No 70
Maio/2017
Revista para a formação de professores de Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental ISSN 1806-8340
Crianças
veem o mundo
Diversidade de elementos na escola
Corredores com vida
Muito além da sacola literária
TEMPO DIDÁTICO
Conhecendo as aves do entorno Situações
de
Pinho Portilio
bem contextualizadas de
ensino e aprendizagem da língua escrita entusiasmam os alunos do
1o
ano do ensino fundamental e
e
Vivian Carmem Dutra1
A
o procurarmos estratégias de ensino eficazes para a aprendizagem dos alunos fomos influenciadas por aspectos
presentes na teoria de diferentes pensadores, em especial aqueles que, desde o livro A psicogênese da língua escrita 2, repensaram a es-
Revista avisa lá
o
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Luana Viegas
os resultados foram socializados com a comunidade escolar
VIVIAN CARMEM DUTRA
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Ambas são professoras do 1o ano do Ensino Fundamental I. Emilia Ferrero e Ana Taberosky, 1999. São Paulo: Artmed, 2001.
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tratégia para se trabalhar o processo de alfabetização, focando o modo de como realmente se aprende, deslocando o foco do “Como se ensina?” para o “Como se aprende?”. A escrita e os procedimentos de pesquisa são compreendi-
de hipóteses.
volvimento social dos educandos. Atualmente é
Seguindo essa linha de raciocínio, podemos
sabido que o aprendizado acontece nos momen-
perceber a importância do trabalho com proje-
tos de cooperação e de troca entre outros indiví-
tos, pois propor uma atividade que tenha um
duos, mesmo que seja um processo individual,
objetivo claro e eficiente para o que se pretende
pois cada um percebe e abstrai aquilo que é mais
pode garantir mais dedicação e empenho para a
relevante e está mais próximo de seus sistemas
realização das propostas. Além de possibilitar
internos de assimilação do objeto de aprendiza-
situações nas quais se permite atribuir sentido
gem. É o que reforça Bräkling4:
ao que está sendo feito, o desenvolvimento de
O sujeito aprende na interação tanto com
projetos também é uma proposta potencializa-
o objeto de conhecimento, quanto com
dora por permitir “uma organização muito flexí-
parceiros mais experientes a respeito do
vel do tempo: segundo o objetivo que se persiga,
que se está aprendendo.
um projeto pode ocupar somente uns dias, ou se
Diante dessas ideias, a observação e o estudo das aves aconteceram como uma estratégia
Ao optar pelo trabalho com projetos, é possí-
para potencializar o aprendizado dos alunos.
vel envolver todos os alunos para a realização de
Neste projeto perseguimos mais especificamente
um mesmo objetivo, pois o produto final precisa
os objetivos de “ler para aprender” e “ler para
ter uma destinação, divulgação e circulação (den-
buscar informações específicas”, pois esses mo-
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desenvolver ao longo de vários meses .” 3
o
tro ou fora da escola), possibilitando assim o en-
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tam de observação, contextualização e elaboração
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dos como objetos de conhecimento que necessi-
FOTO: JANAÍNA MENDES SOARES
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Reprodução das aves em papietagem com jornal
Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário, de Delia Lerner. Porto Alegre: Artmed, 2002. Kátia l. Bräkling em: Das interações às ações: a linguagem verbal em sala de aula (separata, 2012).
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mentos de leitura são fundamentais para a cons-
Essas perguntas impulsionaram os alunos a
trução de conhecimento e de aprendizagens
buscarem respostas por meio de pesquisa em
adquiridas durante o projeto.
textos científicos e observação direta das aves.
Vale lembrar que as aves estudadas durante o
Desenvolvimento do projeto
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Os principais objetivos eram:
projeto habitam o entorno da escola e são observadas pelos alunos constantemente, tornando-os
Despertar o interesse pelo mundo natural,
cada vez mais protagonistas de sua aprendiza-
possibilitando que o aluno formulasse per-
gem pela vivência diária com essas espécies.
guntas, imaginasse soluções para compre-
Algumas perguntas feitas pelos alunos:
endê-lo, manifestando opiniões próprias
Por que algumas aves não voam?
sobre fatos que observou, buscando infor-
Por que os filhotes não voam?
mações e confrontando ideias.
Por que as aves chocam ovos?
Compreender e fazer uso dos procedimentos
Para a realização das pesquisas, os alunos se
de pesquisa: levantar hipóteses, ler para bus-
organizaram em subgrupos, cada um com uma
car informações precisas, observar e registrar.
função previamente selecionada pela professora
Favorecer a observação das aves do entorno
de acordo com as possibilidades de cada estu-
para o desenvolvimento do projeto.
dante. Um aluno fica responsável por ler o texto,
Compreender e fazer uso dos procedimen-
outro se responsabiliza por registrar as informa-
tos de escrita, leitura e de revisão de textos
ções obtidas, um pode se responsabilizar por
de curiosidade científica tipo “Você sabia”.
marcar com um post-it as informações obtidas.
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Enfim essas funções são bem versáteis e seguem Iniciamos com o levantamento de hipótese,
as características de cada grupo de alunos, em
considerando os questionamentos e os saberes
um processo que ocorre com orientação da pro-
que os alunos tinham em relação ao tema. Três
fessora que faz o papel de mediadora, auxiliando
perguntas norteavam esse momento:
e fazendo intervenções específicas de acordo com
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O que sabemos sobre as aves do entorno da escola?
as necessidades dos grupos formados. O passo seguinte foi apresentar para os co-
O que queremos saber?
legas o que conseguiram responder com a pesqui-
Como podemos descobrir?
sa; depois essas informações ficaram expostas no mural da sala. Nesse mural, os estudantes foram expondo todas as aprendizagens que adquiriam
processo de pesquisa a partir do interesse deles
durante o projeto, respostas às perguntas ini-
foi essencial para que, desde o início, as crianças
ciais e descobertas feitas por meio das pesqui-
se sentissem protagonistas desse processo.
sas e observações.
FOTOS: LUANA VIEGAS DE PINHO PORTILHO
Considerar a bagagem dos alunos e iniciar o
Pesquisa coletiva sobre as aves
Desenhando aves observadas
FOTOS: VIVIAN CARMEM DUTRA
TEMPO DIDÁTICO
também assistiram a documentários e progra-
Ao término das pesquisas, os alunos deram
mas de reportagem sobre aves, ampliando assim
início às escritas de textos informativos de curio-
o repertório sobre as variadas espécies.
sidades sobre as aves, também do tipo “Você sabia”. Este é um gênero textual produzido pelas
tudadas, eles elaboraram as fichas técnicas, e
crianças no livro das aves; uma turma escreveu
para tal utilizaram os procedimentos de pesqui-
curiosidades e a outra, “Você sabia”.
sa, pois precisam buscar informações sobre cada
As fichas foram elaboradas a partir de pes-
ave. Durante a busca eles registraram no texto
quisas dos alunos durante o projeto e quiseram
as informações encontradas para, em seguida,
colocar no mural. Antes da primeira escrita, a
anotá-las na ficha técnica, cujos procedimentos
professora mostrou às crianças modelos de tex-
se repetiram a cada ave pesquisada, tornando o
tos bem escritos como referência do gênero a ser
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Depois de escolhidas as aves que seriam es-
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Procedimentos de escrita, leitura e revisão
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Além da leitura de textos científicos, eles
Produzindo a Ficha das aves
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Pesquisa individual
processo de pesquisa uma atividade permanente.
escrito, para que, em grupo, pudessem discutir e
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Vale salientar que as primeiras pesquisas fo-
montar um quadro de características do gênero,
ram feitas coletivamente para que pudessem circu-
pensando no conteúdo temático, na organização
lar informações relevantes sobre os procedimentos
interna e nas marcas linguísticas.
necessários. As pesquisas posteriores foram realizadas em dupla, sendo que cada uma recebeu um texto para a busca das informações que comporiam a ficha. Esses textos continham as mesmas informações, porém foram elaborados de acordo com as possibilidades de leitura específicas de cada dupla. Para aprimorar as aprendizagens, os estudantes foram ao zoológico, o que permitiu, entre outras questões, a observação de um dos meios de circulação da ficha técnica e sua função social. A professora retomou com eles a questão do destino e das finalidades dos textos escritos, relembrando que cada um tem um meio de circulação e uma função específica.
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Em projetos como esse, o primeiro texto é
ram suas características, cores, tamanho, tipo
produzido coletivamente, tendo a professora co-
de bico e características do local onde foram
mo escriba, com a intenção de circular as infor-
encontradas. Puderam registrar também o que
mações da estrutura do gênero. Depois de
as aves estavam fazendo quando observadas.
alguns dias, já distanciados do trabalho, há o
Vários alunos comprovaram nas observações
momento da revisão coletiva. A professora esco-
tópicos que foram pesquisados nos textos, como
lhe uma característica de cada vez para ser revi-
características físicas das aves, comportamento,
sada pelo grupo. Concluída a revisão, o texto
construção de ninhos, hábitos alimentares. Nesse
produzido coletivamente é incluído no livro de
percurso, algumas falas foram registradas pelos
curiosidade das aves.
professores:
Após a etapa de produção coletiva, os alunos
– Professora, eu observei João-de-barro can-
iniciaram a escrita do texto em dupla. Nesse mo-
tando na minha casa e parecia uma garga-
mento, além dos conhecimentos adquiridos no
lhada, que nem você leu no texto.
decorrer do projeto, eles utilizaram as fichas téc-
– Eu vi o bem-te-vi chupando o néctar das
nicas e o mural da sala como apoio para buscar
flores e percebi que as penas dele brilham no
informações importantes para produção do tex-
sol que nem você leu naquele dia!
to. Na dupla, um faz o papel de escriba e o outro
– Eu encontrei um ninho na minha casa e
dita as informações, mas não significa que quem
acho que é de sabiá-laranjeira porque parece
está escrevendo também não possa informar. É
uma tigela funda e tem gravetos e peninhas
importante dizer que tanto um quanto outro atuam
em cima.
ativamente na construção do texto. FOTOS: JANAÍNA MENDES SOARES
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Uma semana depois de os alunos terem feito a primeira versão, o texto era submetido à revisão em dupla com a orientação da professora. Durante a revisão considerava-se um aspecto por vez, de acordo com a necessidade do texto de cada dupla. Por exemplo, segmentação, correção de palavras, repetição etc. Reescrito o texto revisado, passou-se para a finalização do livro. Coletivamente produziram as ilustrações, o índice, pensaram no nome, no tipo de letra, e em todas as questões relacionadas à estética e apresentação desse trabalho, conscientes de que esse livro seria apresentado na feira cultural da escola, cujos leitores seriam os pais e os alunos da escola. Registros individuais Durante o projeto, em paralelo às propostas mencionadas, os alunos fizeram o registro de suas observações em um livro individual intitulado Livro de observações. Nele registraram, por meio de escrita e desenho, todas as aves que encontraram no entorno da escola e representa-
Técnica de papietagem em jornal
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– Tem um ninho de bem-te-vi na árvore da
cobrir o nome do possível dono da pena e depois
escola... eu sei porque é fechadinho e tem
expuseram as penas encontradas em um painel
um furo no meio. O tucano vai pegar porque
intitulado “penário”. Para todas as penas havia
ele come filhotes e ovinhos de aves menores.
uma legenda produzida pelas crianças, que informava o nome da ave ou o local onde ela havia
fim de semana e chegaram à escola ansiosos
crianças a produzirem um vídeo para comparti-
para pesquisar seu nome e características nos
lhar o que haviam conhecido sobre as aves no
livros; se não encontravam a informação, pe-
decorrer desse processo, que foi entregue aos
diam ajuda para a professora e pesquisavam
pais com o livro e as fichas técnicas produzidas.
na internet. Todas as informações foram regis-
Realizaram também na aula de Artes repro-
tradas no mural do projeto, que foi ficando
duções em tamanho real das aves estudadas
mais rico a cada dia.
com a técnica de papel machê.
Os alunos fotografaram os ninhos e as aves
Esse projeto foi apresentado na Mostra cultu-
encontradas na escola sempre que possível,
ral da escola, com a exposição de todas as eta-
aprenderam a conviver com o comportamento
pas, incluindo ficha técnica, primeira versão do
desses animais, passaram a respeitar o habitat
texto, revisão, ilustrações, reprodução das aves,
das aves. Por meio da leitura de textos publica-
ninhos encontrados no entorno da escola, livros
dos por ornitólogos e observadores de aves
utilizados para pesquisa e o produto final. No dia
aprenderam, na prática, os comportamentos de
da exposição, as crianças explicaram todo o pro-
um observador.
cesso percorrido aos visitantes, orgulhosos de
Saíram também à procura de penas de aves, observaram e pesquisaram ao máximo para des-
o
A empolgação pelas descobertas motivou as
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mento contrário, isto é, observaram aves no
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sido encontrada.
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Inúmeras vezes as crianças fizeram o movi-
tudo o que haviam aprendido e de todo o material produzido.
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FICHA TÉCNICA Escola Colibri – Associação pela Família Endereço: Via das Magnólias, 44 – Jardim Colibri. CEP: 06805-350 – Embu das Artes – SP Tel.: (11) 4702- 4050 Diretora: Maria Cecília de Mello Fernandes E-mail: cecilia@escolacolibri.g12.br Orientadora pedagógica: Ana Ap. de Oliveira Batista Veiga E-mail: orientacao@escolacolibri.g12.br Auxiliar de ensino: Gabriela Mendes Pereira
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PA R A SA B ER MAIS Textos Aves da mata atlântica, de Sergio Pardi Dieguez. São Paulo, 2006. Disponivel em: http://assets.wwfbr.panda.org/downloads/guia_de_aves_mataatlantica_wwfbrasil.pdf Das intenções às ações: a linguagem verbal na sala de aula. Uma proposta de organização das atividades de ensino, de Kátia Lomba Bräkling. São Paulo, 2012 (separata retirada da internet, não mais disponível). Os doze cantos do Brasil, de Cristian Dalgas Frisch e Jihan Dalgas Frisch. São Paulo: Dalgas, 2007.
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