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Água das Florestas - comunidade Araçatuba distribui e organiza coletivamente

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Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas

Ano 3 | nº 86 | Agosto | 2011 Jequitinhonha - Minas Gerais

Água saudável Um bem de responsabilidade coletiva Entre grandes latifúndios que existem na cidade de Jequitinhonha, a comunidade Araçatuba se destaca pelo exemplo de união e de divisão da terra e da água. A região tem características muito especiais. Fica no meio da área de preservação da Mata Escura e possui várias espécies de animais que são considerados quase extintos, como o mico-leão-dourado. As pessoas que vivem na comunidade cresceram aprendendo sempre a importância da preservação ambiental e criando relações de respeito a todos os seres que vivem ali também, desde o homem até a água. Há vários anos aquela terra era de um grande fazendeiro que deixou como herança a sua filha Maria José Cunha Melo que, depois de separada de seu marido Estácio, dividiu parte da terra entre seus agregados. Outras partes foram vendidas em pequenos lotes para outras pessoas que sonhavam em viver através do trabalho na terra, como no caso de Aparecido Nunes. Antes de receberem a terra, vários desses agregados sempre viveram na incerteza de não ter um lar onde pudessem produzir para eles mesmos e sua família e, assim como ainda acontece muito hoje, tinham medo de fazer alguma benfeitoria na terra e depois serem despejados e perderem todo o investimento.

Comunidade Araçatuba vista do alto

Seu José Garcia que nasceu naquele lugar foi um dos beneficiários da partilha e diz que ficou muito feliz. Mas o acesso á terra não se garante só com a posse dela, as pessoas precisam ter condições de saúde, alimentação e educação adequadas. Pensando nisso que Sinval Rodrigues dos Santos que tinha recebido 19 hectares de terra, doou parte dela para a construção da Escola Municipal Ione Soares da Cunha. Esse espírito solidário e democrático é muito presente na comunidade e sempre foi incentivado pela participação dela em diversos espaços de debate, entre eles o Fórum de Convivência com o Semiárido do Vale do Jequitinhonha, o Fórum do Vale da ASA-Minas. A partir dessa participação e para dar voz a comunidade, o filho de seu Sinval, José Luiz Pereira da Cruz fundou a Rádio Comunitária Camponesa com apoio da Cáritas Diocesana de Almenara em uma das salas da escola.

Zé Luíz fazendo seu programa na rádio comunitária camponesa

Zé Luiz sempre foi um homem de muita luta pela democracia da comunicação, participou ativamente da rede de comunicadores populares da ASAMinas, mas esse trabalho foi interrompido quando em agosto deste ano nós perdemos esse companheiro para o verme da esquistossomose, ou xistose, transmitido pelo consumo de água não tratada.

Esse sempre foi um problema que a comunidade lutou contra. Dos 3 rios que existem na comunidade, 2 cortam

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terras de grandes criadores de gado que acabam não controlando o acesso desses animais a água gerando a contaminação dela e foi dessa água que Zé Luíz consumia que ele recebeu o verme da xistose. A partir do aparecimento do caramujo do verme da xistose a comunidade se mobilizou para adquirir água de qualidade, foi então que José Pereira dos Santos, o Pereira, presidente da Associação Comunitária Rural Nova Araçatuba e outros integrantes dela criaram o projeto de captação e abastecimento de água que só foi concluído já depois da saída de Pereira, na gestão de Odete Cleide Pereira da Cruz, a Dete, irmã de Zé Luiz. Dete conta que no início 3 ou 4 deram importância ao projeto, principalmente porque o esforço ia ser muito grande, seriam 14 dias dedicados ao encanamento da água, e também por ainda não entenderem a importância da água tratada. Ela conta ainda que o processo todo, desde o encanamento até a chegada da água na torneira, foi explicado várias vezes em reunião até o povo entender e assumir o projeto.

Sistema de tratamento de água

Primeiro 13 famílias da comunidade se uniram em mutirão e fizeram o encanamento, depois a água foi repartida para mais 3 e hoje já atende a 27 famílias da comunidade Araçatuba. A água é retirada do Rio São Gonçalo, que não tem o caramujo da xistose, passa por uma estação de tratamento que é cuidada por Edilson Alves Mendes e depois é distribuída pela região. Os beneficiários do projeto pagam uma taxa de R$8,00 por mês. Seu Garcia diz que a água é de todos, e é um bem que não tem preço, mas concorda em pagar, no limite justo, porque esse dinheiro não é pela água é pelo tratamento dela e para concertar os canos que possam quebrar. Cada família tem direito a 30.000 litros d'agua por mês, mas eles contam que o máximo que já chegou foram 22.000 litros. Essa água serve só para beber, tomar banho e cozinhar. Para a lavoura eles usam a água do rio que desce por gravidade, “mas não pode gastar muito porque pode faltar para os outros” conta seu Garcia, consciente. A gestão da água é feita por uma comissão de representantes da comunidade, formada por Edilson Rodrigues, José Aparecido, Geraldo Cândido, José Maria e Osmânio Francisco, que fiscalizam e orientam sempre sobre a importância dos cuidados e a economia da dela para garantir que sempre tenha água em abundância e qualidade. Eles acham mais justo a própria comunidade administrar a água porque eles sabem quais são os problemas e qual é o preço justo necessário.

Seu Garcia e sua família junto da sua produção

Hoje a comunidade conta com uma casa de sementes, com essa estação de tratamento de água e com a rádio (que depois da partida de Zé Luiz a associação vai se reunir para reorganizar a administração dela), todos benefícios de gestão comunitária.

Araçatuba é um grande exemplo de união, preservação, luta e partilha. A comunidade sabe reconhecer que os que mais necessitam devem ser atendidos primeiro, como no caso da água. Muitos trocam os alimentos que produzem entre si e fazem daquele um santuário de preservação ambiental dentro do semiárido.

MARCA UGT ARTICULAÇÃO NO SEMI-ÁRIDO BRASILEIRO


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