Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas
Ano 6 | nº 999 | outubro | 2012 Várzea da Roça - Bahia
Lagoa da Preta e Capoeira do Milho: organização para a Convivência com o Semiárido A falta de acesso à educação e outras políticas públicas sempre contribuiu para a pouca organização das comunidades rurais – não era diferente nas comunidades de Lagoa da Preta e Capoeira do Milho, no município de Várzea da Roça, Semiárido da Bahia. No entanto, uma coisa unia as famílias: a participação nas celebrações católicas aos domingos. Foi nesses encontros dominicais que, há 20 anos, começou a ser discutida a importância de uma associação comunitária que reunisse as famílias das redondezas em torno de lutas comuns. Mandioca: base da produção de ração na comunidade Os debates, os anseios e as dificuldades vivenciados pelas comunidades levaram à criação da Associação Comunitária de Lagoa da Preta e Capoeira do Milho, tendo como primeiro projeto a criação de uma roça comunitária e a construção de uma casa de farinha, como lembra José Santana, conhecido como Zó, da Capoeira do Milho: “Foi da comunidade religiosa que surgiu nossa Associação e a partir da roça comunitária começamos a nos organizar, conquistamos a casa de farinha e não paramos mais de lutar por melhorias para a comunidade”. PRODUÇÃO DE RAÇÃO PARA OS ANIMAIS
Agricultores reunidos na Casa de Ração Comunitária
Desde o inicio, as famílias passaram a ser acompanhadas pela Cáritas Diocesana de Ruy Barbosa, atualmente Unidade Gestora do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA). As primeiras ações da Cáritas se voltaram para o incentivo à produção de forragem e o estoque de alimentos para o rebanho. Motivadas pela estória de José do Egito – que apresenta a importância de aproveitar o período das chuvas para estocar a produção para uso nos tempos de estiagem – as famílias adotaram como prática várias técnicas
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aprendidas nos cursos de Convivência com o Semiárido. Entre essas práticas, destacam-se o cultivo de plantas adaptadas ao clima, como a palma forrageira, e a produção de feno e silagem. Em 2012, quando o semiárido enfrenta uma das maiores secas das ultimas décadas, as famílias se obrigaram a utilizar quase todo o seu estoque de forragens para o rebanho. “Esperamos até março pelas trovoadas, não choveu e agora complicou; a gente não aumentou o estoque porque tínhamos silagem para mais de quatro meses de alimentação dos animais”, explica o agricultor Manoel Orlando de Santana, apelidado de Landinho, da Lagoa da Preta. O depoimento parece de um “desprevenido”, mas a comunidade era, de longe, a mais preparada de Várzea da Roça, pois diante da estiagem, nenhum animal morreu comprovadamente por falta de alimento. Em agosto de 2012, as famílias ainda possuíam silagem produzida há mais de dois anos. Nas comunidades vizinhas, há mais de três meses já havia famílias sem comida para o rebanho, muitos venderam seu criatório a preços muito baixos, com um prejuízo ainda difícil de ser estimado. Agora Landinho usa a palma que não cortava há 15 anos – passa na forrageira, misturado com milho. A lição aprendida com a atual seca é que a sustentabilidade das propriedades no Semiárido passa pela organização e pela ESTOCAGEM – de água, de sementes, de comida para os animais, etc... CONQUISTAS DA COMUNIDADE Além da roça comunitária, atualmente a Associação de Lagoa da Preta e Capoeira do Milho tem casa de ração, fábrica de biscoito, uma ampla sede, casa de farinha com 02 fornos elétricos, unidade de experimentação da Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrícola (EBDA) na roça comunitária e a Casa do Mel. Recentemente, a Associação passou a ser administrada, além da diretoria, por comissões que são responsáveis pela roça comunitária, Agricultores/as na sede da associação comunitária casa de farinha, grupo de mulheres e fundo rotativo solidário, uma iniciativa recente. As famílias também possuem tecnologias de captação de água de chuva, como as cisternas de consumo humano e algumas cisternas-calçadão para produção de alimentos, a exemplo de Seu Rael que produz hortaliças e plantas frutíferas. Pela diversidade encontrada nessas comunidades, Lagoa da Preta e Capoeira do Milho, com cerca de 60 famílias, já são referências para a região: são famílias e técnicos que vêm conhecer essa experiência de organização, desenvolvimento sustentável, segurança alimentar e nutricional, embasada nos elementos da Convivência com o Semiárido e na valorização do saber e do conhecimento popular. Apoio:
Programa Cisternas