A reportagem especial apresenta os novos projetos que vêm sendo realizados pelas concessionárias de saneamento, em especial com a integração do reúso a plantas industriais e data centers como solução estrutural de gestão hídrica.
Serviço
Guia de empresas de projetos, instalações e serviços técnicos especializados
Com a necessidade de novas redes e estações de tratamento de água e esgoto capazes de atender o marco do saneamento, as empresas de projeto, engenharia e construção ganham cada vez mais destaque no mercado. Veja no guia onde encontrá-las.
Estudo de caso
Desaguamento de lodo de ETE usando berço drenante móvel
Este artigo apresenta um estudo de caso real em um shopping center cuja ETE - Estação de Tratamento de Esgoto gera semanalmente cerca de 12 m³ de lodo. A técnica utilizada foi a de desaguamento em tubos geotêxteis sobre berço móvel composto por caçamba roll-on modificada e patenteada.
Serviço
Guia de reservatórios
O levantamento relaciona os fornecedores de reservatórios no país, com informações como materiais, formas construtivas, capacidades e tipos de tampas e fundos, além de incluir tanques para ETEs – Estações de Tratamento de Efluentes.
Reúso
Avaliação de sistemas de osmose inversa no tratamento de lixiviado
Realizada em dois aterros sanitários do Nordeste brasileiro, a análise mostra que sistemas de osmose inversa alcançaram remoções superiores a 99% de contaminantes presentes no lixiviado, produzindo permeado compatível com padrões de reúso urbano, agrícola e florestal.
Serviço
Guia de aeradores, compressores e sopradores
A pesquisa traz a oferta nacional de aeradores, compressores e sopradores, equipamentos fundamentais para aumentar a oxigenação das estações de tratamento de efluentes, bem como informações sobre materiais e tipos de difusores.
Reúso de água deixa de ser alternativa para se tornar infraestrutura crítica
A expansão do reúso de água no Brasil deixou de ser apenas uma agenda ambiental ou de eficiência operacional. Em um cenário marcado por escassez hídrica crescente e pressão sobre os mananciais urbanos, o tema passa a ocupar um papel estratégico para garantir competitividade econômica, segurança e atração de investimentos.
A reportagem especial desta edição mostra que esse movimento já começou. Projetos estruturados por concessionárias como Sabesp, Sanasa, Aegea e Cagece revelam uma mudança importante: o esgoto tratado deixa de ser um passivo ambiental e passa a ser visto como matéria-prima para uma nova economia da água.
A transformação ocorre justamente no momento em que os grandes centros urbanos enfrentam restrições cada vez maiores para novas captações. Regiões como Campinas, Grande São Paulo, Rio de Janeiro e Fortaleza convivem com pressão sobre reservatórios, variabilidade climática e aumento contínuo da demanda. Ao mesmo tempo, surgem novos consumidores intensivos em água, como data centers voltados a aplicações de IA – Inteligência Artificial, hidrogênio verde, mineração crítica e indústrias de alta pureza.
No caso dos data centers, a questão se torna ainda mais sensível. A corrida global vem impulsionando a construção de instalações de altíssima densidade computacional, cujo consumo elétrico é acompanhado por forte demanda hídrica para sistemas de resfriamento. Em mercados internacionais, já há casos em que o acesso à água se tornou fator determinante para aprovação ou rejeição de novos empreendimentos. O Brasil, que busca se posicionar como destino para infraestrutura digital e cargas de IA, precisará inevitavelmente enfrentar esse debate.
Nesse contexto, o reúso surge não apenas como solução ambiental, mas como condição para expansão econômica sustentável. Não por acaso, empresas globais de tecnologia passaram a adotar metas de “Water Positive”, exigindo que seus projetos contribuam para reposição ou compensação hídrica das regiões onde operam. A tendência abre uma oportunidade importante para o saneamento brasileiro, especialmente em cidades que já possuem cobertura avançada de coleta e tratamento de esgoto.
Hoje, ainda existe uma assimetria evidente entre o baixo custo da captação convencional e o investimento necessário para produzir água regenerada. Sem mecanismos que valorizem a segurança hídrica e internalizem os custos ambientais da escassez, muitos projetos de reúso continuarão dependendo de situações críticas para se viabilizar.
Mas a direção parece irreversível. Em um país que pretende ampliar sua base industrial, atrair data centers, expandir o hidrogênio verde e enfrentar eventos climáticos extremos, o reúso de água tende a deixar de ser diferencial competitivo para se consolidar como infraestrutura essencial.
Sandra Mogami – Editora sm@arandaeditora.com.br
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ISSN 1980-2218
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Notícias
Alfamec: aerador patenteado reduz consumo de energia em ETEs
Abusca por eficiência energética e redução de custos operacionais tem ampliado o espaço para novas tecnologias no setor de saneamen to. Nesse cenário, a Alfamec destaca o Alfa Turbo, aerador superficial de alta rotação e fluxo descendente para sistemas biológicos de tratamento de esgoto.
Fundada em 2006, a Alfamec está sediada em Ribeirão Pires, SP, com engenharia e fabricação próprias, atendendo clientes dos setores indus trial, hospitalar, comercial, condomi nial e de saneamento. Além de esta ções de tratamento de água e esgoto, sistemas para reúso e separadores de água e óleo, a empresa desenvolve tec nologias para aeração, incluindo mo‑ delos de baixa rotação.
O Alfa Turbo é considerado atual‑ mente o principal destaque tecnoló gico da fabricante, com patente na cional após cerca de quatro anos de desenvolvimento. O equipamento foi projetado para operar em lagoas e reatores biológicos, promovendo in trodução de oxigênio com menor consumo energético em compara ção aos modelos convencionais de fluxo ascendente e aos sistemas de ar difuso. “O Alfa Turbo possui intro dução de ar por convecção forçada, que possibilita introduzir o dobro de oxigênio em condições normais de temperatura e pressão (CNTP). Isso significa que uma ETE que tenha ae radores comuns instalados, com po tência total de 100 CV, necessitaria de apenas 50 CV para realizar o mesmo trabalho”, afirma Carlos Manuel Ca bezas Garate, engenheiro e fundador
da Alfamec. Os aeradores res pondem por cerca de 60% a 70% do consumo elétrico total de uma estação de tratamento de esgoto. A proposta do Alfa Turbo é justamente reduzir essa demanda energética mantendo a mesma capacidade de oxige nação. O equipamento alcança taxa de introdução de oxigênio de 2,4 kg O2/CVh, equivalente a 3,26 kg O2/kWh, enquanto aerado res convencionais operariam em faixa entre 1,2 e 1,8 kg O2/CVh.
Aerador superficial de alta rotação e fluxo descendente da Alfamec: menor consumo de energia com a mesma capacidade de oxigenação
A principal diferença em relação aos aeradores superficiais convencio nais está no sistema patenteado de fluxo descendente associado a uma turbina interna instalada em carcaça de aço inoxidável. Enquanto os mo delos tradicionais utilizam apenas o efeito de sucção gerado pela hélice, o Alfa Turbo incorpora um sistema adi cional de turbina responsável por am pliar a aspiração de ar atmosférico e aumentar a transferência de oxigênio para o efluente. “Um aerador normal aspira o ar e joga junto com o oxigênio para o reator. Nós criamos um turbo, uma turbina junto com o acoplamen to. Então hoje não é apenas a hélice que aspira; a turbina ajuda a puxar o ar da atmosfera e jogar maior quanti dade para dentro do tanque”, explica o fundador da empresa.
Outro diferencial é o fluxo descen dente do equipamento. Diferente mente dos aeradores de fluxo ascen dente, que lançam efluente ao ar e podem gerar dispersão de gotículas e aerossóis contaminados, o Alfa Turbo direciona o fluxo para baixo, reduzin do a formação desses aerossóis.
O sistema também melhora a mis tura do reator biológico, evitando zo nas de deposição de lodo e reduzindo riscos de processos anaeróbios asso
ciados à geração de odores, como sul feto de hidrogênio (H2S). Em sistemas de ar difuso é comum a necessidade de utilização complementar de mistu radores de fundo para garantir homo geneidade no tanque.
Além da eficiência operacional, a Alfamec destaca vantagens relacio nadas à implantação e manutenção. O Alfa Turbo pode ser utilizado em projetos de retrofit aproveitando mo tores e boias já existentes, sem neces sidade de reformas estruturais ou al terações elétricas relevantes. Segundo a fabricante, o Capex de implantação do sistema pode representar cerca de 25% do custo de um sistema de ar difuso equivalente, principalmente pela eliminação de sopradores, redes extensas de tubulação e difusores submersos.
Entre os clientes estão empresas dos setores de saneamento, papel e celulose, siderurgia e agronegócio. Com a Sabesp foi firmado um proto colo de testes. Na ETE Parque Andre ense, em Santo André, um aerador convencional de 25 CV foi substituído por um Alfa Turbo de 10 CV. Já na ETE Marlene Miranda, em São José dos Campos, a troca ocorreu entre um equipamento de 15 CV e outro de 7,5 CV. Os resultados foram acompa‑ nhados por análises laboratoriais rea lizadas por terceiros e comprovados eficientes.
Notícias
Com a crescente pressão por so luções sustentáveis e eficiência no uso de recursos, tecnologias voltadas ao reúso de água tendem a ganhar relevância no mercado. Para Kochen, a tendência é de expansão, especial mente em novos empreendimentos.
“Implantar um sistema de reaprovei tamento deixou de ser apenas uma questão ambiental e passou a ser também uma decisão econômica e de valorização do imóvel”, conclui.
ReusÁgua – Tel. (11) 99328-3434
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Ecocasa aposta em tratamento descentralizado para acelerar universalização do saneamento
AEcocasa, empresa do grupo
Global Ecosolutions, está am pliando sua aposta em sistemas descentralizados de tratamento de esgoto como alternativa para acele rar a universalização do saneamento no Brasil. A estratégia da companhia
ocorre em meio à pres são das concessionárias para cumprir as metas estabelecidas pelo novo marco legal do sanea‑ mento até 2033, es pecialmente em áreas rurais, comunidades iso‑ ladas e regiões onde a expansão das redes cole toras convencionais apre‑ senta alto custo ou baixa viabilidade técnica.
ETE descentralizada da Ecocasa: alternativa para ampliar o acesso ao saneamento em regiões sem cobertura de redes coletoras convencionais
Segundo Henrique Pereira, diretor de comunicações e marketing (CCO) do Grupo Ecosolutions, o modelo des‑ centralizado permite levar atendimen‑ to a locais que dificilmente seriam alcançados pela infraestrutura tradi cional de coleta e tratamento centra lizado.
“O descentralizado é justamente esse conceito de resolver o problema onde ele está. Muitas vezes são casas afastadas da malha urbana, áreas ru rais, chácaras ou comunidades onde não faz sentido econômico puxar qui lômetros de tubulação para conectar a uma ETE centralizada”, afirmou.
De acordo com ele, as conces sionárias vêm ampliando o interesse por esse tipo de solução para aten der populações dispersas. Sistemas descentralizados podem reduzir cus tos de implantação e operação, além de diminuir o tempo necessário para expansão dos serviços. “Quando se trabalha com sistemas compactos e pontuais, o custo de implantação é menor, a operação é mais controlada e a manutenção tende a ser menos recorrente”.
A Ecocasa fornece soluções como a EcoTED, estação compacta de trata mento aeróbio de esgoto doméstico
Notícias
cursos presenciais e online em diferentes regiões do país, e uma divisão de projeto e engenharia.
Fundada em 2001, a Ecocasa afirma já ter atendido mais de 6,2 mil obras, com cerca de 43,2 mil m³ de esgoto tratados e 18 mil m³ de água de chuva captados. Atualmente, a empresa mantém projetos com concessionárias como Sabesp, Copasa, Sanepar, Aegea e BRK, além de atuar junto a incorporadoras, loteadoras, condomínios e indústrias.
Ecocasa – Tel. (11) 99111-1567
Site: https://ecocasa.com.br/
Empresa holandesa de perdas de água chega ao Brasil
AHULO, desenvolvedora europeia de software para detecção de vazamentos, passou a contar com um representante oficial no Brasil. A operação da companhia holandesa no país está sob a responsabilidade de Tjitte van der Werf, gerente de negócios para a América Latina.
Fundada em 2021, a empresa surgiu da demanda de concessionárias de água holandesas por soluções capazes de reduzir falsos alarmes em sistemas de detecção de perdas. Após quatro anos de pesquisa, a HULO desenvolveu uma plataforma que combina física, machine learning, IoT – Internet das Coisas (redes de distribuição) e algoritmos de IA – Inteligência Artificial para detectar, em tempo real, anomalias em estágios iniciais.
“Na Holanda, os índices de perdas de água giram em torno de 5%, enquanto no Brasil podem chegar a 50%. Nossa solução pode contribuir para reduzir esse cenário”, diz Werf.
Os dados de vazão e pressão são coletados por sensores instalados nas tubulações. Após a captação, a IA é responsável por filtrá-los e analisá-los, gerando insights que detectam, dimensionam e localizam novos zamentos em tempo real. As informações são transferidas em lotes para um servidor próprio em nuvem via APIs ou protocolo MQTT. “A HULO utiliza sensores da própria concessionária, independente do fabricante. Também podemos, se necessário, aplicar outros protocolos”, ressalta o gerente de negócios.
Além das perdas, a HULO fornece informações sobre quedas de pressão, pontos cegos e a situação de bombas e válvulas. Para detalhar o subsolo, a plataforma pode criar gêmeos digitais.
“Os modelos podem ser treinados com apenas duas semanas de dados, pois não geram alarmes baseados em informações de um período anterior, além de se adaptarem a possíveis mudanças realizadas na infraestrutura da rede em tempo real”, explica Werf.
Com colaboradores de diversas nacionalidades, a HULO atende concessionárias na Europa e América Latina. A empresa é certificada pela ISO 27001, padrão internacional de gestão
de segurança da informação, e atua em conformidade com a NIS2, diretiva europeia que assegura o correto manuseio e proteção dos dados coletados.
HULO – Tel. (51) 98402-6100 Site: www.hulo.ai
B&F Dias aposta em modelo baseado em performance
AB&F Dias, fabricante nacional de sistemas de aeração por ar difuso, está concentrando esforços em três frentes: inovação tecnológica, expansão do portfólio e novos modelos de negócio. Além da ampliação das soluções de tratamento por membranas, incluindo ultrafiltração, osmose reversa
Plataforma HULO em operação
Solução eBox fabricada pela B&F Dias
Notícias
e eletrodeionização para produção de água de reúso, a empresa tem investido em soluções compactas e descentralizadas, como a linha de ETEs eBox.
“O mercado de saneamento tem adotado tecnologias mais avançadas, soluções descentralizadas e contratos baseados em desempenho, fatores alinhados com o atual posicionamento da B&F Dias”, afirma Francisco Faus, gerente comercial da empresa.
No plano estratégico, a B&F Dias tem expandido sua atuação para novas verticais, além de ampliar áreas já existentes. Atualmente, a empresa trabalha com produtos para tratamento de água e efluentes, incluindo fornecimento de componentes, sistemas móveis para produção de água desmineralizada, tecnologias baseadas em membranas e soluções conteineirizadas.
Além da ampliação do portfólio tecnológico, a B&F Dias também aposta no crescimento das receitas recorrentes por meio de contratos de operação, locação e prestação de serviços. A estratégia inclui a expansão da divisão de locação, que passou a incorporar tecnologias como ultrafiltração (UF) e sis-
temas biológicos compactos, ampliando a oferta para aplicações temporárias e de rápida implantação. Outra frente é a nacionalização de componentes e equipamentos, especialmente na área de aeração, com o objetivo de reduzir custos, aumentar a competitividade e fortalecer a cadeia produtiva local. Instalada em uma planta com mais de 50 mil m² em Vinhedo, SP, a B&F Dias já forneceu sistemas de aeração e equipamentos para tratamento de água e esgoto para mais de 5000 estações no Brasil e no exterior. Com 36 anos de mercado, a empresa conta com três fábricas: aço inoxidável, termoplástico e unidades de tratamento de água.
B&F Dias – Tel. (19) 98305-4748
Site: www.bfdias.com.br
Güven Saneamento: projeto e implantação de estações de tratamento
Anecessidade de otimizar o tratamento de efluentes industriais e
ampliar o reúso de água tem impulsionado a adoção de sistemas mais sofisticados de tratamento no setor industrial brasileiro. Nesse cenário, a Güven Saneamento, de Sorocaba, SP, vem ampliando projetos voltados à sustentabilidade por meio da automação de estações e de soluções customizadas.
Com uma carteira de clientes composta majoritariamente por indústrias, a empresa desenvolve projetos de ETAs – Estações de Tratamento de Água, ETEs – Estações de Tratamento de Esgoto, ETDIs – Estações de Tratamento de Despejos Industriais, EEEs – Estações Elevatórias de Esgoto e captação de água de chuva para reúso. “Também implantamos projetos elaborados por terceiros mediante avaliação técnica prévia”, diz Eduardo Beserra, Diretor da Güven Saneamento.
Os equipamentos e dispositivos instalados nos projetos seguem especificações definidas pelos clientes, abrangendo desde marcas de equipamentos até níveis de automação e comunicação intranet, integração com sistemas supervisórios das unidades fabris, telemetria e geração de rela-
Novos projetos de reúso de água
O reúso de água avança no Brasil como uma resposta estratégica à escassez hídrica, ao aumento da demanda industrial e à necessidade de maior segurança no abastecimento. A reportagem especial apresenta os novos projetos que vêm sendo realizados pelas concessionárias de saneamento, em especial com a integração do reúso a plantas industriais e data centers como solução estrutural de gestão hídrica.
Impulsionado pela combinação entre escassez hídrica e avanço das metas de sustentabilidade, o reúso de água vem ganhando espaço na agenda de concessionárias de saneamento e indústrias no Brasil. O movimento acompanha uma tendência global de valorização da água tratada como alternativa para ampliar a segurança hídrica, preservar mananciais destinados ao abastecimento humano e viabilizar novos empreendimentos industriais, data centers e projetos ligados à transição energética. A seguir, veja algumas das iniciativas de reúso em São Paulo, Ceará e Rio de Janeiro.
Aegea
A Aegea vem ampliando sua atuação no mercado de reúso de água como uma frente complementar ao negócio de saneamento, com foco no atendimento à demanda industrial por segurança hídrica. A estratégia é conduzida pela Apura, unidade de negócios criada em 2024 para desenvolver, implantar e operar projetos de gestão e reúso integrados às concessões da companhia.
Segundo João Emilio Gonçalves, presidente da Apura, o modelo busca aproveitar a sinergia entre os ativos de saneamento e a necessidade crescente de água por parte da indústria. Entre os principais projetos em desenvolvimento está o fornecimento de água de reúso para o Complexo de Energias Boaventura, antigo Comperj, em Itaboraí, RJ, em parceria com a Petrobras, com capacidade de 476 L/s. O volume de água poupado será o equivalente ao consumo de mais de 300 mil pessoas. O empreendimento utilizará efluentes tratados na ETE - Estação de Tratamento de Esgoto de São Gonçalo, operada pela concessionária Águas do Rio, que posteriormente passará por processos adicionais de tratamento na unidade industrial da Apura até atingirem os padrões exigidos para uso industrial. De acordo com a companhia, o projeto também está associado à ampliação da infraestrutura de esgotamento sanitário na região de São Gonçalo e contribui para reduzir a captação de água no sistema Guandu, responsável pelo abastecimento de cerca de 80% da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Sandra Mogami, da Redação da Hydro
João Emilio Gonçalves, da Apura: reúso oferece maior previsibilidade de abastecimento. Divulgação Aegea
Outro projeto considerado estratégico é o fornecimento de água de reúso para operações industriais da Braskem no polo petroquímico de Duque de Caxias, RJ, de 236 L/s. As obras anteciparão em três anos a ampliação da oferta de saneamento básico às comunidades próximas à operação industrial e reforçarão o abastecimento local, beneficiando mais de 260 mil moradores. A iniciativa prevê a implantação de uma Estação de Produção de Água Industrial com tratamento avançado, além de sistemas de adução e bombeamento.
Ambos os projetos de reúso da Aegea estão em fase de implementação com expectativa de operação em 2027 e 2028, respectivamente.
A companhia avalia que a expansão do reúso tende a acompanhar o avanço dos investimentos em coleta e tratamento de esgoto no país. “À medida que avançam os investimentos em coleta e tratamento de esgoto, amplia-se a disponibilidade de efluentes tratados, criando as condições para o desenvolvimento de novos projetos de reúso em escala”, afirmou Gonçalves.
Setores industriais intensivos em consumo hídrico devem liderar a demanda por água de reúso nos próximos anos. Entre os segmentos citados estão petroquímica, papel e celulose, siderurgia, mineração e química, além de novas frentes de consumo intensivo, como infraestrutura urbana e data centers.
Sobre os desafios para expansão do mercado, a Aegea aponta principalmente questões econômicas. Segundo a companhia, a diferença de custo entre a captação convencional e a produção de água de reúso ainda reduz os incentivos para adoção da solução, sobretudo em razão da ausência de mecanismos mais amplos de cobrança pelo uso da
água. “Em um cenário de eventos de escassez mais frequentes, no entanto, o reúso passa a ser considerado uma alternativa estratégica para garantir fontes confiáveis e previsíveis de abastecimento”, afirmou o executivo.
Outro ponto destacado pela empresa é o elevado custo de capital para projetos intensivos em infraestrutura. Para contornar essa limitação, a companhia afirma adotar um modelo no qual projeta, financia, constrói e opera os sistemas de reúso, permitindo que o cliente contrate a água como serviço, sem necessidade de investimento direto nas instalações.
A companhia também defende que o reúso oferece maior previsibilidade de abastecimento em relação à captação direta em mananciais, por estar menos sujeito às oscilações hidrológicas associadas a períodos de estiagem.
Site: https://www.aegea.com.br/
Sabesp
A Sabesp ampliou sua atuação em reúso de água, dentro de uma estratégia voltada à economia circular e à segurança hídrica. Em 2025, a companhia operou 30 contratos de fornecimento, com volume total de 1,035 bilhão de litros no ano, dos quais mais
de 860 milhões de litros foram entregues por ligação direta de rede. O potencial de produção estimado é de 84,5 milhões de litros por dia, associa-
do a ETEs como Barueri, São Miguel, Parque Novo Mundo e ABC.
A empresa também fechou contratos voltados a setores de maior demanda hídrica. Um deles prevê o fornecimento de 11 milhões de litros por mês de água de reúso para um data center em Barueri, na Grande São Paulo. Inicialmente, a entrega será feita por caminhão-pipa, com previsão de implantação de uma rede direta a partir da ETE Barueri. A solução será aplicada em processos não potáveis, como sistemas de resfriamento, reduzindo a necessidade de uso de água potável.
Outra frente é o contrato com a Jervois Brasil, fornecedora de materiais de cobalto e níquel. O acordo prevê a entrega de 40 milhões de litros por mês por ligação direta a partir da ETE São Miguel, na zona leste de São Paulo. A água será destinada à refinaria de São Miguel Paulista, unidade de níquel e cobalto em processo de retomada, com investimento previsto de US$ 130 milhões e ramp-up ao longo de 2027.
Com os novos contratos, a Sabesp busca posicionar o reúso como insumo para setores associados à nova economia, como data centers, inteligência artificial, minerais críticos e transição energética. A proposta é substituir água potável por efluente tratado em processos industriais de grande escala e demanda contínua, preservando mananciais para o abastecimento humano.
https://www.sabesp.com.br/
Sanasa
A Sanasa, empresa de saneamento de Campinas, SP, prepara a ampliação mais significativa de sua produção de água de reúso. Com o retrofit da ETE - Estação de Tratamento de Esgotos Anhumas, previsto para
ETE Barueri, maior estação de tratamento de esgoto da América Latina: reúso para indústrias e data centers
Especial
ser concluído em dezembro de 2026 e entrar em operação em janeiro de 2027, a companhia passará a tratar cerca de 50% do esgoto gerado no município em nível terciário, produzindo água com elevado grau de pureza para aplicações industriais e potencial fornecimento a data centers.
A unidade será transformada em uma EPAR - Estação Produtora de Água de Reúso e deverá se tornar a maior do gênero no Hemisfério Sul. “Isso é sensacional, pois Campinas é uma região de escassez hídrica”, afirma o diretor técnico da Sanasa, Marco Antonio dos Santos.
A EPAR Anhumas terá vazão de pico de 1441 L/s e utilizará membranas de ultrafiltração associadas à tecnologia holandesa Nereda, baseada em lodo ativado granular. O sistema permitirá produzir água de reúso com pureza próxima de 99%, em padrão semelhante ao já obtido pela EPAR Capivari II.
A Sanasa foi pioneira no uso de estações de produção de água de reúso em Campinas. A EPAR Capivari II entrou em operação em 2011, com capacidade de 360 L/s e eficiência de 99,71%. Já a EPAR Boa Vista, em operação desde o ano passado, possui capacidade de 180 L/s. Ambas utilizam sistemas de membranas de ultrafiltração para polimento terciário do esgoto tratado.
De acordo com o executivo, a estratégia da companhia combina segurança hídrica, melhoria ambiental e atendimento a novos empreendimentos intensivos em consumo de água. “A Sanasa se preocupa com o abastecimento populacional para poder entregar essa água de reúso, mas também para o meio ambiente. Vai devolver uma água para o corpo hídrico muito melhor do que a água que nós captamos para o tratamento”, disse.
Obras na ETE Anhumas 2: EPAR será a maior do gênero no Hemisfério Sul quando estiver pronta. Foto: Divulgação Sanasa
O avanço da produção de água de reúso ganha relevância em um contexto de restrição crescente para novas captações hídricas no estado de São Paulo. Nesse cenário, a Sanasa já mantém negociações avançadas com empresas de data centers interessadas em utilizar a água produzida na futura EPAR Anhumas, principalmente para sistemas de resfriamento. Embora os nomes das empresas permaneçam sob confidencialidade, um dos empreendimentos já possui área em implantação na região de Campinas.
“Provavelmente vamos fornecer para um desses data centers que estão se instalando na região de Campinas a água que será produzida na EPAR Anhumas”, declarou. Segundo ele, a localização da estação favorece a logística de fornecimento aos futuros empreendimentos. “A Anhumas, em termos de localização, é que ficaria mais próxima dos data centers”, explicou.
A demanda dos operadores de data centers por água de reúso está associada às metas ambientais das grandes empresas globais de tecnologia. o diretor citou o conceito de “Water Positive”, que busca compensar ou repor o volume de água consumido pelas operações. “As big techs dizem que se for utilizar a água e não tiver um ganho social, ganho à população, elas nem investem”, afirmou. Apesar do interesse crescente, Marco Antonio avalia que a expansão do reúso depende de políticas públicas que reduzam a assimetria econômica entre a água captada diretamente dos ma-
nanciais e a água regenerada. “A água de reúso é difícil de ser comercializada”, afirmou. Segundo ele, enquanto a cobrança pela captação superficial gira em torno de R$ 0,01 por metro cúbico, a água de reúso possui custo significativamente maior devido ao tratamento avançado, de até R$ 3,00 o metro cúbico.
Na avaliação do executivo, seria necessário restringir gradualmente novas outorgas ou reduzir permissões existentes para estimular a adoção do reúso em grandes empreendimentos industriais. “Quem quiser fazer algum empreendimento, uma indústria, um data center, ou o que seja, que precisar de água, deveria pegar uma água de reúso”, disse.
O retrofit da Anhumas também busca ampliar a qualidade ambiental dos corpos hídricos da região. A atual ETE utiliza tratamento anaeróbio, que será substituído por processo aeróbio com remoção de nutrientes, matéria orgânica e sólidos em suspensão. A modernização deverá contribuir para a recuperação do Ribeirão Anhumas, afluente do Rio Atibaia.
“Estamos fazendo um trabalho para alterar a classificação do rio Anhumas, hoje classe 4, para classe 3. E Anhumas com a qualidade da água que vai ser despejada nele é de fundamental importância para que isso possa acontecer”, afirmou.
A obra será executada pela Passarelli, vencedora da licitação estruturada no modelo de projeto e obra integrados. Segundo o diretor técnico, a adoção da tecnologia de membranas permitiu aproveitar parte das estruturas existentes da estação atual, reduzindo a necessidade de expansão física da planta.
Com um total de 16 ETEs e 2 EPARs, Campinas já atingiu a universalização do saneamento 10 anos antes da meta do marco legal. Segundo a Sa-
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Utilitas Pecém/Cagece
O avanço do reúso de água no Ceará ganha escala com a estruturação do Projeto Hidrus da Utilitas Pecém, uma iniciativa que prevê transformar efluentes sanitários dos municípios de Fortaleza, Maracanaú e Caucaia em água de reúso para abastecer o CIPP - Complexo Industrial do Pecém — com foco, sobretudo, na futura demanda do hub de hidrogênio verde.
A Utilitas Pecém é uma SPE (Sociedade de Propósito Específico) formada pela Cagece, PB Construções, GS Inima e Grupo Marquise, em operação desde 2021. Atualmente, é responsável pelo recebimento de efluentes já tratados provenientes de quatro indústrias do complexo e pelo lançamento ao mar, conforme a Resolução Estadual nº 02/2017 do Conselho Estadual do Meio Ambiente do Ceará (Coema).
lagoa de equalização, um sistema de bombeamento com capacidade de 1600 m³/h e um emissário de 7,2 km de extensão, sendo 6 km terrestres e 1,2 km marítimos.
A EPAR – Estação de Produção de Água de Reúso será instalada na região metropolitana de Fortaleza (RMF), ocupando uma nova área, onde o sistema passará a incorporar efluentes sanitários urbanos como insumo. “O fornecimento de efluentes da Cagece para a EPAR é uma aplicação real do conceito de economia circular. Estamos convertendo o que seria descartado em um insumo valioso, garantindo que a água circule mais vezes e gere mais valor antes de retornar ao meio ambiente”, afirma Kamille Sampaio, coordenadora de Negócios Sustentáveis da Cagece. Segundo Daniela Telles, gerente técnica e comercial da Utilitas, o projeto Hidrus é de grande porte e será implantado de forma modular. A primeira fase terá capacidade de 5760 m³/h. A EPAR será responsável por captar e tratar efluentes de 11 ETEs - Estações de Tratamento de Esgoto, além de pontos estratégicos
Lagoa de equalização na Utilitas Pecém: recebimento de efluentes já tratados de quatro indústrias do complexo. Foto: Rayane Mainara
como a EPC – Estação de Pré-condicionamento de Esgoto, totalizando 13 pontos de captação, incluindo grandes interceptores urbanos. A produção será integrada à infraestrutura hídrica do estado, operada pela Cogerh - Companhia de Gestão de Recursos Hídricos, responsável pelo bombeamento ao longo de 36 km do trecho 5 do Eixão das Águas, que leva água da RMF para o CIPP. O sistema conecta reservatórios e permitirá a mistura entre água de açude e água de reúso para abastecimento industrial. “Vai haver uma mescla entre água de açude e água de reúso”, explica Daniela.
Na UTL-H2V, novo site localizado no CIPP, a água de reúso será submetida a um tratamento avançado, com
mose reversa em múltiplos estágios, permitindo adequar a qualidade às di ferentes demandas industriais. “Cada cliente pede uma qualidade diferente. Conseguiremos fazer esse ajuste na linha, com blend de água, atendendo desde parâmetros mais simples até de altíssima pureza”, afirma Daniela. Essa flexibilidade é especialmente re levante para o hidrogênio verde, cuja produção exige água com condutivi dade extremamente baixa. “É uma água muito pura, semelhante à usada na indústria farmacêutica ou em cal deiras de alta pressão”, acrescenta. Além do aspecto técnico, o pro jeto representa um novo modelo de negócios no saneamento. “A Cagece participa como sócia da Utilitas, rece bendo os dividendos devidos, e atua‑ rá como fornecedora, com receita a partir do pagamento da tarifa pelo m³
do efluente sanitário tratado fornecido para a SPE. Com a Utilitas, garantimos o abastecimento de água potável à população. É um case importante de reúso no Brasil”, afirma Kamille.
Do ponto de vista econômico, o reú‑ so tende a se tornar competitivo em relação à água potável industrial, espe cialmente em grandes volumes, o que reforça seu potencial de adoção em po los industriais intensivos em consumo hídrico. Em comparação com a água potável industrial, a água de reúso pode custar de 2 a 3,5 vezes menos, depen dendo da qualidade e do contrato.
A estratégia também responde a restrições crescentes de outorga e uso de recursos hídricos, sobretudo em re giões industriais. Em segmentos como data centers e hidrogênio verde, a limi tação de acesso à água convencional já começa a influenciar decisões de
investimento, abrindo espaço para so luções alternativas como o reúso.
Embora a EPAR esteja em fase de estruturação, com projeto básico e li cença prévia obtidos, sua viabilidade depende da consolidação da deman da no Complexo do Pecém. A expec tativa é que o avanço dos projetos de hidrogênio verde contribua para a de cisão final de investimento.
Além da Utilitas, a Cagece vem re plicando o modelo de SPE em outros empreendimentos. Um exemplo é a VSA, parceria com a Vicunha Têxtil, voltada ao tratamento de efluentes in dustriais em Horizonte e Pacajus. Em operação desde 2023, o sistema já fornece água de reúso para a indústria e avança em sua segunda fase, com expansão da capacidade de produção de 60 para até 130 m³/h.
Site: https://utilitaspecem.com/
Guia de empresas de projetos, instalações e serviços técnicos especializados
Com a necessidade de novas redes e estações de tratamento de água e esgoto capazes de atender o marco do saneamento, as empresas de projeto, engenharia e construção ganham cada vez mais destaque no mercado. Veja a seguir onde encontrar essas empresas e quais são os serviços prestados.
Porte da empresa Abastecimento e tratamento de água
Consultoria e estudos Projeto e especificação Execução e instalação Gerenciamento de obras Manutenção Até 100 funcionários De 100 a 500 funcionários Acima de 500 funcionários Captação/adutora ETA Reservatórios Rede de distribuição Tratamento de água industrial
Utiliza BIM
Esgotamento Serviços técnicos prestados
Rede coletora Estação elevatória ETE –sistema biológico ETE –sistema físico-químico Sistemas hidráulicos Drenagem predial, urbana e subterrânea
Proteção contra incêndio Aquecimento de água Serviços em tubulações Pesquisa de vazamentos não visíveis Impermeabilização de estruturas Gerenciamento de perdas Elétrica e automação Poços tubulares Reúso de água Aproveitamento de água pluvial Medição individualizada Licenciamento ambiental (EIA/RIMA) Remediação de água e solo
Área de atuação da empresa
Porte da empresa
Abastecimento e tratamento de água
Esgotamento Serviços técnicos prestados
Empresa/ Telefone/ E-mail UF
Consultoria e estudos
Projeto e especificação
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Também é possível incluir a sua empresa na versão on-line de todos estes guias.
Estudo de caso
Desaguamento de lodo de ETE usando berço drenante móvel
Este artigo apresenta um estudo de caso real que utiliza a técnica de desaguamento em tubos geotêxteis sobre berço móvel composto por caçamba rollon modificada e patenteada. O caso avalia a operação dessa solução em uma ETE - Estação de Tratamento de Esgoto de um shopping center, que gera cerca de 12 m³ de lodo por semana.
EMatheus Müller, da Salus Engenharia em Deságue; Eduardo Andrade Guanaes, da Huesker Brasil; Luís Fernando Magalhães, da O2eco Tecnologia Ambiental; e Márcia Regina de Freitas, da Unesp - Guaratinguetá
ste artigo apresenta a técnica de desaguamento de lodo com berço móvel, composto de caçamba roll-on especial drenante e refil geotêxtil, expondo sua aplicação em uma ETE - Estação de Tratamento de Esgoto de shopping center.
Tubos geotêxteis
Um sistema de confinamento de resíduo (SCR) é uma bolsa ou tubo em geotêxtil tecido ou não tecido, com propriedades estabelecidas em função das características do efluente que se deseja desaguar e comprimento e perímetro customizáveis [1, 4, 8, 9, 10]. Uma imagem ilustrativa do sistema é apresentada na figura 1.
O termo “bolsa” em geotêxtil é usualmente adotado para SCRs de até 5 m3, geralmente em forma de travesseiro, enquanto “tubo” em geotêxtil está associado a estruturas que assumem a forma tubular após enchimento, com seção transversal entre 3 e 30 m de perímetro e comprimento de até 200 m [5].
Um tubo geotêxtil pode ser preenchido com grande variedade de materiais, como areia, resíduos de mineração, lodo e outros. As aplicações variam desde desaguamento de resíduos de estações de tratamento até construção de estruturas de proteção costeira, como diques e molhes [8]. Apresenta boa função filtrante, com capacidade de reter a parte sólida
Fig. 1 – Desaguamento com tubo geotêxtil
enquanto permite a saída da parte líquida [6].
O processo em um tubo geotêxtil é descontínuo e misto. Ocorre mecanicamente por filtração forçada mediante pressão de preenchimento. Após esta etapa, por processo natural, o desaguamento ocorre por peso próprio, drenagem e evaporação [7].
Histórico da técnica SCR
Atualmente, o processo de desaguamento em tubos geotêxteis vem se difundindo em função dos baixos custos de instalação e operação, além dos bons resultados do funcionamento misto.
Para o correto uso dessa técnica de deságue, é necessário um berço drenante, que tem a função de coletar o percolado gerado pelo processo de desaguamento para posterior descarte, segundo normas e regulamentações, ou recirculação no sistema de tratamento.
O berço drenante é uma obra civil. O terreno deve ser terraplanado e adensado, com sistema de revestimento de fundo (geralmente com geomembranas) e proteção mecânica (geralmente geotêxtil não tecido), recebendo camada de drenagem (brita 2), valas perimetrais e proteção/barramento perimetral. Com o berço adequado (figura 2), os tubos/sacos geossintéticos podem ser posicionados e, com o auxílio ou não de polimerização/floculação, receber ciclos de preenchimento e desaguamento até que o volume total de projeto seja atingido – se necessário, o tempo de descanso é proporcional ao tubo/saco geossintético, até que este alcance o teor de sólidos adequado.
Quando todas as condições de preenchimento e desaguamento são alcançadas, o tubo/saco geossintético é rompido com retroescavadeira ou pá escavadeira. O conteúdo é retirado do berço e encaminhado em caminhões para o transporte final. Depois do material totalmente retirado, são realizadas a limpeza e reconstituição do berço para um novo tubo/saco geossintético entrar em operação.
Pontos
deficientes da técnica SCR
Os tubos geotêxteis representam uma solução viável para o desaguamento. Contudo, observam-se algumas limitações: necessidade de intervenções significativas no local para sua correta utilização; processo trabalhoso de retirada do material adensado gerado, que pode causar danos ao berço; ocorrência de empolamento do material durante a movimentação e o carregamento dos caminhões; aumento do número de viagens para disposição final em função desse empolamento; além da necessidade de limpeza e de readequações no berço após a retirada do material adensado.
Técnica de desaguamento em berço móvel
Pela análise dos pontos deficientes da técnica quanto ao uso de tubos geotêxteis, concebeu-se um sistema de utilidade que
contempla o desaguamento com refil geotêxtil em caçamba especial drenante roll-on (patente INPI, BR 20 2020 009781 0).
Neste sentido, o sistema em questão pretende sanar os pontos deficientes através de melhorias e adaptações diversas. É proposto um modelo de utilidade onde a caçamba especial drenante roll-on (item de logística) e o tubo/ saco geossintético (item da engenharia civil e saneamento) unem-se em uma solução melhorada, conforme exemplificado na figura 3.
Deste modo, o sistema de desaguamento com caçamba especial drenante não requer grandes espaços ou adequações significativas para sua correta utilização. Necessita apenas de área pertinente para a locação das caçambas, que exercem a função de berço drenante.
Com o fim dos ciclos de preenchimento e desaguamento e os parâmetros de projeto satisfeitos, basta o caminhão roll-on retirar a caçamba com o refil geotêxtil cheio. Isso dispensa a necessidade de maquinário complementar, evita o empolamento do material adensado e agrega facilidade ao processo e ao transporte.
Desaguamento em berço móvel
Por se tratar de um modelo de utilidade misto, abrangendo também transporte rodoviário de cargas, a técnica de desaguamento em caçamba especial
Fig. 2 – Berço drenante
Fig. 3 – Berço drenante móvel em caçamba especial roll-on
Estudo de caso
drenante deve seguir a regulamentação dos órgãos federais de transportes. Nesse sentido, a massa máxima desaguada admitida não deve ultrapassar 15 toneladas.
Devido às restrições dimensionais da caçamba roll-on, o refil geotêxtil é predeterminado, atingindo uma altura de preenchimento máxima de 1,2 m e acondicionando, quando cheio, 12 m3 de torta adensada.
Esta técnica de desaguamento com restrições laterais apresenta, conforme demonstraram ensaios piloto, a capacidade do refil de receber maior quantidade volumétrica do que se estivesse se locado em berço convencional. E mais: devido às restrições laterais, o refil pode ter resistência à tração reduzida, visto que a própria caçamba especial drenante absorve parte dos esforços solicitados.
Por fim, a caçamba promove uma eficiente drenagem através de drenos internos e perimetrais, garantindo um escoamento de até 30 m3/h por cada dreno, totalizando 60 m3/h para cada caçamba. O percolado drenado retorna para o sistema de tratamento local para reprocessamento ou reúso.
Estudo de caso: ETE de shopping center
A ETE em questão recebe e trata todo o esgoto gerado pelo shopping center, tanto dos banheiros quanto da área de alimentação, somando vazão de trabalho de 35 m3/h. Com o tratamento, a ETE gera semanalmente cerca de 12 m3 de lodo com teor de sólidos por massa de 0,6%.
A ETE operava o sistema de tratamento de lodo com filtro-prensa, proporcionando torta com teor de sólidos por massa inferior a 20%. A operação com o filtro-prensa tornou-se onerosa em função das dificuldades nos desplacamentos das células e valores de manutenção, momento em que ele foi descomissionado da ETE.
Após a retirada do filtro-prensa, a ETE começou a operar com retiradas semanais por caminhão hidrovácuo, perfazendo duas viagens por semana e cerca de 96 viagens por ano, destinando o lodo molhado sem qualquer separação de fases.
Mediante as novas regras e taxas de recebimento do aterro, a ETE teve de procurar outra solução de desaguamento, visando continuar sua
operação e correta destinação do lodo. Neste momento, a técnica de desaguamento em berços móveis foi solicitada.
Ensaios preliminares
A análise da necessidade de polimerização e a dosagem de um eventual polímero são realizadas através de ensaios de polimerização e ensaios de cone. A dosagem de trabalho para a solução polimérica é determinada com o auxílio da correlação:
PPM = (Vsolução × Csolução)/Vlodo (1)
em que:
• PPM: a dosagem de solução polimérica em partes por milhão (mg/L);
• Vsolução: o volume de solução polimérica (L);
• Csolução: a concentração da solução polimérica (mg/L); e
• Vlodo: o volume de lodo ensaiado (L).
Coleta e tratativa de dados
O percolado foi coletado nos primeiros e últimos 5 minutos de cada ciclo e os valores de sólidos totais (ST) calculados. Após o enchimento dos refis, amostras da torta adensada
foram coletadas para determinar o teor de sólidos por massa.
De posse dos dados e suas médias, as eficiências de filtração e desaguamento podem ser calculadas por:
EF = (STinicial – STfinal)/STinicial × 100 (%) (2)
em que:
• EF: eficiência de filtração (%);
• STinicial: sólidos totais iniciais (mg/L); e
• STfinal: sólidos totais no líquido percolado após a filtração (mg/L).
ED = (PSfinal – PSinicial)/PSfinal × 100 (%) (3)
em que:
• ED: eficiência de desaguamento (%);
• PSinicial: porcentagem de sólidos inicial (%); e
• PSfinal: porcentagem de sólidos final do particulado sólido retido no geotêxtil (%).
Resultados obtidos e discussão
Ensaios preliminares
Através dos ensaios de polimerização, foi definido o uso de um polímero catiônico de baixo peso molecular, com dosagem de 40 ppm e em concentração de 1 g/L. Com os ensaios de cone, foi possível selecionar o geotêxtil, que promoveu rápida drenagem e retenção eficiente da fase sólida. A figura 4 apresenta: (a) o lodo natural; (b) o lodo após o condicionamento; (c) o retido pelo filtro; e (d) o líquido percolado final, resultante do ensaio com o geotêxtil escolhido.
Instalação do sistema de desaguamento
Um berço móvel foi mobilizado para o desaguamento do lodo gerado na ETE do shopping. A caçamba especial drenante e o refil geotêxtil em seu interior receberam por bombeamento
Fig. 4 – Resultados de ensaios de polimerização e de cone: (a) lodo natural; (b) lodo condicionado; (c) massa sólida retida pelo filtro; e (d) percolado final
o lodo gerado pela estação. A figura 5 mostra o posicionamento da caçamba.
Além do berço móvel e do refil geotêxtil, uma central de polimerização por batelada foi montada e instalada na ETE, com propósito de flocular o lodo em linha e proporcionar um desaguamento mais ágil e eficiente. Ademais, apenas uma saída de drenagem foi utilizada na caçamba, determinando uma vazão máxima de saída de percolado de até de 30 m3/h, maior do que o necessário. O mangote de percolado foi ligado em tubulação rígida de PVC, onde a água proveniente do desaguamento retorna por gravidade para o processo de tratamento da ETE.
A instalação foi rápida, sendo totalmente concluída em menos de 8 horas. Após os componentes estarem em posição na ETE, mangotes de preenchimento e drenagem são fixados com o auxílio de engates rápido, para então ser realizado o enchimento inicial com a dosagem de condicionante químico ensaiado.
A dosagem de condicionante químico deve ser cuidadosamente avaliada, sendo retirada amostra de lodo condicionado após a mistura em linha. Em caso de dosagem insuficiente, o particulado sólido pode colmatar o geotêxtil. Já no caso de dosagem exagerada, a viscosidade do lodo condicionado cegará o geotêxtil. Em ambos os casos, ocorrerá a retenção de umidade, prejudicando o desaguamento.
Ciclos de preenchimento e deságue
O desaguamento do lodo gerado pela ETE é realizado através do bombeamento semanal de cerca de 12 m³ de lodo condicionado quimicamente para o interior da caçamba. Esta mesma caçamba fica em operação com um refil geotêxtil por cerca de 13 meses, desaguando aproximadamente 624 m3 em 12 m3 de torta adensada e desaguada.
A vazão de preenchimento é definida pela bomba helicoidal de enchimento, fixada em 2 m3/h, resultando em ciclos de enchimento duas vezes por semana em períodos matinais de 3 horas, seguidos por períodos de descanso superiores a 48 horas. Com a vazão de lodo fixada, a vazão de injeção de solução polimérica pode ser calculada através da equação (1), resultando em 0,08 m3/h.
Com a operação mensal de desaguamento, a redução da massa a ser transportada foi significativa. O volume de lodo gerado passou de cerca de 48 m3 por mês para 0,88 m3 por
Fig. 5 – Locação do sistema de desaguamento com caçambas especiais drenantes
Estudo de caso
Estudo de caso
mês. Antes eram necessárias oito viagens de destinação por mês (96 por ano). Agora é preciso somente uma viagem a cada 13 meses. A figura 6 ilustra a redução de massa de lodo gerada em comparação com a água recuperada e a massa final de torta desaguada destinada atualmente.
Devido à redução na quantidade de viagens por período de 13 meses, a emissão de gases do efeito estufa e pegada de carbono também foram reduzidas.
Dados de sólidos totais no percolado foram coletados mensalmente durante a operação de enchimento nos 13 meses, compondo valores nos primeiros 5 minutos de enchimento (STf0) e últimos 5 minutos de enchimento (STf1). Estes valores são apresentados na tabela I.
Após a finalização dos ciclos de enchimento, os teores de sólidos por massa (TSm) foram aferidos nos meses 1 e 13, através da manga de enchimento do refil e coleta de amostras. Os resultados para as amostras coletadas foram de 22,34% para o primeiro mês de enchimento e 34,7% para o décimo terceiro mês. Ressalta-se que as amostras coletadas foram superficiais, retiradas através do bocal de enchimento, e que devido aos ciclos de enchimento e da sedimentação por níveis, a torta deve ter alcançado teores de sólidos maiores do que os aferidos.
Através da análise dos dados obtidos para os sólidos totais no início e no fim do processo de enchimento mensal, foi possível perceber a formação do filter cake – a eficiência de filtração inicial é inferior à eficiência de filtração final. Ressalta-se que o operador iniciava o bombeamento de enchimento com lodo condicionado quimicamente para depois coletar a amostra de percolado inicial, momento em que o pré-filtro poderia estar se formando ou já ter se formado.
Finalmente, com os dados da tabela I, teores de sólidos e equações (2) e (3), consegue-se calcular as eficiências de filtração e desaguamento, apresentadas na tabela II.
A filtração foi satisfatória, retendo cerca de 95% da fase sólida no interior do tubo geotêxtil. O volume adensado sofreu drástica redução através da perda de umidade, representando um aumento no teor de sólidos de mais de 97% no primeiro mês e mais de 98% nos ciclos de desaguamento realizados no período de 13 meses.
Conclusões
De maneira geral, o desaguamento com refil geotêxtil em berço móvel é uma alternativa interessante onde não existe a necessidade de grandes intervenções para a utilização da técnica. Ressalta-se a importância de ensaios preliminares de polimerização e cone, responsáveis pela aferição da escolha do condicionante químico e geossintético pertinentes para o desaguamento pretendido, viabilizando uma operação bem-sucedida.
Tab. I – Dados do líquido percolado durante a fase de enchimento
Tab. II – Eficiências
Fig. 6 – Massas mensais de lodo gerado, água recuperada e torta adensada e desaguada
Uma caçamba especial drenante com um refil geotêxtil foi necessária para a geração de lodo da ETE estudada, tendo vida útil de operação de cerca de 13 meses, desaguando 48 m3 de lodo com 0,6% de teor de sólidos por massa mensalmente.
Através dos resultados de teores de sólidos por massa alcançados, a técnica em berço móvel foi satisfatória, destinando corretamente o material adensado para o aterro outorgado. Ainda devido à redução de 96 viagens por ano para uma viagem por ano, custos com transporte e pegada de carbono foram reduzidos, representando cerca de 12 896 kg de CO2 na operação com hidrovácuo para 124 kg de CO2 com o berço móvel.
As eficiências de filtração e desaguamento demonstram efetividade da técnica de desaguamento em berço móvel, onde a fase sólida foi retida com mais
de 95% de eficiência de filtração média e o aumento do teor de sólidos ocorreu até ultrapassar 98% de eficiência.
Por fim, conclui-se que a técnica de desaguamento com berço móvel é eficiente e ajusta-se bem em estações de pequeno porte.
Referências
[1] Castro, N. Sistemas tubulares para contenção de lodo e sedimentos contaminados. Dissertação de mestrado em engenharia de infraestrutura aeronáutica - ITA. 2005.
[2] Daly, H. Allocation, distribution, and scale: towards an economics that is efficient, just, and sustaina ble. Ecological Economics, Comment, vol. 6, 1992.
[3] Daly, H. A further critique of growth economics Ecological Economics, vol. 88, 2013.
[4] Koerner, R.M. Designing with Geosynthetics. Upper Saddle River, NJ, Pearson, 5. Ed. 2005.
[5] Lawson, C.R. Geotextile containment for hydraulic and environmental engineering, 8th ICGeosynthetics, J.Kuwano & J. Koseki (eds), Milpress, Rotterdam. 2006.
[6] Moo-Young, H.K.; Gaffney, D. A.; Mo, X. Tes ting procedures to assess the viability of dewatering with geotextiles tubes, geotex tiles and geomembranes, vol. 20. 2002.
[7] Müller, M. Efeito de diferentes configura ções no deságue de lodos em sistemas de confinamento de resíduos em geotêxtil Dissertação de mestrado em engenharia de infraestrutura aeronáutica - ITA. 2019.
[8] Pilarczyk, K.W. Geosynthetics and Geosys tems in Hydraulic and Costal Engineering Netherlands, A.A. Balkema, 1a ed., 913.
[9] Tominaga, E. Análise dos procedimentos para avaliação de desempenho de siste mas fechados com geotêxtil para desa guamento. Dissertação de mestrado em engenharia de infraestrutura aeronáutica - ITA. 2010.
[10] Vertematti, J.C. Manual brasileiro de geos‑ sintéticos. Blucher, 2a ed. 2015.
Trabalho originalmente apresentado no 36º Congresso Nacional de Saneamento e Meio Ambiente, promovido pela AESabesp, em paralelo com a Fenasan, no período de 21 a 23 de outubro, em São Paulo.
Guia de reservatórios
O guia a seguir relaciona os fornecedores de reservatórios no país, com informações como materiais, formas construtivas, capacidades em litros e tipos de tampas e fundos. O levantamento também inclui tanques para ETEs – estações de tratamento de efluentes.
Concreto/alvenaria (1) Geomembrana de PEAD Aço Inoxidável Verinox Galvanizado Dobra dupla Soldado Parafusado Pintado Vitrificado Revestimento em epóxi Modular Torre ou castelo d’água Em fábrica In loco, na obra
Estacionário Transportável Horizontal Apoiada Cilíndrico Prismático Tronco de cone Encaixada Plano Semiplano Cônico Domo geodésico Cônico Apoiado Tubular
Polietileno
Polipropileno
Fibra de vidro Placas modulares parafusadas
Montagem (2) Tanque para ETE Homologação em cias. de saneamento
(1) Concreto pré-moldado ou concreto moldado in loco; (2) Para reservatórios muito
Estacionário Transportável Horizontal Apoiada Cilíndrico Prismático Tronco de cone Encaixada Plano Semiplano Cônico Domo geodésico Cônico Apoiado Tubular PE –Polietileno PP –Polipropileno PRFVFibra de vidro Placas modulares parafusadas PVC Concreto/alvenaria (1) Geomembrana de PEAD Aço Inoxidável Verinox Galvanizado Dobra dupla Soldado Parafusado Pintado Vitrificado Revestimento em epóxi Modular Torre ou castelo d’água Em fábrica In loco, na obra
(1) Concreto pré-moldado ou concreto moldado in loco; (2) Para reservatórios muito grandes. Caso sejam montados na fábrica, basta içar até o local.
Obs: Os dados constantes deste guia foram fornecidos pelas próprias empresas que dele participam, de um total de 226 empresas pesquisadas. Fonte: Revista Hydro, maio/junho de 2026. Este e muitos outros Guias HY estão disponíveis on-line, para consulta. Acesse www.arandanet.com.br/revista/hydro e confira. Também é possível incluir a sua empresa na versão on-line de todos estes guias.
Avaliação de sistemas de osmose inversa no tratamento de lixiviado
Waldyr Ramos Junior e Tatianne Costa de Andrade, da AST Ambiente; Giovanna Ramos e Souza e Silva, Graduanda em Engenharia de Recursos Hídricos e Meio Ambiente pela UFF – Universidade Federal Fluminense
Estudo realizado em dois aterros sanitários do Nordeste brasileiro mostra que sistemas de osmose inversa alcançaram remoções superiores a 99% de contaminantes presentes no lixiviado, produzindo permeado compatível com padrões de reúso urbano, agrícola e florestal. Os resultados reforçam o potencial da tecnologia para ampliar a reutilização de água e reduzir impactos ambientais na gestão de resíduos sólidos.
Olixiviado, também conhecido popularmente como chorume, é um líquido gerado pela percolação da água da chuva e pela decomposição da matéria orgânica presente nos resíduos sólidos dispostos em aterros sanitários. Durante esse processo, diversas substâncias são dissolvidas e transportadas, resultando em um líquido de coloração escura e odor característico.
A osmose inversa tem ganhado destaque como tecnologia avançada de tratamento de lixiviado, devido à sua elevada eficiência na remoção de sólidos dissolvidos, matéria orgânica, metais pesados e poluentes emergentes. O permeado tratado por esses sistemas caracteriza-se por sua elevada pureza, devido ao baixo teor de sais, sendo então aplicável para diversos fins, inclusive como água de reúso.
Este artigo tem como objetivo analisar a eficiência da osmose inversa no tratamento de lixiviado de aterros sanitários, bem como avaliar a viabilidade para água de reúso do permeado como alternativa sustentável na gestão hídrica em aterros sanitários.
Metodologia
Os dois aterros selecionados estão localizados na região Nordeste e fazem uso da tecnologia de osmose inversa como etapa única de tratamento de lixiviado. O Aterro 1 encontra-se em uma área de Mata Atlântica e recebe cerca de 850 toneladas por dia de resíduos sólidos urbanos, enquanto o Aterro 2 está situado no agreste nordestino e recebe cerca de 600 toneladas por dia de resíduos. O clima da Região Nordeste é caracterizado por altas temperaturas e baixos índices pluviométricos, que figuram entre 500 e 800 mm/ano, o que pode contribuir para uma maior concentração dos contaminantes no lixiviado e afetar diretamente a eficiência dos processos de tratamento [3, 4, 10]. Ambos os aterros contam cada um com um sistema de osmose inversa contentorizado, fabricado por uma empresa portuguesa especializada. Os sistemas têm uma etapa de pré-filtração que antecede a osmose inversa, composta por filtro de saco, filtro de areia e filtro de cartucho. Em seguida, o lixiviado passa por três passos de osmose inversa, mostrados na figura 1.
Congresso Nacional de Saneamento e Meio Ambiente
Feira Nacional de Saneamento e Meio Ambiente
Reúso
Foram utilizados os dados de monitoramento físico-químico do lixiviado bruto e tratado realizado em laboratórios externos credenciados pelo Inmetro e contratados pelos aterros selecionados. Os dados referentes aos Aterros 1 e 2 foram coletados a partir de 2019 e 2022, respectivamente. Isso permitiu a avaliação dos valores médio, mínimo, máximo e desvio-padrão das análises do lixiviado bruto e tratado. As coletas e análises foram realizadas de forma sistemática, possibilitando um monitoramento detalhado da eficiência dos tratamentos aplicados nesses locais.
• Automação
• PC / Modem / Display
As análises foram realizadas de acordo com os métodos descritos no livro Standard Methods of Wastewater e na Environmental Protection Agency dos Estados Unidos.
Por fim, os valores do permeado foram comparados com os limites de descarte estabelecidos pela Resolução Conama 430/2011 e com os padrões máximos requeridos nas legislações estaduais nordestinas que tratam sobre critérios de qualidade para água de reúso: Resolução Conerh no 75/2010 da
do Ceará, que são as únicas normativas que tratam sobre o assunto entre os estados no Nordeste [7].
Resultados
Alguns parâmetros apresentaram valores abaixo do limite de detecção das análises ao longo de todo o monitoramento ou, na maior parte dele, nos resultados do lixiviado bruto e/ou do tratado, sendo os parâmetros: arsênio, cádmio, chumbo, cromo, mercúrio, níquel, selênio e zinco.
A tabela I apresenta as eficiências de remoção de cada parâmetro dos aterros sanitários analisados. A tabe-
dos parâmetros no lixiviado tratado pelos dois sistemas de osmose inversa e os respectivos padrões máximos de lançamento dispostos na Resolução Conama no 430/2011 e os padrões máximos tolerados para reúso pela Resolução Conerh no 75/2010 e pela Resolução Coema no 02/2017.
Análise e discussão dos resultados
Observando os resultados obtidos nos Aterros 1 e 2 apresentados nas tabelas, evidencia-se a eficiência da osmose inversa na remoção de contaminantes presentes no lixiviado de aterro
Fig. 1 – Fluxograma do processo de osmose inversa para tratamento de lixiviado
Sala das máquinas
Sala de controle • Quadro elétrico com filtração do ar ambiente
Filtragem do ar (car vão ativado)
Concentrado para aterro
Fonte: adaptado de Löblich (2019) [11]
Permeado final
Lixiviado H2SO4, anti-precipitante
sentaram desempenho relevante para parâmetros críticos como DBO, DQO, nitrogênio total, ferro, condutividade elétrica e sólidos suspensos totais, com remoções médias superiores a 99% na maioria dos parâmetros. A remoção de DBO foi de 98,5% no Aterro 1 e de 99,6% no Aterro 2, enquanto a remoção de DQO ultrapassou 99% para os dois aterros. A condutividade elétrica apresentou redução significativa, de 19.682 μS/cm para 145,39 μS/cm no Aterro 1, e de 28.058 μS/cm para 138 μS/cm no Aterro 2, indicando remoções superiores a 95%.
Esses percentuais são significativamente superiores aos encontrados em outros métodos de tratamento convencionais aplicados em lixiviados, que geralmente combinam múltiplos processos unitários para alcançar remoções inferiores a esses níveis. Estudos revelam que um sistema composto por lagoas anaeróbias e aeradas, coagulação, flotação, carvão ativado, zeólitas e nanofiltração apresentou eficiências inferiores, especialmente para DQO (em torno de 70%-85%), nitrogênio total (60%-75%) e condutividade (reduções em torno de 40%-60%) [1]. De
forma semelhante, um arranjo baseado em processos oxidativos avançados com reagente de Fenton seguido de nanofiltração alcançou remoções próximas a 80% para DBO e uma remoção de 98% de DQO. Esse mesmo estudo também registrou uma remoção de 83% para a condutividade do lixiviado tratado [5]. Com isso, pode-se inferir que a osmose inversa oferece elevada eficiência na remoção de poluentes, promovendo uma maior margem de segurança em relação aos limites estabelecidos pela legislação ambiental vigente (60% de remoção de DBO).
Por outro lado, estudos que aplicaram a osmose inversa como tecnologia única de tratamento de lixiviado corroboram os altos índices encontrados neste trabalho, como por exemplo, um estudo que teve resultados de remoção entre 97,5% e 99,4% para DBO, DQO, nitrogênio amoniacal, condutividade e sólidos suspensos totais [10], valores que se adequam à remoção observada para os Aterros 1 e 2. Essa comparação reforça a superioridade da osmose como tecnologia eficaz e compacta, capaz de atingir elevados níveis de polimento do efluente.
Nota-se ao observar os resultados das tabelas I e II que os sistemas avaliados conseguiram produzir um lixiviado tratado com resultado dentro dos padrões com excedente de segurança para os limites máximos de descarte de efluentes estabelecidos pela Resolução Conama no 430/2011. Quanto à qualidade do permeado para reúso, a tabela II apresenta as médias dos parâmetros analisados nos Aterros 1 e 2 que, em sua maio-
Reúso
ria, enquadram-se nos limites estabelecidos pela Resolução Conerh no 75/2010 e pela Resolução Coema no 02/2017. Parâmetros como ferro, chumbo e cádmio ficaram significativamente abaixo dos valores máximos permitidos para reúso urbano, agrícola e florestal. A condutividade elétrica, por exemplo, ficou em torno de 145 e 138 µS/cm nos dois aterros, muito abaixo do limite de 3000 µS/cm previsto pela Resolução Coema no 02/ 2017 para reúso não potável.
limites das Resoluções
Parâmetros
Por outro lado, é importante destacar que os valores médios de cobre e níquel do lixiviado tratado do Aterro 1 ficaram ligeiramente acima do limite estabelecido pela Resolução Conerh no 75/2010, que tem valores muito rigorosos. A Resolução Conerh no 75/2010 possui limites para cobre e níquel 20 e 10 vezes menor do que o estabelecido pela Resolução Conama no 430/2011, respectivamente. Legislações publicadas mais recentemente sobre água de reúso não abordam tais parâmetros ou possuem limites não tão rígidos [2, 6, 8].
Ademais, alguns parâmetros biológicos e físico-químicos contemplados nas resoluções, como coliformes fecais e ovos de helmintos, não foram monitorados diretamente nos aterros estudados. Ainda assim, com base na literatura e nas características do pré-tratamento adotado, é razoável inferir que o permeado não apresenta esses contaminantes. Estudos demonstram que a osmose inversa é eficaz na remoção de coliformes fecais, proporcionando permeado microbiologicamente seguro. Além disso, os filtros mecânicos instalados no pré-tratamento são suficientes para reter
ovos de helmintos, que apresentam dimensões entre 150 e 65 µm [9]. Dessa forma, a qualidade do efluente tratado indica a viabilidade do reúso, segundo as diretrizes consideradas neste estudo.
Vale ressaltar também que os resultados analíticos do lixiviado bruto resultaram em uma média de cádmio abaixo dos limites de detecção. Por causa disso, seus valores de remoção foram desconsiderados na tabela II, já que sua retenção pela osmose inversa não pode ser estimada.
Assim, considerando os parâmetros monitorados e as inferências realizadas, o permeado gerado nos Aterros 1 e 2 pode ser classificado para reúso urbano, agrícola e florestal conforme as resoluções mencionadas, o que reforça o potencial da osmose inversa como solução ambientalmente segura e eficiente para o tratamento de lixiviados.
Por fim, é importante destacar que a osmose inversa, além de apresentar as maiores eficiências entre as tecnologias analisadas, gera um efluente final com qualidade superior
e menor complexidade operacional em comparação aos sistemas combinados em que se utilizam vários processos integrados. Essa característica contribui para sua viabilidade técnica, principalmente quando se busca qualidade elevada do permeado para reúso. Apesar do evidente potencial da osmose inversa para o tratamento de lixiviado, a adoção ampla dessa tecnologia deve considerar aspectos econômicos, técnicos e legais, especialmente no que se refere à regulamentação do reúso do permeado. Atualmente, a Resolução Conerh no 75/2010 da Bahia e a Resolução Coema no 02/2017 do Ceará são as únicas legislações estaduais da Região Nordeste com critérios objetivos para esse fim, evidenciando a necessidade de avanços normativos que facilitem a implementação dessa prática em escala maior [7].
Conclusões e recomendações
A partir da análise de dados obtidos dos sistemas de osmose inversa, pode-se avaliar a eficiência da tecnologia de osmose inversa no tratamento de lixiviado de aterros sanitários, bem como a análise da viabilidade do uso do permeado gerado como água de reúso. Com os valores obtidos para os dois aterros, os resultados demonstraram que os sistemas de osmose inversa analisados alcançaram elevadas taxas de remoção para diversos parâmetros críticos, com eficiências superiores a 99% em mui-
Tab. II – Concentração média dos parâmetros no permeado de cada aterro e os
tos casos, e produziram um efluente final com qualidade significativamente supe rior aos limites máximos estabelecidos pela Resolução Conama no 430/2011 para o lançamento de efluentes.
A comparação com os limites nor mativos estaduais da Resolução Conerh no 75/2010 e da Resolução Coema no 02/2017, utilizadas como referência legal para reúso na Região Nordeste, mostrou que o permeado atende à maioria dos padrões exigidos para reú so urbano, agrícola e florestal.
Apesar das exceções pontuais, como cobre e níquel no Aterro 1, os resultados gerais indicam que o permeado possui qualidade adequada para reúso, espe cialmente nas atividades menos restri tivas, como usos urbanos não potáveis.
Parâmetros como DBO, condutivi dade elétrica, metais pesados e sólidos suspensos totais apresentaram concen trações muito inferiores aos limites le‑ gais, evidenciando não apenas a eficiên‑ cia técnica da osmose inversa, mas também sua capacidade de gerar um efluente com grande potencial de rea proveitamento seguro.
osmose inversa representa uma solução técnica eficaz, segura e ambientalmente sustentável para o tratamento de lixivia dos, com potencial concreto para inte gração em estratégias de reúso de água, contribuindo para a gestão eficiente de recursos hídricos em aterros sanitários.
Referências
[1] Cruz, Willian Suzarte. Análise de ciclo de vida do sistema de tratamento de lixiviado em um aterro sanitário municipal. 2021. 137 f. Disser tação (Mestrado em Recursos Hídricos e Sane amento) – Centro de Tecnologia, Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2021.
[2] Distrito Federal. Resolução Adasa no 005, de 9 de maio de 2022. Estabelece diretrizes para o aproveitamento ou reúso de água não potável em edificações no Distrito Federal. Diário Ofi cial do Distrito Federal, 2022.
[3] Gomes, Flávia Ingrid Bezerra Paiva; Zanella, Ma ria Elisa. Histórico, causas e características da semiaridez do Nordeste do Brasil. Geografares, Vitória, no 37, 2023.
[4] Inmet ‑ Instituto Nacional de Meteorologia. Normais Climatológicas do Brasil: 1991-2020 Brasília: Inmet, 2022.
[5] Moravia, Wagner Guadagnin. Avaliação do tratamento de lixiviado de aterro sanitário através de processo oxidativo avançado conjugado com sistema de separação por membranas 2010. Tese (Doutorado em Saneamento, Meio
[6] Paraná. Resolução CERH no 122, de 19 de junho de 2023. Estabelece diretrizes e critérios gerais para reuso de água no Estado do Para ná. Diário Oficial do Estado do Paraná, 2023.
[7] Santos, A.S.; Lima, M. Panorama Regulatório do Reúso de Água no Brasil. 2025.
[8] São Paulo. Resolução Conjunta SES/SMA/ SSRH no 01, de 01 de junho de 2017. Dis ciplina o reúso direto não potável de água, para fins urbanos, proveniente de Estações de Tratamento de Esgoto Sanitário e dá pro vidências correlatas. Diário Oficial do Estado de São Paulo.
[9] Secretaria da Saúde do Estado do Ceará. Guia para pesquisa de ovos de helmintos em fezes através do método Kato-Katz. Fortaleza, 2022.
[10] Soares, Agatha Cristinne Prudêncio; Pinheiro, Carlos Eduardo Soares Canejo; Soares, Ricar do. Análise da eficácia técnica e ambiental do tratamento de chorume por osmose reversa na Central de Tratamento de Resíduos de São Gonçalo, RJ. In: Simpósio de Gestão Ambiental e Biodiversidade, 6., 2017. UFRRJ. 2017.
[11] Löblich, S. Tratamento de Chorume por Sistemas Membranares. Workshop ‑ A Evolu ção na Gestão de Aterros Sanitários: Novas Rotas Tecnológicas para a Drenagem, Moni toramento e Tratamento de Chorume. 2019.
Por motivo de espaço, o trabalho foi reduzido e adaptado. A versão original pode ser acessada nos anais eletrônicos do 36º Congresso
ABiorremediação para redução de extravasamento em redes coletoras de esgoto
Em Betim, região metropolitana de Belo Horizonte, MG, a falta de caixas de gordura nos imóveis causa entupimentos e vazamentos nas redes de esgoto. O artigo traz a experiência da Copasa na implantação do projeto piloto PV-IGS - Poço de Visita Interceptador de Gordura e Sólidos que, juntamente com a biotecnologia de biorremediação, trata o esgoto diretamente na rede coletora.
gestão eficiente e sustentável dos sistemas de esgoto é crucial para preservar a qualidade ambiental e garantir o bem-estar das populações urbanas. Em Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, MG, os desafios decorrentes de refluxos e vazamentos nas redes coletoras de esgoto são uma realidade constante.
Redes coletoras compreendem o conjunto de canalizações que recebem, a partir das ligações prediais, o esgoto gerado nos imóveis. Sua função é conduzir o esgoto coletado até as redes troncos e direcioná-los às ETEs – Estações de Tratamento de Esgoto, conforme diretrizes da NBR 9648 –Estudo de Concepção de Sistema de Esgoto Sanitário da ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas.
O afastamento e tratamento do esgoto sanitário são fundamentais para garantir saúde e qualidade de vida e reduzir impactos no meio ambiente.
Isabela Cardinali e Anderson dos Santos Gomes, da Copasa – Companhia de Saneamento de Minas Gerais
Porém, manter um sistema de coleta eficiente ainda é um grande desafio para as concessionárias de saneamento, pois além dos altos custos para a manutenção, a iniciativa depende da conscientização e boa utilização pela população.
Após um diagnóstico técnico realizado pela Copasa nas instalações prediais de 11 mil imóveis em áreas críticas de extravasamentos, foi identificado que 20% estão irregulares. Das 2500 irregularidades encontradas, cerca de 80% estão relacionadas à ausência de caixas de gordura (2089), problema que contribui significativamente para os entupimentos e sobrecargas nas redes coletoras. Os demais problemas estão relacionados a caixas pluviais (35 unidades ou 1,3% do total) e lacradas (571 unidades ou 21,19%).
Em resposta a esses desafios, foi desenvolvido o projeto piloto PV-IGS -
Poço de Visita Interceptador de Gordura e Sólidos que, juntamente com a biotecnologia de biorremediação, trata o esgoto diretamente na rede coletora.
Para avaliar a eficácia da biorremediação, foram conduzidos experimentos em escala piloto nas redes de esgoto no bairro Jardim das Alterosas II Seção, com foco na implementação do PV-IGS. O biorremediador utilizado é composto por três espécies de bacilos: Bacillus subtilis, responsável pela digestão de lipídios; Bacillus licheniformis, voltado à degradação de proteínas; e Bacillus amyloliquefaciens, especializado na digestão de amidos.
Durante os testes, foi observada uma redução significativa na necessidade de intervenções e manutenções nas redes coletoras, além de melhoria na qualidade do aspecto visual e do ar devido à diminuição
dos odores desagradáveis, conforme relatado por moradores da região.
Uma análise comparativa entre as manutenções executadas antes e depois da aplicação da biorremediação demonstrou uma redução expressiva nos custos operacionais, evidenciando a viabilidade econômica dessa abordagem.
Metodologia
Baseado no diagnóstico técnico e caracterização do esgoto coletado (tabela I) na sub-bacia estudada, foi projetado e construído um PV-IGS com função de reter esses componentes (figura 1).
Foram coletadas amostras de efluentes antes, durante e após o tratamento com a biorremediação. Os resultados foram comparados com dados
históricos de qualidade e padrões regulatórios da Resolução Nº 430 do Conama, que estabelece o limite de 50 mg/L de óleos vegetais e gorduras animais em redes coletoras.
O estudo envolveu amostragens em três pontos de coleta ao longo da rede de esgoto. Foram
Demanda química de oxigênio [SM]5220 D
Óleos e graxas [SM] 5520 B
Sólidos suspensos totais [SM]2540 D 5 5,9
Surfactantes aniônicos POP 1246 0,20 6 10,31 mg MBAS/L
1 SM - Standard Methods for the Examination of Water and Wastewater
2 POP - Procedimento Operacional Padrão
Tab. I – Caracterização inicial do esgoto coletado na sub-bacia estudada. Fonte: Autor
Fig. 1 – Projeto do PV-IGS. Fonte: Autor
analisados os parâmetros de DBO - Demanda Bioquímica de Oxigênio dissolvido, DQO - Demanda Química de Oxigênio, OLG - Óleo e Graxa, SST - Sólidos Suspensos e SAASurfactantes Aniônicos.
Resultados e discussão
Os dados coletados foram analisados quantitativa e qualitativa, considerando a redução de obstruções, melhoria na qualidade da água, eficiência operacional e os benefícios ambientais alcançados com a aplicação da biorremediação e do PV-IGS, cujo resultado pode ser analisado na figura 2.
Hidrojateamento 8595,99
Manutenção de Redes 12.438,31
Biorremediador
(R$) 21.034,31 12.230,30 Redução de custos (%) 41,86
A aplicação da biorremediação no PV-IGS proporciona maior estabilidade estatística nos resultados obtidos. Isso se deve à sua capacidade de degradação dos resíduos orgânicos de forma controlada e constante. A abordagem integrada promove uma gestão mais eficiente e sustentável dos sistemas de saneamento.
No resultado médio geral, os dados indicam uma tendência de diminuição nos parâmetros de qualidade do esgoto coletado em todos os pontos
(figura 2). A melhora na qualidade do esgoto coletado, mesmo em situações onde ocorram extravasamentos, contribui para reduzir a contaminação do solo, dos corpos d’água e dos lençóis freáticos, além de manter um bom ecossistema.
Durante os testes, não foram necessárias intervenções ou manutenções em redes coletoras ou hidrojateamento na área de estudo. Segundo moradores da região, a biorremediação melhorou consideravelmente a presença de odores desagradáveis. Foi elaborada uma composição de
custos para a aplicação do biorremediador, considerando o número de aplicações, a dosagem por ponto, os equipamentos utilizados e a mão de obra envolvida. Essa estrutura foi comparada com os custos anteriores de manutenção das redes e de limpeza por hidrojateamento (tabela II), evidenciando uma redução expressiva de 41,86%.
Conclusão
Apesar dos avanços obtidos, há desafios a serem superados na implementação da biorremediação em larga escala em redes coletoras de esgoto. Enquanto a redução de DBO por biorremediação pode trazer benefícios, é preciso avaliar cuidadosamente os potenciais impactos negativos e implementar medidas adequadas para mitigá-los, garantindo a eficiência e a sustentabilidade do processo de tratamento biológico em ETEs. É importante destacar as limitações deste estudo e as incertezas associadas às projeções futuras. Trata-se de uma oportunidade para a realização de pesquisas adicionais visando aprimorar o entendimento e gestão dessa técnica. Dessa forma, será possível otimizar a operação da ETE em resposta às mudanças na carga orgânica e manter a qualidade do efluente tratado dentro dos padrões regulatórios estabelecidos.
Fig. 2 - PV-IGS antes (à esq.) e depois da aplicação da biorremediação. Fonte: Autor
Tab. II - Comparativo dos custos entre manutenção convencional e através da biorremediação. Fonte: Autor
Tipo de manutenção Custo antes biorremediação (em R$)
Custo pós biorremediação (em R$)
Fig. 3 - Análise geral dos resultados médios por ponto de coleta. Fonte: Autor
Ao entrar no segundo semestre de 2026, o debate sobre a universalização do saneamento no Brasil ganha um novo nível de maturidade. Após um início de ano marcado por expectativas e um primeiro trimestre que trouxe sinais concretos de avanço, o momento agora é de uma avaliação mais objetiva: o país está, de fato, no caminho para cumprir as metas estabelecidas? Ou começa a enfrentar o risco de não alcançar o ritmo necessário? A resposta não é simples, e passa por uma leitura equilibrada entre progresso real e limitações estruturais ainda presentes.
Nos últimos anos, o Brasil deu passos importantes na reestruturação do saneamento. A consolidação do ambiente regulatório e a ampliação da participação privada criaram condições para um volume de investimentos significativamente maior do que em décadas anteriores.
Ao longo do primeiro semestre de 2026, foram observados avanços como a continuidade de concessões regionais e leilões estruturados, a expansão de projetos de abastecimento de água e esgotamento sanitário, maior previsibilidade regulatória para investidores e a ampliação do uso de tecnologia na operação dos sistemas.
Esse conjunto de fatores mostra que o saneamento deixou de ser um setor historicamente estagnado para entrar em um ciclo mais dinâmico de expansão.
Apesar dos avanços, o principal ponto de atenção está no prazo. A meta de universalização até 2033 estabelece que 99% da população tenha acesso à água potável e que 90% tenha coleta e tratamento de esgoto.
Com 2026 já em curso, o país tem menos de oito anos para atingir esses objetivos. Esse horizonte impõe um ritmo de investimento e execução elevado e contínuo. Não basta manter o nível atual de projetos. Será necessário acelerar a
Saneamento em Pauta
entrega de obras e a expansão dos serviços, especialmente nas regiões mais deficitárias.
Um dos principais entraves para a universalização é a desigualdade. Enquanto regiões mais desenvolvidas avançam com maior velocidade, áreas do Norte e Nordeste ainda enfrentam desafios estruturais importantes, como a baixa cobertura de redes de esgoto, dificuldades logísticas e geográficas, menor atratividade para investimentos privados e limitações institucionais e técnicas em nível local.
Essa assimetria exige soluções diferenciadas, com maior participação do poder público e modelos de financiamento adaptados às realidades regionais. Se o financiamento começa a se consolidar, a capacidade de execução emerge como um dos principais gargalos.
A transformação de investimentos previstos em obras concluídas depende de fatores como qualidade e maturidade dos projetos, agilidade em processos de licenciamento, capacidade técnica de operadores e gestores e integração entre planejamento urbano e infraestrutura. Outro ponto crítico é a eficiência dos sistemas existentes. As perdas de água permanecem elevadas, próximas dos 40% na média nacional, o que indica que parte significativa da infraestrutura já instalada ainda opera abaixo do seu potencial. Reduzir essas perdas é uma das formas mais rápidas e economicamente viáveis de ampliar a disponibilidade hídrica sem necessidade de novos mananciais. No entanto, essa redução depende de investimentos contínuos, modernização tecnológica e melhoria na gestão operacional. Enquanto o saneamento avança em visibilidade e in-
vestimentos, a drenagem urbana ainda ocupa uma posição secundária na agenda de infraestrutura.
Os eventos climáticos recentes reforçam que sistemas de drenagem insuficientes têm gerado impactos cada vez mais severos nas cidades, com prejuízos sociais, econômicos e ambientais. A ausência de planejamento integrado entre saneamento, drenagem e uso do solo representa um risco adicional, especialmente em um cenário de mudanças climáticas.
A análise do primeiro semestre de 2026 permite concluir que o Brasil entrou, sim, na trajetória correta para a universalização do saneamento, porém não na velocidade necessária para garantir, com segurança, o cumprimento das metas até 2033.
A capacidade de transformar investimentos em obras, ampliar a eficiência dos sistemas e reduzir desigualdades regionais definirá se o país conseguirá cumprir suas metas ou se precisará revisitar seus prazos. Mais do que nunca, o saneamento se consolida como um dos pilares do desenvolvimento sustentável brasileiro e um dos maiores testes de execução de políticas públicas em larga escala.
Agostinho de Jesus Gonçalves Geraldes é engenheiro civil, com pós-graduação em Engenharia de Saneamento pela Faculdade de Saúde Pública do Estado de São Paulo. Atualmente é Gerente da Diretoria de Empreendimentos Interior e Litoral Norte da Sabesp e Presidente da AESabesp - Associação dos Engenheiros da Sabesp.
Esta seção é dedicada a reflexões sobre o setor de saneamento no Brasil e seus desafios. Os artigos são elaborados pelo Corpo Diretivo das principais entidades de saneamento do país e não necessariamente refletem a opinião da Hydro.
Agostinho Geraldes, Presidente da AESabesp
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Obs: Os dados constantes deste guia foram fornecidos pelas próprias empresas que dele participam, de um total de 63 empresas pesquisadas. Fonte: Revista Hydro, maio/junho de 2026. Este e muitos outros Guias HY estão disponíveis on-line, para consulta. Acesse www.arandanet.com.br/revista/hydro e confira. Também é possível incluir a sua empresa na versão on-line de todos estes guias.
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Meio ambiente – A GSC Eventos Especiais e o Instituto Federal Sul de Minas Gerais, organizadores do Congresso Nacional de Meio Ambiente de Poços de Caldas, disponibilizaram o e-book Sociedade em Risco: o Imprevisível é o Novo Normal, resultante da 22ª edição do simpósio. O título da obra, tema do evento realizado em 2025, reflete a urgência e a complexidade dos desafios diante das mudanças climáticas, da degradação ambiental e das crises sociais e econômicas que delas decorrem. Ao longo de 202 páginas, o leitor encontrará contribuições de especialistas, pesquisadores, gestores e representantes da sociedade civil que oferecem análises críticas, resultados de pesquisas e propostas de caminhos possíveis para o enfrentamento da crise ambiental. O e-book pode ser acessado pelo link: https://abrir.link/lANBP.
Saneamento – O ITB - Instituto Trata Brasil, em parceria com GO Associados, publicou a 18ª edição do Ranking do Saneamento com foco nos 100 municípios mais populosos do Brasil. Para produzir o ranqueamento, foram levados em consideração os indicadores mais recentes do SINISA - Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico, ano-base 2024, publicados pelo Ministério das Cidades. A análise aponta que a falta de acesso à água potável ainda impacta mais de 30 milhões de brasileiros,
enquanto cerca de 90 milhões (43,3% da população) não possuem coleta de esgoto, refletindo em problemas de saúde, perda de produtividade no trabalho, desvalorização imobiliária, perdas relacionadas ao turismo e queda na qualidade de vida da população. Com 100 páginas, o estudo pode ser consultado pelo link: https://abrir.link/Fesso.
informações sobre águas subterrâneas. A plataforma pode ser consultada pelo link: https://siagasweb.sgb.gov.br/layout/.
Águas subterrâneas – O SIAGAS - Sistema de Informações de Águas Subterrâneas centraliza e disponibiliza dados atualizados sobre águas subterrâneas no Brasil. Desenvolvido e mantido pelo SGB - Serviço Geológico do Brasil, o SIAGAS reúne uma base nacional de informações de poços, além de ferramentas para consultas, pesquisas, extração de dados e geração de relatórios. Há um total de 392.948 poços e fontes naturais cadastrados no sistema (dados de 15 de junho de 2026). Resultado do mapeamento e das pesquisas hidrogeológicas realizadas em todo o território nacional, o SIAGAS permite a gestão adequada da informação hidrogeológica e sua integração com outros sistemas de recursos hídricos e meio ambiente, sendo recomendado pelo CNRH - Conselho Nacional de Recursos Hídricos como base nacional compartilhada para armazenamento, intercâmbio e difusão de
Gestão da água – O relatório O Poder da Política Pública: Criando Condições para Ampliar Soluções Baseadas na Natureza para a Segurança Hídrica, elaborado pelo IVL Swedish Environmental Research Institute, pela consultoria Arup e pela The Nature Conservancy, com apoio do SIWI - Stockholm International Water Institute, analisou experiências em 17 países e reuniu evidências a partir de mais de 75 entrevistas com especialistas do setor hídrico. De acordo com a publicação, as soluções baseadas na natureza, como restauração de vegetação nativa, recuperação de matas ciliares e proteção de nascentes, quando incorporadas à gestão de bacias hidrográficas, contribuem para reduzir sedimentos, aumentar a infiltração de água no solo, estabilizar vazões e melhorar a qualidade da água, além de reforçar a resiliência dos sistemas hídricos diante de eventos climáticos extremos. A análise aponta ainda que, ao complementar a infraestrutura tradicional de abastecimento e saneamento, essas soluções também podem reduzir custos operacionais e prolongar a vida útil de obras convencionais, como reservatórios e estações de tratamento. Com 113 páginas, o relatório em português está disponível no link: https://abrir.link/UxNAt.
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