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Crítica literária: em busca do tempo perdido? João Cezar de Castro Rocha

Chapecó, 2011


Reitor: Odilon Luiz Poli Vice-Reitora de Ensino, Pesquisa e Extensão: Maria Luiza de Souza Lajús Vice-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento: Claudio Alcides Jacoski Vice-Reitor de Administração: Sady Mazzioni Diretor de Pesquisa e Pós-Graduação Stricto Sensu: Ricardo Rezer

Este livro ou parte dele não podem ser reproduzidos por qualquer meio sem autorização escrita do Editor.

801 Rocha, João Cezar de Castro R672c Crítica literária: em busca do tempo perdido? / João Cezar de Castro Rocha. – Chapecó: Argos, 2011. 443 p. (Grandes Temas ; 8) ISBN: 978-85-98981-88-8 1. Literatura - Teoria. 2. Crítica literária. I. Título. CDD 801

Catalogação elaborada por Caroline Miotto CRB 14/1178 Biblioteca Central da Unochapecó

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Sumário

Introdução: Lugares-comuns?

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Marasmo e epigonia?

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No princípio era a polêmica

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A cátedra e o rodapé: um debate internacional 119 A cátedra e o rodapé: um debate nacional 161 No meio caminho: a Semana de Arte Moderna 245 Crítica literária na era digital? 321 Conclusão: Por uma esquizofrenia produtiva? 357 Referências 387 Índice analítico 423 Índice onomástico 431


Introdução: Lugares-comuns?

Algumas hipóteses A história recente da crítica literária brasileira conhece muitas versões, mas quase todas coincidem em apontar a origem de sua modernidade: a polêmica iniciada em 1948 por Afrânio Coutinho, defensor do método a ser oferecido pelos cursos universitários de Letras, contra o “impressionismo” dos famosos “rodapés” que dominavam os grandes jornais da época. Mas qual era exatamente a natureza da crítica de rodapé? “Situado entre a crônica e o noticiário, o rodapé era assinado por intelectuais, que, a exemplo de [Álvaro] Lins, cultivavam a eloquência e a erudição com o intuito de convencer rapidamente os leitores num tom mais subjetivo e personalista”.1 Precisamente a dicção impressionista tão atacada por Afrânio Coutinho. Como veremos ao longo deste livro, porém, a questão é muito mais complexa, exigindo uma sé-

1. Nina, 2007, p. 24.

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ria reconsideração. Sem adjetivar de imediato a crítica exercida na imprensa, basta recordar que não se tratava de espaço considerado menor; pelo contrário, era um espaço nobre, formador de opinião, e os seus militantes desfrutavam de grande prestígio no universo intelectual da época. Nesse sentido, recorde-se a definição de Antonio Candido: “A tarefa do ‘crítico titular’ consistia em fornecer semanalmente, sobre livros do momento, um comentário que ocupava toda a parte inferior de uma das páginas internas, o ‘rodapé’ (antigamente ‘folhetim’), subordinado a uma rubrica geral invariável, que dava nome à secção e vinha impressa acima do título de cada artigo. A minha era ‘Notas de crítica literária’ [...]”.2 O “crítico titular” desempenhava a função do mediador cultural por excelência, e, em alguma medida, a polêmica tratada neste livro representou a superação desse papel tradicional – no terceiro capítulo, voltarei a discutir o tema, mas desde já anoto sua centralidade. Na verdade, a batalha propriamente dita contra o rodapé principiou após o retorno de Afrânio Coutinho de uma temporada de cinco anos nos Estados Unidos, período no qual trabalhou na edição brasileira da revista Seleções do Reader’s Digest.3 Contudo, desde pelo menos 1943, ele preparava o terreno para o futuro confronto, como se depreende de artigo enviado de Nova Iorque: “É a própria instituição do rodapé, que é condenável por todos os

2. Candido, 1992a, p. 9. Texto escrito como “Prefácio” dessa nova edição. 3. Cito a biografia preparada em livro de homenagem ao crítico: “1942-1947 – Viagem aos Estados Unidos. Nesse país, além de redator-executivo da revista Seleções do Reader’s Digest, exerceu intensa atividade intelectual, quer como conferencista quer realizando estudos. [...]” (Pereira, 1984, p. 445).

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aspectos como um dos responsáveis pelo atraso, ou, por que não dizer, pela inexistência da crítica literária entre nós”.4 Como se adverte pela contundência da afirmação, o combate não teria trégua. Álvaro Lins era o representante mais influente da crítica de rodapé; portanto, tornou-se o alvo preferido da campanha levada a cabo pelo autor de Correntes cruzadas, livro no qual Coutinho reuniu os inúmeros artigos que publicou ao longo de uma campanha incansável pela implantação sistemática do curso de Letras no nível universitário. No posfácio de outro livro, cujo título, No hospital das letras, é uma declaração de princípios pelo avesso, Coutinho alvejou o adversário com uma virulência contagiante: “Seria desnecessário revelar o modelo que inspirou muitas das análises e alusões contidas nas páginas anteriores. Para que não reste dúvida, porém, registro aqui, embora com engulhos, o seu nome: Álvaro Lins”.5 Digo contagiante porque as narrativas sobre esse momento são unânimes em identificar, no triunfo de Coutinho, a vitória da cátedra sobre o rodapé, isto é, do método sobre o impressionismo, vale dizer, da especialização universitária sobre o diletantismo humanista. Esclareço a referência: penso nos relatos produzidos por estudiosos já formados nos cursos de Letras. Como veremos no capítulo “A cátedra e o rodapé: um debate nacional”, nas décadas de 1940 e 1950, embora não se negasse a necessidade de renovação dos pressupostos críticos, muitos consideraram o posicionamento de Afrânio Coutinho excessivamente radical.

4. Coutinho, 1969b, p. 19. O artigo é datado de 13 de junho de 1943. 5. Coutinho, 1963, p. 188.

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Este ensaio nasceu de uma desconfiança razoavelmente simples: e se essa narrativa for apenas a simplificação de um processo histórico muito mais complexo? A versão dominante, adotada por críticos formados na universidade, costuma reproduzir a avaliação de Afrânio Coutinho, precisamente o maior defensor da criação da Faculdade de Letras. A circularidade óbvia desse relato engendra, por assim dizer, uma “endogamia hermenêutica” que tem passado despercebida.6 Provocar um curto-circuito nessa narrativa tão bem orquestrada é o meu propósito inicial. Além disso, a reconstrução que proponho da história da institucionalização dos estudos literários pretende colaborar na reinvenção do lugar contemporâneo da crítica literária – na universidade e nos meios de comunicação. Creio que posso esclarecer a razão de minha suspeita: em 1948, a Faculdade de Letras, concebida de maneira autônoma, ainda não existia. Portanto, a endogamia hermenêutica dominante é no mínimo anacrônica. A primeira Faculdade de Letras, ou seja, só de Letras, surgiu “depois do golpe militar, com a Reforma Universitária de 1967, cabendo a Afrânio Coutinho a função de diretor da recém-independente Faculdade de Letras da UFRJ”.7 Mas não se pense que a mudança foi imediata, ao menos não ao confiar-se no biógrafo de Afrânio Coutinho: “A Faculdade de

6. Entendo por “endogamia hermenêutica” a prática característica de grupos autocentrados, cujas interpretações são sempre confirmadas e, sobretudo, reproduzidas pelos membros do grupo. No limite, a “endogamia hermenêutica” implica total indiferença em relação a outras possibilidades interpretativas. 7. Süssekind, 1993, p. 21.

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Letras passou a funcionar por força de soluções expedidas a partir de 1968. O processo de legalização caminhava lentamente, e só depois que todas as instâncias universitárias específicas consideraram cumpridas as formalidades legais, em 1971, o seu Regimento recebeu parecer favorável do Conselho Universitário”.8 Essa passagem possui o mérito de esclarecer a dimensão do anacronismo do lugar-comum acerca do “triunfo” da cátedra. De imediato, posso adiantar a hipótese que proporei neste livro: o ano-chave de 1948 apenas marca o início de um longo processo. Em outras palavras, a queda de braços com o rodapé estendeu-se até pelo menos o início da década de 1960, quando a disciplina Teoria da Literatura passou a ser ensinada nos cursos de Letras. Aliás, no final dessa década, implantou-se o sistema nacional de pós-graduação, momento em que o processo pode ser considerado concluído com vitória da cátedra.9 De qualquer modo, é verdade que, na década de 1930, alguns cursos de Letras foram criados, em geral no âmbito da Faculdade de Filosofia. Recorde-se, porém, que, na fundação da Universidade de São Paulo, em 1934, institui-se a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), mais tarde transformada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).10 Ou seja, a Faculdade englobava diversas seções, sem subordina-

8. Belém, 1987, p. 155. 9. No capítulo “A cátedra e o rodapé: um debate nacional”, retornarei à cronologia que aqui apenas menciono brevemente. 10 . “A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da qual se destacou em 1969 a parte chamada Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, destinava-se na concepção dos seus fundadores a fornecer os quadros do magistério secundá-

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ção formal entre elas – embora, é bem verdade, a seção de Filosofia sempre tenha contado com grande prestígio.11 Já no Rio de Janeiro, em 1939, criou-se a Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Mencione-se também a malograda experiência da Universidade do Distrito Federal (UDF), criada em 1935 e extinta em 1938. A UDF contava com uma Escola de Filosofia e Letras, porém os cursos de Letras oferecidos nessa época ainda estavam longe do modelo de especialização defendido por Afrânio Coutinho. E isto para não mencionar as vozes céticas (e sensatas) que reagiram à mosca azul da objetividade subjacente à campanha contra o rodapé. Em artigo de Jorge de Sena, publicado no ano-encruzilhada de 1948, encontra-se uma saudável cautela: “Tem-se discutido muito a crítica literária: se é científica, se não é, se deve ser, se não deve ser, etc. [...] Para não dizermos sequer que se trata do absurdo sonho de, por decreto, garantir o exercício da crítica só aos indivíduos munidos de diploma [...]”.12 Nesse sentido, a biografia dos nossos mais importantes teóricos, críticos, gramáticos e linguistas é reveladora, pois, em geral, até a década de 1940, a maioria não se graduou em Letras. Afrânio Coutinho formou-se em Medicina e, entre 1936 e 1941, foi professor

rio, unificar os cursos básicos da Universidade e a cultivar o saber desinteressado”. (Candido, 2004a, p. 227). 11. Percepção que deu origem a um hábito revelador: “No dia 25 de janeiro de 1994, a Faculdade de Filosofia completou 60 anos. A menção abreviada e corriqueira da Faculdade de Filosofia pretende aglutinar suas denominações – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo e Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, resultante da Reforma de 1969”. (Leite, 1994, p. 167, grifo nosso). 12. Sena, 2008, p. 15-17.

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de História Geral no Ginásio Nossa Senhora Auxiliadora e de História Moderna na recém-fundada Faculdade de Filosofia da Bahia.13 E mesmo após seu retorno dos Estados Unidos, momento em que principiou a campanha pela profissionalização dos cursos de Letras, exerceu, de 1948 a 1950, o cargo de professor catedrático interino da cadeira de História Moderna da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Instituto La-Fayette14 – instituto criado pelo inovador pedagogo La-Fayette Cortes, um dos embriões da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.15 Evanildo Bechara, um dos maiores gramáticos da língua portuguesa, estudou no Instituto La-Fayette. Suas memórias revelam a situação dos primórdios do curso universitário de Letras: “Naquele tempo, os alunos que cursavam Letras eram professores já formados ou professores que tinham vindo de seminários e falavam correntemente latim e grego. No curso de Neolatinas, o colega mais novo, depois de mim, tinha 28 anos de idade. Era dez anos mais velho do que eu [...]”.16 O fundador dos modernos estudos de Linguística no Brasil, Joaquim Mattoso Câmara Jr., formou-se em Arquitetura pela Escola Nacional de Belas-Artes, em 1927; cinco anos depois, concluiu o curso de Direito pela então Universidade do Rio de Janeiro, e, embora tenha ensinado Português e Latim

13. Pereira, 1984, p. 444-445. 14. Pereira, 1984, p. 447. 15. “Então tudo isso, além de muitas outras realizações inéditas, culminou com a criação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Instituto La-Fayette, que foi organizada em 1939 [...]. A Faculdade só começou a funcionar em 1942, depois que a primeira faculdade federal de filosofia foi reconhecida [...]” (Riedel, 1988, p. 54). 16. Bechara, 2008, p. 19.

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no magistério secundário desde 1928, somente iniciou sua carreira universitária em 1938, ministrando os cursos de Latim e Linguística na Universidade do Distrito Federal.17 Na área mais específica dos estudos literários, a situação não era diferente. O depoimento modesto do maior crítico literário brasileiro do século XX contém uma revelação: “Portanto, o meu aprendizado não foi devido a formação específica, pois me graduei em Ciências Sociais, não em Letras”.18 Candido iniciou sua carreira docente como professor de Sociologia, disciplina na qual apresentou sua tese de doutoramento Os parceiros do Rio Bonito.19 Recorde-se que ele estudou na Universidade de São Paulo, portanto, em tese, poderia ter feito o curso de Letras; porém, nas décadas de 1930 e 1940, faltava à carreira precisamente o rigor do método defendido por Afrânio Coutinho. Compreenda-se este ponto: não pretendo tratar de motivação de fundo psicológico,20

17. Colhi essas informações no estudo de Uchôa (1975, p. VII-XX). 18. Candido, 2005, p. 8. 19. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre a crise nos meios de subsistência do caipira paulista. Tese de Doutoramento, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, 1954. Em 1964, veio à luz a primeira edição comercial com o título levemente alterado. O livro é dedicado a Fernando Azevedo, pois, nas palavras do autor, tratava-se de “agradecer de modo especial o apoio que me dispensou, nos dezesseis anos em que fui seu colaborador na Cadeira de Sociologia II”. (Candido, 1971, p. 13). Como discutirei brevemente no capítulo “A cátedra e o rodapé: um debate nacional”, em 1945, Candido disputou o concurso para livre-docente em Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo, mas não obteve sucesso. 20. Até mesmo porque, como se sabe, Antonio Candido também cursou, embora sem concluir, o curso de Direito. Reitero que minha preocupação é de caráter estrutural. Ademais, no capítulo “A cátedra e o rodapé: um debate nacional” estudarei com detalhes o currículo do curso de Letras nas décadas de 1930 e 1940.

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mas destacar um dado estrutural, ao qual retornarei no capítulo “A cátedra e o rodapé: um debate nacional”. De igual modo, Luiz Costa Lima, um dos mais importantes teóricos da literatura, cursou a faculdade de Direito na década de 1950, e por um bom tempo também ensinou Sociologia. Ao justificar a escolha do curso, recordou o exemplo de Antonio Candido: “Sabia apenas, talvez pelo desprestígio que o circundava, que não queria fazer o curso de Letras”. A razão não poderia ser mais clara: “No começo dos anos de 1970, ouviria de Antonio Candido que ele vivera dilema semelhante,21 decidindo, por conselho de Mário de Andrade, fazer Ciências Sociais e não Letras, onde, segundo Mário, aprenderia apenas um pouco de gramática e de história literária”.22 E, conforme depoimento de Roberto Schwarz, o problema prosseguiu no final da década de 1950. Indeciso sobre qual carreira seguir, Schwarz ouviu o conselho de um amigo da família, Anatol Rosenfeld: assistir a aulas de cursos diferentes, a fim de optar com algum conhecimento de causa. Nas palavras do crítico: “Assisti a uma aula de letras calamitosa, uma aula de filosofia que não me animou e uma aula de política muito boa, da Paula Beiguelman. Aí me decidi a fazer o vestibular para ciências sociais”.23 Como disse, peço que o leitor perceba, para além do evento anedótico, o

21. Roberto Acízelo de Souza comentou o conselho: “era a década de 1930, e Mário, então ainda um entusiasta do modernismo, não podia ter em boa conta o conservadorismo dos professores universitários de letras da época; de modo que talvez não se tratasse de uma desqualificação essencial da área, mas antes de condenar-lhe um descaminho localizado e acidental”. (Souza, 2010a, p. 2). 22. Lima, 1995, p. 32-33. 23. Schwarz, 2009, p. 228.

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traço estrutural. Nas duas primeiras décadas de existência dos cursos universitários de Letras, em geral sob a égide da Faculdade de Filosofia, sua orientação básica tinha como eixo o mesmo generalismo humanista que sustentava a crítica de rodapé. Tal concepção generalista inspirou um currículo verdadeiramente utópico, pois supunha que o aluno completaria sua formação em línguas e literaturas clássicas, além de estudar um conjunto de línguas e literaturas modernas! Tal curso naturalmente não poderia ultrapassar um nível bastante generalista de ensino, dado o número excessivo de matérias que deveria ser dominado pelo estudante.24 Assim não surpreende que o destacado poeta-crítico Haroldo de Campos tenha estudado Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Idêntico percurso foi seguido pelos companheiros da poesia concreta e colegas no curso superior: Décio Pignatari e Augusto de Campos.25 Um dos leitores mais argutos dos impasses de nossa tradição, João Alexandre Barbosa, ofereceu um testemunho semelhante: “Não tive curso regular de Letras e ser professor de literatura foi uma decorrência de gosto e mania. Fui leitor antes de mais nada e tomar no-

24. Peço ao leitor que aceite, neste momento, o caráter geral, mesmo “impressionista” de minhas observações. No capítulo “A cátedra e o rodapé: um debate nacional”, voltarei com cuidado a esse ponto. De qualquer maneira, e a título de esclarecimento, recordem-se as denominações usuais das carreiras nos primeiros anos do curso de Letras na USP: Letras Clássicas, Letras NeoLatinas e Letras Anglo-Germânicas; o caráter abrangente das denominações revela o sentido generalista então dominante nos cursos de Letras. 25. Recorde-se que, ainda hoje, funciona, no âmbito da Faculdade de Direito da USP, uma “Academia de Letras”.

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tas, escrever e, logo, dar aulas de literatura, foram modos diversos de uma mesma atividade de leitura”.26 Ora, como esses testemunhos sugerem, a história da institucionalização dos estudos literários precisa ser repensada. A célebre polêmica de 1948 não deve ser vista como o triunfo da cátedra sobre o rodapé, mas, no máximo, como uma primeira tentativa de criar novas bases para o programa de futuros cursos de Letras dedicados à criação de especialistas. O primeiro objetivo deste livro é colaborar para essa reavaliação.

Passo a passo Para o intento proposto, levantei três questões, cuja interrelação devo demonstrar: a releitura da célebre polêmica envolvendo a cátedra e o rodapé; a institucionalização dos cursos de Letras na universidade brasileira; o papel da crítica literária no mundo contemporâneo. Em primeiro lugar, como reavaliar o duelo entre Afrânio Coutinho e Álvaro Lins sem indagar acerca do papel da polêmica na constituição do sistema intelectual brasileiro? Ora, por que se adotou o conflito entre a cátedra e o rodapé como marco inaugural da modernidade dos estudos literários, em lugar da criação dos cursos de Letras na década de 1930, em geral no âmbito das recém-fundadas Faculdades de Filosofia? O que tal escolha revela sobre a forma como compreendemos o gesto polêmico? Talvez

26. Barbosa, 1980, p. 12.

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uma resposta possível seja localizar, não no alegado triunfo da cátedra sobre o rodapé, mas no próprio conflito o fator decisivo para a formação dos cursos de Letras. Nesse caso, sua história transformase numa sucessão de querelas conceituais e de disputas metodológicas, exigindo uma reconsideração teórica do papel da polêmica, tanto em geral quanto no cenário brasileiro. Por isso, nos dois primeiros capítulos, procuro desenvolver essa intuição, a fim de abrir caminho para uma nova interpretação dos lugares possíveis da crítica literária no século XXI. A frase soa grandiloquente, mas o propósito é mais realista e mesmo modesto: pretendo propor uma reflexão sobre a relevância dos estudos literários no mundo contemporâneo, dominado pelo universo audiovisual e digital. Mas só o farei no capítulo “Crítica literária na era digital?” e na conclusão.27 Nos capítulos “A cátedra e o rodapé: um debate internacional” e “A cátedra e o rodapé: um debate nacional”, discuto as consequências da cisão entre a cátedra e o rodapé tanto no plano internacional quanto no contexto brasileiro, aproveitando para discutir a institucionalização dos estudos literários na universidade. Ressalto que a oscilação entre o alheio e o próprio constitui a base metodológica deste ensaio, pois não se trata de uma questão exclusivamente brasileira, mas de um fenômeno mais amplo, associado a transformações decisivas na figura do mediador cultural. Além disso, a querela da cátedra contra o rodapé também deve ser compreendida no âmbito de um fenômeno mais geral,

27. Na verdade, pretendo dedicar um novo livro exclusivamente à discussão do problema. Porém, o centro deste livro, vale a pena repetir, encontra-se na reavaliação do embate entre a cátedra e o rodapé.

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no caso, a substituição gradual, mas definitiva, da presença cultural francesa para a estadunidense. Como mostrarei no capítulo “A cátedra e o rodapé: um debate nacional”, a modernidade tanto dos estudos universitários quanto da linguagem jornalística supôs uma correção de rumos, correção aliás ocorrida em todo o mundo. Não é, portanto, nada casual que Afrânio Coutinho e Joaquim Mattoso Câmara Jr. tenham feito estudos de especialização nos Estados Unidos no início da década de 1940, esse fato revela aliás um traço estrutural característico da modernização dos estudos literários no Brasil. Já a cultura humanista francesa forneceu o modelo da crítica de rodapé. Na recordação de um de seus mais ilustres representantes: “Nos começos de minha vida literária, na década modernista, ainda pude testemunhar a grande voga da literatura francesa no Brasil. As livrarias de São Paulo recebiam com regularidade quase tudo que de bom e interessante aparecia na França. E era rara a semana em que não havia novidades francesas nas montras da Casa Garraux”.28 Difícil encontrar melhor testemunho da transferência de capital simbólico do que a análise de Augusto de Campos acerca da geração de 1945: “Ela, na verdade, tem uma contribuição interessante porque até certo ponto operacionalizou o giro da informação de matriz ou de origem francesa para a informação inglesa. [...] o próprio Oswald era ainda até certo ponto marcado pela influência da informação francesa. Por exemplo, ele leu Ulysses na tradução

28. Broca, 1968, p. 209.

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francesa e não no original”.29 Ora, no campo da crítica literária, a polêmica iniciada por Afrânio Coutinho anunciou também os primórdios do domínio da língua inglesa. Aliás, a oscilação entre o próprio e o alheio é um dos principais objetivos do projeto que desenvolvo, trazendo uma perspectiva comparada para a história da institucionalização dos estudos literários no Brasil. Uma tarefa urgente, por exemplo, seria a compilação de documentos-chave na história de criação dos cursos de Letras. Nesse sentido, uma iniciativa importante seria a organização dos textos da polêmica de 1948, que permanecem esparsos e muitas vezes são de difícil localização.30 Gerald Graff e Michael Warner assim justificaram iniciativa semelhante relativa às origens dos estudos literários nos Estados Unidos: “Nossa proposta, contudo, vai além da perspectiva do antiquário. Pensamos que histórias dos estudos literários são fundamentais para repensar a disciplina hoje em dia”.31 De igual modo, a reavaliação que proponho tem como finalidade sugerir uma alternativa para o exercício da crítica literária no século XXI – tema a que retornarei na conclusão deste livro. Afinal, talvez já tenha passado da hora de reconhecer que as abordagens teóricas e os procedimentos metodológicos ainda hoje dominantes

29. Campos; Pignatari; Campos, 1990, p. 319-320. 30. No caso da participação de Afrânio Coutinho, há dois livros fundamentais para a reconstrução da polêmica: Correntes cruzadas: questões de literatura (1953) e No hospital das letras (1963). Refiro-me, contudo, a um livro que reúna, em ordem cronológica, textos de ambos os lados do debate. No momento, o professor Valdir Prigol principiou a organizar esses textos com vistas a sua publicação. 31. Graff; Warner, 1989, p. 1. Ver também Graff (1987).

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nos cursos de Letras foram definidos no âmbito de polêmicas ocorridas no século passado – ou seja, o século XX... Se não me equivoco, uma lufada de ar fresco seria bem-vinda. Nos dois últimos capítulos, procuro questionar lugares-comuns que dificultam a renovação da forma de compreender o passado recente da cultura brasileira. De um lado, no capítulo “No meio caminho: a Semana de Arte Moderna”, chamo a atenção do leitor para a tumultuada recepção do Modernismo nas décadas imediatamente posteriores à Semana de 1922. Ao contrário do que se imagina hoje em dia, as conquistas do movimento foram consideradas por muitos com um olhar torto. Vejamos, agora mesmo, um único exemplo. No I Congresso Brasileiro de Poesia, realizado em São Paulo, em 1948, Domingos Carvalho da Silva redigiu um documento-síntese do programa do encontro: “A partir de 1945 [...] assistimos à publicação de livros com um espírito novo. [...] O modernismo foi ultrapassado. Cabe portanto aos poetas novos prosseguir o rumo que se anuncia, sem transigência com o passadismo e sem compromissos com a Semana de Arte Moderna”.32 Nem sempre os poetas são sutis: eis outro chavão a ser superado. Qual a importância da história da recepção do Modernismo na polêmica entre a cátedra e o rodapé? Como espero demonstrar, uma importância decisiva, embora negligenciada nas narrativas dominantes. De outro lado, no último capítulo, “Crítica literária na era digital?”, associo essa mesma disputa à emergência simultânea da

32. Apud Bandeira; Barros, 2002, p. 8.

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indústria cultural e do predomínio de meios de comunicação audiovisual. Tal circunstância afetou profundamente a linguagem jornalística, chegando a caracterizar um novo estilo de jornalismo após a Segunda Guerra Mundial. Esse fator pode ter sido muito mais importante na determinação da “derrota” do rodapé do que o pretenso “triunfo” do rigor e do método, que em tese são definidores da cátedra. Se não me equivoco na reconstrução que ofereço da querela, a consideração da nova dinâmica da própria linguagem jornalística convida à releitura da polêmica entre Afrânio Coutinho e Álvaro Lins. Defendo uma premissa razoavelmente simples: qualquer reflexão sobre a literatura, em geral, e os estudos literários, em particular, deve partir da teorização das consequências da centralidade dos meios audiovisuais e digitais na definição da cultura contemporânea. O caráter endogâmico das narrativas dominantes sobre a polêmica permanece alheio a esse fator constitutivo do mundo atual – talvez por isso elas não possam vislumbrar uma alternativa para o exercício da crítica no século XXI. Esclarecido o percurso, devo advertir o leitor: não pretendo, neste livro, em nenhuma circunstância, oferecer uma história da crítica literária brasileira.33 Posso esclarecer meu objetivo com

33. A obra de referência nesse campo é de Wilson Martins (2002a). Acerca de sua contribuição, consulte-se: Mestre da crítica (Sanches Neto, 2001). Para um estudo amplo e generoso das correntes críticas contemporâneas, surgidas no âmbito do ensino universitário, sugiro: Crítica cult (Souza, E., 2002). Ver, também, seu livro mais recente: Tempos de pós-crítica (Souza, E., 2007). Para uma leitura inteligente, embora deliberadamente parcial, das tensões constitutivas da crítica literária em São Paulo, nada melhor do que consultar: Sobre a crítica literária brasileira no último meio século (Motta, 2002).

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uma formulação ainda mais restritiva: proponho uma interpretação determinada de certo aspecto da dinâmica da crítica literária brasileira, especialmente visível na segunda metade do século XX. Para o bem ou para o mal, esse é o horizonte limitado com o qual trabalho. A liberdade, prometia Kant, é o reino em que o sujeito estabelece seus próprios limites. Os meus estão bem esclarecidos. Ofereço, portanto, uma interpretação de recorte ensaístico acerca da constituição dos estudos literários no Brasil, especialmente em sua vertente universitária, por meio da revalorização do papel da polêmica, em geral, e da célebre querela entre a cátedra e o rodapé, em particular. (continua...)

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Argos Editora da Unochapecó Título

Crítica literária: em busca do tempo perdido?

Autor

João Cezar de Castro Rocha

Coleção Coordenadora Assistente editorial Assistente de vendas Secretaria Divulgação, distribuição e vendas

Grandes Temas Maria Assunta Busato Alexsandro Stumpf Neli Ferrari Alexandra Fatima Lopes de Souza Neli Ferrari Eduardo Weschenfelder Luana Paula Biazus Renan Klaus Alves de Souza

Projeto gráfico e capa da coleção

Alexsandro Stumpf

Capa

Alexsandro Stumpf

Diagramação

Caroline Kirschner Sara Raquel Heffel

Preparação dos originais Revisão Formato Tipologia Papel

Carlos Pace Dori Carlos Pace Dori Araceli Pimentel Godinho 16 X 23 cm Minion Pro entre 10 e 14 pontos Capa: Supremo 250 g/m2 Miolo: Pólen Soft 80 g/m2

Número de páginas

443

Tiragem

800

Publicação Impressão e acabamento

junho de 2011 Gráfica e Editora Pallotti – Santa Maria (RS)


Sobre o autor

João Cezar de Castro Rocha: Professor de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Realizou seus estudos de pós-graduação no Brasil (UERJ), nos Estados Unidos (doutor em Literatura Comparada pela Stanford University) e na Alemanha (pós-doutorado pela Alexander von Humboldt-Stiftung / Freie Universität Berlin). Autor de Crítica literária: em busca do tempo perdido? (Argos, 2011); Exercícios críticos – Leituras do contemporâneo (Argos, 2008); O exílio do homem cordial. Ensaios e revisões (Editora do Museu da República, 2004); Literatura e cordialidade: o público e o privado na cultura brasileira (EdUERJ, 1998), livro que lhe rendeu o “Prêmio Mário de Andrade” (Biblioteca Nacional). Coautor de Evolution and Conversion (Continuum, 2008), com René Girard e Pierpaolo Antonello (edições em português, alemão, italiano, espanhol, polonês, japonês, coreano, tcheco e francês – Prix Aujourd’hui, 2004). Editor de mais de vinte livros, entre os quais a coleção Contos de Machado de Assis (6 volumes, Editora Record, 2008) e os volumes Anthropophagy Today? (Nuevo Texto Crítico 23/24, Stanford University, 1999); The Author as Plagiarist: The Case of Machado de Assis (Portuguese Literary & Cultural Studies, 13/14. Massachusetts: Center for Portuguese Studies and Culture, Dartmouth, 2006); Nenhum Brasil existe – pequena enciclopédia (Rio de Janeiro: Topbooks Editora, 2003).


Recentemente, João Cezar de Castro Rocha ocupou a “Cátedra Eusebio Francisco Kino – Diálogo Fe-Cultura” (Universidad Iberoamericana – Guadalajara e Tijuana) e a “Cátedra Machado de Assis de Estudios Latinoamericanos” na Universidad del Claustro de Sor Juana / Embaixada do Brasil (México). Recebeu o “Humboldt-Forschungsstipendium” (Alexander von Humboldt-Stiftung / Freie Universität Berlin 2005-2006). Entre outros títulos, foi “Hélio and Amélia Pedroso / Luso-American Foundation Endowed Chair in Portuguese Studies” (University of Massachusetts-Dartmouth – 2009); “Ministry of Culture Visiting Fellow” (University of Oxford, Centre for Brazilian Studies – 2004); “Tinker Visiting Professor” (University of Wisconsin, Madison – 2003); “Overseas Visiting Scholar” (Cambridge University, St John’s College – 2002); “John D. and Rose H. Jackson Fellow” (Yale University, Beinecke Library – 2001). ernanda Sánchez: é arquiteta e urbanista, professora da Escola de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Flumi- nense. Graduada pela Universidade Federal do Paraná (1987), é mestre pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993) e doutora em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (2001). Publicou diversos trabalhos nas áreas de política, cultura e planejamento e o livro Cidade Espetáculo, em 1997.


Este livro estĂĄ Ă venda:

www.unochapeco.edu.br/argos

www.travessa.com.br

www.livrariacultura.com.br


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