Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
Ano 3 | nº 44| Agosto | 2009 Soledade - Paraíba
UMA HISTÓRIA DE LUTA PARA PRESERVAÇÃO DE UM POÇO Há mais de cem anos dezenas de famílias agricultoras dos municípios de Soledade e Boa Vista, na Paraíba construíram uma história de luta para conquistar e preservar um reservatório de água comunitário. Foram muitos os desafios enfrentados pelas famílias para garantir o livre acesso à água de uma cacimba localizada no leito do rio que separa estes dois municípios. Vale à pena destacar que esta cacimba garante água para os gastos da casa e consumo dos animais nos períodos de secas prolongadas para centenas de moradores das comunidades de Viração I, II e III, Casa Nova, Malhadinha, Navalha, Manoel de Souza, Poço de Juá, Capoeiras, Barra, Pedra Comprida e Urubu.
Lideranças da Comunidade Viração - Soledade
Para exemplificar citamos o ocorrido na seca de 1993, quando as famílias agricultoras dispunham dessa cacimba como única fonte de água. Neste mesmo ano foram organizados mutirões que confeccionaram anéis de concreto para revestir a parede desta cacimba, impedindo que os animais pisoteassem dentro da água e que a areia acumulado no rio cobrisse esse reservatório. Essa iniciativa contou com o apoio do PATAC e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Soledade que forneceram materiais de construção e acompanhamento técnico e organizativo. Hoje este poço amazonas (cacimba revestida com anéis de concreto) tem três metros e meio de profundidade e dispõe de água de boa qualidade. Segundo Januário, 75 anos de idade, esse poço tem um grande valor para as comunidades e em especial para sua família, pois, seu pai, quando criança já preservava e consumia água desse reservatório. Seu Januário relatando a história da Comunidade Viração
Paraíba
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Destacamos também que na seca dos anos de 1997, 1998 e 1999 rebanhos de toda essa região beberam da água deste poço. Sendo construído um pequeno tanque ao lado do poço no intuito de conservar a qualidade e facilitar o acesso dos animais a água deste depósito. Atualmente o maior desafio para conservação desse poço refere-se à retirada da areia do rio utilizada na construção civil das pequenas e grandes cidades da circunvizinhança. Constata-se que a retirada da areia diminuiu o estoque de água do rio o que se observa através da exposição da parede do poço. Leito do Rio Malhadinha onde está localizado o Poço
A luta hoje é conservar a água na areia do rio, como diz Seu Januário. “Se a gente for deixar eles acabarem com a areia, acaba com a água e o que vai ser da gente e das comunidades que precisamos do poço ?” A partir dessa problemática as comunidades se mobilizaram e conseguiram na Promotoria da Comarca de Soledade proibir a retirada da areia do rio num raio de 300 metros ao redor do poço. Todavia essa conquista precisa ser reforçada através de um trabalho de formação, preservação e vigilância ambiental junto às comunidades. Aqui na comunidade nossas famílias fazem um papel de vigilantes para denunciar qualquer tipo de ameaça a leito do Rio Malhadinha, onde o poço comunitário está localizado. Na luta para preservação do poço já enfrentamos secas e desaforos, todavia as famílias têm determinação e não vamos nos cansar de lutar. Seu Dorgival Arruda, afirma que: “Enquanto eu for vivo, estou batalhando para preservar este poço e toda a história dessas comunidades, na luta pelo acesso a água”. Dona Margarida, professora da comunidade de Viração e esposa de Dorgival lembra que: “Hoje temos nossas cisternas, nossos barreiros, mas somos conscientes que um dia poderemos precisar do poço, por isso temos que preservá-lo, hoje e sempre.”
Seu Dorgival mostrando o leito do Rio Malhadinha
Parede do Poço descoberta pela retirada da areia Apoio:
Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome
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