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Uma outra Brasília

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uma outra brasĂ­lia usha velasco


Fotografias, edição e design: Usha Velasco Textos: Joaquim Paiva, Luis Humberto, Marcelo Feijó, Rinaldo Morelli, Susana Dobal e TT Catalão Produção: Aloísio César

1ª edição Brasília, novembro de 2012

Iza Antunes Araujo - CRB1/079 V433o

Velasco, Usha. Uma outra Brasília / Usha Velasco. -- Brasília : 2012. 120p. ; il. ; color Textos de vários autores. ISBN: 978-85-914631-07 1.

Fotografia – Brasília. I. Título.

CDU: 77.04(817.4) CDD: 770

Para meus pais, Marco Antônio e Valéria Para minhas filhas, Luísa e Bruna


A beleza de Brasília são as suas estátuas invisíveis. (Clarice Lispector)

Sumário Cúmplice da luz Luis Humberto .................................................................................................................. 10

Outras, são tantas quantas... TT Catalão ........................................................................................................................ 28

Brasília com as fotografias de Usha Velasco dentro Marcelo Feijó ................................................................................................................... 46

Um cheiro de Manoel de Barros Rinaldo Morelli ................................................................................................................ 64

Sob a forma de afago, as sombras Susana Dobal ................................................................................................................. 82

A construção de uma história visual Joaquim Paiva .............................................................................................................. 100


Cúmplice da luz Luis Humberto*

A fotografia é um ato de descoberta, intermediado por todo um processo tecnológico, que atribui valor e, possivelmente, encanto a coisas perdidas nas dobras da banalidade cotidiana. O ver leva-nos a produzir imagens a serem partilhadas com sensibilidades que estejam em sintonia conosco. Não podemos esperar a aceitação unânime de nosso trabalho, pois isso poderia levar-nos a concessões capazes de conduzir-nos à diluição de nossa integridade. O fotógrafo é um investigador do corriqueiro e um cúmplice da luz. É com ela que nos associamos para dar sentido às imagens encontradas. A fotografia está além, muito além, do registro primário do real. Fixa a descoberta, doma e aprisiona a nossa surpresa, confere eternidade ao efêmero. Não importa o meio, importa o encanto. Importa o ver, o descobrir e o sentir. Usha tem tudo isso. Em doses ciclópicas.

* Luis Humberto é fotógrafo, arquiteto, co-fundador e professor emérito da Universidade de Brasília. 10

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Acima, 215 norte; ao lado, 415 norte

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412 norte, em trĂŞs momentos de uma tarde de domingo

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Banquinhos, lembranรงa da roรงa. Na 412 sul. Ao lado, vida de crianรงa: brincando embaixo do bloco, na 415 norte

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Descampado entre a 216 norte e o lago. Acima, picolĂŠ no Museu da RepĂşblica

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215 norte. Na página ao lado, espelho d’água no Museu da República

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IpĂŞ rosa em junho, na comercial da 206 sul

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Pintura numa parede da 115 norte. Ao lado, a 415 norte na seca de agosto

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Luz do finalzinho da tarde. Ao lado, 415, e acima, 216 norte

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Outras, são tantas quantas... TT Catalão*

A Brasília compartilhada por Usha nesse livro é a dela, mas vai além do testemunho visual particular. Sua visão tem a singela marca pessoal de uma sensibilidade que se insere pelas frestas e detalhes da paisagem cultural e natural. O depoimento captado é indiscutivelmente o de uma Brasília, dela. Porém não se trata de um circuito fechado nas próprias impressões. Usha parte da individualidade transfigurada em lente viva para sugerir aos demais brasilienses um relacionamento mais íntimo com o seu meio. É um escape amoroso de silêncios e trechos. Atua nas frestas em que o olho viciado de pressa e preconceito deixa de sentir. Onde a maioria passa batida, a Usha bate um clique. E dá um toque para o universo oculto em nossos caminhos. Coisas que a gente não quer ver para enxergar só o que a domesticação do rebanho impõe. Usha flutua leve no contrafluxo. Não explica a cidade, não lança manifesto retumbante, não sobe no palanque dos ângulos fáceis. Enfim, não tá nem aí para o cartão postal. Na verdade até o desmente ao mostrar a cidade banal do seu peregrinar caminhante (marca de máquina sem tripé, bípede com o suor dos que vagam sem buscar grandiloquências). E aí se torna manifesto. Revela a cidade fora dos monumentos e das cangas administrativas. Esquiva-se da carga política estratificada para fazer um circuito amoroso nos pedaços, para muitos, “sem importância”. Desse banal ela extrai a carga poética (assina com a própria silhueta no quadro) de quem observa e se faz integrante da paisagem. 28

A cidade precisa dessa desconstrução pelo banal. Está saturada de teses e doutores que se apropriaram de um sentido histórico parado no tempo e no espaço. A dinâmica nos mostra, hoje, que não pode existir patrimônio da humanidade sem o humano. No tempo novo das redes e conexões por teias a visão do indivíduo legitima o coletivo. O fator humano desestabiliza. O fato cultural ressignifica quando intervém e se apresenta fruto de novas colagens. Usha faz esse elogio do caminhar para nos propor um ritmo contemplativo e atento. Temos tanto horizonte pra quê? Afinal um local (papo de GPS) se torna um lugar quando imprimimos nele a paisagem afetiva. E assim, de milhares de lugares pessoais, um habitat se afirma. A cidade acontece se o cidadão tece. A trilha de cada um realiza a tal construção coletiva. Cria massa crítica para reagir aos autoritários da vez, inflama e mobiliza quando as autoridades esquecem seus verdadeiros autores: nós! A Brasília de Usha nos oferece um mapa, muito seu, não para ser seguido como tabela. É para abrirmos a percepção para outras brasílias. Um deslocamento do local para o universal, como o rio da aldeia de Fernando Pessoa. Para chegarmos à condição de realmente ser humano. Sob contradições, sustos e repulsas, sorver a cidade para traduzi-la em beleza ou dor. Importa é criarmos relações, abrir os canais para o que nos cerca, perceber, refletir e intervir caso a comoção imponha. Assim a cidade saiu dos rabiscos de Lucio Costa para ganhar pulso. Nós, os candangos do sistema nervoso, em permanente construção. Saber que nos fazemos enquanto a cidade se faz. Punidos ou amados por diversas brasílias, às vezes, ciladas, nas outras, armadilhas, mas sempre a busca da utopia abortada: a cidade que nasceu de um sonho tem o compromisso de fazer da realidade um sonho ainda mais bonito. E sonho começa COM UM... Brota,cresce, até virar COMUM! * TT Catalão é poeta, jornalista e “militante das causas perdidas”. 29


Recado na parede da 504 sul. Ao lado, arte no viaduto da 213/113 sul

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Parede na 505 sul. Acima, bar na comercial da 213 sul

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Paredes na 513 sul (acima) e 505 sul: os artistas melhoram a W3

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Bloco D, na 311 sul. Ao lado, Bloco Q, na 415 norte

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Abecedário de Brasília

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Bar PaulicĂŠia, na 113 sul. Deus conserve os botequins e nos livre dos shoppings, amĂŠm.

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Setor Comercial Sul, de manhĂŁ cedinho

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Setor Comercial Sul. Ao lado, fliperama no Conic

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Brasília com as fotografias de Usha Velasco dentro Marcelo Feijó*

Outra é a que não é a mesma. Não é a Brasília do Jornal Nacional com os políticos e seus poderes. Não é também a Brasília do cartão postal registrando a perfeição do encontro entre o urbanismo de Lucio Costa e a arquitetura de Niemeyer. É outra. Cheia de cantos, bancos, sombras, pilotis, janelas, guarda-chuvas, folhas (caídas), chapéus, grafites, bicicletas, letras, pés, frutas, balas, baldes, musgos, reflexos, bandeirinhas, carros, luzes, portas, mesas, pipas, paredes, e, sobretudo, luzes e sombras, e também sonhos, esperança, amor, dor, solidão, encontros, desencontros, vida, vida, vida enfim. 1 É outra. E vive entre o que deseja Usha Velasco e o que a objetiva da câmera fotográfica permite registrar. É entre este desejo e o mundo que surge a outra. É outra sim, no feminino. Brasília é mulher, daquelas cheias de mistérios, abismos, vertigens: nunca decifraremos seu enigma! Nos seus defeitos, às vezes, está seu maior encanto, sua particularidade, sua singularidade, sua impossibilidade de ser a mesma. Sua graça de ser única. 2 A fotografia de Usha Velasco nasce de um paradoxo essencial. A câmera fotográfica tem a vocação de registrar o mundo externo mas os olhos da fotógrafa refletem muito mais o que vai por dentro da alma, muito antes de refletir o que se descortina aos nossos olhos, onde a fotografia encontra seus limites, suas impossibilidades, sua espiral de silêncio. As fotografias de Usha são silenciosas, mas, de repente, há um bater de asas e os pássaros já estão voando. 3 Usha Velasco é uma anti-repórter por excelência. Das suas imagens surge a “sua” cidade, recriada por seu olhar, inundada de memórias em movimento. “Nunca nos banhamos no mesmo rio”, já dizia Heráclito. E nunca passamos pela mesma rua. E Usha atravessa a cidade, com sua câmera, de mãos dadas com o tempo. A cidade é nova. Mas existe desde antes de existir o mundo. Tudo já foi dito. Tudo já foi visto. Usha (re)vê. O ponto de partida não é a realidade, mas a memória e seus cantos, suas passagens, suas fronteiras, seus labirintos. 46

4 São muitas as portas, janelas e bancos. Lugares de ficar e lugares de passar. A cidade é o entrelaçamento de paisagens entre suas sombras, passagens e reflexos. Usha conhece os cantos da cidade. Tudo já foi visto e tudo renasce para o seu olhar. A fotógrafa, cabelos ao vento, caminha entre quadras, dentro e fora, sem ponto de partida ou de chegada, e simplesmente deixa que as imagens encontrem-se umas com as outras. 5 Aqui e ali, ao longo do livro, encontramos reflexos, sombras, os pés da fotógrafa sugerindo que as imagens são mergulhos nas suas próprias inquietações. O “eu” apresenta-se múltiplo, fragmentado e multifacetado, mas resulta em sínteses, em essências, encontros do espaço com o tempo. Onde começa o olhar da fotógrafa? Onde termina a realidade? A objetividade? A subjetividade? Onde termina a fotógrafa e começa sua sombra? 6 Há um coração cravado a canivete no tronco da árvore. Há pichações em várias paredes. Grafites. A cidade está ocupada. É um lugar praticado. Nada na fotografia de Usha remete à ideia de maquete. Tudo indica ocupação. Vida. Uma imagem em outra. Muitas vidas em outras. Entre elas o bloco Q, o bloco G, o bloco D, e também a barraquinha da costureira sob a frondosa árvore. Seria a mesma onde ficou cravado o coração? Ou seria, outra vez, outra? 7 O trabalho de Usha Velasco convida a novas formas de ocupar e viver o espaço de Brasília, o que evidentemente não pode ser feito da mesma forma que nas metrópoles clássicas (Paris, Lisboa, Rio de Janeiro, por exemplo). A cidade, tantas vezes acusada de ser a cidade dos carros, paradoxalmente oferece espaços únicos, livres, sem barreiras, para os caminhantes, em múltiplos caminhos abertos para sua ocupação. São espaços com muita personalidade, generosos para quem puder e desejar vivenciá-los. A fotografia de Usha é resultado dessa vivência, talvez menos de “urbanóide”, cruzando os espaços da cidade, que de “mateira”, entre quadras e árvores do cerrado. Assim, sua fotografia é também um encontro com a pré-história de Brasília, seus campos e gerais. É uma evocação também às fazendas que ocupavam o território do Distrito Federal antes da construção de Brasília, e que, de alguma forma, deixaram suas marcas na nossa alma, no encontro do horizonte aberto com o céu imenso do Planalto Central.

* Marcelo Feijó é fotógrafo e professor da Universidade de Brasília. 47


Parque Olhos D’Água. Ao lado, Departamento de Música da UnB

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Banquinhos por aĂ­ afora, de norte a sul

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Banquinhos da 415 norte

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Acima, os mesmos banquinhos da 415 norte, na seca e na chuva. Ao lado, balanรงo na UnB

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Tapete de flores de flamboyant, na 208 sul. Ao lado, sol da manhĂŁ na 205 sul

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Ao lado, arte na rua (409 norte). Acima, o Cine BrasĂ­lia refletido numa janela de carro

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Arte na rua. De cima para baixo, 516 sul, 714 sul e UnB. Ao lado, 310 sul

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Graรงa, costureira na 214 sul: biroscas humanizam a cidade planejada. Ao lado, 308 sul

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Um cheiro de Manoel de Barros Rinaldo Morelli*

Nossos olhares passeiam o tempo todo. Entre cores, sombras, formas, significados, luzes, seguimos percebendo o mundo, nos detendo aqui e ali. Nossos olhares se encontram. Ao passar nossos olhos pelo mundo encontramos outros olhares que nos olham, olhando na mesma direção entre olhares e paisagens. Fotografias também nos olham. Quando passeio por Brasília vejo fotografias de meus amigos e referências mais próximas, do grupo Ladrões de Alma, que hoje pouco se encontram, mas continuam irmanados em uma sinergia criativa. Vejo uma foto de Rubens Rebouças, na cores e grafismos, no uso da teleobjetiva. Vejo Susana Dobal nos transeuntes furtivos de passagem por pilotis e vielas arborizadas pintadas pela luz. Vejo Almir Israel, imagino um corpo nu em torses e contorses entre as formas da cidade. Vejo em Brasília as várias cidades fotografadas por Marcelo Feijó. Nas quadras de Brasília por onde caminho vejo fotos de Usha Velasco. Um banco. Folhas secas contando histórias pelo chão. Encontro lugares que exigem sua presença. Um fusca abandonado espera por Usha, para só então descansar em paz... é...ternamente...

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Na palheta de cores seus tons pastéis encantam e surpreendem... Impregnam meu olhar, colorindo minha percepção da cidade. Brasília é bela mas também é rude, é árida. O olhar de Usha humaniza um pouco mais a cidade. São rastros, são ausências, são presenças que falam de ausências e rastros. Fotografias são nossos rastros, são histórias. Usha conta histórias sussuradas de uma cidade que se esconde, ou se resguarda, por trás das ruas largas e monumentos. Brasília conta imagens para quem tem olhos de ver. Em versos visuais de uma poesia nada concreta, a timidez de Usha avança discreta em passos firmes. São os detalhes dos cantos, nas paredes grafitadas e pelos caminhos que sopram em suas fotografias um cheiro de Manoel de Barros. O olhar de Usha enternece a cidade, povoando nossos olhos com fotografias que fazem parte de uma coleção particular compartilhada em “Uma Outra Brasília”. Seguimos agora enriquecidos, ouvindo os passos de Usha em suas fotografias silenciosas, às veses sussurrantes. Uma outra Brasília habita agora em nosso imaginário. Veremos Brasília com outros olhos.

* Fotógrafo autoral, membro fundador do grupo Ladrões de Alma, mestre em Arte e Tecnologia pela Universidade de Brasília e repórter fotográfico da Câmara Legislativa do DF.

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Carcaça poética na zona rural do Paranoá. Acima, folha de pau-balsa no asfalto

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Comercial da 205 sul: elegante na frente, caipira nos fundos. Ao lado, Conic

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Comercial da 313 sul, fundos. Ao lado, entrequadra 308/108 sul, comercial da 214 sul e Conic

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Mais cenårios de infância: 216 e 411 norte

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Transeunte no Conic. Acima, tapete de flores e de sombras na 415 norte

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Setor Comercial Sul no domingo. Acima, 313 sul

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Variant na 713 sul. Ao lado, 112 sul

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Arte reversa no Buraco do Tatu: as “pinturas� foram feitas limpando a sujeira da parede

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Sob a forma de afago, as sombras Susana Dobal*

“A beleza de Brasília são as suas estátuas invisíveis” – foi a frase da Clarice Lispector que Usha Velasco escolheu como epígrafe para as suas fotos. O que vem em seguida é a mesma ideia em forma de uma sucessão de imagens. A beleza de Brasília está em alguma presença ausente, porém implícita. Nas fotografias, vê-se, então, apenas rastros dessa presença: não árvores, mas folhas secas no chão; não estátuas, mas muitos desenhos e pichações que são como estátuas bidimensionais; não retratos, mas pessoas fugazes passando sem tempo para mostrar o rosto, e sombras, muitas sombras. É preciso estar entranhada em Brasília para ver não a luz ofuscante refletida na arquitetura monumental, lisa, moderna e sim as sombras que essa mesma luz produz derramada, como folhas secas, sobre o chão. É preciso estar com os pés descalços tocando os poros da calçada para ver não as superfícies envidraçadas e reluzentes dos prédios da administração pública e sim as pichações nas paredes também povoando o espaço urbano. É preciso estar diante da própria sombra com a mão aberta, como se essa sombra-mão pudesse tocar a calçada, para ver não o famoso céu de Brasília, mas o chão, sempre as texturas do chão, as calçadas, a faixa de pedestre, a grama, o barro vermelho, os pés dos outros, além dos dela mesma, pisando esse chão. Em trabalhos anteriores (como na série Se essa rua fosse minha), Usha imprimiu suas fotos em tecidos que eram em seguida costurados – já vinha de lá a sua 82

vontade de tornar tátil a imagem. Aqui há apenas o papel liso das páginas do livro, mas as sombras das árvores, das pessoas, da própria fotógrafa deslizam nas calçadas, paredes, pistas. Desenhos misturam-se às pessoas que passam isoladamente como se gente, criaturas pintadas, reflexos e sombras pertencessem todos à mesma categoria de estátuas invisíveis pairando pela cidade. O sol gira, e assim como passam as pessoas, passam também, sob a forma de afago, as sombras. Em um trabalho da juventude, na época em que só fotografava com negativo em preto e branco, Usha Velasco fez um ensaio que era apenas reflexos nos vidros dos carros no Setor Comercial. Já naquela época, ela olhava de uma maneira indireta para poder enxergar uma aparição outra das coisas da cidade – não por acaso as fotos desse livro apareceram primeiro no blog da fotógrafa que se chamava, justamente, uma outra brasília (a minha). De lá pra cá seus olhos passaram a ver cada vez mais vestígios: as folhas no chão, os bancos vazios, os grafites gritantes, as pessoas fugazes, as sombras. Tudo assume uma curiosa coerência, ainda que as fotos tenham sido feitas de maneira aparentemente casual, em caminhadas com o cachorro ou rumo à padaria, levando discretamente no bolso uma câmera compacta digital. A beleza das estátuas invisíveis de Usha Velasco é a Brasília visível por detrás delas. Sombras passam, garis e costureiras estão incrustados nas árvores, grafites são tão reais quanto os esparsos cidadãos que vagueiam. Eis aqui alguém capaz de captar o que pode haver de intimidade no espaço urbano da capital federal. Portinhas e janelinhas falam de uma cidade menos monumental. E uma mesma sombra feminina atônita reaparece aqui, ali e acolá, como se estivesse sempre surpresa com o que encontra nos corredores da própria casa.

* Fotógrafa e professora na Universidade de Brasília. Participou de diversas exposições, publicou artigos sobre fotografia, cinema e artes e o livro Peter Greenaway and the Baroque: writing puzzles with images (2010). 83


Dois retratos da estação seca, na 415 norte

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713 e 705 sul. Ao lado, 415 norte

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Parque na entrequadra 114/115 sul. Ao lado, flores de barriguda (paineira) na mesma calรงada

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Calรงada na 416 norte. Ao lado, UnB

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Fachada na 410 sul. Acima, UnB

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Fachada na 412 norte. Acima, acesso ao parque Olhos D’Água

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Mais tapetes de flamboyant. Na 415 norte

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Fundos de um salão de beleza, 314 sul. Ao lado, “casinha” da CEB na 415 norte

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A construção de uma história visual Joaquim Paiva*

A Brasília de Usha é muito mais humana, mais aconchegante, mais verde do que a que conheci, quando cheguei à nova capital em 1970, e onde residi durante 20 anos em quatro ocasiões. O Plano Piloto, recém-construído, parecia uma maquete arquitetônica, branca, totalmente branca, e que se destacava na paisagem, contra o imenso céu azul do planalto, pois as árvores não haviam crescido ainda, havia pouca grama e muita terra vermelha, uma bela terra vermelha. Uma Outra Brasília sintetiza décadas de convivência com a cidade e o conteúdo do livro é constituído pelo entrelaçar harmonioso de dezenas de fotografias que se vinculam umas às outras: a facilidade de concatenar imagens é o resultado do trabalho que a fotógrafa desenvolveu durante três anos com o seu blog, pelo qual ela tem “particular carinho (...) porque é uma atividade ligada a duas coisas boas: fotografar e morar em Brasília.”

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O blog possibilita com rapidez impressionante a veiculação de ideias, comentários e imagens, em quantidades que podem ser avassaladoras. O desafio é escolher a informação. E Usha escolheu mostrar-nos as suas fotos banhadas de luz, ainda que não o tenha planejado, mas assim o espectador as vê: essa luz intensa, transparente, do Planalto Central. É como se a fotógrafa tivesse decidido fotografar somente em dias de sol e céu azul, de que Brasília desfruta quase o anos inteiro. A mesma luz que projeta a sombra da fotógrafa no chão, tornando luz, fotógrafa, sombra, cidade e fotografia uma coisa só. A ligação de Usha com a sua cidade não será compreendida facilmente pela maioria dos brasileiros, para quem Brasília não é uma cidade onde se mora, onde se vive o dia-a-dia de qualquer pessoa, mas onde se faz política, política que é mostrada todos os dias na televisão. Justapor imagens em uma mesma página e criar uma narrativa é um desafio para

o fotógrafo e a estética deste livro é esta: as fotografias se juntam por afinidades de tema, forma, cores – na maioria dos casos, ou por aparente dessemelhança, como na página, por exemplo, em que coloca lado a lado bandeirinhas e chapéus. O exercício de vincular imagens a fotógrafa o praticou anos a fio como integrante de um dos primeiros e mais duradouros coletivos de fotógrafos-artistas do Brasil – o Ladrões de Alma, surgido em Brasília no final dos anos 80, e que reunia um grupo de fotógrafos inquietos com as possibilidades da linguagem fotográfica autoral. O ensaio fotográfico (conjunto coerente de imagens), e não a imagem isolada, é o trabalho mais instigante de um fotógrafo, e aqui volto às palavras de Usha: “Eu coleciono coisas que são caras a mim, que mexem com a minha sensibilidade, com a minha memória, com as minhas inquietações ou angústias; o que faz deste grupo de imagens um conjunto é o fato de essa ‘coleção’ fazer sentido para mim. Eu era uma menina do interior que veio morar em Brasília e sou muito grata porque a cidade até hoje me oferece elementos preciosos da minha infância: ‘a minha’ Brasília lembra muito uma cidade do interior.” A mim me perguntaram recentemente por que dedicar um livro a uma cidade, a propósito de projeto de livro meu também sobre Brasília, e respondi que tantos fotógrafos assim o fizeram, como Atget e Brassaï (Paris), Araki (Tóquio), Marc Ferrez (Rio), Mascaro (São Paulo). Brasília, por sua vez, tem livros de Fontenelle – Minha mala, meu destino; Luiz Humberto – Brasília, Sonho do Império, Capital da República; Orlando Brito – Perfil do Poder; Duda Bentes e Catherine Aubertin – Brasília, Distrito Federal, entre outros, como o livro do qual participei juntamente com o fotógrafo americano Tedd Eberle e o canadense Robert Polidori – Brasília de 0 a 40. Os fotógrafos contribuem para a construção da história visual, mítica da cidade: “Uma outra Brasília” de Usha Velasco é um aporte para essa construção, em que o interesse maior recai, na verdade, sobre o olhar de cada fotógrafo.

* Joaquim Paiva é fotógrafo, colecionador de fotografia e diplomata. Residiu 20 anos em Brasília. Suas obras estão no Museu da Memória Candanga e no Museu de Arte de Brasília. Sua mais recente exposição na cidade foi Foto na Hora: Lembrança de Brasília, Caixa Cultural, 2010 (nos 50 Anos da capital). Publicou, entre outros, o livro Brasília de 0 a 40 (2000). 101


ResquĂ­cios de festa junina na 513 sul. Ao lado, loja na W3 norte

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São João no Conic. Acima, feira da Torre

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Parque Olhos D’Água

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Aqui trabalha o Jair, sapateiro, na entrada da 415/416 norte. Ao lado, final de tarde na 216 norte

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Final de tarde na 313 sul (acima) e na 416 norte (ao lado)

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Dois pés numa calçada da Asa Sul (acima) e uma não-porta na 415 norte

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Saindo da padaria, na 114 sul. Na página ao lado, “aparição” depois da chuva

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Catedral em um ângulo pouco turístico. Ao lado, 416 norte

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Agradecimento Ao Aloísio, porque sem ele este livro continuaria morando no espaço virtual. A meus amigos Rinaldo, Almir, Susana, Marcelo, Rubens e todos os outros Ladrões de Alma, coletivo responsável pela minha formação, ao longo de tantos anos de aventuras. Ao Joaquim Paiva, que doou muito de seu tempo e instou os jovens Ladrões a ousar. Ao Luiz Humberto, professor ímpar, cujas aulas sempre foram tão além da fotografia. Ao TT Catalão por dois emocionantes TTextos, um há vinte anos, outro agora. A meus pais, porque, entre tantos outros motivos de gratidão, me trouxeram para Brasília. A Luísa e Bruna, pela existência e pela presença. A Carmen e Iza, pela força. A Lucio Costa, por criar uma cidade acreditando em pessoas melhores – um dia a gente chega lá. A Athos Bulcão, por fazer arte para ser vista na rua, e aos grafiteiros brasilienses, pelo mesmo motivo. E a todos os amigos que viveram e vivem a cidade comigo, desde a época em que brincávamos no alto das árvores até hoje, quando brincamos nos botequins – são muitos, sou muito feliz por constatar que não caberiam numa lista.

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