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pescador franzino, já judiado pelo tempo, olha para o céu e sorri com a posição do Sol naquele momento. Era hora de recolher a rede. Hora de retornar. Puxando e se equilibrando na pequena embarcação, com a força e prática que ganhara seguindo essa mesma rotina, pelo menos seis dias por semana, era admirável a concentração do velho. As mãos trabalhavam, aparentemente sem esforço. Era uma dança automática de vai e vem. Lá pela quarta ou quinta braçada, o velho sente a rede um pouco mais pesada: — Meu dia de sorte, com certeza! — diz o pescador em voz alta, esperando, talvez, um cumprimento das ondas.
A ansiedade era tanta, que logo a rede se encontrava toda dentro do barco. Mas algo não parecia certo. Os peixes que subiram com ela, não se mexiam. Não tentavam escapar. Estavam, simplesmente, inertes... Mortos. O homem pega um qualquer para verificar. Não havia ferimento. Pelo menos, não externamente. Suas guelras vermelhinhas e escamas cintilantes descartavam a hipótese de um cardume doente. Não fazia sentido. Tomando cuidado para não embaraçar a rede, o velho começa a separar o pescado e escuta algo bater no piso da embarcação.
Era uma caixa. Não, um baù. Pouco maior que uma caixa de música e estranhamente detalhada com adornos grotescos e de difícil descrição. Ao tocar o estranho objeto, o pescador percebeu com espanto que a caixa estava completamente seca. — Num é possível! Eu te puxei do mar! — disse o senhor para si mesmo. O baú não era leve o suficiente para flutuar. Deixando-o de lado, ele guarda a rede direitinho. Move os peixes para a parte de trás do barco e volta sua atenção ao misterioso objeto. O baù era bem trabalhado, quanto a isso não restavam
dùvidas. As dobradiças e reforços eram feitos com um metal avermelhado. Cobre, talvez. Não havia lugar para chave, apenas uma tranca simples e de encaixe. O pescador passou os dedos de leve sobre a parte de cima da caixa e teve a impressão de sentir um pequeno formigamento. O mar naquele momento estava absurdamente calmo. O pequeno barco quase não cambaleava. — Vejamo... — disse o velho enquanto tocava a tranca com intenção de abrir. A caixa não abria. Por mais que tentasse, o encaixe não se movia ou cedia. O velhote, concentrado e determinado em saber o que havia
dentro do baù, pegou algumas ferramentas no barco e continuou a forçar e não notou que de seus ouvidos escorria sangue. Um singelo filamento corria de cada ouvido até o pescoço. — AQUI NÃO! — Ele escutou. Procurou ao redor a origem da voz rouca e engasgada. Apenas o oceano estava ali a fazerlhe companhia. — VÁ PARA TERRA! — A mesma voz, imperativa e nada humana, ecoou de novo em sua cabeça. Mas dessa vez, ele sabia de onde viera: do baú. O terror em seus olhos era tamanho, que o deixou despencar de suas mãos, batendo e parando próximo a uma poça de água retida no piso do barco.
O velho respirou forte, tentou entender o que era aquilo tudo e, ainda com as mãos trêmulas, direcionou o barco para a praia. Pouco mais de uma hora e o destino era alcançado. O pescador desceu da pequena embarcação, puxou-a para a areia e, com a pressa de poucos, largou todo o pescado, ignorou o cumprimento dos companheiros e supostos vizinhos que ali se encontravam, e correu para sua casa simples e rùstica, levando consigo apenas o baù. Entrou e bateu a porta. Foi direto para uma pequena mesa de madeira, onde fazia suas refeições. Deixou o baù, pegou a lamparina, balançou, verificando o querosene
e a posicionou a sua esquerda. Para ele, o foco era apenas o baú. O sangue ressecado em sua nuca em momento algum foi um incômodo. Arrisco dizer que nem se dera conta deste ‘detalhe’. O pescador aprumou-se de frente ao baú, relaxou um pouco, respirou fundo e, quando foi encostar na tranca, ele abriu... O susto não foi desesperador, foi pavor puro. Uma sensação gélida o tocara e, cheio de receios, moveu o olhar para o interior do baù. Dentro havia um livro, ou diário, algumas páginas soltas, com anotações em um idioma que, nem de longe, lhe era conhecido, pois mal sabia ler a escrita comum, e, o mais chamativo, um medalhão preso a
uma corrente e uma chave, e só. Nada fazia sentido. — Olá? Ocê tá aí? — perguntou o velho à caixa. Meio que sorridente, como se tivesse imaginado ou a insolação tivesse lhe pregado uma peça, ele analisou o medalhão. Não parecia ouro ou nada de valioso. O metal era escuro, áspero e não havia pedras cravadas. Já com todo o conteùdo sobre a mesa e a caixa ao chão, ele virou sua atenção ao livro. Sua capa era de couro e suas páginas bem judiadas. Parecia, não, era velho, muito velho. A escrita, apesar de estranha aos olhos do pescador, era diferente da que vira nas páginas soltas. Pareciam pequenos
desenhos. Ao passar as páginas, se via mais e mais interessado, pois havia, além da escrita estranha, desenhos esquisitos e nada do que a imaginação daquele velho senhor era acostumado. O tempo foi passando rapidamente e quanto mais ele folheava, menos se dava conta das coisas ao seu redor. A cada página virada, o pescador perdia um pouco de si. Ele chegava ao fim do livro e voltava ao começo. Até que seu conteùdo começou a se fazer claro... Ele o estava compreendendo. A escrita estava fazendo sentido. As imagens tinham um propósito. — Eu tô indo... Eu tô chegano... — Ao despejar essas palavras, o velho
se levanta e pega a lamparina, já quase sem combustível, um feixe de luz ilumina meio rosto do pescador e percebe-se que, em seus olhos, onde outrora havia íris, agora estava desprovido de qualquer cor. O que ali jazia era uma orbe empalidecida, sem vida... Ele pegou tudo o que estava em cima da mesa e colocou na caixa novamente. Colocou-a em um saco de pano e rumou à praia. Na manhã seguinte, a pequena embarcação e o pescador daquele vilarejo haviam desaparecido. Ninguém nunca mais ouviu falar dele... Há rumores de que, ele tenha enlouquecido e se afogado, mas ninguém sabe ao certo...”
— E é essa a história, garotada. O tio tem que ir agora! — Ahhhhhhhhhhhhhh!!! — Nada de ah... Lembremse crianças, não se contentem em apenas escutar uma aventura. Participem. Corram atrás. — Simmmm, vamos todos para o marrrr!!!! — Ehrrr, eu não disse isso... — Mas o mar é cheio de caixas do mal... — Isso também não... — Será que devemos avisar os guardas para prender todos os pescadores? — EU NÃO DISSE ISSO!! Vão brincar, vão!!! — Ê ê ê ê ê!!!! É isso...
Meu nome é Richter e sou um aventureiro completamente apaixonado por lugares místicos, lendas, ruínas, calabouços esquecidos e coisas do tipo. Meu hobby é colecionar objetos antigos e já me meti em muita confusão por causa disso. Afinal, eu não tenho culpa se nem sempre esses objetos estão, como direi, sem dono, não é? Aprendi nas ruas o que coloco em prática no meu dia a dia, mas não é porque tomo de você algo que não queira me dar, que eu seja uma pessoa ruim. Claro que não!
Bem, melhor descansar; pra onde estou indo, não posso me dar ao luxo de cochilar enquanto desarmo alguma armadilha. Ao chegar na pousada do pequeno vilarejo, Richter cumprimenta a proprietária e vai direto para seu quarto. Recolhe umas coisas e senta-se à escrivaninha. Abrindo a segunda gaveta de cima para baixo, retira dois pedaços de papel. Dá um longo suspiro e os guarda em sua bolsa. Ao esticar-se na cama, pega o chapéu e cobre o rosto, aguardando os primeiros raios de sol para sair rumo a algum lugar...
— Histórias de criança... — murmura sorrindo, antes de ser vencido por um adormecer sem culpa.