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A vida versátil de Junicélia: entre o campo e a cidade

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Ano 7 - nº1337 Julho/2013 Encruzilhada

A vida versátil de Junicélia: entre o campo e a cidade A ROTINA de Junicélia Silva Melo começa cedo, e é bastante movimentada. Durante a semana, ela começa o dia preparando o café dos filhos Rainan, Maria Angélica e Renê, que vão para a escola. Depois, passa a manhã cuidando da casa, das hortas que cultiva ao lado da cisterna calçadão construída no quintal, e frequentemente sair para cuidar dos assuntos da Associação de Moradores de Água Preta e Região, da qual é presidente. Célia, como é conhecida, vive na comunidade Lagoa de Inocêncio, na zona rural de Encruzilhada, com Valdinei, seu esposo, e três filhos. Ela se divide entre a casa na roça e a sede do município, onde trabalha a noite como auxiliar de serviços gerais em uma escola municipal. Nos intervalos Célia colhendo alfaces para o almoço da família ainda encontra tempo para ajudar no trabalho da Pastoral da Criança, participar da Comissão Executiva Municipal da ASA (Articulação Semiárido Brasileiro) e nos fins de semana cuida do “Bar das Primas”, que abriu em parceria com a prima. “Eu abri o bar junto com minha prima, daí o nome. Mas como eu prefiro ficar aqui na roça, a gente só abre nos fins de semana, pra não tomar muito o meu tempo”. Antes de viver em Encruzilhada, Célia e sua família viveram em duas capitais, São Paulo e Salvador, mas não guarda saudades da época. “Era complicada a vida, porque a gente só vivia pra trabalho e casa, fora isso não tinha tempo pra fazer mais nada. A recordação que temos não é tanto de felicidade, e sim de tristeza, pois era muita violência. Ainda moramos um tempo em Vitória da Conquista, mas vimos que o que a gente queria mesmo era vir pra roça”.


A vida nas grandes cidades foi deixada para trás, mas as dificuldades perseguiram a família de Célia nos primeiros anos de morada no campo. “O começo foi difícil, eu vim grávida de São Paulo e meu filho nasceu doente logo depois que chegamos. Ele chegou a ficar desenganado pelos médicos, e só não morreu porque havia um raizeiro por aqui, seu Sena, que deu um tipo de 'chá de garrafa' pra ele e em quinze dias ele já estava melhor, aguentando se vestir sozinho e tudo”. A falta de água foi outra dificuldade a ser superada. “Meu marido arrumou emprego em uma fábrica de café aqui da região, mas ainda sim chegou um momento onde pensamos em ir embora, por causa da falta de água. Até uns cinco anos atrás a gente tinha que ir buscar água de jegue no Rio Pardo, o carro pipa trazia de vez em quando... só não desistimos de morar aqui porque saiu à notícia das cisternas de consumo que iam chegar”. Na época, foram construídas cerca de vinte cisternas de 16 mil litros pelo Cedasb (Centro de Convivência e Desenvolvimento Agroecológico do Sudoeste da Bahia), através do P1MC (Programa Um Milhão de Cisternas) na região. “Depois das cisternas, nós desistimos de mudar, e hoje já tem gente querendo é sair de Encruzilhada e vir pra roça, por causa das cisternas de produção”. Com a chegada da cisterna de enxurrada do P1+2 no final de 2012, Célia e seu esposo, que antes apenas plantavam um pouco de mandioca, feijão e milho, passaram a cultivar hortaliças. “Eu e Nei começamos a plantar as hortas, ele nem sabia cuidar direito e eu sabia mais ou menos, mas a gente foi aprendendo pouco a pouco. O curso que veio com a cisterna foi importante, nos passou várias dicas sobre o manejo dos canteiros, o cultivo. Hoje a gente produz alface, couve, jiló, cenoura, coentro, cebolinha, couve-flor, tomate, maracujá, pimentão, mamão, abobrinha, quiabo... tá servindo pro consumo da casa, e também vendemos pros vizinhos, eu levo pro bar e eles procuram pra comprar lá também. O recurso que vem da horta eu compro o que falta na alimentação da casa, e dou um pouco aos meninos levar pro lanche da escola”. A independência de Célia no dia a dia no início causava estranhamento nas pessoas da região. “É complicado porque tem gente que ainda tem dificuldades pra se acostumar com o meu jeito extrovertida. No começo meu marido estranhava um pouco, mas hoje ele já está bem acostumado ao meu jeito, a minha independência. Eu sou 100% o que eu vivo, e sou feliz desse jeito. Minha sobrinha Raiane às vezes fala assim: “pai, quando eu crescer, quero ser igual tia Célia viu?”


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