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TFG UNICAMP 2021 - ENXAME - PRANCHA

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A motivação para a realização deste Trabalho surgiu a partir da leitura do livro “A Cidade como Afirmação dos Direitos Indígenas”, da Comissão Pró Índio, que expõe a tamanha desconsideração do meio urbano em questões de acolhimento, respeito, ou em proporcionar espaços públicos para que as etnias que lá habitam possam se manifestar e realizar suas práticas.

CE N TR O D E ME MÓ R I A E ACO L H IM E N TO PAN K AR ARU

Tendo em vista o intenso fluxo migratório, histórico e atual, dessa população em direção às cidades - que, de acordo com a ONU contabiliza em 36% (324,8 mil) da totalidade dos indígenas do Brasil habitando as áreas urbanas - a urbanização dos povos indígenas é um tema sério e essencial no que diz respeito ao direito à cidade, e deve ser tratado com sua devida importância. O interesse social no povo Pankararu surgiu do meu desejo de, a partir de então, poder levar a arquitetura como possibilidade de endossar a luta nacional de visibilidade indígena, compreendendo as diferenças culturais dos povos nativos e reiterando a necessidade de um espaço para que essas diferenças de vida e história, tão ricas ética e esteticamente, possam existir, manifestar-se e resistir. A elaboração do “Enxame” - Centro de Memória e Acolhimento para a etnia indígena Pankararu - pretende ser uma das necessárias ferramentas para que essas tradições não sejam perdidas ou engolidas pela urbanização. Se trata de um espaço que possa reafirmar e fortalecer a identidade étnica dos Pankararu; valorizar seus costumes e tradições; preservar a transmissão da cultura oral e prática e; o mais importante: servir de espaço de identificação, diálogo e liberdade de expressão fora das aldeias. As carências analisadas poderão facilitar a compreensão não só desta etnia, mas da atual (r)existência indígena nas cidades, frente à inabilidade do Estado brasileiro no trato desta questão.

Em relação à localização, a elaboração do projeto partiu dos seguintes propósitos: - Conexão com o Conjunto Habitacional adicional proposto, viabilizando a locomoção vertical mais rapidamente e de forma acessível às PCDs; - Trazer leveza e integração com o entorno, aproveitando o desnível para espaços de permanência com vistas privilegiadas. O Centro de Memória e Acolhimento Pankararu surge como um edifício fluido, que se conecta com o entorno acidentado através de seus mezaninos e coberturas, ora valorizando a vista, ora suavizando a implantação dos blocos, e ora fornecendo espaços abertos de encontro e convívio para uma população que foi transferida de uma aldeia para um Conjunto Habitacional. Suas aberturas e fechamentos livres e determinados pelos usuários tanto no espaço multiuso, quanto no auditório ou biblioteca, são capazes de separar o público do privado conforme o uso, oferecendo assim uma grande liberdade às pessoas. A ideia central foi criar um edifício flexível, intimamente relacionado com a atuação do público, com espaços variáveis de integração, que atuam como uma resposta social: de retomada da autonomia e apropriação. Quando abertos, alteram completamente o ambiente oferecendo diferentes caminhabilidades no sentido horizontal. Em relação ao sentido vertical, o eixo de elevador e escadas públicas se localiza à direita do projeto, integrando a Rua Paulo Bourroul com a Rua Conde de Itaguaí por dentro do quarteirão de maneira mais rápida e simplificada.

Em relação à escolha da etnia, dois critérios foram utilizados: a quantidade absoluta de indígenas que atualmente habitam a cidade de São Paulo, e a preferência por aqueles que estão fora das Terras Indígenas (T.I.s) demarcadas. De acordo com Marcos Aguiar, coordenador da ONG “Opção Brasil”, há registros de mais de 5 mil indígenas de 26 etnias diferentes na cidade (ATHIAS & LIMA, 2010, p. 51). O Censo do IBGE (2010), menciona 17 etnias que compõem o quadro de indígenas no município, sendo elas: Guarani Mbya, Guarani Nhandeva, Guarani, Maxacali, Tupinambá, Xavante, Terena, Kaingang, Krenák, Kuruáya, Pataxó, Fulni-ô, Pankararu, Kariri, Kariri-Xocó, Atikum e Xokléng (CPISP, 2013, p.87). No que se refere à quantidade de pessoas, se destacam os Guarani, com 4.138 pessoas, e logo em seguida, os Pankararu, com aproximadamente 2.000 pessoas. Ainda, há cerca de 500 Terena e 150 Kaingang (CPISP, 2013). Não há levantamento da quantidade de indígenas das outras etnias. Optou-se pela preferência a uma etnia que vivesse fora das T.I.s (Terras Indígenas), já que “quase a totalidade das políticas públicas existentes para os indígenas, das quais se pode destacar a saúde, educação e moradia, estão arbitrariamente vinculadas ao reconhecimento legal dos territórios indígenas, o que faz com que a maioria deles fiquem excluídos desses direitos” (CPISP, 2013, p. 92). A “maioria”, referente à citação, concerne a 92% dos indígenas que residem nas cidades, de acordo com o IBGE (2010). Dessa forma, considerando que o povo Guarani ocupa atualmente quatro T.I.s em São Paulo (Barragem, Guarani Krukutu, Tenondé Porã e Jaraguá), foi identificado que o projeto traria mais benefícios ao povo Pankararu.

A cidade de São Paulo, conhecida por sua grande influência econômica, sobressai como o maior polo de atração da região Sudeste no âmbito das migrações, ocupando o primeiro lugar do país no quesito de indígenas vivendo em meio urbano (CPISP, 2013, p. 86), e a classificação de 4º município com maior população indígena absoluta do Brasil 12.977 pessoas, ainda segundo o IBGE.

Com o passar dos anos, a área da favela do Real Parque foi gradativamente sendo ocupada acompanhando a expansão da cidade. Devido ao seu acelerado crescimento, integrado majoritariamente por habitações irregulares, a década de 1980 foi marcada por catástrofes nesta região, como incêndios e deslizamentos de terra. Uma década depois, entre os anos de 1996 e 2000, conclui-se o Projeto Cingapura, criado pelo Programa de Verticalização de favelas (PROVER), entregando 549 unidades habitacionais às famílias, principalmente àquelas atingidas pelas tragédias (ALTMICKS; JUNIOR, 2019, p. 6). Posteriormente, após um novo levantamento da prefeitura, que apontou a existência de mais 1250 famílias vivendo em condições irregulares, foi construído outro Conjunto Habitacional, totalizando em 1135 apartamentos distribuídos na região, que fez parte do Projeto de Reurbanização do Real Parque (PRADO, 2017).

Para além dos dados citados, minhas experiências pessoais de vivência e familiariedade com a cidade, que foi meu lar por 18 anos, também contribuíram para a escolha do local.

O terreno escolhido localiza-se entre esses Conjuntos, e de frente à sala da atual Associação Indígena SOS Pankararu. Como sua legislação aponta para uma ZEIS, parte do terreno foi utilizada para a construção de mais um Conjunto Habitacional, que, afim de evitar diferenciações, se localiza na mesma implantação que os vizinhos, delimitando naturalmente que a área de construção do Centro fique na parte inferior, com sua fachada para a Rua Paulo Bourroul.

O destino dos Pankararu em seu movimento migratório - que se iniciou em 1950 e ocorre com frequência até os dias atuais - foi a região do Morumbi, graças à alta oferta de trabalho na área da construção civil, devido às obras de grande porte como o Estádio do Morumbi (ATHIAS & LIMA, 2010, p. 54). Mais especificamente, a maioria desses indígenas habita o bairro do Real Parque, onde fundaram a favela do Real Parque, iniciada a partir de barracos e pequenos cômodos de alvenaria construídos pelos próprios migrantes Pankararu, em 1956 (NAKASHIMA & ALBUQUERQUE, 2011, p. 187). A região está destacada no mapa abaixo.

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Em relação aos ambientes, foi realizada uma divisão em quatro setores, adicionando o setor extra, que compõe os banheiros. São eles: - Comercial: Formado pela loja de artesanato e feira de alimentos, este setor tem como propósito atuar na complementação de renda. - Suporte: Este setor é formado por áreas fundamentais para que os Pankararu possam realizar com mais conforto suas atividades já existentes. Faz parte do programa uma nova sala para a Associação, e uma unidade para a realização do programa PSF Pankararu, além de uma horta comunitária. - Educacional: Inspiradas no programa do Ceci, as salas de aula formam a maior parte dos programas, contemplando usos variados. - Cultural: Este setor tem como objetivo conectar o público com o privado. É composto por um auditório, uma biblioteca, uma galeria e o espaço multiuso. O setor comercial junto à maioria dos programas culturais foram posicionados no térreo, valorizando a fachada e facilitando o acesso ao público. O auditório pode funcionar como ambiente exclusivo, utilizando o espaço interno para apresentações, ou como coxia para apresentações expositivas, realizadas no primeiro pavimento com o auxílio da rampa. Nesse caso, a plateia dispõe de uma escadaria que também pode servir como arquibancada, com bancos e encostos. Todas as salas de aula do setor educacional foram posicionadas nos pavimentos que contém as áreas abertas, compostas pelos mezaninos do redário e da cobertura verde. Estes espaços fornecem uma maior permanência e convívio para além das aulas. A biblioteca se localiza no segundo pavimento, e seu brise vertical cria uma relação entre a leitura e a natureza. Os ambientes do setor suporte, mais privativos, ficam no terceiro e último pavimento, cobertos pela cobertura inclinada, que confere uma maior intimidade aos corredores. +13,50

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O espaço multiuso, localizado no térreo, abriga várias funções e se modifica de acordo com elas. Para isso, é composto por paredes formadas por painéis de madeira em trilhos, que deslizam encaixando uns nos outros, e dando ao ambiente formas diferentes criadas pela abertura ou fechamento desses painéis. É o local principal do projeto, e seu formato hexagonal memoriza o significado de “enxame”, com a aproximação da sintaxe à semântica - formato, proporcionando espaços de integração como uma resposta social, de apropriação e retomada de autonomia.

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PRODUCED BY AN AUTODESK STUDENT VERSION A estrutura do sistema LVP (Lajes, Vigas e Pilares) será feita em madeira - mais especificamente, utilizando MLC nos pilares e vigas e CLT nas lajes. O pré-dimensionamento foi baseado no catálogo da Crosslam, com vãos entre pilares de 6 em 6 metros. O projeto também conta com uma cisterna para captação de água da chuva. O sistema funciona entre os shafts dos banheiros e o condutor. A partir do primeiro pavimento, todos os banheiros estão alinhados e compartilham do mesmo shaft, que leva os canos para baixo até a cisterna, e para cima até a caixa d’água. O banheiro do térreo se alinha a um condutor que capta a água da chuva proveniente das calhas da cobertura inclinada e da biblioteca, levando a água também em direção à cisterna. A cobertura presente no segundo e terceiro pavimentos será composta por duas camadas de policarbonato translúcido, separadas pela estrutura inclinada de madeira que a acompanha, formando um “sanduíche”. Dessa forma permite a circulação de ar em seu interior. Por cima, será aplicada uma fina camada de miniwave, um revestimento que apresenta pequenas perfurações, atuando como brise e permitindo visibilidade.

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Quando totalmente fechados, os painéis criam um ambiente mais íntimo e privativo, que pode ser utilizado para manifestações, rituais, aulas dinâmicas, cinema (ou local de exibição com projetores), apresentações, ensaios, entre tantas outras possibilidades. Quando abertos, cada lado do hexágono foi posicionado conectando-o a um ambiente passível de expansão, diversificando assim suas atividades voltadas ao público. Os exemplos também variam de acordo com os usuários, podendo ser utilizado para feira, comércio, exibições, área de espera para o auditório, ou circulação.

Foi dada a preferência para materiais sustentáveis ou facilmente recicláveis, como o linóleo, a argila, o revestimento hexagonal de PU, e até mesmo as pinturas. Para o auditório serão utilizados painéis acústicos de fibra de madeira e baffles de PET, conferindo as propriedades acústicas. A marquise modular hexagonal presente no nível de 16 metros funciona como pergolado, proteção contra a chuva, e também como iluminação. Miniwave Estrutura de madeira Placas de policarbonato Calha Placas de policarbonato 0

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

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Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo FECFAU Arquitetura e Urbanismo - TFG 2021

GIULIA CESCHI L’ABBATE

RA: 173397 orientação: Prof. Dr. Rafael Urano Frajndlich


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