Ano 7 . 1047 Novembro/2013 Grão Mogol
Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
Guardião da Agrobiodiversidade, cuidador da vida!
Cristovino Ferreira Neto cresceu vendo o avô e o pai guardarem sempre a melhor semente para plantar na safra seguinte. As formas de guardar eram várias: no paiol, no surrão ou na cabaça com a cinza do esterco de gado, a tabatinga ou a pimenta e na própria roça, com o milho dobrado. E eram muitas variedades, preservadas com orgulho. As sementes contavam histórias, carregavam uma prática centenária de utilizar as adaptadas ao solo, ao clima, à cultura do lugar, para produzir o melhor alimento. E ainda hoje é assim.
Cristovino é um gerazeiro,guardião do Cerrado e da agrobiodiversidade.
De uma forma especial, com extremo amor e consciência ambiental, Cristovino Ferreira Neto é um geraizeiro, guardião do Cerrado e da agrobiodiversidade. Pai de seis filhos, é morador do Assentamento Americana, município de Grão Mogol, Norte de Minas Gerais. Sua família junto com outras dez, criaram o Grupo Agroextrativista do Cerrado, uma OSCIP – Organização da Sociedade Civil de Interesse Público que tem como missão proteger e defender o bioma, através do uso e produção sustentável. Geraizeiros são os moradores das regiões de Cerrado, que é por eles chamado de Gerais. Guardiões são famílias, grupos ou comunidades que por profundo amor e compromisso com as gerações futuras preservam a diversidade da vida. D.Valderita, esposa de Cristovino, produz óleo do pequi, colhido no cerrado.
Cristovino e família tem com o Cerrado uma relação de profundo respeito e cuidado. Com sua prática extrativista, retira dele os frutos, a lenha e as plantas medicinais. Sua esposa, Dona Valderita da Silva Ferreira, mais conhecida como Dona Vá, retira o óleo do pequi e do rufão, este último, importante fruto do Cerrado de onde se extrai da sua semente um óleo medicinal que auxilia na cura de várias doenças como gastrite e dores reumáticas. “Gente da região toda e de várias partes do Brasil e do mundo tem experimentado o óleo e comprovado o poder de cura”, relata feliz Dona Vá.
Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
Articulação Semiárido Brasileiro – Minas Gerais
Como guardião da agrobiodiversidade, conserva várias sementes. Guarda 15 variedades de feijão, 02 de milho, 12 variedades de abóbora, 20 de mandioca, 8 variedades de cana, além de sementes de gergelim, caxixe, maxixe, quiabo, soja, feijão de porco, mucuna e várias sementes de hortaliças. Além das sementes, conserva raças de galinhas caipiras e porco caruncho. Como guardião do Cerrado junto com o seu grupo, mantém ativo um viveiro de mudas de plantas nativas e cultivadas nos quintais agroecológicos.Várias espécies podem ser encontradas como as nativas: pequi, panã, mangaba, cagaita, maracujá nativo, coquinho azedo e as cultivadas: acerola, jabuticaba, laranja e maracujá. “Eu sempre falo que conservar o Cerrado é muito importante, porque conservar a natureza é conservar a nossa vida, conservar a autonomia, a liberdade de ter e usar o nosso espaço para gerar vida”, afirma Cristovino. Ele denuncia que o Cerrado na região tem sido destruído de forma discriminada para a plantação de monocultura, sobretudo a do eucalipto.
O agricultor e guardião da agrobiodiversidade conserva variedades de de sementes crioulas.
Além das empresas, alguns agricultores têm plantado monoculturas, o que tem gerado desemprego, pois e para ele, “quem se iludiu com eucalipto vendeu as terras e hoje está sem emprego, sem terra, sem os recursos naturais como água, pesca, caça e os frutos nativos”. E o resultado para toda a região tem sido a destruição do Cerrado, a falta de água e de recursos naturais, o forte e prolongado impacto das mudanças climáticas. Às sextas-feiras, Cristovino sempre vai para o mercado municipal do município de Grão Mogol onde leva hortaliças, mandioca, além do pequi e frutas do Cerrado de cada época, além das sementes no tempo de preparo da roça. As mudas e o óleo de rufão são vendidas em casa e tem contribuído de forma significativa na ampliação da renda das famílias e do grupo agroextrativista. As conquistas avançam, mas os desafios ainda são muitos. “O principal para mim é a retomada do nosso território e com ele a preservação do ambiente e o resgate da cultura. Além disso, construir estratégias de conviver com as mudanças do clima e alternativas para a juventude continuar com a gente lutando no campo, acreditando no agroextrativismo”, reforça. Os sonhos impulsionam a caminhada. “O meu sonho? Que a gente tenha políticas públicas que amparem a Agrobiodiversidade. As leis brasileiras têm brechas, mas não tem algo que protege, não são suficientes. E que a minha família continue unida, o meu grupo continue resistente lutando pela preservação do Cerrado pra gente continuar vivendo com alegria e saúde” . Cristovino faz parte do grupo de guardiões da agrobiodiversidade articulados, em torno da Rede de Agrobiodiversidade do Semiárido Mineiro.
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