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Arautos do Vale | Edição 113 - Maio de 2020

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BR 116km 299 Jaguaribe-CE (88) 3522-1272

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Ao

”

verme que primeiro roeu as frias carnes do

meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas”. Assim Machado de Assis faz a dedicatória do seu clássico romance, Memórias póstumas de Brás Cuba. Achava totalmente bizarra a expressão do literato, como também o fato de alguém poder narrar sua própria vida depois de morto, até que tive que morrer para perceber que fui ao meu próprio velório. É! Fui ao meu próprio velório. Morri no dia 27 de março de 2020, em meio a uma terrível pandemia. A crise do Novo Corona Vírus. Decretos governamentais determinavam o isolamento social para conter o horrível poder de contaminação da peste. Naquele terrível dia sombrio, às 15h da tarde parti do mundo dos Eli França Landim viventes e poucas horas depois tive que ser sepultado, aproximadamente às 19h. Não tive velório porque as leis de contenção do vírus proibiam qualquer tipo de aglomeração. Poucas pessoas estavam comigo naquela última despedida. Apenas poucos familiares e alguns amigos, levando em conta a minha grande popularidade na cidade que me acolheu como cidadão, Jaguaribe. Urbe não menos amada que minha querida terra natal, Icó, e Orós, onde comecei a construir minha família. Mas não fiquei triste, pois a presença na minha própria sentinela se fez quando, no decorrer de muitos anos fui um assíduo frequentador de velórios. Quando participava das preces feitas naqueles mórbidos momentos, era como se tivesse realizando-as a mim mesmo. Ao observar um jovem senhor triste, que chorava ao lado de uma urna funerária, era como se tivesse vendo Zé meu, despedindo-se do seu querido e velho pai. Aquelas mulheres fortes e aguerridas, que consolavam sua velha mãe, sentada em uma cadeira de balanços eram como se fossem Neném e Eneida Regina, afagando minha amada Socorro. Os velórios mais marcantes eram aqueles em que o finado se acompanhava de uma grande prole. Via-me rodeado, não somente dos que saíram das minhas entranhas, mas de todos os que a vida me deu o prazer de acolhê-los; Zefinha, a primogênita Rafaele, a caçula; e todos os muitos que compõem minha progênie. Afinal, a Palavra de Deus afirma que bem aventurado é o homem que enche de filhos a sua aljava. E Derblin, meu caçula? O via naqueles jovens órfãos de pai, que não se consolavam com a grande perda do seu patriarca. O clímax dos meus velórios era quando o féretro saia rua a fora, carregados por filhos, genros, netos, bisnetos e os verdadeiros amigos, passavam pelo comercio da cidade, na rua principal onde trabalhei por muitos anos com a minha saudosa Loja Padre Cícero e recebia a homenagem dos comerciantes ao baixarem as portas de suas lojas. Esse tributo também era meu! Receber os punhados de terra, terra molhada, pois não há morte melhor do que aquela que acontece num inverno farto. É uma das melhores dádivas a um velho sertanejo. Quantas e quantas vezes tive que acompanhar, debaixo de chuva, os meus muitos velórios? O pó que cobre meu corpo neste momento tem o cheiro de chuva, de mormaço, sonho de todo cearense. Ocasião que me faz reviver o olor da poeira da futura Brasília que ajudava a construir como candango e a cor avermelhada do pó que manchava minha pele ressequida, ao auxiliar na construção do meu velho açude do Orós. Areia, poeira, pó. Voltei ao pó, como do pó eu vim, mas volto feliz por causa dos meus muitos velórios.Por Francisco Fernandes Loja Padre Cícero 04

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GENTE QUE FAZ

JOSÉ RIBEIRO DE SANTIAGO (ZÉ PIRES) “UM DOS PRIMEIROS CAMINHONEIROS DA REGIÃO JAGUARIBANA”

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osé Ribeiro de Santiago (Zé Pires), nasceu em São Bernardo para ligarem os quatro cantos do país. das Russas (atual cidade de Russas-CE.) no dia 11 de maio de Seu Zé Pires tirou sua primeira habilitação de chauffer profissio1918, faleceu em Fortaleza – CE, no dia 21 de junho de 2008, às nal, em 1938, no Departamento de Transportes de Fortaleza, que 13:00 horas em decorrência de um acidente vascular cerebral, no funcionava na Praça da Estação e fez exames que incluíam direção e mecânica. Dirigiu pelas estradas do Brasil Hospital Geral de Fortaleza - CE. Está enterrado durante 56 anos, initerruptamente, e nunca no Cemitério de Russas, sua terra natal. Era provocou um acidente por menor que seja. filho do casal Raimundo Claudio de Araújo, Aposentou-se em 1974, mas continuou nas nascido em São Miguel – RN, em 1880, e de estradas dirigindo caminhão até 1990. Parou por Maria da Conceição Santiago, nascida em São um certo tempo e voltou as estradas por mais 6 Bernardo das Russas em 1890. anos. Foram 62 anos dedicados a vida de Cursou até a segunda série primária, mas caminhoneiro. desenvolveu bem a escrita, a leitura e as Veio para Jaguaribe, na final da década de 1950, operações básicas da matemática. Ainda trabalhar com Seu Cyrilo Gomes de Carvalho, criança foi ser aprendiz de chauffer (motorista) depois com Miguel Maia e, nos anos de 1967e mecânico com os irmãos Jaime e João Gomes, 1968, trabalhou com o Prefeito de Jaguaribe, o Sr. em Russas, e aos 16 anos, em 1934, já dirigia Francisco Benício Nogueira Diógenes (Chico de mistos (caminhões ônibus) de Russas para Benício). Em 1968 foi trabalhar com Raul Ângelo e Juazeiro do Norte. Os irmãos Gomes fundaram, o Padre Macário, em Vitória da Conquista – BA. respectivamente, as empresas de ônibus Vale do Jaguaribe e Viação Russana. Foi um dos José Ribeiro de Santiago em sua última No ano 1976 foi trabalhar com Almir Alencar em primeiros motoristas das referidas empresas, visita aos parentes em Russas – CE (s/d). Icó – CE até os anos de 1990. Depois de 62 anos Fonte: arquivo fotográfico do autor abandonou os caminhões e as estradas. Faleceu na década de 1930. aos 90 anos. Serviu o Exército (7ª R.M. e 25ª C.R. sob o nº 426805), por 4 anos, de 1938 a 1942, em Fortaleza - CE, na Nos anos de 1950 passou a viajar para São Paulo – SP, era uma especialidade de chauffer (motorista), segundo atestado de verdadeira epopeia, porque eram 15 dias para ir e 15 dias para dispensa assinado pelo Capitão de Exército Francisco Pereira voltar. Levava encomendas e trazia encomendas, levava passageiCabral, em 20 de maio de 1942. Deixou o Exército Brasileiro para ros de carona e trazia também. Não existia linhas de ônibus, tudo e ser caminhoneiro devido a sua grande paixão por carros, estradas todos eram transportados pelos caminhões. Casou-se três vezes e enviuvou duas vezes: casou-se em primeiras e viagens. Foi um dos primeiros caminhoneiros da região jaguaribana, núpcias com Rosélia (em Russas) com quem teve três filhos: começando a viajar no ano de 1934, fazendo a linha Russas – Edilson – policial civil, Ermilson – caminhoneiro (in memoria) e Juazeiro do Norte, desbravando as difíceis estradas de rodagem Eliacir – professora (in memoria) e enviuvou; casou-se em segunda numa época em que não existia estradas asfaltadas, postos de núpcias com Maria Odília Freire de Oliveira (em Jaguaribe) e não combustível, pousadas, oficinas mecânicas. Tudo era no teve filhos e enviuvou pela segunda vez; em 1963 casou-se pela improviso e perícia do motorista. Se furava um pneu ou o carro terceira vez com Maria Rosalva Barreto, em Jaguaribe – CE, com quebrava era o motorista quem consertava e tinha apenas o quem teve dois filhos: Francisco Sérgio – Engenheiro Agrônomo e auxílio de um ajudante. Quando era na época das chuvas os professor Licenciado em Ciências e um natimorto, em 1971. caminhões atolavam de quilômetro em quilômetro, o motorista e O seu casamento civil, com Dona Rosalva, ocorreu no dia 09 de janeiro de 1970, no Cartório do 1º Ofício, celebrado pelo Juiz o Dr. Edgar Carlos de Amorim e tendo como testemunhas a Senhora Maria do Socorro Pinheiro (Maria da Cabocla) e Milton Alves. Depoimentos de algumas pessoas que conviveram com o seu Zé Pires: “Zé Pires foi o homem mais honesto que conheci. Você podia entregar ouro em pó a ele.” (Seu Chico de Benício, ex - patrão e ex-prefeito de Jaguaribe). “Chico de Benício eu quero que me arrume um homem sério para dirigir esse caminhão que te comprei!” (Almir Alencar – Icó – CE.). “Eu tenho Zé Pires para trabalhar contigo!” (Chico de Benício). “Foi o homem mais calmo e educado que conheci” (Antônio Carlos Fernandes – Professor de Direito do UNIFOR).

Antigo misto que transportava pessoas e mercadorias (s/d). Fonte: museudantu.org

o ajudante tinham que descarregar, desatolar e carregar novamente e o ciclo continuava mais à frente no próximo atoleiro. A história de caminhoneiro seu “Zé Pires”, confunde-se com o início do desenvolvimento do transporte rodoviário, no Brasil. Em 1934, no Governo do Presidente Getúlio Vargas (1930-1937) foi criado o Plano Geral Nacional de Viação. Em 1937 foi criado o DNER – Departamento Nacional de Estradas e Rodagens e, em 1940, foi criado o Plano Rodoviário Nacional quando surgiu as grandes rodovias (BR 020, BR 101, BR116, BR 222, dentre outras)

Esses depoimentos são uma pequena amostra do grande caráter e personalidade que tinha o seu Zé Pires e que deixou um legado de grande trabalhador, esposo e pai, de honestidade, de seriedade, de um grande coração já que era muito prestativo e caridoso para com os outros.

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Pesquisador da história jaguaribana.

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