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GALELIBUS O Planeta dos meninos azuis Um conto Juvenil de João Santos

Ilustrações Alunos do 7ºB e 7ºC 0


GALELIBUS O Planeta dos meninos azuis Um conto Juvenil de João Santos

Ilustrações Alunos do 7ºB e 7ºC

– 2011 - 2012 1


1 - FERAJUPIN

A história que vos venho aqui contar aconteceu numa galáxia muito distante há milhares de milhões de anos. Nessa galáxia existia um pequeno planeta azul muito parecido com a nossa bonita Terra, chamado Galelibus. Essa imensidão azul estava salpicada por mais de oito centenas de arquipélagos e outros tantos ilhéus que lhe desenhavam padrões de diversas cores, formas e texturas. 2


O mar que os separava era de muito difícil navegação o que fazia com que os habitantes de Galelibus vivessem separados uns dos outros, cada qual na sua ilha, aquela que lhes foi destinada à nascença. Galelibus, tal como o nosso planeta Terra, era o terceiro planeta de um sistema solar composto por onze planetas muito diferentes uns dos outros. Só nele existia vida. Mágica, complexa e muito diversificada, como são todas as diferentes formas de vida que se encontram espalhadas por este nosso espantoso e infinito universo. Os seus habitantes, os Galelibúzios, passavam muitas das horas dos seus dias a imaginar o que poderia estar para lá das ilhas e ilhéus que habitavam.

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Numa dessas bonitas ilhas vivia um pequeno Galelibúzio muito irrequieto e de grande inteligência, chamado Aguirre Ayips. A cor da sua pele era temperada por uma tonalidade cinza azulada, clara e bastante suave. Tinha longos cabelos negros, sedosos e selvagens. É que a grande maioria dos habitantes de Galelibus era completamente careca e este atributo de Aguirre Ayips, a quem os amigos chamavam de Veloz, dava-lhe uma aparência um tudo-nada estranha aos olhos dos restantes habitantes dessa ilha. Aguirre, o Veloz, gastava muito do seu tempo a brincar com os amigos. As crianças Galelibúzias, tal como as nossas, apreciavam uma boa brincadeira. Um dos jogos que mais gostavam de praticar tinha como objetivo tocar por três vezes no longo cabelo negro de Aguirre. Alcançar aquele jovem magro e tão esguio revelava-se uma tarefa complicada.

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O jogo era controlado pelo menino Veloz, que só consentia que o cabelo negro fosse tocado as vezes necessárias para alimentar a esperança e o interesse dos amigos com quem partilhava a brincadeira. Desta maneira garantia uma boa hora e meia de diversão pelo tempo de Galelibus, que são mais ou menos quatro horas do tempo medido no nosso planeta Terra. Os olhos escuros de Aguirre Ayips ganhavam um brilho descontrolado sempre que proporcionava a Biajipin a façanha espantosa de o alcançar. Mais depressa do que qualquer outro amigo ou amiga de brincadeira, a bonita e simpática Biajipin acabava quase sempre por conseguir ser a mais rápida a tocar três vezes no cabelo sedoso do menino Veloz. Depois de conseguir obter mais uma extraordinária vitória, a Galelibúzia Biajipin ficou tão emocionada que desatou a correr com

receio

que

lhe

pudessem

descobrir a força da paixão. Nem pensar em dar a conhecer aos restantes meninos e meninas o que sentia pelo bonito e diferente Aguirre. Era muito tímida e como todas

as

Galelibúzias

da

sua

idade, quando o coração lhes comunicava a bonita força da paixão,

uma

luz

esbranquiçada

fazia-se notar bem no centro das suas testas disso dando imediato sinal.

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Biajipin não desejava comunicar assim tão cedo, e com tanta clareza, esta sua paixão por Aguirre Ayips. Seria muito embaraçoso dar a conhecer este seu sentimento a tanta gente ao mesmo tempo. Gostaria que isso pudesse acontecer num outro momento. Num momento partilhado apenas a dois, entre ela e o menino Veloz. Era assim que desejava e assim já o tinha sonhado. Por esta altura em que o jogo já tinha encontrado brilhante

vencedora,

os

restantes

meninos

e

meninas

Galelibúzios despediram-se de Aguirre e avançaram em direcção a suas casas. O prémio tinha ficado por resgatar. As regras do jogo davam a possibilidade ao vencedor de construir uma trança no cabelo negro do menino Veloz. Essa trança não podia ser desfeita até que um outro jogador vencesse a partida. Só nessa altura podia uma das tranças que habitavam e embelezavam o negro cabelo de Aguirre Ayips vir a ser desfeita. Nenhum vencedor alguma vez o veio a fazer. Na cabeça do menino Veloz bailavam mais de quarenta tranças que com todo o carinho e amizade tinham sido construídas pelos diferentes vencedores e vencedoras desse jogo de amigos. Aguirre desejava entender a razão pela qual Biajipin tinha corrido para longe do grupo depois de mais uma vitória. No seu cabelo uma trança ficou por construir. Nenhum dos seus amigos arquitetava tranças com tanta ternura como as delicadas

mãos

de

Biajipin. Ao contrário

das

meninas

Galelibúzias, a paixão que aquecia o coração do menino Veloz não acendia nenhuma informação luminosa no centro das suas ideias. Percebeu que a amiga correra para o abrigo 6


fornecido por uma bonita árvore Galelibúzia, de muitas ramagens espiraladas e com as bonitas cores alaranjadas da Primavera de Ferajupin, nome da ilha onde viviam. Avançou corajosamente na sua direção para lhe dar conta do troféu que ficara por construir

Ao chegar perto do enorme tronco de árvore, percebeu que o chão que se estendia à frente das pernas delgadas de Biajipin se encontrava iluminado por uma luz clara e muito intensa. Encostou as suas costas na árvore com todo o cuidado, evitando causar qualquer distração à menina apaixonada. 7


Voltou a espreitá-la em silêncio na esperança que o coração lhe continuasse a facultar luz com a mesma intensidade daquele outro instante. E lá se mantinha ela, constante e forte, a iluminar as mãos, os joelhos, as pernas e toda a relva que se espalhava à frente de Biajipin, ao redor, quase até à falésia que se adivinhava à distância de um pequeno olhar.

O menino Veloz não iria conseguir manter-se escondido de Biajipin por muito mais tempo.

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Os Galelibúzios sentiam a presença uns dos outros com enorme facilidade. Era um poder misterioso que possuíam. Em menos tempo do que o curto espaço de um instante, Biajipin sentiu nela um sinal que lhe deu conta da presença de alguém ali bem perto de si. Levantou-se de imediato, deu uma volta ao tronco de árvore que a protegia e nada viu. O som que se fez então

escutar vinha da copa da frondosa árvore, para onde dirigiu o seu olhar instintivamente. Bem no alto deu conta da sua paixão azul, que dando crédito ao nome com que tinha sido por todos batizado, velozmente se tinha feito transportar até lá.

Aguirre chamou-a para que subisse até ele.

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Queria aproveitar o momento para lhe mostrar o oceano e a paisagem que se espraiava do topo do imenso arvoredo. Queria aproveitar o momento para lhe transmitir a novidade que também ele trazia escondida no seu peito e que a sua testa não conseguia informar. Biajipin sabia que se subisse para ir ter com Aguirre já não iriam descer como amigos. A relação entre os dois passaria a ser muito diferente. Todas as Galelibúzias sabiam que quando os corações lhes comunicavam a intensa luz, tinham de arranjar coragem suficiente para dar a conhecê-la ao menino alvo da sua paixão. E foi assim que subiu feliz ao encontro de Aguirre. As mãos tremiam-lhe à medida que forneciam o impulso necessário para a subida. Percebera em Aguirre, nos sinais transmitidos pelo seu olhar, nos seus gestos e trejeitos, que carregava nele a mesma força que a si lhe tinha sido comunicada ao coração. Faltava-lhe a segurança de uma confirmação, ou a tristeza de um desmentido. Bem no alto da árvore encontrou o menino Veloz que, com todo o carinho, a ajudou no que restava da viagem. Sentaram-se juntos, lado a lado, no mais alto ramo da árvore. A sua testa brilhava como aquele pôr-do-sol de Farejupin. Aguirre agarrou a mão direita de Biajipin e colocou-a bem no centro das suas inúmeras tranças, permitindo-lhe o resgate do troféu. Os ágeis dedos da menina construíram mais uma trança no negro cabelo do menino azul.

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- Sabes Aguirre, porque brilha tão intensamente a minha testa? Todos os Galelibúzios sabem o que este sinal representa. Eu tinha de te dar a conhecer este sinal porque é por ti que esta luz brilha e já não é possível escondê-la. Tu és o menino de quem eu tanto gosto! Foi por ti que me apaixonei!

Com estas palavras a alegria passou a fazer parte daquele encontro. Aguirre comunicou a Biajipin o que também por ela sentia e como teve tanta vontade em antecipar aquele encontro. Ficaram os dois durante o resto daquele fim de tarde a olhar o mar, a ver o sol fazer cócegas nas ondas sempre que estas se entretinham a tentar tocar o céu. 11


Contaram todas as vezes que os seus dedos se entretiveram a brincar uns com os outros e selaram aquela etapa das suas vidas com o mais carinhoso beijo de amor alguma vez sentido em Ferajupin. Ao descerem do alto da árvore, Aguirre e Biajipin já não eram só amigos. Os seus corações caminhavam unidos e às suas vontades começaram a somar-se muitas outras que nunca, até então, lhes tinham sido dadas a sentir.

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2 - ESTRALIDUS

Ferajupin começou a parecer-lhes tão pequena… O menino

Veloz

e

a

bonita

Biajipin,

que

tantas

vezes

consideraram a sua ilha gigantesca, tentavam adivinhar o que poderia estar para lá de tanta onda, de tanto mar e de tanto azul. A fértil imaginação dos Galelibúzios começava a fazer-se sentir neles com muita intensidade. Os dois combinaram encontrar-se no dia seguinte, junto à praia que se escondia no fundo da falésia que decorava a paisagem de Ferajupin. Ali as ondas não se faziam sentir tão violentas e em algumas ocasiões chegavam mesmo a permitir aos mais aventureiros Galelibúzios que delas retirassem o devido prazer. 13


Aguirre e Biajipin desceram por um caminho difícil e bastante perigoso. Poucos tinham sido os que encontraram coragem suficiente para o enfrentar. Só o faziam aqueles que desejavam subir pelas ondas que lá em baixo, já os aguardavam e se acalmavam para os receber. O menino Veloz ajudou Biajipin nas partes mais delicadas da descida.

Existia uma passagem muito perigosa, aproximadamente a meio caminho, que exigia extrema atenção. A menina saltou para as costas de Aguirre que tirava todo o partido da eficaz ajuda dos seus finos dedos tentaculares. As mãos

possuíam minúsculas

ventosas nas palmas, tal como os dedos nas pontinhas das falangetas e outras quatro, um pouco maiores e bem mais definidas, na base dos polegares.

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As tranças do seu cabelo serviam de almofada ao rosto de Biajipin. Agarrara-se a elas com a mesma intensidade dos seus receios. - Nem consigo olhar para baixo Aguirre, é tão alto e perigoso! Vou fechar os olhos para não ter vertigens e cair. O som das ondas a rebentar e o vento que lhe assobiava agudo aos ouvidos, passaram a tomar conta de Biajipin. A força com que se agarrara ao menino Veloz começou a dar sinais de fraqueza. 15


O receio da queda aumentou em si de tal forma que mesmo com os olhos cerrados viu-se a cair uma pequena eternidade. Ao estar bem perto do fim trágico daquele passeio, sentiu com surpresa o corpo seguro, amparado de maneira confortável e aconchegante. Abriu os olhos nesta sentida segurança e verificou que estava a ser transportada ao colo por Aguirre Ayips. Ficou sem perceber se a queda tinha realmente acontecido ou se tudo não tinha sido apenas fruto da vertiginosa intensidade dos seus receios. O mar parecia chamar por eles. Na grande Ferajupin todos os meninos e meninas construíam histórias em que imaginavam tudo o que poderia existir para lá daquela imensidão de azul. De todas as histórias que foram sendo imaginadas pelos seus habitantes ao longo dos tempos, uma delas ganhou destaque entre todas as outras. A célebre história de Tanabu, o Galelibus anão. Segundo ele, um gigantesco animal marinho, em forma de estrela, surgiu no centro das ondas do mar e estendeu-lhe amigavelmente uma das suas longas e rosadas pernas. Tanabu percebeu o convite, avançou em direção ao corpo estrelado do animal e partiu de viagem ao encontro do horizonte distante e desconhecido. São famosas as suas histórias acerca dos locais por onde passou. Todas as crianças de Ferajupin conhecem mais de metade dos seus três mil capítulos. Todas elas olham para o imenso azul esperançosas que, algum dia, o amigo estrelado também as transporte para os extraordinários lugares por onde Tanabu viajou.

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A fresca paisagem daquela manhã carregou as ideias de Aguirre e Biajipin com imagens das mágicas viagens realizadas pelo pequeno Tanabu. Passou a maior parte da sua vida viajando pelas distantes terras de Galelibus, de todas elas trazendo milhares de incríveis aventuras tão inimagináveis quanto deliciosas. Depois teceu-as daquela maneira tão cativante, para alegria de todos os habitantes de Ferajupin. Não lhes era muito difícil imaginarem-se a viver e a visitar as desconhecidas ilhas do Lado de Lá como Tanabu as descreveu. O casal de meninos azuis deixou-se levar nas ondas alegres e muito salgadas de Ferajupin, que lhes cobriam os corpos vezes e vezes sem conta tal a frequência com que decidiam tropeçar neles, gozando a raridade daquela simpatiquíssima companhia e sentindo uma imensa felicidade dentro de si. Aguirre e Biajipin nem davam conta do tamanho de algumas das ondas que os cobriam. Iam sugando todas as delícias que lhes eram fornecidas em forma de embalo pelo agitado mar. Dançaram dentro dele, agarrados a elas, agarrados um ao outro, de mãos dadas, cavalgando na crista das mais altas e espumosas de todas, sentindo-se donos do mar, donos de todo Galelibus, donos de todos os seus agitados mares e marés, como se o seu planeta fosse desaparecer na tarde daquele dia de sonho. E como se de um sonho se tratasse, subitamente, as maravilhosas histórias de Tanabu resolveram ganhar vida de maneira extraordinária. Do meio de uma das mais gigantescas ondas que embelezaram o mar de Ferajupin naquela manhã, um animal esponjoso em forma de 17


estrela saiu do mar como um imenso batel, oferecendo aos dois meninos Galelibúzios a maior surpresa de suas vidas. As histórias de Tanabu, que todos os meninos de Ferajupin gostariam de poder viver, estavam ali à distância de uma corajosa subida para as costas daquele enorme e rosado animal.

Aguirre e Biajipin quase tinham deixado de acreditar na veracidade das histórias do anão Tanabu.

E agora, mesmo ali à sua frente, como uma imensa jangada estrelada, apareceu o gigantesco Estralidus para os transportar, em segurança, até aos mesmos destinos distantes por onde viajou o pequeno Galelibúzio aventureiro Tanabu, o maior contador de histórias que jamais viveu na ilha de Ferajupin.

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As ondas já não rebentavam com tanta ferocidade nas areias brancas da praia da falésia. Pareciam obedecer a uma estranha magia que se fazia sentir pela presença totalmente inesperada do enorme Estralidus rosado. Os meninos azuis nem conseguiam pensar, tal era a dimensão do seu espanto. Foi Aguirre que teve a ousadia de subir para cima do enorme animal, usando o braço mais próximo de si. Com a ligeireza que todos lhe admiravam, saltou das ondas como um desembaraçado peixe-voador e de imediato se fez tripulante do enorme barco estrelado que parecia aguardar pela subida de Biajipan. A menina não tinha tanta certeza. Os olhos de Aguirre Ayips seguiam todos os movimentos de Biajipin. Naquele instante não se conseguia imaginar seguir viagem sem a sua companhia. A menina sentia o peso das dúvidas a carregarem-na para

baixo

da

espuma

das

ondas

que

começavam

novamente a ganhar ritmo e força. Começou a gritar desesperada na direção do menino Veloz. -E se o longínquo desconhecido for totalmente diferente das belas histórias de Tanabu? -E se os aparentemente tranquilos e inocentes Estralidus se transformarem em cruéis monstros marinhos que nos engolem em alto mar? -E se, quando voltarmos de tanto passeio, já ninguém se recordar da cor das nossas vidas?

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O

sonho

ali,

transformado

em

realidade

surpreendente, bem na frente de Biajipin. O mesmo que crescia em secreto desejo, ao longo de tantos e tantos anos, na vontade de todos os meninos azuis. A bela menina começou a ouvir as vozes de todos os meninos Galelibúzios de Ferajupin. Iam-lhe segredando, iam-lhe pedindo que acompanhasse Aguirre na viagem, que fosse com ele procurar os lugares das fantásticas aventuras que Tanabu escreveu, iam-lhe pedindo que vivessem outras ainda mais

maravilhosas

que,

depois,

também

eles

deveriam

escrever num belo livro para os milhões de habitantes de Ferajupin. No espírito de Biajipin começou a fazer-se sentir essa missão com redobrada intensidade. Seria impensável que aquele sonho pudesse ser encarado com tantos receios. O olhar forte e seguro de Aguirre nunca deixou de lhe comunicar segurança. 20


A menina avançou com ligeireza na direção do imenso Estralidus, que manteve o braço estendido, aguardando pela vontade da menina azul. Ao subir até ao centro do animal, um abraço muito forte uniu os dois meninos Galelibúzios.

Aguirre e Biajipin seguiram viagem rumo ao mágico desconhecido que só o pequeno Tanabu, antes deles, teve a felicidade conhecer. 21


3 – DIURIKUR Ferajupin começou a ficar bem pequena à medida que o enorme animal os transportava para lá das suas sombras e relevos. O enorme monte Trubiscus, de Ferajupin, parecia despedir-se daqueles destemidos aventureiros. As recortadas escarpas e falésias junto à costa faziam-lhe companhia na despedida e sentiam já a falta das coreografias esvoaçantes das tranças de Aguirre Ayips. O Galelibúzio não olhou para trás. Abraçou o corpo molhado de Biajipin que permanecia colada a si. Apontou para o horizonte adivinhando o destino deste primeiro passeio a bordo do manso Estralidus que navegava veloz,

cortando

os

mares

revoltos

de

Galelibus

com

impressionante facilidade. Sentaram-se no centro do seu corpo, olharam o mar, sentiram-lhe o perfume, o vento a bater-lhe nas faces. Maior que o desejo era o espanto provocado por aquele momento. Acreditar no impossível fazia todo o sentido. Aproveitaram os momentos

mais

monótonos

da

viagem

para

trocarem

segredos e abraços. Não lhes importava o princípio nem o fim da história. Aquele era o momento, o instante mais importante dos sonhos de todos os Galelibúzios. Avançar como Tanabu a bordo de um gigantesco Estralidus na busca do passeio mais fantástico de todos os passeios possíveis e sem medos do que possa vir a acontecer. A lua chegou, o sol foi descansar. 22


O Estralidus tinha o corpo coberto por minúsculos pontos de luz.

Permitia aos tripulantes a luminosidade e aconchego necessários para o trajeto noturno da viagem. Aguirre e Biajipin acreditavam que os segredos que lhes iriam ser revelados valiam por todas as dúvidas e receios sentidos. Deitaram-se os dois no centro do corpo estrelado do navegante. O menino veloz protegeu o corpo de Biajipin com o seu. Um perfumado odor ia sendo lançado pelo amigo estrelado. Saía morno por um pequeno orifício junto ao local onde se tinham anichado para tentar descansar. Foram longos os momentos passados em espertina, até que o sono lhes proporcionou o descanso necessário para os dias de viagem que estavam para chegar. Os olhares ganharam razões desconhecidas durante o seu descanso.

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As estrelas do céu de Galelibus iam dando informação ao Estralidus do caminho a seguir. Assim o faziam desde sempre com todos os Galelibúzios. A surpresa com que lhes apareciam naquele momento único das suas existências fazia com que os meninos azuis julgassem possuir todo o poder do seu Mundo. Misturavam-se as novas vontades com as que iam sentindo, nascidas nas crianças que ainda eram. Obedeciam a todas as forças ganhas pela fortuna imensa do poder da paixão, o poder que lhes era transmitido pela enorme vontade de crescer. Sentiam o imenso prazer proporcionado por aquela surpresa gigantesca. Aguirre e Biajipin começavam a julgar-se únicos e especiais, tal e qual deve acontecer a todos os meninos azuis de Galelibus neste ritual fantástico do seu crescimento. A vida passou-lhes toda pela frente naquele sonho a dois. Já tinham vivido tantos anos e faltavam-lhes outros milhares para partilhar. O que ainda não tinham vivido desejavam inventá-lo um com o outro, desejavam entender os seus olhares que só há pouco tinham começado a trocar. Desejavam ser felizes! A sua viagem tinha começado. Descobriram com alegria que os seus corações sentiam o mesmo. Duas noites se passaram e depois mais duas, até que, quando a quinta das noites transformou a cor do céu, um brilho muito intenso vestiu a linha do horizonte. Era para lá que o Estralidus os encaminhava. Uma enorme porção de terra brilhante aproximava-se. O primeiro de muitos destinos estava ali a acontecer. 24


Aguirre levantou-se, pegou na mão de Biajipin e ficaram os últimos instantes da viagem a apreciar o espetáculo que lhes começara a ser revelado. Descobrir as novidades de novas terras, de novas gentes e de novas maneiras de pensar Galelibus. Tinham chegado a Diurikur, a maior das ilhas do Lado de Lá. Os braços do Estralidus desceram até tocarem a enorme praia de seixos avermelhados que se estendiam para ambos os lados da ilha.

As pequenas pedras vermelhas brilhavam com intensidade.

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A praia onde os meninos Galelibúzios desembarcaram parecia mágica e festiva. De mãos dadas desceram, sem receio, pelo braço do animal. Os

vermelhos

mudavam

quando

luminosos

de

pisados

pelos

cada pés

pequeno descalços

seixo dos

Galelibúzios. Ficavam mais claros e alaranjados. Indicavam o caminho seguido desde o gigante Estralidus até onde o tapete luminoso se transformava num largo caminho. Aguirre e Biajipin seguiram por ele durante algum tempo. A paisagem não mudava muito de feições. Os seixos luminosos da praia seguiam os meninos azuis. Atrás deles vinham rolando ao ritmo dos seus passos. Os mais alaranjados desses seixos eram os que de mais perto os acompanhavam. Um perfume muito doce saía daquela massa gigantesca de pedras laranjas e avermelhadas que se estendia atrás deles como uma manta real. - Aqui é tudo tão diferente e bonito, não achas Aguirre? Tudo tão sereno. Até o mar! Repara como nenhuma onda rebenta na praia ou provoca ruído ao desfazer-se nas pequenas pedrinhas de luz. Aguirre mantinha a mão de Biajipin bem apertada na sua. O céu parecia verde, os finais de tarde em Diurikur pintavam o céu de tonalidades esverdeadas. Do lado direito do caminho, um pequeno bosque de árvores despidas. Em nenhuma das histórias de Tanabu se dava conta de territórios com praias onde a areia fosse feita de pedras de luz ou onde as paisagens fossem pintadas com céus daquela tonalidade esverdeada. O contador de histórias mais famoso 26


de Ferajupin não tinha passado por Diurikur. Aguirre e Biajipin eram os seus primeiros visitantes. Os

pequenos

seres

luminosos

que

os

seguiam

começaram a aproximar-se cada vez mais dos dois meninos azuis e juntaram-se, unindo-se depois como se fossem um só. Formaram uma grande bolha do tamanho de uma minúscula lua laranja transparente. Transformaram-se sem deixar para trás nenhum dos pequenos seixos de luz.

Aguirre e Biajipin encontravam-se no meio daquele ser luminoso.

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Um pequeno objeto apareceu no centro da enorme bola de luz que os acabara de envolver. Uma pequena folha branca, retangular, aguarda pelas histórias que Aguirre e Biajipin lhes irão desenhar. O poder mágico de uma bonita folha vazia, igual à que foi dada a Tanabu na primeira ilha onde desembarcou, estava ali bem na frente dos seus olhos.

Os luminosos habitantes de Diurikur, transformados em esfera de luz, levantaram voo levando dentro de si os meninos azuis. Aqueles extraordinários e muito raros habitantes são viajantes do tempo e do espaço.

Existem outros iguais a eles, em outros distantes locais de Galelibus, com idênticas funções. 28


Quando até eles chegam vidas apaixonadas como as de Aguirre e Biajipin, partem em viagem para os mais longínquos locais das mais afastadas galáxias. Aos seus tripulantes são dados a conhecer os mais inacreditáveis segredos do infinito Universo. A fantástica história destes dois meninos azuis de Galelibus só agora irá verdadeiramente começar. Aquela pequena folha branca irá transformar-se na história de Aguirre e Biajipin. Todos os meninos e meninas de Ferajupin esperam pelo regresso dos seus amigos azuis. Aguardam que as histórias que lhes possam trazer sejam ainda mais espantosas do que as que Tanabu escreveu. Nos céus de Galelibus. bem lá no alto, afastou-se sempre a subir, desenhando com uma rapidez estonteante uma linha alaranjada, até desaparecer. Os dois meninos azuis olharam para baixo, para Galelibus, que ficava cada vez mais pequeno à medida que a bola onde viajavam ganhava velocidade. Despediram-se dele enviando beijos com as mãos, acenando um adeus. Os dois meninos Galelibúzios ainda hoje passeiam pelo infinito Universo, acrescentando histórias e mais histórias na folha que os acompanha. Continuam tão amigos e tão apaixonados como quando saíram de Galelibus, há milhares de milhões de anos atrás.

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FIM 30


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GALELIBUS - O planeta dos meninos azuis