9 minute read

Arthur Conan Doyle (1859 - 1930)

CLÁSSICOS VINTAGE

MISTÉRIO

Arthur Conan Doyle (1859 - 1930)

Tradução de Monteiro Lobato

O D�U�O� N�G�O

O D�U�O� N�G�O

Bandeirola

Publicação original da revista Th e Strand Magazine (Reino Unido), de outubro de 1898. Ilustração de Joseph Finnemore.

CONAN DOYLE SEM SHERLOCK Histórias do grotesco e do terrível

Final do século dezenove. Três amigos com três obras mudam a literatura para sempre. Arthur Conan Doyle fi ca mundialmente conhecido por Sherlock Holmes. Robert Louis Stevenson, seu colega de faculdade, cria um marco das fábulas do horror, O médico e O monstro. Bram Stoker, o terceiro amigo, escreve o maior dos romances góticos, Drácula. Um mundo completamente novo e fantástico fl oresce da imaginação dessas mentes, modifi cando por completo a representação dos nossos medos. O papo devia ser bom, não é mesmo?

O que poucos sabem é que, assim como Stevenson e Stoker, Doyle também contribuiu fundamentalmente para o amadurecimento da literatura de terror. Autor de uma obra diversifi cada, o escocês abordou vários temas. Além dos policiais, escreveu sobre guerras, casos fantásticos, espiritismo, assuntos tão fascinantes quanto seus contos investigativos. E nunca foi capaz de esconder seu olhar místico e sombrio sobre a vida. ConanDoyle (1901). Coleção George Grantham Bain

Narrativas breves de horror sobrenatural, psicológico e grotesco

Os treze contos reunidos neste volume, que compõe a série Clássicos Vintage: Mistério, foram publicados entre 1897 e 1908, período em que Doyle, já exausto de Sherlock Holmes, livrou-se do detetive para abraçar outros projetos literários. Os contos são uma prova da atemporalidade de sua obra e de como o escritor realmente era um mestre da prosa. Mesmo que a tecnologia moderna já tenha decifra

Coleção particular Enciclopédia Arthur Conan Doyle

Conan Doyle e Louisa Hawkins (1892).

do uma infinidade de casos tratados como superstições no passado, é empolgante viver aventuras em lugares exóticos, solucionar casos ocultos e sobrenaturais e se deparar com feras terríveis no melhor estilo lovecraftiano. Isso porque as histórias são uma ponte para um universo de simplicidade lúdica onde, para se divertir, é preciso apenas dar asas à imaginação e se deixar levar pelo contador de histórias.

A tensão dos contos de terror de Doyle é construída a partir de ambientações cotidianas: o sonho que vira pesadelo, passos na escada à noite, o vulto atrás do armário. Múmias, demônios e fantasmas são peças-chave para compor cenários que priorizam o desconhecido. Em O gato brasileiro, por exemplo, o terror psicológico se alia à ideia de um Brasil exótico, terra de criaturas selvagens e misteriosas para os europeus daquela época. A mão morena é uma ficção sobrenatural sobre uma lenda popular na Índia, que ganha novas dimensões quando abordada pela mente fantástica do narrador. O trem perdido segue os moldes de uma boa história de detetive e poderia até ser protago

Biblioteca Pública de Toronto

Conan Doyle e seu filho Kingsley (1907).

nizada por Sherlock Holmes (algo que chega a ser subentendido). Já O caviar, publicado em 1908, tem um dos desfechos mais impiedosos e imprevisíveis de todos!

Muitos conhecem o profundo envolvimento de Conan Doyle com o Espiritismo. Vindo de uma família católica, chegou a se declarar agnóstico quando jovem. Aproximou-se depois da doutrina espírita a partir de 1881 e, mais intensamente, após a morte do filho, Kingsley. Um dos contos desta

seleção expressa seu crescente sentimento devoto. O unicórnio, de 1900, nos leva a uma sessão espírita onde algo muito inesperado acontece, resultando em consequências desastrosas para os participantes. O Doutor Negro, conto que dá título à coletânea, foi publicado em 1898. Foi no mesmo ano que importantes descobertas científicas aconteceram, como a dos elementos químicos Polônio e Rádio pelo casal Curie, e também quando o serial killer Joseph Vacher (conhecido como O Estripador Francês) foi condenado com base em provas forenses. É um tempo de encanto e de assombro, habilmente captado por Conan Doyle. Na história, um médico argentino se muda para o interior da Inglaterra para exercer sua profissão, mas é impedido quando algo muito inusitado acontece. O quebra-cabeças só será compreendido nos momentos finais, com um desfecho que desafiaria as vinte regras da ficção policial futuramente impostas pelo crítico SS Van Dine.

De onde vinha tamanha criatividade?

Arthur Conan Doyle foi um escocês que estudou para ser médico e um médico que sonhou ser escritor. Nasceu em Edimburgo, em 1859, dez anos depois da morte de Edgar Allan Poe, sua grande influência literária. O amor pela leitura foi incentivado ainda na infância, com os livros que sua mãe lia para ele. Aos nove anos foi estudar em um internato jesuíta e, para lidar com a solidão e duras regras disciplinares, escrevia e contava histórias. Agradou tanto que acabou ganhando plateia, e não demorou para perceber que era bom nisso.

Formado em Medicina, em 1881, passava o tempo entre consultas e a escrita de contos para enviar a revistas, na esperança de ser publicado e ganhar uns trocados. Certamente não imaginava ficar rico como escritor, mas quando começou a ter contos selecionados para publicação, disse ter aprendido que “xelins poderiam ser ganhos de outras formas além de enchendo frascos”. Estava certo. E iria ga

nhar muito mais que alguns xelins. Ganharia a eternidade.

É inegável a influência de Arthur Conan Doyle nas várias vertentes da cultura contemporânea. Suas histórias já foram adaptadas para o cinema, TV, teatro, jogos e quadrinhos. Foram vividas por uma diversidade de artistas, com programas veiculados nos quatro cantos do mundo, narradas por grandes estrelas do cinema. Um A partir de 1891 Conan Doyle passou a publicar seus contos na The Strand Magazine

dos contos desta seleção é exemplo disso. Em 1973, O funil de couro foi adaptado para a TV britânica no programa Orson Welles’ Great Mysteries, série apresentada pelo mítico diretor de Cidadão Kane. Com ares de ocultismo, Conan Doyle se inspira na história da Marquesa de Brinvilliers, uma das primeiras mulheres reconhecidas por ser uma envenenadora em série, além de citar outra figura histórica, Nicolas de la Reynie. Ele era o tenente geral da polícia de Paris em 1667, e ficou conhecido por aperfeiçoar as políticas de segurança pública da cidade em plena era do Rei Luís XIV.

Outros contos desta coletânea foram parar nas telas: O peitoral judaico (1899), que ganhou uma versão para a TV francesa em 1957, e O caçador de besouros (1898), sobre um misterioso entomologista, que foi transmitida pela BBC em 1967.

Lógica e Ciência a serviço da criação

A curiosidade de Conan Doyle por invenções, sua paixão por viagens e a vontade de entender o mundo que o cercava foram fundamentais para que criasse histórias tão imaginativas. Mesmo que sejam todas centenárias, elas mantêm um frescor cativante, com temas trabalhados para causar assombro e medo nos leitores. Ler os contos de Arthur Conan Doyle é um convite para enfrentar estes medos e, ao mesmo tempo, fazer uma deliciosa e irresistível viagem no tempo das histórias clássicas de terror. Generoso, ofereceu um filho sagaz e famoso que decifrava todos os tipos de enigma. Mas também teve outros filhos, mais sombrios ainda. Vire esta página para conhecê-los...

Ana Paula Laux

SUMÁRIO

15 O gato brasileiro 38 O funil de couro 52 O caçador de besouros 71 O homem dos relógios 88 O caviar 105 O peitoral judaico 126 O unicórnio 143 O trem perdido 161 O pé de meu tio 183 O professor da Lea House School 200 A mão morena 218 O demônio da Tanoaria 235 O Doutor Negro

O GATO BRASILEIRO

Conto publicado pela primeira vez na Th e Strand Magazine, em dezembro de 1898.

Opior que pode acontecer a um moço de grandes esperanças, fi nas exigências de gosto, numerosas relações na alta sociedade é não ter dinheiro, nem profi ssão que lhe permita ganhar dinheiro. Foi o que sucedeu comigo. Meu pai depositava tal confi ança na riqueza e benevolência de seu irmão solteiro, Lord Southerton, que não me preparou para ganhar a vida. Imaginava que se não houvesse para mim um cômodo lugar nas propriedades de Southerton não seria difícil arrumar-me num bom posto da diplomacia, carreira que é um dos refúgios para casos desta ordem. Meu pai morreu antes de verifi car como errara nos cálculos. Nem meu tio mostrou o menor interesse pela minha pessoa, nem o Estado abriu-me o seu seio amplo. De raro em raro um casal de faisões ou uma cesta de lebres me fazia recordar o fato de ser eu o herdeiro da Otwell House, uma das mais ricas propriedades do país. Durante esse tempo conservei-me solteiro e a morar num apartamento em Grosvenor Mansions, sem outra ocupação além do tiro aos pombos e o jogo do polo em Hurlingham. De mês a mês eu via tornarem-se mais difíceis os meus credores na renovação dos créditos. O espectro da ruína ia tomando formas defi nidas.