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Livro infantil Cadu e a Bactéria Verde

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Cadu

e a bactéria verde

Obra: Lívia Prado | Ilustrações: Liminha Jr.

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Copyright © 2020 Lívia Regina Prado de Negreiros Mendes

Coordenação Editorial Lívia Regina Prado de Negreiros Mendes

O livro Cadu e a Bactéria Verde foi contemplado na categoria “Literatura” pelo Edital No. 009/2020 - Concurso-prêmio Manaus de Conexões Culturais Lei Aldir Blanc, promovido pela Prefeitura Municipal de Manaus, por meio da Fundação Municipal de Cultura, Turismo e Eventos (Manauscult) e do Conselho Municipal de Cultura - Gestor do Fundo Municipal de Cultura.

Ilustrações Liminha Jr.

CBL - CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO Prado, Livia Livro Cadu e a Bactéria Verde / Lívia Prado; ilustrado por Liminha Junior, -- Manaus, AM: 2020 32p.: 20cm x 20cm ISBN: 978-65-00-13946-4  Literatura infantil.

SECRETARIA ESPECIAL DA CULTURA

MINISTÉRIO DO TURISMO

Projeto e Coordenação Gráfica Victor Costa (MTb-359/AM) Revisão Final Michel Guerrero


Monteiro Lobato e Júlio Verne foram meus autores preferidos na infância e adolescência. Amava a literatura dos romances e aventuras do universo mágico. Nesse contexto, devo citar também, "As aventuras de Tom Sawyer" e "As aventuras de Huckleberry Finn", de Mark Twain. O adulto não consegue imprimir a um personagem tanta bravura quanto uma criança, que segue seu coração e aceita com facilidade a vida como se apresenta. Juntando no mesmo universo seres mágicos e uma floresta mística escondida num lugar mitológico e mítico, se fez a primeira aventura: Cadu e a bactéria verde. Em um mundo atual, com pandemias, em que os animais podem transmitir doenças, pode-se tecer analogias entre um vírus malvado e uma bactéria mortal. Forçada, a natureza deve retrucar. Almeja- se que a magia do amor e a harmonia prevaleçam no coração de todos. Lívia Prado 3


Agradeço aos meus Pais, Tarcila Mendes (In Memorian) e Amazonino Armando Mendes pela riqueza cultural que me proporcionaram, através dos livros de capa dura, enfileirados nas estantes de todas as casas que moramos, das mais humildes até a mais bem estruturada. Meus irmãos, Armando e Christina pela imaginação e brincadeiras. Meus filhos, Lucca e Isabella, por reacenderem em mim o desejo de contar histórias. Aos colaboradores desse projeto. Michel Guerrero, Liminha Jr., Lucy Almeida e Dori Carvalho.

Lívia Regina Prado de Negreiros Mendes tem o nome artístico Lívia Prado. Amazonense, natural de Manaus, jornalista, gestora pública, cantora e compositora, apresenta seu primeiro livro como escritora com as aventuras do menino Cadu. Uma história infanto-juvenil na Amazônia, cheia de magia e perigos escondidos.

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Cadu e a bactéria verde

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Cadu e a bactéria verde Quando a aeronave sobrevoou aquela imensidão verde, o coração do menino Cadu disparou de emoção. Ele mal podia acreditar que iria morar na Amazônia. Havia uma lembrança nebulosa na sua cabeça. Ele estava num rio descendo a correnteza até a margem onde a lua iluminava, refletindo linhas turvas e brancas. Permanecendo a imagem na cabeça, ele pestanejou e dormiu. Sua mãe se chamava Doralice e seu pai João Alberto. Eles o levaram para a cidade de Brasília, ainda muito pequeno. Cadu Ribeiro é amazonense e nasceu num pequeno povoado indígena Satere Mawé. Doralice e João são biólogos importantes e investigam uma nova bactéria. A descoberta ameaça toda a biodiversidade da floresta. Ao desembarcar, o sol parecia tomar conta de tudo, das pontinhas dos dedos até o último fio de cabelo de Cadu, que sentia a umidade se transformando em gotinhas escorrendo pelo corpo. E se perguntou. – Onde mora a natureza? – Carros barulhentos nas ruas e bastante confusão. Tantos prédios, poucas árvores. Suspirou incrédulo – Porquê? – Cadu e os pais chegaram ao destino finalmente e, pelo menos, nos próximos dias te-

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rão que morar num barco. Sim, um barco de dois pisos, branco e verde, com um nome engraçado: Jacundá Sabão. Cadu tem cara de curumim, mas age como um menino da cidade. Não sabe nadar, nem caçar. Nunca dormiu em rede e tem medo de igarapé. O garoto adora ouvir histórias de jacarés, guaribas, jaús e piraíbas. Ao ouvir uma palavra nova, ele imediatamente anota no seu computador de primeira linha. Nisso, ele é sim, muito diferente dos curumins da região. Saber que era um menino adotado, o fazia entender por que não se parecia fisicamente, nem com o pai, nem com a mãe. Naquela tarde, no meio do rio, a família Ribeiro avistou uma cidade bem pequenina, com casinhas de madeira e uma escada enorme, onde ancoravam canoas e barcos. A embarcação atracou e começaram a atravessar, barco a barco, até pisarem no chão. O pai de Cadu o suspendeu, para atravessar com segurança, já que ficava tonto só de olhar para as fendas entre os barcos. Imaginava que pudessem cair! De longe, Cadu percebeu um discreto redemoinho nas águas rasas e turvas... por um momento, pensou estranhamente em pular.

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A família se dirigiu ao único restaurante do lugar e os pais cochichavam... até um senhor se aproximar e lhes entregar um tubo enrolado em plástico-bolha. Imediatamente, a mãe pegou suas luvas de trabalho e colocou o tubo em um recipiente dentro da pasta preta, bem no estilo super confidencial. A tripulação desejou um bom dia e eles foram almoçar. O garoto comeu costelas de tambaqui e gostou muito, mas não gostou da farinha dura, que quase quebrou alguns insistentes dentes de leite. Os dentes da frente estavam nascendo e, por isso, Cadu aparentava ser bem mais engraçado quando sorria. A noite estava estrelada e o menino resolveu não dormir tão cedo. Saiu da cabine na ponta dos pés, subindo as escadas que iam para o segundo piso do barco, agora ancorado no barranco cor de laranja. O céu tinha uma lua imensa e as estrelas pareciam enfeites de luz. Ele exclamou. – Uau! Mais bonito que fogos de artifício! – Vindos de longe, Cadu ouvia os barulhos da mata. E pensava – Não seria legal se eu pudesse

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entender o que esses bichos falam? – Boa noite, Dona Tartaruga. Como vai a família? Como estão os buracos hoje, Senhor Tatu? Muita gentileza sua não me devorar, Dona Onça! O menino ria de sua própria imaginação, quando olhou para cima e viu um clarão. Mas não havia nenhum trovão, nem sinal de chuva. – Que clarão foi esse, então? – Ele foi até a cabine do capitão e gritou com todos os pulmões – Tem alguma coisa lá do outro lado! – O capitão do barco se chamava Socó e tinha a cara manchada de sol. O sujeito era tão magro e alto que se assemelhava ao próprio mastro do barco. Ele olhou para Cadu, com ar de reprovação. – O que você está fazendo aqui a essa hora seu pirralho!? – Cadu entendeu o recado e correu para sua cabine. Foi então que ouviu o motor ligar e entendeu que o barco

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tinha começado a se mexer. Conseguiu ouvir murmúrios da agitação, mas fingiu que estava dormindo quando sua mãe veio lhe ver, e, pouco a pouco, os barulhos foram diminuindo, diminuindo, até que ele pegou no sono. A manhã estava linda, como sempre, e as garças pareciam coreografar uma dança nova com os papagaios e o que se via era um verdadeiro show, mesclando uma linha branca atrás de uma outra verde, rasgando o céu azul. – Bom dia! – ele exclamou. Usando a visão periférica, viu uma criança de uns quatro anos, aproximadamente. Chacoalhou a cabeça, inutilmente, pois era mesmo uma indiazinha pequenina que ele estava vendo. Ao lado dela estava um porquinho do mato que a tripulação chamava de Caititu. Onde apontava aquela

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luz que Cadu vira, encontraram a criança numa pequena canoa com o porquinho. A pequenina nada disse e parecia não entender o português. Estava com as mãos fechadas e não havia quem lhe fizesse abrir. Parecia guardar um anel, como naquela brincadeira de roda. – Karete uni-quironuande? O que ela disse? – perguntou Cadu. – Ninguém conhece essa língua – disse o Capitão Socó. – Nunca, em toda a minha vida, ouvi algo parecido – indagou o garoto. Durante o dia, a rotina foi a mesma: tentar descobrir quem era a menina da canoa. De noite, a família, já exausta, entrou em consenso de que a indiazinha deveria dormir na cabine com Cadu. Mas tinha um problema, pois ela não queria largar seu porco do mato, o Caititu, com cheirinho nada agradável. Foi uma correria dentro do barco. Os grunhidos do porquinho ecoavam nas cabines, na proa e no batelão. Cadu estava a postos, tal qual um bombeiro, com a bacia cheia dágua, esponja e sabão. A menina olhava, assustada, tentando esconder o riso. Finalmente, o porquinho foi pego no cansaço e banharam-no, ficando perfumado e seco, uma renovação completa. – Porco do mato pode ter nome, mamãe? – Perguntou Cadu. Doralice acena positivamente para ele, que apelidou o porco de Vermelhinho. Já a menina se chamaria Miúda, porque ele nunca vira uma menina índia tão pequenina assim.

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– Vamos dormir todos. Que dia cansativo! – disse, bocejando. Naquela madrugada, Cadu teve o sono leve. Todo barulhinho que ouvia, o fazia se encolher debaixo do lençol. De repente, um clarão surgiu em toda a cabine. O menino gelou como um picolé e seus pelos do braço arrepiaram como num dia de apresentação de trabalho na escola. Ao puxar o lençol, não acreditou no que viu. Bem ali, na sua frente, estava Miúda e um homem magro de cabelos vermelhos e tanga de índio. Mas, não era índio. Tinha olhos imensos e os pés ao contrário. O esperto garoto já tinha lido sobre isso em um livro branco de capa dura. Era o Curupira, Caipora, Anhanguá, vigilante das matas, ser encantado e protetor dos bichos. Todo caçador mal intencionado se perde na mata quando não respeita a natureza. – Mas, o que ele estava fazendo ali ao lado da menina índia? Pensou Cadu. – Sai dessa coberta, menino. Eu já te vi me espiando e estava mesmo querendo falar com você – disse o Curupira, sem olhar para trás. E quando finalmente olhou nos olhos do garoto, disse sem nenhuma cerimônia. – Ainda tem sabão no meu ouvido, viu! Isso não se faz com seres mágicos. Você teve sorte que eu estava invertido em Caititu. – Mas, mas... senhor, eu...eu não sabia...eu peço desculpas...por favor não me deixe perdido na mata – defendeu-se o garoto, começando a chorar. – Não chores, irmãozinho – disse Miúda. – Você fala minha língua? – perguntou o menino. – Não, irmão, tu que estás falando a minha. Nós viemos do mesmo lugar. O coração da mata! – A menina continuou a falar, enquanto Cadu, paralisado tentava compreender o que estava acontecendo.

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– Há muito tempo nossa tribo desprezou a natureza. Cortando árvores para fazer casas, mais resistentes à chuva e ao vento. Construíram barragens para controlar a água e descobriram o valor do metal e das pedras. Tupã só observava, até que percebeu a impureza entrar nos corações do nosso povo. A ganância e a vaidade corromperam suas origens e todos foram punidos. Num piscar de olhos todas as crianças da tribo desapareceram e as mulheres não puderam, nunca mais ter outros filhos. A menina continuou a explicar, ao mesmo tempo que sua curiosidade a fazia mexer no laptop em cima da mesa. – Com o tempo, nossa tribo findou-se. Sua língua foi esquecida e suas obras tornaram-se invisíveis a todos que passassem diante delas e para a história da floresta é como se jamais existissem – Cadu começou a imaginar a grande tristeza dos filhos que partiram e, por um momento, teve medo de um dia deixar seus pais. Miúda conta sobre as crianças, as chamando de noventa e oito irmãos. Todos, ao que parece, se tornaram seres mágicos. – Temos vivido como seres intermediários nos elementos terra, água, fogo e ar. Temos como missão equilibrar homem e natureza. Mas, há dez anos, perdemos nosso irmão mais velho, Tu Kauni – Cadu sentiu tremores nas mãos e nos pés, e, no entanto, nada conseguiu falar. Nesse momento,como se numa tela de computador abrisse, no meio da parede, 16 16


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surge uma imagem mágica na frente de todos. Enquanto a narrativa acontece, Cadu pôde se reconhecer finalmente naquelas impressões do passado. Miúda continuou. – Na nossa travessia, na grande canoa dos ancestrais, para a outra margem do rio encantado, você foi recolhido por um velho índio que passava com sua embarcação de pesca. Tu eras um bebê de poucos meses para ele, mas, na realidade tens idade secular e naquele dia estavas pronto para cruzar o rio mágico e te transformares no boto vermelho. – Boto vermelho?? – indagou Cadu. – Sim. E nessa forma, viverias pelos próximos cem anos até feneceres e nasceres outra vez. No entanto, foste resgatado para uma tribo mas que logo percebeu que tu eras mágico, pois tens as marcas dos escolhidos de Tupã, na palma da mão direita. Cadu olha atentamente para sua mão. – Vês, são duas faces de frente uma pra outra – a pequena índia mostrando onde havia tal marca – Estás vendo? – Cadu olhou para a mão e percebeu que haviam duas manchinhas parecidas mesmo com faces, uma de frente pra outra. A menina, então, foi interrompida pelo Curupira. – Resumindo, garoto, seus pais trabalhavam perto da aldeia quando encontra-

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ram você dentro da canoa, indo de volta para o rio. Então, foi que eles resolveram levar você com medo que a tribo lhe fizesse mal e blá , blá, blá... E tem mais, fizeram exames de pajé branco em ti e acham que tu tens uma bactéria nova no teu organismo. Na realidade, o que eles pensam que é uma bactéria, não passa de magia pura da floresta. E o seu pedaço de magia deve cruzar o rio e se transformar numa criatura mágica: o boto. Isso antes que mais desequilíbrios aconteçam por aqui. Ou você acha que as enchentes e o calor demasiado vieram do nada? Ainda mais agora que seus pais adotivos estão com um pedaço da nossa Sareuna.

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– Sareuna? – perguntou Cadu. – Isso! Esse é o nome de sua irmã. Cumprimentem-se logo e façam as honras – Sareuna estava na sua forma invertida – Ela é uma linda orquídea Amazonônica, disse o Curupira. – Amazônica – corrigiu a pequena. – A pobrezinha teve cortada uma folha – completou Caipora e, naquele exato instante, a menina ergueu a mão e mostrou que faltava um dedinho – Sem estar completa, Sareuna não pode cruzar o rio até a margem seca, pois morrerá. Ela

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tem que ficar no meio. Não pode ser gente, nem planta. Uma lágrima cai do olho de fogo do ser mágico, mas logo evapora. Temos que encontrar sua folha arrancada e ajudá-la a cruzar o lado encantado. Você tem que nos ajudar a parar o barco agora! Às seis da manhã do dia seguinte, Cadú tomou seu café apressadamente, guardando comida extra na mochila, sem que ninguém desconfiasse. Ele não sabia como, mas precisava ajudar Sareuna a voltar para sua forma encantada, mesmo que desobedecesse os pais pela primeira vez. Dentro de vinte e quatro horas, eles deverão chegar na cidade e o recém formado grupo de seres mágicos não tem tempo a perder. O pai de Cadu está sempre envolvido com fórmulas e cálculos, como todo cientista e pesquisador. Na cabine três, onde improvisara um laboratório, João Alberto analisava a tal folha arrancada de uma planta, comparando-a com algo que já tinha visto antes nos exames de seu filho. Ele acreditava que qualquer outra planta que se aproximasse daquela folha, fatalmente

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pereceria, mas não sabe o porquê. O que ele não imaginava é que a planta, para sobreviver, sugava a energia dos elementos. Sareuna, linda orquídea da Amazônia, cujo poder era de limpar o ar das queimadas, corria perigo quanto à sua existência. O plano dava seguimento e todos estavam em seus postos. O menino ficou escondido atrás da escada, pacientemente aguardando o sinal. Vermelhinho entrou na cabine, grunhindo como um porco deve grunhir, e João Alberto, num susto, acabou estatelado no chão! João Alberto pegou o porquinho pelo rabo e saiu na direção da cozinha, gritando. – Hoje, o jantar vai ser porco assado com ervilhas – Enquanto isso, Cadu deu um salto de trás da escada até a cabine, pegando a folha e a substitundo, por outra parecida que o curupira fez surgir na sua mão. Correu para sua cabine e ofegante, entregou a folha para Sareuna que, imediatamente, colou de volta se transformando no dedinho que sumiu. Ela não se conteve de tanta felicidade e lhe deu um abraço apertado e então aconteceu uma troca mágica, o menino boto sentiu as lembranças de tudo, como num flash. Cadu já não tinha mais medo dos igarapés, sabia nadar como um peixe, sabia o que era o embalo da rede e até a linguagem dos bichos. Cadu era Kauni e sabia que precisava cumprir sua missão. Mas, havia algo que incomodava o coração do menino. O amor por seus pais, que não tinham culpa pelo que havia ocorrido, lhe dava um medo enorme de perdê-los para sempre. As horas se passaram rapidamente e não havia tempo a perder. Cadu e Vermelhinho tinham que levar Sareuna para a margem mágica do rio. Curupira, transformado em porco do mato, estava preso 22 22


no pé da mesa da cozinha, esperando por um pequeno vacilo para escapar. No que o cozinheiro pegou a faca pra afiar, o ser lendário deu um grunhido de socorro. Sareuna correu até a cozinha e começou a chorar, agarrando o bicho como seu bem mais precioso. O cozinheiro, com dó da menina, desamarrou o bicho. – Vai pequenina, esconda o seu amigo que eu vou servir o leitãozinho que está na geladeira, não vão nem notar a diferença – Um pouco arrependido, o pobre homem suplicou para que fizessem o porco ficar quieto.

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– Eu cuido disso! – Cadu disse ao cozinheiro. Na cabine, desvirado em Curupira, Vermelhinho diz a eles que não pode aparecer para os humanos na forma real, pois, automaticamente, eles se perderiam e não conseguiriam voltar. Os dois deveriam descer sozinhos e pegar a canoa que estava presa por uma corda na popa do barco. Mais que depressa, os dois saíram com o porco na mão, enrolado numa toalha. Cadu tem uma ideia. – Mãe! Podemos tomar banho da água do rio? – Como assim Cadu? Não é você que tem medo da água? – Disse a mãe, surpresa. Ele promete que o banho será com o balde preso na cordinha do bote, aquele que usam pra limpar o convés! Ela fica feliz por saber que seu filho está enfrentando seus medos e o deixa ir, ainda assim, preocupada. Na mesma hora, João chama Doralice para dizer que alguém trocou a amostra que estava pesquisando. O homem soltava fumaça pela cabeça e teimava em dizer que foi o porco quem comeu a folha e botou outra no lugar. – Será um porco ladrão? – disse o pai. Doralice, distraída, pensou em voz alta.

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– E agora? Como vou conseguir outra amostra contaminada por essa bactéria. Onde estava mesmo o telefone de contato daquele senhor que nos vendeu a folha? – Enquanto os aventureiros partem no bote, a mãe de Cadu faz uma ligação. – Alô, seu Francisco, o senhor pode me atender, sou eu a Dra. Doralice, nos falamos em Barreirinha. O senhor me vendeu uma folhinha contaminada. Lembra-se? – Do outro lado da linha, o velho pescador escutou os novos acontecimentos. – Dra., como está a senhora, seu marido e o menino? Perderam a amostra? Infelizmente não tenho outra. Eu bem que tentei arrancar a planta, mas ela parecia ter criado raiz dentro da canoa boiando, atravessada no meio do rio. Eu puxei com tanta força que a canoa se foi na correnteza e eu acabei caindo na água. Ao abrir a mão, notei ter arrancado só uma folhinha. Quando cheguei em casa, deixei em cima do vaso

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da comigo-ninguém-pode que morreu em segundos. A folha que eu arranquei, no entanto, tava ainda mais verde. Então, resolvi experimentar nos outros vasos de planta e na hortinha e, veja só a senhora, morreu tudo. Foi, então, que liguei pro secretário da cidade e ele ligou pra Brasília e daí vocês chegaram. – Fico muito triste por termos perdido essa oportunidade, seu Francisco. Obrigada, assim mesmo – Doralice, desliga o telefone com a sensação de derrota. Enquanto sua mãe falava ao telefone, Cadu e Sareuna desciam a escada até o bote salva vida. Com o canivete, Cadu cortou as cordas e os dois foram lá embaixo. Já dento da canoa, um clarão surge e o Curupira cria um pequeno redemoinho, começando a mexer os dedos na água como se fosse um motor. Ao se distanciarem do barco, ele sentiu que nunca mais veria seus pais. Uma imensa tristeza apareceu em seu rosto se transformando numa estranha mancha que percorreu o seu pescoço, braço, até se alojar na mão esquerda em forma de um peixe. Apesar do espanto, não teve muito tempo para pensar nisso, pois já chegavam ao meio do rio. Curupira não havia dito para Cadu que se eles atravessassem o lado mágico, o garoto se transformaria num boto pelos próximos cem anos. Mas chegar até o lado mágico tinha lá as suas dificuldades. Eles teriam que remar em círculos, exatamente, quando estivessem no meio do rio. Quando o redemoinho parou, Curupira ordenou. – É aqui! Comecem a remar no sentido anti-horário, rápido! – Remaram, remaram, remaram... até que o céu ficou cor-de-rosa, o rio transparente e eles puderam ver os peixes mais exóticos do mundo, pirarucus gigantescos, poraquês com asas, piranhas furta-cores e plantas super coloridas, ornamentando uma festa inigualável, enquanto cobras grandes 26 26


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com escamas douradas-pretas como veludo e olhos de farol passavam por debaixo do bote. Era como se estivessem num grande aquário. De longe, até lembrava o trânsito caótico das cidades. Uma ariranha nadava perto. – Bom dia, cumprimentou ao Curupira! – Cadu tomou um baita susto com a voz da ariranha. – Ela fala? – Claro que sim. Tem boca, tem língua! Aqui todos se entendem – disse o curupira. A pequena Sareuna, estava muito quieta, até o menino perceber que ela já não era gente e sim uma planta linda, com flores de cor violeta e amarelo. Ela cumpriu finalmente sua missão e se tornara novamente uma bela orquídea. O menino ficou meio tonto e com uma vontade grande de cair na água, mesmo sem saber nadar. Curupira, que fumava um cachimbo, com a tranquilidade de um dever cumprido, carregou Sareuna nas mãos para replantá-la numa clareira linda na floresta e saiu desembestado na mata, às gargalhadas.

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Cadu desequilibrou-se, caiu na água e imediatamente suas formas mudaram. Ele virara um boto vermelho. Mas, então, como bicho, desesperado, não aceitou o seu destino e começou a nadar em sentido horário, num círculo sem fim. O rio começou a escurecer e o céu ficou de cor laranja-azul. Cadu, invertido de boto, avistou o barco onde seus pais chorosos sofriam achando que ele e a pequena Miúda tinham se afogado. Ele quis gritar e não pôde. Os marinheiros viram o boto se aproximar e achavam esquisito que ele, tão pequenino, tivesse tanta energia pra nadar velozmente. Perto do barco, ele deu um salto e acidentalmente feriu sua barbatana, num anzol enganchado na rede de pesca e começou a se debater no convés. Havia uma marca em sua barbatana, a de duas faces humanas. Quando sua mãe viu aquela marca, teve uma intuição vinda de dentro do seu coração. – Rápido, recolham o animal para dentro do barco, ela pediu. E cortem um pedaço da barbatana direita – Disse Doralice, esperançosa. Seu marido, espantado e assustado, pediu para ela que não pensasse sandices, mas, ao olhar o botinho, lembrou-se do filho amado e resolveu ajudar. Lá estava o botinho vermelho com uma barbatana contendo a mesma marca de nascença do

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Cadu. Mais que depressa, cortaram um pedacinho ferido pelo anzol e justo o que tinha a forma de dois rostos olhando um para o outro; um rosto de gente e o outro agora, face de boto. No lugar das nadadeiras apareceram bracinhos, no lugar do bico comprido, surgiu um narizinho, boca e olhos de um menino. Cadu levantou-se todo molhado e beijou sua mãe. – Obrigado! Só o amor da senhora poderia entender que o boto era eu! Agora, sentem-se, mãe e pai, vocês não vão acreditar no que eu vou contar. Todos se abraçaram e não puderam deixar de notar a falta da ponta do dedo mindinho, na mão direita do menino. Depois de ouvirem toda a incrível aventura, queriam saber mais, só que naquele momento, ninguém falou mais nada, eles sabiam que suas vidas iriam mudar para sempre. Ao anoitecer, ouviram uma gargalhada distante, vinda da mata, enquanto tomavam uma xícara de café, com tapioca à mesa, sentindo os ventos médios que invadiam o barco, ao lembrarem do dia de grande magia. Fim

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Quando pego um livro inédito pra ler, duas sensações tomam conta de mim: um pé atrás e uma esperança. O pé atrás porque pode ser ruim, e a esperança porque desejo fortemente que o autor tenha conseguido escrever bem. Muitas vezes, levo um tapa na cara, porque começo a ler sem grandes expectativas, porém, a história vai me envolvendo e não consigo parar a leitura. Foi o caso deste livro para os pequenos: Cadu e a bactéria verde. De onde menos se espera, nasce uma história linda e comovente. Penso que o trabalho do escritor é transformar imaginação em literatura, fantasia em realidade, realidade em magia. Nos primeiros parágrafos, penso que a história vai cair no paradidatismo, no entanto, a escrita de Lívia Prado flui, tranquila e acolhedora como as águas de um lago, o que leio vai tomando conta de mim. Uma viagem encantadora trilhada por um curumim, um caititu e os seres lendários da floresta. O livro Cadu é literatura, é mistura de realidade e fantasia, encanta, ensina sem ser chato e faz sonhar. Afinal, é disso que se trata o ofício do escritor, saber contar bem uma história. E Lívia sabe. E mais, sua escrita respeita a inteligência de meninos e meninas, sem tratá-los como tolos. Agora, basta ler. Ler é bom e não faz mal. Dori Carvalho é poeta, autor de Desencontro das águas e Paixão e fúria.


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