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ARTUR ROGÉRIO

PADARIA CDU

Barreiros, dezembro de 2008.


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1. PÃO

No final Tem o assassinato Mas Quer dizer Matamos os dois Já Se Pela linha Fundamos assinado No final Quer dizer E não vence mais o remoinho Condenados Sangramos a simpatia acanhada da ostra vazia Nós Tu e os presuntos da padaria Pés frescos nos olhos De cascalho Siris bicam filés moluscos de lágrimas humanas Como pães de água e sal A merenda Eles Eram como dois rios sem cão Sem pedras Sem pão


3 Sem poesia A bala é passada pelo corpo Como uma faca É passada Como uma geladeira Como uma agulha Um camelo Uma chuva É passada por um rio E o rio pela chuva chovida dos pés cadentes Dele Que inventou A poesia Dele Ele sabia Dela Dentro da ostra Vazia Que nem Deus Ele Rio primeiro Repartiu a carne de Adão Que Adão comeu E Cristo Eu Fatiaram os pães


4 A padaria armou as portas a mando da polícia No entanto Os curiosos De olhos levados à Lei Dilataram as lunetas ao limite Sentinelas e Mortos É o morto que ficamos quando vemos o corpo No final Também dobramos os ossos Ali na pedra Coração inédito Só a temida Só ela existe Para toda a vida Quê? Isso aí no chão? A onda vermelha Silenciosa como um mal que reflui à sombra da porta aferrolhada A água espessa Da gente Que habita o interior das palavras Medo e fome Qualquer narrativa Ração humana Espinha de peixe em pele de gato Flor-cadáver Gloss Sob o sol leporino


5 Câncer Lua e âncora Golfinho Beija-flor Sorte e fome Mas fome é pra quem come E quem não come Não esquece Come o que acompanha a fome Come o que lhe dão Pão O que a fome Despreza Não Dá medo Por ninguém vestimos os dentes Pela barra líquida Escrevemos Dentes Sob a nuvem viva E só depois Dela Desfraldamos a máscara tolhida E por ninguém Mas ele dizia Isto é poesia De ferro e piche De régua


6 De nuvens e alegrias cozidas em novas barrigas Que adejavam e propagavam Ela está viva Ela está morta Ele está morto Mas ele dizia Ela está morta Ele está morto Os três Os dois E o francês E Os da bala E o filho que fugiu depois do tiro Da mãe A morte Ela debandou pra muito, muito, muito longe do seu único filho e A morte E o filho que fugiu depois do tiro Rediviva a igual notícia Aí no céu Como flores que mirram Revestidas Do segredo Pela sua natureza de flor E a beleza Mas Já pendia defunto o feto


7 Senil Lambuzado Buquê de serpentes estouradas A pedra desumana dá cambalhotas Desde a cruz Sete lados pisoteando Jaqueiras Sacis Lápides Arraias Esfola o joelho E esmaga uma formiga Feita de poesia Treina Quer dizer Ela treina novos ângulos invisíveis aos quadrados cabeções sobre rodas que rodam, rodam, rolam pra muito, muito, muito longe Pra baixo E Pra baixo Como um animal que pensa Como um ganso Quer um poema Meio Que No final Quer uma toalha Pra o piquenique


8 Onde costumam se voluntariar Quais borboletas Almas de toda guerra e estirpe Já que Ao contrário do que se publica É na gravura romântica Que aterrissam pesadas cruzes de cimento Como facas contra A tábua E plantam-se na grama Como elefantes de tromba afiada E a relva perde a sua cor original Veste o tecido coroado Ele quer uma Toalha Mesmo com tanta padaria sobre a Terra Não pára O animal Muco de chover vira-latas Útero vadio Despencam crias sombrias Que escapam velozes de ovos peludos Como ovos de macaco E mergulham pelas pedras Das mais importantes Às que se fazem os templos dos homens Tornam-se rochas rancorosas Na beira dos rios Nas várzeas


9 Anda a lâmina Nascem-se mãos de ouriços raivosos com odor de amônia E outras flores Não é nossa esta terra displicente com a saúde dos cabelos E salva A mãe E mata o encanto Sovado junto a toda massa Crescido sob o calor das asas do lixo É teu E prega sonhos em muros Rasteja a sombras de anjos gorduchos Cheios de graça Baleiam No demônio alvo Do supermercado CDU Mas não combinariam À margem Do sítio Na praia à deriva Da noite Moisés e Maria Lúcia Enlaçados Dormindo Por trás da arquibancada Da gaiola Do circo


10 Moisés e Maria Lúcia caçados na gaiola dos porcos De livre paisagem Quatro bandas Corpos vencidos Duas bananas Quatro corpos sortidos Novos Pães serrados Santos Adormecidos Seguinte a João Cabral de Melo Neto Morre Artur Rogério Coelho Neto Ladrão De sobrenome legítimo Como antes Mais grande E mais educativo aos cavalos capados e seus óculos de tirar foto Amolei a faca na pedra Laxei O sangue laxou À pedra Caiu de pérola em pérola No chão Que não o pôs goela a baixo por serem por demais íntimos Ele e ele É assim que, tem dia, nascem pedras


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Prefiro o pão e circo Ao leão A um poema escrito Prefiro a pedra De João Um cão sem plumas É mais Que um cão assassinado Em Recife No Recife É mais Ele Quer dizer Ele é mais Quer dizer Que serventia tem um poeta desses Que obram poemas? Em Recife No Recife É mais De nada serviam eles Os dois Mortos Depenados na pedra Guiei-a Pois


12 Guisada ao sol À padaria Quer dizer Decaído da parede da sala um poema Como declina Uma cabeça de cavalo na ribanceira Do matadouro Mas agora não importa de quem é o cachorro Pra urubu É Tudo peru No balcão A altiva abelha lambe a pintura do pão-doce Plana sobre as dunas de ouro Ressona Joga videogame Escreve um livro E quando se enfastia Aterrissa Pra urubu É Tudo peru Hoje A anã gigante freva na chapa O piche, o rio, a cidade O mar e o peixe De rio


13 Os armazéns e suas barbas imperiais Replicam e marcham Contra a moda desses edifícios Sem alma Na Boa Vista Tristes arco-íris Antenas externas, revistas Papel político Filme Lanche Bicha Bandeira de Pernambuco Como se fosse Camisa Seda de silicone Bafo de uva, cana, gasolina, amêndoas, estrelas anônimas E a cerveja sempre quente E fraca demais Gatas borrifadas Gatos secos Independentes Hoje Hotel Central Quinze real Esquina Rua das ninfas Chora menino Nossa Senhora da Solidão


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Nesta cidade não existe maldade Já que o mau jeito É de criação No final Quem vê maldade Na dieta do Palhaço Chocolate? To be or not to be Everybody? O leite da pedra A pedra do sono A pedra do crack No museu zumbi Príncipes e princesas na avenida Olinda é um botequim De Recife Do Recife - Mas isso é tão dois mil e cinco Mombojó Forrobodó Caxangá Escravos de Jó Pão Recife Pão De ló Matamos Science Emparedamo-lo Quer dizer


15 Empedramo-lo Somos o desastre Os urubus De estômago embrulhado Ainda torcem O bico Quando nos pescam Sendo toreados Por carros Entrando e saindo de carnavalescos portais E Ao final Se acabrunham num misto de pena e pudor Peidam das tocas Nas árvores Duplicidade do Tempo No Museu de Tudo Padaria CDU Moisés e Maria Lúcia Esses papéis Sem história Nos abandonaram Às nossas mortes Às nossas araras Às nossas glosas fantásticas pescadas no intervalo Entre um pensamento de cerâmica E um de nirvana No final


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Mas a massa ainda nem coroou Nem o dia E No entanto JĂĄ estĂŁo saturadas de um sebo caseiro as nossas patas Como luvas feitas de tripas fracas De fantasia De carnavais esquecidos No final Toalha alegre suspensa pelos punhos vegetais da grama Revolveres dormentes Tanajuras Vinhos Velas e cravos Tudo de acordo com o combinado Portanto No final Tem o assassinato Mas Quer dizer


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2. PEDRA

Morre O ovo e a galinha Morre A educação é pedra E a violência Água E ainda Falta a parte Em que se descreve o mobiliário A vegetação O figurino E rima No final Mas A caveira e o cacto Última praga Olhos caídos Na areia Palavras Que história é essa Que acaba? Que lenda é essa Que acaba?


18 Estamos apaixonados No final Que acaba? Frutas tailandesas Banana Caju Jerimum-mosquito Dragão Pão Cabrito Tiro Nada deve mudar Não se deve bulir na poesia Que lenda é essa Que história é essa de velho? Que acaba? No entanto Enquanto uns falam árabe E outros falam em contemporaneidade Enquanto Isso João é poeta Mas falta pão Onde haveria Pão Na exposição no hall da universidade De novo Preguiça


19 Sinfonia Farofa Chá de bosta Poema De novo Mas Falta pão No final Enlivram-se palavras prematuras Traduzidas nas coxas Entre uma pose crítica ofertada a qualquer, qualquer, pobre diabo que desce a escadaria E uma troca de fluidos crus com uma moça Muda Mais doida que nós dois Moisés E Maria Lúcia Juntos É importante comer arroz e feijão todo dia O médico disse E pão No final O jornal falava VIDAS ABATIDAS NA PADARIA E também publicava uma impávida receita de empadão de frango com azeitona, ovos cozidos e palmito de pupunha Ele pensando trezentos gramas do floresta negra Bico enrugado


20 Ela E às vezes Ela Me dê aquela do Homem-Aranha Adoçou o filho Ele Homenzinhos fardados que escalavam as prateleiras matizadas Bombardearam com êxito pacotes de amendoim Japonês Cacarejaram na sessão dos fubás Tremeram na base Esses frangos Fritos No final Fubá e Coca-cola Santuário festivo No balcão No rótulo desbotado da loção adstringente Azeite português Molho inglês Vinho de Petrolina Bolo-de-rolo Doces cigarros Unhex Seda Ovos da granja Canela CDU Muribeca


21 Floresta Tão impróprio quanto a vida Como se se engasgasse com a própria saliva Ou com bolinho de bacalhau O assalto Às dezoito horas e quarenta e sete minutos Na padaria CDU Muçarela Frutas cristalizadas Glacê Na fila, o paletó suarento não resiste às bolas de fogo que são chutadas ao ângulo interno dos seus dentes subtraídos por um pó que passarinho cheira Tem pressa Não tem tempo Tem mulher e tem filhos Tem fome E aconteceu uma merda com o celular dele hoje de tarde E nesse mesmo palco Pisaram De sete a oito minutos e meio depois Dois caras Guelras Abertas Camisas de múmia Na cabeça Decidiram pagar umas dívidas Aos latidos Torceram as rótulas


22 Embrulharam o estômago dos seriíssimos Papa-pães E as suas vozes metálicas De um metal comprado a qualquer preço em qualquer comércio amigo Frases fílmicas De bons e maus dublados Da televisão Alocavam-se rebatidas de capa em capa de orelha De tímpano em tímpano Enraizavam-se Repolho Sarar-morreu na memória Novo frevo de rua Mas agora aqui é deles E as vozes Para o bem ou para o mal São essas E além do texto idiota Eles empunham armas carregadas sem miséria Rescalda Lavam os pés numa marezinha espumenta que mais parece feita de nuvens de sabonete Logo hoje Terror Na padaria Quer dizer Covardes Gargantas combalidas Esgoelam-se num mesmo adágio


23 Sem grave Sem fêmea ou macho Resvalam em palavras comuns mendigas Crescidas entre ratos Baratas Lambidas de cachorro E bofetadas inefáveis de mãos sem anéis Silêncio Tiros – filme - pipoca - sangue - pão doce Silêncio Uma bala acha Moisés Maria Lúcia Maria Lúcia Alvo improvisado entre o freezer dos sorvetes e a rua Abatiá Maria Lúcia Cerâmica de aroma campestre sob o balão esvaziando sem chofer Maria Lúcia Naufragada entre pasquins entediantes como pombos em adros E quadriculados espertos das novas aventuras Do Homem-Aranha Maria Antes de morrer No entanto Moisés e Maria Lúcia Eram vivos


24 E vivos Como dois impérios Como uns dez livros Na fila Como o paletó e as suas histórias extraordinárias As únicas que sapatearão ao curso Deste livro Mas então quem é ele ela Na fila Ele ela se olharam com esses olhos Hermeticamente Antes Vultos sem matéria Saltam barreiras remotas no deserto A lua Toca Como uma mãe toca Na intimidade das estrelas Um vento ambíguo Retoca as corcovas da areia Um poema Acaba De ser escrito Por um poeta Ele ela No final Deve ter sido assim No final


25 E pelas mortes cunhamos esses olhares cavos Pessoas alheias limam As esquinas Balizam-se Transitam irreconhecidas Refugadas Répteis sem gravidade Sem farelos Continuam objetos pelo espaço Providos com franjas De guizos Rabos escovados Sorrisos E focinhos úmidos Cometem serviços ocultos Como o que diferencia a noite do dia O que financia críticos literários O que nos fazem amar Ou ter fome De Ao final da tarde Ir à padaria Comprar meio quilo de bolo de chocolate Ainda não os matamos Quer dizer Ainda não os matamos O assassinato Fica aqui Esse disse-me-disse


26 É só entre nós dois No final Fica só entre nós dois Palavras Livres de dicionários Recife Antigo Prédios quiméricos Brotos de fim de mundo Cidade fantasiada de cidade fantasiada Serragem e cal Na margem As duas torres E a pica filtra toda espécie de vocabulário A toda sorte Sargaço raro Espantalho E Moribundo Espuma doente Adoecendo E Algodão doce Antes na praia Unhas Creme Aranha morta Sangue Na veia


27 Tipóia Filés De borboleta Faca peixeira Ovas Vendem-se Antes Vendem-se Moisés reparte o pão por toda Cidade E por toda cidade Os urubus Indispostos ao luto Estudam matadouros clandestinos É assim Antes e depois da morte de qualquer corpo Doméstica modorrenta Pontes e cadeados invadem as ruas de um domingo laqueado Nem a ursa preta que morre pelas calçadas da Boa Vista Nem uma viva centelha Prefeitura, estátuas mortas de poetas vivos Pipoca Tiro . . Introspectos barris de pólvora Sibilam Morcegos Na pista de cooper


28 Brincam de vampiros Filmam Disputam uma veia Simulam Um ataque À boneca malhada E A boneca malhada É atacada A Cidade Universitária Lê A Cidade Universitária Come A CDU É passada pela coruja branca A CDU A CDU Está vaga Alugam-se quartos para moças A revista é passada pelos olhos Da mulher Ela Vê Uma bunda É assim


29 A CDU Às vezes Tiro . Onde? Mas desde onde vem? Onde? Lagoa do Carro? Jaqueira? Rio Formoso? São Bento do Una? Jaboticabal? Porto Alegre? Capibaribe? Boa Viagem? Camaragibe? Onde? Maria Lúcia Monólito olmeca Onde? Onde? Maria Lúcia? Onde? Maria Lúcia Professora de criança Moisés


30 Roupa Formado em Economia Apenas Cílios crestados Barba postiça Cabelo dividido Formado Pés de homem Pés escovados Pele Mas Tem algo mais Moisés tem molas de mulher A fundação das costas frisadas por mãos de tuiuiús Agora que morreu Mistério Moisés Mulher? Abraça-o A morte Dividida Moisés e Maria Lúcia morreram Moisés e Maria Lúcia foram assassinados Moisés e Maria Lúcia eram qualquer alvo Moisés Quer dizer No final


31 Eles morreram Salvaram-se das palavras Estes soluços Pedras amoladas No rio Fogos de artifício Minas de que os escritores se armam Socam pela goela Matam Eles morreram As palavras Ou caçam Ou são abatidas e evisceradas como animais domésticos caçados por homens A carne selvagem largando A peçonha O vinagre lutando contra o odor dos segredos divinos E No entanto Apesar da habilidade Da faca Do auxílio braçal dos temperos É uma carne Proibida Jamais se faz saudável à fome Do homem Por isso comemos o pão santo E Igualmente


32 No entanto Depois de comungar As mazelas crônicas voltam a marchar pelo corpo Saem de esconderijos Ninhos Rastram camufladas Rapidamente Se alimentam E Rapidamente Põem fezes que ressecam e evaporam ao nosso coco Por isso a plumagem E Às vezes As caspas Verrugam o nariz Adornam a barra das orelhas tocada por pêlos errados Aftam Inspiram poemas E Às vezes As caspas Salvaram-se das palavras Sargaços Que envenenam as praias Elas Também são a areia Que resta Na virilha


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Estão salvos Os Namorados A paixão testemunhou a bala Que cumpriu o destino de terminar um corpo Matou os dois Cápsula Aplica beleza Assa Eu e assa tu Fígado Olhos desbotados Animal Pesado Assa Eu e assa tu Além do chão Além do pão Além do trigo O túnel é um toldo camelô apinhado de óculos escuros e mata-ratos Tijolo sobrado Da construção Bueiro Pétala de tatu Pegada de rio Assa


34 Filho do Capibaribe Virado desplumado Índio Morreu na praia do rio, no túnel, morreu no parque, no Galo, dormindo Morreu no carnaval Olá Massa integral Sabão neutro Peixe na barra de gelo Paisagem Olho Assa O som dos tambores Silenciosos Fez sorrir um sorriso Reservado À confirmação Da morte Perdemos o alvará Perdemos A bala Somos devedores de luz apagada Quem? Quem morreu? Quem? Quem! Assa


35 Além dos dois A caveira Cevaram-na mensurada na filosofia De província Na mesma tatuagem de cela No mesmo bairro Na mesma lei de incentivo Circo Na mesma Favela Assa Eu e assa tu Esquartejado Diminuído A céu aberto Sob sol E gente O cão sem plumas segue Diferente do retrato Parece Um cachorro Miolo mole Barco Sanatório em dia de ação Blefe perfumado Baixo


36 Ração A colcha vermelha empluma-se na padaria Cresce Partido comunista Em dias de ilusão Pontes levadiças distraem o trabalhador sem poetas E alegre Árvore de Natal Galho e algodão Baile municipal Baile de máscaras Criatividade lamacenta que ordenha o pau de Chico Esgoto fashion Cantadores holográficos Folclore rural em Nova York Em Nazaré Da Mata Paris A árvore de São João Queima As gatas de Londres rebolam no sertão Mas queima Quase tudo Queima No sertão Não é lugar pra engordar essas porcas Crias


37 Da Internet Quase tudo Mas queima Na padaria Enquanto os médicos desfiam os galetos O público Já um tanto esfomeado por tantas sugestões Dos patrocinadores do trio Elétrico Planeja saquear uns vinte e três pães E uns Doze litros de refrigerante Antes dela Eu vi os tiros Eu tava lá dentro Foi Deus Foi pra mais de dez tiro Eu saí da padaria uns cinco minutos antes do tiroteio Um tiro bateu em mim, ó Foi foda Hoje eu vou ficar sem pão O tiro Padre Anelou o casamento de Moisés E Maria Lúcia


38 Maria Lúcia O filho Feito um pato Não foi desintegrado pelos marcianos O filho Não foi defenestrado desta narrativa Ele vivo Não interessa tanto Mas Quem? O filho O vivo O filho Mais bala perdida Menos pão na lista O filho Inventou a mágica da espada de plástico plantada na pedra de isopor Na lista Queima Moisés babando à torta Não preveria este casamento com a donzela da história A mais grande, a última A professora de criança Maria Lúcia Maria Lúcia babando às tortas Não preveria este casamento com o príncipe da história


39 O dono do cavalo branco O da pedra e bedéis Moisés Eu vi quando eles voaram Eu tava assim do lado do forno dos galetos Espalhou tudo em cima de tudo Era sangue Um miolinho grudou na minha testa Foi foda Hoje eu vou ficar sem pão Requeijão Conservas Shoyu Tanta tralha gostosa Foi foda O estômago perde um pão Perde Um santuário paleolítico Sagrados Lanches de três minutos Ceias de domingo Cervejas Vinhos nunca comprados Na padaria agora Comidos Revólveres truncados correram em disparada Junto aos suores


40 Íntimos De volta ao lugar Público Queijo parmesão Batata palha Azeitona sem caroço Milho e ervilha oram abraçados dentro duma mesma lata Só sobrou o amor Violento Vivido no disparo Nascido da mesma natureza Do mesmo ovo Da bala Pombinhos fritos Moisés Maria Lúcia Medusa Mistérios moídos subindo pelas paredes em pose estelar Putas A moleira Cuia De mostarda Abelha Depois da bala Abelha Em seu horário Não acha pão doce


41 Disse que eles nunca se beijaram Papel laminado Estilete Telefone Coxinha de charque com catupiry Brigadeiro bolão Band-aid Sundown Pão Pão? Que nova cidade saiu das mãos? Que nova carta? Tratado? Que novo poeta? E mais esse mar Que sai do mar e lixa e enxágua Incinera as toalhas e encera Sopra até restar somente a rocha O mesmo Ou depois Um dia mergulharemos Na terra Materno gogó de ave que pesca Minhocas Bala ou pedras nos rins Geléia de mocotó Um dia Eu e tu


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Na fornalha segue a mágica Principia Massas pálidas Oclusas Virgens ainda Brincam de boca-de-forno Mojam Amadurecem Enquanto lá fora o papa-figo Relógio Na luva Pacatamente olha Enquanto Lá fora Choram as velas Ele racha O pão de Santo Antônio na farinha de mandioca Não engorda Adormecido de água e sal e nuvem Bolacha sete capas Hóstia A bala Do pai Waffle de abacaxi Tutti-frutti Adormecido de água e sal e nuvem Perdeu Perdeu


43 Pro trigo Playboy Perdeu Assistimos algemados Na hora do céu Na pedra Deitados Eu Tu Playboy Salsicha Doce de leite Misto Presunto Queijo Pão de fôrma Misto Frio Molho madeira Bechamel Marshmallow Colorau Misto Frio Na tua padaria Quem distinguiria o chamado Do arauto


44 Nem a Internet Essa puta Gravaram uma música que fala de tripas e fermento E tem algo de sensual Mas também escreveram um livro No final Quem comporia Hit na Avenida General Polidoro Naquela padaria mais ou menos Mais ou menos naquela Padaria Quem marcaria Assassinato ou casamento Meia calabresa Meia muçarela Meia à moda da (boa) casa É tudo pizza No final Construíram dois prédios gêmeos E nada medrou na cidade Troféus do desamparo Tiros ao céu No final Construíram dois prédios gêmeos E somente ficamos mais Pequenos


45 Construíram dois prédios gêmeos Eles morreram No final Mais auspicioso é o fermento Transportado Pelos urubus Que polinizam os sobrados sinalizados Sinalizam os mocambos polinizados E atraem tubarões aos chás dos leões Senhores Das Palafitas Tá tudo dominado Rio Mar Cão sem plumas Cão sem sombra Cão sem chão pra ter onde roçar o pinto Mar No engenho A farinha brota das dobras das mãos Olho d’água resistente à graça feminina do trigo Paladino Ela não quer ele Rapariga E ainda crêem ainda naquele destino Retirantes da secura Das delícias


46 Expedicionários de fantasias cozidas E ainda crêem ainda O coração gira o mosto da cana-de-açúcar Saído das caldeiras Das pedras O rio Que rebate nas paredes de lama E às vezes transborda Cospem um mel de cavalo sobre a terra Temperada Ainda A água de mar que protege a pele E escapole pelas vistas sem memória marinha É a dor jazendo A dor das pedras pessoais Bocejo do dificultoso manejo de existir Inexistido E a massa curtida É ainda ofertada à divindade de gesso Sob a eterna mira No coração Todo santo dia Inexistido E nunca dá pra regressar Já que o final É igual É o mesmo que Sentado na congênita cadeira de vime


47 Contemplar a paisagem natural Suavemente modificada Em suas pedras Mas Ocultamente transformada Em suas rotações habituais Como um zumbido Que diz que o tempo e a pedra não existem Não devem existir Simplesmente porque nunca acabam E são o que existirá de mais poético por aí No final Mas nesta cova só cabe um ou dois Sonhos Enquanto nos entulhamos de botões Palavras E poemas No final De nada vale um ou dez poemas No final Pode escrever O retirante pede mais um copo d’água Usa as mãos aradas Quase esfarinha o moderno objeto de vidro enguiçado entre as rochas Pede mais um copo Come Agradece Veste o chapéu e volta


48 Pra casa Chiam as brasas Regadas Como quando cochilam e chove Dentro da fornalha Porque água não é de sua condição Suam sumos sais Quedam lisas e perigosas E então ressecam Como o sangue que empoa os tubos de suas asas de terracota Vira e mexe reciclam tesas, pardas e gloriosas Como a vida E o rio É passado por todos esses curupiras E o rio No final E os bebês que mataram Moisés e Maria Lúcia É passado E os bebês que mataram Moisés e Maria Lúcia Fizeram um novo dia De cenas requentadas Em boates Asilos Incêndios Revelaram a identidade do assassino Nos cinemas Nas favelas


49 Nos cinemas Em Manhattan Um caroço extra no fim da pipoca Uma muriçoca Me olha E um nariz francês no corte da porta É ele E não parto O pão que o Diabo amassou Com as minhas mãos No final Um segundo Qualquer dia acabaremos pescando no mármore Perninhas flamingas Como raizezinhas de plantas criadas pela água Qualquer dia acabaremos pisoteados pela brisa Romântica E por batatas Um segundo Um segundo Qualquer dia ninguém agüenta Um minuto Como são lindos esses assassinos Os donos dos pães E dos ovos Estandarte de ouro Riacho e foz


50 Espeto de coração Farofa Pensa rápido 1, 2, 3, 4, 5 Toss, toss, toss, zzzzz Esse camarão é do sertão, puta Qualquer dia ninguém Morre Treme a mão original Como a mão De um negro Na Guerra Do Exército Brasileiro Levada à floresta negra A bala Pela correnteza A bala Levada à floresta negra Na parte funda Topou com ela Viveu e morreu para a vida e para a morte de Maria Lúcia A bala fecunda O tempo em que viveu Por Maria Foi por toda uma vida Curta


51 Mas sem curvas E assim peleja o amor Não este Mas este Que não é palavra de poeta Vagabundo O amor Que não é para alguém vivo Eles A bala de fogo De buraco em buraco De um morto a outro A bala de Luto A arma também latiu Um pouco Viveu as ardências do abandono Chorou Estripada Partida Mais uma vez aleijada Ficando um vulto saqueado e amoroso Sobrando somente uma mão de cabelo E o colo Como ocorre às mães Então foi o amor à padaria Quer dizer Debaixo de duzentos sóis


52 Ele foi Comprar pão Resistiu ao suspiro Ao bolo De goma Romeu e Julieta Moisés e Maria Quer dizer Tem o assassinato No final No final Quer dizer No final No entanto não assistimos à vida e à morte da flecha emplumada Não assistimos a nada Nem joio Nem trigo Nem existe assassino No final Quer dizer No final A quem interessa Quer dizer Se Maria amou Moisés Se Moisés amou Maria À bala


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O assassino Nem existe assassino No final Foi a única testemunha dos nubentes O padrinho Quer dizer A quem interessa No final Esse é o pão nosso de cada dia É o fogo silente Feito à medida da lua maior A capa do mar O broto de erva borracheira O caju E a serpente Como no Gênesis E os bíceps marotos encaçapando sementes Nos úteros gélidos de voluptuosos edifícios E seus vampíricos Sorrisos Nascidos filhos de pais irmãos Ferozes Como o que de tão Natural Criado num instante de embriaguez pagã Crescido sem pêlos Comendo as suas próprias ceias execradas É o nosso mais cordial ideal Dá-nos bom dia


54 O pão nosso de cada dia A bala de açúcar envereda-se pela língua agra Musa esvaecida Jaz na alma Agora No final Moisés lambe a ponta do lápis Desenha caricaturas De todos os homens Lista ordens Tonalidades classificatórias Graus de relevância Faz cara de homem Como tantos homens fazem Morto Parece um jaboti Deitado no jardim das delícias Tábua de pirulito Baralho Dos pontilhados sangram açudes E pelas bicas Fibras brunas Armam-se em guarda-chuvas Catapultam Cerejas Sagu E almas penadas


55 A mulher febril que habitava as ostras Hoje anda por aí doida Desabrigada Sem expurgar do corpo os algodões involuntários Que seguem pesando-lhe As esquinas Atiçando o paladar de toda escória de bicho Roendo-lhe o juízo E a faixa cingida de Garota do Capibaribe Foi a bala Foi ela No final Hoje ninguém mais tem paz para pensar nisso Melhor entrar num site A enfrentar o leve toque de deixar-se conquistar Pelo mistério Este Ontem mesmo ela me pediu um copo d’água E uma muda De Roupa E então esguichou Pelas saídas Um suco espesso Caramelado Cheirando a Capibaribe Ao rio dela Ao Que transbordou


56 No final E Não só ela Tem hora que me aparece uma pá de outras mulheres verdes derramando rio Toda raça de homem No final Um crioulo Um seda Um doce Um carteira O do doce Aquele outro O da goiabada Um bolachão Trezentos gramas de floresta E todo o resto No final Amanhece Paira um pêndulo grávido de pão Entre as orelhas do cachorro grávido de minhocas Ele acorda Ele passa Na calçada Não passa A fome do cão Cachorro Não vira cão Quando


57 Amanhece Latidos de cachorro Ouve o cachorro No final E nada enverga os barrocos cenários da padaria Castelo de óleo de baleia Saliva e farinha de rosca No final De rastros Os fiéis saqueados Invadem Seguros em esporões de santos E fins de chifres Mais corpulentos e numerosos Por toda a fome Alcançam o altar da Padaria CDU Provam Do coração de Moisés Repartem em bifes magros a capa super-heróica Que rebentou das pás E cobriu o corpo de Maria Lúcia Decomposta no chão Parada Dourada Como é dourado o amor feminino Batom cor de pele Movediço


58 Selvagem Óleo De lábios ateados Pão francês No final E toda ternura às moscas Assa Na varanda ensolarada do asilo Na pedra da ostra Agora A violência é no quilo Pesa mais que a Terra Quando a Terra está desabitada Aqui Quem manda é o francês Batizado No mesmo pedido Todo dia Educado nas ostras frescas Francesas No quilo Cada vez mais onerosas Peixas Ratas que sobem as saias Em cima da mesa Na presença Do dono e da dona da casa Donas


59 Recife está no mar, afogado O rádio A televisão Assassinato e supermercado Queima Dizem que Queima Mas queima No mar No final Queima O Cão sem Plumas sem plumas Morre a Morte e Vida Severina Vê Aí Mas a poesia Mas ela Ela Quer dizer Belisca Às sandálias do verdume nublado da praia Mas ela Queima Ela vira e revira os croquis à tábua redonda É um cão-guia Cego Que nos lambe As solas E nos acorda


60 Toda manhã Vê Aí Orgulho recifano Folclórico instinto mineral Coração praiano Cabeça de nêgo Purgatório Caldeirão de caranguejo Bisão gravado na pedra O nariz tirado de Joaquim Cardozo Por pura tiração De onda No final Manuel Bandeira Valmir Jordão Rios lançados no mesmo esgoto Radioativo Leo Zadi Gilvan Lemos Helder Herik Adiel Luna Cida Pedrosa Almir Castro Barros Delmo Montenegro Criaturas do ovo quadrado Respiram


61 Com elegância Na pedra Engenhos mudados Ferrões nos dedos Barbatanas de ave Escamas de poodle Às vezes até falam de amor Vê Às vezes morre a morte Esquecida Ofuscante de esquecida Manuel Bandeira Leo Zadi Valmir Jordão Gilvan Lemos Helder Herik Adiel Luna Cida Pedrosa Almir Castro Barros Delmo Montenegro Rio Um dia Acaba E outras estátuas chinesas De Ana Das Carrancas Ora um fotograma dum rio Ora Barreiros Ora Barreiras


62 Ora o espinho de laranjeira Toca a película Deflagra Um novo rio Quando amanhece Um copo d’água Pede um taco de bolo-de-rolo Um saco de nêgo Bom De colar dentadura Quando amanhece Todo santo Dia Na ponta da mesa ruminam times de homens Mascam e descartam à fogueira Os ossos As cartilagens As cascas As sementes Cinzas femininas mínguam na feitiçaria do fogo Enquanto eles enxugam as mãos E fecham as janelas Para a sesta A fogueira Esta Elas Na padaria Vê


63 Aí A fogueira Esta Elas Toda casa Cheira a pão Vê Aí Tora curva galho canela serra maçã moída chambre cela doméstica Pão Vê Maxixada Chambaril Quibebe Caldeirão de peixe De coco Com pimentão, cebola, coentro, tomate, extrato de tomate e azeite Aquilo E coco Ela Chora e água as suas flores cáusticas Úlceras De coco Ela Essa charque é de carne de cachorro Mas Ela


64 Aquilo No final tem o assassinato De coco O sangue expulsa o piso encerado É a velha farda As dragonas Fêmeas místicas Abatidas para a fome dos coronéis Donos de todas as almas E de qualquer desalmado Eu e tu E seus fiéis desnudam-se Dobrados ao retângulo da fornalha Transpiram sem chiados Ouvem Apenas O arrepio das bandejas Amadurecem como os pães no fogo No engenho Do pão Vê Aí Eles E os pães Quando sozinhos São desplumados de sentido Pedem a chama da vela


65 Que adeja presa Mas Queima Necessitam da manteiga Da chibata Ou de uma declaração de guerra Eles E os pães Nus Crestados Maquiam-se Se suicidam Fatiam-se à saliva dos coronéis Eu e tu No final Vê No final tem o assassinato E Tem o assassinato Aí Na padaria Os nossos defuntos zombeteiros continuam em posição Cosem argumentos Filosofias Sacos de pães em pontos de cruz Roteirizam os debates que refrescarão os próximos dias Mais vivos No final


66 Aqui Tudo é sem chuva A chuva é um erro É água Aqui Moisés e Maria Lúcia E o irmão que morreu Semana passada Do incêndio da favela Moisés e Maria Lúcia Filhos de chocadeira E o filho que morreu Semana passada Do incêndio da favela É o fim No final É água É o Diabo É culpa do Salta-pra-trás Da droga Bufada de touro Patas de pólvora Beija o cotovelo Salga Emplasto de babalorixá enfezado Pipoca Chama


67 Mingau Sangra um sangue no livro Pirão de buchada Cocada Mungunzá Sangra Foi Deus Quer dizer Foi Deus Só foi Eles Dois No final A blusa que esse cara veste E a máscara Tingidas de pedras do mar Mudam de cor Dependendo do sol que dá Ele Um real Um Derby Lan house Caveiras vendem algemas na Internet Pra que a fé nunca acabe No final Pra que a fé nunca acabe Mesmo sem arte Ou Saudade


68 Sonhamos o sonho De um dia ser o destino De um Tiro Um Na cara Ou O risco de uma peixeirada No bar Ou A erva de uma enxadada Um dia Por causa da cachaça Da mulher Do amor Da mulher Da vida Por causa da morte O tiro Pelo tiro E A violência Mesmo que o avião caia E A violência Não dá pra ter outro filho Sem tirar o tiro da cabeça E A violência


69 O cão atropelado caiu da mudança Ele não Viu ele O cachorro frita os fatos no asfalto E isso é maior Que a minha Padaria No final Salve! Ponto comercial Que negócio é esse? Conto comercial Que sambada é essa? Poema policial O jornal falava VIDAS ABATIDAS NA PADARIA No final Salve João Cabral! Que negócio é esse? A fera rasteja sob a ribalta da biblioteca Mastiga tênis velhos Expele breves desapegos humanos Velha como os velhos Mais velhos Como a arte E a natureza A fera rasteja sob a ribalta da discoteca


70 Come geléias Rãs O Rio Ledo Ivo Ruben Fonseca J G de Araújo Jorge Paulo Scott Paulo Coelho Come pela beirada Deixa crescer A parte mais importante E quase sempre floresce No final Na padaria Abastece o sushiman Compra o Spiderman Narra histórias delirantes como a do cemitério de luas no Carimã Na padaria No final Na padaria Sobrevive a uma batida de carro Trata o camarão Viaja à Olinda Mija álcool na fogueira narcísica No Bigode No Cavanhaque No Bar Bicha Conta memórias futuras De um sertão encantado


71 Universitário Na Casa da Moeda Convertem valores Na Casa da Rabeca Na Fundação Joaquim Nabuco Choram pelo francês Choram um choro filmado pelo francês Depois vão alimentar Um chopp Hoje é mesmo um dia todo especial É que não sei Se ele é um gay em pele de homem Ou se é um homem em pele de gay O cordeiro No final Este é aquele mundo Que escolhe o feijão O preto Mulato Branco E que escolhe o pão Fresco Este é aquele mundo Que nunca comeu o feijão Da mulher e da família da mulher que come feijão E ela disse à repórter assim Que ela e a família dela só comem feijão


72 Comem feijão do dia que nascem até o dia da posse Ela deu a repórter Feijão Porque ela e a família dela só comem feijão Com farinha Este é aquele mundo Que come o feijão Dela No final Mas a padaria já fechou Foi um tiroteio que teve No final Hoje é mesmo um dia todo especial Este é aquele mundo Do cachorro Que é mais importante que ele e ela No final Este tempo fica tudo Empoeirado Poeira de corpos assassinados Eu e tu Poeira de corpos assassinados A draga ara a escuridão do rio Ossadas e perucas laçam a prótese da máquina Que atira sobre os shoppings Todas essas jóias garimpadas No final


73 E a brisa traslada o pó tóxico Que logo é pesado em sacas De trigo Abastece a padaria O suhiman Spiderman No final Pra quem Viaja O sertão é severino E um poeta russo E um ator cubano E um filósofo americano E um poema bacana Que viaja Pra quem Mas secou a cana Da Mata Sul E secou a cabra Das veredas sertanejas imaginárias Mas Pra quem Viaja A literatura existiu e ainda existe E a vida De modo que ela não é nada sem pão Sem plumas


74 E é a mesma Vida Hoje é mesmo um dia todo especial Vê Vê Esta é a dor mais violenta dela E é a mais prazerosa Como abreviar uma vida tardia Num rai cai Sobre o pecado Vê Nunca nasceu poeta bom Nem ser humano Saudável A nobreza da arte é um selo alfandegário Ela é tão nobre E indispensável Quanto eu e tu Vê Vive Morre e reencarna Faz machadinhas de pedra E palavra pra poeta Se vinga da falta de sorte Como eu e tu Vive Nunca nasceu arte


75 Boa Como nunca abriu uma carta A poesia No final Somos os criminosos De fato Seqüestramos Ela Numa tardinha perene Enquanto brincava entre as raízes externas duma árvore Sem frutos Vestimos-lhe a focinheira Atamos as mãozinhas ainda tomadas por formigas pretas Negociamos o seu corpo à margem Da estrada E ela sempre cede Sabe o número de passos e o um e dois necessários ao ato Sabe que nos acabamos no um e dois Bem trabalhados Silenciosa como uma pedra Olhos quase que por completo cobertos pela água De pele de ninfa Ri Não ensaia qualquer reação Ri Quando os demônios espetam-lhe a carne singular Bagunçam-lhe as sementes E descartam-na embriagados por uma ou duas horas Enfim Alimentados


76 Livramo-nos daquele inseto sem peitolas e ferrão De volta às suas raízes Para que lhe renasçam as formigas E lhe renovem o açúcar É assim Toda tarde No final No entanto No dia em que a luz negra Se dissipar E se entediarem de jogar o jogo de modelar esferas Ela será a única a assistir ao desfile Do decrépito cortejo Que Antes de se despedir da platéia de um par de botas Sumirá entre as dobras incertas Da realidade E era só ela No princípio E o universo Um tanto desapontados No entanto dispostos e experimentados Para mais uma vez testemunhar o tiro No final Mas Um pouco antes dessa corriqueira experiência Ela também Ora Essa besta


77 Na Padaria No final Tem o fuzilamento De latas de óleo de soja E de umas duas Pessoas A invasão da bala estúpida Nela Maria Lúcia Mosca De pão Choca nos olhos de espuma Um grão Morta De todas as mães E de todos os filhos Depois do garfo No final Vez ou outra pousam esses pães encharcados Na cidade Serpentes e condores Lêem mãos Cantam hinos alegres Operam cegueiras de velhos Batizam crianças ilegítimas Colam nos outdoors Vendem Ganham


78 Vez ou outra eles caem Dentro de tigelas De leite Vez ou outra chove um leite Plasmado em pão Seringado na saia De festa A velha tinta farejando novos ralos Vez Ou outra acontece Isso É Deus Que vez ou outra não comparece E Deixa deixado Fica com má fama Ele A ferrugem assumindo o serviço Daquilo que seria pessoal Da fantasia E Deixa deixado A matéria evadida Lenços desalinhados Grades empenadas Porões exorcizados Na Ponte Do rio


79 Vez Ou outra acontece Um Suicídio Vive assim Ela Vive assim Também já cravou as unhas O mosquito funesto Nas veias Dos engenhos de Barreiros No Rio Formoso No rio emplumado de Porto De Galinhas Onde se fabricam ovos ocos E usam-se pílulas Na volta Cheira-se pólvora E abortam-se cogumelos No final Mas Na partida Ela sempre estará lá Na esquina Três metros de altura Na juba do leão Todo domingo solto na Boa vista E por trás da Boa Vista


80 Cuspindo bolas de canhão contra pontos de ônibus Frevando Comemorando o gol preto e vermelho Brincando de polícia e ladrão Vive assim Ela Às vezes Corações que decidem parar pra pensar Implodem Deitados em camas de hospital Vive assim Ela Faz umas duas semanas que De tardinha Passou uma guerra por aqui sim senhor Eu vi ela no Final Ninguém resiste à cereja Do floresta negra Nem ela Nem ele Nem ela Nem ela Nem eu Nem tu Pode se escrever uma razão Vez ou outra vem


81 Moisés sofria de sangue doce E é assim Que agente vive No final Moisés e Maria Lúcia sofriam Amanhã No final E eles morreram e não souberam Que já haviam se cruzado Tocaram os ombros num ônibus E resmungos Suados Carregaram o revólver Mas ainda Não havia Escritor Porque ainda não havia Sangue Pode ser que Maria Lúcia e Moisés Tenham batido as botas Não pela bala Mas pelo revólver Do ônibus Morreriam Sem livro Quem sabe No final Só não pode escritor morrer sem livro


82 Se não No final É céu No final Mesmo sem pão Anistiaram sentimentos proibidos Marcados a ferro e fogo De outra literatura No final Quem sabe um dia Quem pode saber Quem sabe um dia No final E aquela criança expatriada Carregava Pode ser O temporão Um velho Ela Por onde brincava Vigiava o irmão mais velho Meio maço de cigarros vermelhos no elástico da saia Ela Era seu Acompanhante O amigo imaginário Da mãe morta


83

E o que há de sangue na água E o que há de água nessa história toda E o que há de história e sangue em toda água e todo amor Imaginário O filho em fuga Pula de carro em carro Salta de prédio Em prédio Na infinita avenida Do alto avista colunas de automóveis Como peças de um dominó Abandonado Sendo atacadas por caóticas Pulgas Sente a calorosa mão da morte tocar-lhe A mão usual Rapidamente desvencilhada Voa ao seu lado uma brisa emancipada De um rio esquecido E Por fim Salta a ponte adunca Chega A Camaragibe Pela primeira vez o filho Longe da mãe E pelo seu desejo e medo


84 Pela primeira vez ele Sem ela No final A morte noutro quadro fenece Como uma rosa fenece À noite E volta Como acontece com a noite e com as rosas Ao meio-dia ou em seu horário Quando ela aparece Sempre some Alguma coisa da casa Fantasiada de morte ou de capuz preto e rosto pálido Ela vai E volta Noutro quadro A jangada do parque Drácula Roda-gigante Floresta Maçã melada Não sai Da mãe Apesar das meninas Apesar do cachorro E dos filhos Nada via Além do animal solto


85 Acelerado Debulhando as ataduras das pistas Besta camuflada num ventinho tão fresco que nem existe Fogo refletido nas lágrimas do rio Buraco de prego Com o prego O filho voou De carro em carro De prédio Em prédio Como um sonho de macaco de circo Estirado Na pedra Abraçado ao santo da mãe defunta Em fuga No final O Menino-Aranha Enlouquecido e desarrimado Deu Por fim Pra assaltar potes de biscoito Boinas de soldados Discos voadores Sinos Livros de poemas E apartamentos altos Um dia Já com os dedos multiplicados Por assombrosas crostas De teias secas


86 Mas ainda antes da idade de se entregar à alquimia Da paixão Por uma heroína de carne e osso Foi morto Por um bom cidadão Numa tarde impúbere de sábado No final No final Atenção Isso é um assalto No final Duas armas Uma falsa sob a camisa queimada De Omo E a outra Dois Três Cinco Sete E o peso da penugem natural no estômago Do fungo nas patas Nos cornos Da bicheira derramada das costelas à prega Das orelhas O peso da inteligência tinhosa Catada Na orla Debaixo da ponte


87 Pescada Do corpo decomposto do rio E o coro lamentoso das suas almas Empilhadas nalguma Garagem Que Com o tempo Se afixaram como carrapatos anchos Em seu coração O cão entrou na igreja porque a porta estava aberta No final A flecha emplumada leva uma pétala Do seu maldito martírio Mas O seu corpo irredimível Domesticado na violência desse ganha-pão Regenera Sem doer Cada amargura atirada E garante um bom domingo Às novas É a vida Da bala Aqui No meio Aqui No final Devota


88

É a vida No meio Não me mate Tome Por favor Pode levar tudo Pegue a chave Era só uma piada Por favor Abaixe a arma Feche os olhos Agora Feche os olhos Agora Feche os olhos Por favor Não me mate Padaria CDU Está tudo bem Está tudo bem assim Vamos continuar Não podemos falhar No final Maria Lúcia menstruada Pela última vez Ao vivo Latas de goiabada


89 Iogurte Quetichupe Mais de dez tiros Uns catorze tiros Um fio de espaguete resvala da boca viva Solteiro na outra ponta Quer dizer Não havia essa história Mas a padaria destrata as suas marionetes No final Padaria CDU O cardume vigilante já renunciou à fome Hoje não Tem pão Nem tem brioche Ninguém come Nada Depois da morte Hoje Saqueadores Atentos às mangas Dos mágicos Alvas como as de um médico Imaculadas Nuas Sem mágica Sem mistério Chapinham na padaria proibida


90 Essa merda de trabalho de fazer desaparecer gente É massa No final Balas de prata Pingos de ouro Batata Rufles Badalos Luzes estouradas Roncos Tiros Miados Paixões consumadas Por ali Depois da morte É assim No final Quer dizer É assim No final No final Moisés foi à padaria Da Cidade Universitária Disposto ao floresta E Maria Lúcia E o filho Com a revista do herói Depois veio O tiro Depois vieram homens


91 Mulheres E crianças Cheirando a margarina Lavanda Beliscões E coitos interrompidos De olhos fermentados Desterrados Do calor Da fome Do desgosto Rebanho condutor de redes Elétricas No lodo Nascendo a toque de caixa Estamos mais pra Girinos Ou Urubus No final Estamos mais pra poesia Que pra poetas No final Em preces urgentes Através dos muros Nas calçadas Pelos bares Pelas grades Debruçados no fundo Do rio Sob a pedra


92 E Essa É toda história História toda é Essa No final


93

3. CÃO

O nome dela é Maria Lucia E Moisés No final Recém-casados Nem o buquê pra tira-gosto A fome passa Não É o que resta Jornal levado mesmo antes Do rio Levado Quem pode saber Coração caído na neve No final Eles estão aqui Desde o século passado Faz uns quarenta e sete Anos Já não se sabe O que é farinha de rosca O que é amor No final Um saco de bolacha


94 Soda E uma Maragogi E isso é toda a história Ela e ele eram irmãos As múmias Os padeiros No final Parece que viviam assim Os homens No final Ela e a feiúra Dela Uma exterminada e a outra fazendo bico Empacada De presença mineral E Etérea Ele sublimado sem método Sem trama Sem morte Sem roupa de gala ou de homem No final O exército de pedra Ao redor do templo Ainda expressa movimento Ao quadro


95

Disse que murmura Às vezes Entre os fósseis Um latido de rádio ligado Narrando uma partida de futebol Que nunca acaba Já que a voz principal é sempre abafada Por orações da torcida No final Disse que gemem Às vezes Cartas póstumas Advertem como são objetos Engraçados E como tombaram sem ensaio Explanam Essa pose imoral Os pêlos pré-históricos A tribal calada sob o arbusto As chupetas retesadas Segredos do corpo humano Empacotados Dizem as histórias Diriam que agora são felizes Quando morreram No final Ninguém mais os escreveria


96 Vivos Matariam de volta Que mira! Que tiro! Que mira! Sempre choro em cerimônia de casamento Dizem No final Porque paixão Querido Pode ver Pode escrever É assim Dá até pra fazer um churrasco Com a aranha E A moela Eu e tu Dá Quer dizer Nem tudo tá perdido Na prateleira resistem ainda umas duas ou três conservas viáveis Graças a Deus Certas coisas ainda vivem uma vida Quer dizer Espontaneiísmo desse contemporaneiísmo No final


97 A moela E Pra narrativa Conto de três linhas Conto de três sílabas Conto de três pontos Zero Zero zero Zero zero zero Embrulha no vácuo E pronto Dá até pra fazer um churrasco O que cabe aí Cabe nesses corpos devastados Cabe Mais de dez tiros Uma arma e um matador com crista e ciscador Cabe Um soneto Cabe Até a vida pegou ali Parece Mas Que mais souvenires? Que mais lucros sairão dessa peça Monocórdia? Pode ser que sejam atores de praça


98 Esse monturo Pode Um teatro sobre mudanças climáticas Pode Mas como engendraram o espetáculo? E como puderam eternizar a mais curta fábula ágrafa sobre o amor? Pode No final Mas Mas não é agora que vamos desistir da morte Se forem atores Eu mesmo atiro No final No final Ele disse É tudo propaganda financiada pela padaria Pode Moisés e Maria Lúcia se chamam, na verdade, na verdade, Sacha Silva e Taylor Manson Na vida Real No final Já pro chão! Os dois! Moisés! Maria Lúcia! Moisés Como é que tu chama? Hein?


99 Maria Lúcia Como é que tu chama? Repita! Moisés! Pro chão! Já! Os dois! Me passa o revólver Quieto! Porra! Quieto Quietinho Perdeu Playboy Atiro Aqui Atiro Aqui Atiro Aqui Rá! Chuta aí essa merda Morreram Chuta de novo Morreram Mais uma vez Morreram ... Morreram


100 Quem manda aqui sou eu! Eu Sou o dono dessa cachorrada! Passa! Passa!! ! Me dá o quetichupe Lambe Lambe, caralho! Agora é sangue No final Sangue como antes No final Uff No final Arte é artista Se eles estão mortos Devem estar mortos No final Eu é que não vou perder o meu poema, ah, não vou... Quer dizer ... Padaria CDU Tem o assassinato Mas


101 Ninguém aqui tá vivo Ninguém aqui Tá vivo Atire a primeira pedra No final Afinal É um tipo de arte E o faceiro cajado de Brennand É um tipo de arte E o desolado tubarão de Boa Viagem É um tipo de arte No final O homem De uma maneira ou de outra Procede do barro É a parte do cão desplumado Que segue o curso Do rio Pega impulso catando marisco Repuxando as tranças daquelas plantas Doidas Cadáveres mortos Que chafurdam na seiva do rio E enraízam-se de pernas pro ar O homem De uma maneira ou de outra Morre No final


102 O assassino João Cabral O assassino De uma maneira ou de outra O assassino As vizinhas Diz a lenda Fermentaram a notícia Propalaram predições de borra de café Fungaram o tabaco das balas dos machos Dormindo Tocaram com uma brasa de cigarro o leito Vulnerável E foi assim que encetaram o incêndio Que inundou esta cidade No final Ou foi o contrário No final É que elas são o fosso onde atiramos as nossas lágrimas nevadas E onde medra todo o trigo E todo o ouro do trigo No final Mas a padaria Amanhã É só jogar água Amanhã Destocar os fluidos das velas


103 Recolher os arranjos de lírios O bolo O vestido O noivo E a noiva E os juramentos perpétuos No final Os sachês de maionese Os sabonetes O atum ralado A salsicha de frango A cachaça O chiclete O pingente A broa sagrada O padeiro, o português, o dono da padaria, a mais grande bala entre essas que, vez ou outra, shlup! nas nossas testas, e que, vez ou outra, shlup! em livros nossos, Ainda dá mais uns cinco séculos Pode ver Pode escrever No final O padeiro arrota na lama Bate e talha Desenha o pão na massa Olho clínico Sabe a medida de cada tiro Ele apaga a fornalha Varre as cinzas


104 Da bata Subordinado ao ofício divino Dorme com uma arma Sob o travesseiro O carniceiro No final Agorinha mesmo, ele me ligou, sabendo que ocorrera uma desinteligência por estas nossas Índias, e segredou: Eu é que não vou perder o meu poema, ah, não vou... Ok Quer dizer Sim Padaria CDU No final Tem o assassinato Essas pedras baleadas Riscaram um isqueiro No fundo da caverna Essa nódoa enrugada Dentro da padaria Era amor Ou era o contrário No final Até hoje Ele e ela salvos e abrigados de palavra vulgar De poeta


105 Discretos Como é discreto um assassinato Na padaria Retraídos, miúdos Como são miúdos os versos dos vencedores Dos heróis Acanhados como a felicidade plena Como um beijo No final Deste modo Já que não temos documentos escritos Sobre o caso E o que resta é esse brinde de cachorro No passeio Sejamos prudentes Enquanto é noite e não faz tanto calor Ninguém nos viu aqui Você não me conhece Nunca foi nossa essa história de assalto E morte No final Tem o assassinato Tu já sabe No final No final jkfb Escritor tem dedo fraco fkjvb


106 Por qualquer ,hbv Rabo de saia jnbv Já carregamos uns versos nkbbvd Apaixonados ebfv Rolamos petreamente submersos kahevfb Narcotizados chf Pelas tintas wakhbvc das palavras No final Quer dizer Rá! Rá! Rá! ... ... Rá! Rá! Quer dizer keqhbf No final E aquela Padaria é espessa Como a poesia é mais espessa Como o velho é mais espesso Como o amor é mais espesso Que um poema


107 E o poeta É como um cão sem plumas Rouba a fruta Da folha seca E o poeta É como um cão sem plumas Alma ladrona Baba aos pés da grade Lambe a própria intimidade E o poeta Moisés e Maria Lúcia Falaram No final Agora somos o alvo No final Já comemos o pão No final Tem o assassinato De quem Não dá pra tergiversar No final Foi um tempo perdido Mataram No final No final


108

Nada acontece No final Padaria CDU No fim Acaba E No meio Emplumam-se todas as verdades que fogem, como o Diabo foge da cruz, pra longe de toda página No final Tem o assassinato Eu e tu No final No final Tem o pano vermelho e o alívio da platéia vermelha No final O jornal falava TEM O ASSASSINATO NO FINAL Ninguém veio ao mais baldio sepultamento Só as lágrimas do coveiro Logo atacadas pelo espesso tecido da farda Só elas Essas cajazeiras


109 A despeito da feliz imagem daquelas almas Se despedindo de tantos figurinos confusos No final No final Só as lágrimas do coveiro Que saltam dos poros e oportunamente refrescam-lhe um pouco Qualquer dia ninguém agüenta mais esse calor No final Disse que logo depois do enterro Já no início da Noite Assaltaram uma padaria Na CDU Disse que atiraram num cachorro E numas duas pessoas No final Tem o assassinato No final Pode ver Pode escrever


Padaria CDU  

Poema pertencente à Decalogia Ladrona.

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