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Os passos de Niara

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Para todas as crianças negras,

Para que saibam da sua beleza

Para que encontrem com natureza A sua força interior

Para que em meio a jornada Na difícil caminhada

Não se sintam menosprezadas Pela sua cor

Para que saibam da verdade Que há capacidade

De ser advogada, empresária ou doutor Que elas podem ser elas

E que abram-se as portas e as janelas Porque crianças negras são belas E também merecem amor


Texto: Caroline Rosa e Liliam Oliveira Revisão: Liliam Oliveira Poema: Caroline Rosa Ilustrações: Caroline Rosa e Jessica Maria Arte final: Beatriz Martes Diagramação: Beatriz Martes Agradecimento: Professor Antônio, o orientador deste projeto. Professor André, pela introdução à diagramação e os conhecimentos de ilustração digital que nos foram passados. Professora Domitila, pelas importantes pautas sobres questões sociais que foram levantadas durantes suas aulas, permitindo com que pudéssemos nos posicionar e formular pensamento crítico. E a todas as pessoas envolvidas, que contribuíram com o projeto, respondendo às pesquisas, e contando suas histórias referentes ao racismo.


Era uma vez, uma garotinha chamada Niara, uma super-heroína muito forte, alegre, e linda, mas que ainda não sabia disso. Niara tinha a pele e olhinhos marrons como o chocolate e cachinhos bem enroladinhos, como uma mola.


Era baianinha, nascida em Salvador, onde adorava correr em volta do mar e sentir a areia entrando entre os seus dedinhos, mas sonhava em um dia conhecer São Paulo, a cidade famosa por seus prédios que tocavam o céu.


Quando finalmente chegou a cidade com os seus pais, estava muito animada. Queria conhecer todos os lugares, principalmente sua escola e seus novos coleguinhas. O que ela mais queria, era mostrar para eles uma dança chamada marabenta*, que aprendeu com sua avó.


Em sua antiga escola, Niara adorava participar das atividades. Sempre foi muito dedicada e criativa. Era uma verdadeira artista. Além de dançar, gostava também de desenhar os animais, pintar o mar da cidade que nasceu, e fotografar os pássaros brincando no céu. O seu grande sonho era ser uma grande artista quando crescer.


Mas em sua nova escola, ela acabou passando por momentos bem chatos. Não era divertido, como ela imaginava. Niara acabou recebendo muitos apelidos feios por causa do seu cabelo e da sua pele. Seus coleguinhas diziam: “Cabelo duro! Neguinha! Bocuda! Macaca!” E por mais que seus pais tenham dito várias vezes o quanto ela era linda, Niara começava a pensar que eles só tinham contado mentirinhas para ela.


Um dia, depois de voltar da escola, quando todos estavam jantando, Niara estava bem chateada. Não queria comer, mesmo tendo a sua comidinha favorita no prato: o vatapá!* Notando o seu desânimo, seu pai perguntou: -Ô minha fia, o que há? Por que tão tristinha? Ela respondeu: -Sou negra, papai. Sem entender, seu pai disse: -E qual é o problema? Chorando, Niara responde: -Terá um festival de dança no colégio, eu queria participar, mas tenho medo e vergonha. Porque os meus colegas me chamam de macaca, painho.


Seus pais ficaram surpresos com o que ela disse. Levaram algum tempo para conseguir conversar com ela sobre isso. No dia seguinte, a mãe de Niara a chama para conversar: _Venha cá, minha filha! Preciso falar algo com você. A menina, ainda desanimada, senta na cadeira de madeira e com o olhar triste ouve sua mãe.


E ela diz: _ Durante o jantar, você disse que era negra. E sim, minha filha, você é. As pessoas podem acabar falando coisas feias para você, mas eu quero que saiba, que ser negra não é algo ruim. A sua beleza é extraordinária! Você não é uma macaca, e não tem nada de errado com os macacos, eles são adoráveis. Participe do festival, você consegue! Lembre da sua avó e tudo o que ela te ensinou, e sua família. Você tem uma força muito maior do que imagina, minha pequena. Ela está aí dentro e irá surgir quando você precisar. A menina, emocionada, deu um abraço em sua mãe. Terminaram aquela noite juntinhos e felizes. Do jeitinho que somente os seus pais sabiam fazer.


No dia seguinte, Niara foi até a banca de inscrição para o festival de dança, lembrando de tudo o que seus pais haviam falado. Mas quando seus colegas viram que ela ia participar do festival, começaram com as palavras ruins: _”Você nem sabe dançar, macaca!” Disseram eles. Furiosa e cansada de ser alvo de piadas, Niara deu um suspiro intenso, que despertou a sua força interior. E então, assustada com o que sentiu, Niara, sem pensar, começou com alguns movimentos de dança que contagiou todo o ambiente.


Todos à sua volta ficaram encantados com os passos de dança que a menina apresentou, ninguém nunca tinha visto nada igual. Isso fez com que seus colegas começassem a admirá-la e passassem a imitar tudo o que Niara fazia, pois queriam dançar como ela. Mas aquele era o seu momento de sucesso, Niara venceu o festival de dança e teve sua foto colocada no mural de eventos da escola com uma faixa brilhante e colorida que dizia “CAMPEÔ.


Após a descoberta incrível, Niara voltou para a casa muito feliz, contando aos seus pais o que havia acontecido. Ela falou dos seus movimentos de dança e como conseguiu despertar alegria em um momento triste e ainda contou que venceu a competição. Seus pais ficaram ainda mais felizes por vê-la sorrindo e pulando novamente. A apoiaram e a fizeram se sentir ainda mais contente, contando histórias sobre as danças africanas e o quanto elas são poderosas.


A menina, inspirada e feliz por ter descoberto sua importância, desenvolve o seu superpoder à cada dia, e anda dançando muito por aí. Niara pediu de presente de aniversário aos seus pais, um traje de super-heroína feito com capulana*, um tecido bem colorido que tinha ganhado da sua avó de Moçambique. Ela disse: -Mamãe, prepare o meu traje! Preciso salvar os meus irmãos lá fora. Vou usar os meus passos para ser tão forte quanto Carolina Maria de

Jesus.*


Bate-papo com Niara Olá, tudo bem? Você gostou da minha historinha? Como você já sabe, eu me chamo Niara! Estou aqui para te contar o significado das palavrinhas diferentes que eu tenho certeza que você notou. Está animado(a)? Então vem comigo!


Marrabenta: Já sei o que você pensou! “Que palavra diferente!” Vamos lá, vou contar um pouquinho sobre ela. Marrabenta é uma forma de música e também de dança típicas de Moçambique! Ela é formada pela mistura de compassos, batuques e movimentos do nosso corpinho. Marrabenta é um ritmo que une, alegra e contagia. Vatapá: Será que é de comer? A resposta é sim! Vatapá é uma comidinha muito gostosa. Ela faz parte da culinária afro-brasileira. Sabe quais são os ingredientes para esta receitinha? Pãozinho molhado ou farinha de rosca, fubá, gengibre, pimenta, amendoim, cravo, castanha de caju... São muitos! Mas cuidado com a pimentinha, tá bom?! Capulana: Capulana é um tecido de Moçambique. Você se lembra deste tecidinho? Sim! É o tecido do meu traje. Ele é cheio de estampas e cores vibrantes, tem muita personalidade, e é feito para meninas e meninos estilosos como eu!


Carolina Maria de Jesus: Quem é esta moça? Vou te contar! Carolina Maria de Jesus, uma grande rainha brasileira! Ela foi compositora, poetisa, e uma das primeiras escritoras negras do Brasil. Ela é muito importante para mim, para você e para a história do nosso país.

Adorei o nosso bate papo. Vou ficando por aqui, ta bom? Espero que tenha gostado. Um grande beijo no seu coraçãozinho, e até logo!


Em “Os passos de Niara”, conta-se a história de uma família afrodescendente, natural da Bahia, e atualmente habitante da cidade de São Paulo. Niara é a personagem principal, que descobre superpoderes caracterizados por uma dança oriunda de Moçambique, chamada de “marrabenta”, que aprendeu com a sua avó. A Niara é uma criança negra que passa por difíceis situações de racismo na escola em que estuda, e busca meios de reverter estas situações. O meio em que ela encontra de fazer isso é através do seu superpoder, que além de torná-la uma pequena heroína das crianças negras, ainda a torna heroína da sua própria história.


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Os passos de Niara by Beatriz Martes - Issuu