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para L.

por:

Antónimo Lviz

Contexto temporal: algures num provável séc. XV


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(.i) Horas pareciam ter já passado desde que se encontrava a percorrer aquele caminho escuro e húmido… O breu da floresta cerrava a cada passo dado e a delicada luz do Quarto Crescente que se descobria no fundo céu sombrio não ajudava em muito. Um espesso nevoeiro impedia visão para lá dos dez metros e o caminho algo acidentado, descuidadamente ornamentado com seixos irregulares e outras pequenas pedras tornava tormentoso o seguimento desse trilho… demasiado tormentoso para aqueles pés descalços… Os cânticos outrora emitidos por grilos escondidos no matagal há muito que se apresentara como o único som existente, a par do eco do cantar de uma ou outra coruja que se fazia ouvir muito distante e espaçadamente… Não se lembrava de todo como ali chegara, nem sequer do início daquele malfadado trilho. Recordava-se somente de se encontrar a andar indefinidamente por aquele caminho escuro, frio e desconhecido. Nada mais… Era como que se tivesse acordado a trilhar aquela via de um sonho em que já a estava a percorrer. Não havia maneira de cortar caminho, tentasse pelo lado esquerdo ou pelo lado direito, a densidade fortemente definida de ambas as paredes da floresta impediam a saída daquele trilho, impondo cabalmente o seu seguimento ou para a frente ou para trás. Olhando para trás via-se apenas o que a densa neblina permitia ver: parte do caminho ladeado, como que se de elevados muros se tratasse, pela descolorada florestação e olhando para a frente exactamente a mesma inevitável situação. Um imponderável desespero parecia querer-se-lhe apoderar, juntamente com aquele toque de cansaço que trepava galopante pelo seu corpo debilitado acima, no entanto, dando-lhe a sensação de que não aumentava nem diminuía de intensidade. Mantinha-se constante, o que consistia na maior tortura… Qualquer que fosse a sensação que se lhe fizesse sentir, tinha uma intensidade como que predefinida, angustiantemente constante, algo incoerente e até impossível, pensara… aquele estagnar psicológico/emocional parecia conduzir a um veloz culminar de loucura e desespero inevitáveis (cada vez mais e mais veloz) no entanto, sem nunca efectivamente lá chegar… Não era porém só emocionalmente que esta estranha sensação se lhe manifestava. Fisicamente, apesar de sentir em cada membro seu o peso do corpo inteiro, imponha-se-lhe inexplicavelmente a compassada movimentação que o acto de caminhar lhe exigia, como que se não houvesse atrito algum, sentindo no entanto um cansaço semelhante ao que sentiria se caminha-se dias seguidos ininterruptamente. Perdera à muito a conta ao tempo a que se encontrava a caminhar… perdera à muito a noção de qualquer registo de tempo e até distância. Seu corpo pedia descanso indefinido, serenidade intemporal, incomensurável repouso, porém não lho permitia sua inquietada mente assolada por aquela angústia desconhecida que lhe impunha essa repetitiva continuação… Assemelhava-se a um vicio indescritível ou a uma maldição da qual seria sempre impossível escapar, por mais que se tentasse… a anátema das anátemas.


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Por mais que avança-se, o cenário mantinha-se inalterado… pendia continuamente algures entre a fraca luminosidade e a visibilidade turvada pelo teimoso nevoeiro… apresentava algo de desolador, pensava, algures na imersão da sua quase-loucura. A cada novo som decidido por uma (nova) coruja apossava-se-lhe da alma algo semelhante ao sentimento de perda… e a cada um dos ecos seguintes, um diferente significado para esse mesmo sentimento. Sentimentos vazios, cheios de nada, perdidos em lugar nenhum.


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(.ii) Ela não tinha comparecido. Não naquele adeus. Gostavam demasiado um do outro para que qualquer um deles estivesse presente em tal despedida, num adeus definitivo em que se tivesse de despedir dele sem ter a certeza de um depois. Assim, ignorando a chuvita que ainda caía, ela aninhou-se na árvore velha, uma espécie de refúgio que era confortável ao romance de ambos, sendo que agora, em aspecto algum se apresentava cómodo. Para além de toda a agonia que assaltava violentamente o seu débil coração que tentava negar o sucedido, havia também aquela… aquela coisa… aquela impressão que não sabia bem o que era pois parecia uma terrível certeza, sob a forma de um talvez outro sentido, coisa de mulher ou um provável alucínio causado pela enfraquecida condição em que se encontrava a sua mente destroçada, desde que lhe tivera sido comunicada a horrenda noticia… desde as três horas dessa tarde. Desde então havia estado prostrada numa quietude agonizante, junto a árvore velha, no jardim da casa que outrora pertenceu aos dois… Era uma casa já antiga, havia pertencido anos antes a um velho casal rico nativo da vila que, após a idade dos dois e o insanecer da velha senhora seguido da sua morte, levou o velho viúvo, contra vontade do único dos cinco filhos que a peste não lhe levara, a vender a casa que não trazia mais do que más recordações, mudando-se definitivamente para uma casa que possuía fora daquela vila. Quando o jovem casal se mudou para a vila, agradou-lhes a casa cujas paredes estavam parcialmente cobertas por longas heras entrelaçadas, com um pequeno pátio dianteiro e um largo jardim com bastas arvores e arbustos que se estendia pelo terreno traseiro à habitação. Era nesse terreno, nesse jardim outrora agradável, que as memórias lhe assolavam agora o espírito destroçado, e era nesse jardim, junto a velha árvore onde ainda dias antes tinham estado os dois sentados, a contemplar pensamentos que só aos dois pertencem, que ela soluçava, envolta nessa terrível dúvida, que a cada hora que passava, aumentava a inequivocável certeza de que não podia ser verdade. Não podia ser verdade… Haviam até aquelas raríssimas situações capazes de fazer troça até da verdade mais comprovada. Ela tinha a certeza de que ele não estava... pior, de que estava lá… fechado e oculto na sua horrífica prisão humedecida pela chuva suave que se fazia sentir desde o início da tarde. Ao não conseguir conter mais esta desgastante e doentia certeza, correu. Correu louca, debaixo da insignificante chuva que ainda teimosamente se fazia sentir, direita à casa do Domingos. Este era um homem de aspecto rude e robusto, cujas mãos estavam fortemente calejadas devido às circunstâncias e ferramentas que o seu trabalho exigia. Era no entanto detentor de um olhar meigo qual criança e de uma compreensão fora do vulgar. Ela saberia que ele seria o único a dar-lhe ouvidos, a reconhecer que a sua inabalável certeza era verdadeira, e que ele tinha de ser libertado daquela prisão que lentamente o engolia mais e mais, naquela enegrecida Noite.


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A casa do Domingos era longe. Ficava talvez a uns três, talvez quatro quilómetros da sua, que deixara desde que se tinha decidido a correr para salvar aquele que amava. Não sabia a quanto tempo corria já, mas o cansaço que se apoderava das suas frágeis pernas brancas, rugia dentro do seu peito velozmente palpitante, oferecendo-lhe pontadas constantes de uma dor aguda. Mas ela ignorava essa dor. Aquela que lhe afligia o coração e o espírito era deveras maior, e o tremendo pensamento de que o seu amor se encontraria lá… Essa negra imagem concedialhe uma força quase ilimitada, para correr…correr ao seu encontro, e libertar, por fim, o seu homem das garras repulsas daquela jaula que o queria injustamente comer vivo.


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(.iii) Teria chovido antes de ali se encontrar? Talvez a esse facto natural se devesse a toda aquela desconfortável sensação de humidade naquele caminho de negra floresta densa que percorria, ou julgava, pelo menos, ter percorrido… O seu corpo continuava a ser impelido para a frente, em direcção a nada, como lhe parecia. Aquela constante sensação mantinha-se-lhe desumanamente inalterada à medida que avançava naquele trilho estreito e densamente nebuloso, no qual suas únicas companhias eram os mais diversos pensamentos e divagações, tantas vezes incoerentes e absurdos, que lhe iam ocorrendo não propositadamente. Inadvertidas e desconexas. Não sentindo o seu corpo como seu, apenas a desgastada mente que tamanhas partidas lhe pregava, se mostrava ainda, parcialmente sua e funcional… [!] Repentinamente, o som emitido pelos distantes grilos havia cessado… E sem aviso tudo a sua volta quedou-se num ambiente profanamente defunto, ainda mais do que já era anteriormente. Com aquele silêncio petrificantemente avassalador, pôde reparar melhor nas árvores, que pareciam enegrecer ainda mais na sua já escurecida tonalidade ao passo que o Quarto Crescente tornara-se agora completo, num brilhante disco cheio de luz opaca. Pensou que poderia ser o som emitido pelos grilos a manter a sua mente numa espécie de transe, evitando que sentisse medo ou qualquer outro sentimento concreto, mas por outro lado isso seria absurdo… quase tão absurdo quanto o desconhecido sitio intempóreo onde se encontrava. O seu incessante movimento havia também cessado sem que se tivesse apercebido… Ao tentar, não conseguiu que os seus membros inferiores desenvolvessem qualquer tipo de locomoção. Parados. Algo que ainda há pouco lhe parecia assustadoramente impossível não acontecer, tinha acontecido sem qualquer razão aparente. Pensou sorrir por dentro… Muito vagarosamente surgiam agora, por cima daquele silêncio estarrecedor, longínquos sons, quase mudos e muito imprecisos, que se assemelhavam talvez aos sons despoletados pelas ferramentas de cultivo agrícola… algo perfurante e seco, como que se algo ou alguém estivesse a desferir murros no chão, em desespero… som que se ia aproximando e apesar de parecer lento e moroso, transmitia uma tremenda sensação de urgência. Passado algum tempo, não dando para definir exactamente quanto (talvez minutos, ou seriam horas?), fez-se acompanhar agora pelo que seria talvez um guincho agudo. Se o fosse, poderia ser de um animal, mas por outro lado, possuía a sensação de pânico, parecendo até vociferar sofregamente um nome. Mas isso pouco interessava pois, por mais que tentasse, não conseguia sequer lembrar o seu.


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Mais uma vez sem qualquer espécie de advertência, começou novamente a ser invadido por aquela sensação de movimento imparável (no já há muito não controlado por si) seu corpo… Debateu-se em vão com algo que parecia comandar a sua força e a sua vontade, numa tentativa fracassada de tomar o controlo do seu corpo. E por breves momentos conseguindo alcançar esse objectivo, agarrou os seus longos cabelos, puxando-os freneticamente, lutando bravo para tentar libertar-se de si mesmo, antes de perder o brevemente conquistado poder de si… Desesperado por fim, gritou com todas as suas forças, não tendo no entanto da sua garganta saído som algum. Nem o mais leve timbre foi emitido das suas cordas vocais. Nada. No escuro cenário o som longínquo dos grilos recomeçou, imperturbável e compassadamente repetitivo, como que se nunca tivesse sequer parado e lembrou a sensação de ter rasgado algo com as suas mãos imediatamente antes de perder o controlo de si. Então, o seu descontrolado braço, desfechou sobre o seu próprio peito três fortes golpes e sentiu uma luz cegante inundar o seu coração e todo o negro espaço onde se encontrava e provou-lhe a mente uma tremenda sensação de abandono. Finalmente, perdeu a consciência antes de conseguir proferir totalmente um nome…


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(.iv) Chegou finalmente à casa daquele que a iria ajudar. Casita velha e humilde, com largas rachas donas daquelas paredes há já muitos anos, situava-se a dez passos do cemitério a árida habitação de Domingos, o coveiro. Após ter batido freneticamente à sua porta e convencido o ensonado senhor da sua certeza inabalável, que rabugento mas interiormente emocionado pelo estado da rapariga lá acabou por ceder ao seu estranho e mórbido pedido, mais a meia-malfadada-hora que demorou a tirar toda a terra da talha 25, o abismo castanho-escuro onde se encontrava o seu tesouro, levantou enfim a pesada tampa a custo devido à sua já escassa força e agarrou-o imediatamente junto ao seu peito tentando-o acordar, mas os seus olhos mantinham-se inalteravelmente fechados… Estava morto! Inequívoca e friamente morto. Cegamente enraivecida, ela gritou histericamente num pranto inconsolável sob o olhar atento do coveiro que não proferiu uma única palavra, abanando o cadáver mais e mais. Debaixo dos contínuos infelizes chuviscos, amaldiçoou deuses em que não acreditava, falou com o seu amado ternamente e gritou mais enraivecida ainda. Por fim faltou-lhe a voz e as poucas forças que lhe restavam. Então, sob o Quarto Crescente que se assemelhava a um disco luminoso por detrás das nuvens penduradas no negro céu, desolada e soluçante, desferiu três golpes com raiva no peito do corpo que se lhe encontrava à frente, o corpo que agora, por fim, comprovava a sua demente loucura, causada em resultado do seu amor por ele ter dado mãos à dor agonizante dessa irreparável perda. Com lágrimas a cair impetuosas face abaixo, beijou violentamente os lábios do corpo e correu mais uma vez, agora a fugir e sem direcção, sob os teimosos chuviscos que ainda restavam da chuva da tarde passada, em soluços mudos e lágrimas incessantes, até desaparecer no cerrado nevoeiro…


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(.v) O coveiro, sabendo que nada podia fazer para a consolar, deixou-a ir e preparou-se para preencher novamente aquele vazio da cova com a terra que lhe era pedida, com a imagem perturbante daquela criatura desesperada, que não conseguiu aceitar o fado do seu amado, e desse seu desespero tornado mudo após ter fugido daquele local. Encostou a sua gasta pelo uso e ferrugenta enxada e fechou a pesada tampa da mortalha de madeira sob o seu outrora precioso conteúdo, banhado unicamente pela pouca luz do quarto crescente e da candeia de que se fazia acompanhar, afastando-se para ir buscar a sua ferramenta de trabalho. A noite estava agora calada. Desde que os gritos que haviam sido enfurecidamente entoados por aquela rapariga tinham cessado, ouvia-se apenas o cantar de dois ou três grilos muito longínquos, e espaçadamente o agoiro de uma coruja. Ouviu uma pequena e quase muda pancada. Continuou em direcção a enxada. Outra pancada. Teria sido apenas imaginação, pensou para consigo. Todos aqueles anos a trabalhar em algo que mais ninguém faria, teriam feito qualquer pessoa vacilar por vezes frente a sons aos quais normalmente nem se prestaria atenção, pensou ainda para consigo. Mas eis que ouviu outro som igual aos primeiros, levando-o quase inconscientemente a virar-se para o já fechado caixão. As seguintes pancadas, ainda que fracas, confirmavam-no. Vinham de dentro daquela mesma caixa de madeira que ainda há pouco tinha estado aberta. Não havia dúvida, ou ele estaria louco ou, como momentos antes convictamente afirmado pela rapariga, o cadáver do morto estava realmente vivo… Apressou-se a abrir a tampa.


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(.vi) Atónito, o coveiro viu o corpo que ele mesmo tinha posto na sua morada final nessa mesma tarde entreabrir os olhos. Ouviu-o ainda murmurar imperceptível uma palavra (o nome da rapariga talvez?) antes de desmaiar. --Sentiu as suas pálpebras roxas pesarem-lhe como o Universo, e deixou-se mais uma vez levar-se pela escuridão que desta vez lhe parecia reconfortante e agradável… --O coveiro tomou-lhe então o pulso, certificando os seus olhos ainda incrédulos de que ele estava realmente vivo e sentiu o sangue a correr-lhe nas veias. Pegou naquele corpo vivo para que o pudesse levar para a sua casa até ele recuperar. Ao faze-lo, reparou que o forro interior do caixão se encontrava rasgado. Durante o curto caminho até sua casa, foram-lhe passando pela memória imagens de tal bizarro acontecimento que acabara de presenciar, tentando talvez, encontrar um a explicação para tão estranho acontecimento. Como era possível que, tendo sido declarado morto, após tantas horas sem respiração ou pulsação, ele estivesse realmente vivo? Talvez nunca tivesse chegado a morrer realmente ou por algum milagre o seu corpo havia ressuscitado… talvez devido aos golpes que ela tinha desferido no seu ainda há pouco inanimado peito, pensou estarrecido, ou talvez pelo beijo que aqueles lábios, roxos pelo frio a que se sujeitara debaixo do pesado e húmido céu que percorrera em vão até aquele sítio desolador, lhe haviam dado… mas não tinha sido em vão. Não. O coveiro perscrutou todo o local com o seu olhar ansioso, mas ela havia já desaparecido por entre o nevoeiro denso.

“Parou de chover…”


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(.vii) Acordou no seu quarto. Numa cama que não recordava ter sido sua. Passaram-se dois meses desde o sucedido sem que tenha saído uma única vez de casa. --“De tempos a tempos, Domingos traz-me mercearias da vila, talvez por amizade ou por qualquer outro tipo de simpatia que nutra por mim… talvez seja pena. Por varias vezes fala-me, nas curtas conversas que tenta em vão ter comigo, numa rapariga, descrevendo-ma cuidadosamente. Diz-me que foi ela que me salvou. O quão estava desesperada. Que me amava… Que estávamos casados e que vivíamos nesta casa… Que fugiu descontroladamente por saber que aquilo que tão afincamente sentia estava afinal errado, por me julgar verdadeiramente morto. Que tinha desaparecido por entre o nevoeiro cerrado dessa noite fria, nunca mais tendo sido vista desde então. Mas eu não me lembro. Nem dela, nem de nós, nem de um antes… É irónico habitar, morto-vivo (como me chamam as pessoas da vila) e sem memórias, um quarto ao qual mais se poderia chamar de caixão depois de ter sido socorrido da morte certa de dentro de um verdadeiro, em que já me havia encontrado definitivamente encerrado e enterrado. Apesar do pânico que se apodera do meu frágil intelecto, de sequer me imaginar soterrado por sejam quantos palmos de terra constituíram o meu céu e tecto durante todo o passar daquilo a que a nossa consciência interpreta como tempo, em que lá me encontrei, não é de estranhar (talvez graças ao meu gosto de estar isolado…não sei) pensar que me sentiria mais confortável e aconchegado, ou algo parecido a esses sentimento, dentro daquele caixão. Não percebo para que razão sobrevivi. Agora que penso nisso, e me lembro daquele estreito caminho, apertado e sem fuga qual caixão que me acolheu, talvez tivesse gostado de ver o seu final (se é que teria havido um). Se não tivesse ouvido algo que me puxasse de volta… Algo que eu sei que ouvi e senti, tenho essa certeza, mas que não me consigo lembrar… Será que foi ela? Ou por ela? Quem era ela? E onde estará agora? Mas acho que, agora, simplesmente não me apetece lembrar… Nem lembrar, nem pensar, nem ser… nada. Afinal de contas, pode-se dizer que morri.”


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Ant贸nimo Lviz Viseu, 2009


"Parou de Chover..."