Uma história de organização e luta pela terra: a experiência do Assentamento Menino Jesus O ASSENTAMENTO MENINO JESUS é uma experiência de organização e luta das famílias agricultoras de diversos municípios do Semiárido baiano que nasceu da luta pela terra. Situado no município de Água Fria, acolhe famílias vindas de outras regiões do estado, que se organizararam a partir do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e conquistaram o direito à terra, à educação, ao transporte e hoje produzem seu próprio alimento. Mas a batalha pela água para produzir e para beber ainda precisa ser vencida, como conta alguns moradores que conhecem essa história desde o princípio.
“ Esse assentamento iniciou dia 20 de dezembro de 1998, por isso se chama Menino Jesus. Tudo aconteceu quando chegou a Serrinha um grupo de militantes de Santo Amaro que recebeu apoio na cidade, foram para a Comunidade Bela Vista. Na época eu era dirigente do grupo de jovens. A minha intenção era só ajudar, mas quando teve o dia da ocupação, a gente veio junto por que ninguém sabia onde era. Quando a gente viu a terra, a forma como era organizado resolveu ficar. Quando eu retornei em casa foi só para pegar as coisas e voltar para morar, construir os barracos, dividir as famílias por setores. Nós tínhamos diversas crianças que vieram na ocupação, descobriram que eu era o único formado em magistério e me pediram para fazer as turmas. Junto com Eliana, que veio de Salvador, começamos a luta pela educação. A educação é contextualizada do campo, mais ainda não tá da maneira que a gente queria, pois temos um sistema que trava as coisas, por mais que a gente lute. A gente vem com muita dificuldade buscando se organizar, mas também já tem muitas conquistas. Quando encontramos essa fazenda aqui eram 13 mil hectares de terra, somente com as árvores, quatro vaqueiros e algumas casas abandonadas. Depois disso a gente começou a conquistar as coisas através da luta com prefeitura, com o Estado. Aí fomos atrás da questão da energia, estrada, posto de saúde, escola, através das machas, ocupações no INCRA, órgãos públicos e não para por aqui, tem muito que conquistar, a luta continua”, segundo conta Vangilson Ferreira Bispo, natural de Serrinha e professor no assentamento.
Seu Valteir Pereira Costa conta que veio ao assentamento para contribuir com a organização, mas gostou tanto que resolveu ficar para morar e produzir. “Vim pra cá para ajudar os companheiros a se organizar e resolvi ficar e morar. Aqui em casa a gente planta de tudo um pouco. Eu crio porco, galinha, faço polpa de frutas daqui mesmo pra vender lá fora. A horta é para alimentação da família. Tem outras famílias que produzem alimentos aqui pro consumo próprio, alguns até vendem também”. Atualmente ele e as demais famílias moram em casas de alvenaria, mas no início viveram em barracos, que seu Valteir mantém no quintal de casa para guardar o feijão seco que planta.
A posse da Terra e a questão da água Vangilson lembra que ao chegar na fazenda não houve conflito com os donos da terra. . “Eles não conseguiam vender essa terra porque só tinha mato, ninguém queria comprar. O Instituto Nacional da Reforma Agrária (INCRA) ficou de pagar pela terra, mas foi aquela burocracia. Eles tinham interesse que o INCRA comprasse e ameaçavam despejar as famílias porque tava demorando muito. A gente nunca teve conflito, foi tudo pacífico, a não ser com os outros proprietários da região, que deixavam o gado pastar solto e acabava com nossa plantação. Foi dada a emissão de posse para as famílias, mas a questão da titulação da terra a gente não acha interessante. Depois que as pessoas recebem, querem logo vender. A terra é dada para a pessoa desfrutar, tirar o sustento dela e não para vender, nós somos contra, é uma terra para a pessoa ter seu chão para trabalhar. Nós estamos vendo a questão do PRONAF, poucas pessoas tiveram condições de cercar seu lote. A gente coloca que o ponto mais crítico dessa região é a água, tivemos muitos problemas, e por causa disso o número de pessoas já caiu, muitas pessoas foram embora quando a bomba quebrou, pois tinha que buscar água a 7 km. Agora tá surgindo essas cisternas, mas são 202 famílias, podemos dizer que mais de 50 por cento ainda não foram contempladas. O problema amenizou, mas não tá resolvido . A terra de produção tem o tamanho de 40 hectares e o lote de agrovila, onde temos nossas casas é 0,36 hectares”. Ana Paula Novaes, também é moradora, e lembra que chegou ao assentamento em 2003 e achou as coisas começando a se encaminhar. “A gente só tinha um carro que passava de manhã, se perdesse só podia vir a pé, hoje tá uma maravilha, tem carro até pra escolher. Na questão da água aqui não tinha cisterna, era poço, formava as filas de gente com o balde, quando a bomba quebrava era um sufoco, pegava água na cabeça, fazia racionamento. Por isso que vieram as cisternas do MOC e da CAR. A energia era comunitária, não era de cada um, o valor era muito alto, passamos um ano sem energia. Mas graças a Deus nós do MST temos o perfil de ir para a luta, a gente não para, a gente sai com um ônibus com 50 pessoas, passa semanas e cada marcha que a gente faz é uma conquista para nós. Temos pautado a construção de casas de farinhas, de mais cisterna, temos que correr atrás, nós temos a escola do campo e estamos nos esforçando para ter uma educação contextualizada. Tudo aqui a gente decide em grupo, num coletivo” diz com orgulho.