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Alforge - Março 2019

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Quaresma: tempo de reflexão, meditação e consequente mudança de comportamento! O percurso quaresmal encontra o seu cumprimento no Tríduo Pascal, particularmente na Grande Vigília na Noite Santa: renovando as promessas baptismais, reafirmando que Cristo é o Senhor da nossa vida, daquela vida que Deus nos comunicou quando renascemos «da água e do Espírito Santo…». (Bento XVI)

A Quaresma é um tempo propício para o despojamento e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. (Papa Francisco)

A Quaresma proporciona a arma prática e eficaz do jejum e da esmola para lutar contra o desmedido apego ao dinheiro. (São João Paulo II)

A mudança de vida interior tem de ser uma opção pessoal, consentida e verdadeira, assente num caminho positivo e com objectivos de vida.


Missão País… Seia 2019 02 | O Alforge | março 2019

Um olhar sobre a Missão País, em Seia

Terminou, há pouco mais de um mês, na cidade de Seia, a 1ª fase a Missão País. Foi corporizada por cerca de quatro dezenas de jovens oriundos, na sua maioria, da Universidade do Porto. Estiveram connosco de 26 de janeiro a 2 de fevereiro, tendo ficado hospedados nas instalações do Centro Paroquial de Seia. A Missão País que, ano após ano, vai chegando a um número crescente de paróquias citadinas e rurais, é um sinal dos tempos. A sociedade atual está cada vez mais organizada para seduzir a juventude com desportos,

artes, caminhadas, lugares noturnos e espetáculos de todo o género. No entanto, esta sedução depara-se com bolsas de resistência. Alguns jovens – e não são assim tão poucos – deixam-se seduzir também por alternativas inspiradas na fé cristã. Na verdade, deve sublinhar-se que os jovens da Missão País não estiveram em Seia a descansar e a divertir-se cerca de oito dias. Pelo contrário, desenvolveram uma intensa atividade junto das crianças, dos adolescentes e dos idosos, ora ajudando-os ora conversando com eles. E

deve sublinhar-se ainda que a piedade esteve no dia a dia destes jovens: missa diária, oração da manhã e da noite, meditação, etc. Em poucos dias, criaram uma grande empatia com as pessoas, pelo facto de serem simples, responsáveis e genuínos. Preparam um teatro que agradou a todos os que a ele assistiram.

Despediram-se em clima de festa, prometendo voltar no próximo ano para dar sequência ao trabalho iniciado: dar testemunho da sua fé em Deus estando com as pessoas e servindo-as com um sorriso aberto. O Espírito de Deus sopra onde quer, como quer e quando quer! Pe. Joaquim Pinheiro

Ficha Técnica Propriedade e Administração: Arciprestado de Seia e Gouveia Equipa Responsável: Joaquim Pinheiro (Pe.), João Barroso (Pe.), Paulo Caetano (Dr.), Rafael Neves (Pe.) Colaboradores nesta Edição: António Bagão Félix (Dr.), António Martins (Pe.), Estela Cristina Brito (Prof.), Henrique Raposo (Dr.), Joaquim Pinheiro (Pe.), Manuel Felício (D.), Paulo Caetano (Dr.), Rafael Neves (Pe.), Rita Saraiva (Dra.). Revisão dos Textos: Anabela Jorge (Dra.), Cláudia Lopes (Dra.) e Olga Oliveira. Morada para Correspondência: Av. Visconde Valongo, n. 11, 6270-486 Seia Contatos: p.caetano@mail.telepac.pt | www.oalforge.pt


Quaresma, Tempo de Viver 03 | O Alforge | março 2019

Mensagem para a Quaresma - 2019

Vamos viver esta Quaresma dentro do ano missionário proposto pela Conferência Episcopal Portuguesa para toda a Igreja em Portugal; e pre­ parando o Outubro Missionário/2019 declarado pelo Papa Fran­cisco. Ora, todos sabemos que a Quaresma é sempre um tempo especial pa­ra as comunidades e seus fiéis procurarem ir ao mais fundo da sua identidade, que é serem discípulos de Cristo e, portanto missionários. E não nos referimos apenas aos que, um dia, deixaram as suas terras – e temos disso muitos e bons exemplos na nossa Diocese – geral­men­ te ligados a algum Instituto Missionário e partiram em missão “ad gentes”. De facto, a responsabilidade de sair em missão ao en­contro de todos sem excluir ninguém para anunciar a Boa Nova de Cristo é de todos os baptizados. Como lembra a carta pastoral da CEP, datada de 2010, “Como eu fiz, fazei vós também”, a Europa é terreno de missão “ad gentes”. Por isso, não nos basta conservar as comunidades já existentes

como estão. É necessário, mesmo inadiável, levantarse e partir em missão (cf. Nº11). E para cumprir este mandato de Cristo, cada um dos Seus discípulos tem de saber assumir o caminho de que Ele próprio nos deu o exemplo, a saber: caminho de pobreza, de obediência, de ser­viço e de imolação até à morte. Seguindo este Seu caminho, saberemos vencer as tentações de nos limitarmos ao que ainda julgamos ter de seguro nas nossas comuni­ dades e tradições de Fé, pois isso seria morrer a prazo (cf. Nº23). Queremos, nesta Quaresma assumir, com o máximo empenho, as seguintes propostas que o Papa Francisco faz para o Outubro Missi­onário/2019, como são apresentadas na Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa “Todos, tudo e sempre em missão” de 2018, nº 7: 1. Aprofundar o nosso encontro vivo e pessoal com Cristo, única fonte do verdadeiro dinamismo missionário; 2. Reforçar o nosso testemunho de Fé, inspirados nos modelos de

santidade e de martírio que a Igreja nos propõe; 3. Relançar o nosso entusiasmo pela formação em matérias decisivas para a vivência e transmissão da Fé, como são a catequese, a Bíblia, a espiritualidade e mesmo as matérias propriamente teológicas; 4. Assumir a recomendação que nos é feita de praticarmos a cari­dade missionária, com renúncias a favor da ajuda material para os trabalhos da evangelização, quer nas Igreja novas quer nas de mais antiga tradição. Ora, em resposta sobretudo a esta última recomendação que o Papa Francisco nos faz, a nossa renúncia quaresmal é dirigida, este ano, para iniciativas de formação missionária, sendo metade destinada aos nossos organismos diocesanos de evangelização e outra metade para apoiar várias iniciativas de missão “ad gentes” que nos estão a solicitar apoios. Para vivermos esta Quaresma verdadeiramente empenhados no re­for­ço da nossa responsabilidade missionária, pede-se a todos os sacerdotes, diáconos e

outros agentes pastorais que tomem como fon­te de inspiração das suas várias iniciativas quaresmais os dois documentos da Conferência Episcopal Portuguesa referidos, a saber: “Como eu fiz, fazei vós também” (2010) e “Todos, tudo e sempre em missão” (2018). Pede-se ainda a cada arciprestado que organize o seu retiro ou reco­lec­ção de pelo menos um dia, durante esta Quaresma, devidamente anun­­ciado, quanto possível sobre a nossa responsabilidade missi ­onária. O Bispo Diocesano também está disponível para tomar parte em iniciativas destas combinando com os respectivo arcipreste. A Maria, Mãe da Igreja e Rainha das missões, pedimos que nos ensine e ajude a tornar a Igreja toda missionária e a fazer de cada paróquia, que é a Igreja a residir no meio das casas de seus filhos e filhas, uma casa aberta e feliz, verdadeiro átrio da fraternidade. +Manuel R. Felício Bispo da Guarda


Quaresma, Tempo de Viver 04 | O Alforge | março 2019

“Todos, Tudo e Sempre em Missão” Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa para o Ano Missionário e o Mês Missionário Extraordinário Por motivo do centenário da Carta Apostólica Maximum Illud, de 30 de novembro de 1919, do Papa Bento XV, o Papa Francisco declarou o mês de outubro de 2019 “Mês Missionário Extraordinário”, tendo como objetivo despertar para uma maior consciência da missão e retomar com novo impulso a transformação missionária da vida e da pastoral. Em união com o Santo Padre, queremos celebrar esse centenário apelando a um maior vigor missionário em todas as dioceses, paróquias, comunidades e grupos eclesiais, desde os adultos aos jovens e crianças. Acolhendo com alegria a proposta do Papa Francisco de um Mês Missionário Extraordinário para toda a Igreja, nós, Bispos portugueses, propomo-nos ir mais longe e celebraremos esse mês como etapa final de um Ano Missionário em todas as nossas Dioceses, de outubro de 2018 a outubro de 2019.

cessar. Repetidas vezes, no seguimento dos seus antecessores, tem lembrado que a ação missionária é o “paradigma de toda a obra da Igreja”. Assim sendo, não podemos ficar tranquilos, em espera passiva: é necessário passar de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária. Com o “sonho missionário de chegar a todos”, o Santo Padre tem incentivado a ir às periferias, a ir até junto dos pobres, convidando os jovens a “fazer ruído”, a não “ficarem no sofá” a verem a vida a passar. Convida a Igreja a não ficar entre si sem correr riscos, mas ter a coragem de ser uma Igreja viva, acolhedora, dos excluídos e dos estrangeiros.

Encontro pessoal com Jesus Cristo Desde o início do seu pontificado, o Papa Francisco tem convidado todo o cristão, em qualquer lugar e situação, a renovar o seu encontro pessoal com Jesus Cristo, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele e a procurá-l’O dia-a-dia, sem

No centro desta iniciativa, que envolve a Igreja universal, estão a oração, o testemunho e a reflexão sobre a centralidade da missão como estado permanente do envio para a primeira evangelização (Mt 28,19). Trata-se de colocar a missão de Jesus no coração da própria Igreja, transformando-a em critério

para medir a eficácia das estruturas, os resultados do trabalho, a fecundidade dos seus ministros e a alegria que são capazes de suscitar, porque sem alegria não se atrai ninguém. Em estado permanente de Missão A preocupação que tinha Bento XV há quase cem anos, e que o documento conciliar Ad gentes nos recorda há mais de cinquenta anos, permanece plenamente atual. Lembrando as palavras de São João Paulo II, “a missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, está ainda longe do seu pleno cumprimento. Uma visão de conjunto da humanidade mostra que tal missão está ainda no começo, e devemos empenhar-nos com todas as forças no seu serviço… A missão renova a Igreja, revigora a sua fé e identidade, dá-lhe novo entusiasmo e novas motivações. É dando a fé que ela se fortalece! A nova evangelização dos povos cristãos há de encontrar também inspiração e apoio no empenho pela missão universal”. Só assim nos

constituímos em “estado permanente de missão em todas as regiões da Terra”. Se Bento XV convidava “cada um a pensar que deve ser como que a alma da sua missão”, o Papa Francisco diz que é tarefa diária de cada um “levar o Evangelho às pessoas com quem se encontra, porque o anúncio do Evangelho, Jesus Cristo, é o anúncio essencial, o mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, o mais necessário” (EG 127). Como discípulos missionários, devemos entrar decididamente com todas as forças nos processos constantes de renovação missionária, pois, hoje, cada terra e cada dimensão humana são terra de missão à espera do anúncio do Evangelho. Viver a Missão O Papa Francisco indica quatro dimensões para prepararmos e vivermos o Mês Missionário Extraordinário de outubro de 2019: Encontro pessoal com Jesus Cristo vivo na sua Igreja: Eucaristia, Palavra de Deus, oração pessoal e comunitária. Testemunho: os santos, os mártires da missão e os confessores da fé, que são expressão das Igrejas espalhadas pelo mundo. Formação: bíblica, catequética, espiritual e teológica sobre a missão. Caridade missionária: ajuda material para o imenso trabalho da evangelização e da formação cristã nas Igrejas mais necessitadas. Estas dimensões de oração, reflexão e ação propostas pelo Santo Padre, assim como o


Quaresma, Tempo de Viver 05 | O Alforge | março 2019

“Todos, Tudo e Sempre em Missão” (Continuação…) tema do Dia Mundial das Missões em 2019 – “Batizados e enviados: a Igreja de Cristo em missão no mundo” – estarão presentes nas várias iniciativas diocesanas ao longo de todo o Ano Missionário, sempre centrados na Palavra e na Eucaristia: “partilhar a Palavra e celebrar juntos a Eucaristia torna-nos mais irmãos e vai-nos transformando pouco a pouco em comunidade santa e missionária”. A missão dada por Jesus aos seus discípulos é impressionante: uma missão ampla “por todo o mundo” (Mc 16,15), “a todas as gentes” (Mt 28,19), eficaz nos “sinais” que a acompanham (Mc 16,17), profunda e alegre, que só pode realizar-se desde a experiência do Ressuscitado e a sua colaboração confirmada (Mc 16,20). Do encontro com a Pessoa de Jesus Cristo nasce a Missão que não se baseia em ideias nem em territórios, mas “parte do coração” e dirigese ao coração, uma vez que são “os corações os verdadeiros destinatários da atividade missionária do Povo de Deus”. As iniciativas e atividades de cooperação missionária são dirigidas e coordenadas em toda a parte, por mandato do Sumo Pontífice, pela Congregação para a Evangelização dos Povos. Contudo, cabe às Igrejas locais, quer a nível nacional, através das Comissões Episcopais das Missões, quer a nível diocesano, na pessoa do próprio Bispo, tarefas semelhantes. A Congregação para a Evangelização dos

Povos serve-se, em cada país, das quatro Obras Missionárias Pontifícias (OMP) [Propagação da Fé, Infância Missionária, São Pedro Apóstolo, União Missionária], que sendo as Obras do Papa, são-no também do Episcopado e de todo o Povo de Deus, devendo dar-se-lhes, com todo o direito, o primeiro lugar. É por isso que apelamos uma vez mais para que em todas as nossas dioceses surjam “Centros Missionários Diocesanos (CMD) e Grupos Missionários Paroquiais (GMP), laboratórios missionários, células paroquiais de evangelização que, em consonância com as OMP e os Centros de animação missionária dos Institutos Missionários, possam fazer com que a missão universal ganhe corpo em todos os âmbitos da pastoral e da vida cristã”, que nos animem a ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho, numa missão total que deve envolver Todos, Tudo e Sempre. Renovação missionária Ao longo deste Ano Missionário, de outubro de 2018 a outubro de 2019, façamos todos – bispos, padres, diáconos, consagrados e consagradas, adultos, jovens, adolescentes, crianças – a experiência da missão. Sair. Irmos até uma outra paróquia, uma outra diocese, um outro país em missão, para sentirmos que somos chamados por vocação a sermos universais, ou seja, a termos responsabilidade não só sobre a nossa comunidade, mas sobre o mundo inteiro.

Paulo VI interpela-nos a “conservar o fervor do espírito e a suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com lágrimas… É que o mundo do nosso tempo que procura, ora na angústia, ora com esperança, quer receber a Boa Nova dos lábios, não de evangelizadores tristes e desencorajados, impacientes ou ansiosos, mas sim de discípulos missionários do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo, e são aqueles que aceitaram arriscar a sua própria vida para que o reino seja anunciado e a Igreja seja implantada no meio do mundo”. Não esqueçamos as novas gerações e o mundo dos jovens, que nos chamam a construir uma pastoral missionária “para” e “a partir” dos jovens. No contacto direto com eles, com as suas esperanças e frustrações, anseios e contradições, tristezas e alegrias, anunciemos as

boas notícias da parte de Deus. Nesse contacto, à imagem do Senhor Jesus, “o missionário não se irrita, não desanima, não despreza nem trata com dureza… mas a todos procura atrair com bondade até aos braços de Cristo, o Bom Pastor” (MI 43). Que este Ano Missionário se torne uma ocasião de graça, intensa e fecunda, de modo que desperte o entusiasmo missionário. E que este jamais nos seja roubado! Nesse entusiasmo, a formação missionária deve perpassar toda a nossa catequese e as escolas de leigos, e ser inserida nos currículos dos Seminários e das Faculdades de Teologia. Celebremos este Ano Missionário “sob a proteção de Maria, para que sejamos no mundo sentinelas da madrugada que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilhou na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”.


Quaresma, Tempo de Viver 06| O Alforge | março 2019

Esmola, oração e jejum Segundo o Papa Francisco, na viagem de retorno ao essencial “o Evangelho propõe três etapas, que o Senhor pede para percorrer sem hipocrisia nem ficção: a esmola, a oração e o jejum”. Estas acções reconduzem –nos às únicas três realidades que não se dissipam. A oração une-nos a Deus; a caridade, ao próximo; o jejum, a nós

mesmos. Deus, os irmãos, a nossa vida: eis as realidades que não terminam no nada e sobre as quais é preciso investir. A Quaresma convida-nos a olhar “para o Alto, com a oração”, que liberta de uma vida chata “onde se encontra tempo para si, mas se esquece de Deus”, e depois a olhar “para o outro, com a caridade, que liberta da nulidade do ter, de pensar que as coisas estão bem se para mim tudo vão bem”.

A Quaresma convida-nos “a olhar para dentro de nós mesmos, com o jejum, que liberta do apego às coisas, do mundanismo que anestesia o coração. Oração, caridade, jejum: três investimentos num tesouro que dura”. Ao longo do caminho da Quaresma, devemos fixar o olhar no Crucificado. “Jesus na cruz é a bússola da vida que nos orienta para o Céu. Da cruz, Jesus ensina-nos a coragem esforçada da renúncia. Precisamos de nos

libertar dos tentáculos do consumismo e dos laços do egoísmo, do querer sempre mais, do não nos contentarmos nunca, do coração fechado às necessidades do pobre. Jesus, no alto da cruz, chama-nos a uma vida inflamada por Ele, que não se perde entre as cinzas do mundo; uma vida que arde de caridade e não se apaga na mediocridade”, concluiu o Papa Francisco.


Quaresma, Tempo de Viver 7 | O Alforge | março 2019

QUARESMA - Tempo de Vida O Tempo Quaresmal ou é um tempo de crescimento espiritual ou não será nada. O Tempo da Quaresma ou é caminhada interior ou será apenas fuga de nós mesmos alienados sobre a nossa habitualmente pesada rotina. Desejo a todos uma verdadeira Quaresma que seja caminho ao encontro de Cristo que passa, pela cruz e pela morte, mas vence! Para que isso aconteça também connosco e na nossa vida precisamos nesta Quaresma de rezar mais. A Via Sacra por exemplo ou os Salmos ou a leitura com tempo e serenidade dos Evangelhos propostos para cada dia pela Igreja. Precisamos nesta Quaresma de fazer verdadeira penitência. Que há-de passar por renúncias

corporais como por exemplo retirar doces ou salgados que tanto gostamos ou café ou bebidas alcoólicas. Pode também esta renúncia passar pela mortificação de não participar em algumas diversões vazias, novelas, ou coisas supérfluas que nos ocupam em demasia. Precisamos nesta Quaresma de saber partilhar. Seja o nosso tempo visitando doentes ou idosos; seja ajudar materialmente ou psicologicamente alguém que precise.

Para que a Quaresma aconteça precisamos combater de forma séria os nossos vícios. De que ocasiões devo fugir para me renovar física e espiritualmente? Finalmente para que aconteça Quaresma não tenha receio de fazer o seu exame de consciência e procurar a confissão Sacramental. Estamos sempre a tempo de recomeçar e para Deus a

Misericórdia é sempre maior que o nosso erro ou pecado. Que todos queiramos fazer caminhada Quaresmal, no Espírito Missionário que a Igreja nos pede neste ano especial. Santa Quaresma que há-de levar-nos à VERDADEIRA PÁSCOA.

Pe. António Martins

Nesta Quaresma haveremos de ser capazes de fazer leitura espiritual. Que faça crescer o nosso fervor e amor a Deus. Há tantos e bons livros e gastamos tanto tempo a consumir péssimos jornais e revistas...Ler um Evangelho, ponta a ponta, nesta Quaresma. Porque não?

10 MANDAMENTOS PARA A QUARESMA 1º - Fazer a nossa Oração com fé e atenção, evitando as distrações. Rezar com Confiança e com sentido de dependência de Deus. 2º - Oferecer a Deus em sacrifício algum pequeno gesto na privação de algum alimento ou bebida. Sem prejudicar as forças físicas de que precisamos para trabalhar queremos que sobre no fim da Quaresma algum valor para ajudar os nossos irmãos mais pobres e necessitados.

3º - O sacrifício que podemos e devemos fazer no vestuário. Vestir com decência e modéstia, sem nos deixarmos escravizar pelo último grito da moda. (Isto aplica-se também à vaidade de possuir a última tecnologia!)

5º - Suportar de boa vontade a companhia daqueles que nos são antipáticos e nos desgostam, daqueles que nos contradizem, molestam e chateiam com perguntas indiscretas ou talvez malintencionadas.

4º - Suportar com serenidade as contrariedades que surgem no nosso caminho: palavras desagradáveis, sorrisos irónicos e trocistas, um desprezo ou uma falta de atenção, divisão e incompreensão da família ou vizinhos...

6º - Saber perdoar do fundo do coração aos nossos inimigos e mostrar um verdadeiro arrependimento que leva à conversão de vida. 7º - Deixar aqueles Vícios que nos prendem às coisas do mundo e nos impedem de

caminhar livres e responsáveis. 8º - Fazer uma verdadeira Renúncia Quaresmal, privando-me de algo, a fim de estar mais solidário com os Pobres e irmãos necessitados. 9º - Fazer uma boa Confissão pessoal onde faça a análise da minha vida cristã em todos os seus aspetos. 10º - Tomar consciência que sou dependente de Deus e da Sua Graça e por isso, a necessidade de me Reconciliar mais vezes ao longo.


Louvor e Agradecimento 08 | O Alforge | março 2019

14 anos ao serviço da Diocese da Guarda, no Ministério Episcopal Cumpriram-se no dia 16 de janeiro passado, catorze anos sobre o dia em que dei entrada nesta nossa Diocese da Guarda, nomeado Bispo Coadjutor do Sr. D. António dos Santos pelo então Papa e agora São João Paulo II. Era domingo, um dia muito frio, como frios foram todos os dias que se lhe seguiram, em que praticamente sempre saí e entrei em casa com temperaturas muito negativas. Mas esse frio era largamente compensado pelo calor humano e de Fé que se sentia mas pessoas em geral e em particular nos Sacerdotes do nosso Presbitério que me acolheram. Hoje pretendo fazer, diante da Diocese, um balanço do último ano aqui vivido, desde o dia 16 de janeiro passado. Assim, todo o ano de 2018 foi marcado pelo esforço conjunto de fazer recepção da nossa Assembleia Diocesana, que se realizou a meio do ano de 2017. Pretendemos, com esse esforço, levar ao conhecimento de toda a nossa Diocese as proposições aprovadas nessa Assembleia e, em jeito de caminhada sinodal, identificar, o melhor possível, quais as prioridades a ter em conta na aplicação dessas proposições. Para cumprirmos esse propósito, ao longo do ano, contactei com cada um dos nossos sacerdotes, presidi à celebração da Eucaristia concelebrada por cada um deles, no espaço da sua acção pastoral e também me encontrei com a sua equipa de colaboradores pastorais. Trouxe comigo importantes

registos de dados colhidos nestes encontros. Por sua vez, em cada arciprestado, reuni com o respectivo Conselho Pastoral Arciprestal e também com o conjunto dos conselhos pastorais para os assuntos económicos vindos de cada paróquia. Estes encontros tiveram sempre como referência por um lado as proposições da assembleia diocesana e, por outro, as realidades humanas, sociais e pastorais de cada um dos lugares. Contribuíram, em muito, para definir as linhas orientadoras da carta pastoral programática pedida na Assembleia Diocesana. Essa carta saiu com o título de “Guiados

pelo Espírito, Igreja em renovação” e foi apresentada na Sé da Guarda aquando do dia da Igreja Diocesana, em 2 de junho passado. Pretendeu esta carta, assinada pelo Bispo Diocesano definir as linhas orientadoras que deverão integrar os diferentes programas pastorais anuais dos próximos tempos. Sendo assim, para o programa pastoral do ano em curso escolhemos dois pontos indiciados nessa carta, a saber: apostar na formação de formadores, principalmente os nossos catequistas da catequese da Infância e Adolescência e também motivar os fiéis e as comunidades para a

consciência da responsabilidade missionaria. Desta forma, sintonizamos também com duas preocupações da Igreja em Portugal que são as seguintes: reforçar a formação dos catequistas e viver o ano missionário declarado pela Conferência Episcopal preparatório do especial outubro missionário decidido pelo Papa Francisco. Na tentativa de dar cumprimento a este programa pastoral, até agora, o Departamento Diocesano da Catequese da Infância e Adolescência e o Bispo Diocesano fizemos encontros por arciprestados com o respectivo clero e depois com os seus catequistas. Neste momento só falta fazer, num dos arciprestados, o encontro com os respectivos catequistas. Tenho de considerar este percurso muito positivo, com muitos catequistas desejosos de progredir na sua formação e reforçar a qualidade do serviço que prestam. Foi sublinhado, em todos esses encontros, quer com os sacerdotes e diáconos quer com os catequistas que a notável rede de catequistas que temos, por graça de Deus, instalada por toda a Diocese pode ser um dos melhores instrumentos que devemos saber aproveitar para renovação das nossas comunidades. E saiu também reforçado o desejo de que que isso aconteça com o melhor empenho quer dos sacerdotes e diáconos, quer dos catequistas. Foram feitas importantes sugestões sobretudo para o acompanhamento e formação contínua dos mesmos catequistas e também para aplicar o programa de


Louvor e Agradecimento 09 | O Alforge | março 2019

formação aprovado pela Conferência Episcopal. Uma outra preocupação que nos acompanhou, ao longo de todo este ano foi dar cumprimento ao pedido feito na nossa assembleia diocesana para nos envol­ vermos numa justa reorganização pastoral de toda a Diocese. A pedido da mesma Assembleia Diocesana, foi nomeada uma comissão para esse efeito que se espera a todo o momento possa apresentar os dados da sua reflexão e propostas. A etapa seguinte será, tanto quanto possível em caminhada sinodal, levar esta proposta à apreciação das diferentes instâncias de aconselhamento e decisão da Diocese para que opor­ tunamente possam ser dadas orientações chanceladas pelo Bispo Diocesano sobre esta matéria. Do conjunto dos eventos pastorais que tiveram lugar ao longo deste ano, desatacam-se os seguintes.

1. No dia 17 de junho, vivemos o acontecimento espe­cial­mente marcante para toda a nossa Diocese que foi a Ordenação Episcopal de D. António Luciano, agora Bispo de Viseu. 2. Em outubro, coincidindo com a solenidade do ani­ versário da dedicação da nossa Catedral, foi ordenado o diácono Daniel, que esperamos, por graça de Deus, seja ordenado Sacerdote ainda durante o ano em curso. 3. No nosso Mosteiro do Carmelo da Santíssima Trin­ dade, celebrou a sua solene profissão religiosa a Irmã Ana Francisca, que podemos considerar a primícia vinda da nossa Diocese para esta Ordem Religiosa

contemplativa, fundada entre nós no ano de 1994. 4. Também nos despedimos do Sr. D. António dos Santos, que o Senhor entendeu por bem chamar a si no dia 26 de março passado. A Diocese fica-lhe profundamente agradecida e garante-lhe a sua oração de sufrágio. 5. Em sintonia com o Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a Fé e o discernimento vocacional, que se realizou em outubro passado, as jornadas de formação permanente do nosso clero foram, este ano, sobre o acompanhamento pastoral dos jovens. 6. Pessoalmente, acompanhei, durante seis dias, em Taizé, em agosto passado, um grupo de jovens alunos que frequentam as aulas de educação moral e religiosa católica na nossa Diocese, com alguns dos seus professores. 7. Também a denominada “Missão País” esteve entre nós, em dois lugares diferentes, durante este ano. Trata-se de grupos de jovens universitários que dedicam pelo menos parte das suas férias para irem em missão, e vieram até aos nossos meios, trazendo consigo o testemunho da Fé e do serviço à comuni­dade, particularmente aos jovens. E ao longo do ano em curso está previsto recebermos mais três conjun­tos destes jovens universitários. 8. Em meados de novembro, durante uma semana, os institutos missionários ad gentes (IMAG) fizeram a sua assembleia geral na nossa Diocese, mais própria­mente em Gouveia, no Seminário dos Missionários de S. João Baptista. Registe-se que este evento se deu em pelo ano

missionário preparatório do especial outu­bro missionário de 2019. Continuam a ser preocupações minhas e de toda a nossa Diocese, entre outras as seguintes:

1. Cuidar o melhor possível o nosso Seminário e a pastoral das vocações sacerdotais, pois de outro modo a saúde das nossas comunidades necessaria­ mente tem de se ressentir. Sem sacerdotes verdadei­ra­ mente empenhados em servir o Povo de Deus segun­ do o Coração de Cristo, não pode haver autên­tico crescimento na vida da Fé. 2. Continuar a criar todas as condições para que os nossos sacerdotes possam responder às necessidades verdadeiras dos fiéis e das comunidades da Diocese, quer pela formação teológico-pastoral, quer pela vida espiritual, quer também pelo aprofundamento da cooperação entre eles, progredindo no espírito de vida em Presbitério. Os sacerdotes da nossa Diocese que participámos no último simpósio do clero realizado em Fátima, nos primeiros dias de setembro, trouxemos motivação para progredir neste caminho de vida em presbitério. 3. O serviço dos nossos diáconos permanentes é outra realidade pastoral relativamente nova que precisamos de continuar a optimizar para que aos fiéis e às comunidades não falte a ajuda e o acompanhamento de que precisam. O novo grupo de candidatos ao dia­ co­nado, em formação, é importante razão de espe­ rança. 4. Desejando fazer da nossa vida diocesana cada vez mais uma caminhada sinodal, sentimos a obrigação de valorizar cada

dia mais os órgãos de participação, aconselhamento e decisão, como são os conselhos pastorais diocesano, arciprestal e paroquial ou inter-paroquial e ainda os grupos de colaboradores pastorais de cada pároco. 5. Queremos empenhar-nos para que os diferentes serviços diocesanos, a começar pelos secretariados da acção pastoral sejam devidamente operativos no apoio à pastoral paroquial e inter-paroquial e senti­mos também necessidade de que os movimentos apostólicos que já temos procurem rever a sua acção e programas para se ajustarem da melhor maneira ao que exigem os novos tempos. Queremos também discernir quais os novos movimentos de acção pastoral que nos estão a fazer falta e empenharmonos na sua criação. 6. Finalmente não posso deixar de referir outra preocupação que é a gestão do nosso património para serviço da acção pastoral. Hoje estamos a sentir dificuldades acrescidas sobretudo quando se trata de procurarmos novas finalidades para património, geralmente muito valioso, que recebemos do passado e que foi pensado e utilizado para finalidades que hoje já não se justificam. Rezamos para sermos mais, ao longo do ano que temos à nossa frente, “guiados pelo Espírito, Igreja em renovação”, como propõe a carta pastoral apre­ sentada à Diocese no passado dia da Igreja Diocesana Guarda, 16.01.2019 +Manuel R. Felício Bispo da Guarda


Opinião Validada... 10 | O Alforge | março 2019

Velhice e isolamento Nos últimos anos, tem havido uma maior consciência das questões demográficas, ainda que parcamente reflectidas em fugazes notícias, logo trucidadas por uma qualquer evanescência do dia. Governos e partidos têm apresentado propostas relacionadas com o défice de nascimentos, embora quase sempre “engavetadas”, tem-se falado mais do rápido envelhecimento da nossa população e seu impacto nos sistemas de saúde e social, têm vindo a ser conhecidas projecções que antevêem sérios desafios no futuro já ao virar da esquina. Há um ponto, porém, que tem tido menos atenção. Refiro-me à estrutura demográfica por família. A percentagem de famílias unipessoais mais do que duplicou entre os Censos de 1960 e de 2011. Em valores absolutos, passou de 253.848 para 866.827, constituindo 21,4% das famílias, quando há 50 anos eram apenas 10,8%. Ao contrário, as famílias mais numerosas (com 6 ou mais pessoas, de diferentes gerações) diminuiu drasticamente de 17,1% para 2% do conjunto das famílias. A nuclearização da família tornou mais visível a fragilidade com que a sociedade enfrenta o futuro dos mais velhos. Atingimos praticamente o limiar de 500.000 pessoas idosas a viver sozinhas. Para dar uma diferente ordem de grandeza, só neste século (2001-2017), por cada dia que passou, 30 pessoas com mais de 65 anos passaram

familiarmente a viver isoladas (em muitos casos com múltiplo isolamento: familiar, relacional, territorial, pobreza). Como bem disse Bento XVI, “uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão. A qualidade de uma sociedade vê-se a partir do modo como ela trata os idosos”. A velhice não pode ser encarada como um problema ou um fardo, antes deve ser perspectivada como uma dignidade. O notável aumento da esperança de vida deve ser olhado como um grande avanço humano e social, diria mesmo civilizacional. Todavia, não estamos a dar resposta às novas questões daí decorrentes, seja no plano dos cuidados de saúde, seja no âmbito do apoio humano e social. A tendência para a massificação tem sido evidente e a supremacia da quantidade sobre a qualidade tem sido preponderante. Têm-se vindo a diluir formas de solidariedades capilares e de proximidade. Ou a sobrepor o poder da tecnocracia e burocracia sociais à imperativa humanização dos cuidados com os mais velhos. Deixou de se centrar na família e na comunidade de vizinhança a coesão geracional inerente às solidariedades naturais, isto é, resultantes da natureza gregária das pessoas e não produzidas pela ordem jurídica. Nada tenho contra os lares institucionais. Mas sou contrário à tendência,

por inércia, para a betonização da velhice. O lar é o último e muitas vezes inevitável recurso, sobretudo como modo de contrariar o total isolamento. Mas jamais poderá ser uma via de facilitação, não raro egoísta, que conduza perigosamente ao enfraquecimento e à fragmentação da família, à ruptura do diálogo intergeracional e à indignidade da omissão perante os mais velhos. As respostas clássicas são cada vez menos suficientes e mais desenraizadas, e têm dificuldade em destrinçar os velhos dos mais velhos entre os velhos. A organização da nossa estrutura sanitária e hospitalar não favorece (pelo contrário) os cuidados a prestar a esta parte da população e há uma tendência larvar ou explícita para o “racionamento” dos cuidados em nome do utilitarismo predominante da ideia danosa de “que já não vale a pena!”. Tem havido, contudo, um aumento muito positivo da oferta social de cuidados domiciliários, de cuidadores informais e de formas de combater a exiguidade relacional. É também imperioso haver uma melhor articulação entre os sistemas de saúde e de segurança social no que diz respeito às doenças geriátricas, aos cuidados continuados, aos idosos acamados e dependentes e à assistência pós-hospitalar, entre outras. E o IRS deveria consagrar a possibilidade de se incluírem sempre os ascendentes que vivam em comunhão de habitação com o sujeito

passivo na divisão do rendimento colectável (actualmente, apenas há a dedução à colecta de 525 ¤ desde que o ascendente não tenha rendimento superior à pensão mínima). Afinal não são pessoas como as outras, cuja permanência nos seus lares naturais deveria ser incentivada, sendo que o Estado até pouparia? Este é um desafio civilizacional. Não se compadece com a omissão e o silêncio, com visões de curto-prazo, ilusoriamente mediáticas, mas sim com políticas largas, transversais e de amplo consenso. Este é um problema para o qual temos o dever de evitar fracturas sociais e geracionais, e não de “oferecer” fracturantemente eutanásias legais, sociais ou relacionais. E como disse o Papa Francisco, “a Igreja não pode e não se quer conformar com uma mentalidade de impaciência e tão pouco de indiferença e desprezo em relação à velhice. Onde não há honra para os idosos, não há futuro para os jovens”. António Bagão Félix


Opinião Validada… 11 | O Alforge | março 2019

Nunca foi tão difícil ser pai (ou mãe) relíquias. O trabalho braçal era hediondo, passava-se fome. Portanto, ser pai ou mãe para os meus avós não terá sido mais difícil? Não. Sobreviver era mais difícil, sem dúvida, mas, precisamente por causa da dureza da vida, não se esperava muito do papel de mãe ou pai. Criar um filho era colocá-lo fora do perímetro da alta mortalidade infantil. Quando Henrique Raposo nasceu em 1979. É licenciado em dizia "criei dez", a minha avó História, mestre em Ciência estava a dizer que tinha Política. É investigador no conseguido salvar dez. Perder um bebé ou criança Instituto Português de Relações Internacionais da era normal. Esta quota mínima mudou com o Universidade Nova. Foi progresso das últimas colaborador e editor da revista Atlântico. Também décadas. A meu ver, mudou colaborou o Público, Diário em demasia. A bitola da de Notícias e Independente. paternidade subiu para níveis insuportáveis. A É cronista do Expresso perfeição, e só a perfeição, é desde 2008. uma exigência que a sociedade impõe aos pais de hoje. Têm de ser profissionais perfeitos, têm Em 2018, ser pai ou mãe de ser maridos e mulheres é um trabalho esgotante do perfeitos, na rua, na cama, no restaurante, nas viagens, que não tem o e, além disso, também de ser reconhecimento merecido pais perfeitos educando junto dos avós que foram filhos perfeitos. Neste pais há décadas, junto dos eternos trintões sem filhos, contexto, o divórcio só pode ser tão comum como a junto dos média que mortalidade infantil no destratam o tema como passado. "lifestyle". O peso da paternidade Bem sei que estou a falar começa neste culto da em causa própria, bem sei perfeição, que, por sua vez, que posso estar na está relacionada com a arrogância do presente. falácia do controlo absoluto Aliás, a grande objecção da nossa vontade ou que se pode fazer à minha intelecto. Se a criança faz tese (ser pai nunca foi tão uma birra no supermercado, complicado) está logo na geração dos nossos avós. Os cai o carmo e a trindade, toda a gente olha com meus avós viveram um espanto ou censura, como se tempo sem vacinas, de uma birra fosse o fim do fome, de pandemias. Na mundo, como se aquilo que minha árvore genealógica, define o bom pai fosse a tenho familiares que inexistência de birras (algo morreram de doenças que impossível) e não a forma hoje são consideradas

como se lida com as birras inevitáveis. Como salienta Sara Rodi , esta obsessão pelo controlo total e racional lança uma exigência demoníaca sobre os pais. Assume-se que a criança é um produto, uma tabula rasa onde se pode colocar tudo o que quisermos; é como se a criança não fosse uma entidade sagrada e criada por algo superior ao nosso intelecto, é como se a criança fosse um carrinho telecomandado, e não um ser humano com carácter próprio. Portanto, se a criança está a fazer alguma coisa considerada errada, fala muito, fala pouco, más notas, notas demasiado boas, birras, drogas, aprende devagar, aprende demasiado depressa, fuma, não come, come muito, é muito gordo, é muito magro, come doces com açúcar (Vejam só!), come pão de trigo (Que escândalo!), bebe leite (Que coisa medieval!), se a criança faz alguma coisa errada, dizia eu, assume-se logo que o erro deriva dos pais. Pode não ser assim. A educação é fundamental, claro, mas não é infalível e há sempre uma margem de liberdade da criança que nunca desaparece. As crianças não são barro inerte ou folhas de excel à espera dos "inputs" certos; são seres humanos autónomos, com vida própria. Dêem uma folga aos pais. As dificuldades continuam. No tempo antigo, os pais batiam, davam palmadas e estalos com naturalidade. Hoje, uma palmada dá remorsos para um ano. É uma evolução positiva, quero ser um pai, digamos, constitucional e não um pai tirano. Mas, como se sabe, a democracia é mais caótica e

trabalhosa do que a tirania. No tempo antigo, havia algo que garantia a sanidade dos pais: a rua. Ainda nos anos 80 e 90, nós podíamos brincar o sábado e o domingo inteiros na rua sem nenhum adulto por perto. Se nos dava liberdade, responsabilidade e calo, a rua dava sossego aos pais, que podiam ficar sozinhos em casa. Isso desapareceu. Hoje, os finsde-semana podem ser sufocantes. Os pais têm de andar com os filhos de um lado para o outro. A rua tem de se recriada em espaços fechados e vigiados pelos adultos. Claro que este cerco à vida adulta desgasta, claro que adia o primeiro ou o segundo filho, claro que torna o terceiro num acto heróico. Fiquemos na rua. No tempo antigo, havia sempre alguém na rua para tomar conta das crianças, uma tia, uma avó ou prima, um avó, um tio. Os familiares estavam perto uns dos outros. Ir ao médico ou ir ao cinema não era um drama nem uma operação logística (babysitter). As famílias eram grandes e apoiavam-se. Hoje, as famílias são minúsculas, envelhecidas e fragmentadas. Uns estão em Coimbra, outros em Lisboa, outros no estrangeiro. Mesmo pensando apenas numa área metropolitana, as distâncias são enormes. Viver em Lisboa e ter o irmão em Loures é impraticável para o dia-a-dia. O tio de Loures não pode apoiar o dia-a-dia do sobrinho de Lisboa, e vive-versa. Termino com uma confissão. Os pais de crianças (plural; dois ou mais) sentem-se sozinhos, isolados, sem reconhecimento, sem compreensão dos outros. Os mais velhos, os nossos pais e avós, não percebem bem as nossas dificuldades, porque medem as coisas pelos anos 80 e 60. Mas, como já vimos, não


Opinião Validada... 12 | O Alforge | marco 2019

Nunca foi tão difícil ser pai (ou mãe)… Continuação!

há comparação possível. O grau de exigência de 2018 não tem comparação com o de 1988 ou 1968. Além da inflação perfeccionista na escola e nas actividades (da piscina ao karaté), além das obsessões médicas e

alimentares, além do turismo das festas, além da ausência da rua, há ainda outro ponto fundamental: o inferno de estímulos visuais que éo tandem tv cabo internet. Um miúdo em 2018 recebe mais estímulos visuais num dia do que eu recebia numa semana ou mais. Como não têm este factor em mente, os avós muitas vezes são injustos com os pais. Por outro lado, os pais de hoje olham para a sua própria geração e vêem muita gente a não partilhar

o fardo. Por uma série de razões, a minha geração não abraçou a família como valor central. Às vezes, confesso, fico a remoer, Estamos pra'qui quase sozinhos a levar o barco às costas? Estamos pra'qui a fazer sacrifícios enquanto tudo à volta está na vidinha descansada sem filhos? Bem sei que tenho de ser como o filho mais velho da parábola, tenho de aceitar e passar à frente. Mas custa. Em 2018, ser pai ou mãe é um trabalho esgotante do que não tem o reconhecimento merecido junto dos avós que foram pais há décadas, junto dos

eternos trintões sem filhos, junto dos média que destratam o tema como “lifestyle”, junto do estado que não respeita o pai contribuinte, junto da segurança social que nunca colocará os pais à frente dos não-pais no cálculo das reformas. Podem berrar, podem espernear, mas velhos e novos têm de ouvir: ter filhos (plural) nunca foi tão difícil. Quando passarem ao pé de um pai ou mãe com dois ou três filhos à ilharga, tenham por favor a humildade para dizer, Obrigado!


Aconteceu… Jor nada Mundial da Juventude

13 | O Alforge | março 2019

Jornada Mundial da Juventude Manuel Felício enviou a partir do Panamá a todos os jovens participantes nos diferentes momentos de oração uma mensagem onde referia que 'o sim de Maria Santíssima quando disse diante do Anjo: - Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a Tua Vontade; há-de ser o modelo do sim de cada um de nós a Deus que chama'. Todos os momentos de oração terminaram na imensa expectativa de que Lisboa pudesse acolher a próxima Jornada Mundial da Juventude, em 2022, sendo a diocese da Guarda, com certeza uma porta da próxima edição!

No seu primeiro contacto com os jovens dos cinco continentes nas Jornada Mundiais da Juventude, no Panamá, a 24 de Janeiro, o papa Francisco convidou todos a rejeitar "muros" que dividem e destacou que os jovens devem ser "construtores de pontes". Com o evento a decorrer em Janeiro, época sem férias escolares, e num país distante, as circunstâncias não ajudaram á participação de muitos jovens da diocese da Guarda. Todavia, pelo menos em quatro lugares da diocese, Fundão, Covilhã, Guarda e Seia, numa iniciativa do Departamento da Pastoral Juvenil, Universitária e Vocacional, muitos jovens da diocese acompanharam o evento construindo pela

oração uma verdadeira ponte com o Papa Francisco e os jovens a ele unidos em torno de Jesus. O momento de oração aconteceu na noite do dia 25 de Janeiro, último dia da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e, por isso, rezou-se mais ou menos ao jeito de Taizé, lugar ecuménico onde Cristo une e se faz presente em cada coração que reza. A vigília de oração contou com poucas palavras mas profundas no sentido, com poucos gestos mas de grande contemplação de Deus, de cada um e do muito que rodeia os jovens. Integrando uma comitiva de seis bispos portugueses que representaram nas JMJ 2019 a Conferência Episcopal Portuguesa, D.

Rafael José Almeida Neves nasceu a 9 de setembro de 1985. É Pároco de Santa Marinha, Mangualde da Serra, Moimenta da Serra, Paços da Serra e São Martinho (Seia); Coordenador do Departamento Diocesano da Pastoral Juvenil e Vocações; Capelão para a Escola Superior de Turismo e Hotelaria de Seia.


Aconteceu… Missão País em Seia 14 | O Alforge | março 2019

Uma presença para ficar: Missão País faz toda a diferença! Na primeira semana de fevereiro, os jovens estudantes universitários da Missão País, marcaram a sua presença nas duas escolas do Agrupamento de Escolas de Seia. A Missão País nasce de uma dupla vontade dos três estudantes universitários da Universidade Nova de Lisboa: A de entregar parte do seu tempo à missão; A de ter na sua faculdade algo que os aproximasse de Deus. Sendo o seu local de estudo o sítio onde passavam uma grande parte do seu tempo, sentiam a necessidade de aí poderem falar sobre Jesus. Assim, seguindo o exemplo da Grande Missionária - Nossa Senhora - deixam tudo e partem com Cristo por Portugal fora. À primeira vista, poderá não ser claro como uma semana de missão poderia satisfazer tal desejo. "E se conhecesses o dom de Deus?", foi o lema escolhido para este ano de 2019, através do qual seis alunos da faculdade de Arquitetura do Porto se apresentaram na Escola Básica Dr. Abranches Ferrão, onde tiveram oportunidade de estar com uma turma do 5ºano de escolaridade. Aqui, desenvolveram uma dinâmica muito interessante acerca daquilo que cada aluno poderia fazer na sua família. Não houve a oportunidade para estarem com as outras turmas, todavia para o ano, haverá naturalmente essa possibilidade! Este lema, lançam-nos muitos desafios e conta o episódio do momento em que Jesus soube que chegara aos ouvidos dos fariseus que Ele conseguia mais discípulos e baptizava mais do que João embora não fosse o próprio Jesus a baptizar, mas sim os seus discípulos - deixou a Judeia e voltou para a Galileia.

Tinha de atravessar a Samaria. Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacob tinha dado ao seu filho José. Ficava ali o poço de Jacob. Então Jesus, cansado da caminhada, sentou-se, sem mais, na borda do poço. Era por volta do meio-dia. Entretanto, chegou certa mulher samaritana para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-me de beber.» Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Disse-lhe então a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?» É que os judeus não se dão bem com os samaritanos. Respondeulhe Jesus: «Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é que te diz: ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias, e Ele havia de dar-te água viva!» Disse-lhe a mulher: «Senhor, não tens sequer um balde e o poço é fundo... Onde consegues, então, a água viva? Porventura és mais do que o nosso patriarca Jacob, que nos deu este poço donde beberam ele, os seus filhos e os seus rebanhos?» Replicou-lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede; mas, quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der há de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna.» Disse-lhe a mulher: «Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai, chama o teu marido e volta cá.» Que belo desafio para as nossas vidas. Durante esta semana, cumpriu-se o primeiro ano da presença da Missão País na cidade de Seia onde vários jovens vindos, maioritariamente, do Porto auxiliaram e ajudaram esta comunidade a vivenciar a fé

de uma forma distinta, prestando o seu apoio em todas as instituições locais e habitações pessoais (entre as quais lares de idosos, Casa do Povo de Seia, porta-à-porta, domicílio) e participando em várias celebrações paroquiais, com a maior dignidade possível. Estes Jovens que abdicam das suas férias e partem à procura do silêncio necessário para dialogar com Deus, fugindo da azáfama das grandes cidades, e levando na bagagem palavras de conforto e abraços apertados para oferecer na terra que os acolhe durante uma semana. Prova disso, é também a passagem de cinco jovens missionários, pela Escola Básica de Tourais – Paranhos, que numa presença muito afável e amiga, conseguiram conquistar a simpatia dos diferentes alunos das várias turmas por onde passaram. Houve oportunidade para falarem de si, da sua vocação, do projeto como estudantes universitários e da sua ação concreta no dia-a-dia, no sentido de deixarem o mundo melhor. Para melhor percecionar a primeira passagem desta Missão pelas Escolas, aqui ficam alguns testemunhos: “Eu gostei muito dos jovens missionários, ensinaram-nos a valorizar cada momento que vivemos com a nossa família.” (Matilde-5ºB)

“A sua presença amiga e o seu exemplo, desafiaram-nos a ser melhores pessoas na escola, na família, com os amigos.” (Leonor-6ºC) “Missão País, uma forma de fazer bem aos outros!” (Soraia8ºC) “Tanta alegria, tanta serenidade… Obrigada pelo vosso exemplo” (Cristina – 8ºC) De facto, este projeto e os seus protagonistas, tem, de facto, uma mensagem realmente poderosa, capaz de fortalecer a nossa fé e esperança em Deus. A disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica não quer ficar indiferente a este projeto…. Os alunos que tiveram oportunidade de estar com estes jovens missionários, não ficaram indiferentes, pois mostraram vontade em vivenciar, para o próximo ano, esta bela experiência! Que cada um se sinta responsável por deixar uma marca de alegria neste nosso mundo e que sejamos capazes de cuidar daqueles que connosco transformam esta Casa Comum, que é pertença de todos! Missão País, até para o ano se Deus quiser! Estela Cristina Brito (Professora de Educação Moral e Religiosa Católica – Agrupamento de Escolas de Seia)


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15 | O Alforge | março 2019


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