Skip to main content

Uma terapia de vida

Page 1

Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas

Ano 3 | nº 57 | julho | 2010 Padre Marcos - Piauí

Uma terapia de vida Dona Doninha e sua paixão pela horticultura No município de Padre Marcos, num cantinho da Comunidade Fraga há um conjunto de propriedades chamadas de Recanto. Que mais seria o recanto da agricultura familiar, pois agricultores e agricultoras se uniram na Associação de Moradores de Lagoa do Aguapé para viabilizar a plantação de hortaliças e outros alimentos. Um recanto que sempre foi conhecido pela riqueza de recursos como a água que possibilita as plantações e antigamente dava muitos peixes, por isso chamada em outros tempos de Lagoa do Aguapé. Uma das associadas chama atenção pelo capricho e amor pela horticultura, apesar da Dona Doninha se orgulha da plantação sem agrotóxicos idade. Domiciana Maria Neta, a Doninha, tem 66 anos. Doninha é um apelido que a acompanha desde pequena. Se chegar à comunidade e perguntar a qualquer pessoa sobre a agricultora pelo seu nome, certamente ninguém saberá quem é. O fato é que Doninha não é somente uma agricultora aposentada que vive tranquilamente na sua casinha no interior de Padre Marcos, no Piauí, ela é uma agricultora que é apaixonada pela horticultura. Dorme e acorda pensando na sua plantação. “Se você trabalha naquele serviço, de manhãzinha você já amanhece o dia pensando naquele trabalho. Pois é do mesmo jeito da gente. Se a gente trabalha, já ta com aquela vontade de fazer aquele serviço”. A agricultora vive na propriedade de, aproximadamente, 30 hectares que foi cedida pelo seu irmão quando ela separou do marido. Lá foi viver com seus seis filhos e filhas que agora estão todos crescidos e com família. Alguns ainda ajudam Doninha nas plantações, outros preferiram tomar o rumo da cidade. “Com o pouco que tenho, sempre consegui criar meus filhos sem faltar comida dentro de casa, mas eles queriam mais do que eu podia dar e foram tomando o rumo das suas vidas”, conta a agricultora. Uma de suas filhas trabalha como enfermeira em São Paulo, outros foram para lá, mas não se deram bem e voltaram.

Frutas como o maracujá também são cultivadas

No pequeno pedacinho de terra que ela tem, um filho e uma filha ajudam no plantio de hortaliças, milho, feijão, abóbora, e criação de ovelhas, porcos, galinhas. Ela conta que criava umas cabecinhas de gado também, mas tem ficado cada vez mais difícil por conta da escassez de

Piauí


Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas

Piauí

água e de pasto para os animais. Era uma criação que herdou de seu pai e gostaria de continuar, mas as condições tem sido cada dia mais difíceis. Ela lembra que ano passado choveu muito pouco e a maioria das famílias da região perderam as plantações de milho e feijão, não teve quem tirasse nenhuma espiga de milho, inclusive sua filha que plantou oito tarefas perto do poço, mas foi muito fraco também. Entretanto, isso não é empecilho para a família plantar. Uma série de medidas de convivência com o semiárido é adotada na propriedade para economizar essa água e ter alimento sempre em casa para a família e também para comercializar. A mandala ajuda a aproveitar melhor a água Além da cisterna de 16 mil litros, construída pela Cáritas Brasileira Regional do Piauí através do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), a família adota alguns procedimentos para a plantação como: regar nos períodos mais frios para não perder água por evaporação e utiliza de tecnologias como a Mandala que distribui a água de forma mais eficiente para as hortaliças. Além disso, a família adota procedimentos agroecológicos como a utilização de adubo natural como o esterco de criação e não utiliza veneno de forma nenhuma na sua plantação. “Se eu tiver um pé de tomate é sem veneno. Estou começando a usar o nim aos pouquinhos, mas não gosto de usar nem a pimenta e nem o cal misturado com estrume como ensinaram. Se fosse coisa que fosse fazer exame eu não tinha um pingo de medo com o que eu tenho aqui. A gente não tem problema aqui com inseto”, garante a agricultora. Segundo Doninha, às vezes aparece uma lagarta, um gafanhoto, mas vão embora por eles mesmos. O problema maior é com a beterraba que até parece que gosta muito de lagarta ou são as lagartas que gostam muito dela. Mas a família vai combatendo da forma mais natural possível. Ela conta que a organização da comunidade foi essencial para a comercialização dos produtos, pois assim como ela, muitas outras famílias tem hortas que produzem bem e bastante. As conquistas começaram a aparecer a partir da criação da associação, pela qual a comunidade conseguiu o poço que hoje tem água encanada para todas as famílias. Um poço que ela considera milagre de Deus, pois tem 40 metros de profundidade e nunca viu secar, mesmo funcionando noite e dia. A associação agiu também para a melhoria das produções, buscando orientação através do EMATER e SEBRAE e para conseguir espaços nas feiras agorecológicas da cidade. “Às vezes a gente não vende tudo o que leva, mas a gente vende também para as cidades vizinhas como Jaicós”. Ela garante que apesar de não ser muito, o que conseguem com a venda das hortaliças é suficiente para complementar a aposentadoria e ter uma vida digna, já que água e alimento tem em casa. A aposta é produzir muitas abóboras para vender em períodos como a Semana Santa, nos quais o produto é bem procurado. Ela diz que sua idade já não lhe permite mais trabalhos pesados, mas enquanto ela puder andar e ir para a horta, está tudo maravilhoso. “Não tenho a intenção de acabar com ela [a horta], só quando tiver bem gagá sem condições de trabalhar e não tiver quem tome de conta. Quero continuar trabalhando em casa na minha horta, que é uma terapia para mim e minha saúde”, finaliza.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
Uma terapia de vida by ArticulaçãoSemiárido - Issuu