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Arautos do Vale | Edição 112 - Abril de 2020

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BR 116km 299 Jaguaribe-CE (88) 3522-1272

arautosdovale@hotmail.com


ÍNDICE

01 03 05 07 09 11

EDITORIAL

CAPA

EDITORIAL

VALE A PENA VER NA ARAUTOS

CONHECENDO NOSSA HISTÓRIA MATÉRIA DE CAPA

PARCEIROS

02 04 06 08 10 12

PARCEIROS

JERRY DIÓGENES

PARCEIRO

EFIGÊNIA ALVES GATA ARAUTOS

PARCEIROS

A QUEM DÁ OUVIDOS? Estamos literalmente sendo bombardeados por diversas informações que pouco acrescentam ao nosso cotidiano. Antigamente se destacava quem era antenado, ligado em jornais e noticiários diversos. As chances desse grupo de pessoas informada, os tornava diferente dos demais, aliás os destacava da grande maioria. É bem verdade que essa teoria caiu por terra faz tempo. Afinal de contas o que se percebe hoje, são mentes ambulantes entupidas de boatos e fake's a lá vontê, para todos os tipos, gostos e conveniências. Estamos em um momento mais do que crítico da história da humanidade. Perdemos a capacidade de crença! Fé! E o que nos norteia são em suma os objetivos de pequenos grupos que conseguem disseminar e conduzir a grande massa com maestria e eficácia. Que Deus em sua infinita misericórdia tenha compaixão da gente, e ilumine nossas mentes pensantes, para que a mesma seja território sadio, livre e produtivo. Ramon Gomes

EXPEDIENTE

TODA SEGUNDA

9 às 10

Sandoli Diógenes Fundadora

Ramon Gomes

RÁDIO JAGUARIBE FM

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Diretor

Hérika Gomes Supervisão

Ruth Gomes Reportagem

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REVISTA.ARAUTOSDOVALE

ARAUTOS do vale Todos os direitos reservados. Proibido a reprodução total ou parcial, por qualquer meio, sem a prévia autorização escrita do autor ou da diretoria. Todas as matérias aqui veiculadas, são de responsabilidade de seus idealizadores.

ARAUTOSDOVALE


COLUNA

Pior seria se pior fosse...

O

bservamos o contexto que, querendo ou não, seremos sujeitos intrínsecos da história, seja como um sujeito vivo - alguém que sobreviveu essa Pandemia, ou sujeitos mortos - componentes de dados trágicos. As relações familiares não serão as mesmas, nem a credibilidade da informação cibernética, mas já a politicagem... Uma verdade seja dita: o mundo parou, nos aquartelou em casa (lugar estranho para alguns) e, com isso, foi nos permitido perceber, enfim, que a pessoa que chamamos de mãe, foi quem nos pariu, e que seu irmão e você têm a mesma mancha, no mocotó. O que se observa é que, para muito além do número de infectados e mortos, um evento como essa Pandemia surge no auge dos fuxicos cibernéticos. Quem mente? Quem espalha não é mais aquela vizinha, a qual, do alto de sua janela, ou munida de uma desfaçada vassoura, aumentava o número de mortos e feridos, não é mais ela, agora, o bicho pegou! Moleques impiedosos frente ao computador ou aparelho de celular espalham um terror (meninos maus!), que contribuem para as mudanças de comportamento, para o caos social, diante de tantos disse me disse, diante de tanta fragilidade, de tanta desinformação proposital. Sabe-se que outras desgraças como a peste negra, a gripe espanhola e a gripe suína são mazelas históricas, pode até haver semelhanças e diferenças. Em alguns relatos epidemiológicos históricos, da época, descreve-se uma Europa e uma Ásia que eram um verdadeiro lixão, não havia saneamento

básico e isso, diante de toda “sebosidades” registradas, foi propício para que ratos, pulgas e bactérias se propagassem e, assim sendo, a peste negra teria eliminado entre 75 a 200 milhões de pessoas, o que correspondia a praticamente um terço de toda a população que vivia na Europa. Nunca é demais lembrar que a ideia de quarentena surgiu na República de Veneza, cujo território hoje pertence à Itália, lugar que foi muito afetado pela peste negra (a epidemia provavelmente começou ali, acreditam alguns historiadores). À época, um membro ligado à religião cristã sugeriu que se adotasse a restrição de circulação no tocante a escolha de 40 dias (quaranta giorgi, no bom italiano); tal ideia tem laços bíblicos: o que se nota em algumas passagens do Antigo Testamento, pelo que foi relatado daquele tempo de isolamento para surtos. Verdade seja dita, e bom que saímos da curva, já começamos a visualizar um futuro de sobreviventes, logo porque é fato que a gente quer mais do que sobreviver à história, a gente quer mesmo é contar a história. Eu já vislumbro.... Será?! Será que neste final de ano, quando teremos as eleições, veremos um “monte de babão” sendo voluntário para um “Epa, meu Doutor Fulaninho, deixe que eu vou abraçar o pobre no lugar do senhor” ou “deixe que eu vou apertar a mão do pobre no lugar do senhor!”. Afinal, o que é uma COVIDzinha-19 diante das conveniências?! Jerry Diógenes

OCUPANDO A MENTE M S

OBJETIVO: encontrar e circundar as 16 palavras escondidas na grade distribuídas nas formas horizontal, vertical e diagonal. Boa sorte!

RESILIÊNCIA

ALERTA

COVID

ISOLAMENTO

CURA

INFORMAÇÃO

ARAUTOS

CORONAVÍRUS

DISTANCIAMENTO

CONFIANÇA

MUNDO

OMS

COLAPSO

ESPERANÇA

VACINA

MÁSCARA

Confira as respostas do caça palavras na versão digital da Revista Arautos do Vale ou acesse: www.issuu.com/arautosdovale

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VALE A PENA VER NA ARAUTOS

Positividade e FÉ!

Ex-combatente da Força Expedicionária Brasileira vence a Covid-19.

B

rasília (DF), 14/04/2020 - Os profissionais da saúde do Hospital das Forças Armadas (HFA) formaram um corredor humano para, com muitos aplausos e forte emoção, se despedirem do Tenente Ermando Piveta, 99 anos. A cena, registrada, com muitos flashes, ocorreu no começo da tarde desta terça-feira), em frente à unidade hospitalar da capital federal. O paciente, que teve alta após oito dias de hospitalização é, até o momento, o mais velho brasileiro que sobreviveu ao novo coronavírus. Mas ele tem outro título de muito maior notoriedade, o Tenente Piveta integrou a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutou com os aliados contra o nazismo e o fascismo na Segunda Guerra Mundial. Quase oito décadas depois, ele demonstra mais uma vez o seu heroísmo, ao vencer um inimigo invisível, mas extremamente agressivo e letal, com nome e sobrenome: Covid-19. Ermando Piveta chegou ao HFA em 6 de abril, depois que a equipe de telemedicina do hospital, que já fazia seu monitoramento domiciliar desde 23 de março, detectou a necessidade de internação. O herói de guerra havia apresentado sintomas da doença e testou positivo para o novo coronavírus. Para o médico infectologista que acompanhou o

paciente, o Capitão de Fragata Hemerson Cruz, o que mais o impressionou no caso é que o paciente por causa da idade avançada, faz parte de um grupo de risco onde a letalidade chega a 15%. “Todo o prognóstico já era potencialmente grave em virtude da sua idade, mas, surpreendentemente, evoluiu com a melhora do quadro e recuperação. Casos assim nos dão ânimo para seguir nessa luta”, enfatizou o médico. Foram oito dias de internação, dois deles na Unidade de Terapia Intensiva. E o dia da alta veio numa data expressiva. Coincidência ou não, foi também no dia 14 de abril, só que do ano de 1945, que as tropas da FEB conquistaram Montese, na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. A Batalha provocou muitas baixas, mas foi fundamental para a ruptura da linha defensiva alemã e contribuiu, de forma expressiva, para a vitória dos aliados contra o nazifascismo. Em tempos difíceis, em meio a uma pandemia que já matou quase 120 mil pessoas no mundo todo, histórias como a deste militar trazem alento e despertam empatia. Para os profissionais do HFA, a sensação do dever cumprido. Para a família, felicidade e gratidão. Para toda a população, esperança. E para o Pracinha, como são conhecidos os ex-combatentes, a certeza, mais uma vez, de ter feito a “cobra fumar”, expressão que tornou-se símbolo de vitória para a FEB.

Adaptado: <https://www.defesa.gov.br/noticias/67929-ex-combatente-da-forca-expedicionaria-brasileira-vence-a-covid-19>

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UNIVS LANÇA CAMPANHA DE DOAÇÃO DE ALIMENTOS UniVS lança a campanha Corrente do Bem para doar alimentos a instituições filantrópicas. As pessoas não têm fome apenas no Natal. Essa frase, repetida em diversas oportunidades pelo reitor do Centro Universitário Vale do Salgado (UniVS), prof. Jaime Romero de Souza, demonstra o compromisso da Instituição com a responsabilidade social. Diante do cenário de pandemia do novo coronavírus, que começa a afetar a economia do país, a UniVS lançou, no dia 04 de abril, uma campanha de doação de alimentos intitulada Corrente do Bem. A UniVS começa a campanha preparando uma doação inicial de quatro toneladas de alimentos e 1.000 barras de sabão. A Instituição acredita que boas ações são necessárias para amenizar um contexto de desigualdade social que só piora em momentos de crise como o atual. O nome Corrente do Bem retrata a possibilidade oferecida para que empresários e cidadãos da região se tornem parceiros da ação e contribuam com a causa solidária, doando alimentos para as pessoas que mais precisam. Essa ação beneficiará moradores de rua, idosos, crianças carentes e outros grupos de grande vulnerabilidade social.

Corrente do bem: #JuntosSomosMaisFortes

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CONHECENDO NOSSA HISTÓRIA

26 DE MARÇO DE 1960

60 ANOS DO FLAGELO DAS ÁGUAS DO ORÓS EM JAGUARIBE mento da barragem, o Exército veio à Jaguaribe para alertar a população sobre o perigo das inundações, evacuar as populações ribeirinhas e da cidade, prestar assistência médica, abrigo e alimentação aos atingidos.

Na foto acima, a cidade de Jaguaribe que, cercada pelas águas, viveu dias dramáticos. Mais de cem casas foram destruídas. Fonte: Revista O Cruzeiro, edição 27, de 16/04/1960

A

os 17 minutos do dia 26 de março de 1960, início da madrugada, ocorre o rompimento da Barragem do Orós, devido às fortes chuvas e as obras que não foram concluídas a tempo. Segundo Valdir Uchôa (2017) as obras de conclusão da Barragem do Orós não foram concluídas porque o Presidente do Brasil, Juscelino, deslocou o maquinário das obras, de Orós – CE, para a conclusão da Capital Federal, Brasília – DF.

Barragem do Orós transbordando (1960) Fonte: Ceará em Fotos e História.

As águas foram levando tudo o que achavam pela frente num verdadeiro dilúvio, chegando à cidade de Jaguaribe – CE por volta das 8 horas da manhã, deixando um rastro de destruição, sucumbindo 60% das edificações (prédios e casas) da cidade. Como a cidade tinha sido evacuada antes não ocorreu nenhuma morte humana. Ocorreu apenas destruição material e a cidade ficou parecendo um campo de guerra após uma grande batalha, muita destruição segundo Chico Guimarães (2020). O Prefeito municipal de Jaguaribe, o Sr. Francisco Queiroz Diógenes (Seu Chico Queiroz) fez um Termo de Registro da catástrofe, em 23 de dezembro de 1960, extraído de Jaguaribe Minha Terra – 15 – cronologia 2ª parte (2017): [...] “A catástrofe que sofreu esta cidade, que foi um estado proclamado de calamidade pública, foi testemunhada pelo Dr. Juiz e demais autoridades e por todos mais [...]” Segundo Eva Holanda (2008), na iminência do arromba-

Acostumado ao flagelo das secas, o cearense agora conheceu outra espécie de drama: o flagelo das águas que avolumaram no Orós e correram pelo leito do Jaguaribe, ameaçando tudo destruir. As populações deixaram as cidades e tiveram que viver mais de uma semana, em condições bem precárias. Homens e mulheres, velhos e crianças, todos se amontoaram em pequenas barracas improvisadas. Fonte: Revista O Cruzeiro, edição 27, de 16/04/1960

A estratégia do DNOCS e do Exército foi baseada em identificar as áreas de risco, retirar a população para áreas mais altas (sem risco de serem inundadas), forneceram roupas, lonas para barracas, alimentos, medicamentos e coordenar o acampamento instalado na Fazenda Pitombeira. Nas áreas de difícil acesso lançavam de avião panfletos de alerta para o perigo iminente. Segundo Eva Holanda (2008) um desses panfletos dizia: “Com o rompimento da barragem, todas as pessoas residentes nessas localidades estão com suas vidas em grande perigo, pois serão levadas pelas águas.” Depoimento de pessoas que viveram a tragédia das águas em Jaguaribe – CE: Antônio Ferreira Mendes: assisti de pertinho todos movimentos, arromba, não arromba, até que se foi, escapei com meus familiares no cruzeiro, na casa do senhor Braz, um humilde chapeado da cidade. Nely Peixoto Guedes: Meu Um dos panfletos pai era desacreditado, dizia Fonte: www.google.com que era exagero. Fomos escapar no Agreste, na época fazenda de Seu Benjamin Norberto. Fomos no carro de seu Américo juntos com a família de Sigefredo. Foi muito sacrifício, tormento, sofrimento, só acredita quem viveu, contar é inacreditável.

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Pesquisador da história jaguaribana.

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CRÔNICA

ISOLAMENTO

M

e disseram que era por causa da peste, a recusa do abraço, a ausência do entrelaçar de mãos, o medo de se aproximar do outro e sentir o seu odor, a sua paz ou a sua aflição. A peste minuscular com potencial devastador. Houve outras pestilências, invisíveis a olhos naturais, perceptíveis em seus desaforos corpóreos: febre, dores, agonia, silêncio. Dizem que esse vírus lembra uma coroa como a de um rei. E como rei impõe os seus ditames, estabelece suas regras. O mundo em reboliço, ora em desespero, ora atônito diante do abismo. Uns falam que a pandemia levará o planeta a um pequeno descanso; outros vislumbram um revisar do que há de humano em nós. Seja o que for, não nos coube, na imensidão dos mistérios, refutar, mas aceitar, seja com resignação ou revolta. Parar. Olhar ao redor de si, sentir o medo nos olhos do mundo, compartilhar a dor dos solitários, acompanhar enterros velozes e vazios. O choro contido pela falta de ar. As ruas desabitadas, a vida silenciosa. A família reunida projeta o futuro enquanto olha receosa para o presente. A praga. A tosse que se houve e estremece a alma, o mundo em febre. O mal que atravessa os oceanos, corre desenfreado pelas planícies, rompe fronteiras, entra pelas vias aéreas sem licenciamento, encurta a respiração. Ciclos se fecham. O vírus é letal, saiu no noticiário que ainda não há remédio. Isolem-se! Fujam cada um para os seus porões. Uma oportunidade para limparmos as sebosidades que vamos entulhando, enquanto a vida se faz em correria diária. Limpar os nossos abismos para evitar infecções. A vida inteira é passiva de contaminação. O mundo é virulento, sofrendo contínuas inflamações. Agora se

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recolhe para ter forças de continuar. A calamidade anunciada, flagelo de todas as gentes, impingindo freio. O olhar pela janela enxerga as portas fechadas, as ruas despovoadas, o vazio da alma. O mundo pede silêncio, cortado pelo barulho das sirenes das ambulâncias, pedindo passagem a ninguém. Percebe-se: o dinheiro não compra tudo. O vírus é indiferente as contingências sociais, não concede privilégios, não considera percursos, desconhece amizades e influências, não faz concessões. As maiores potências se curvam, fazem pregão para novas sepulturas. Mas os corpos não podem esperar. O vírus segue reinando. Os governos lutam para derrubar a sua coroa, os centros de pesquisa estudam sua composição, enquanto ele decompõe vidas, recompõe histórias. Talvez um recomeço. Mas a verdade é que o homem sempre foi hospedeiro de muitos males que se alastram irremediavelmente. Pragas virulentas que corrói a alma e reverberam no olhar, nos gestos, em mãos assustadoramente ferozes. Moléstias. Há muitas pragas no mundo. Algumas delas habitam o coração do homem e nem o melhor microscópio consegue apontar a sua presença, mas sabese dos sintomas, sente-se as consequências da peste. E na silenciosa agonia de viver com pouco remédio para adoecimentos da alma, seguimos. Há muitas pragas. Estão expurgando as ruas. Há que se expurgar também por dentro.

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Efigênia Alves

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MATÉRIA DE CAPA Coronavírus atrai oportunismo e impõe desafios à democracia no mundo

Da América do Sul à Europa, políticos tomam decisões mal explicadas que extrapolam o combate à pandemia - e isso pode ser perigoso

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história mostra que em toda crise sanitária há uma crise política. Foi assim com a peste negra, que no século XIV reformulou o feudalismo, e também com a gripe espanhola, que após surgir em 1917 contribuiu para moldar o cenário global durante e após a Primeira Guerra Mundial. Hoje, em 2020, vemos a história se repetir: junto com o avanço da pandemia de coronavírus, despontam guerras de narrativas entre políticos opositores, restrições de direitos e decisões tomadas de forma monocrática. A grande dúvida é: diante de uma emergência de saúde pública, decisões arbitrárias são necessariamente gestos autoritários que ameaçam a democracia? A resposta é: depende. “Os governantes vão colocar em prática medidas que podem restringir direitos já garantidos. Mas como saber se essa medida é legítima? Olhando sua justificativa”, diz Deisy Ventura, coordenadora do doutorado em Saúde Global da Universidade de São Paulo (USP). A especialista, que fez um estudo pioneiro sobre a relação do direito internacional na pandemia da gripe A (H1N1) em 2013, destaca a necessidade de se avaliar a proporcionalidade das medidas sob a ótica das evidências científicas e, fundamentalmente, pela perspectiva da saúde pública. Nessa direção, é possível compreender a necessidade, por exemplo, de adiar eleições para evitar aglomerações, como fez a Bolívia na semana passada. Depois de meses de preparação por conta de um pleito eleitoral que foi acusado de ser fraudado e culminou na renúncia de Evo Morales, o país iria às urnas em 3 de maio. Agora, o Tribunal Supremo Eleitoral vai negociar com os partidos uma nova data. Mas, até nessa situação, é preciso cautela, diz Jakub Jaraczewski, diretor jurídico da organização Democracy Reporting. “O impacto da covid-19 nos processos democráticos é real: eleições e referendos estão sendo adiados ou cancelados. Os parlamentos de todo o mundo lutam para encontrar soluções para trabalhar remotamente sem precisar se sentar com algumas centenas de pessoas em uma câmara”, diz em e-mail à EXAME. Do lado oposto, no entanto, há uma outra movimentação de políticos populistas, que se aproveitam de brechas institucionais, em um momento de crise, para se promover ou ampliar seus poderes políticos. “Alguns de forma mais aberta outros menos, mas é simplesmente oportunismo”, afirma Ventura. Essa lógica pode ser atribuída ao pronunciamento em cadeia nacional do presidente Jair Bolsonaro nesta terça-feira, 24, no qual questionou medidas de isolamento social impostas por governadores em algumas das regiões mais afetadas pela doença. As medidas foram impostas, principalmente, por João Doria (PSDB), em São Paulo, e Wilson Witzel (PSC), no Rio de Janeiro — estados com as duas principais aglomerações urbanas do país.

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AMPLIAR PODERES O risco de governos se aproveitarem da epidemia, que já matou quase 20.000 pessoas no mundo, para promover fechamento político levou a área de direitos humanos da Organização das Nações Unidas a lançar um manifesto pedindo para que países “evitem o excesso de medidas de segurança”. Em documento divulgado na última semana, os especialistas escrevem que “qualquer resposta de emergência ao coronavírus deve ser proporcional, necessária e não discriminatória”. “As restrições tomadas para responder ao vírus devem ser motivadas por objetivos legítimos de saúde pública e não devem ser usadas simplesmente para conter a dissidência”, dizem. Na Hungria, o primeiro-ministro ultranacionalista Viktor Orbán tentou aprovar no Parlamento um projeto de lei que o permitiria estender o atual estado de emergência no país indefinidamente, sem data para acabar, assim como suspender leis e, basicamente, governar por decretos sem passar nenhuma decisão pelos parlamentares. A proposta foi recusada, mas ele já informou que tentará novamente. Já em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que deveria começar a ser julgado nesta semana sob acusações de suborno, fraude e quebra de confiança, fechou tribunais e ameaçou suspender as atividades do Parlamento por uma semana, apesar de ter adotado medidas imediatas para conter a crise sanitária. A justificativa do premiê para as atuais decisões é o avanço do coronavírus, mas a medida na prática adiou seu julgamento por dois meses. Em artigo da semana passada, o New York Times escreve que “enquanto [Netanyahu] se movimenta para proteger a nação da pandemia, o premiê também está colocando a democracia em risco”. Uma das principais preocupações de especialistas e autoridades democráticas é de que discursos que potencialmente afetam direitos humanos, como aqueles anti-imigração, de fechamento de fronteiras e endurecimento de medidas de segurança, ganhem força com a disseminação do coronavírus. Logo que a Europa anunciou o fechamento das fronteiras para conter a propagação do vírus, Nigel Farage, porta-voz da campanha do Brexit, declarou que esse era “o fim do projeto europeu”. Segundo ele, “agora somos todos nacionalistas”, em referência a um discurso de soberania e teses nacionalistas. Nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça solicitou ao Congresso autorização para que seus principais juízes possam prender pessoas indefinidamente e sem julgamento, durante a quarentena. Diante de tantos exemplos preocupantes, a chanceler alemã, Angela Merkel, foi na direção contrária. Em raro discurso televisionado, ela reforçou a importância de que medidas fossem comunicadas de forma clara e transparente para que não houvesse dúvida sobre sua motivação: “Para alguns como eu, para quem a liberdade de viajar e de movimento foi um direito duramente conquistado, tais restrições podem apenas ser justificadas quando são uma necessidade absoluta. Em uma democracia, elas nunca deveriam ser decididas levianamente e devem ser apenas temporárias – mas no momento elas são indispensáveis para salvar vidas”. Adaptado: <https://exame.abril.com.br/mundo/coronavirus-atraioportunismo-e-impoe-desafios-a-democracia-no-mundo/?utm_source= whatsapp>.

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