW L PWP^ 0` P]L OPʭYT_TaLXPY_P OTQP]PY_P Um leitor e escritor e criança diferente. E nenhum de nós era o escritor mais hábil sob o sol. Nenhum de nós seria. Depois que aprendi a língua, quis esquecer dela. Era tarde. Hoje, mais tarde ainda. E sob o sol, nada de novo, nada de grande. Só a mesmice das coisas que meu deus conhece e compreende e que são pequenas como a minha vaidade de doutor do abc.

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VI

O amor de Cristo nos uniu Minha primeira eucaristia foi feita lá no colégio. Era um misto de obediência a Deus e à nação. Fui criado assim, LNSZ \`P _ZOZ^ Y»^ QZXZ^ ?TYSL Pc[PN_L_TaL^ OP _P] L hóstia na boca e esperava sentir o gosto de sangue. Não senti. Ponderei: talvez deus não me visse portador de milagres. A verdade é que eu era comum. Não necessitava de milagres, tinha fé. Só quem duvida, eu pensava, necessita de grandes gestos. /P^OP [P\`PYZ P` U© P]L ]PWTRTZ^Z ?TYSL Z`_]L Q± PYtretanto, desdizia os anjos. Esse menino hoje está tão longe. Permanece a mania de rezar em silêncio, de olhar sempre para dentro. Deus habita dentro. Não há mistério. 5© ^«Z " LYZ^ OP[ZT^ OP^^L QZ_ZR]LʭL \`L^P # @XL QZ_ZR]LʭL \`P U© [ZOP]TL aZ_L] ^P \`T^P^^P =PLWXPY_P

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muito longe. Continuo uma pessoa comum, de qualquer forma. Quase nada obediente, mas ainda disciplinado. Você percebe? Uso uma espécie de babador que esqueci o nome sobre a minha farda, minha vestimenta que imita o militar. O padre que me catequizou era um padre militar. A L`_Z]TOLOP OPʭYT_TaL : SZXPX NZX [ZOP]P^ 8T]LN`WZ^Z Perguntam se eu pequei. Arranco a carne do meu dedão esquerdo e ela sangra, sangra, sangra como a chaga aberta de Jesus, o homem pendurado na parede: quando eu visitei a igreja evangélica eles me disseram que Cristo venceu a cruz, é verdade? O padre militar me olha, apiedado, você pecou? Eu pequei, senhor, eu pequei, pratiquei o que é mau, tem piedade, perdoai-me, por misericórdia. Queria que a virgem me acudisse. Era difícil. O único santo católico que já me aproximei foi São Francisco de Assis. Fora ele, amava as santas. Santa Luzia com seus olhos descansando num prato. Santa Clara e seu olhar piedoso, sua aura imensa, televisiva. Quando cheguei ao candomblé me despedi dos santos católicos, das mulheres de pele muito alva e devotadas ao nosso senhor jesus cristo, me despedi principalmente de um olhar, uma espécie de olhar. Mas havia o corpo que me deram, o corpo que, batizado na fogueira, eu tive que carregar. E até hoje o carrego. E quando rezo, Obaluayê me escuta. Mas às vezes eu deito e ouço Francisco gritando que o Amor não é amado, e sinto suas feridas, sua pele machucada, as mesmas chagas que Jesus carregou. Vejo a ferida aberta que sangra e sangra e sangra.

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VI

Já não sei mais como nomear isso Eu ouço os sons da cozinha. Ouço o repórter do jornal nacional. Pouco antes de me trancar em casa consegui limpar meus ouvidos. O otorrino receitou quase sessenta reais em remédios, mas deu certo. Fico feliz de não estar com dores hoje. O presidente falou na televisão e duas vizinhas trocaram frases. Eu falei alto: meu povo, vocês vão ter um enfarto! Mas ninguém ouviu, eu não gosto de gritar. Minha vizinha é uma esposa de ex-militar, um homem que se aposentou. Ele é menos agitado em relação ao governante. Provavelmente votaria nele de novo. Agora uma nova dor, nas mãos. Meus dedos estão meio endurecidos de tanto que eu mexo no mouse, de tanto \`P NWTNZ 0 L^ [P^^ZL^ Y«Z XP OPTcLX ʭNL] WZYRP OZ^

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aparelhos. É impossível que eu passe um dia sequer sem digitar um “oi” no celular. Não faz frio, mas chove. Faz calor, mas chove. 0` ʭe " LYZ^ S© LWR`X _PX[Z 3ZUP _PYSZ # OZT^ LYiversários comemorados dentro de um quarto. Parece que LWR`XL^ NZT^L^ ^ZWTOTʭNL]LX Z`_]L^ PaL[Z]L]LX 0` ʭNZ feliz que a maioria evaporou. Neste exato momento eu estou no topo de uma montanha e observo a paisagem. Eu vejo o vasto campo, uma e outra casa, nenhum ser humano. Só o planeta. Eu passo um milênio observando isso, e não consigo consumir essa imagem. Ela muda de tempos em tempos, inesgotável, dinâmica. Eu permaneço. Me encantei. Sinto um pouco de falta de ar, não da epidemia, é normal pra alguém com asma. Eu estou no topo de uma montanha, lembra? Meus joelhos doem, tenho olheiras profundas e não peso mais que 55 quilos. Gosto quando os raios do sol queimam de leve minha testa, minhas costas. Gosto quando percebo que a vida vai se esvaindo, ainda que lenta, ainda que silenciosa. E continuo observando a paisagem que se agiganta e apequena diante da montanha. Estamos passando por uma pandemia, lembra? Já não sei mais como nomear isso. Eu tenho uma grande cicatriz na canela esquerda. Uma vez eu subi em um puxador de porta de um armário. Foi a primeira vez que eu tentei fazer café sozinho. O puxador quebrou e o parafuso penetrou na minha perna. Eu corri até a vizinha e mostrei aquele sangue abundante que jorrava. Ela era uma pessoa com outro tipo de cabeça, não me consolou: você é burro, o que você foi fazer lá em cima? Eu fui pegar o pote de café. Eu tenho uma cicatriz na testa, de quando eu caí de cabeça na calçada do meu vizinho Araújo. Eu também sangrei bastante. Dessa vez meus parentes estavam lá para me acudir.

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Quando eu tinha entre dois e três anos, caí numa fogueira e queimei mais da metade do corpo. Eu não tenho marcas, porque meu corpo foi trocado por outro, um corpo novo. Mais fraco, mais envelhecido. Mas ainda assim um outro corpo. Às vezes eu acho que, numa noite, esse corpo de bebê chamuscado vai aparecer no meu quarto e perguntar ^ZM]P XTYSL^ NTNL_]TeP^ 0` aZ` XZ^_]L] _ZOL^ ?LWaPe PWP OP^L[L]P¯L ?LWaPe PWP [P]R`Y_P [Z] \`LW XZ_TaZ P` descartei meu corpo antigo. Eu não sei, eu não lembro. Eu era pequeno.

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VIII

A dermatologia de Obaluayê A última vez em que tomei a hóstia foi na minha cerimônia OZ N]T^XL : ^LN]LXPY_Z OL NZYʭ]XL¯«Z /TeTLX L^^TX% você receberá os dons do espírito santo. Um dia, era de tarde, nos reuniram dentro de um grande salão paroquial. @XL [P^^ZL ʭNLaL OP QZ]L ]PeLYOZ [Z] Y»^ PY\`LY_Z L maioria dos catequistas oravam pertinho dos crismandos. Eu estava de pé, eu lembro, e ouvia uma música muito ao longe, como se fosse tocada desde outro mundo. O céu. Uma moça colocou a boca muito perto do meu ouvido e disse palavras que hoje eu não consigo lembrar. O meu corpo tremeu e eu desabei. Ela me segurou e disse: chore, pode chorar. O espírito santo havia crescido em mim. Descobri tempos depois. Parecia estranho que eu, crente da razão, caísse tão facilmente.

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A primeira vez em que bolei no santo foi em um cerimônia OP ZM]TRL¯«Z OP ^P_P LYZ^ OP `X ʭWSZ OP :MLW`Ld² >`L^ palhas eram vermelhas e ele dançava rápido, enérgico. Eu não estava no salão - lá fora, com calor, os Orixás eram abanados por nós. Eu balançava com força um pano que produzia pouco ou quase nenhum vento. É por isso que eu balançava com força. Mas não era uma questão de força. Nunca foi, eu acho. Retornando para o salão, eu cruzei o terreiro de areia, tentei passar pela porta que dava acesso ao salão, mas não consegui. Um vento - esse, sim, forte - me impedia. Me empurrava. Eu girei e meu corpo desabou. Minha cabeça pesava. Alguém me sentou em um banco e outra moça, uma moça parecida com aquela que rezava perto do meu ouvido, se aproximou de mim e me abraçou. Ela disse: chore, pode chorar. Por incrível que pareça, eu senti como se as duas pessoas que eu fui e seria se encontrassem. Um Ulysses do passado que se chocava com o George do futuro. E eu, no presente, não sabia o que fazer. Eu chorava. No ensino médio nós usávamos uma espécie de chapéu, um bibico. É uma coisa ridícula que parece um barquinho. Os colegas de classe chamavam o meu bibico de caspinha. Por algum motivo minha cabeça descamava muito, minha _P^_L ʭNLaL aP]XPWSL ^ aPeP^ ^LYR]LaL OP NZ¯L] 8LT^ tarde eu descobri que eu possuía uma condição crônica, `XL NZT^L NSLXLOL [^Z]µL^P 0]L Z NZ][Z TOPY_TʭNLYOZ minha pele como uma inimiga, as células epiteliais sendo descartadas como se não fossem úteis. Peça qualquer inútil, parafuso extra. Com o tempo meu rosto começou a descamar também. E então minhas costas. Depois, um pedaço do meu peito. Bem no meio do peito. Quando eu estou saudável, se você olhar bem, a pele no centro dO meu peito é brilhante, jovem. Minha pele é sempre jovem, meu corpo não deixa que ela envelheça. Ou talvez PWL ʭ\`P aPWSL ]©[TOZ OPXLT^

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Antes de conhecer o candomblé eu conheci Ogum. Ogum era meu Orixá favorito, o que é engraçado, porque na minha cabeça eu acabei desenvolvendo uma hierarquia de afetos sem perceber. Eu amava Ogum por ele ser um homem que não descansava, um homem que vivia para a luta. Um homem que era bom com a espada e com o arado. Suas histórias eu conheci através de músicas de grupos como o Bongar. Aprendendo sobre Ogum eu aprendi sobre os Orixás, mas um conhecimento limitado, um conhecimento frágil. Eu precisava ir a um terreiro, eu precisava entender Orixá nas casas de candomblé. Antes de chegar a uma casa, conheci também Omolu, Obaluayê. E amei Obaluayê porque sua história era trágica, uma história que me tocava porque se iniciava com um OP^LʭZ \`P P` XP^XZ SLaTL PYQ]PY_LOZ P` PYQ]PY_LaL todos os dias. A questão da dermatologia de Obaluayê. Omolu foi abandonado no mangue. Sua mãe, Nanã, não [ZOTL N]TL] `X ʭWSZ OPQPT_`Z^Z , [PWP OP :XZW` P^_LaL completamente ferida - chagas vermelhas, beleza nenhuma se deitava aos olhos. Iemanjá o encontrou. Mãe de todos, também deste menino a senhora das águas cuidaria. Quem cuidaria de mim, eu pensava, e lembrava da mamãe e do seu esforço em me sustentar, em sustentar meu mundo para que ele não desabasse diante das nossas pelejas. Em retrospecto, eu pensei, nossa vida foi inteira marcada por problemas de pele, problemas de classe, problemas de ares. Encontrei Ogum e Omolu e já não podia mais pensar como pensava antes. E encontrei uma casa onde pude me iniciar, carregando adoxu eu dancei com Obaluayê, dançamos juntos. Eu sentia que minha pele, a pele queimada, a pele arrasada pela doença, era como a terra que Omolu escavava. Queimada, arrasada, terra quente. Pele quente. Pele da

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cor do barro. Eu cresci. Encontrei Omolu e via seus olhos vermelhos, seus olhos de fogo. Era a minha experiência com o Orixá. Só minha. Se eu tivesse carregado adoxu na cabeça antes, quem sabe não teria caído naquele salão [L]Z\`TLW P` [PY^PT AZN² OP` ^LY_Z QZ]L OP NL^L @Wd^^P^ você foi atrevido dar santo na igreja. Não sei. A psoríase é uma doença autoimune. Queria saber disso enquanto marchava sob o sol, enquanto levava na cabeça não o adoxu, mas o terrível bibico, o terrível peso de cantar amor à pátria, o terrível peso de esperar pelos dons do espírito santo, sua santa paciência, sua santa fortaleza, sua santa ciência, seu santo assombro. Pode ser que minha cabeça coçasse menos. Um dia desses eu sonhei com a Barra do Ceará, lugar onde minha família inteira nasceu. Eu sonhei que andava de bicicleta pela rua Marechal Napion e o sol brilhava muito forte e eu sabia que era Obaluayê olhando pra mim. Em algum momento eu tropeçava em uma pedra, caía da bicicleta, chorava. No pé do meu ouvido uma mulher dizia: chore, pode chorar. Eu pensei que fosse minha mãe, mas não era. Mas eu jurava que fosse.

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Tratado da pele George Ulysses

Todos os direitos reservados © 2021 George Ulysses Casamata Cultura LTDA 4>-9% $"# ! $$ $ $ ?Pc_Z^% 2PZ]RP @Wd^^P^ Imagens: arquivo pessoal Diagramação: Clébson Francisco


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Tratado da Pele - George Ulysses by Biblioteca Pública Estadual do Ceará (Bece) - Issuu