PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL Centro de Análises Econômicas e Sociais (CAES-PUCRS)
Relatório Síntese
INFÂNCIA E VIOLÊNCIA: Cotidiano de crianças pequenas em favelas e cortiços de São Paulo Santa Cecília, Bela Vista, Jardim Pantanal, Pedreira, Parelheiros-Nova América e Pimentas-Água Chata (Guarulhos)
COORDENAÇÃO Prof. Dr. Hermílio Santos
Financiado por Fundação Bernard van Leer Instituto Alana
Parceria com PUC-SP (Departamento de Ciências Sociais)
Setembro de 2014
Equipe de Pesquisa Coordenação: Prof. Dr. Hermílio Santos (CAES-PUCRS)
Pesquisadores: Prof. Dr. Paulo Jacinto M.Sc. Celina de Pinho Barroso M.A. Marcos Quadros M.A. Priscila Queirolo Susin
Assistentes: CAES-PUCRS Luana Barbosa Anne Briscke Anna Veiga
Departamento de Ciências Sociais (PUC-SP) M.A. Natasha Bachini Pereira (Coordenadora de campo) Fabio Prado de Freitas Alessandra Borges dos Santos Natalia Iorio Garcia Daniel da Silva Bernardo Gabriella Migliorini Munhon Manuela Capriogli Beloni Thiago Michelucci Cristiana Marin Periscinotto
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Sumário
1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 4 2. APRESENTAÇÃO DAS COMUNIDADES ..................................................................7 3. A OPINIÃO DAS LIDERANÇAS LOCAIS ............................................................... 24 4. A VISÃO DOS PRESTADORES DE SERVIÇOS NAS COMUNIDADES (STAKEHOLDERS) .............................................................................................................. 25 5. INFÂNCIA NA PERSPECTIVA DOS PAIS E RESPONSÁVEIS ....................... 26 5.1. Violência testemunhada por adultos na comunidade ............................................ 26 5.2. Violência testemunhada em casa pela criança (na percepção dos adultos) .......... 30 5.3. Violência praticada pelos adultos contra as crianças ............................................ 31 5.3. Chance de crianças serem vítimas de violência (Análise de regressão) ............... 49 6. AS CRIANÇAS POR ELAS MESMAS ....................................................................... 65 6.1. Violência em casa ............................................................................................... 65 6.2. Violência na escola ............................................................................................. 70 6.3. Violência na comunidade ................................................................................... 73 6.4. Discussão com crianças ........................................................................................ 83 7. ADOLESCENTES E INFÂNCIA .............................................................................. 102 8. CONCLUSÃO................................................................................................................. 108 9. REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 117
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1. Introdução O relatório a seguir apresenta os resultados da pesquisa que analisou o cotidiano de crianças pequenas (0 a 8 anos de idade) em cinco comunidades da cidade de São Paulo e de uma comunidade em Guarulhos, com ênfase sobre a experiência de violência. A pesquisa, conduzida por uma equipe multidisciplinar das áreas de sociologia, economia, psicologia, ciência política e urbanismo, do Centro de Análises Econômicas e Sociais da PUCRS (CAES-PUCRS), contou com o financiamento da Fundação Bernard van Leer e do Instituto Alana. Sediada em Haia (Holanda), a Fundação Bernard van Leer se dedica a apoiar iniciativas capazes de reduzir a violência contra crianças pequenas como estratégia para permitir que o desenvolvimento na infância se dê sem os constrangimentos e impactos da violência em suas mais diversas manifestações. O Instituto Alana, com sede em São Paulo, tem atuado com vistas a minimizar os efeitos nocivos da cultura do consumismo no desenvolvimento das crianças. Para a coleta dos dados, o CAES-PUCRS contou com a colaboração de alunos do Departamento de Ciências Sociais da PUC-SP. A pesquisa foi realizada em dois bairros com a presença de cortiços (pensões), Santa Cecília e Bela Vista, e em outras três comunidades da cidade de São Paulo (Jardim Pantanal, Pedreira e Parelheiros-Nova América), e em uma comunidade de Guarulhos (Pimentas-Água Chata). Os dados foram coletados de setembro de 2013 a fevereiro de 2014. Buscou-se realizar um diagnóstico detalhado sobre a vida das crianças de 0 a 8 anos de idade nas comunidades pesquisadas, explorando em especial suas experiências de violência em casa, nas ruas da comunidade e na escola, partindo da percepção de diversos atores, como lideranças da comunidade, representantes de organizações que prestam serviços na comunidade, adolescentes, pais e responsáveis de crianças pequenas, além das próprias crianças. Para que fosse possível dar conta do objetivo
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principal da pesquisa, foram utilizados diversos instrumentos, qualitativos e quantitativos, levantando as seguintes questões: O perfil socioeconômico da comunidade, considerando o número de habitantes por domicílio, tipo de domicílio, estrutura etária, emprego, renda e nível educacional, entre outros. A estrutura urbana da comunidade, considerando a caracterização das ruas, quadras, provisão de serviços de água, transporte, iluminação e saneamento. A estrutura de serviços públicos ou privados de cuidados para crianças. A estrutura dos serviços públicos de segurança, educação, saúde e assistência. Comportamento familiar de apoio às crianças (por exemplo, percentual de família que praticam reorientação disciplinar de comportamentos indesejáveis sem o uso de punição física ou psicológica). O uso de redes sociais e infraestrutura de saúde, educação e lazer. O tipo de organização civil na comunidade. A frequência, tipo e autores de abuso contra crianças. Os tipos de violência que são aceitos e rejeitados na comunidade, especialmente entre os pais de crianças pequenas.
Tendo em vista que a pesquisa já dispõe de um relatório detalhado de cada uma das comunidades pesquisadas, contabilizando mais de 1.000 páginas, constando quase que exclusivamente a análise de dados primários coletados pelos pesquisadores envolvidos na pesquisa, no presente relatório constará uma síntese sobretudo com aspectos comuns a todas elas. Com os relatórios das comunidades, buscou-se oferecer informações detalhadas sobre a situação da infância em cada uma delas, com o objetivo de subsidiar a tomada de decisão no planejamento de ações nessas regiões. O objetivo do presente relatório, ao contrário, é sintetizar os aspectos comuns identificados em todas elas relativamente à situação da infância a partir da percepção de diversos grupos, como lideranças locais, adolescentes, pais de crianças pequenas e as próprias crianças. No Capítulo 2 serão apresentadas brevemente as comunidades analisadas, destacando sua localização nas cidades de São Paulo e Guarulhos e características socioeconômicas. 5
No Capítulo 3 é apresentado o problema da infância e violência na perspectiva das lideranças locais; já o Capítulo 4 explora a mesma questão na visão daqueles que atuam nas comunidades pesquisadas provendo algum tipo de serviço, público ou privado. No Capítulo seguinte são apresentados os aspectos comuns sobre infância e violência na perspectiva dos pais de crianças pequenas, aos quais foram aplicados um questionário, cujos dados foram submetidos a análises de correlação e de regressão, além de cruzamentos, com o objetivo de realizar um diagnóstico sobre a violência praticada por pais de crianças pequenas e estimar a chance dessa violência ocorrer ou reduzir. No Capítulo 6, busca-se obter um diagnóstico do cotidiano de crianças a partir da visão delas próprias. Essa análise está baseada, por um lado, em um questionário aplicado a 30 a 42 crianças de 6 a 8 anos de idade em cada uma das comunidades e, por outro lado, a uma discussão em grupos de cerca de quatro crianças em cada uma das comunidades pesquisadas, cujo foco foi a família e o local onde residem. No Capítulo seguinte são sintetizados os aspectos comuns identificados nos grupos de discussão com adolescentes, cuja ênfase foi a vida desses jovens nas comunidades pesquisadas, assim como o período em que eles próprios eram crianças. No Capítulo final apresentamos uma conclusão dos resultados obtidos nessa pesquisa e algumas sugestões para subsidiar a elaboração de ações com vistas a reduzir ou eliminar a prática da violência contra crianças pequenas. Por derradeiro, cabe fazer um agradecimento a todas as instituições e pessoas que viabilizaram a realização deste empreendimento investigativo, que busca, a partir de agora, oferecer elementos sobre o cotidiano de crianças em São Paulo. Cabe fazer referência especial à Fundação Bernard van Leer e ao Instituto Alana, que financiaram a pesquisa. Na Fundação Bernand van Leer, um agradecimento especial a Leonardo Yanez, pela confiança e permanente diálogo, que tem feito os melhores esforços para subsidiar a tomada de decisão de gestores públicos e de organizações nãogovernamentais com o objetivo de garantir às crianças uma vida cotidiana sem a presença de qualquer tipo de violência. No Instituto Alana agradecemos especialmente o diálogo com Isabella Henriques. Cabe igualmente um agradecimento aos Professores do Departamento de Ciências Sociais da PUC-SP, em especial à Professora Dra. Silvana Tótora, ex-Coordenadora do Departamento de Ciências Sociais, pela parceria na realização deste estudo, assim como aos estudantes em Ciências Sociais da PUC-SP que 6
participaram da coleta dos dados, cujas atividades de campo estiveram sob a coordenação de Natasha Bachini. Por fim, cabe um especial agradecimento aos moradores das comunidades onde foram coletados os dados, que nos cederam seu tempo, opiniões e relatos de vida para compor a análise da presente pesquisa, cuja síntese será apresentada nas páginas a seguir. Da mesma forma, agradecemos às diversas organizações e pessoas que facilitaram o acesso dos pesquisadores às comunidades, um apoio inestimável.
2. Apresentação das comunidades Neste capítulo serão apresentados dados socioeconômicos sobre cada uma das comunidades pesquisadas, além de características sobre o processo de ocupação urbana. No Quadro 1 abaixo estão informados a quantidade da população, o número de domicílios, assim como a quantidade de crianças pequenas (0 a 8 anos) em cada uma das comunidades. Dentre elas, destacam-se o Jardim Pantanal e Pimentas-Água Chata como aquelas comunidades com o maior percentual de crianças.
Quadro 1: Número de habitantes e crianças nas comunidades pesquisadas
Comunidade
Habitantes
Domicílios
Crianças (0 a 8 anos)
Santa Cecília (cortiços)
12.070*
1.111*
1.681 (13,9%)*
Bela Vista (cortiços)
998*
288*
158 (14,17%)*
Jardim Pantanal Pedreira Parelheiros-Nova América Pimentas-Água Chata (Guarulhos)
9.468 6.570 3.713
2.568 2.003 1.026
1.749 (18,4%) 1.015 (15,4%) 526 (14,1%)
17.409
5.192
2.879 (16,5%)
Fonte: IBGE, Censo 2010 Nota: Estimativas a partir de dados fornecidos pelo Ato Cidadão, São Paulo
A Figura 1 identifica a localização, na cidade de São Paulo, dos bairros onde estão situadas as comunidades pesquisadas, da seguinte maneira: Santa Cecília e Bela Vista
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(Centro), Jardim Pantanal (Zona Leste 2 – Subprefeitura de São Miguel), Pedreira (Zona Sul – Cidade Ademar) e Parelheiros-Nova América (Zona Sul – Parelheiros).
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Figura 1: Mapa do município de São Paulo Fonte: http://www.sp-turismo.com/bairros-sp.htm
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A comunidade de Pimentas-Água Chata está situada no município de Guarulhos, localizado nas vizinhanças do município de São Paulo e Itaquaquecetuba (Figura 2).
Figura 2: Localização do bairro de Pimentas no território do município de Guarulhos Fonte: http://www.guarulhos.org/imagens/bairros/bairros_ung.jpg
Como afirmado anteriormente, foram utilizados diversos instrumentos para a produção dos dados que foram analisados. O Quadro 2 a seguir apresenta a quantidade de participantes ouvidos nas comunidades pesquisadas em cada um dos instrumentos adotados. A pesquisa ouviu 1.279 pessoas com os distintos instrumentos de coleta de dados adotados.
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Quadro 2: Participantes por instrumento de pesquisa Comunidade
Entrevista Moradores
Entrevista Stakeholders
Santa Cecília
6
6
Bela Vista Jardim Pantanal
6 7
Pedreira ParelheirosNova América
Questionários adultos
Questionário Crianças
Grupo de discussão (Adolescente)
Dinâmica com crianças
Narrativa biográfica
Total
151
30
7
20
6
226
4 6
140 159
30 29
4 11
9 6
4
193 222
6 7
6 7
151 133
30 30
12 5
6 5
-
211 187
PimentasÁgua Chata (Guarulhos)
7
7
179
35
6
6
-
240
Total
39
36
913
184
45
52
10
1.279
A seguir serão apresentadas algumas características de cada uma das favelas. Ao final destacaremos alguns elementos importantes tanto a distingui-las como que as tornam semelhantes de alguma maneira.
Santa Cecília O bairro de Santa Cecília está localizado na região central do município de São Paulo, pertencendo ao distrito de mesmo nome. De acordo com a divisão administrativa da cidade, a localidade vincula-se à região “Centro”, gerida pela subprefeitura da Sé 1 . Importantes referências urbanas de São Paulo estão localizadas em Santa Cecília, podendo-se citar grande parte do Elevado Presidente Costa e Silva (popularmente conhecido como “Minhocão”), o Largo Coração de Jesus, a Praça Princesa Isabel, a Praça Marechal Deodoro e a Estação Júlio Prestes. Além disso, inúmeras construções históricas – como antigas moradias de famílias pertencentes à antiga elite paulistana – estão fixadas no bairro.
A área total do distrito é de 3,8 km², comportando uma população de 84.780 pessoas, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2010). Embora essa população represente uma densidade demográfica de 163,31 habitantes por km², pode-
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A cidade de São Paulo é dividida em 31 subprefeituras. Embora a gestão seja baseada no princípio da descentralização, os subprefeitos são diretamente subordinados ao prefeito municipal, que os nomeia.
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se estimar que a quantidade de pessoas que transitam durante o dia na região – que, repita-se, está no centro de São Paulo – produza uma densidade bastante superior.
Em relação à estratificação etária e às crianças em particular, o distrito como um todo possui 6.950 crianças 2 entre zero e nove anos de idade (cerca de 8% do total da população). É interessante assinalar que o percentual relativamente baixo de crianças pode ser reflexo da transformação sentida pela região central da capital paulista, área que paulatinamente passou a ter hegemonia de atividades comerciais, o que afastou moradores tradicionais.
Localizado no coração da cidade, o bairro de Santa Cecília tornou-se local preferido pelos grandes empreendedores para a construção de seus palacetes. Dentre eles, destacam-se as famílias Barros, Queiroz e Prado, que compraram chácaras nos arredores e movimentaram a vida econômica e social dos paulistas. O legado dos célebres precursores fez com que várias ruas da localidade carreguem seus nomes. Ademais, algumas das construções por eles encomendadas permanecem de pé até os dias de hoje. Contudo, a opulência das moradias pertencentes àqueles que Oliveira Vianna (1973) classificou como “aristocracia da terra” choca-se com as más condições de vida enfrentadas pelos moradores menos favorecidos. É o caso de Santa Cecília, onde é possível encontrar cortiços (chamados também de “pensões”) originados da readaptação de velhos casarões abandonados.
Figura 3: Velho casarão em Santa Cecília
Figura 4: Criança no interior de cortiço
Fonte: http://colunas.revistaepocasp.globo.com/centroavante/category/gente/ Fonte: http://www.saopauloantiga.com.br/casarao-ruaadolfo-gordo-280 2
Dados disponíveis em http://www.nossasaopaulo.org.br/observatorio/regioes.php?regiao=6&distrito=70.
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Santa Cecília é o sétimo distrito onde há maior abandono do ensino fundamental na rede pública (2,2% dos alunos), sendo que 14,7% dos alunos do bairro apresentaram dois anos ou mais de defasagem em relação à idade ideal para as séries do ensino fundamental na rede pública (dado que coloca Santa Cecília em penúltimo lugar neste indicador entre os 96 distritos de São Paulo).
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Apesar disso, o Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) da rede pública de 1ª a 4ª série das escolas da comunidade foi de 5,80 (o sexto melhor da cidade). O mesmo, porém, não ocorre para as escolas públicas de 5ª a 8ª série, as quais obtiveram a 14° pior nota entre as escolas dos distritos analisados 4 . Os indicadores de reprovação no ensino fundamental público igualmente são péssimos em Santa Cecília: 8,55% dos alunos matriculados foram reprovados em 2011, o que configura o sexto pior índice da cidade.
No que diz respeito à segurança pública, a cidade de São Paulo, a maior da América Latina, com uma população superior a onze milhões de pessoas5, enfrenta problemas. Contudo, com 11,9 homicídios por 100.000 habitantes, a cidade apresenta o menor índice de homicídios por 100.000 habitantes entre as 27 capitais brasileiras, de acordo com o Mapa da Violência (2013, p.48). Santa Cecília tem nos roubos e furtos seus principais problemas no campo da segurança pública. Com efeito, foram registrados nada menos que 1.197 roubos no bairro durante os nove primeiros meses de 2013 (média de 133 casos mensais). Da mesma forma, 2.374 furtos foram registrados no mesmo período (média de 263 casos mensais). Chama a atenção, por outro lado, o elevado índice de estupros cometidos no bairro, tendo sido registrados quatorze estupros nos primeiros nove meses de 2013.
Bela Vista Já há registros de Bela Vista no ano de 1559, pouco tempo depois da fundação de São Vicente (primeira denominação de São Paulo). Com o avançar do tempo, porém, a área mudou de proprietário, que por ter sofrido de varíola, recebeu a alcunha de “Antônio 3
http://www.nossasaopaulo.org.br/observatorio/analises_distritos.php?tema=4&indicador=7&ano=2011& regiao=70. O mesmo ocorre em relação à porcentagem de alunos com dois anos ou mais de defasagem em relação à idade ideal para as séries do ensino médio na rede pública de Santa Cecília: 36,47% dos alunos estão nessa situação (o terceiro pior resultado de São Paulo). 4 http://www.nossasaopaulo.org.br/observatorio/analises_distritos.php?tema=4&indicador=130&ano=200 9®iao=70#info 5 Conforme o último recenseamento promovido pelo IBGE, em 2010 a cidade contava com 11.253.503 habitantes.
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Bexiga”6. Além de acabar por designar o bairro inteiro (que popularmente é conhecido como “Bixiga”, com “i”), Antônio é referido nos famosos relatos de viagens de SaintHilaire, que percorreu o Brasil no início do século XIX. Contudo, na segunda metade daquele século, um número crescente de imigrantes italianos passou a acomodar-se no bairro. Vindos de todas as partes da Itália, os imigrantes instalavam-se sobretudo em zonas menos centrais do Brasil, dedicando-se à agricultura e ao cultivo das vinhas7. A oferta de terras na atual Bela Vista, porém, seduziu os italianos mais afeitos à vida urbana, e suas tradicionais casas de comércio começaram a colorir o bairro, que há tempos se tornou referência na área cultural e boêmia da capital paulista. As condições precárias das vilas e cortiços na região é um problema para os moradores. É o caso da Vila Itororó, construída na década de 1920. O local, cuja área era de 4,5 mil m², foi erguido a partir de um grande palacete que se valeu de parte das estruturas do antigo Teatro São José. A vila possuía cerca de quarenta casas destinadas para arrendamento. Com o tempo a vila passou a degradar-se, e muitos moradores fixaram habitações irregulares e ilegais no entorno. Ademais, diante da indefinição acerca dos direitos de herança sobre as propriedades do fundador do local, muitos moradores pararam de pagar os aluguéis, o que gerou um longo contencioso judicial. Em março de 2013 as últimas famílias foram desalojadas e conduzidas para um conjunto habitacional construído pelo Estado. Em relação à antiga vila, há um processo de restauração em curso, que visa, a priori, construir um centro cultural e gastronômico na região. Porém, a situação atual é de franco abandono. Embora a Vila Itororó seja a localidade mais emblemática, Bela Vista possui outras áreas de cortiços que também passam por ampla reformulação. É o caso da Rua Paim, que foi historicamente marcada pela presença de cortiços e moradias populares no “Bixiga”. Após uma política de recolocação dos moradores em outras áreas da cidade, as velhas habitações decadentes cedem lugar à construção de grandes edifícios. A política de revitalização das áreas de cortiço, tem implicado na remoção dos moradores. Essa fórmula acarreta duas diferentes visões: por um lado, muitas pessoas a enxergam como uma modernização necessária para a cidade, ao passo que outras julgam que os A varíola era então popularmente conhecida como “bexiga”. O imigrantes italianos, bem como os alemães, acomodaram-se especialmente no sul do Brasil durante o século XIX. Apesar disso, pode-se perceber sua presença também em estados como São Paulo. 6 7
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antigos moradores tinham o direito de permanecer nas habitações que ocupavam. A despeito disso, porém, é razoável supor que as atuais ações de despejo continuarão e que os cortiços que ainda persistem em Bela Vista tenderão a minguar ainda mais no futuro, até porque a localidade tem posição geográfica valorizada e estimula investimentos em construção civil. O principal problema de segurança na região é o tráfico de drogas. Foram 138 ocorrências registradas, além de 68 casos de pessoas flagradas portando entorpecentes. Nesse sentido, é bastante presumível que o grande número de pessoas que transitam pela área diariamente favoreça a ação de traficantes, que podem oferecer a droga em um local de fácil acesso e para um público variado. Ademais, a intensa vida noturna em bairros como Bela Vista igualmente tende a atrair traficantes e consumidores para as adjacências. Outras modalidades de crime, no entanto, também se verificam na região. O número de 656 pessoas presas em flagrante atesta essa realidade. São praticamente duas prisões em flagrante por dia em média nessa subprefeitura. Se noventa e uma pessoas foram presas em suas moradias através do cumprimento de mandato judicial, pode-se inferir que muitos criminosos atuam e residem na região. Embora tenha registrado um pico de 18,59 homicídios para cada cem mil habitantes em 2007, o bairro parece ter se recuperado, chegando em 2011 (último período analisado) à casa dos 5,73 homicídios (quatro casos no total) para cada cem mil habitantes.
Jardim Pantanal A localidade designada como Jardim Pantanal situa-se na capital do Estado de São Paulo e pertence ao distrito denominado Jardim Helena, região de São Miguel Paulista. Estando no extremo leste da cidade, o Jardim Pantanal é vizinho dos municípios de Itaquaquecetuba e Guarulhos. O local se caracteriza sobretudo pela íntima conexão com o Rio Tietê, bem como com trechos de mata ainda pouco explorados pela ocupação urbana.
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Figura 5: Vista aérea de parte do Jardim Pantanal Fonte: http://blogs.estadao.com.br/olhar-sobre-o-mundo/rio-tiete/
Embora já registrasse moradores anteriormente, o Jardim Pantanal começou a se formar na década de 1980, quando o então governador de São Paulo fez cumprir uma ordem judicial para reintegrar terrenos invadidos em Itaim Paulista. Sem terem onde morar, as famílias despejadas (cerca de duzentas) instalaram-se no local onde hoje há a comunidade. A ocupação cresceu rapidamente, abrangendo novos espaços. O terreno ocupado pela comunidade está abaixo do nível da várzea do Rio Tietê e não raro enfrenta alagamentos que prejudicam a rotina de seus moradores. A imagem abaixo ilustra essa situação (Figura 6).
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Figura 6: Vista aérea do Jardim Pantanal alagado pelas águas do Rio Tietê Fonte: http://blogs.estadao.com.br/olhar-sobre-o-mundo/sao-paulo-debaixo-dagua/
Conforme o IBGE (2010) 8 , o Jardim Helena (distrito no qual Jardim Pantanal está localizado) abriga 135.358 habitantes (dos quais 21.091 – 15,58% – são crianças entre zero e nove anos de idade). A localidade conta com 38.247 residências (média de 3,5 moradores por domicílio). Embora o índice de alfabetização não chegue a ser ruim (95,1%), mais de um terço dos moradores (36,5%) possui renda de até dois salários mínimos mensais, enquanto uma fração ínfima (menos de 2%) obtém mais de dez salários ao mês. A porcentagem de empregos na região em relação ao total da cidade é de apenas 0,14%, (oitavo menor índice entre os 96 distritos de São Paulo)9.
No que diz respeito ao atendimento de saúde, a comunidade não dispõe de nenhum hospital, embora contenha quatro unidades básicas públicas de atendimento de saúde em seu território. Destaca-se uma AMA (Assistência Médica Ambulatorial) que pertence à zona do Jardim Helena e ao menos dois hospitais públicos relativamente próximos, o Santa Marcelina (em Itaim Paulista) e o Tide Setúbal (em São Miguel Paulista).
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Dados disponíveis em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2010/caracteristicas_da_populacao/caracteristicas_da_populacao_tab_rm_zip_xls.shtm>. 9 http://www.nossasaopaulo.org.br/observatorio/analises_distritos.php?tema=11&indicador=52&ano=201 0®iao=43#info
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As crianças pequenas têm a saúde comprometida devido a diversos fatores. Se a gravidez na adolescência é bastante alta (é de 17,45 a porcentagem de nascidos vivos cujas mães tinham 19 anos ou menos, o 12° pior índice da cidade), preocupa bastante a mortalidade infantil: 16,49% das crianças morrem antes de completarem um ano, o sétimo pior resultado entre os 96 distritos de São Paulo. Por fim, a mortalidade materna é impressionante: em 2010, a cada cem mil nascidos, morreram 169,06 gestantes (o quinto pior índice registrado na cidade, que tem média de 51,9 mortes deste tipo)10. Embora os números da segurança pública digam respeito a um território que ultrapassa a comunidade de Jardim Pantanal, percebe-se que a zona em que ela está inserida convive cotidianamente com a violência. Merece atenção os 32 casos de estupro, os quase 1500 roubos e os 759 furtos registrados entre janeiro e novembro de 2013.
Pedreira Pedreira é um distrito que está localizado na zona sul da cidade de São Paulo, pertencendo, juntamente com o distrito de Cidade Ademar, à região administrativa da subprefeitura de Cidade Ademar. A comunidade é marcada pela presença da Represa Billings (maior reservatório de água da cidade) e pelas habitações erguidas em áreas elevadas e de mananciais. As partes norte e central são densamente habitadas, ao passo que a porção sul do bairro, devido à proximidade com as águas e com a vegetação ainda conservada, apresenta sobretudo chácaras. A beleza da paisagem com matas e águas é ofuscada quando se verifica que a realidade social de outras áreas da comunidade é bastante preocupante. Ainda no final da década de 1960, as áreas periféricas do município de São Paulo começaram a sofrer o processo de ocupação, o que se acentuou a partir dos anos 1980, especialmente na zona sul. A maior parte da população residente do Distrito Administrativo de Pedreira conta com paisagens de vegetação nativa do Bioma Mata Atlântica, e aspectos socioambientais afetam diretamente a qualidade de vida da comunidade local, a qualidade da água das represas e a conservação das áreas de mananciais, visto que as Represas Billings e Guarapiranga contribuem com 36,6% da 10
http://www.nossasaopaulo.org.br/observatorio/analises_distritos.php?tema=10&indicador=31&ano=201 1®iao=43#info
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água destinada ao abastecimento público do município de São Paulo. A presença de inúmeras construções irregulares dão origem a favelas precárias que convivem constantemente com o risco de desabamentos de terra (Figura 7).
Figura 7: Vista de favela do bairro após deslizamento de terra Fonte: http://noticias.uol.com.br/album/110707deslizamento_album.jhtm
Com efeito, tais tragédias decorrem da construção de casebres em áreas íngremes e desprovidas de proteção vegetal adequada, situação que faz com que as chuvas frequentes do verão paulistano produzam seu estrago. Ademais, muitas residências estão erguidas sem qualquer segurança à beira de córregos e cursos d´água. Em virtude disso, cenas como aquelas retratadas na figura a seguir infelizmente não são raras (Figura 8).
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Figura 8: Casa parcialmente tomabada na Pedreira (janeiro de 2012) Fonte: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2012/01/defesa-civil-interdita-casas-apos-desabamentos-na-zona-sul-de-sp.html
Nada menos que 24,65% dos domicílios do bairro (10.371) estão localizados em favelas. Trata-se de um índice bastante alto em relação ao restante da cidade, visto que apenas seis localidades possuem proporcionalmente mais casas em favelas do que Pedreira11. Em virtude disso, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) considera que mais da metade das pessoas da subprefeitura de Cidade Ademar (onde está localizado o distrito de Pedreira) estão residindo “em setores de alta ou altíssima vulnerabilidade”12. Para além do grave problema dos deslizamentos e das más condições de moradia, Pedreira também sofre com a Poluição da Represa Billings, que afeta também as crianças. Possuindo 110 km² de espelho d´água, a represa auxilia a produção de energia da Hidrelétrica de Cubatão e recebe águas de alguns dos mais importantes rios de São Paulo. Contudo, os detritos provenientes de tais rios – frutos do despejo generalizado de esgoto sem qualquer tratamento – se acumulam na represa e ameaçam a saúde daqueles que habitam zonas como a da Pedreira.
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Ver http://www.nossasaopaulo.org.br/observatorio/analises_distritos.php?tema=7&indicador=44&ano=2011®iao=59#info 12 Fonte: Censo demográfico 2000, IBGE. Elaboração CEPID-FAPESP/Centro de Estudos da MetrópoleCEBRAP, 2002.
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Parelheiros-Nova América A localidade de Parelheiros situa-se no extremo-sul da cidade de São Paulo (cerca de 50 quilômetros do centro). Trata-se de um dos distritos com maior território no município (152,3 Km²) e possui sua própria subprefeitura. A região é conhecida pela presença de remanescentes da Mata Atlântica, de nascentes de rios (que alimentam as represas Billings e Guarapiranga), de quedas d´água e de paisagens rurais. Outra característica marcante é a presença de duas comunidades indígenas de etnia guarani no território de Parelheiros: as aldeias de Tenondé Porã e de Krucutu. Parelheiros abriga em seu território uma população de 142.145 pessoas (IBGE, 2010)13, dos quais 23.943 (16,8%) são crianças entre zero e nove anos de idade. Apesar da baixa densidade demográfica (855 hab./km²) e do alto percentual de habitações em zona rural (55,3%), Parelheiros apresenta alguns indicadores sociais bastante distantes do ideal. É o caso das favelas (Figura 9), que congregam 10,58% dos domicílios da região e do baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH): 0,747, o penúltimo lugar entre os 96 distritos do município de São Paulo14.
Figura 9: Favela em Parelheiros Fonte: http://blogs.estadao.com.br/edison-veiga/2012/05/01/aniversario/
13
Dados disponíveis em: <http://www.nossasaopaulo.org.br/observatorio/regioes.php?regiao=28&distrito=56>. 14 Ver <http://www.policeneto.com.br/wp-content/uploads/2012/08/CMSP_Cadernos_PARELHEIROS_AFWEB_8-8-2012.pdf>.
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Muitas crianças pequenas encontram dificuldades desde o berço em Parelheiros. Nesse sentido, 12,4 crianças morreram antes de um ano de idade a cada mil nascidas vivas (2011). Também é preocupante o elevado índice de crianças nascidas a partir de gravidez precoce. A região novamente apresenta o pior índice da cidade: 19,62% das crianças nascidas no ano de 2012 tiveram mães com dezenove anos ou menos. Ademais, 28,89% das mães de nascidos vivos realizaram menos de sete consultas pré-natal (o terceiro pior índice do município)15. O número de homicídios em Parelheiros foi de 14,7 por cem mil habitantes em 2011, o segundo pior resultado da cidade. Da mesma forma, o número de óbitos por causas externas (acidentes e violências) foi de 59,80 mortos por cem mil habitantes: o pior índice da cidade. É especialmente grave os 35,4 óbitos por homicídio entre jovens do sexo masculino de 15 a 29 anos, por cem mil habitantes dessa faixa etária e sexo.
Pimentas-Água Chata Localizado na faixa leste do município de Guarulhos, o distrito de Pimentas é formado por quarenta bairros e tem limites com a cidade de Itaquaquecetuba e com os distritos de Jardim Helena e São Miguel Paulista, pertencentes à cidade de São Paulo. A localidade possui uma área total de cerca de 15 km², está próximo ao Aeroporto Internacional de Cumbica e é cruzado por algumas das mais importantes rodovias de São Paulo: a Ayrton Senna e a Presidente Dutra. As características profundamente urbanizadas igualmente se exprimem no fato de que Pimentas é o distrito mais populoso de Guarulhos, com 156.748 habitantes. Destes, 16,8% são crianças entre zero e nove anos de idade (IBGE, 2010). Contudo, a qualidade dessa urbanização pode ser questionada, uma vez que partes importantes do bairro são dominadas por moradias precárias inseridas em territórios bastante falhos em termos de infraestrutura. De fato, regiões como a de Pimentas são consideradas pela própria prefeitura de Guarulhos como “locais carentes de infraestrutura e, em princípio, inadequados à ocupação, considerando restrições de ordem geológica e ou ambiental”16.
15
http://www.nossasaopaulo.org.br/observatorio/analises.php?tema=10&indicador=31&ano=2011®iao =0#info 16 Conforme o documento “Plano Local de Habitação de Interesse Social em Guarulhos”, elaborado pela Secretaria Municipal de Habitação (2011, p. 58). Disponível em: <http://www.guarulhos.sp.gov.br/files/PLHIS_Guarulhos_diagnostico(1).pdf>.
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Nesse sentido, “caracteriza-se pela urbanização periférica, com exiguidade de áreas verdes e institucionais, descontinuidade do sistema viário, lotes de tamanho reduzido, frequentemente subdivididos e com mais de uma família residente” 17. Atualmente, o distrito é bastante urbanizado e apresenta o maior índice de crescimento populacional de Guarulhos, possuindo uma considerável teia de serviços e estabelecimentos comerciais. Em virtude disso, Pimentas torna-se palco de grande especulação imobiliária, de modo que o ramo da construção civil investe fortemente na região. De acordo com o Mapa da Violência (2012), a cidade de Guarulhos foi considerada a décima primeira cidade mais violenta entre os 39 municípios que compõem a região metropolitana de São Paulo. Localizada em uma região de Guarulhos repleta de problemas, não causa surpresa que a comunidade de Pimentas enfrente grandes desafios na área de segurança pública. Mais de 25% das ocorrências de tráfico de entorpecentes foram registrados em Pimentas, que assim demonstra ser um dos grandes focos da ação dos traficantes em Guarulhos. Reforça a conclusão o fato de que Pimentas respondeu por quase a metade (42,3%) do volume total de drogas apreendidas em 2013. O tráfico de drogas impulsiona várias outras modalidades de crime e compromete bastante a qualidade de vida dos moradores das redondezas, inclusive das crianças. Sendo assim, o tráfico definitivamente surge como um dos grandes desafios enfrentados pela comunidade na atualidade.
Balanço Com exceção das regiões localizadas no centro de São Paulo (Santa Cecília e Bela Vista), as demais regiões analisadas possuem, em comum, a precariedade da infraestrutura urbana. Em comum, todas as comunidades pesquisadas apresentam precariedade nas condições de moradia, além de conviverem com atividades de violência, sobretudo relacionadas ao tráfico de drogas. Os relatórios específicos de cada comunidade (acessíveis em www.pucrs.br/caes) dão conta das especificidades de cada uma delas.
17
Idem, p. 48.
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3. A opinião de lideranças locais Os pesquisadores buscaram conhecer a visão de lideranças que residem em cada uma das comunidades pesquisadas sobre as características da região, os principais problemas enfrentados pelos moradores, assim como sobre os problemas enfrentados pelas crianças, em especial sobre a violência testemunhada e sofrida pelas crianças – em casa e na comunidade. A seleção dos entrevistados foi aleatória, por indicação dos próprios moradores. As pessoas entrevistadas são reconhecidas na comunidade seja por liderarem alguma organização ou iniciativa local ou ainda por ser morador(a) antigo(a) na região. Destacamos a seguir os aspectos comuns identificados nas manifestações das lideranças, obtidas por intermédio de entrevistas semiestruturadas: Nas regiões centrais da cidade, um dos principais problemas destacados pelas lideranças locais estão relacionados ao consumo e comércio de drogas nas ruas da comunidade. Com isso, as crianças ficam expostas ao consumo de drogas, havendo a possibilidade das crianças serem cooptadas para se envolverem no comércio ou uso de drogas. Nas demais comunidades destaca-se a precariedade das condições de urbanização, que afetam as condições de saúde (saneamento), moradia, transporte e lazer da população das comunidades analisadas. O problema da violência contra a criança não é percebido de maneira uniforme entre as lideranças ouvidas. Parte dos entrevistados desconhecem ou negam que este seja um problema recorrente nas comunidades onde residem. Outros entrevistados apontam a violência contra a criança como sendo um problema observado nas comunidades em que residem. Em contraste com ao tema de violência contra a crianças, diversos entrevistados apontam a violência contra mulheres na comunidade como um problema recorrente. Os casos de agressões são mencionados pela maioria dos entrevistados. É consensual entre as lideranças ouvidas a necessidade de locais de lazer para as crianças, já que a ausência desses espaços é especialmente prejudicial a elas, de acordo com as lideranças entrevistadas. Observa-se a fragilidade na presença e densidade de organizações da sociedade civil nas comunidades pesquisadas. 24
4. A visão de prestadores de serviços nas comunidades (stakeholders) Com vistas a ampliar o conhecimento sobre a vida nas comunidades pesquisadas, foram ouvidos representantes de órgãos ou instituições que prestam serviço nas comunidades, como serviços de saúde, educação, segurança, além daquelas que desenvolvem atividades sociais e religiosas. Destacamos a seguir posições recorrentes nas manifestações desses profissionais, que, assim como as lideranças locais, foram obtidas em entrevistas semiestruturadas: É quase um consenso entre os entrevistados, que alguns dos principais problemas nas comunidades analisadas estão vinculados de alguma maneira ao comércio e consumo de drogas. Diferente das lideranças locais, os entrevistados reconhecem a violência doméstica contra crianças como um problema recorrente e grave. Por outro lado, alguns entrevistados afirmam que a violência sofrida pela criança nas ruas da comunidade são ainda mais frequentes que no interior dos domicílios. Destacam a frequência da violência contra a mulher nas comunidades em que atuam. Apontam a ausência de áreas de lazer como um dos principais problemas a afetar o cotidiano das crianças. Destacam a má qualidade da infraestrutura (moradia, ruas, saneamento, transporte), assim como dos serviços públicos prestados à comunidade. Em algumas comunidades os entrevistados apontam a baixa densidade de organizações sociais locais.
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5. Infância na perspectiva dos pais e responsáveis
Com o objetivo de aprofundar o conhecimento acerca do cotidiano de crianças pequenas, foi aplicado um questionário contendo 52 perguntas a pais ou responsáveis por crianças nas comunidades pesquisadas, tendo sido respondido por um total de 913 pais ou responsáveis por crianças pequenas. Além das características dos pais e do grau de satisfação em relação a vários serviços prestados diretamente na comunidade, buscou-se obter informações sobre a dimensão da violência testemunhada e sofrida pelas crianças na perspectiva de seus pais e responsáveis. A seguir são destacados alguns resultados.
5.1. Violência testemunhada por adultos na comunidade
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Alguns tipos de violência foram investigados quanto à frequência com que são testemunhados pelos adultos, pais ou responsáveis por crianças pequenas, nas ruas da comunidade (Figura 10), a saber: Ouve tiros de armas de fogo; Policial apontando arma de fogo; Outras pessoas apontando arma de fogo. Gente vendendo drogas nas ruas da comunidade.
Figura 10: Tipos de violência testemunhada pelo adulto na comunidade
Gente vendendo drogas A maioria (62%) dos 913 adultos entrevistados em São Paulo já testemunhou gente vendendo drogas nas ruas. Uma grande parcela (40%) testemunha “sempre” e uma minoria testemunha “quase sempre” (6%), “às vezes” (10%) e “raramente” (6%). Pouco mais de um terço (38%) nunca presenciou (Figura 10). Os resultados não revelam uma correlação entre a frequência com que o adulto bate na criança e a frequência com que ele vê pessoas vendendo drogas na comunidade, indicando não haver influência (ou se houver não é significativa estatisticamente) entre esse fator e a frequência com que o adulto bate na criança. 27
Ouvir tiros de armas de fogo “Ouvir tiros de armas de fogo” é o segundo tipo de violência mais testemunhado pelo adulto em São Paulo. Mais da metade dos adultos entrevistados (51%) já ouviu tiros de armas de fogo, sendo que uma minoria ouve “sempre” (5%), “quase sempre” (5%) e parcelas mais significativas ouve “às vezes” (19%) e “raramente” (22%). Pouco menos da metade (49%) nunca ouviu (Figura 10). Os resultados não revelam uma correlação entre a frequência com que o adulto bate na criança e a frequência com que ouve tiros de arma de fogo na comunidade, indicando não haver influência (ou se houver não é significativa estatisticamente) entre esse fator e a frequência com que o adulto bate na criança. Policial apontando arma de fogo “Policial apontando uma arma de fogo” é o terceiro tipo de violência mais testemunhado pelo adulto nas ruas das comunidades. Quase a metade dos entrevistados já viu policial apontando uma arma de fogo nas ruas (47%). Sendo que 10% vê “sempre”, 5% “quase sempre”, 12% “às vezes” e 20% vê “raramente”. Mais da metade (53%) nunca viu (Figura 10). Os resultados revelam uma correlação positiva (spearmam, c= 0,069, sig=0,038) entre a frequência com que adultos veem policial apontando uma arma de fogo com a frequência com que batem na criança, indicando que adultos que veem policial apontando arma de fogo batem mais frequentemente na criança. Essa correlação não é muito explícita, a menos que observemos que as parcelas daqueles que batem “sempre” e “quase sempre” são um pouco maiores entre aqueles que veem policial apontando armas de fogo “sempre”/“quase sempre” e “às vezes”. Da mesma forma que entre aqueles que nunca viram policiais apontando armas de fogo, as parcelas entre aqueles que veem “sempre”/“quase sempre” é menor do que entre aqueles que veem raramente (Figura 11).
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Figura 11: Frequência com que o adulto testemunha violência na comunidade com a frequência com que bate na criança
Outras pessoas apontando uma arma de fogo Representa uma minoria (17%) aqueles que já viram pessoas da comunidade apontando uma arma de fogo, a expressiva maioria dos entrevistados (83%) nunca viu (Figura 10). Os resultados não revelam uma correlação entre a frequência com que o adulto bate na criança e a frequência com que ouve tiros de arma de fogo na comunidade, indicando não haver influência (ou se houver não é significativa estatisticamente) entre esse fator e a frequência com que o adulto bate na criança.
Abuso sexual contra crianças A pesquisa buscou saber se os moradores das seis comunidades já ficaram sabendo de abuso sexual contra crianças nas comunidades onde residem. A maioria nunca ficou sabendo (73%), mas 27% já ficou sabendo, sendo que 17% “raramente”, 7% “às vezes” fica sabendo, 1% fica sabendo “quase sempre” e 2% “sempre” fica sabendo (Figura 12).
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Figura 12: Violência sexual contra crianças na comunidade
5.2. Violência testemunhada em casa pela criança (na percepção dos adultos)
Perguntou-se aos adultos a frequência com que a criança testemunha, em casa, determinados tipos de violência. Alguns adultos admitiram que, em casa, alguns tipos de violência acontece entre eles, na frente da criança (Figura 13), como: Adulto gritando com adulto; Adulto batendo em adulto; Homem batendo em mulher.
Figura 13: Tipos de violência testemunhada pela criança em casa
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Adulto gritando com adulto Mais da metade dos adultos entrevistados (57%) admitiram que, em casa, “adultos gritam com adultos” na frente da criança. Menos da metade (43%) afirmou que esse tipo de atitude entre adultos “nunca” aconteceu (Figura 13). Adulto batendo em adulto Apenas 11% dos adultos entrevistados revelou que, em casa, a criança testemunha “adulto batendo em adulto”. Portanto, para a expressiva maioria (89%) a criança nunca testemunhou “adulto batendo em adulto”, em casa (Figura 13). Homem bate em mulher Apenas 7% dos adultos entrevistados admitiram que, em casa, homem bate em mulher na frente da criança. Para a expressiva maioria (93%) dos entrevistados a criança nunca testemunhou “homem batendo em mulher”, em casa (Figura 13).
5.3. Violência praticada pelos adultos contra as crianças
Entre os três tipos de violência praticados por adulto dentro de casa contra a criança de até 8 anos de idade, a saber: gritar, colocar de castigo e bater, todas elas são praticadas pela maioria dos adultos, sendo que gritar é a mais praticada, seguida de colocar de castigo e bater. A expressiva maioria dos adultos (79%) grita com a criança mais velha (de até 8 anos de idade), sendo que 16% grita “sempre”, 13% grita “quase sempre”, 34% grita “às vezes” e 16% grita “raramente”. Apenas 21% dos adultos nunca gritou com a criança. Quanto à prática de colocar de castigo, a maioria (56%) dos adultos coloca a criança de castigo, sendo que 8% coloca “sempre”, 9% “quase sempre”, 26% “às vezes” e 13% “raramente”. Por fim, em relação à prática de bater (que inclui aqueles que “batem”, assim como aqueles que dão “uns tapas”), mais da metade admitiu que já o fez, sendo que 3% e 3% o fazem “sempre” e “quase sempre”, 26% fazem “às vezes” e 13% fazem “raramente”. Menos da metade dos adultos (47%) nunca bateu na criança (Figura 14).
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Figura 14: Frequência com os tipos de violência (física e psicológica) são praticados em casa
Grupos de adultos Os resultados revelam uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos quanto à frequência com que batem na criança (K-W, chi² = 21,028, sig = 0,000). A mãe e a avó se destacam como aquelas que batem com mais frequência do que os demais grupos e o pai se destaca como aquele que menos bate. A maioria (58%) das mães bate na criança (menos da metade, portanto, 42% nunca bateu), sendo que 3% e 4% bate “sempre” e “quase sempre”, 30% batem “às vezes” e 21% “raramente”. Logo em seguida estão as avós, 51% delas bate, sendo que 1% e 2% batem “sempre” e “quase sempre”, 22% “às vezes” e 26% “raramente”. Os pais são os que batem com menos frequência, a maioria nunca bateu (61%), portanto, 37% deles já bateram, sendo que 1% bate “sempre”, 17% bate “às vezes”, 21% raramente. O grupo dos outros (composto por tias, tios, primas, primos, irmãos, avô, etc.) bate com um pouco mais de frequência do que o grupo de pais e menos do que as mães e avós. A maioria do grupo dos “outros” nunca bateu (59%). Entre os 41% do grupo que já bateram na criança, 6% e 3% batem “sempre” e “quase sempre”, 20% batem “às vezes” e 12% “raramente” (Figura 15).
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Figura 15: Frequência com que cada grupo (mãe, pai e avó) bate na criança
Portanto, a mãe se destaca do pai e do grupo dos “outros” quanto à frequência com que bate na criança, mas não se destaca da avó. Enquanto a maioria dos pais e dos “outros” nunca bateu na criança, a maioria das mães e das avós já bateu, sendo que parcelas significativas de todos os grupos batem “às vezes”/“raramente” e uma minoria bate “sempre”/“quase sempre” (Figura 15). Renda mensal da mãe Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a renda mensal da mãe e a frequência com que ela bate na criança. Os dados mostram que mães com renda menor que o salário mínimo batem com um pouco mais de frequência do que as demais e mães com renda maior ou igual a 3 salários mínimos batem com um pouco menos de frequência. A maioria das mães com renda menor que o mínimo (67%) batem, sendo que 3% e 5% batem “sempre” e “quase sempre”, 28% “às vezes” e 31% “raramente”. No entanto, parcela significativa das mães com renda maior que 3 mínimos batem (50%), sendo que 10% batem “sempre”, outros 10% bate “às vezes” e 30% “raramente”. As mães que não têm renda estão entre aquelas que mais batem (59% batem) e as mães que recebem bolsa família estão entre aquelas que menos batem (49% batem) (Figura 16).
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Figura 16: Renda mensal das mães e a frequência com que bate na criança
Idade da mãe Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a idade da mãe e a frequência com que bate na criança. As mães entre 25-34 e 35-44 anos batem na criança com um pouco mais de frequência do que as demais, mas sem muita diferença para aquelas que batem menos, que são as mães com idade de 45 a 54 anos. Mais da metade das mães com 25-34 e 35-44 (61% e 62%, respectivamente) batem na criança, sendo que parcelas significativas o fazem “às vezes” (30% e 28%) e uma minoria “sempre” e “quase sempre”. Em seguida, as mães com idade entre 25-34 anos, cuja maioria (61%) bate na criança, porém, parcelas bem menores o fazem “sempre” (4%) e “quase sempre” (3%). Depois as mães com idade de 55 a 64 anos, 50% batem, todas elas “às vezes”; em seguida as mães de 18 a 24 anos, em que mais da metade bate (52%), sendo que 31% o fazem “às vezes”, 2% “sempre” e 6% “quase sempre” e as mães com 17 anos ou menos, em que o índice é um pouco menor (46%). Porém, a frequência é maior, uma vez que 11% batem “sempre” e 33% “às vezes”. Por último, as mães com 45-54 anos; porém, mais da metade (52%) batem, sendo que 4% “sempre”, 4% “quase sempre”, 26% “às vezes” e 18% “raramente” (Figura 17).
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Figura 17: Idade da mãe e frequência com que bate na criança
Escolaridade da mãe Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a escolaridade da mãe e a frequência com que ela bate na criança. Os dados revelam alguma diferença mostrando que a mãe com formação até o ensino médio (2° grau) incompleto bate com mais frequência e a mãe com curso superior incompleto bate com menos frequência. A maioria das mães com 2° grau (ensino médio) incompleto (66%) bate, sendo que 1% e 7% bate “sempre”/“quase sempre”, 36% “às vezes” e 22% “raramente”. Entre as mães com curso superior incompleto a maioria também bate (64%). Porém, 0% bate “sempre” e quase a metade (46%) bate “raramente”, por isso esse é o grupo que menos bate na criança (Figura 18). Entre as mães com curso superior completo, embora o índice das que batem seja menor (57%), a frequência é maior, pois quase a metade do grupo bate “às vezes” (43%), embora nenhuma bata “sempre”/“quase sempre”. Entre as mães com 1° grau (ensino básico) incompleto a frequência também é alta, a maioria bate (60%), sendo que 5% bate “sempre”, 3% bate “quase sempre” e 33% bate “às vezes”. Em quarto lugar como a mãe que bate com mais frequência estão as mães não alfabetizadas, seguidas das mães com 1° e 2° graus completos (50%, 59% e 53% batem) (Figura 18).
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Figura 18: Escolaridade da mãe e frequência com que bate na criança
Idade da criança e frequência com que a mãe bate Os dados revelam uma diferença estatisticamente significativa entre a idade das crianças e a frequência com que a mãe bate nela (K-W, chi²=72,374, sig=0,000). A criança de 3 anos se destaca como aquela cuja mãe mais bate e a criança de 0 a 11 meses se destaca como aquela cuja mãe menos bate. A maioria das mães (83%) cujas crianças tem 3 anos bate na criança, sendo que 4% e 4% batem “sempre” e “quase sempre”, 52% bate “às vezes” e 23% bate “raramente”. Apenas 17% das mães cujas crianças mais velhas têm a idade de 3 anos nunca bateu na criança. Enquanto entre as mães de crianças de até 11 meses, 100% nunca bateu. Entre as demais mães o índice da violência física (bater ou dar uns tapas) praticada contra a criança é muito alto, a maioria das mães batem, com exceção das mães de crianças de 2 e 1 ano, cuja maioria nunca bateu. Porém, mesmo entre as mães dessas crianças, de 2 e 1 ano de idade, os índices são significativos: 46% e 32% batem. Entre as mães de crianças de 5 anos, 67% batem, sendo que 3% e 11% batem “sempre” e “quase sempre”; entre as mães de crianças de 6 anos 72% batem, sendo que 2% e 4% batem “sempre” e “quase sempre”; entre as mães de 4, 8 e 7 anos, 67%, 64% e 66% das mães batem (Figura 19).
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Figura 19: Frequência com que a mãe bate, por idade da criança
Sexo da criança e frequência com que bate Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre o sexo da criança e a frequência com que a mãe bate, indicando que mães de meninos ou meninas praticam esse tipo de violência com frequências similares. Os dados mostram que, de fato, a frequência com que mães de meninos e meninas batem na criança é muito parecida. Mais da metade das mães de meninos (60%) batem na criança, sendo que 4% o fazem “sempre” e “quase sempre”, 30% “às vezes” e 22% “raramente”, assim como mais da metade das mães de meninas (58%) bate na criança, sendo que 2% e 5% “sempre” e “quase sempre”, 30% “às vezes” e 21% “raramente” (Figura 20).
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Figura 20: Frequência com que a mãe bate, por sexo da criança
Quantidade de criança em casa e frequência com que mãe bate nela Na maioria das moradias (58%) mora apenas 1 criança (de até 0 a 8 anos de idade). As moradias com 2 crianças representam 28% das moradias, 9% são com 3 crianças. Entre o restante dos entrevistados, 3% moram com 4 crianças, 1% com 5 crianças e 6, 7 e 8 crianças representam menos de 1% dos respondentes. Os resultados revelam uma diferença estatisticamente significativa entre a frequência com que a mãe bate e a quantidade de crianças na casa (K-W, chi²=6,546, sig=0,038). Quanto maior o número de crianças na casa, maior a frequência com que a mãe bate na criança. Porém, todos os índices são altos, uma vez que a maioria das mães tanto em casas com três, duas ou uma criança batem (66%, 65% e 53%, respectivamente). Em domicílios com três crianças 66% das mães batem, sendo que 2% bate “sempre”, 5% “quase sempre”, 39% “às vezes” e 20% “raramente”; em domicílios com duas crianças 65% batem, sendo que 1% e 5% batem “sempre” e “quase sempre”, 34% “às vezes” e 25% “raramente”; em moradias com uma criança, 53% batem, sendo que 4% e 3% batem “sempre” e “quase sempre”, 26% “às vezes” e 20% “raramente” (Figura 21). Fica clara uma correlação positiva indicando que quanto maior o número de crianças por moradia, maior a incidência da violência física praticada pela mãe contra a criança. Em domicílios com 3 crianças a mãe bate mais na criança do que as mães cujos domicílios tem duas crianças, que por sua vez batem mais do que as mães cujos domicílios contam com apenas uma criança.
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Figura 21: Frequência com que a mãe bate, por quantidade de crianças na casa
Quantidade de cômodos na casa e frequência com que a mãe bate na criança Os resultados revelam diferença estatisticamente significativa (K-W, chi²=5,848, sig=0,211) entre a quantidade de cômodos na casa com a frequência com que a mãe bate na criança. As médias ordinais decrescem à medida que o número de cômodos aumenta, ou seja, quanto maior o número de cômodos na moradia, menor a incidência de violência física da mãe contra a criança. A maioria das mães (60%) que moram em casas com 1 cômodo batem na criança, sendo que apenas 16% o fazem “raramente”, 7% e 9% o fazem “sempre” e “quase sempre” e 28% o fazem “às vezes”. Quase o mesmo índice ocorre entre as mães que moram em casas com 2 cômodos (59%), porém, 22% o fazem “raramente”, 3% e 5% “sempre” e “quase sempre” e 29% “às vezes”. Portanto, essas mães batem com uma frequência um pouco menor do que aquelas que moram em casas com 1 cômodo. Entre as mães que moram em casas com 3 cômodos a frequência com que batem é ainda um pouco menor do que as anteriores, que moram em casas com 1 e 2 cômodos. Embora 59% das mães batam na criança, um pouco menos o fazem “sempre” e “quase sempre” (3% e 1%), 30% o fazem “às vezes” e 25% “raramente”. As mães que batem com menor frequência são aquelas que moram em moradias com 3 e 4 cômodos (57% e 51%). Entre aquelas que moram em casas com 4 cômodos, 1% e 0% o fazem “sempre” e “quase sempre”, 33% o fazem “às vezes” e 23% “raramente”; entre
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aquelas que moram em casas com 5 cômodos ou mais, 0% e 3% o fazem “sempre” e “quase sempre”, 29% “às vezes” e 19% “raramente” (Figura 22).
Figura 22: Relação da quantidade de cômodos na casa com a frequência com que a mãe bate na criança
Tipos e frequência do castigo praticado pelos adultos Mais da metade dos adultos respondentes se dividem entre dois tipos de castigos que praticam contra as crianças de até 8 anos, a saber: “deixar a criança sem o que ela gosta” (32% dos adultos) e “deixar a criança sentada num canto” (16%). Em seguida, praticado por 7% e 6% dos adultos estão os castigos de “colocar a criança no quarto” e “não deixá-la sair de casa para brincar”, respectivamente. Entre os outros castigos, embora praticados por 3% ou menos dos adultos, se destacam alguns cuja prática inclui a violência física, como “bater na criança” (3%) e “colocar a criança com o rosto virado par a parede” (Figura 23).
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Figura 23: Tipos de castigos e frequência com que são aplicados
Tipos de castigo praticados pelos adultos e sexo da criança Tanto meninas quanto meninos são colocados de castigo pelos adultos (Figura 24). Em relação aos castigos mais praticados, os índices são praticamente os mesmos: para o tipo de castigo mais praticado, que é “deixar a criança sem o que mais gosta”, 51% são meninas e 49% meninos; entre as crianças que são “deixadas sentadas num canto”, 45% são meninas e 55% são meninos. Para o restante dos castigos, cada qual praticado por 1% dos respondentes, a distribuição quanto ao sexo da criança é: entre as crianças que são colocadas para ver TV, 45% são meninas e 55% meninos; entre as crianças que não podem brincar fora de casa, 50% são meninos e a outra metade é de meninas; entre as crianças são deixadas de joelho no chão, 60% são meninas e 40% meninos; entre as crianças que são chamadas para uma conversa, 25% são meninas e 75% são meninos e, por último, entre as crianças que são deixadas “sem nada”, 75% são meninas e 25% são meninos.
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Figura 24: Tipos de castigos e frequência com que são aplicados a meninos e meninas
Frequência com que a mãe sente vontade de comprar diante de algumas situações e correlação com a frequência com que batem na criança A maioria das mães sente vontade de comprar em várias situações, a saber: quando vê o produto nas lojas ou vitrines das lojas, quando vê outra pessoa usando, quando vê em alguma propaganda na TV ou quando vê em programas na TV (por exemplo, filmes ou novelas). Os resultados revelaram correlação positiva entre cada um desses fatores e a frequência com que a mãe bate na criança (Figura 25).
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Figura 25: Frequência com que a mãe tem vontade de comprar frente a algumas situações
Loja ou Vitrine A situação que mais deixa a mãe com vontade de comprar é ver o produto na loja ou vitrine. A expressiva maioria das mães (81%) que vê o produto nas lojas ou vitrines sente vontade de comprar, sendo que 27% das mães tem essa vontade “sempre”, 13% sente essa vontade “quase sempre”, 30% “às vezes” e 11% “raramente”. Apenas 19% das mães entrevistadas nunca sentiram vontade de comprar quando veem o produto na loja ou vitrine (Figura 25). Os resultados revelam uma correlação positiva (spearmam, c = 0,129, sig. = 0,002), sugerindo que quanto mais frequente é a vontade da mãe em comprar produtos que vê na vitrine, maior é a frequência com que ela bate na criança. Os dados mostram que 66% e 55% das mães que “sempre” e “quase sempre” sentem vontade de comprar produtos em lojas e vitrines batem na criança, enquanto 55%, 56% e 53% das mães que “às vezes”, “raramente” e “nunca” sentem vontade de comprar produtos em lojas e vitrines batem na criança. Embora seja pequena ou inexistente a diferença entre os índices das mães que batem na criança, há uma diferença entre a frequência, mostrando que os índices nas mães que batem “sempre” e “quase sempre” são maiores para as mães que “sempre” e “quase sempre” sentem vontade de comprar (Figura 26).
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Figura 26: Vontade da mãe em comprar o que vê em propagandas na TV com a frequência com que bate na criança
Propagandas na TV A segunda situação que mais deixa a mãe com vontade de comprar é ver o produto nas propagandas na TV. A maioria das mães (68%) que vê o produto nas propagandas na TV sente vontade de comprar, sendo que 12% das mães sente essa vontade “sempre”, 9% sente essa vontade “quase sempre”, 30% “às vezes” e 17% “raramente”. Praticamente 1/3 das mães entrevistadas (32%) nunca sentiu vontade de comprar quando vê o produto nas propagandas na TV (Figura 25). Os resultados revelam uma correlação positiva (spearmam, c = 0,081, sig. = 0,048), sugerindo que quanto maior a vontade da mãe em comprar produtos que vê em propagandas na TV, maior é a frequência com que ela bate na criança. Os dados mostram que 75% e 61% das mães que “sempre” e “quase sempre” sentem vontade de comprar produtos em propagandas na TV, batem na criança e 51%, 52% e 60% das mães que “às vezes”, “raramente” e “nunca” sentem vontade de comprar, batem. Embora seja pequena ou inexistente a diferença entre os índices das mães que batem na criança, há uma diferença entre a frequência, mostrando que os índices das mães que batem “sempre” e “quase sempre” são maiores para as mães que “sempre” e “quase sempre” sentem vontade de comprar (Figura 27).
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Figura 27: Vontade da mãe em comprar o que vê em programas na TV (novelas, filmes...) com a frequência com que bate na criança
Programas na TV (filmes, novelas...) Tanto quanto a vontade diante das propagandas na TV, a maioria das mães sentem vontade de comprar quanto veem o produto nos programas de TV, como filmes e novelas. A maioria das mães (67%) que vê o produto nos programas na TV sentem vontade de comprar, sendo que 13% das mães sente essa vontade “sempre”, 9% sente essa vontade “quase sempre” , 27% “às vezes” e 18% “raramente”. Um terço das mães entrevistadas (33%) nunca sentiu vontade de comprar quando vê o produto nas propagandas na TV
(Figura 25). Os resultados revelam uma correlação positiva
(spearmam, c = 0,100, sig. = 0,015), sugerindo que quanto maior a vontade da mãe em comprar produtos que vê em programas na TV (filmes, novelas..), maior é a frequência com que ela bate na criança. Os dados mostram que 69% e 65% das mães que “sempre” e “quase sempre” sentem vontade de comprar produtos em propagandas na TV, batem na criança, enquanto 54%, 55% e 57% das mães que às vezes, raramente e nunca sentem vontade de comprar quando veem em propagandas na TV. Embora seja pequena ou inexistente a diferença entre os índices nas mães que batem na criança, há uma diferença na frequência, mostrando que os índices das mães que batem “sempre” e “quase sempre” são maiores para as mães que “sempre” e “quase sempre” sentem vontade de comprar (Figura 28).
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Figura 28: Vontade da mãe em comprar o que vê em programas na TV (novelas, filmes...) com a frequência com que bate na criança
Outra pessoa usando um produto O fator que menos estimula a vontade de consumo nas mães é ver outras pessoas usando o produto. Ainda assim, quase a metade das mães entrevistadas sente vontade de comprar quando vê outra pessoa usando, sendo que 6% das mães sente essa vontade “sempre”, 5% sente essa vontade “quase sempre” , 20% “às vezes” e 17% “raramente”. Mais da metade das mães entrevistadas (52%) nunca sentiu vontade de comprar quando vê outra pessoa usando o produto (Figura 25). Os resultados revelam uma correlação positiva (spearmam, c = 0,124, sig. = 0,002), sugerindo que quanto maior a vontade da mãe em comprar produtos que vê outra pessoa usando, maior é a frequência com que ela bate na criança. Os dados mostram que 73% e 77% das mães que “sempre” e “quase sempre” sentem vontade de comprar produtos que veem outras pessoas usando, batem na criança, enquanto 60%, 61% e 52% das mães que às vezes, raramente e nunca sentem vontade de comprar quando veem outra pessoa usando, batem. Além da diferença entre os índices das mães que batem na criança, há uma diferença na frequência, mostrando que os índices das mães que batem “sempre”, “quase sempre” e “às vezes” são maiores nas mães que “sempre” e “quase sempre” sentem vontade de comprar (Figura 29).
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Figura 29: Vontade da mãe em comprar o que vê em programas na TV (novelas, filmes...) com a frequência com que bate na criança
Atitudes da mãe quando a criança insiste em comprar
Diz não Os resultados revelam que “dizer não” é uma das principais atitudes da mãe quando a criança insiste em comprar alguma coisa. A expressiva maioria (94%) diz não, sendo que 21% diz não “sempre”, 12% diz não “quase sempre”, 42% diz não “às vezes” e 16% diz não “raramente”. Apenas 9% nunca disse não (Figura 30).
Compra mesmo sem poder Outra atitude comum entre as mães é comprar mesmo sem poder. Mais da metade das mães (57%) compra mesmo sem poder quando a criança insiste, sendo que 8% toma essa atitude “sempre”, 5% “quase sempre”, 30% “às vezes” e 14% raramente. Menos da metade (43%) nunca comprou mesmo sem poder quando a criança insiste (Figura 30). Grita Reagir com violência também está entre as atitudes da mãe quando a criança insiste em comprar. Quase a metade das mães (47%) grita com a criança quando esta insiste em comprar, sendo que 7% grita “sempre”, 5% grita “quase sempre”, 22% grita “às vezes” e 13% grita “raramente”. Pouco mais da metade (53%) delas nunca gritou com a criança quando esta insistiu em comprar algo (Figura 30). 47
Bate Algumas mães batem na criança quando ela insiste em comprar. Embora a maioria das mães (86%) nunca tenha batido na criança quando esta insiste em comprar, 14% já bateu, sendo que menos de 1% bate “sempre”/“quase sempre” (0,4% e 0,6%), 6% bate “às vezes” e 7% bate “raramente” (Figura 30).
Figura 30: Atitudes da mãe quando a criança insiste em comprar
Atitudes que dão limites à criança na percepção da mãe Sobre as atitudes que podem dar limite à criança, a maioria das mães mencionou a atitude de conversar 70%. A segunda atitude mais aceita pela mãe para dar limite à criança é colocar de castigo, mencionada por 19% delas (conforme Figura 31). Outras atitudes são mencionadas pela mãe como forma para dar limite à criança, a saber: dizer não (6%), gritar (2%) e dar uns tapas (1%).
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Figura 31: Atitudes que dão limite à criança, na percepção da mãe
5.3. Chance de crianças serem vítimas de violência (Análise de regressão) A análise que segue é realizada a partir do conjunto de informações obtidas das comunidades analisadas em São Paulo, empregadas numa análise de regressão. O objetivo da análise é apresentar resultados e informações para todo conjunto de favelas analisadas (ver relatórios de cada comunidade em www.pucrs.br/caes). Vale ressaltar que à semelhança da análise realizada separadamente para cada favela, a preocupação aqui também será descrever que variáveis poderiam estar associadas ao aumento ou redução da violência, seja ela física ou psicológica.
Antes de apresentar os resultados para o modelo de escolha discreta para a variável violência física (na sequência para a violência psicológica) é importante fazer algumas considerações acerca de como foi construída a variável dependente, Yi. O Quadro 3 abaixo mostra que as informações sobre bater compreendem a cinco alternativas: “sempre”, “quase sempre”, “às vezes”, “raramente” e “nunca”. Como as quatro primeiras opções implicam em bater, mesmo que seja raramente, optou-se por construir a variável bater como sendo a soma das quatro primeiras opções: “sempre”, “quase sempre”, “às vezes”, “raramente”, ao passo que não bater seria a opção “nunca”. Proceder dessa forma nos permite tornar binária a variável “bater”. Assim, nossa variável dependente, Yi, assume o valor um se a escolha observada corresponde a uma dessas alternativas (“sempre”, “quase sempre”, “às vezes”, “raramente”) e zero caso 49
contrário. O Quadro 4 faz uma descrição da variável dependente a ser utilizada na análise de regressão para o conjunto de informações das seis comunidades pesquisadas.
Quadro 3: Frequência com que a criança sofre violência física - bater Opções Sempre Quase sempre Às vezes Raramente Nunca
Frequência
Percentual 28 31 235 180 439
Acumulado 3,06 3,4 25,74 19,72 48,08
3,06 6,46 32,2 51,92 100
Quadro 4: Frequência com que a criança sofre violência física - bater Opções Bater: Yi = 1 Não bater: Yi = 0
Frequência 474 439
Percentual 51,92 48,08
Acumulado 51,92 100,00
O mesmo procedimento foi empregado para realizar a análise da violência psicológica, ou seja, para colocar de castigo e para gritar. Os quadros 5 e 6 a seguir descrevem a variável dependente a ser utilizada na análise de regressão para violência psicológica.
Quadro 5: Frequência com que a criança sofre violência psicológica - castigo Opções Colocar de castigo: Yi = 1 Não Colocar de castigo: Yi = 0
Frequência 503 410
Percentual 55,09 44,91
Acumulado 55,09 100,00
Quadro 6: Frequência com que a criança sofre violência psicológica - gritar Opções Gritar: Yi = 1 Não gritar: Yi = 0
Frequência 714 199
Percentual 78,20 21,80
Acumulado 78,20 100,00
Feitas as considerações acerca da variável dependente, é necessário mencionar qual o procedimento adotado na seleção das variáveis explicativas que iriam compor o modelo. O procedimento é padrão em análise de regressão. Faz-se o uso de teste de hipótese e análise da significância estatística, e critérios de informação. Serão apresentados os resultados a partir das razões de chances, definida aqui como sendo a probabilidade da ocorrência de um evento (bater) dividida pela probabilidade de não ocorrência do mesmo evento (não bater). A razão de chances é uma forma simples de interpretar os resultados gerados a partir do modelo de escolha discreta e útil para “explicar” o 50
comportamento da violência física ou psicológica. Como as razões de chances são construídas a partir das probabilidades, o seu sinal será sempre positivo. Por isso, é importante olhar para o sinal da estatística Z que permite saber a direção da relação entre as variáveis. Outra forma de ver essa relação entre as variáveis é observando os valores da razão de chances. Valores acima de um estão associados ao aumento da chance em ocorrer a violência física ou psicológica, enquanto os valores abaixo de um estão associados à redução na chance de ocorrência de violência.
Violência física: bater O Quadro 7 faz uma descrição das variáveis utilizadas na análise de regressão da violência física e também da psicológica. As variáveis foram agrupadas segundo o comportamento da criança, as características da mãe, as características do domicílio e da comunidade.
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Quadro 7: Descrição das variáveis utilizadas na análise de regressão para violência física e psicológica Variável
Se comporta mal gritando Fazer pirraça e manha Responder mal aos outros Desobedecendo e sendo teimosa Implica e briga com os irmãos Almoçar com a criança Dormir com os pais
Ter idade entre 18 a 24 Ter idade entre 45 a 54 Ensino fundamental incompleto Sexo do entrevistado Número de crianças Adulto que grita com adulto na frente da criança Homem bate em mulher Adulto bate em adulto na presença da criança Renda de 1 a 2 salários mínimos Renda de 2 a 3 salários mínimos Domicílio com 2 banheiros
Descrição da variável Comportamento da criança Binária: assume valor um se a criança se comporta mal gritando aos outros e zero caso contrário. Binária: assume valor um se a criança se comporta mal fazendo pirraça e manha, e zero caso contrário. Binária: assume valor um se a criança se comporta mal respondendo mal aos outros e zero caso contrário. Binária: assume valor um se a criança se comporta mal desobedecendo e sendo teimosa, e zero caso contrário. Binária: assume valor um se a criança se comporta mal implicando e brigando com os irmãos, e zero caso contrário. Binária: assume valor um se os pais almoçam com a criança e zero caso contrário Binária: assume valor um se a criança dorme com os pais e zero caso contrário Características do entrevistado Binária: assume valor um se a pessoa tem idade de 18 a 24 anos e zero caso contrário Binária: assume valor um se a pessoa tem idade de 45 a 54 anos e zero caso contrário Binária: assume valor um se o entrevistado tem ensino fundamental incompleto e zero caso contrário Binária: assume valor um se o entrevistado for do gênero feminino e zero caso contrário Domicílio Número de crianças no domicílio Binária: assume valor um se adulto grita com adulto na presença de criança e zero caso contrário Binária: assume valor um se o homem bate na mulher na frente da criança e zero caso contrário. Binária: assume valor um se adulto bate em adulto na presença de criança e zero caso contrário Binária: assume valor um se a mãe tem renda de um a dois salários mínimos e zero caso contrário Binária: assume valor um se a mãe tem renda de dois a três salários mínimos e zero caso contrário Binária: assume valor um se o domicílio tem dois banheiros e zero caso contrário
O Quadro 8 apresenta os resultados encontrados na análise de regressão para o conjunto de comunidades de São Paulo. A análise que segue toma como base o sinal do coeficiente estimado, a significância estatística (Estatística Z) e a razão de chances. Em virtude do tamanho da amostra utilizada na análise de regressão ser pequeno, o nível de significância considerado na análise será de 15%.
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No grupo relacionado ao comportamento da criança, a variável “gritar” é binária e assume valor um se a criança gritar e zero caso contrário. Pode ser observado que o coeficiente estimado para a variável “gritar” apresenta uma relação positiva e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a probabilidade de ocorrer violência física aumenta quando a criança apresenta um comportamento de gritar. A razão de chance calculada para essa variável indica que a chance de uma criança sofrer violência física é 4,68 vezes maior quando a criança grita. A variável “fazer pirraça e manha” é binária e assume valor um a criança se comporta mal fazendo pirraça e manha, e zero caso contrário. Como pode ser observado, o coeficiente estimado apresenta uma relação positiva e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo uma relação positiva entre a probabilidade de ocorrer violência física se a criança faz pirraça e manha. A razão de chance calculada para essa variável indica que a chance de uma criança sofrer violência física é 2,83 vezes maior se criança se comporta mal fazendo pirraça e manha. A variável “responder mal aos outros” é binária e assume valor um se a criança se comporta respondendo mal aos outros e zero caso contrário. O resultado mostra um coeficiente positivo e com significância estatística (estatística Z), indicando uma relação positiva entre essa vaiável e a probabilidade da criança sofrer violência. Pela razão de chance observa-se que a chance de uma criança sofrer violência física é quase cinco vezes maior quando ela se comporta respondendo mal aos outros. A variável “Desobedecendo e sendo teimosa” é binária e assume valor um se a criança se comporta mal desobedecendo e sendo teimosa, e zero caso contrário. Observa-se que o coeficiente estimado é positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando que a probabilidade da criança sofrer violência aumenta se ela desobedecer e for teimosa. A razão de chance mostra que a chance de uma criança sofrer violência física é 2,27 vezes maior quando ela se comporta mal desobedecendo e sendo teimosa. A variável “implica e briga com os irmãos” é binária e assume valor um se a criança se comporta implicando e brigando com os irmãos e zero caso contrário. Verifica-se um coeficiente positivo e com significância estatística (estatística Z). Esse resultado mostra 53
uma relação positiva entre a probabilidade da criança sofrer violência física se ela implica e briga com os irmãos. Pela razão de chance observa-se que a chance de uma criança sofrer violência física é 4,90 vezes maior quando ela implica e briga com os irmãos. A variável “almoçar com a criança” é binária e assume valor um se o entrevistado almoça com a criança e zero caso contrário. O resultado mostra um coeficiente estimado positivo e com significância estatística (estatística Z), indicando uma relação positiva entre essa variável e a probabilidade de que a criança venha sofrer violência física. Observa-se pela razão de chance que a chance de uma criança sofrer violência física aumenta em 80% quando a criança almoça com o entrevistado.
Quadro 8: Razão de chances para variável dependente bater para as comunidades de São Paulo Variável Comporta-se gritando Fazer pirraça e manha Responder mal aos outros Desobedecendo e sendo teimosa Implica e briga com os irmãos Almoçar com a criança Sexo do entrevistado Número de crianças Adulto gritar com um adulto na presença de crianças Homem bate em mulher domicílio com dois banheiros
Razão e chance Estatística Z Comportamento da criança 4,68 4,32 2,83 5,73 4,46 5,04 2,27 3,38 4,90 4,55 1,80 2,46 Características do entrevistado 2,26 3,97 Domicílio 1,25 2,83 1,52 1,37 0,40
2,87 2,42 -3,09
P-value 0,0000 0,0000 0,0000 0,0010 0,0000 0,0140 0,0000 0,0050 0,0040 0,0160 0,0020
No grupo com as características do entrevistado, variável “sexo do entrevistado” assume valor um se o entrevistado for mulher e zero caso contrário. Observa-se um coeficiente estimado positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z). Esse resultado sugere uma relação positiva entre a probabilidade de ocorrer violência física se o entrevistado for mulher. A razão de chance mostra que a chance de uma criança sofrer violência física é 2,26 vezes maior se comparado com o fato do entrevistado ser homem. No grupo das características do domicílio, a variável “Número de crianças” apresenta um coeficiente positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a 54
relação entre essa variável e a probabilidade de ocorrer violência física é positiva. A razão de chance calculada para essa variável indica que a chance de uma criança sofrer violência física aumenta em 25% se o número de criança aumentar no domicílio. A variável “Adulto gritar com um adulto na presença de crianças” é binária e assume valor um se o adulto gritar e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente estimado é positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando que a relação entre a criança sofrer violência em domicílios em que adulto grita com adulto é positiva. Observa-se que a chance da criança ser vítima de violência aumenta em 52% quando no domicílio há adulto que grita com adulto. A variável “homem bate em mulher” é binária e assume valor um se no domicílio há homem que bate em mulher na frente da criança e zero caso contrário. O coeficiente estimado é positivo e estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a relação entre a criança sofrer violência física em domicílios em que homem bate em mulher é positiva. Observa-se que a chance da criança ser vítima de violência física aumenta em 37% se no domicílio há homem que bate em mulher na frente da criança. A variável “domicílio com dois banheiros” é binária e assume valor um se há 2 banheiros no domicílio e zero caso contrário. Nota-se que o coeficiente estimado possui significância estatística e tem sinal negativo (estatística Z). Esse resultado mostra que a relação entre essa variável e a probabilidade de uma criança sofrer violência física é negativa. A razão de chance mostra que a chance da criança sofrer violência diminui em 40% se comparada a domicílios com apenas um banheiro.
Em geral, pela análise realizada constata-se que aumenta a chance de uma criança sofrer violência física quando: 1- A criança implica e briga com os irmãos 2- A criança comporta-se gritando 3- A criança responde mal aos outros 4- A criança faz pirraça e manha 5- A criança desobedece fica teimosa 6- O entrevistado for mulher 55
7- O entrevistado almoça com a criança 8- Adulto grita com um adulto na presença de crianças 9- Número de crianças aumenta 10- Homem bate em mulher.
Por sua vez, há uma redução na chance da criança sofrer violência física quando: 1- O domicilio possui dois banheiros.
Violência psicológica: colocar de castigo
O Quadro 9 apresenta os resultados obtidos para a análise de regressão quando consideramos violência psicológica, particularmente a ação de colocar a criança de castigo. Em geral foi possível identificar alguns fatores associados à ocorrência da violência relacionados às características de comportamento da criança, às características do entrevistado e do domicílio. No grupo relacionado ao comportamento da criança, a variável “Comporta-se gritando” é binária e assume valor um se a criança comportar-se mal gritando e zero caso contrário. Pode ser observado que o coeficiente estimado para a variável “gritar” apresenta uma relação positiva e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a probabilidade de ocorrer violência psicológica aumenta quando a criança apresenta um comportamento de gritar. A razão de chance calculada para essa variável indica que a chance de uma criança sofrer violência psicológica castigo é 2,61 vezes maior quando a criança grita. A variável “fazer pirraça e manha” é binária e assume valor um quando a criança se comporta mal fazendo pirraça e manha, e zero caso contrário. Como pode ser observado, o coeficiente estimado apresenta uma relação positiva e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo uma relação positiva entre a probabilidade de ocorrer violência psicológica se a criança faz pirraça e manha. A razão de chance calculada para essa variável indica que a chance de uma criança sofrer violência psicológica castigo é 2,80 vezes maior se a criança se comporta mal fazendo pirraça e manha. 56
A variável “responder mal aos outros” é binária e assume valor um se a criança se comporta respondendo mal aos outros e zero caso contrário. O resultado mostra um coeficiente positivo e com significância estatística (estatística Z), indicando uma relação positiva entre essa variável e a probabilidade da criança sofrer violência. Pela razão de chance observa-se que a chance de uma criança sofrer violência psicológica “castigo” é 3,70 vezes maior quando ela se comporta respondendo mal aos outros. A variável “Desobedecendo e sendo teimosa” é binária e assume valor um se a criança se comporta mal desobedecendo e sendo teimosa, e zero caso contrário. Observa-se que o coeficiente estimado é positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando que a probabilidade da criança sofrer violência aumenta se ela desobedecer e for teimosa. A razão de chance mostra que a chance de uma criança sofrer violência psicológica castigo é 3,23 vezes maior quando ela se comporta mal desobedecendo e sendo teimosa. A variável “implica e briga com os irmãos” é binária e assume valor um se a criança se comporta implicando e brigando com os irmãos e zero caso contrário. Verifica-se um coeficiente positivo com significância estatística (estatística Z). Esse resultado mostra uma relação positiva entre a probabilidade da criança sofrer violência psicológica se ela implica e briga com os irmãos. Pela razão de chance observa-se que a chance de uma criança sofrer violência psicológica “castigo” é 5,68 vezes maior quando ela implica e briga com os irmãos. A variável “almoçar com a criança” é binária e assume valor um se o entrevistado almoça com a criança e zero caso contrário. O resultado mostra um coeficiente estimado positivo e com significância estatística (estatística Z), indicando uma relação positiva entre essa variável e a probabilidade de que a criança venha sofrer violência psicológica. Observa-se pela razão de chance que a chance de uma criança sofrer violência psicológica castigo aumenta em 85% quando a criança almoça com o entrevistado. No grupo com as características do entrevistado, a variável “Ensino fundamental incompleto” é binária e assume valor um se o entrevistado possui ensino fundamental 57
incompleto e zero caso contrário. A categoria de base para fins de comparação é ser analfabeto. O resultado mostra que o coeficiente estimado apresenta um sinal negativo e é estatisticamente significativo (estatística Z), o que sugere que a relação entre essa variável e a probabilidade de ocorrer violência psicológica é negativa. Pela razão de chance observa-se que a chance de uma criança sofrer violência psicológica “castigo” é de 76% menor quando comparado ao fato do entrevistado ser analfabeto.
Quadro 9: Razão de chances para variável dependente castigo para as comunidades de São Paulo Variável Comporta-se gritando Fazer pirraça e manha Responder mal aos outros Desobedecendo e sendo teimosa Implica e briga com os irmãos Almoçar com a criança Ensino fundamental incompleto do entrevistado Número de crianças Renda de 1 a 2 salários mínimos Renda de 2 a 3 salários mínimos Domicílio com dois banheiros
Razão e chance Estatística Z Comportamento da criança 2,61 2,91 2,80 5,83 3,70 4,54 3,23 4,83 5,68 4,85 1,85 2,62 Características do entrevistado 0,76 Domicílio 1,34 1,38 1,80 0,59
P-value 0,004 0,000 0,000 0,000 0,000 0,009
-1,65
0,099
3,66 2,15 1,92 -1,88
0,000 0,032 0,055 0,060
No grupo das características do domicílio, a variável “Número de crianças” apresenta um coeficiente positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a relação entre essa variável e a probabilidade de ocorrer violência psicológica “colocar de castigo” é positiva. A razão de chance calculada para essa variável indica que a chance de uma criança sofrer essa violência psicológica “colocar de castigo” aumenta em 34,0% quando o número de crianças aumenta no domicílio. A variável “renda de 1 a 2 salários mínimos” é binária e assume valor um se a mãe tem renda de um a dois salários mínimos e zero caso contrário. A categoria de base para fins de comparação é a renda ser menor do que um salário mínimo. O resultado mostra um coeficiente estimado com significância estatística e sinal positivo (estatística Z), indicando uma relação positiva entre essa variável e a probabilidade de ocorrer violência psicológica castigo. A razão de chance mostra que a chance de uma criança
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sofrer essa violência psicológica aumenta 38% se a renda da mãe for de 1 a 2 salários mínimos. A variável “renda de 2 a 3 salários mínimos” assume valor um se a mãe tem renda de dois a três salários mínimos e zero caso contrário. A categoria de base é a renda ser menor do que um salário mínimo. O coeficiente estimado apresenta significância estatística e sinal positivo (estatística Z), sugerindo uma relação positiva entre essa variável e a probabilidade de ocorrer violência psicológica castigo. A razão de chance mostra que a chance de uma criança sofrer violência psicológica castigo aumenta 80% se a renda da mãe for de 2 a 3 salários mínimos. A variável “Domicílio com dois banheiros” é binária e assume valor um se há 2 banheiros no domicílio e zero caso contrário. Nota-se que o coeficiente estimado possui significância estatística e tem sinal negativo (estatística Z). Esse resultado mostra que a relação entre essa variável e a probabilidade de uma criança sofrer violência psicológica é negativa. A razão de chance mostra que a chance da criança sofrer violência diminui em 59% se comparada a domicílios com apenas um banheiro.
Em geral, pela análise realizada constata-se que aumenta a chance de uma criança sofrer violência psicológica “colocar de castigo” quando: 1- Implica e briga com os irmãos 2- Responder mal aos outros 3- Desobedecendo e sendo teimosa 4- Fazer pirraça e manha 5- Comporta-se gritando 6- Almoçar com a criança 7- Renda de 2 a 3 salários mínimos 8- Renda de 1 a 2 salários mínimos 9- Número de crianças.
Por sua vez, há uma redução na chance da criança sofrer violência psicológica quando: 1- O entrevistado possuir ensino fundamental incompleto 2- Domicílio possuir dois banheiros. 59
Violência psicológica: gritar O Quadro 10 mostra os resultados obtidos para a análise de regressão quando consideramos violência psicológica, neste caso, “gritar”, com a criança. No geral, foi possível identificar alguns fatores associados à ocorrência desse tipo de violência relacionados às características do comportamento das criança, às características do entrevistado e do domicílio.
No grupo de variáveis relacionadas ao comportamento da criança, a variável “Comporta-se gritando” é binária e assume valor um se a criança gritar e zero caso contrário. Pode ser observado que o coeficiente estimado para a variável “gritar” apresenta uma relação positiva e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a probabilidade de ocorrer violência psicológica aumenta quando a criança apresenta um comportamento de gritar. A razão de chance calculada para essa variável indica que a chance de uma criança sofrer essa violência psicológica 4,0 vezes maior quando a criança grita. A variável “fazer pirraça e manha” é binária e assume valor um quando a criança se comporta mal fazendo pirraça e manha, e zero caso contrário. Como pode ser observado, o coeficiente estimado apresenta uma relação positiva e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo uma relação positiva entre a probabilidade de ocorrer violência psicológica se a criança faz pirraça e manha. A razão de chance calculada para essa variável indica que a chance de uma criança sofrer violência psicológica gritar é 3,44 vezes maior se criança se comporta mal fazendo pirraça e manha. A variável “responder mal aos outros” é binária e assume valor um se a criança se comporta respondendo mal aos outros e zero caso contrário. O resultado mostra um coeficiente positivo e com significância estatística (estatística Z), indicando uma relação positiva entre essa variável e a probabilidade da criança sofrer violência. Pela razão de chance observa-se que a chance de uma criança sofrer violência psicológica gritar é 11,45 vezes maior quando ela se comporta respondendo mal aos outros. 60
A variável “Desobedecendo e sendo teimosa” é binária e assume valor um se a criança se comporta mal desobedecendo e sendo teimosa, e zero caso contrário. Observa-se que o coeficiente estimado é positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando que a probabilidade da criança sofrer violência aumenta se ela desobedecer e for teimosa. A razão de chance mostra que a chance de uma criança sofrer violência psicológica gritar é 11,06 vezes maior quando ela se comporta mal desobedecendo e sendo teimosa. A variável “implica e briga com os irmãos” é binária e assume valor um se a criança se comporta implicando e brigando com os irmãos e zero caso contrário. Verifica-se um coeficiente positivo e com significância estatística (estatística Z). Esse resultado mostra uma relação positiva entre a probabilidade da criança sofrer violência psicológica se ela implica e briga com os irmãos. Pela razão de chance observa-se que a chance de uma criança sofrer violência psicológica gritar é 4,75 vezes maior quando ela implica e briga com os irmãos. A variável “almoçar com a criança” é binária e assume valor um se o entrevistado almoça com a criança e zero caso contrário. O resultado mostra um coeficiente estimado positivo e com significância estatística (estatística Z), indicando uma relação positiva entre essa variável e a probabilidade de que a criança venha sofrer violência psicológica. Observa-se pela razão de chance que a chance de uma criança sofrer violência psicológica gritar aumenta em 85% quando a criança almoça com o entrevistado. A variável “dormir com os pais” é binária e assume valor um se a criança dorme com os pais e zero caso contrário. O coeficiente estimado possui significância estatística e tem sinal negativo (estatística Z), sugerindo que a relação entre essa variável e a probabilidade da ocorrência de violência psicológica gritar é negativa. A razão de chance calculada mostra que a chance de uma criança sofrer violência psicológica gritar diminui 56% à medida que ela dorme com os pais.
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Quadro 10: Razão de chances para variável dependente gritar para as comunidades de São Paulo Variável Comporta-se gritando Fazer pirraça e manha Responder mal aos outros Desobedecendo e sendo teimosa Implica e briga com os irmãos Almoçar com a criança Dormir com os pais Sexo do entrevistado Ter idade entre 18 a 24 Ter idade entre 45 a 54
Razão e chance Estatística Z Comportamento da criança 4,00 3,21 3,44 6,24 11,45 4,51 11,06 5,72 4,75 3,47 1,85 2,29 0,56 -2,2 Características do entrevistado 1,46 1,61 0,55 -2,82 0,61 -1,63 Domicílio 1,38 2,71
Número de crianças Adulto gritar com um adulto na presença de crianças Adulto bate em adulto na presença de crianças Renda de 2 a 3 salários mínimos Domicílio com dois banheiros
P-value 0,001 0,000 0,000 0,000 0,001 0,022 0,028 0,108 0,005 0,104 0,007
1,76
3,06
0,002
2,29 2,30 0,56
1,81 1,86 -1,79
0,070 0,063 0,074
No grupo com as características do entrevistado, variável “sexo do entrevistado” assume valor um se o entrevistado for mulher e zero caso contrário. Observa-se um coeficiente estimado positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z). Esse resultado sugere uma relação positiva entre a probabilidade de ocorrer violência psicológica se o entrevistado for mulher. A razão de chance mostra que a chance de uma criança sofrer violência psicológica “gritar” aumenta em 46% se comparado com o fato do entrevistado ser homem.
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A variável “Ter idade entre 18 a 24” é binária assume valor um se o entrevistado possui idade de 18 a 24 anos e zero caso contrário. Os coeficientes estimados para essa variável são comparados com uma categoria de base que é ter idade até 17 anos. Verifica-se que o coeficiente estimado possui significância estatística e tem sinal negativo (estatística Z), sugerindo uma relação negativa entre essa variável e a probabilidade da criança sofrer violência psicológica. A razão de chances mostra que a chance da criança sofrer violência psicológica gritar diminui 55% se a idade do entrevistado for de 18 a 24 anos. A variável “Ter idade entre 45 a 54” assume valor um se o entrevistado possui idade de 45 a 54 anos e zero caso contrário. Observa-se que o coeficiente estimado possui significância estatística e tem sinal negativo (estatística Z), sugerindo uma relação negativa entre essa variável e a probabilidade da criança sofrer violência psicológica. A razão de chances mostra que a chance da criança sofrer violência psicológica gritar diminui 61% se a idade do entrevistado for de 45 a 54 anos. No grupo das características do domicílio, a variável “Número de crianças” apresenta um coeficiente positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a relação entre essa variável e a probabilidade de ocorrer violência psicológica gritar é positiva. A razão de chance calculada para essa variável indica que a chance de uma criança sofrer violência psicológica gritar aumenta em 38% quando o número de crianças aumenta no domicílio. A variável “Adulto gritar com um adulto na presença de crianças” é binária e assume valor um se o adulto gritar e zero caso contrário. O resultado mostra que o coeficiente estimado é positivo e é estatisticamente significativo (estatística Z), indicando que a relação entre a criança sofrer violência em domicílios em que adulto grita com adulto é positiva. Observa-se que a chance da criança ser vitima de violência aumenta em 76% quando no domicílio há adulto que grita com adulto. A variável “Adulto bate em adulto na presença de criança” é binária e assume valor um se no domicílio há adulto que bate em adulto na frente da criança e zero caso contrário. O coeficiente estimado é positivo e estatisticamente significativo (estatística Z), sugerindo que a relação entre a criança sofrer violência psicológica em domicílios em 63
que adulto bate em adulto é positiva. Observa-se que a chance da criança ser vitima de violência psicológica gritar é 2,29 vezes maior se no domicílio há adulto que bate em adulto na frente da criança. A variável “renda de 2 a 3 salários mínimos” assume valor um se a mãe tem renda de dois a três salários mínimos e zero caso contrário. A categoria de base é a renda ser menor do que um salário mínimo. O coeficiente estimado apresenta significância estatística e sinal positivo (estatística Z), sugerindo uma relação positiva entre essa variável e a probabilidade de ocorrer violência psicológica gritar. A razão de chance mostra que a chance de uma criança sofrer essa violência psicológica é 2,30 vezes maior se a renda da mãe for de 2 a 3 salários mínimos. A variável “Domicílio com dois banheiros” é binária e assume valor um se há 2 banheiros no domicílio e zero caso contrário. Nota-se que o coeficiente estimado possui significância estatística e tem sinal negativo (estatística Z). Esse resultado mostra que a relação entre essa variável e a probabilidade de uma criança sofrer violência psicológica é negativa. A razão de chance mostra que chance da criança sofrer violência psicológica gritar diminui em 56% se comparada a domicílios com apenas um banheiro.
Em geral, pela análise realizada constata-se que aumenta a chance de ocorrência da violência psicológica gritar com a criança quando: 1- Responder mal aos outros 2- Desobedecendo e sendo teimosa 3- Implica e briga com os irmãos 4- Comporta-se gritando 5- Fazer pirraça e manha 6- Renda de 2 a 3 salários mínimos 7- Adulto bate em adulto na presença de crianças 8- Almoçar com a criança 9- Adulto gritar com um adulto na presença de crianças 10- Sexo do entrevistado: ser mulher 11- Número de crianças.
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Por sua vez, há uma redução na chance da criança sofrer essa violência psicológica gritar quando: 1- Ter idade entre 45 a 54 2- Dormir com os pais 3- Ter idade entre 18 a 24.
6. As crianças por elas mesmas A pesquisa buscou obter a visão das próprias crianças sobre seu cotidiano, destacandose sua interpretação sobre a família e o local em que mora, além de conhecer a experiência de violência das crianças em casa, na escola e nas ruas das comunidades onde moram. Com esse objetivo foram utilizados dois instrumentos: por um lado, foi aplicado um questionário de vinte e oito perguntas a 184 crianças de 6 a 8 anos de idade nas seis comunidades (pelo menos 30 crianças em cada comunidade analisada); por outro lado, em cada comunidade pesquisada foi realizada uma dinâmica com desenho e discussão com crianças de 5 a 8 anos de idade, reunindo entre 4 a 5 crianças em cada uma das dinâmicas, onde se discutiu temas como família e a comunidade onde vivem. Será apresentado a seguir o resultado dos questionários aplicados às crianças e, posteriormente, serão apresentados um resumo sobre as discussões em grupo realizadas com crianças nas seis comunidades pesquisadas. Os relatórios com os resultados de cada comunidade se encontra disponível na página de Internet do CAES-PUCRS (www.pucrs.br/caes).
6.1.
Violência em casa
Primeiramente, serão analisados três tipos de violência sofrida pela criança em casa, aplicada pelo adulto, a saber: 65
Colocar de castigo Gritar Bater. Posteriormente, serão analisados tipos de violência testemunhada pela criança em casa: Adulto gritando com outro adulto Adulto batendo em outro adulto Adulto batendo em criança Adulto gritando com criança.
Violência sofrida pela criança Os resultados revelam que ser colocada de castigo é a violência mais sofrida pela criança em casa considerando os dados das 6 (seis) comunidades envolvidas nesta pesquisa (Santa Cecília, Bela Vista, Jardim Pantanal, Pedreira, Parelheiros-Nova América e Pimentas-Água Chata) (Figura 32). Em seguida, a violência mais sofrida pela criança é o “grito” (adulto gritando com elas) e a terceira é a violência física (adulto batendo ou “dando uns tapas”).
Figura 32: Tipos e frequência de violência sofrida pela criança em casa
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Colocar de castigo A grande maioria das crianças entrevistadas (75%) já foi colocada de castigo pelos adultos em casa, sendo esse o tipo de violência mais sofrida pela criança em casa. Pouco mais de um quarto das crianças entrevistadas (28%) já foi colocada de castigo “muitas vezes”, 30% “algumas vezes” e 17% pelo menos “uma vez”. Um quarto das crianças entrevistadas (de 6 a 8 anos) nunca foi colocada de castigo pelo adulto responsável (Figura 32). Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a idade e o sexo da criança quanto à frequência com que são colocadas de castigo pelos adultos em casa.
Gritar Gritar é o segundo tipo de violência mais sofrida pela criança em casa. Para a maioria das crianças (64%), adultos já gritaram com ela, sendo que para 22% delas adultos já gritaram “muitas vezes”, para 27% adultos já gritaram “algumas vezes” e para 8% adultos já gritaram pelo menos “uma vez”. Para 36% das crianças, adultos “nunca” gritaram com elas (Figura 32). Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a idade e o sexo da criança quanto à frequência com que adultos gritam com elas.
Bater Bater é o tipo de violência menos sofrida pelas crianças em casa, contudo, mais da metade (57%) das crianças já sofreu esse tipo de violência em casa, sendo que para 22% das crianças (de 6 a 8 anos de idade) adultos já bateram nelas “muitas vezes”, para 27% adultos já bateram nelas “algumas vezes” e para 8%, adultos já bateram pelo menos “uma vez” (Figura 32). Entre as crianças de 6, 7 e 8 anos, as crianças de 6 anos de idade sofrem mais esse tipo de violência física, seguida das crianças de 7 e 8 anos de idade. Essa diferença é confirmada estatisticamente (K-W, chi²=6,572, sig=0,037) (Figura 33). A maioria (68%) das crianças de 6 anos de idade revelaram que os adultos batem nelas, sendo que para 29% isso acontece “muitas vezes”, para 31% “algumas vezes” e para 8% pelo menos uma vez os adultos já bateram nelas. Pouco menos de um terço das crianças de 6 anos de idade (32%) disseram que os adultos nunca bateram nelas. Entre as 67
crianças de 7 anos de idade não é muito diferente, 62% revelaram que os adultos batem nelas, ou seja, pouco mais de um terço (38%) disseram que esse tipo de violência nunca aconteceu, sendo que para 27% acontece “muitas vezes”, para 24% “algumas vezes” e para 11% “raramente”. Entre as crianças de 8 anos de idade, menos da metade (47%) revelou que adultos batem nelas, sendo que para 14% esse é um fato que acontece “muitas vezes”, para 26% “algumas vezes” e para 7% pelo menos “uma vez” adultos bateram nela, em casa. Mais da metade das crianças de 8 anos disseram nunca ter acontecido de adultos baterem nelas em casa (Figura 33). Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre o sexo da criança quanto à frequência com que adultos batem nelas.
Figura 33: Frequência com que a criança sofre violência física em casa, por sexo
Violência testemunhada pela criança (em casa) Os resultados revelam que a violência que as crianças mais veem em casa é “adulto gritando com criança”, seguido de “adulto batendo em criança” (Figura 34).
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Figura 34: Frequência com que a criança testemunha atitudes violentas em casa
Adulto gritando com criança Adulto gritando com criança é o tipo de violência mais testemunhado pela criança em casa. A maioria (64%) das crianças de 6 a 8 anos já viu adulto gritando com criança, sendo que um terço (33%) das crianças entrevistadas já viu isso acontecer “muitas vezes”, 23% já viu “algumas vezes” e 8% pelo menos “uma vez”. Pouco mais de um terço das crianças nunca testemunhou adulto gritando com criança em casa (Figura 34).
Adulto batendo em criança Adulto batendo em criança é o segundo tipo de violência mais testemunhado pelas crianças em casa. Mais da metade (55%) das crianças (de 6 a 8 anos) já viu adulto batendo em criança dentro de casa, sendo que 23% já viu “muitas vezes”, 24% “algumas vezes” e 8% pelo menos uma vez. Crianças que nunca viram adulto bater em criança dentro de casa representam menos da metade das crianças entrevistadas (45%)(Figura 34).
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Adulto gritando com adulto Mais da metade das crianças entrevistadas (51%) já viram “adulto gritando com adulto” dentro de casa. Um quinto (20%) já viu “muitas vezes”, 23% já viu “algumas vezes” e 8% já viu pelo menos “uma vez”. Pouco menos da metade (49%) nunca viu (Figura 34).
Adulto batendo em adulto Esse é o tipo de violência menos testemunhado pelas crianças em casa, a maioria delas (77%) “nunca” viu “adulto batendo em adulto” dentro de casa. Ainda assim, 23% das crianças entrevistadas já viu, sendo que 8% já viu “muitas vezes”, 9% já viu algumas (poucas) vezes e 6% já viu pelo menos uma vez (Figura 34).
6.2.
Violência na escola
Primeiramente, serão analisados tipos de violência sofrida pela criança na escola, a saber, o quanto o adulto: coloca a criança de castigo grita com a criança bate na criança. Posteriormente, serão analisados tipos de violência testemunhados pela criança na escola, a saber: Criança batendo em criança Adulto batendo em criança Adulto gritando com criança.
70
Violência sofrida pela criança Foram sugeridos três tipos de violência na escola para que a criança de 6 a 8 anos indicasse o quanto são praticados contra ela pelo adulto, a saber: colocar de castigo, gritar e bater (Figura 35).
Figura 35: Frequência com que a criança sofre determinados tipos de violência NA ESCOLA
Colocar de castigo A violência mais sofrida pela criança na escola é ser colocada de castigo. Mais da metade das crianças entrevistadas (51%) já ficou de castigo na escola, sendo que 12% já ficou de castigo “muitas vezes”, 14% já ficou de castigo “algumas (poucas) vezes” e 25% já ficou de castigo pelo menos “uma vez”. Pouco menos da metade (49%) das crianças entrevistadas (de 6 a 8 anos) nunca ficaram de castigo (Figura 35).
Gritar Quase a metade das crianças (44%) já foram vítimas dos gritos de adultos na escola, sendo que para 13% isso já aconteceu “muitas vezes”, para 17% adultos já gritaram “algumas vezes” e para 9% adultos já gritaram pelo menos “uma vez”. Pouco mais da
71
metade (56%) afirmou que “nunca” aconteceu de adultos gritarem com elas na escola (Figura 35).
Bater Apenas 9% das crianças já foi vítima da violência física de adultos na escola. A expressiva maioria (91%) nunca sofreu violência física (bater) do adulto na escola. Algumas crianças (3%) revelaram que adultos já bateram nelas “muitas vezes”, 4% disseram que adultos já bateram nelas “algumas vezes” e 2% das crianças já sofreram essa violência física de adultos na escola pelo menos “uma vez” (Figura 35).
Violência testemunhada pela criança (na escola) Através da percepção da criança, a pesquisa investigou também tipos de violência que são testemunhados na escola. Foram abordados três tipos de violência: adulto batendo em criança, adulto gritando com criança e criança batendo em criança. Os resultados revelam que as crianças testemunham mais as cenas de violência de “criança batendo em criança”, assim como “adulto gritando com criança” do que adultos batendo em crianças (Figura 36).
Figura 36: Frequência com que a criança testemunha a violência na escola.
72
Criança batendo em criança Essa é a violência mais testemunhada pela criança na escola. A maioria das crianças entrevistadas (79%) já testemunhou crianças batendo em outras crianças na escola. Sendo que quase a metade (47%) já viu “muitas vezes”, 20% já viu “algumas vezes” e 12% já viu pelo menos “uma vez”. Ou seja, apenas 21% das crianças entrevistadas (de 6 a 8 anos de idade) “nunca” viram “criança batendo em criança” dentro da escola (Figura 36).
Adulto gritando com criança A maioria das crianças entrevistadas (62%) já testemunhou adulto gritando com criança na escola, sendo que 33% delas já viu “muitas vezes”, 21% já viu “algumas vezes” e 8% já viu pelo menos “uma vez”. Pouco mais de um terço (38%) das crianças entrevistadas (de 6 a 8 anos) “nunca” viu adulto gritando com criança, na escola (Figura 36).
Adulto batendo em criança Adulto batendo em criança é a violência menos testemunhada pela criança na escola, a expressiva maioria (88%) nunca viu. Portanto, 12% das crianças entrevistadas já viram adulto batendo em criança dentro da escola, sendo que 3% já viu “muitas vezes”, 5% já viu “algumas (poucas) vezes” e 4% já viu pelo menos uma vez (Figura 36).
6.3.
Violência na comunidade
Na comunidade, avaliou-se apenas a violência testemunhada pela criança (Figura 37). Sendo assim, foram indicados os cinco tipos de violência abaixo para que as crianças relatassem quais são os que elas mais presenciam: Adulto batendo em criança Adulto batendo em adulto 73
Adulto dando tiro com arma de fogo Gente sendo levada pela polícia Gente vendendo drogas.
Violência testemunhada na comunidade
Figura 37: Violência testemunhada pelas crianças na comunidade
Alguém sendo levado pela polícia Esse é o tipo violência mais testemunhado pela criança. Quase a metade (43%) das crianças entrevistadas (de 6 a 8 anos de idade) já viu “alguém sendo levado pela polícia” nas ruas da comunidade. Para 13% das crianças essa cena já foi vista “muitas vezes”, 12% já testemunhou “algumas vezes” e 18% já viu pelo menos “uma vez” (Figura 37). Mais da metade das crianças entrevistadas (57%) “nunca” viu “alguém sendo levado pela polícia”. Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a idade e sexo da criança na frequência com que ela vê alguém sendo levado pela polícia nas ruas da comunidade. Ou seja, praticamente não tem diferença no número de vezes que meninos e meninas de 6, 7 e 8 anos viram alguém sendo levado pela polícia nas ruas da comunidade.
74
Adulto batendo em crianças Esse é o segundo tipo de violência mais testemunhado pelas crianças na comunidade. Pouco menos de um terço das crianças entrevistadas (31%) já testemunhou “adulto batendo em crianças nas ruas da comunidade”, sendo que 11% delas já viu “muitas vezes”, 13% já viu “algumas vezes” e 7% já viu pelo menos “uma vez”. A maioria (69%) nunca viu (Figura 37). Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a idade e o sexo da criança na frequência com que ela vê adulto batendo em crianças nas ruas da comunidade. Ou seja, praticamente não tem diferença no número de vezes que meninos e meninas de 6, 7 e 8 anos viram adulto batendo em crianças nas ruas da comunidade.
Adulto batendo em adulto Esse é o terceiro tipo de violência mais testemunhado pela criança nas comunidades de São Paulo. Praticamente um terço (32%) das crianças entrevistadas já viu “adulto batendo em adulto” nas ruas da comunidade, sendo que 6% já viu “muitas vezes”, 15% já viu “algumas vezes” e 11% já viu pelo menos “uma vez” (Figura 37). A maioria das crianças (68%) “nunca” viu adulto batendo em adulto nas ruas da comunidade. Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a idade e sexo da criança na frequência com que ela vê adulto batendo em adulto nas ruas da comunidade. Ou seja, praticamente não tem diferença no número de vezes que meninos e meninas de 6, 7 e 8 anos viram adulto batendo em adulto nas ruas da comunidade.
Venda de drogas Quase um terço das crianças entrevistadas (31%) já viu gente vendendo drogas nas ruas da comunidade, sendo que 16% já viu “muitas vezes”, 10% já viu “algumas vezes” e 5% já viu pelo menos “uma vez”. A maioria (69%) nunca viu gente vendendo drogas nas ruas da comunidade (Figura 37). Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre o sexo da criança na frequência com que ela vê gente vendendo drogas nas ruas da comunidade. Ou seja, praticamente não tem diferença no número de vezes que meninos e meninas viram gente vendendo drogas nas ruas da 75
comunidade. Porém, os resultados revelam diferença estatisticamente significativa (KW, chi²=6,227, sig=0,044) entre a idade das crianças e a frequência com que veem gente vendendo drogas nas ruas, indicando que crianças de 7 e 8 anos testemunham mais do que crianças de 6 anos. Mais de um terço das crianças de 7 e 8 anos (37% e 36%, respectivamente) já viram gente vendendo drogas nas ruas, sendo que entre as crianças de 7 anos, 23% viu “muitas vezes” e entre as crianças de 8 anos 19% viram muitas vezes. Entre as crianças de 6 anos o índice é menor, 27% já viu, sendo que 5% “muitas vezes” (Figura 38).
Figura 38: Frequência com que crianças de 6, 7 e 8 anos veem venda de drogas nas ruas da comunidade
Adulto atirando com arma de fogo Adulto atirando com arma de fogo é o tipo de violência menos testemunhado pelas crianças de 6 a 8 anos de idade, ainda assim, 15% já viu, sendo que 5% “muitas vezes”, 3% “algumas vezes” e 7% “uma vez”. A expressiva maioria (85%) nunca viu (Figura 37). Os resultados não revelam diferença estatisticamente significativa entre a idade e sexo da criança na frequência com que ela vê adulto atirando com arma de fogo nas ruas da comunidade. Ou seja, praticamente não tem diferença no número de vezes que meninos e meninas de 6, 7 e 8 anos viram adulto atirando com arma de fogo nas ruas da comunidade.
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Questões de consumo
A pesquisa avaliou algumas questões sobre consumo, considerando a percepção das crianças de 6 a 8 anos.
Frequência com que a criança pede aos pais para comprar algo A expressiva maioria das crianças (90%) pede aos pais que comprem algo para elas, sendo que 54%, ou seja, mais da metade das crianças entrevistadas (de 6 a 8 anos) tomam essa atitude “muitas vezes”, 26% tomam essa atitude “algumas vezes” e 10% raramente pedem aos pais que comprem algo. Outros 10% nunca pedem aos pais que comprem algo (Figura 39).
Figura 39: Frequência com que a criança pede aos pais que comprem algo para ela
Atitudes dos pais quando a criança fica pedindo para comprar algo
Foi investigado se alguma vez o pai ou a mãe da criança já tomou alguma das seguintes atitudes quando a criança ficou pedindo para comprar algo: gritou, colocou de castigo ou bateu (Figura 40).
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Figura 40: Atitudes dos pais quando a criança fica pedindo para comprar algo
Brigar A maioria (60%) das crianças admitiu que os pais já brigaram com ela quando ela insistiu em comprar algo, sendo que para 27% das crianças esse tipo de violência já aconteceu “muitas vezes”, para 20% já aconteceu “algumas vezes” e para 13% os pais já brigaram pelo menos “uma vez” quando a criança insistiu em comprar algo. Menos da metade das crianças entrevistadas (de 6 a 8 anos) disse que os pais nunca brigaram com elas quando insistiram para comprar (Figura 40).
Gritar Uma parcela significativa (40%) das crianças entrevistadas (de 6 a 8 anos) disseram que os pais gritam com elas por insistirem em comprar algo, sendo que para 14% isso já aconteceu “muitas vezes”, para 15% “algumas vezes” e para 11% já aconteceu pelo menos “uma vez”. Para a maioria das crianças (60%) os pais nunca gritaram quando estas insistiram em comprar algo (Figura 40). Bater Embora para a maioria das crianças (71%) os pais nunca bateram nelas por terem insistido em comprar algo, uma parcela significativa (29%) disse que já aconteceu. Para 6% das crianças entrevistadas (de 6 a 8 anos de idade) os pais já bateram nelas “muitas vezes”, quando insistiram com eles para comprar algo, para 15% essa atitude violenta 78
dos pais já aconteceu “algumas vezes” e para 8% já aconteceu pelo menos “uma vez.” (Figura 40).
Colocar de castigo Assim como bater, embora a maioria das crianças entrevistadas (73%) nunca tenha ficado de castigo por ter insistido em comprar, boa parte delas (27%) já ficou. Para 8% das crianças os pais as colocaram de castigo “muitas vezes” quando insistiram em comprar, para 14% das crianças isso já aconteceu algumas vezes e para 5% pelo menos uma vez os pais já as colocaram de castigo por terem insistido em comprar (Figura 40).
Frequência com que a criança fica triste na escola e na rua por não ter comprado o que as outras crianças tinham
Figura 41: Frequência com que a criança fica triste por não ter comprado algo que outra criança comprou
Na escola Na escola, mais da metade das crianças (51%) já ficou triste por não ter comprado o que as outras crianças tinham, sendo que 18% das crianças entrevistadas já ficaram tristes “muitas vezes”, 17% já ficaram “algumas vezes” e 16% pelo menos “uma vez” (Figura 41).
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Na rua Na rua, menos da metade das crianças entrevistadas (41%) já ficou triste por não ter comprado o que outra criança comprou, sendo que 15% delas ficou triste “muitas vezes”, 13% já ficou triste “algumas vezes”, outros 13% já ficou triste pelo menos “uma vez” por esse motivo. Mais da metade das crianças entrevistadas (59%) nunca ficou triste por não ter comprado algo que tenha visto com outra criança “na rua” (Figura 41).
Frequência com que a criança sente vontade de comprar frente a algumas situações
A maioria das crianças sente vontade de comprar em várias situações, a saber: quando vê o produto exposto na loja ou vitrine, quando vê o produto em filmes ou novelas na TV, quando vê outra criança usando ou quando vê em alguma propaganda na TV. Os resultados abaixo mostram a frequência com que cada uma dessas situações influencia a vontade de consumo da criança (Figura 42).
Figura 42: Frequência com que a criança tem vontade de comprar frente a algumas situações
Loja ou Vitrine A expressiva maioria das crianças (87%) tem vontade de comprar ao ver o produto na loja ou vitrine, sendo essa a situação que mais desperta a vontade de consumo da criança. A metade das crianças entrevistadas (50%) já sentiu vontade de comprar “muitas vezes” quando viu o produto na loja ou vitrine, 27% “algumas vezes” e 10% 80
pelo menos “uma vez”. Apenas 13% das crianças nunca sentiu vontade de comprar quando viram o produto na loja ou vitrines (Figura 42).
Novelas e filmes na TV A segunda situação que estimula o consumo na criança é ver o produto em novelas ou filmes na TV. A maioria das crianças entrevistadas (76%) sente vontade de comprar quando veem o produto em filmes e novelas da TV, sendo que mais de um terço (38%) já sentiu essa vontade “muitas vezes”, 24% “algumas vezes” e 14% pelo menos “uma vez”. Apenas 24% nunca sentiu essa vontade de comprar quando vê o produto exibido em filmes ou novelas da TV (Figura 42).
Ver outra criança usando Tanto quanto ver o produto em novelas da TV, ver outra criança usando é um grande estimulador de consumo. A maioria (75%) das crianças sente vontade de comprar quando vê outra criança usando, sendo que 31% já sentiu essa vontade “muitas vezes”, 23% já teve essa vontade “algumas vezes” e 17% já sentiu essa vontade pelo menos “uma vez”. Apenas 25% das crianças entrevistadas (de 6 a 8 anos) “nunca” sentiu vontade de comprar quando viu outra criança usando o produto (Figura 42).
Propaganda na TV As propagandas na TV estimulam o consumo tanto quanto as novelas ou ver outra criança usando. A maioria das crianças (73%) já teve vontade de comprar quando viu produtos em propagandas na TV, sendo que 38% já sentiu essa vontade “muitas vezes”, 21% “algumas vezes” e 14% pelo menos “uma vez”. Menos de um terço das crianças (27%) nunca sentiu vontade de comprar diante dos produtos sendo exibidos nas propagandas na TV (Figura 42). Portanto, todas essas situações estimulam a criança a querer comprar, no entanto, ver o produto nas vitrines ou nas lojas é o que mais estimula a criança a querer comprar.
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Reação da criança quando os pais não compram o que ela queria muito Mais da metade das crianças entrevistadas (59%) fica triste quando os pais não compram o que elas queriam, 15% fica com raiva e 1% chora. Apenas 27% das crianças não liga se os pais não compram o que ela queria (Figura 43).
Figura 43: Reação da criança quando os pais não compram o que ela queria muito
Reação dos pais quando a criança deixa de usar o que eles compraram para ela Quando perguntadas sobre o que os pais fazem quando elas deixam de usar o que eles compraram, a maioria das crianças entrevistadas (60%) nunca viveu essa situação, usam tudo que os pais compram. Porém, 40% das crianças já passaram por isso e contam como é a reação dos pais quando elas deixam de usar o que foi comprado. Para 8% das crianças, os pais ficam irritados; para 6% os pais ficam tristes; para outros 6% das crianças, os pais batem nela; 2% são colocadas de castigo; para outros 2% os pais não fazem nada e para outros 2% os pais conversam (Figura 44).
82
Figura 44: Reação da criança quando os pais não compram o que ela queria muito
6.4. Discussão com crianças
Para a condução da dinâmica com as crianças utilizou-se uma forma adaptada do método de entrevista episódica, tal como formulada por Uwe Flick. De acordo com Flick (2000), a entrevista episódica está baseada em diversos conceitos subjacentes, cujo ponto em comum reside na utilização de narrativas enquanto uma criação cognitiva que privilegia a realidade do que é experienciado pelos contadores do episódio, possibilitando o acesso às interpretações particulares do entrevistado em relação ao mundo (Jovchelovitch e Bauer, 2000). O método de entrevista episódica supõe um trabalho individual de obtenção de narrativas, portanto a questão de como funcionalizar este método para uma dinâmica em grupo com crianças foi colocada para os pesquisadores.
Para
tanto,
os
pesquisadores
desenvolveram
uma
estratégia
fundamentada nos princípios básicos da entrevista episódica, como apontados a seguir: a) combinar convites para os participantes narrarem acontecimentos concretos (relevantes ao interesse da pesquisa) com perguntas que buscam respostas mais amplas (definições, argumentações, etc.) de relevância pontual; b) mencionar situações concretas em que se pode pressupor que os entrevistados possuem determinadas experiências; c) formular perguntas suficientemente abertas para permitir que os 83
participantes selecionem um episódio ou situação que queiram contar e a forma de apresentação, sendo respeitada a relevância subjetiva da situação para o entrevistado (Flick, 2000). Além disso, foi necessário encontrar um procedimento que respeitasse as formas de acesso ao conhecimento episódico próprios da criança, ou seja, que pudesse fornecer vias de acesso mental coerentes com o estado emocional, social e cognitivo típicos desta etapa do desenvolvimento. Tal como adaptado por Peter Kuhn (2003), o método de entrevista episódica para crianças foi precedido de uma atividade de desenhos temáticos, tomados como ponto de partida para a produção de narrativas e discussão em grupo. Os pesquisadores pediram que cada criança produzisse dois desenhos, um abordando “o lugar onde mora” e outro a “família/cuidadores”. À medida que o trabalho de campo foi se desenvolvendo, a equipe pode perceber que não havia a necessidade do pedido pela produção de duas imagens em separado. Além disso, era frequente a reclamação das crianças sobre estarem cansadas ou ficarem muito impacientes na produção da segunda representação, fazendo com que o tempo disponível para a finalização da dinâmica não fosse suficiente. Por isso, em algumas comunidades as temáticas foram apresentadas em conjunto e as crianças ficaram livres para produzir um ou dois desenhos, de acordo com sua própria necessidade. Após a realização das imagens as crianças foram convidadas a se expressarem livremente acerca do material produzido. O primeiro pedido feito pelos pesquisadores foi de que cada criança pudesse contar/descrever o que desenhou e, a partir de seus relatos/descrições, buscou-se gerar narrativas sobre episódios específicos, tendo em mente o princípio de abertura, o que significa fazer intervenções que partam somente do que é trazido por elas, respeitando o vocabulário utilizado, bem como as expressões emocionais adjacentes. Para a análise do material qualitativo utilizamos uma adaptação do método de análise reconstrutiva do discurso, como proposto por Völter e Rosenthal (2008). Este tipo de análise tem como princípios a abertura, a sequencialidade e a reconstrução, e através dele buscamos a reconstrução narrativa de experiências relevantes - positivas e negativas - das crianças, trazendo à tona formas de conhecimento, vivências e
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interpretações individuais e socialmente compartilhadas sobre a família, a moradia, a comunidade, situações de violência, etc. A adaptação dos passos analíticos seguiu as seguintes etapas: a) Seleção dos trechos para análise, seguindo critérios de tipo textual (ênfase em trechos narrativos e/ou diálogos densos), temas (relevantes para a pesquisa) e dados objetivos; b) Sequenciamento (diferenciação de passagens com categorias de tipo textual e mudança de falante) e análise do campo temático (levantamento de hipóteses para trechos fora do contexto do discurso de referência) de cada fragmento. Esta etapa da análise tem por objetivo reconstruir os padrões de argumentação e significação, bem como as narrativas e seu significado para o discurso em sua lógica interna e em seu enquadramento contextual e temático; identificar a quantidade, a forma e os temas de discursos possivelmente paralelos/intercruzados presentes no documento; e desvendar os meios retóricos e linguísticos (metáforas, formas de falar, composições e estrutura temática) do fragmento, a fim de compreender como vai se construindo o discurso. c) Descrição global dos trechos, onde os fragmentos são novamente contextualizados e é apresentado o produto final de análise do discurso e de seus processos sociais relevantes. Durante a discussão com crianças foram sugeridos os temas “família” e o “lugar onde mora”, portanto, temas que remetem imediatamente ao cotidiano das crianças. Santa Cecília O encontro com o grupo de crianças de Santa Cecília ocorreu durante o mês de março de 2014, no saguão de uma ocupação localizada no bairro. O grupo contou com cerca de vinte participantes, tendo começado com apenas seis crianças. Na medida em que o encontro de desenvolvia no saguão central do prédio, pais e responsáveis buscavam os filhos no apartamento e traziam para participarem da etapa de desenhos. Na discussão com as crianças, que durou cerca de uma hora e trinta minutos, ficam evidenciadas as questões sanitárias enfrentadas no cotidiano da residência onde moram e a falta de opções de lazer, bem como as estratégias adotadas para que jovens e crianças tenham momentos livres de maior qualidade. O problema da violência física da qual seriam vítimas não é mencionado; por outro lado, as crianças explicitam as dificuldades cotidianas, tanto aquelas que se referem às limitações materiais, quanto aquelas
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relacionadas aos vínculos provocados em boa medida pelo processo migratório do qual são participantes diretos ou indiretos.
Figura 45: Lugar onde mora e a família por Janaína (7 anos)
Figura 46: Lugar onde mora por Marta, 8 anos
Figura 47: Família por Marta.
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Figura 48: Família por Giovana, 8 anos
Figura 50: Família por Diane, 8 anos
Figura 49: Lugar onde mora por Amanda, 8 anos
Figura 51: Lugar onde mora e a família por Raquel, 8 anos
Bela Vista Em Bela Vista foram realizados dois encontros com crianças em dezembro de 2013. A reconstrução e análise comparativa entre os dois encontros traz importantes insights acerca da possibilidade de tornar sociologicamente válidas e, em algum grau, generalizáveis, as análises qualitativas de grupos específicos. Mesmo que o desenvolvimento dos grupos tenha sido diferente, tanto nas respostas oferecidas pelas crianças, quanto nas especificidades de sua condução na dialética produzida diante de suas respostas. Isto significa que questões comuns foram trazidas por participantes que compartilham de um espaço geográfico, uma faixa etária, uma escola, uma instituição para atividades extracurriculares, etc. Dentre estes pontos comuns, dois parecem ter grande destaque: o primeiro diz respeito àquilo que chamamos de possibilidades interpretativas para a comunicação não verbal dos participantes, ou seja, em muitos momentos, o silêncio, a agitação motora, as brigas e as interrupções de falas mostraram ter significados latentes importantes quando colocadas em seu contexto mais geral; o segundo ponto tem relação com as questões relacionadas aos espaços de moradia, tanto concretamente quanto no sentido dos discursos sociais que permeiam a fala dos participantes. Em relação ao segundo aspecto, vemos que a questão da moradia abrange diversos fatores, que incluem os problemas concretos (econômicos, estruturais, de relação com o bairro, sua infraestrutura, etc.), mas principalmente a incorporação latente
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de discursos que podem ser encontrados na dinâmica do academicamente já trabalhado “imaginário social”. Sobre esta incorporação, percebemos que mesmo em uma faixa etária muito jovem, uma dinâmica muito comum a entrevistas com adolescentes e adultos é encontrada: as crianças compreendem as ideias largamente associadas aos cenários da favela, do cortiço e de áreas mais pobres da cidade, ou seja, fazem um mesmo processo de “defesa” e “separação” discursiva de si e de suas famílias deste contexto que as classes médias e altas lhes atribuem.
Figura 52: Lugar onde mora por Lizi, 9 anos. Figura 53: Lugar onde mora por Caio, 9 anos
Figura 54: Família por Luís, 9 anos.
Figura 55: Família e lugar onde mora por Márcio, 8 anos
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Figura 56: Lugar onde mora por Celso, 7 anos
Figura 57: Família onde mora por Fábio, 7 anos
Figura 58: Lugar onde mora por Fabiana, 8 anos
Figura 59: Lugar onde mora por Mauro, 8 anos
Figura 60 e 61: Família e lugar onde mora por Daniel, 7 anos
Jardim Pantanal
A dinâmica com crianças no Jardim Pantanal foi realizada no mês de setembro de 2013, em uma sala cedida pelo Instituto Alana, com seis crianças: quatro meninas (uma de seis anos, duas de sete e uma de nove anos) e dois meninos (um de seis e outro de oito anos). Muitas temáticas foram discutidas pelas crianças, em especial a família, escola, música e dança. Uma análise geral da reconstrução da dinâmica do grupo de crianças do Jardim Pantanal demonstra que tanto questões relativas ao movimento dos participantes durante o transcorrer do encontro, quanto as questões apresentadas acerca de seu cotidiano, possuem profícua relação em seu conteúdo latente. A construção subjetiva através das ações no cotidiano – elaboração de questões de gênero, de lugar no espaço familiar, entre os pares e em suas biografias – é central para os participantes, e fica
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evidenciada nas diferentes estratégias que utilizam para lidar com estes temas no dia-adia, sejam elas lúdicas (música, brincadeiras, tecnologias), sejam elas através de diferentes incorporações de papéis e discursos.
Figura 62: Lugar onde mora por Larissa, 7 anos
Figura 63: Família por Larissa.
Figura 64: Lugar onde mora por Antônia, 7 ano
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Figura 65: Lugar onde mora por Roberta, 6 anos
Figura 66: FamĂlia por Joyce, 9 anos
Figura 67: Lugar onde mora por Lauro, 6 anos
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Figura 68: Lugar onde mora e a família por Gilberto, 8 anos
Pedreira A dinâmica com crianças em Pedreira foi realizada em novembro de 2013, em uma sala cedida pela UBS Santa Dorotéia, com sete crianças: quatro meninas (duas de seis anos, uma de sete e uma de oito anos) e três meninos (um de sete anos, um de oito e outro de dez anos). As crianças sentaram-se dispostas em círculo no chão, e a atividade teve duração de cerca de 1 hora e 10 minutos. Muitas temáticas foram desenvolvidas pelas crianças, tendo especial destaque aquelas que se referiam a situações de violência urbana no cotidiano, principalmente roubos, bem como questões relativas ao cotidiano familiar. O encontro com o grupo de crianças de Pedreira retrata algumas particularidades que ampliam nossa compreensão acerca da forma como experienciam situações cotidianas, sejam elas de lazer ou de vulnerabilidade. Fica evidenciada certa maturidade com que os participantes lidam com a constante instabilidade que percebem em suas rotinas, principalmente em virtude de situações de risco diante da violência urbana. Além disso, a centralidade das figuras familiares é um eixo estruturante em suas falas, bem como em suas experiências. Esta centralidade, no conjunto das falas, vem evidenciada principalmente nos trechos em que o medo da perda de tais figuras fica manifesto. Para além destes eixos analíticos, vemos que a questão do consumo, como tem sido constatada a partir da análise de encontros com crianças de outras regiões em São Paulo, está muito ligada à obtenção de produtos tecnológicos, como videogames, celulares e tablets. Entretanto, não é possível identificar com clareza quais são os significados atribuídos ao uso destas tecnologias e, por isso, trabalhamos apenas com 92
aproximações oriundas dos outros temas abordados. Uma das hipóteses mais consistentes diz respeito à impossibilidade de momentos de lazer seguro para as crianças na comunidade, percepção também apresentada pelo grupo de jovens da região. As falas que exploram a vida na região de Pedreira traduzem uma realidade em que a sensação de insegurança é permanente; além disso, sempre que as crianças falam de momentos de lazer, a presença de figuras adultas é também apresentada, mostrando que as brincadeiras mais independentes são possíveis apenas dentro do ambiente doméstico, o que poderia justificar tamanho interesse em equipamentos eletrônicos modernos.
Figura 69: O lugar onde mora e a família por Heitor, 7 anos Figura 70: O lugar onde mora por Fernando, 8 anos
Figura 71: O lugar onde mora e a família por João, 8 anos
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Figura 72: O Lugar onde mora por Edison, 10 anos
Figura 74: Lugar onde mora por Liana, 6 anos
Figura 76: Lugar onde mora e família por Alana, 8 anos
Figura 73: A família por Edison
Figura 75: A família por Liana
Figura 77: Lugar onde mora e família por Maíra, 6 anos
Parelheiros-Nova América A dinâmica com crianças de Parelheiros foi realizada no mês de dezembro de 2013, em uma escola local, com cinco crianças: três meninas (duas com dez anos e uma com oito 94
anos de idade) e dois meninos (um com nove e outro com dez anos de idade). Muitas temáticas foram discutidas, tendo especial destaque aquelas que se referiam à comunidade, ao uso e ao tráfico de drogas no local, à família e ao relacionamento com seus pares. Durante a dinâmica com as crianças de Parelheiros, fica evidenciado que a presença de um gravador registrando o encontro transformou-se em um objeto de manifestação acerca do medo de retaliação que as crianças sofrem em relação ao tráfico. Percebe-se que existe um pacto de sigilo acerca de situações envolvendo tanto usuários quanto traficantes na comunidade, que vem como forma de protegê-los destas pessoas. O que fica claro no decorrer das narrativas é que os participantes possuem um arsenal consistente de histórias que viram ou ouviram falar em que pessoas envolvidas em “fofocas” sobre o tráfico sofreram consequências, às vezes ocasionando em mortes. Além disso, a fala acerca do “medo” e da instabilidade no cotidiano do local devido ao tráfico é significativa. As crianças expressam o medo pela vida tanto de forma argumentativa, quanto através de narrativas que mostram os perigos concretos que sofrem, bem como o medo devido ao que imaginam que poderia acontecer com eles. A despeito das temáticas do uso e do tráfico de drogas serem de extrema relevância para as crianças do grupo de Parelheiros durante o encontro, vale ressaltar que a preocupação com questões referentes ao universo da relação com seus pares, a passagem da infância para a pré-adolescência, bem como os universos lúdicos e familiares, são também eixos que se fazem presentes em suas falas.
Figura 78: Lugar onde mora por Sílvio, 9 anos
Figura 79: Lugar onde mora e família por Katiane, 10 anos
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Figura 80: O lugar onde mora e a família por Joana, 10 anos
Figura 81: Lugar onde mora por João, 10 anos
Figura 82: A família, por João
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Figura 83: Lugar onde mora por Laura, 8 anos
Figura 84: A família por Laura.
Pimentas-Água Chata (Guarulhos) A dinâmica com crianças em Pimentas foi realizada no mês de novembro de 2013, em uma sala cedida pelo CEU Pimentas, com seis crianças: quatro meninas (duas de seis anos, e duas de sete anos) e dois meninos (um de seis e outro de sete anos). As crianças sentaram-se em cadeiras dispostas de forma circular, e a atividade teve duração de cerca de 1 hora e 20 minutos. Muitas temáticas foram discutidas pelas crianças, tendo especial destaque aquelas que se referiam à família e ao local onde moram. A incerteza é parte de seu cotidiano, e este processo de ressignificação dos fatos biográficos promove um encadeamento mais coerente e mais previsível daquilo que poderia ser emocionalmente desestabilizador. Para este grupo, especificamente, estas elaborações vêm, muitas vezes, em forma de histórias fantasiosas, onde conteúdos fundamentais estão colocados de forma latente. O lúdico, portanto, desempenha papel fundamental. O grupo apresenta muitas particularidades em sua dinâmica que não puderam ser consideradas na análise, já que dizem respeito ao momento particular de interação grupal. Dentre estas particularidades, podemos destacar a questão do sigilo, que foi tema constante entre os participantes. Incitado, possivelmente pela presença de um gravador e de uma participante adulta que não tinha relação com eles, percebe-se que este tema, manifesto em diversas situações, pode ter influenciado a disposição das crianças para a fala. Em diversos momentos fica perceptível que os participantes ficam mais introspectivos e precisam ser incentivados a participar. Além disso, é possível pensarmos que, não necessariamente de forma consciente, eles possam ter utilizado a forma lúdica de
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narração para que conteúdos não fossem expostos de forma direta. Esta percepção parece confirmar que o “lúdico” é uma ferramenta disponível e utilizada por eles no cotidiano, mas leva-nos a questionar se a questão do sigilo e da não exposição também é algo que se faz presente em seu dia-a-dia na comunidade. Para além deste eixo de análise sincrônica, o grupo retrata um movimento também já percebido em outros grupos onde existe também uma forma lúdica de lidar com as “desacomodações” no espaço grupal. Como exemplo, temos o menino que imita ou faz piadas com a menina que toma conta da fala sempre que começa a contar alguma história; ou ainda, a forma como as crianças se afastam e vão tomar água ou ir ao banheiro sempre que uma temática difícil lhes é proposta. Desta forma, os movimentos sincrônicos e diacrônicos não se encontram em separado, mas unidos por uma mesma forma de encadeamento de sentido e formas de “jogar no cotidiano”, processo pelo qual as crianças estão passando de forma intensa nesta faixa etária.
Figura 85: Lugar onde mora e a família por Daniel, 6 anos
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Figura 86: Lugar onde mora por Alice, 7 anos
Figura 87: Lugar onde mora por Marcelo, 7 anos
Figura 88: Lugar onde mora por Marcelo
Figura 89: Lugar onde mora e a famĂlia por Mariane, 6 anos
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Figura 90: FamĂlia por DĂŠbora, 7 anos
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Figura 91: Lugar onde mora por Silvia, 6 anos
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7. Adolescentes e infância Em cada uma das comunidades pesquisadas foram realizados dois grupos de discussão com adolescentes, um grupo de meninas e outro que reuniu um pequeno grupo de meninos (nas comunidades Bela Vista e Pimentas-Água Chata os grupos foram mistos). Ainda que a discussão tenha sido conduzida com um roteiro previamente definido, o mais importante foi permitir que os próprios participantes identificassem livremente os temas que mais mobilizavam sua atenção. Dada as particularidades de cada uma das comunidades, destacamos a seguir uma síntese de cada um desses grupos de discussão em cada comunidade.
Santa Cecília O discurso das participantes do grupo de meninas de Santa Cecília destaca o processo de transição entre a infância e a adolescência, no qual apresentam identificações com pessoas da comunidade, sobretudo aquelas que, para elas, representam uma força que consegue controlar minimamente o ambiente ao redor. A esta proposição vem somada a situação de mudança de moradia e as transformações biográficas e emocionais que dela decorrem, bem como a necessidade de adaptação ao novo contexto, com suas particularidades e regras. Inerente ao momento que enfrentam, observa-se a perda do controle e a incapacidade de compreender integralmente o novo funcionamento vigente em seu cotidiano. Todas estas especificidades tornam a fase que as participantes estão vivenciando um momento bastante delicado, onde expectativas, frustrações, vulnerabilidades e novas respostas relacionais precisam ser toleradas, apreendidas e incorporadas, em um processo que demanda energia emocional e movimentos internos de identificação e ressignificações simbólicas. Na discussão com os adolescentes em Santa Cecília pudemos observar que dois movimentos decorrentes do momento de transição que os meninos enfrentam estão em diálogo no grupo: buscam por identificações, que ora se colocam no universo de seus pares, ora na idealização de um mundo adulto. A primeira questão que parece relevante, neste sentido, é aquela que pergunta pelas razões dos participantes em alguns momentos rechaçarem, e em outros identificarem-se com o universo adolescente. Podemos pensar
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em, pelo menos, duas hipóteses significativas. Uma diz respeito à convivência com seus pares e uma espécie de admiração pela forma como afirmam sua masculinidade através de pequenos furtos e conquistas através da força física. Neste sentido, poderíamos pensar, existe ainda um aspecto de “infantilidade”, já que as características que admiram nos jovens tem relação com aspectos de onipotência, típico em estágios de desenvolvimento infantil. Por outro lado, como segunda hipótese, o universo adulto lhes cabe apenas quando idealizado, pois representa uma autoridade com a qual ainda rivalizam internamente e no cotidiano. Por fim, ressaltamos que desvincular-se da imagem dos adolescentes que consideram desviantes, é garantir diante da pesquisadora que eles fazem parte da “moralidade dominante”, ou seja, aquela que julgam ser a moralidade no âmbito cultural da entrevistadora, e que observam em seu cotidiano como uma referência para seu comportamento. Entretanto, ao buscar uma afirmação de sua masculinidade, e tomando como parâmetro seu próprio universo cultural, encontram nestes mesmos jovens uma referência de força, ainda que, em algumas situações, mediadas por “atos desviantes”.
Bela Vista Durante a descrição da análise do encontro com o grupo de jovens de Bela Vista, foi possível observar que, apesar dos diversos temas abordados durante o encontro, uma linha temática geral desenhou-se na medida em que as falas eram exploradas na discussão. Esta temática geral não é aleatória e diz respeito justamente ao momento biográfico e de desenvolvimento que os jovens atravessam. Se por um lado é possível que compreendamos seu processo sincrônico de saída da infância, busca por referências, desejos e formas adotadas para a realização destes desejos, por outro lado vemos o desenvolvimento diacrônico daquilo que permeia a forma como eles atravessam este momento, ou seja, sua história de vida e, principalmente, os aspectos familiares e culturais que constituem muitos dos posicionamentos adotados. O momento de discussão em grupo é também um espaço de “teste” destes papéis que, na vida cotidiana, eles também se desafiam a experimentar nas relações, mas de forma muito mais comedida. O jovem “corajoso”, “destemido”, “transgressor”, “alheio às regras e aos limites”, são papéis incorporados muito mais a nível argumentativo que narrativo, indicando que, na experiência, os participantes ainda se encontram em um momento 103
transitório, onde necessitam da proteção e da aceitação do grupo primário e das figuras de autoridade em geral.
Jardim Pantanal O grupo de discussão com meninas no Jardim Pantanal foi caracterizado por um grupo relativamente grande e diverso de participantes, que, mesmo tendo idades bastante parecidas, não se conheciam entre si. A diversidade de estilo de vida eram aparentes, com algumas sendo frequentadoras de cursos profissionalizantes na instituição onde o grupo de discussão ocorreu, enquanto outras apenas frequentavam escola; algumas participantes eram evangélicas, enquanto outras, em seu tempo livre, gostavam de frequentar festas e sair à noite. Apesar da diversidade, o tema da violência e da agressividade parecia perpassar discursos variados das participantes. Essa violência e agressividade, segundo os relatos, se expressaria em conflitos domésticos, especialmente entre irmãos, no círculo de amizades e de conhecidos, principalmente na escola e na ligação de várias pessoas próximas às participantes com atividades ilegais. A violência ligada ao tráfico de drogas, apesar de não ser ressaltada, parece compor mais um elemento de um contexto social marcado pelo uso da violência como maneira de negociação e diferenciação entre os moradores, sejam eles homens ou mulheres, adultos ou jovens. Na discussão com adolescentes masculinos, o que parece ter sido comum aos participantes ao longo de toda a discussão foi a necessidade de diferenciação das pessoas que vão para a “vida errada”. Desde a fala inicial, na qual os meninos contam o que mostrariam da comunidade para alguém que não a conhece, descrevem os locais que apresentariam com a ressalva de que alguns são muito perigosos, parecendo retirarse e colocar-se de fora, como se esse mundo perigoso não fizesse parte do mundo deles. A forma como os assuntos foram abordados pelos participantes ao longo do grupo parece ter partido do ponto de vista de meninos que não foram para a vida errada e que temem e abominam as pessoas que foram, sendo que todos os temas tratados acabavam passando, de uma forma ou de outra, por este crivo.
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O tema da família esteve também muito presente como forma de reforçar a distância dos meninos em relação às pessoas que seguiram este caminho. Os familiares dos participantes aparecem como bons exemplos, e a educação que receberam parece consoar com o que os meninos aprenderam ser a “fórmula” para que uma pessoa “dê certo” e não vá para a “vida errada”. Da mesma forma, colocam os problemas familiares como uma das principais razões para que as pessoas se envolvam com o crime e com as drogas, reforçando, mais uma vez, o contraste entre eles e o mundo perigoso do qual falam. A valorização dos estudos como meio para garantir um bom emprego e, portanto, um bom futuro esteve também presente ao longo de todo o discurso do grupo. Parece implícita à fala dos garotos a vontade de deixar claro que falam do ponto de vista de jovens que frequentam cursos e têm acesso a instituições, mais uma vez diferenciandose dos que “se perdem na vida” e não têm metas claras para seu futuro. A oportunidade de contato com instituições, portanto, parece ter estado presente na forma de um atravessamento que direcionou (e/ou permeou) seu discurso em um sentido mais racionalizado, que tem como base o aprendizado de uma psicologia que seria a do “bom jovem” e das famílias que “dão certo”. Outro atravessamento que se pode considerar presente, foi a tentativa dos participantes de atender às expectativas dos pesquisadores, levando-se em consideração as diferenças já comentadas.
Pedreira No grupo de discussão com meninas em Pedreira pareceu estar presente ao longo de toda a discussão das meninas uma exacerbação das características da passagem da infância/puberdade para a adolescência. Diante da pesquisadora e das demais participantes, as meninas pareceram dar ênfase aos aspectos conhecidos desta etapa da vida, afirmando sentirem-se mais irritadas e revoltadas com os pais, buscando mostrar conhecimento sobre os meninos que se aproximam do mundo das drogas com o uso de recursos como Facebook e Whatsapp, que parecem ser colocados como símbolos do mundo adolescente. A tecnologia, neste contexto, assume papel importante, pois permite às meninas se colocarem como apropriadas do que consideram ser o mundo adolescente atual. Por outro lado, exerce o papel de impor às meninas a realidade desta 105
nova etapa a que se direcionam, na qual o grupo de iguais se reduz de forma seletiva e as atividades mais externas, grupais e lúdicas, passam a ser substituídas por práticas mais intelectuais e individuais. Desta forma, pareceu implícito ao discurso das meninas um movimento de apropriação das características desta fase que se inicia, que pôde ser percebido através da oscilação entre uma fala mais infantil, que mostra sentir saudades da ingenuidade da infância e de suas brincadeiras lúdicas, e uma fala mais adolescente, que mostra proximidade com o mundo das drogas e frustrações com a família. Na discussão com o grupo misto vemos que existe uma constante intenção das participantes em se mostrarem como diferentes das meninas de sua região, pois se consideram inseridas em uma moralidade superior, mais voltada para os costumes de suas mães e avós, tanto em relação à conservação sexual e nos relacionamentos, quanto aos papéis desempenhados pelas mulheres. Na ordem latente, vimos que esta diferenciação está ligada ao próprio medo das meninas em enfrentarem as relações instáveis com seus pares, já que a entrada no mundo jovem tem relação com o enfrentamento de seus temores mais genuínos, sua sexualidade, suas expectativas, desejos e instintos. Os relatos das participantes deixam claro que suas histórias familiares - violência gerada pelas figuras masculinas, sua ausência e a liderança feminina na família nuclear – parecem, em muito, ligadas aos argumentos apresentados e, portanto, também precisam ser considerados quando falamos da dificuldade das meninas em enfrentarem seu grupo de pares, principalmente meninos, em relações que, apesar de sentirem-se em risco, conseguiriam se proteger internamente.
Parelheiros-Nova América No grupo com as meninas ficou evidente a necessidade das participantes em mostraremse como jovens maduras, com capacidade de fazer escolhas diferentes daquelas feitas pela maioria dos jovens em seu local de moradia. Esta intenção de diferenciarem-se destes jovens permeia quase todas as falas e demonstra duas ideias centrais: a primeira é a de que as meninas têm ideias sobre quais seriam as expectativas das outras pessoas em relação ao que é melhor ou pior no âmbito moral; a segunda é a de que, ao fazer isto, interpretam um papel que lhes deixa mais afastadas do medo que sentem em vivenciar a 106
adolescência de forma plena, já que isto representaria um substancioso perigo de também fazerem escolhas as quais julgam erradas. Existe, portanto, o medo da mudança e também o rechaço aquilo que não podem controlar. Já no grupo masculino uma temática que parece geral ao discurso, e compartilhada entre os participantes, é de que a falta de opções de lazer e ocupação do tempo livre é algo que pode ter resultados negativos relevantes. Boa parte da discussão é permeada, por um lado, pela temática da falta de opções e de investimento público e privado em espaços de lazer para os jovens e, por outro, as causas pelas quais muito jovens acabam se engajando no tráfico e no uso de drogas ilícitas. Os participantes acentuam significativamente o fator “criminalidade e tráfico de drogas” como uma escolha relevante para os jovens de sua idade na região. Demonstram isso ao contemplarem temporalmente as mudanças que foram ocorrendo em suas relações com amigos que, com o amadurecimento, foram se envolvendo com nichos ilícitos. Ao mesmo tempo em que buscam mostrar este contexto, demonstram a necessidade de manterem-se protegidos destes meios, apontando que escolher coisas diferentes requer estratégias que vão desde o afastamento de algumas pessoas, até lidar emocionalmente com situações de perda, mudança e conflito.
Pimentas-Água Chata (Guarulhos) A criminalidade, os fatores de constituição do espaço urbano do local em que vivem, o processo de criminalização e segregação enfrentadas pelos moradores, e marcante presença da igreja em suas mais diversas significações, são pontos centrais no discurso dos participantes, o que, de forma geral, indica três pontos analíticos mais gerais: a) para que se compreenda a dinâmica de vida em uma região marcada pela violência, tanto a violência quanto a criminalidade (conceitos diferentes), estas esferas devem ser vistas a partir do prisma do morador, tomando suas experiência como ponto de partida; b) no caso deste grupo de jovens, a violência e criminalidade não pode ser vista de maneira indiferenciada, mas deve contemplar as especificidades de cada caso; c) os participantes apontam a invisibilidade e a falta de investimento e possibilidade de exercício da cidadania como principais fatores para o envolvimento de jovens com drogas e crimes; este “desvio” surge principalmente quando, além da falta de oportunidades na comunidade, a instituição familiar não é suficiente para que o jovem 107
siga o “bom caminho”; d) no caso do jovem que acaba por se envolver em “caminhos errados”, a igreja é um espaço de acolhimento e “salvação”, cuja moralidade compreende aspectos empáticos à forma de vida destes moradores, seus anseios e problemáticas, tornando-se aliada no processo de “recuperação moral”.
8. Conclusão O presente volume apresentou uma síntese dos resultados da pesquisa “Infância e violência: cotidiano de crianças pequenas em favelas e cortiços de São Paulo”, cujos dados foram obtidos em três favelas da cidade de São Paulo, uma favela em Guarulhos e dois bairros do centro de São Paulo com a presença de cortiços (pensões). Para cada uma das favelas onde se realizou o estudo foi produzido um volume específico, disponível na página de Internet do Centro de Análises Econômicas e Sociais da PUCRS (www.pucrs.br/caes), cujo foco principal foi analisar as especificidades de cada uma delas no tocante ao cotidiano de crianças pequenas vivendo nessas comunidades. Não se tratou de uma análise de cada uma das favelas pesquisadas. Antes, o interesse do estudo foi buscar elementos capazes de oferecer um diagnóstico o mais amplo e detalhado possível sobre o cotidiano de crianças pequenas (de 0 a 8 anos de idade), com ênfase sobre as experiências de violência dessas crianças. Para além do diagnóstico, a pesquisa buscou, na medida do possível, explorar alguns elementos explicativos para a violência testemunhada e sofrida por essas crianças. E, por outro lado, com a ajuda de metodologias qualitativas, buscou-se compreender a presença da violência – em suas mais variadas expressões – no cotidiano dessas crianças. Diferente dos volumes de cada uma das favelas ou comunidades pesquisadas, este Volume Síntese busca apontar tanto os elementos comuns a todas elas e, ao mesmo tempo, destacar aspectos específicos do cotidiano de crianças em cada uma das comunidades analisadas. A partir de entrevistas com lideranças em cada uma das favelas, pode-se verificar que o tema da violência no cotidiano de crianças pequenas não constitui um consenso. Por um lado, algumas lideranças a identificam como um problema recorrente e grave que exigiria uma maior atenção do que tem recebido das autoridades – e delas próprias – até o momento. Por outro lado, pode-se igualmente ouvir de algumas das lideranças que a violência contra a criança é um problema marginal em suas comunidades ou que as 108
restrições e punições físicas e psicológicas são, na verdade, momentos necessários no processo educativo empreendido por pais e responsáveis. Para estes, os principais problemas das comunidades onde residem seriam de ordem urbanística, como a falta de saneamento, áreas de lazer e transporte. Como se pode verificar em outros instrumentos adotados nesta pesquisa na produção de dados, se a precariedade da infraestrutura não chega a provocar violência, parece, pelo menos, agravar as situações de violência enfrentadas pelas crianças. Isso sugere que estratégias para redução da violência contra crianças devem incluir tanto aspectos mais diretamente relacionados à criação de filhos e às relações entre os membros de uma mesma família, quanto a melhoria da infraestrutura e da prestação de serviços nessas comunidades, em especial espaços de lazer para as crianças e condições de moradia. Assim como as lideranças nas comunidades, também os responsáveis pela prestação de serviços, como saúde e educação, apontam os problemas de infraestrutura como uma das principais mazelas das comunidades pesquisadas. Contudo, estes tendem a ser mais explícitos na caracterização do cotidiano das crianças como permeado por uma intensa violência, sobretudo aquelas testemunhadas nas ruas das comunidades. Os fatores que estariam contribuindo para agravar a situação, de acordo com os prestadores de serviços, seriam a presença de grupos de pessoas envolvidas com a venda de drogas, que aliciam crianças para o consumo como também para atuarem no seu comércio. A violência sofrida pelas crianças em casa não tem o reconhecimento unânime da parte dos entrevistados como um problema nas comunidades em que atuam. Em algumas das comunidades pesquisadas tanto os prestadores de serviços, quanto as lideranças locais, têm dificuldades de identificar organizações civis nas regiões em que residem e trabalham. Esse parece ser um indicador de baixo desenvolvimento do capital social nessas comunidades, o que tende a se constituir em um obstáculo adicional para se criar um ambiente mais propício ao desenvolvimento da infância. Aplicou-se um questionário aos pais e responsáveis por crianças pequenas nas seis regiões pesquisadas e um outro questionário que foi respondido por crianças de 6 a 8 anos de idade. Os resultados apontam que agrupando os resultados de todas as seis comunidades pesquisadas, nas ruas da comunidade 51% dos adultos ouvem tiros com armas de fogo, 47% presenciam policias apontando uma arma, 62% testemunham venda de drogas e 17% testemunham outras pessoas que não policiais apontando arma de 109
fogo. Ao mesmo tempo, 27% dos adultos que responderam ao questionário já ficaram sabendo de abuso sexual contra criança em suas respectivas comunidades. Por outro lado, os tipos de violência testemunhados pelas crianças de 6 a 8 anos de idades, respondentes do questionário específico para elas, dão conta de que 43% delas já presenciaram alguém sendo preso pela polícia, 31% já testemunhou adulto batendo em criança nas ruas da comunidade, 32% já viram um adulto batendo em adulto, 31% já viu alguém vendendo drogas e 15% já presenciou adulto atirando com arma de fogo. Por outro lado, 57% das crianças já apanharam em casa. Da mesma forma, a grande maioria das crianças (75%) já foi colocada de castigo pelos adultos. Igualmente elevados são os tipos de violência testemunhados pelas crianças dentro de casa: 55% já viu adulto batendo em criança, 64% já viu adulto gritando com criança, 51% já presenciou adulto gritando com outro adulto em casa e 23% já viu, dentro de casa, adulto batendo em outro adulto. Se comparados alguns dados entre as comunidades temos os seguintes resultados na percepção de adultos e crianças (Quadro 11): Quadro 11: Tipos de violência nas favelas/comunidades/cortiços Favela/Tipo de Violência
Cortiços Santa Cecília Bela Vista Comunidades Jardim Pantanal Pedreira ParelheirosNova América PimentasÁgua Chata (Guarulhos)
Ouvir tiros
Percepção de Adultos Fica Vê Bater sabendo venda em de de criança abuso drogas sexual contra crianças
Adulto atirando com arma
Percepção de Crianças Adulto Colocada de batendo castigo em em casa criança na comunida de
Apanhar de adultos em casa
27% 47%
14% 28%
44% 59%
56% 54%
17% 13%
45% 33%
80% 70%
53% 53%
55%
30%
76%
53%
17%
43%
83%
65%
66% 46%
39% 32%
73% 46%
52% 55%
13% 17%
20% 23%
80% 63%
36% 57%
64%
22%
71%
49%
9%
36%
75%
74%
Destaca-se do quadro acima que, em relação à percepção dos adultos, Santa Cecília apresenta os menores índices de violência na comunidade (ouve tiros, fica sabendo de abuso sexual e vê pessoas vendendo drogas), contudo, os pais em Santa Cecília admitem praticar violência física contra os filhos em índice semelhante ao das demais comunidades pesquisadas. Quanto ao mais, observa-se que, a despeito da variação nos índices de violência testemunhada pelos adultos, os índices de violência física dos 110
adultos contra as crianças é bastante semelhante, sem grande variações. Esses dados sugerem que outros fatores que não as violências testemunhadas pelos adultos nas suas respectivas comunidades parecem exercer maior influência nas atitudes de praticar violência física contra crianças. Em relação à percepção das crianças, os dados acima parecem sugerir que o fato de que o percentual de crianças que testemunham adultos atirando com armas de fogo não exerce forte influência na violência física sofrida por elas em casa. Esses resultados reforçam a hipótese de que outros fatores que não o testemunho de violência nas ruas da comunidade estejam exercendo maior influência sobre a violência física e psicológica (ser colocada de castigo) sofrida pelas crianças. Os resultados revelam uma diferença estatisticamente significativa entre os grupos de adultos quanto à frequência com que batem na criança (K-W, chi² = 21,028, sig = 0,000). A mãe e a avó se destacam como aquelas que batem com mais frequência do que os demais grupos e o pai se destaca como aquele que menos bate. A maioria (58%) das mães bate na criança. Logo em seguida estão as avós, 51% delas bate. Os pais são os que batem com menos frequência, a maioria nunca bateu (61%), portanto, 37% deles já bateram. O grupo dos outros (composto por tias, tios, primas, primos, irmãos, avô, etc.) bate com um pouco mais de frequência do que o grupo de pais e menos do que as mães e avós. A maioria do grupo dos “outros” nunca bateu (59%). Uma hipótese a ser explorada aqui é de que haveria uma hierarquia na prática da violência, ou seja, o comportamento do homem se daria contra sua companheira e desta contra os filhos. Os dados revelam uma diferença estatisticamente significativa entre a idade das crianças e a frequência com que a mãe bate nelas (K-W, chi²=72,374, sig=0,000). A criança de 3 anos se destaca como aquela cuja mãe mais bate e a criança de 0 a 11 meses se destaca como aquela cuja mãe menos bate. A maioria das mães (83%) cujas crianças tem 3 anos bate na criança. Apenas 17% das mães cujas crianças mais velhas têm a idade de 3 anos nunca bateu na criança. Enquanto entre as mães de crianças de até 11 meses, 100% nunca bateu. Entre as demais mães o índice da violência física (bater ou dar uns tapas) praticada contra a criança é elevado, a maioria das mães batem, com exceção das mães de crianças de 2 e 1 ano, cuja maioria nunca bateu. Porém, mesmo entre as mães dessas crianças, de 2 e 1 ano de idade, os índices são significativos: 46% e 32%, respectivamente, batem. Entre as mães de crianças de 5 anos, 67% batem; entre as mães
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de crianças de 6 anos, 72% batem; entre as mães de 4, 8 e 7 anos, 67%, 64% e 66% das mães batem. O conjunto de informações obtidas dos questionários aplicados aos adultos permitiu a análise de regressão com o objetivo de identificar as variáveis que poderiam estar associadas ao aumento ou redução da violência contra a criança, seja física quanto psicológica. Com isso, é possível afirmar que nas seis regiões pesquisadas apenas uma variável provoca a redução da chance da criança sofrer violência física. Se o domicílio possuir dois banheiros a criança terá 40% menos chance de sofrer violência física. Por outro lado, se a criança implica e briga com os irmãos aumenta em 4,90 vezes a chance da criança sofrer violência física; se a criança comporta-se mal, gritando, faz aumentar em 4,68 vezes a chance da criança sofrer violência; se a criança responde mal aos outros ela tem 4,46 mais chance de sofrer violência física; se a criança desobedece e fica teimosa há um aumento de 2,27 vezes a chance de ser vítima de violência física. Outras variáveis também aumentam a chance da criança sofrer violência: se o entrevistado for mulher (mãe ou avó) a chance de uma criança sobre violência física é 2,26 vezes maior se comparado com o fato do entrevistado for homem; caso o adulto entrevistado almoça com a criança, há um aumento de 80% na chance da criança sofrer violência; já se um adulto grita com outro adulto na presença de crianças aumenta em 52% a chance da criança ser vítima de violência; quando aumenta o número de crianças no domicílio há um aumento de 25% na chance da criança sofrer violência física; observa-se que a chance da criança ser vítima de violência física aumenta em 37% se no domicílio há homem que bate em mulher na frente da criança. Por outro lado, há uma redução na chance da criança sofrer violência física se o domicílio possuir dois banheiros. O mesmo procedimento de análise foi adotado para se verificar as variáveis que aumentam ou diminuem as chances de colocarem a criança de castigo e gritarem com ela (ver subcapítulo 5.3).
Ao mesmo tempo, a pesquisa adotou procedimentos de análise qualitativa com o objetivo de compreender a perspectiva de crianças e adolescentes. Desta maneira, foram realizadas em cada uma das seis comunidades discussões com crianças sobre episódios relacionados ao “lugar onde moram” e “família”, temas de desenho para o qual foram convidados a realizar. O tema da violência não foi sugerido pelos pesquisadores e em 112
algumas das comunidades o tema não é sequer mencionado, ainda que, como demonstra outros instrumentos adotados nessa pesquisa, as crianças sejam vítimas frequentes de violência. Em contrapartida, é praticamente unânime a ênfase dada pelas crianças na deficiência da infraestrutura das regiões onde vivem, sobretudo em relação a áreas de lazer. Chama a atenção igualmente os sentimentos de incerteza no cotidiano das crianças, provocados tanto pela ameaça, sempre constante, de remoções das residências que ocupam (nas favelas ou nos cortiços), seja pelos constrangimentos e ameaçadas de pessoas envolvidas com o tráfico de drogas. Essa constante instabilidade que percebem em suas rotinas, principalmente devido à eminência de situações de risco diante da violência urbana, deve ter implicações importantes no desenvolvimento infantil, que o presente estudo não tinha intenção de mensurar. Além disso, a centralidade das figuras familiares é um eixo estruturante em suas falas, bem como em suas experiências. Nas discussões em grupo com adolescentes, o tema da violência está muito presente, ainda que não tenha sido sugerido pelos pesquisadores. Essa violência se expressaria em conflitos domésticos, especialmente entre irmãos, no círculo de amizades e de conhecidos, principalmente na escola e na ligação de várias pessoas próximas às participantes com atividades ilegais. Mesmo onde a violência ligada ao tráfico de drogas não é ressaltada, esta parece compor o contexto social como maneira de negociação e diferenciação entre os moradores, sejam eles homens ou mulheres, adultos ou jovens. Na discussão com adolescentes masculinos, o que parece ter sido comum aos participantes ao longo de toda a discussão foi a necessidade de diferenciação das pessoas que vão para a “vida errada”. Os familiares dos participantes aparecem como bons exemplos, e a educação que receberam parece consoar com o que os meninos aprenderam ser a “fórmula” para que uma pessoa “dê certo” e não vá para a “vida errada”. A partir dos resultados obtidos da análise dos dados coletados sugerimos – de maneira preliminar e com o objetivo de estimular o debate – algumas estratégias para se buscar superar parte dos problemas identificados, em especial quanto à tentativa de redução ou eliminação da violência do cotidiano das crianças. Contudo, as linhas gerais para a elaboração de uma estratégia será buscada a partir da exposição desses resultados a um conjunto de atores interessados, em primeiro lugar a partir da colaboração das próprias comunidades onde realizamos o presente estudo, como também de organizações civis 113
que atuam nas regiões pesquisadas, assim como por especialistas que tomarão contato com esses resultados nos próximos meses. Ainda assim, já é possível identificar, a partir dos resultados obtidos, os parâmetros que deverão balizar essa discussão. Nesse sentido, propõe-se que a elaboração de uma estratégia que vise criar melhores condições de vida para a infância em São Paulo, considere o que segue: A mulher ocupa um lugar central na reprodução da violência na comunidade e nas famílias. Nesse sentido, estratégias devem incorporar tanto quanto possível a criação de melhores condições para a mulher, com vistas a aumentar sua escolaridade e sua capacidade de geração de renda. Além disso, como se verificou que mães entre 25 e 34 e entre 35 e 44 anos de idade são aquelas que mais batem na criança, é fundamental que estas recebam algum tipo de acompanhamento com vistas a reduzir esta possibilidade de praticar violência física contra as crianças pequenas. É indispensável que o acompanhamento pré-natal do serviço de saúde nas comunidades se dê também de maneira deliberada considerando atitudes nãoviolentas das mães em relação aos recém-nascidos e filhos pequenos, tendo em vista que as maiores vítimas da violência física são meninos e meninas de três anos de idade. Como se observou, há um aumento da chance da criança sofrer violência física quando “se comporta mal”, sugere-se que os pais sejam abordados para, explicitamente, se falar sobre a necessidade de estabelecer momentos de convivência que sejam mais prazerosos para a criança e os pais e para que possam lidar de maneira não-violenta já nos primeiros anos de vida dos seus filhos. Ainda que alguns indicadores de violência testemunhada nas ruas das regiões pesquisadas estejam abaixo daqueles verificados em Recife e no Rio de Janeiro, onde a mesma pesquisa foi realizada, os índices de violência física contra a criança em casa são extremamente elevados. Esse dado sugere que algumas estratégias de redução da violência contra a criança devam voltar-se com especial atenção para as condições de vida do pais, tanto em relação às condições sócio-educacionais e de condições de moradia, visando minimizar a 114
precariedade das condições de vida (geração de renda, moradia, educação, transporte, etc.). Diversos entrevistados, incluindo as próprias crianças e adolescentes, apontam para a deficiência da oferta de áreas de lazer em suas comunidades. Nesse sentido, sugere-se que ações sejam empreendidas com vistas a minimizar esse problema. Buscar atrair um grande número de adolescentes para programas educacionais, culturais
e
esportivos
extracurriculares,
nos
quais
seja
integrado
acompanhamento de questões familiares e afetivas dos participantes, seja através de acompanhamento psicológico e de assistência social individuais ou em grupo. Cabe destacar que a ampliação do número de cômodos das casas deverá reduzir a possibilidade da criança ser alvo de violência física dentro de casa. Nesse sentido, intervenções nas condições de habitação devem ser igualmente priorizadas. Em algumas das comunidades pesquisadas identificou-se a baixa densidade de organizações civis da própria comunidade, o que sugere índices relativamente baixos nos níveis de confiança e cooperação entre os moradores. Sugere-se, assim, que seja dada atenção especial à criação de condições para o desenvolvimento social local, em que a iniciativa comunitária poderá cumprir um papel importante no estabelecimento de um ambiente mais propício ao desenvolvimento da infância, livre de restrições violentas, em casa, na escola e nas ruas das comunidades. Uma conclusão adicional do presente estudo é de que empreender esforços para conhecer as especificidades do cotidiano das crianças de cada comunidade tem a vantagem de permitir desenvolver estratégias mais precisas e ajustadas à realidade com vistas a criar um cotidiano em que a violência esteja ausente no processo de desenvolvimento das crianças. O conhecimento das especificidades permite mais facilmente engajar atores sociais comprometidos com o tema e com a comunidade, como organizações não-governamentais e as próprias famílias, assim como instituições privadas e governamentais. Ao mesmo tempo, o conhecimento dos aspectos 115
compartilhados por todas elas permite, por sua vez, desenhar políticas públicas que abordem os problemas que se repetem na vida das crianças, com relativa independência de qual comunidade em que residam. É provável, contudo, que as ações terão mais eficácia se levarem em consideração ambos os aspectos, ou seja, tanto aqueles comuns a crianças vivendo em qualquer favela quanto as características de cada uma dessas favelas. Isso porque a presença da violência no cotidiano tanto pode estar vinculado às condições do(a) autor(a) da ação violenta (como renda, escolaridade, idade, gênero, etc.), quanto às características urbanas, ao histórico de ocupação do território, à presença de iniciativas civis ou ao contrário, à forte dependência de atores públicos, assim como ao seu oposto, ou seja, a um abandono das autoridades públicas em relação a serviços e condições de infraestrutura, quanto ainda às experiências biográficas dos indivíduos que vivem em favelas e tem sob sua responsabilidade e cuidado crianças de 0 a 8 anos de idade. Todos esses aspectos foram considerados na presente pesquisa, o que exigiu adotar distintos instrumentos para a produção de dados, assim como uma diversidade de personagens ouvidos, entre pais e responsáveis por crianças pequenas, as próprias crianças, adolescentes, lideranças da comunidade e representantes de instituições que prestam serviços diretamente nas favelas em que foi realizado o estudo. A manifestação de todos eles está presente de maneira sintetizada neste volume. Cabe, aqui, um alerta. A pesquisa não chegou à conclusão nem partiu do pressuposto de que a criança convive com mais violência nas favelas pesquisadas do que em bairros de classe média. A opção por limitar o estudo ao cotidiano de crianças vivendo em favelas dá-se tão somente pelo fato de que, objetivamente, as condições de precariedade e vulnerabilidade são visivelmente maiores nas localidades pesquisadas do que em bairros de classe média das cidades brasileiras, o que provavelmente não seja suficiente para concluir que nestes últimos a experiência de violência das crianças seja limitada ou virtualmente inexistente. Os resultados obtidos ganham contornos de urgência, pois, independente de ser maior ou menor que em outros lugares ou em outras épocas, dão conta de um cotidiano infantil marcado por diversos tipos de violência, tanto como testemunhas quanto vítimas diretas, na escola, nas ruas das favelas onde vivem, assim como em suas casas. Tudo isso reportado não por registros estatísticos de órgãos das administrações públicas, mas por todos os atores envolvidos, em especial as próprias crianças e seus pais e responsáveis. 116
A leitura atenta do presente volume, e, na medida do possível, dos volumes de cada uma das favelas, deverá subsidiar aqueles responsáveis por organizações, públicas e da sociedade civil, na tomada de decisões e desenho de ações que busquem modificar a realidade documentada nesta pesquisa. Com isso, as instituições envolvidas na condução desta pesquisa, esperam ter cumprido um passo importante em todo esse processo, que é precisamente permitir que seja produzido conhecimento o mais acurado possível sobre os contornos do cotidiano de crianças vivendo em favelas, que é, como verificado, profundamente marcado por experiências de violência. Trata-se, cabe destacar, de uma iniciativa que nada custou aos cofres públicos dos diferentes níveis de governo.
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