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Povos das Águas e das Terras Crescentes

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Boletim Informativo do Programa Uma Terra e Duas Águas

Ano 6 | nº 924| mês | 2012 Matias Cardoso- Minas Gerais

Povos das águas e das terras crescentes Um povo da terra com a alma das águas Os vazanteiros da Comunidade Ilha Pau Preto moram e trabalham as margens do rio São Francisco no entorno do Parque Estadual Verde Grande, município de Matias Cardoso, Norte de Minas, a 135 quilômetros de distância de Januária. Chamam-nos de Vazanteiros porque a nossa agricultura está associada aos ciclos de enchente, cheia, vazante e seca do rio São Francisco, desenvolvendo atividades com a agricultura de vazante, lameiro e sequeiro além da pesca, criação de pequenos animais e extrativismo, produzem alimentos para o sustento das famílias e o excedente é levado de barcos ou lanchas para o mercado municipal nas Vanzanteiros na beira do São Francisco exibindo os alimentos produzidos na vazante do rio. cidades vizinhas. Vive do plantio de um pouco de feijão, abóbora, milho, mandioca, mas a atividade mais forte é da pesca. A pesca era realizada nos rios e lagoas. Era com rede, tarrafa e flecha (herança de pais e avós). Dita diz que as mulheres fazem canteiro com alecrim, cebola, coentro, alface, tomate, beterraba e outras coisas. Em 2011 organizaram a retomada da área tomada por fazendeiros na década de 60, pois antes de ser fazenda era o arraial de meio. Eles contam assim: A nossa história é muito antiga, aqui tinha muitos povoado, tinha escola, tinha cemitério, venda, campo de futebol e igreja; também tinha as festas e as devoções. Comercializavam com Manga, Bahia e Pernambuco, em lanchas e barcos. Na década de 1960 incentivados por programas de governo através da Rural Minas que estava distribuindo títulos de terras nesta região os fazendeiros grilaram as terras e retiram as famílias tradicionais. Os fazendeiros destruíram tudo que tinham, as casas, escolas e cemitério. As famílias tradicionais da região que resistiram Rio São Francisco na seca forma praia. ficaram encurraladas pelas grandes fazendas.

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Agora, eles estão sendo encurralados por outra ação do governo. Por meio do Decreto Estadual 39.953 de 1998 o Governo Estadual desapropriou a área onde vivem os vazanteiros para criar o Parque Estadual Verde Grande, que restringiu e proibiu práticas culturais tornando a ares de uso restrito. Vendo que as nossas famílias estavam para serem expulsas ou desapropriadas pelo Governo do Estado de Minas Gerais, iniciamos a nossa luta de resistência e paralisamos o processo de remoção da comunidade. Em 2006 buscamos o apoio e assessoria da Comissão Pastoral da Vazanteiros apresentam mapa de como era seu territorio Terra da Sub- região Norte de Minas e do CAA – antes da chegada dos fazendeiros e parque. Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, para a construção da proposta de criação de uma (RDS) Reserva de Desenvolvimento Sustentável vazanteira em uma pequena parcela deste parque e o acompanhamento nos processos de negociação junto à direção do IEF (Instituto Estadual de Florestas), relatam os vazanteiros. Cansados de esperar e por todo este descaso com o rio São Francisco e com seus povos, no dia 24 de Julho de 2011, fizemos uma retomada do nosso território, ocupando, a Ex- sede da Fazenda Catelda pertencente ao Parque Verde Grande. Dando início à autodemarcação do território vazanteiro e da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Pau Preto. Os vazanteiros, além disso, no dia 24 de agosto de 2012 em Assembléia elaboraram uma ata de autoidentificação enquanto povo tradicional vazanteiro para declarar sua existência e direito por uso ancestral deste território, que foi encaminhada para todas as instituições e órgãos governamentais, pois o governo afirma que só é possível garantir a posse de terra, caso a própria comunidade declare quem são, como vivem e onde vivem. São 64 famílias reivindicando uma área de 5. 800 hectares que compreende da beira do rio, para garantir a pesca e cultivo nas águas, até a parte do alto onde produzem no sequeiro e ficam as moradias em caso de enchente do rio. Os desafios ainda são grandes, além da demora na negociação da criação da nossa RDS, sofremos muito com a falta de reconhecimento e de implantação das políticas públicas, que venha fortalecer nossa produção de alimentos, saúde, educação e garantir uma vida com mais fartura. E também sofrem com os desmatamentos e poluição do rio provocador pelos grandes fazendeiros e esgotos das cidades. “Nós somos como o rio, sofremos com ele quando suas nascentes secam, seu leito se enche de areia, suas águas diminuem, perdem força, são represadas poluídas e degradadas. O nosso reconhecimento é o reconhecimento do rio. O rio são Francisco não pode ser revitalizado sem nós, o Povo Vazanteiro.” Apoio:

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