Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
Ano 3 | nº 42| Junho | 2009 Olivedos - Paraíba
As Sementes não têm dono, elas são daqueles que cultivam a vida A Comunidade Cachoerinha dos Torres, no Município de Soledade é um exemplo de comunidade guardiã das sementes da paixão. As famílias tem sementes estocadas em casa de milho (jaboatão, sabugo fico e vermelho), feijão (macassar de moita, rabo de peba, costela de vaca e garanjão), feijão carioca; fava (cara larga, coquinho e bacural; jerimum cabloclo e de leite escuro) entre outras variedades de sementes forregeiras. Toda essa diversidade é importante para a comunidade. Contudo, a semente do feijão macassar vermelho ou feijão figo como também é conhecido tem uma história boa de ser contada. A família Torres até a década de 60 sempre viveu em processo de migração para conviver com a seca. Passava uma temporada na região Família Torres guardiões do feijão vermelho do brejo em Lagoa Seca e outra na região do cariri em Soledade. O que definia esse deslocamento era a falta d´agua, quando estava muito seco no Cariri migravam para o Brejo, lá cultivavam feijão de arranque, batatinha, mandioca e macaxeira. Com o lucro garantido retornavam para o cariri e cuidavam da criação e plantavam campos de palmas. Essa era uma viagem realizada anualmente pela família, mas com o passar dos tempos as viagens ficaram cada vez mais cansativas e a família começou melhorar a estocagem de água que foi o definidor para fixação da moradia no cariri paraibano, aproximadamente no ano de 1988. No ano seguinte foi bom de chuva no cariri e a família precisava de sementes para plantar seu roçado. Seu José Lopes nos contou que foi para Soledade comprar sementes, quando chegou à feira livre reconheceu a semente do feijão macassar vermelho ou feijão figo que sua família já plantava no brejo há muito tempo atrás. Na oportunidade até lhe ofereceram outras variedades, mas o fato de já conhecer o comportamento do feijão vermelho foi o definidor para escolher a semente para plantar no seu roçado. Adquiriu a semente, uma parte foi consumida e outra multiplicada. Já faz 21 anos que esse feijão permanece na comunidade sendo manejado pela família Torres que já distribuiu entre outras famílias nas comunidades vizinhas. Feijão figo ou macassar vermelho
Paraíba
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Paraíba Na região aconteceu uma grande seca entre 1998 e 1999, as famílias perderam toda a lavoura nos roçados, inclusive a semente do feijão figo. Seu Jose Lopes conta que ficou apavorado porque tinha perdido a semente de sua paixão, saiu na casa dos vizinhos procurando saber se alguém tinha semente guardada. Foi quando encontrou na casa de Dona Minelvinea Lopes uma lata de gás cheia da semente do feijão figo, que ela costumava armazenar de um ano para o outro. Hoje Dona Minelvinea já é uma idosa, mas a comunidade conta com orgulho o importante serviço que ela fez para continuidade das sementes do feijão vermelho na comunidade.
Feliz, o agricultor José Lopes afirma que segue esse exemplo e não planta mais toda a semente, sempre deixa em casa uma reserva para evitar que as sementes se percam em anos de pouco inverno. Diz para todos os agricultores e agricultoras que ainda não costumam deixar uma reserva de sementes guardadas, procurem fazer, pois só sabe o valor de sua semente quando a chuva chega e ninguém tem ela para plantar. Temos que guardar essa semente do feijão vermelho por que muita gente gosta dela. É um feijão meia rama, carregador, estendedor, cozinhador e bom para debulhar pois sua casca é muito fina, afirmou dona Maria Lopes. Nossa terra aqui é fraca, mas ele produz bem nos apaixonamos por ele guardamos até hoje e vamos plantar essa semente porque conhecemos. Ela não tem dono, pertence a toda família que deseja plantar e guardar a semente de boa procedência, disse Seu Anchieta. Hoje a comunidade tem um banco de sementes com 22 famílias sócias que cultivam uma diversidade de sementes. A gestão desse banco é animada pelos jovens Josenildo, filho de José Lopes e Adriana filha de Seu Anchieta , ambos são netos de Dona Minelvinea. Josenildo conta que animar esse banco de semente é cultivar a história das pessoas que ajudaram a construir sua comunidade. Por sua vez, Adriana afirma que essa prática deve ser passada de geração a geração, de pai para filho, assim tem a certeza que essa será uma herança para as populações futuras. A comunidade pensa em fazer visitas de intercâmbio para melhorar suas experiências sobre o manejo das sementes da paixão e outras ações para melhorar a convivência na região que escolheram para morar.
Sementes da paixão multiplicadas Pelo banco comunitario
Apoio:
Secretaria de Segurança Alimentar e Nutricional Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome
www.asabrasil.org.br