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Intervenções SQN 107 - Trabalho de Conclusão de Curso - Lígia Saenger

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introdução

As pessoas geralmente gostam da companhia de outras pessoas. Todavia, aqui, parecem preferir cercar as projeções e dispor de menos espaço para lazer do que usufruir dos vastos gramados que têm em frente ou nas imediações dessas projeções. Chama atenção a quantidade de babás que leva as crianças sob seus cuidados para brincar debaixo dos pilotis dos prédios. Por que isso acontece? O que poderia ser feito para fazê-las sair da falsa propriedade de seus patrões? Acontece que Brasília mais parece uma cidade que foi construída dentro de um parque.

Mesmo tendo a cidade toda como um grande parque, ainda preferimos ir a um local delimitado como parque. O simbolismo de um local destinado à reunião habita naturalmente o inconsciente das pessoas, instigando-as a procurarem locais em que atividades lhes são destinadas. As pessoas acabam por rejeitar o verde vazio de Brasília porque este é tão vasto que não possibilita a companhia humana.

O profissional de arquitetura, como um projetista de panos de fundo do cotidiano, deve posicionar-se como uma espécie de monitor, prevendo o fluxo dos usuários e gerindo as atividades. Caso não proceda dessa forma, o espaço público projeto por ele tende a subutilizado. Os usuários vão preferir limitar o seu convívio social à área embaixo dos prédios, onde, pelo menos, aqui e ali, é possível perceber a presença de rostos conhecidos. O espaço público não pode se transformar em terra de ninguém, e os edifícios em fortalezas medievais.

análises

A vegetação possui um papel importante na saúde mental dos seres humanos. Tal fato foi percebido pelos modernos ao examinarem as cidades tradicionais, chafurdadas de prédios e de pessoas, mas carentes de espaços que proporcionem um alívio em meio ao burburinho e à frieza das construções. Tal necessidade serviu de guia projetual para todo o pensamento da cidade moderna: era necessário proporcionar este alívio para o usuário em qualquer lugar que ele estivesse; então, a cidade estaria inserida em um grande Parque.

É fato que as pessoas construíram as cidades e se aglomeram nelas porque gostam e precisam da companhia umas das outras. Mas, quando nos encontramos em um dos vastos espaços verdes de Brasília, temos a impressão de estarmos sozinhos. As pessoas que vemos nesses ambientes, mesmo aquelas que estão em um mesmo espaço aberto, parecem estar distantes, já que não conseguimos ver os rostos delas.

intervenção SQN 107

É perceptível o fascínio humano pelo verde e pela natureza, talvez pela aura quase divina e espontânea que o natural lhe proporciona, e também pelo fato de o espaço verde trazer benefícios para a saúde mental de seus usuários, oferecendo a eles um respiro, um sopro de natureza no meio de massas cinzentas de pedras artificiais.

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objetivo Opinião empírica, mas embasada em observações de campo, nos diz que quando nos encontramos em um dos vastos espaços verdes de Brasília, temos a impressão de que estamos sozinhos. E as pessoas vistas, mesmo aquelas que estão em um mesmo espaço aberto, parecem muito distantes. Nem distinguimos os rostos delas. As pessoas gostam de parques e jardins, mas gostam de estar acompanhadas em seus passeios. É agradável a companhia de árvores e gramados e flores. Todavia, mais agradável é a companhia de pessoas.

presente trabalho tem a intenção de facilitar às pessoas acrescentar aos benefícios do verde e gerar maior possibilidades para ter a companhia do próximo.

intervenção SQN 107

análises

O

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As pessoas não podem rejeitar o verde porque este é tão vasto que não lhes possibilita a companhia humana. Mesmo sendo a cidade toda um grande parque, os encontros são facilitados se houver lugares delimitados como parques. O simbolismo de um local destinado à reunião habita naturalmente o inconsciente das pessoas, instigando-as a procurarem locais em que atividades sociais lhes são oferecidas. E o profissional de arquitetura, como projetista de panos de fundo do cotidiano, deve se posicionar como uma espécie de monitor, prevendo o fluxo dos usuários e gerindo as atividades desses usuários.


justificativa “o tempo todo você está sendo lembrado que está numa maquete” “(...) Eu acho que o Plano Piloto deve ser preservado, mas não deve ser repetido. A gente percisa preservar isso aqui como centro histórico, a gente sónão tem essa percepção porque é um centro histórico dos anos 1960. Mas é um tipo de urbanismo onde esse tanto de espaço vazio, que é o luxo de quemm mora aqui, é muito caro. \Para se ter uuma densidade tão baixa de pessoas, a cidade não consegue se pagar. Você tem infraestrutura de ruas, canteiros e não tem gente suficiente morando para cobrir”

Brasília desconsidera a desigualdade e o preconceito existentes na sociedade brasileira quando pretende colocar lado a lado pessoas em situações sociais e econômicas diferentes. Ela oferece espaços públicos, mas não incentiva a interação social. É ingênuo esperar que pessoas com as características sócio culturais dos brasileiros esbarrem umas com as outras e comecem a interagir espontaneamente, ainda mais num vazio-verde em que é possível desviar o olhar e o andar em direção a quem nos desagrada.

Há de se estudar Brasília e seu espaço urbano de maneira contextualizada. Discorrer sobre as deficiências de Brasília apontando características intrínsecamente ligadas ao urbanismo moderno, como a setorização de serviços, a hierarquização das vias ou a grande disponibilidade de espaços é não levar em conta o contexto em que ela foi projetada, construída e vivenciada.

intervenção SQN 107

Brasília veio como uma revolução. Impôs um modelo de vida no qual os habitantes se viram obrigados a compartilhar seu espaço. Em alguns locais, deu certo. Em outros, não; o piloti, área pública, virou garagem particular. Mas a cidade parece estar ainda em processo de adaptação. Só agora as pessoas estão se desarmando do carro, tentando encontrar maneiras de interagir.

análises

fonte: entrevista Gabriela Bilá revista traços ediçção nº23 fevereiro 2018 pg. 11

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ANÁLISES PRÉVIAS


os planos de Lucio Costa para a Unidade de Vizinhança

Lucio, então, utiliza-se dos conceitos de Corbusier - a moradia como núcleo central - para formulação das Unidade de Vizinhança de Brasília. A intenção também era oferecer autossuficiência para cada uma das UVs de Brasília, em que a distância percorrida por seus habitantes para realização de suas atividades cotidianas fosse acessível a pé. A proteção do pedestre do tráfego de veículos seria proporcionada pela autossuficiência à UV, no sentido de proporcionar um dia-adia sem veículos motorizados. O comércio e a escola local seriam os principais pontos de encontro dos habitantes. (Ferreira & Gorovitz, 2009, p. 17). Para separação dos fluxos de pedestres e de automóveis, Lucio Costa propôs o emolduramento das superquadras – ou parcelas das Unidades de Vizinhança – com grandes cintas verdes, afirmando sua intenção de resguardar a paisagem do conteúdo das quadras e garantir faixas sombreadas de passeio e lazer. (Costa, p. item 16). Com a intenção projetual de tornar uma parcela do espaço

análises

Originalmente, o projeto de Lucio Costa especificava uma escola, um teatro/cinema, um clube de vizinhança e um local destinado ao culto ecumênico.

edificado convidativa ao uso público,o Memorial de Lucio Costa propõe a incorporação e participação de parte do edifício ao espaço público, criando uma nova função para o edifício: o espaço semi-público. “(...) é interessante observar (...) que Lucio Costa, diferentemente de Le Corbusier, não está preocupado exclusivamente com a forma plástica dos elementos de fachada e sim preocupa-se, nesses edifícios, com a relação do edifício com sua implantação e com seus usuários (Oliveira, 2014, p. 45).

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As Unidades de Vizinhança em Brasília são formadas por conjuntos de quatro superquadras residenciais, o comércio local que fique dentro do conjunto espacial formado por ela, além do espaço reservado ao conjunto de serviços oferecidos aos usuários da quadra.

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a Vila São Miguel como inspiração

intervenção SQN 107

análises

A Vila São Miguel foi um trabalho realizado como requisito para a obtenção de seus títulos de mestre, em conjunto com seus orientadores (dentre eles, Jayme Zettel, Glauco Campello e Lelé) e em convênio com o Centro Nacional de Planejamento Estratégico (CEPLAN), o que fez com que todos tivessem alguma orientação de Niemeyer, e o Ministério das Relações Exteriores. O convênio firmado entre a Universidade de Brasília e o Ministério das Relações Exteriores tinha como objetivo a construção de uma Unidade de Vizinhança que serviria como moradia para os funcionários do Ministério, além de professores e funcionários da UnB. O projeto da Unidade traria oportunidade não apenas para a construção dos edifícios residenciais, mas de toda a aparelhagem urbana necessária para o atendimento dos usuários-moradores e frequentadores do espaço.

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O projeto abrange 36 prédios residenciais entre torres e lâminas, resultando em um total de 404.00 m² de áreas edificadas. Os projetos desenvolvidos nas teses de mestrado levaram muito em conta o desenvolvimento de um sentimento de coletividade, vizinhança e vivência do espaço da Unidade, conceitos originalmente desenvolvidos por Lucio Costa para a criação do Plano de Brasília, onde o arquiteto já apontava a importância de um desenho urbano de qualidade para a produção de espaços de qualidade, alertando para o perigo da criação de malhas segregada, a possibilidade de uma participação maior de veículos motorizados e o desencorajamento do pedestre ao uso do espaço público se os espaços não tiverem elementos para a conectividade.


O início da construção deu-se em abril de 1965, com a conclusão de uma parcela do conjunto de blocos residenciais. Os projetos desenvolvidos pelos mestrandos, na verdade, tiveram grande influência e participação do CEPLAN. Não podemos esquecer que, à época, Niemeyer era o coordenador do órgão e Lelé, professor da Universidade e orientador de alguns dos mestrandos, um dos seus secretários-Executivos do Centro de Estudos.

intervenção SQN 107

A proposta dos projetos para a Unidade de Vizinhança Vila São Miguel é re-avaliação das Unidades de Vizinhança já construídas na Asa Sul sob a ótica projetual apresentada por Lucio Costa em seu Memorial para que a intenção projetual inicial seja retomada. A Vila São Miguel tinha como objetivo projetual gerar o sentimento de co-vizinhança inicialmente imaginado por Lucio Costa para toda a escala bucólica de Brasília, com formação de grupos de moradores cooperativos, além de, simultaneamente, gerar calçamentos que não tivessem tanta influência do tráfego de automóveis. Todas essas diretrizes estariam presentes não apenas nas áreas

análises

O projeto da Vila também tem sua proposta para suplementar seu ideal por uma cidade-jardim digna do planejamento de Lucio. Propõe garagens subterrâneas interligadas, disposição mais justa do fluxo de automóveis, para que todos pudessem ser beneficiados: desde automóveis a pedestres, desde o morador que iria à escolinha ter sua aula, até o visitante que precisasse do estacionamento público e logo se transformaria em pedestre.

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intervenção SQN 107

análises

residenciais, mas se estenderam para o comércio local e para as escolas. (Ferreira & Gorovitz, 2009, p.16) Os estudos gerados no processo de produção projetual para a Vila São Miguel foram feitos na intenção de apaziguar as disputas espaciais geradas pela implementação de um novo modelo de espaço urbano, tanto referindo-se ao espaço público quanto ao edificado. A solução adotada foi a de reuso do espaço, fundindo o item que maior temos em disputa espacial em Brasília, o piloti, às calçadas e passeios, os locais públicos da cidade.

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Burmeister, autor do projeto de implantação para a Vila, ressalta em seu projeto de implantação os desníveis e grande declividade do terreno. Propõe, então, a criação de grandes praças secas de ligação entre as diferentes tipologias edilícias habitacionais: a torre e a lâmina, como que para criação de um espaço de estar e passagem para pedestres sobre a garagem subterrânea dos dois edifícios. A transição entre pilotis e pisos do térreo não é feita de maneira tradicional, como que se o piso imediatamente abaixo da projeção possuísse uma delimitação entre a área pertencente ao edifício e o calçamento que conduz o usuário ao seu próximo destino, podendo ser este o estacionamento, as quadras comerciais ou mesmo as escolinhas. A demarcação de espaços é feita pelos desníveis, que delimitam o que é espaço da rua e espaço do bloco, mesmo que a delimitação física não exista. As praças não só interligam os estares de áreas residenciais, mas sim o conjunto como um todo


do morador ao visitante

Mas, onde isso se conecta com o espaço público?

Não há como culpar o morador dos prédios pela delimitação do seu espaço com cercas, ou até de transformar o piloti em garagem. Seria culpar quem também acaba tendo prejuízo com a ação. O morador delimita seu espaço por medo. Medo de ter seu espaço mal-usado, medo de que suas taxas condominiais sejam desperdiçadas em manutenções geradas pela utilização do espaço. E não é sem razão a existência desse medo: basta olhar para a escola pública e ver como ela é tratada. Se nem os governantes cuidam do espaço público, o que é de obrigação,

A solução projetual adotada equipara-se ao projeto da Vila São Miguel: unir os pilotis ao espaço público de maneira mais óbvia e menos delimitadora. O verde da superquadra, principalmente os jardins próximos aos pilotis, possuem um caráter dúbio: de quem é? é público ou é dos moradores? quem faz a manutenção? quem pode adentrar nesse espaço? Deveria ser público, mas é difícil ceder o espaço, já que quem faz a manutenção é o condomínio. Então, para evitar a degradação do trabalho e dinheiro investido, a solução encontrada é fechá-lo aos visitantes. O espaço verde da superquadra acaba por ser utilizado como cerca entre o que é exterior ou interior do pilotis, marcando, injusta e, algumas vezes, ilegalmente, o que os moradores consideram público e privado. Acoplar as calçadas, espaços com caráter definitivamente público, ao piloti, pode até ser uma maneira de impor ao morador o compartilhamento do seu espaço.

análises

As pessoas hoje equivalentes a senhores de engenho bem que vendem às de classe média o discurso de que estes são iguais a eles. Mas os capatazes de hoje apenas vivem um cenário inventado para que o sistema se mantenha. Eles não percebem que estão inseridos numa realidade mais intrincada do que a que imaginam. Mesmo que percebam ou percebessem, eles não teriam condições de modificá-la em curto prazo ou sem o concurso de um esforço político tremendo.

quanto mais o público em geral não educado a valorizar o bem comum. A população precisa estar segura de que não será subtraída de seu direito de usufruir o que é dela, exclusivamente dela, se vier a compartilhar com o outro o que é de todos. Como deixar os pilotis, tão próximos aos apartamentos quanto varandas são próximas a uma casa, serem utilizados por pessoas distantes do convívio comunal e que, em tese, não têm cuidado nenhum com o que é público? Como confiamos nosso espaço ao compartilhamento?

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A realidade social urbana não é composta apenas de pessoas equivalentes a senhores de engenho e a escravos. É preciso lembrar que há na sociedade algo equivalente a feitores, capatazes, que por pouco escaparam do chicote. Um feitor, se não castigasse o escravo, receberia ele mesmo as chibatadas. Chamar de privilegiada essa parcela da população de classe média pode ser certo do ponto de vista de um escravo, mas não é certo na perspectiva de um feitor.

A liberdade concedida aos moradores gerou disparidades: enquanto alguns pilotis são revestidos de granito, outros

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intervenção SQN 107

análises

têm porcelanato, outros granitina etc. Essa disparidade de materiais pode até ajudar a criar identidade, algo necessária e negligenciada pelos modernos; todavia, se não regulamentada, a liberdade acaba por induzir cuidados excessivos e consequências indesejáveis. Ornamentar os pilotis com material caro tanto intimida o pedestre a adentrar uma área comum quanto estimula o morador a proteger um bem precioso que ele trata como dele, mas que não é.

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Os jardins não diferem muito do piloti de granito. O projeto da Vila, tal qual o deste trabalho, propõe reduzir a responsabilidade do condomínio, tomando de volta à responsabilidade governamental os jardins ao redor do prédio, transformando-os em calçadas, e conferindo aos pilotis uma aparência mais dúbia. A intenção é deslocar para os pilotis a dubiedade possessória que hoje habita os jardins em volta das projeções. A quem pertence essas áreas, já conectadas às calçadas? Apesar da manutenção da projeção ser do condomínio, quem que pode passar por elas? é bom, é ruim? É mais seguro assumir que o pedestre vai passar por debaixo ou é melhor colocá-lo como intruso ao espaço, e criar fortificações de arbustos e cerquinhas ao seu redor, para coibir a aproximação? Como que o morador se sentiria mais seguro no longo prazo? Seria melhor continuar a investir nas soluções que delimitam o espaço e expandem os cuidados destinados ao edifício para os jardins, que pelo menos terão manutenção, e estimular as próximas reformas de pilotis a irem, aos poucos, construindo espaços coletivos aos seus moradores e que, ocasionalmente, seriam utilizados por usuários ditos “aprazíveis” ou, então, forçar uma interação, acoplando calçadas e estimular que os pedestres escolham o piloti como caminho mais rápido e lógico e, assim, gerar o cuidado?

A velha dicotomia… ser conservador, e acreditar numa mudança de pensamento que vem lentamente, ou ser revolucionário, implantando, e deixando que a população se adeque aos conflitos gerados?

os usuários do espaço Nos dias de hoje, a agressividade antes associada ao carro parece estar sendo transposta também às bicicletas. Parece que a agressividade é a tônica. Todos precisam marcar presença, como uma espécie de protesto ou de defesa de território.

O motorista, sempre agressivo quando armadurado,

sempre marcou seu espaço ao longo da história de Brasília; parece estar agora se convencendo, aos poucos, de que a cidade é muito generosa com ele. Todavia, ainda reclama: da possibilidade de tornar-se pedestre, da dificuldade de abandonar o veículo motorizado, da faltasde vagas, do perigo que é ser ciclista e pedestre.

O ciclista reclama os acidentes sofridos e o desprazeroso

percurso oferecido a ele. Reclama da falta de aceitação e respeito de ambos os usuários, pedestres e motoristas.

O pedestre reclama de ambos, mas parece entender

melhor o motorista, afinal, é provável que tenha automóvel. “Desde que o motorista não deixe de parar nas faixas e não suba nas calçadas em locais que ofereçam estacionamentos, tudo bem” - diria o pedestre.


intervenção SQN 107

Seria mais lógico destinar ao pedestre o interior das quadras, com transições suaves ao local dos carros, além de alertas táteis e visuais, e incorporar o ciclista ao tráfego. Nem uma coisa nem outra foram feitas. O pedestre se vê sem alternativa além da invasão das ciclovias criadas ao longo das superquadras, pois é por ali que é possível seu deslocamento fácil e o exercício das atividades a que buscam. O ciclista não se sente seguro em dividir o espaço com os carros, não se sente no direito de utilizar (e nem o deseja) as calçadas que beiram a pista, pois são destinadas ao pedestre, e têm que lidar com os pedestres que acabaram por ocupar o espaço (mal) projetado a ele.

análises

Mas o ciclista não para de pedir que os pedestres saiam da ciclofaixa. Já os pedestres redarguem: “Onde que andaremos? Transformaram nossas antigas calçadas em ciclovias, reformaram as antigas calçadas, já não muito atrativas aos usuários ditos mais frágeis, com rampas inacessíveis e com patologias que vão desde raízes que levantaram os concretos, até há tempos transformaramnas em ciclovias e não deram às calçadas uma reforma.” Os ciclistas, então, se sentem no direito a reclamar para si as antigas calçadas, agora ciclovias. Que os pedestres usem “utilizem a calçada” deles, dizem os ciclistas, sem entender que as calçadas às quais se referem estão à beira das pistas para automóveis, de rolam, onde não há pessoas desarmadas, e com pisos esburacados e descontinuados demais aos que precisam de regularidade para poderem transitar.

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O método de projeto e os usuários do espaço - como administrar as disputas espaciais?

Galvis, autor do projeto paisagístico da Vila, é referência para o trabalho paisagístico desenvolvido. É aqui valorizada a maneira dele de lidar com o espaço público, experimentando o terreno e guiando o usuário do espaço, utilizando o terreno como traçado pregulado de projeto e perpassando suas diferenças de nível para que elas não sejam agressivas ao usuário, e, sim, convidativas, interativas, surpreendentes a cada apresentação do ambiente gerado, a cada conexão estabelecida. Galvis serviu como inspiração pela maneira de projetar e de fazer de cada espaço um jardim interativo e equipado com mobiliários que atendam aos diferentes tipos de usuários: o que chega a pé e mantém seu estado de pedestre, os que chegam de carro e se transformam em pedestres, os que nunca abandonam a armadura de metal, os que utilizam da bicicleta para fazer seu percurso.

O objeto de estudo de caso de Lúcio tem a extensão de muitos hectares de terreno vazio, sem previsão de espaços que promovam interações sociais; Lúcio propõe uma nova cidademodelo, ordenada, organizada, setorizada, e que funciona com fluxos que não se cruzam. Galvis e os outros projetistas tiveram a parcela construída de Brasília para fundamentarem suas propostas. Possuíam uma base real onde inspirar-se para diagnosticar os problemas

anteriores gerados na cidade e propor uma redução nestes.

O projeto analisa a quadra de maneira diferente: assume um projeto parcialmente construído e propõe criar um novo projeto paisagístico para o entorno das implantações prediais existentes, aos moldes do projeto para a Vila São Miguel, e a adequar a realidade existente às novas necessidades da cidade de Brasília, que, como sabido, possui mais carros e bicicletas e menos pedestres de longo trajeto (que transitam de quadra em quadra) do que o previsto no primeiro projeto de Unidades de Vizinhança, qual seja, o de Lúcio Costa.

A vivência de nascer e crescer no Plano Piloto gera uma visão diferente de alguém que possui influências mais próximas ao projeto original, como se o estudo de Lúcio Costa fosse defasado às necessidades geradas e observadas na vivência da cidade moderna.

Lúcio Costa propôs um projeto de cidade com grandes áreas verdes. A intenção declarada era dar ao habitante da nova capital espaço e liberdade para utilizar esses espaços da forma que bem lhes aprouvesse, obviamente respeitadas as condicionantes sociais mais bem aceitas. Poderia o habitante fazer piqueniques, brincar com seus cachorros, passear com o namorado, acampar. Poderia fazer de Brasília um grande parque. É com a intenção de desmanchar a impressão de vazio, de encher de gentes a sensação de vazio, de consertar esse dano à felicidade das pessoas e diminuir a possibilidade das catástrofes da solidão que elaboramos o presente projeto.


arquitetura e a relação com a ciência

As ciências humanas têm sua própria lógica. Seus métodos não são lineares, não são cartesianos, e as conclusões obtidas não são tão óbvias quanto se gostaria. Não porque não exista lógica por trás das ciências humanas. Acontece que a quantidade de variáveis que precisa ser levada em conta na solução de problemas afeto a alguma das áreas das “Humanidades” é normalmente extraordinária, em especial no caso de as ciências humanas se ocuparem do atendimento a desejos e a demandas humanas. A arquitetura é o laboratório de si mesma: o que é construído é, ao mesmo tempo, solução para um problema apresentado e objeto de estudo para gerações futuras. Na Arquitetura, não há um modelo padrão de usuário. Podese prever as reações de uma pessoa, mas não se pode garantir que as soluções propostas se adequem ao esperado pelo juízo

A Arquitetura pode utilizar-se do método científico para:

Isolar as variáveis: os aspectos técnicos, ditos exatos, como o clima, o terreno, os usuários, etc.

Encontrar padrões que possam ser utilizados como laboratório de estudo do que vai ser reproduzido, inclusive utilizando estudos anteriores.

Propor soluções que diminuam os efeitos colaterais

no espaço proposto causados tanto por seus usuários quanto pela carência de um estudo mais aprofundado ao tempo da antiga proposta conceitos

O que é ciência? Diz-se de conhecimento passível de enquadrar-se no método científico, passível de questionamento, testes, reprodução. O que é ciência humana? Diz-se de conhecimento ligado às realizações culturais humanas, portanto, conhecimento de “coisas” humanas, por conseguinte, não tão exato quanto o obtido das “coisas” naturais.

crítico dessa pessoa demandante. De todo modo, as ciências humanas se utilizam de estruturas científicas para analisar o comportamento humano e propor soluções para determinada situação-problema. Também é fora de questão o fato de que a arquitetura enquanto ciência pode e deve utilizar-se do método científico na construção do palco social.

intervenção SQN 107

A arquitetura é categorizada como uma ciência social, e, como tal, ela trabalha com a investigação e pesquisa de diversos aspectos do comportamento humano e suas influências na estrutura de uma sociedade. Mas, mais que isso, a arquitetura propõe-se modificar o cenário social, e criar o palco onde as relações humanas ocorrem.

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análise de sítio: vias, calçadas, passeios e ciclovia vias locais

são as vias internas das quadras. velocidade limite de 20km/h

vias coletoras

são as vias de comércio e que conectam as quadras. velocidade limite de 40km/h

vias arteriais

são as vias que circundam o eixão e fazem fronteira entre este e as superquadras

intervenção SQN 107

conceitos

passeios

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calçamentos para pedestres que não tangenciam pistas

calçadas

calçamentos para pedestres que acompanham as pistas de automóveis

ciclovias

vinda da W3 Norte, tangencia a SQN 307 e passa paralelamente a W1 Norte pelas SQN 107 e 108


análise de sítio: terreno e curva solar ponto mais alto do terreno

intervenção SQN 107

conceitos

ponto mais baixo do terreno

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análise de sítio: ventos ventos predominantes ventos secundários

intervenção SQN 107

conceitos

ventos de chuva

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03

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conceitos

02

intervenção SQN 107

fotos do local

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intervenção SQN 107 conceitos

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21 conceitos

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intervenção SQN 107

16 18

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CONCEITOS E INSPIRAÇÕES


guias projetuais: a ciclovia e o terreno O projeto sofreu uma mudança conceitual importante ao ter seu escopo de trabalho reduzido: inicialmente projetado no sentido norte-sul, quando a intenção projetual abrangia toda a Unidade de Vizinhança. A partir do momento em que o escopo projetual passou a ser apenas a SQN 107 e seus comércios, a planta foi girada e adotou o sentido leste-oeste.

intervenção SQN 107

conceitos

A intenção projetual tornou-se mais clara após a decisão: a de abranger o pedestre em seu percurso pela quadra, apoiando-o em sua caminhada para pontos de ônibus, ciclovias, ou mesmo para um passeio despretencioso pela Superquadra.

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intervenção SQN 107

conceitos

O projeto, então, tem como foco devolver ao usuário a área pública e estimular seu uso cotidiano. O percurso que é e poderia ser feito pelos usuários do espaço, assim como a declividade e desenho do terreno, foram essenciais para o projetar dos espaços.

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guias projetuais: manchas de ocupação e conflitos cruzamento entre diferentes fluxos ocupação de ciclistas ocupação de pedestres conflito entre pedestres e ciclistas

intervenção SQN 107

conceitos

áreas com possibilidades de estacionamentos

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intervenção SQN 107 conceitos


intervenção SQN 107

Os mobiliários escolhidos como referência têm a característica em comum de agregarem mais de uma função, além de possuírem linhas simples e ortogonais.

conceitos

inspirações para mobiliário

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inspirações para piso

intervenção SQN 107

conceitos

O projeto inspirou-se em praças que solicitaram ao piso a função de de vencer a topografia e incorporaram o verde a suas transições. As cores do projeto foram decididas com base em um dos trechos da Avenida Superkillen, de Big Architecture, e na paleta Attitude, da Pantone.

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intervenção SQN 107

conceitos


PROJETO


o local

intervenção SQN 107

projeto

A entrequadra 307/308 Norte possui um lote destinado â construção de uma escola-parque. Entretanto, o terreno é sub-utilizado, com ares de campo de futebol. O local é carente de mobiliário urbano e infraestrutura.

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W3 NORTE W2 NORTE

SQN 307

SQN 308

SQN 108

intervenção SQN 107

CLN 108

CLN 107

SQN 107

projeto

W1 NORTE

EIXO OESTE

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intervenção SQN 107 projeto

o projeto:

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intervenção SQN 107

projeto


área residencial: SQN 107 A: praça das fontes Saguão de entrada do projeto. Praça vista tanto por quem está dentro da quadra quanto por quem está de passagem


1

2

4

3

1

3

2,00

3

D

3 1

mobiliรกrio de uso contemplativo

2

mobiliรกrio de uso interativo

3

fonte com piso rebaixado em 15cm

4

ciclovia concreto com pintura rosa

0,50

concreto com pintura laranja

S

S

S

contreto com pintura vermelha concreto em textura natural asfalto

0

10

50

100

N


B: praรงa do estar Interliga as duas grandes praรงas residenciais. Oferece estares contemplativos e evita os fluxos de automรณveis e bicicletas


1

4

3

S

1,20

0,00

1

mobiliรกrio de uso contemplativo

2

mobiliรกrio de uso interativo

3

mobiliรกrio de uso misto

4

ciclovia concreto com pintura rosa concreto com pintura laranja

-0,50

2

contreto com pintura roxa

0,00

contreto com pintura vermelha

1

concreto em textura natural asfalto

0

10

50

100

N


C: o calçadão

Síntese da intensão do projeto. Praça cercada por edifícios, acessível aos olhos de todos os moradores da SQN 107


1

1

1

2

1

1,50

1

1,50

S

1

mobiliรกrio de uso misto

2

ciclovia concreto com pintura rosa concreto com pintura laranja contreto com pintura vermelha concreto em textura natural asfalto

0

10

50

100

N


área comercial: CLN 107/108 1: praça do Beirute 1

2

3

4

1

1

2

2

D

3

D

0,00

-1,00

1

mobiliário de uso contemplativo

2

mobiliário de uso interativo

3

mobiliário de uso misto

4

ciclovia concreto com pintura rosa

contreto com pintura vermelha

concreto com pintura laranja

concreto em textura natural

3 0

10

50

100

N

Espaço para utilização por usuários plurais, vale dizer: crianças, artistas urbanos, grupos familiares etc


2: praça da introspecção 1

ciclovia concreto com pintura rosa concreto com pintura laranja contreto com pintura vermelha concreto em textura natural

1

0

10

50

Local para a contemplação da escala gregária de Brasília. Destino dos que buscam a natureza e o silêncio

N


3: estacionamento com função mista 1

mobiliário de uso contemplativo

2

mobiliário de uso interativo

4

ciclovia concreto com pintura rosa concreto com pintura laranja contreto com pintura vermelha concreto em textura natural

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asfalto

estacionamento de automóveis, feiraslivres, festas comunitárias, eventos esportivos etc.

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4: ciclovia para aprendizes 1

ciclovia concreto com pintura vermelha

voltada para a aprendizagem do ciclismo, o controle da bicicleta e a interação do ciclista com o seu veículo

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agradecimentos à minha orientadora, Maribel, por ter me apresentado ao projeto da Vila e me guiado por entre tantas pedras. ao meu pai, Marco Antônio, por seus textos, correções e discussões; às amigas Natália, Amanda, Tayane e Filipe, principalmente. Obrigada por ouvirem minhas milhares questões; a Marcelo, meu melhor amigo. Obrigada por se preocupar com minha magreza; a quem mais tenha me ajudado nesse processo, mas fui desmemoriada o suficiente para não lembrar de citar. . Obrigada, de coração, a todos.


referências bibliográficas COSTA,L. Relatório do Plano Piloto para Brasília. 1954.

FERRERA,M.; GOROVITZ, M. A invenção da superquadra - o conceito de Unidade de Vizinhança em Brasília. ed, IPHAN, Brasília, 2009.

FUENTES, Maribel Aliaga, Os primeiros mestrandos da FAU-UnB: de um passado que não se construiu. Tese de Doutorado - Universidade de Brasília, 2017. ‘

OLIVEIRA, Cristina, Debaixo do bloco: o pilotis e seu significado em Brasília - Dissertação de Mestrado - Universidade de Brasília, 2014


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Intervenções SQN 107 - Trabalho de Conclusão de Curso - Lígia Saenger by arqmarialiaga - Issuu