Ano 7 • nº1103 Agosto/2013
Anagé Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
Produção diversificada é resultado de planejamento e perseverança na vida de João Rocha PROGRAMAR e ADMINISTRAR. Estas duas palavras estão muito presentes na vida de João Rocha Santos, agricultor, apicultor e avicultor que vive na comunidade Pé do Morro, no município de Anagé, localizado no sudoeste baiano. Seguindo a sua filosofia, João cuida de sua terra desde cedo, procurando observar e planejar com cuidado o seu trabalho, desde o investimento inicial até a comercialização dos produtos da sua pequena propriedade. João nasceu e se criou em Pé do Morro, e criou sua família com Sirlei Rocha, com quem tem os filhos Jones, Laiane, Jó, Laís e Jonas. Seguindo os passos do seu pai, começou a trabalhar na terra desde cedo, mas sempre perseguindo o desejo de estudar. “A primeira dificuldade que eu tive que superar foi ir para a escola. O meu pai entendia que um filho de pequeno produtor não podia fazer ginásio. Com 21 anos eu tive que desobedecer às ordens dele e fui fazer o meu ginásio. Fui [estudar] em Anagé, e como não tinha transporte, eu comprei uma bicicleta e aí pedalava vinte quilômetros por dia pra poder ir e voltar. Isso foi em 1995, e eu fiz isso o ano inteiro”.
Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
A escola despertou o interesse de João pela organização comunitária, e logo começou a participar da associação de moradores de Pé do Morro. Com o passar dos anos, se uniu a outras associações e cooperativas, e ajudou a fundar uma escola família agrícola (EFA).
Sede de aprendizado e incentivo à formação do próximo Da mesma forma que lutou para continuar frequentando a escola, João batalhou para aprimorar o seu conhecimento e ampliar os seus horizontes na lida com a terra. “Eu tenho 42 capacitações, todas na área de trabalho do campo, no SEBRAE, EBDA (Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola), CAR (Companhia de Desenvolvimento e Ação Social), algumas capacitações particulares, como operador de trator agrícola, capacitações de associações, de cooperativas...”
2
Entre as formações conquistadas na vida, uma que se destaca é a de Agente Vacinador, algo que ele decidiu investir depois de observar a demanda existente na sua região. “É um trabalho que descobri através de uma demanda da ACOS (Associação de Caprinos e Ovinocultores do Sudoeste da Bahia), que eu participava antes e inclusive participei da fundação. Surgiu uma demanda pra capacitar agentes na região, e eu fui contemplado. Antes era muito difícil vacinar os animais porque só havia veterinários, mas hoje sou credenciado e posso trabalhar como autônomo”. O trabalho de João como agente vacinador é realizado com todo o equipamento, utilizando receituário e emitindo certificado de vacinação, tudo com autorização da ADAB (Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia). A criação da EFA de Anagé foi outra grande conquista na vida de João e de seus companheiros e companheiras de associação. A escola foi fundada em 2002, com a participação da maior parte das associações de moradores e pequenos produtores de Anagé, e João participou ativamente de todo o processo. “Já participei do conselho fiscal, depois fui
Articulação Semiárido Brasileiro – Bahia
pra tesouraria, em 2008 fui para à presidência e hoje estou na tesouraria novamente. É um trabalho voluntário, que tu tem que criar um tempo para poder se dedicar. É um movimento que eu simpatizei muito, esse da EFA, que eu nem conhecia, então eu faço esforço para poder contribuir. Temos muitas dificuldades, pois é uma entidade que não é autônoma, e como ela vive de parcerias, depende sempre de doações e contribuições pra poder se manter”.
Produção e comercialização Hoje João produz mel, ovos, cria galinhas caipiras, cabras e bodes, além de cultivar palma, que ajuda na alimentação dos animais, inclusive os bois e a vaca que garantem carne e leite para a família. A apicultura é uma atividade tradicional na propriedade. Desde 1999 João vem trabalhando com a variedade 'Oropa', tendo épocas boas e ruins na produção, devido a 3 influência da seca. “Já tivemos anos que conseguimos fazer 60 kg de mel por colmeia no ano, isso com 40 colmeias. Hoje não chego a 200 kg de mel por ano, mas eu nunca desisti de ser apicultor, e continuo contando com a condição do tempo pra gente voltar a produzir bem”. João enfatiza também a diferença de produzir mel de forma natural. “Tem uma diferença entre fazer e produzir mel, nós produzimos mel porque a gente não coloca alimento para as abelhas, e sim deixamos elas fazer o processo natural de buscar alimento. Assim, nós dependemos das condições climáticas pra produzir”. A criação de galinhas começou na época da criação da EFA, já que existia um plano para trabalhar com avicultura no plano de aulas, conta João. “No início eu produzia em uma escala menor, mas depois que eu busquei me capacitar na área, passei a produzir mais, primeiro os ovos e depois também com frangos. Criar cabras e bodes é uma paixão que vem desde os tempos de criança, pois o pai de João também era criador. Porém, com a criação da lei da “cerca com três fios”, que exigiu a criação dos caprinos presos dentro da propriedade, houve o abandono das cabras. “ “Eu tive que esperar crescer e ver se eu conseguia um lugarzinho pra criar. Em 2005 eu
Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
comecei só com um pouquinho ali no fundo de casa, e quando foi em 2011 nós conseguimos comprar uma propriedadezinha aqui perto, que eu consegui ampliar” João possui hoje cerca de cinquenta cabeças, em sociedade com o cunhado, e compraram, juntos, uma terrinha para receber a criação. Para suprir toda a família e a propriedade, existe uma cisterna de placas de 16 mil litros, que garante a água de consumo de casa, e uma cisterna de enxurrada construída pela ASA, além de um tanque, para armazenar a água da chuva.
4
A comercialização dos produtos de sua propriedade é feita principalmente através da cooperativa, por meio da qual João acessa o PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar). Por este meio é vendida a produção carne de bode, frango caipira e ovos para as escolas municipais de Anagé. Antes a produção também era vendida através do PAA (Programa de Aquisição de Alimentos), mas como conta João, houve alguns problemas burocráticos no município que dificultaram a venda por essa modalidade. Mas ele pretende voltar ao PAA, e faz estimativas do quanto irá receber: “A estimativa pra 2013 era de receber entre 25 e 30 mil reais, mas tivemos dificuldades com o nosso contrato, então pode ser que a gente não alcance esse valor. Mas com o tempo a situação se normaliza, aí voltamos a vender normalmente”, afirma com otimismo. O trabalho e a atitude de João é visto em todo o município de Anagé como um exemplo de sucesso na relação com a terra. Seu envolvimento com a organização comunitária e os movimentos sociais é um exemplo de superação das adversidades e contínuo aprendizado como ser humano, como ele próprio afirma: “Desde que eu comecei a participar de movimentos sociais, associações, eu aprendi a não reclamar das dificuldades e sim aprender com elas, porque quando você enfrenta uma dificuldade e supera, aprende com isso. Você deixa de ficar vendo o bonde passar, e vê que é capaz de superar qualquer situação complicada”. E alerta para a necessidade de planejamento na vida do pequeno agricultor e agricultora: “Se nós usarmos a capacidade que todos temos nos neurônios, podemos aprender a lidar com todo tipo de situação na vida, mas pra isso é preciso aprender a programar, a administrar...”
Realização
Apoio