Ela está perdida no passado. Ele é um poderoso guerreiro escocês. Será que um amor proibido pode ter futuro entre as épocas?
A responsável pela busca e resgate de pessoas em Vermont, EUA, Amy MacDougall teme ficar presa - tanto em lugares pequenos e escuros quanto em um relacionamento. Mas enquanto acompanha uma turma de escola à Escócia, ela é forçada a enfrentar sua claustrofobia para salvar uma aluna em uma masmorra do castelo. E quando uma rocha mágica nas ruínas a envia através do tempo para 1307 d.C., Amy fica frente a frente com um belo guerreiro escocês.
O highlander Craig Cambel não confia em ninguém depois que o clã MacDougall sequestrou e violentou sua irmã. Então, quando ele descobre uma linda mulher em um túnel secreto na fortaleza em que está infiltrando, ele a prende para evitar que ela avise o inimigo. Mas quando a mulher se prova útil para seu povo, apesar de ser uma MacDougall, Craig não consegue evitar que sua desconfiança se transforme em desejo.
Enquanto Amy procura um caminho de volta para casa, descobre que sua fobia de compromisso está desaparecendo e se apaixona pelo corajoso escocês. Porém, quando Craig descobre que a mulher misteriosa não é quem ele pensava ser, todas as suas dúvidas sombrias reaparecem.
Será que a distância de séculos partirá seus corações para sempre, ou eles cederão ao destino e construirão um futuro feliz?
“Só é merecedor da liberdade e da vida quem tem de conquistá-las de novotodososdias.”
-JOHANNWOLFGANGVONGOETHE
PRÓLOGO
CastelodeDunollie,Lorne,Escócia,1296
A CRUZ DE FOGO QUEIMAVA.
Bum.Bum.Bum.Osomdecentenasdepalmasbatendocontratambores reverberounopeitodeCraigCambel,seucoraçãobatendofortecomoritmo.
Atrásdele,estavamduzentosmembrosdoclãCambel.Cadaumdeleshavia respondidoaoantigochamadodacruzemchamasqueestavaaoladodocavalo dochefedoclã.
Ochamadoparaderramamentodesangue. Ochamadopararestaurarahonraperdida.
Ochamadopararesgatarumentequerido.
O Castelo Dunollie surgiu diante de Craig, a sede do clã MacDougall. Ele tinhaquatromurosdecortina,umportãobemàfrentedosCambelseumatorre quadradasimplesdetrêsandaresconstruídanocantodireito.Notelhadoenos muros,osarqueirosestavamapostos,comascordasdosarcosesticadaseas flechasapontadasparaCraigeseushomens.
MasosarqueirosdeCambelestavampreparadospararesponder.Oaríete fora colocado em frente ao portão. As longas escadas de cerco, algumas reparadas,outrasrecém-construídas,mantinham-sefirmes.
SirColinCambel,chefedoclãeavôdeCraig,ergueuumbraçoeobarulho dostamboresfoisilenciadoimediatamente.
“JohnMacDougall!”Seugritofoilevadolongepelocéucarregado,ecoando
nasrochasenasparedes.“Apareça!”
Osarqueirosmoveram-senotelhado,abrindoespaço.Umhomemapareceu entreeles.
Cambel”,gritouele."Vocêveiodevolverminhasterras?"
“As terras foram concedidas a mim pelo Rei John Balliol e não são mais suas. ”
“Sim,evocêestavabastanteansiosoparaaceitá-las.Nãoseesqueçadeque aindaémeuvassalo.”
“Parecequeévocêquemseesquecedascoisas.Coisascomohonra.Como mantersuapalavra.Comoprotegerseusvassalos.”
“Nãodevoproteçãoaladrões.”
“Ladrões?”SirColincuspiunochão.“Comoousa?Devolvaminhaneta.Ese vocêsabeoqueébomparavocê,dê-meseufilhobastardoquenãoaceitanão como resposta de uma moça. Vou ensiná-lo sobre honra. Claramente, seu própriopaifalhouemfazerisso.”
AmãodeCraigfechou-sesobreocabodaespada.Eleselembroudodiaem quesuairmãMarjoriehaviadesaparecido.Elatinhasaídodocastelocomsua criada para colher ervas para a cozinha. Passado um tempo, a empregada apareceucorrendosozinha,gritando,tremendoecomumcorteprofundona bochecha.
Os Cambels levaram uma semana procurando e questionando até descobriremquemahavialevado.
AlasdairMacDougall.
FilhodosenhordoclãMacDougall.
AmandíbuladeCraigficoutensaaopensarnanecessidadedeencontraro bastardoelibertarsuairmã.
JohnMacDougallficouemsilêncioporummomento.“Sedesejasuaneta,Sir Colin,deveviraquiepegá-lavocêmesmo.Elaénoivadomeufilhoenãovou devolvê-laatéqueelenãoaqueiramais.”
OsilênciocaiusobreacostadaBaíadeOban.Craigsabiabemlánofundo queestedianãoterminariasemderramamentodesangue.
RestavasaberseMarjorieseriaferidaounão.
UmrosnadodefúriabrotoudedentrodeCraig,subiuporsuagargantaefoi levadoaolongodocampo.OsMacDougallsolharamparaele.Oshomensde Cambelficaramtensos,prontosparaatacaraoseusinal.
“Seseufilhotocounumfiodecabelodela...”Craigouviusuaprópriavozser levada pelo ar. “A missão da minha vida será tornar sua morte longa e dolorosa.”
Suafamíliarugiu.Seupaimontadonocavaloaoladodele,seusdoismeiosirmãos, seu avô, seus tios e primos estavam todos ali. O resto do clã os acompanhou, erguendo seus machados e espadas no ar. O som retumbante voltou–nãovindodostamboresdestavez,masdasarmasbatendocontraos escudos.
“Cruachan!”SirColindeuogritodeguerradosCambeleoclãorepetiu.A palavracorreupelocampoemumestrondoeuniutodoscomoumsó.
Talvezamorteosesperasse,maselesmorreriampelosseusentesqueridos. Peloqueeracerto.
ECraigmorreriafelizsalvandosuairmã.
Eles se lançaram à frente. Protegendo-se das flechas que choviam como granizo, eles chegaram à torre. Seus próprios arqueiros lançaram flechas de fogonadireçãodocastelo,easprimeirasencontrarammadeiraentreaspedras.
AmorteescolheusuasvítimasentreosCambels.Guerreirosgritavamde dor.Carneerarasgada.Ocheiroferrosodesanguepairavanoar,estimulandoa fúriaeomedodeCraig.
Elecorreuefinalmentealcançouaparededocastelo.
Oaríetebateucontraoportão.Asescadasforamerguidas,masoinimigoas empurrouparatrásealgumasdelascaíram.Outraspermaneceramnolugare seushomenscomeçaramaescalar.
ApulsaçãodeCraigressoavaviolentamentecontrasuastêmporas.Eleolhou paraaesquerdaeparaadireita,tentandoveralémdoshomensdoseuclã. Como ele poderia entrar sorrateiramente no castelo sem que o inimigo percebesse?
Segurandooescudoacimadacabeça,elecorreuparaadireita,aolongoda linhadoshomensdoseuclãquesubiampelasescadasdecerco.Oplanodo chefeerainvadirpelosmurosfrontaleoeste,ambosbaixos.Assim,aatenção dosMacDougallsestarianesseslocais.
Nãoparaoleste.
Craig dobrou a esquina e correu ao longo da parede oeste da torre, que levavaaomurodecortina,parandosobtrêsjanelas,umaemcadaandar.
Até o momento, ninguém da torre o havia notado. Todos os arqueiros
estavamolhandoparaondeamaioriadoshomensdoseuclãestava.
ECraigeraumbomescalador.
Elecolocouoescudonascostas,pegousuasduasfacasdeescaladaeolhou paracima.Elesóprecisavachegaràjanelamaisbaixa.
“É apenas uma montanha íngreme”, murmurou para si mesmo. “Você já escalourochasíngremesdezenasdevezes.”
PorMarjorie.
Ossulcosentreaspedraseramperfeitosparasuasfacas.Craigenfiouafaca naprimeirafenda,eogestolhetrouxesatisfação;foiquasecomoperfuraro coraçãodeumMacDougall.
Eleseergueucomumbraçoecravouasegundafacamaisalto.
Traidores.
Eleseergueunovamente,osmúsculosdeseuombroqueimavamdoesforço, massuafúriaencontravaumpequenoalívio.Outraenfiadadafacamaisaltoe areiaepoeirajorraramdoburaco.Aterceira...
Alguémgritouacimadeleeumaflechapassouzunindoporele,atingindoo chão.
Craigolhouparacima.Homensnotelhadoapontavamsuasflechasparaele.
Maisrápido.Maisrápido!
Outraflecharoçouemseuombro.
Ele se apressou, esfaqueando a parede mais rápido e se erguendo. Algo pontiagudoqueimouseuombro-umaflechaohaviaarranhado.
Ele estava quase na janela. Mais uma facada na parede e ele chegou ao pequenobeiraldajanela.Craigcolocouafacanafendaentreasvenezianasde madeiraeempurrouatravaparacima.Elacedeueasvenezianasseabriram.
Craig olhou para dentro. Seus músculos queimavam com o esforço da subida.Eraumquartoeasombradeumapessoafoiprojetadapelavelaque tremulavalentamentenocanto.Alguémestavaencostadonaparedeàdireitada janela.
Craig pegou uma pequena pedra que se soltou da parede e atirou-a no quarto.
Umatábuademadeirapassouvoandopelajanela.Eleselevantoueentrou noquartoeaoaterrissar,agarrouoatacante–umamulher–eprendeuseus braçosatrásdascostas.
Elecolocouafacaemsuagarganta.
“MarjorieCambel”,disseele.“Ondeelaestá?”
AmulhereraaesposadeJohnMacDougall.Nocantodacama,haviacrianças amontoadas.Eleolhouaoredor,masnãohaviamaisninguém.
“Onde ela está?” ele repetiu, mais alto, pressionando a lâmina com mais força.“Nãoquerolhemachucar,estouaquipelaminhairmã.”
Amulherfechouosolhoscomforça.“Terceiroandar”,disseela.“Oquarto voltadoparaoleste.Comoeste.”
Eleasoltou,tirouaespadadabainhaqueestavapresaemsuascostase abriuaportaligeiramente,olhandoocorredor.
Seráqueelepodiaconfiarnaspalavrasdamulher?Eseelativesseditopara elesubirparaqueencontrasseumamaiorresistência?
Bem,Craigiriadescobrir.
Eleouviupassospesadosnocorredoraomesmotempoemqueoaríete atingiuoportãodemadeira.
Elesubiurapidamenteasescadasestreitaseespioupelocantodaescada.
Dois guardas correram em sua direção. Espada encontrando espada e escudo, ele começou a dança para a qual havia sido treinado desde que conseguira empunhar uma arma. Alguns golpes depois, um guarda se encontravanochão,pressionandoumcortenalateraldocorpoeooutroestava inconsciente.
Craigsubiucorrendoatéolancedeescadaseguinte.
Os gritos vindos do telhado estavam mais altos no terceiro andar e um cheiro de fumaça encheu suas narinas. O telhado de madeira devia estar pegandofogo–eleprecisavaseapressarparatirarMarjoriedeláantesqueas chamassealastrassempeloúltimoandar.
Eleentrounocorredor,silenciosamente.Haviaumguardadiantedaporta doquarto.ElesevirouparaCraigeseusolhosseencontraram.Ohomemtinha acabadodeergueraespadaquandoCraigatacou,acertando-ocomoescudo.
UmsegundoguardaveiodaescadaeCraigfoideencontroaelecomaespada, cortandoacoxadohomem.
Maisguardasvieramparacimadele,mas,noandardebaixo,umabatida forte perfurou o ar e as paredes reverberaram. Será que seu povo tinha conseguido passar pelo portão? Ele se esquivou da espada do guarda e o golpeounoestômago.
Quandoohomemcaiu,Craigcorreuparaaportaquedavaparaooeste.Elea
abriuefoirecebidoporumgolpedeespadaquecortoualateraldeseucorpo. Adorocegou,seuprópriogritopercorreuoseucorpo.Ochãobalançou,a tonturatomandocontadesuacabeça.
Eleatacoudevolta,maserrouoalvo,então,caiusobreumjoelhoeergueu suaespadaparasedefenderdeumgolpe.Empurrandoaoutraespadapara trás,eleselevantou.
Alasdair.
“Seuporco”,Craiggritou.
Nacama,umafigurapálidaestavadeitada,ocabeloescuroespalhadosobre os travesseiros, o rosto nas sombras, mas ele reconheceria sua irmã em qualquer lugar. Sua perna nua, coberta de hematomas e arranhões, e com sangueseconaparteinternadacoxa,estavavergonhosamentevisível.
Estariaelamorta?
“Oquevocêfezcomela?”Craiggritou.
“Sólhedeioquemereceupeloseucomportamentovoluntarioso!”Alasdair rosnou.
Rugindo,Craigoatacounovamente,masAlasdaireraumguerreiromuito melhordoquequalquerumdeseusguardas–eledesviouedepoisfoipara cima de Craig novamente, golpeando contra sua espada. A espada de Craig encontrouadeAlasdair,masoprimeiroestavamaisfraco,adornalateralde seucorposugandosuaforça.
“Vocêvaimorrer,seuverme!”CraiggritounacaradoMacDougallcomos dentescerrados.
AespadadeAlasdairpressionouadeCraig,masencontrandoforçanofundo desuaalma,eleaempurroudevolta.Alasdaircambaleouedeuumpassopara trás, e isso foi o suficiente. Com um movimento rápido, apontado para o coração,Craigdesferiuumúltimogolpecomsuaespada.Alasdairdeuumgrito, surpresaedoraparecendoemseurosto.Craigremoveuaespadaeohomem caiunochão.
Paraalémdaporta,osomdabatalhaficoumaisalto. Ótimo.Elesestavamdentrodatorre.
CraigcaiudejoelhosaoladodeMarjorieeosanguecongelouemsuasveias. Opeitodelasubiaedescia,emborafracamente.Seurostoestavadistorcido–cortadoemachucado.Umolhoestavacompletamentefechadoeinchado,apele vermelhaeroxa.Haviaumcorteemseulábioeonarizpareciaquebrado.Seu
vestido estava rasgado e sujo. Ela parecia dormir. Ou talvez estivesse inconsciente.
“Marjorie,”Craigsussurrouepassouamãoporseucabelo.
Elaabriuosolhosumpouquinhoeolhouparaele.Lágrimasbrotaramdeles eumsorrisoquaseinvisíveltocouseuslábios.
“Irmão,”elaresmungou.
AportadoquartoseabriueseuprimoIanentroucomorostomachucadoe borrifado de sangue, seu leine croich – um casaco comprido e acolchoado –estavacortado,rasgadoeensopadodesangue.
“Euaencontrei”,disseCraig.
“Quebom”,disseIan.“Vamos.Ocaminhoestálivre.”
Craigenvolveuairmãemumcobertoreaapanhou.Elaestavamuitofrágile parecia não pesar nada. Quando entrou no corredor com ela nos braços, os homenspararamdelutareolharamparaele.Láestavaseupai,cujorostose contraiudedoraoverafilha.SeutioNeileseusfilhostambémestavamno local,atristezaefúriadelesrefletiamemseusolhos.
Iandesceuasescadasantesdele,olhandonoscantosembuscadeperigo, com a espada em punho. Mas quando Craig chegou ao nível inferior, a luta parouporlátambém.
Quandofinalmentesaiuparaaluzdodia,sanguecobriaagrama,fazendo-a parecerroxa.
Ele então avistou um rosto dolorosamente familiar entre os guerreiros mortosnochão.
SirColinCambel.
O chefe do clã.
Seu avô.
Craigfoiatéeleecaiudejoelhos,comMarjorieaindaemseusbraços.Ele pegouamãodoavôeaapertou,umalágrimaescorrendopeloseurosto.
Iancolocouamãoemseuombroparaconfortá-lo.
“Estoucomela,SirColin”,disseCraig.“Suamortenãofoiemvãoejuro,por seucadávereporseucoração,quenuncamaisconfiareiemumMacDougall.E nuncamaispermitireiqueumCambelsejavítimadesuatraição.”
CAPÍTULO1
InverlochyCastle,Scotland,novembrode2020
AMY MACDOUGALL RECOSTOU-SE NA PAREDE DO CASTELO E FECHOU OS OLHOS. O SOL DE novembroaaqueceu–umalíviodepoisdetrêsdiasdechuvacongelante.
Suairmã,Jenny,veioesesentounapedraaoladodela.
“Estátudobemcomosrebeldes?”PerguntouAmy.
“Veremos.”Jennylançouumolharduvidosoaoredordopátiocobertode grama por onde uma dúzia de adolescentes caminhava, ria, corria e tirava selfies.“ZachameaçouescalaraquelatorreecantarohinonacionaldoEstados Unidos.”Elaacenoucomacabeçaparaorestantedeumatorredesmoronadano pátio.“ÉclaroqueeleestáseexibindoparaDeanna.Aqui,vocêestáemuma posiçãoestratégicaparapegaraGigiseeladecidirirverseháalgumesqueleto nasmasmorrasdatorreleste.”
JennyacenoucomacabeçaparaaesquerdaeAmyfranziuatestaparaa grandeentradaescuranatorre.Umpequenocalafriopercorreusuaespinha quandoelaimaginouoconfinamentodasparedesdedoismetrosdeespessura eotetoantigoquepoderiadesabaraqualquermomento.
OsorrisodeJennysedesfez.
“Eusóestavabrincando,querida”,disseJenny,“semmasmorrasparavocê.”
Amybalançouacabeçaeforçouumsorriso.“Estátudobem,vamos.Estou bem. Eu posso entrar em uma masmorra. Ir a lugares perigosos é o meu trabalho.Nãoéporissoquevocêmepediuparavir?”
“Bem,esperoquenadaaconteça.Contudo,ébomterumaencarregadode buscaeresgatecomogarantiaemumpasseioescolar,masnãoéporissoque convidei você para substituir a Brenda. Quero passar um tempo com minha irmã,éclaro.”
Amyencostouacabeçanaparede.“Sim,equandoessapartedoprograma começa?Acheiquehaveriamaisuísque,maishighlandersgostososemenos dramaadolescente.”
“Bem, sinto muito. Também achei que teria. A Brenda tem muito mais autoridadesobreeles–elalidariacomelescompunhosdeferro.Elesacham queeusoucoraçãomole.AhDeus,vocêachaqueelessentemocheirodomeu medocomocães?”
Amyriu.“Sim,atéeupossosentirocheirodoseumedo.”
AmbasrirameAmyencostouacabeçanoombrodairmã.Quandohaviasido aúltimavezqueelastinhamridotantojuntas?TantooestadodaCarolinado NortequantoodeVermontestavamcheiosdememórias,saturadascomogosto nauseantedemedoerejeição.
Masnãohavianadadissoaqui.Oquehaviaeraarfrescoefrioegrossas paredesantigas,eabelezapuraedetirarofôlegodasHighlands.Ascoresdo outonopredominavamali,comoseasprópriasrochastivessemenferrujado, musgocresciaportodaparteeasfolhasestavamsempreenvelhecidas.Havia tanta história – centenas de milhares de anos – e uma parte dela também pertenciaaesselugar.
“Vocêachaquealgumdenossosancestraisviveuaqui?”PerguntouAmy.
Jennyencolheuosombros.“Talvez.Ovovôsaberia.”
“Sim,elesaberia.”
“Talvezatéopapaisoubesse”...Jenny enrijeceuderepente,a boca ainda aberta.
“Estátudobem”,disseAmy.“Vocêpodefalarsobreopapai.Comoeleestá?”
Jennyengoliuemsecoeolhouparaasmãos.“Bemesempreperguntando sobrevocê.”
Amy franziu os lábios, a garganta apertada. “Bem, eu também estou perguntandosobreele,viu?Eleaindaestásóbrio?”
“Quebom.Issoéótimo.”
“Sim.Apropósito,obrigadapelodinheiro.Maisumavez.”
“Sim.Estáseaguentando.”
Era difícil conversar sobre o pai delas. Para se distrair da sensação de gargantaapertadaeevitaraexpressãodegratidãodeJenny,Amyestudouum arbustoquecresciapertodaparedeàsuadireita.
“Eunãoestousozinha,eutenhooDave.”OsolhosdeJennysearregalaram enquanto ela olhava para o pátio. “Ei! Zach! Pare com isso, volte aqui neste minuto!”
MasZachjáestavanomeiodapilhadepedrasdesmoronadas,indoparao topodatorre,esemdiminuiravelocidade.Jennydeuumpuloecorreuemsua direção,agitandoosbraçosegritandoparaeleparar.Amyendireitouocorpoe permaneceu alerta, só para garantir. Sua mão roçou na mochila, sentindo a formafamiliardokitdeprimeirossocorrosdentro.
“Quebelaturmadecrianças”,disseumaalegrevozfeminina.
Amyolhouparacimaeparaasuadireita.Umamulherjovemencontrava-se pertodoarbustoqueAmyhaviaestudadoummomentoatrás.Oarseencheu comumaromadelavandaedegramarecém-cortada.Queestranho.Suapelese arrepiou.Elaselembroudeterumasensaçãosemelhantesemprequeelaea Jenny contavam histórias de fantasmas uma para a outra. De repente, as sombrasficarammaisescurasnoscantosdoambiente,eelaquaseconseguia enxergaralgumasformasquenãotinhanotadoantes.
A mulher era bonita, tinha traços delicados e a pele translúcida, com pequenassardasnonarizenasbochechasquelembravamumapitadadecanela empó.Umacapadelãverde-escurapendiadeseusombroseumcapuzcobria seucabelocordecobrebrilhante.
“Sim”,disseAmy.Suamandíbulatinhaprovavelmenteperdidoacapacidade defechar.
Elaestudouaentradanorte,queficavaacercadetrêsmetrosdedistância. Seráquefoiassimqueamulhertinhapassadodespercebida?
Zachjáestavanotopoecomeçouacantar,“Ah,digaquevocêpodever,pela luzdoamanhecer...”
“Oqueeleestácantando?”perguntouamulher.“Eugostodessamúsica…”
Ela balançou um pouco a cabeça de um lado para o outro com o ritmo truncadodosgritosdeZach.
“Imagina. Você não conseguiria sustentá-lo sozinha com o salário de professora.”
“Éumaturma...bonita”,disseAmy.
“Hum...Éohinoamericano...”disseAmy.
“Ah.Ohinoamericano.Voumelembrardessamúsica.”
Amysorriueducadamente.Quemeraessamulher?Elapareciausarumtraje históricoporbaixodacapa–umalongasaiadelãverdeeumacamisabranca.
“Eugostodasuafantasia”,disseAmy.“Vocêéguiadeturismo?”
“Umaguiadeturismo?”Amulherriu.“Suponhoquevocêpossadizerisso. MeunomeéSìneag.Eoseu?”
“Amy.”
Zach continuou a gritar, “E o brilho vermelho do foguete, as bombas explodindonoar...’”
Eledeuumpassoparatrásequaseperdeuoequilíbrio.Vendoacena,a pequenamultidãodecolegasdeescola,lideradaporJenny,gritou.
“Desçajádaí,Zach!”Jennygritou.“Ouvaificarsemcelularatéofinalda viagem.”
MasosolhosdeZachestavamapenasemDeanna,quecantavacomele.
“Hum,parecequeeleestáapaixonado”,disseSìneag.
Amyriu.“Duvidoqueseja amor.Eledesejaatenção,comotodososmeninos desuaidade,sóisso.”
“Émesmo?Evocêconheceoamor?”
Amycruzouosbraçossobreopeito.Sìneageralocal,semdúvida,então talvezfossenormalporaquipularaconversafiadaeirdiretoaoassunto.
“Seeuconheçooamor?Eujáestiveapaixonada.Equemnuncaesteve?”
“Masvocêaindanãoconheceuoseuhomem...”Sìneagdisselentamentee esfregouoqueixo.
“Meu homem?”Amyriu.
“Sim, o único homem que você realmente amará. Aquele pelo qual você mudaria.Aquelecomquemvocêiriaquerermorrerjunto.Aqueleporquem vocêestariaprontaparaatravessarpaíses,oceanos,montanhas...eatémesmoo riodotempo.”
Amy suspirou com um sorriso. “Sìneag, você é terrivelmente romântica. Definitivamente não tenho um homem assim, e acho que nunca terei. O relacionamentoquevocêdescrevenãoexiste.”
Sìneaginclinouacabeça.“Porquetemtantacerteza,Amy?”
“Porqueeujáfuicasadaeagoraestoudivorciada.Eeuachavaqueeleera minha alma gêmea. Então, pode acreditar, eu sei que o que descreve é
impossível.”
“Émesmo?”Sìneagaestudoupensativamente.“Vocêsabecomoestecastelo foiconstruído?”
“Eu li no quadro de informações logo ali – construído pelo poderoso clã ComynnoséculoXIII.”
“Sim,masvocêsabiaquefoiconstruídosobreumafortalezadospictos?”
Amyergueuassobrancelhas.“Não,issoeunãosabia.”
“Ah,sim.Eessespictos,elesconheciamumamagiapoderosa.Elespodiam abriroriodotempoeconstruirumtúnelsecretosobeleparaajudaraspessoas aatravessarem.”
Amysorriu.Adorável.Elagostavadecontosdefadas.
“Vocêquerdizercomoaviagemnotempo?”
“Sim.Umaviagemnotempo.”
“Divertido! Nunca ouvi mitos e contos sobre viagens no tempo. Normalmente,agentetemhistóriastipoJoãoeMariacomumabruxacanibale criançasperdidas...Comoéessaaí?”
“Bem,ocastelofoiconstruídosobreumarochaquepodeabrirumtúnel dessetipo.Éprecisoumapessoacomumpropósitoparareabri-loefazera jornada.”
“Então,alguémjáviajounotempo?”
“Quemsabe.Talveztenhamviajadoetalvezviajemnovamente.”
OsorrisodeSìneagficouumpoucomaliciosoeAmyergueuassobrancelhas. “Talvez?”
“HaviaumHighlanderaquichamadoCraigCambel.Eleera umpoderoso guerreiro e um homem honrado. Você conhece a história do Rei Robert de Bruce?”
Amy se perguntou por que Sìneag não havia respondido sua pergunta diretamente,mastalvezelaestivessetentandochegarnahistóriadaviagemno tempo.
“AsGuerrassobreaIndependênciadaEscócia,certo?”Amydisse.“Diziano quadrodeinformaçõesqueeletirouoCasteloInverlochydosComyns.”
“Sim.OsCambels–elessãochamadosdeCampbellsatualmente–eramseus aliados.OreiRobertpediuaCraigqueprotegesseocasteloparaelecontraseus inimigos.”
Amyriu.“EsseCraigdeviaserumhomemimportante.”
“Sim,eleeraumhomemdegrandesrealizações,mascomumaprofunda tristeza em seu coração. O clã MacDougall havia traído sua família e isso o marcou para sempre. Por esse motivo, Craig jurou nunca mais confiar em alguémtãofacilmente.”
“GraçasaDeuselenuncavaimeconhecer,poiseusouumaMacDougall.”
OsolhosdeSìneagbrilharam.“VocêémesmoumaMacDougall?”
“Sim.MeusavósimigraramdaEscóciaparaosEstadosUnidos,entãosou americana.MasmeusobrenomeéMacDougall.”
“Sim!Sim!Excelente.”AvozdeSìneagtremeuumpoucodeentusiasmo.“Eu esperavaencontrarvocêaqui,minhajovem.”
Amyfranziuatesta,algosobreessaspalavrasadeixaramdesconfiada.
“Enfim”,disseAmy.“EquantoaesseCraig?Eleviajounotempooualgo assim?”
“Não,elenãoviajou.Elesecasoucomumaboamoçaparaconseguiruma aliançacomoutroclã,masnuncafoifeliz.Craigviveusuavidacomoumbom homem.Umbomhomem,massempresolitário.”
Amyapertouoslábiosparalutarcontraumaestranhaondadeemoçãoque as palavras de Sìneag lhe trouxeram: tristeza e solidão. O desespero de ser deixadaparatráseabandonadaeramuitofamiliar.
“Sim”,disseela.“Algumaspessoasnuncaconseguemsuperaraquiloqueas feriumuitoprofundamente.”
Os olhos de Sìneag brilharam com compreensão e empatia. “Sim. E se a pessoaquepodecurá-lasvivedooutroladodoriodotempo?”
“Entãoachoqueelasprecisamusaraqueletúneldospictos.”
“Sim,Amy!Issoébemverdade.”Sìneagbateupalmascomoumamenina. “Vocêtemtodaarazão.”
UmmovimentochamouaatençãodeAmy.Zachhaviadescidocorrendoa pilhadepedraseidoemdireçãoaDeanna.
AssimqueZachestavanochão,Deannadeuumgritoecorreuparalonge dele.Comumrugidoparecidocomalgoentreumgritodebatalhaeosomde umchimpanzécomtesão,eleaseguiu.
Issonãoiriaacabarbem.Esquecendo-sedeSìneag,Amyacompanhavacada movimento enquanto Deanna corria ao redor do pátio, sempre evitando a tentativadeZachdelhedarumabraçodeurso.Entãoelacorreuaindamais
“Cuidado!”Jennygritou.
rápidoemdireçãoaAmy.Estajáhaviasepreparadoparaagarrareparara garotaquando,noúltimomomento,elasevirouemdireçãoàtorreleste.
Amydeuumpassoàfrenteporinstinto.
Deannaempurrouagradedesegurançaparaoladoeseespremeuatrás dela,emdireçãoàtotalescuridãodaentrada.Eladeuumpassoparadentro, gritouecaiu.
OcoraçãodeAmyparou.
“Droga”,Amyxingouecorreuemdireçãoàtorre.“Nemseatreva!”elagritou para Zach, que havia parado na grade com o rosto pálido e uma expressão preocupada.
Amy pegou a lanterna em sua mochila. A grama brilhou sob seus pés enquantoelacorriaatéalcançaragradeepassarporela.Elaparounaentrada datorre.Aluzdalanternaincidiusobreasescadasquebradaseemruínasque levavamparabaixoeparaumaescuridãoabsolutaaoredordelas.
“Malditos adolescentes”, Amy xingou baixinho e desceu as escadas quebradasomaisrápidopossível,tentandoevitarquebraroprópriopescoço noprocesso.
Pedrassesoltaramporbaixodeseuspésecaíram.Haviaalgunsdegraus faltando,outrosestavamquebradoseviradosnaparteplana.Olocalcheiravaa terramolhada,pedraúmida,folhaspodreseaoutracoisapodrequeelanem queria imaginar. Por um milagre, Amy conseguiu chegar lá embaixo. A luz externanãopenetravaali.Apenassualanternailuminavaolocal,comosenão houvessemaisnadaalémdosubsolo.Amyestremeceu,asmemóriasqueela haviaenterradohámuitotempocomeçaramaviràtonaemsuamente.
Ela lembrou a si mesma que havia aprendido a lidar com a escuridão e espaçosconfinados.Elaprecisavaserfortepelaadolescente.
“Deanna!”Amygritou,enquantoaluzdalanternapercorriaarochaáspera quearodeava.“Deanna!”
Suaspalavrasecoaramnosilênciocomoseelaestivessesozinha.Comose Deannativessedesaparecidononada.
Amyolhouparacima,mashaviaapenasumtetorochosoeaaberturapela qual ela havia passado. Seus braços e pernas ficaram gelados e suas mãos tremeram.
Rápido. Apenas encontre Deanna, ajude-a e dê o fora daqui.
“Deanna!” Amy procurou ao redor com a lanterna. A luz se deslocou da
entradaparaaoutracâmara.Tremendoecomaspernaspesadas,Amyfoiatélá. Elanãopodiadeixarninguémsozinhonaescuridão.
Ela precisava mostrar às pessoas que estava resgatando que elas não haviamsidoabandonadas.
Alguémsempreiriaatrásdelas.
Elaestavaindo.
“Deanna,”Amychamouenquantoentravanacâmara,suavozecoandopelas rochas.
Eraumasalapequena–nãoerabemumasala,massimumacaverna.Amy procurounochão,masnãoachouninguém.
Maisalgumasaídaouporta?
Não.
“Ondevocêestá?”Amychamou.ElanãotinhacertezasesereferiaaDeanna ouasimesma.
“Aqui”,disseumavoz.
Amymoveualuzeláestavaela.Deannaselevantou,abraçandoasimesma, osolhosarregaladoseocabelobagunçado.Amyseencheudealívioeatensão emseupeitodiminuiu.
“Ah!GraçasaDeus!”Amydisse."Vocêestámachucada?”
“Sóbatideleveaminhacabeça.”
“Certo, vamos voltar imediatamente. Vou dar uma olhada em sua cabeça quandochegarmosláemcima.Pegueestalanterna.Eutenhooutra.”
ElaentregoualanternaparaDeannaepegouaoutraemsuamochila.A meninaapontoualuzdalanternaaoredoreelapousousobrealgo.Amyfranziu atesta.
Haviaumarochagrandeeplanacomumagrandegravuranela,umafita largacomtrêslinhasonduladas.Algocomoumrioemformadecírculo.Através dele,passavaalinhaampladeumaestrada.
“Estoucongelando”,disseDeanna,caminhandodevoltaparaaentrada.
“Esperepormim”,falouAmy,masentãocongelou,seuolhargrudadona rocha.
Amyestavatendoalucinaçõesouagravuraestavabrilhandolevemente–o rioestavaazuleaestradamarrom?Aoladodagravura,haviaumamarcade mãobemnarocha.
chegoumaispertodarocha,curiosa.
Obrilhoficoumaisfortedandoaimpressãodequeagravurasemovia:as ondas do rio pareciam fluir e uma pequena nuvem de poeira parecia subir acimadaestrada.Eratãolindo.
Seráqueeraaimpressãodamãodeumpicto?
Umamãosolitária...Umhomemsolitário...
SeráqueeradeCraigCambel?
Será que ela estaria tocando nos dedos dele se pressionasse os seus na impressão? Prendendo a respiração, ela a traçou suavemente. Estava fria e úmida.SeráqueerafrioeúmidoquandoCraigmoravaaqui?
Elacolocouoscincodedosnaimpressão.Umacorrenteelétricaapercorreu –comoumaondadeentusiasmoantesdeumaviagem,deumaaventura.Seu coraçãodisparouesuapulsaçãopodiasersentidaemsuastêmporas,suasveias dopescoço,seuspulsoseentreosseusdedos.
Omedoaatingiunovamente,suagargantaseapertou,osombrosficaram tensoseelamalconseguiarespirar.
Elatentoutiraramãodarocha,masnãoconseguiu.Suamãofoipuxadapor elacomoumímã.Asuperfíciefriapareciaúmida,comoseáguabrotassedela.
ApalmadamãodeAmytocouarochacompletamenteeafundounelacomo sefosseumrio.Orestodoseubraçoaseguiu,eentãoseuombro.
“Ahhhh!”Amyseouviugritar.
Elaagarrouarochacomaoutramão,lutouparamanterospésnochão,mas nãoconseguiuevitaraqueda.
Eentãoelacaiucompletamentedentrodarocha...eomundoescureceu.
CAPÍTULO2
CastelodeInverlochy,novembrode1307
A CATAPULTA LANÇOU UMA PEDRA COM UM RUÍDO ALTO DE MADEIRA E CRAIG PRENDEU A respiração, observando-a voar. Não importava quantas vezes tivesse presenciadoamesmacenanosúltimostrêsdias,avisãoerasempremajestosa.
Oobjetoatingiuomurodocasteloeosarqueirossaltaramparaoslados. Pedras racharam e a parte superior do muro desmoronou, caindo em uma chuvadeareiaecascalho.
O exército de Robert de Bruce, parado do outro lado do amplo fosso do castelo,irrompeuemumgritodejúbiloquereverberounopeitodeCraig.Ou talvez fosse a esperança – de finalmente virar a maré da guerra para o verdadeiroreidosescoceses.
AGuerradaIndependência.Aguerraentreumpequenonúmerodeclãsdas Highlandseumgigante–aInglaterra.
Umconfrontosempromessadevitória,masumaresoluçãoobstinadade lutar,aconteçaoqueacontecer.
“Foiumbomtiro”,disseopaideCraig,eCraigassentiu.
“Sim,Dougal”,falouRobertdeBruce.“Talvezbomdemais.Nãoqueremos destruirocastelototalmente,eleémuitoimportanteestrategicamente.”
OstrêsestavammontadosemseuscavalosàbeiradaaldeiadeInverlochy, que ficava do outro lado do fosso. Enquanto o mestre da catapulta gritava ordensparaqueelafosserecarregada,ummovimentodoladodireitodofosso
chamouaatençãodeCraig.
Umapequenafiguraemergiuportrásdeumaárvoreedealgumasrochase correupelocampocomoumaformigaveloz.
“Vocêviuaquilo?”Craigperguntou.
Craigestreitouosolhos.Apessoaestavacorrendoparalongedocastelo.A figuraeramuitopequenaparaserumguerreiroouatémesmoumamulher.
“Oquefoi?”perguntouBruce.
“Natorrenordeste,masdesteladodofosso,vocêvêumaárvoreenormee umamontoadoderochasgrandes?”
“Sim”,disseopaideCraig.
“Alguémestácorrendo”,disseBruce.
“Ah.Sim”,disseDougal.“Éumacriança?”
“Talvez”,disseCraig.“Hápoucossegundos,aquelasrochasapareceramlá, comosetivessemsurgidodebaixodosolo."
Brucefranziuatesta.“Vocêtemcerteza?”
“Vicommeusprópriosolhos.Seráquepodeserumapassagemsecretapara ocastelo?”
Bruce assentiu. “Sim, pode ser. Os Comyns são astutos o suficiente para pensaremumacoisadessas.”
“Mas por que arriscar revelar isso agora?” Craig perguntou. “Nós os cercamos há apenas três dias. Certamente eles ainda têm comida e suprimentos.”
“Deveserummensageiro”,Brucefalou.
Craigtrocouumolharcomopai,entendimentopassandoentreeles.Sefosse ummensageiro,elesteriamqueinterceptá-loimediatamente.Elesnãopodiam permitirqueosComynsrecebessemajuda.AsforçasdeBruceestavammuito fracas, mal haviam se recuperado de uma grande derrota nas mãos dos MacDougallsnoiníciodesteano.Brucetinhaqueficaresupervisionarocerco, entãocabiaaCraigeaseupaipegaromensageiro.
Acatapultalançououtrapedranomurocausandoumruídoensurdecedor. OutrotirodeavisosóparamostraraosComynsqueBrucepoderiacausarainda maisdanos.
“Iá!”Craigesporeouocavaloeopaioseguiu,ambosgalopandopelasruas daaldeiadeInverlochy.
Osaldeõessaltaramparaolado,evitandooscavalos.Diferentedamaioria
dossitiantes,BrucefaziaquestãodenãomataropovodeComyn,amenosque fossenecessário,edenãopilharaaldeiaeasfazendas.Eleeraonovoreie queriaoapoiodeles,emboraseusenhortivesseescolhidoserinimigodeBruce.
Elescruzaramaaldeiaedepoisgaloparampeloscampos.Craigtinhavistoa figura desaparecer por trás de uma grande colina. A grama passava sob os cascosdoscavaloseorioficavacadavezmaisperto.
Apequenafiguraapareceuportrásdacolinaecorreu–naverdade,parecia umrapazdecercadedozeanos.CraigeDougalcorreramemsuadireção.
“Pare,seupatife!”Craiggritou.
Omeninolançouumolharporcimadoombroecomosolhosarregalados, correuaindamaisrápido.
Craigemparelhoucomelenocavalo,inclinou-seeagarrouagoladocasaco domenino.Comumgrunhido,Craigatirou-oporcimadocavalo.Elevirouo animaleodeixougalopardevoltaparaacolinadeformaquenãoficassem visíveisdocastelo.
Aochegaraosopédacolina,saltoudocavalo,puxandoomeninoconsigo. Seupaitambémdesmontou.
Craig colocou o rapaz no chão. Ele olhou para Craig com os olhos arregalados,masoqueixofirme.
“Comovocêsaiudocastelo?”Craigperguntou.
“Nãoseidoquevocêestáfalando.Euvimdorio.”
“Dorio?”Dougaldeuumarisadinha.“Nãosabiaqueosriosestavamtão secosassim.”
Omeninofranziuoslábioscomraiva.
“Sim,vocêjádisseosuficiente”,falouCraig.“Eupossoiratéláedescobrir sozinho.Euvideondevocêsaiu.Masqualéoseuobjetivo?”
“Nãosouumtraidor”,disseele.“Nãovoudizernada.”
“Admiroasualealdade,rapaz”,falouDougal.“Vamosrevistá-loe,sehouver umacartaoumensagemcomvocê,nósaencontraremos.”
“Váemfrente,podemerevistar!”omeninoodesafiou.
Ele deu um pulo preparando-se para correr, mas Dougal o segurou e prendeuseusbraçosatrásdascostas.Craigrevistourapidamenteomenino, masnãoencontrounadaquepudesseserumamensagem.Nãohavianenhum papeldobrado,nemnadaparecido.
“Eis o que vamos fazer”, disse seu pai. “Nós sabemos agora que aquilo,
provavelmente, é uma entrada para o castelo. Vamos levá-lo para o Bruce. Mesmoqueelesejaummensageiro,nósopegamos,entãoelenãovaipassar nenhumamensagem.DeixequeBrucedecidaoquefazercomorapaz.”
“Sim,”disseCraig.“Leve-oqueeuvoudarumaolhadaparaveroqueháláe voltoemseguida.Decidiremosentãooquefazer.”
“Sim,filho.Tomecuidado.”
Dougalcolocouorapaz,quelutavaechutava,nocavalocomosefosseum sacodebatataedeixousuamontariagaloparatéoacampamento.Apesarda idademaisavançada,seupaiconteveorapazsemdificuldade.Orgulhoencheu ospulmõesdeCraig.Elerealmentepertenciaaumclãdepoderososguerreiros.
Craigexaminouocasteloenquantocorriaemdireçãoàárvoreeàsrochas ondeviraorapazaparecer.Nenhumaflechaveioemsuadireção.Osdefensores provavelmenteestavammuitoocupadoscomocerco.
Chegandoaolocal,perguntou-seondeficavaaentrada?Eleestudouotronco grossoeasrochasemsuabase.Algumasdelaschegavamatéoseuombro.Nada pareciasuspeito.
Eleseabaixoueexaminouagrama.
Ahá,pegadasnosolo.Elasencontravam-seaoladodeumarochaplanae baixaquasetãolargaquantoumescudo.Craiginspecionouumabrechaentrea rochaeosolo,enfiouosdedosnaabertura,puxouapedraeelaseabriucomo umalçapão.Umaescadaestreitaconduziaaumtúnelescuro.
Seucoraçãobatiaforte.Eleestavacerto,estaeraumaentradasecretaparao castelo. Estava escuro e ele não tinha uma tocha, mas precisava ver aonde levava.Eleolhouparaocasteloque,provavelmente,ficavaaunsdezmetrosde distância.Otúneldeviaserprofundo–osuficienteparapassarporbaixodo fosso.
AquelesmalditoseespertosComyns.Ninguémsuspeitariaqueelestivessem construídoumtúnelsobofosso.Seráquenãopoderiadesabarsobopesoda água?
Craigfezosinaldacruzedesceupelaescuridão,fechandoaportaatrásde si.
Ela se sentou ereta com um movimento brusco e olhou em volta, mas a escuridãoaenvolvia.
Ondeelaestava?Noceleironão,denovonão.
Seuspulmõessecontraírameseudiafragmaapertou.Elatossiueprocurou aoseuredorcomasmãos.Elaestavasobrealgoquelembravaumarochaouum chãodepedralisa.Algometálicoearredondadoroloucomseutoque.
Elatinhaumalanterna,lembrou-se.
Nãohaviaumalanternanoceleiro;portanto,Amyestavaemoutrolugar. Umalívioinundouoseucorpo.
Entãooseventosretornaramàsuamente–Deanna,acâmarasubterrânea,a rochabrilhante,asensaçãodecairdentrodela...desersugada...
Ela acendeu a lanterna e estudou os arredores. Lá, contra uma parede rochosa,estavaarochacomagravura,masdessavezestavaescuraeimóvel, sembrilhar.Aolongodaparederochosaeáspera,haviaumapilhadelenha cortadaetábuasdemadeira.Tambémhaviabarrisesacoscheiosaolongodas paredes.Atéondeelaselembrava,nãohavianadaláantes;eraumacaverna giganteevazia.
Estavaclaroagoraqueelaestavaemumdepósitoenãonasruínasemque haviaentrado.
Elaselevantou,acabeçagirandoeanáuseaaumentando.Seucorpointeiro doía, como se ela tivesse sofrido uma queda forte. Houve um estrondo, as paredeseochãotremeram,enviandooutrachuvadepedraseareiasobreela.
Oqueestavaacontecendo?Umterremoto?Amynuncatinhaouvidofalarde terremotosnaEscócia.Sefosseisso,elaprecisavasairdeláimediatamente.
Ela passou o feixe da lanterna pelas paredes. Onde antes tinha uma passagemvaziaquelevavaaoutroambiente,agorahaviaumaportasólidae pesadacomgrandesferrolhos.
Essahistóriaestavaficandocadavezmaismaluca.
Bem,fosseoquefosse,Amyprecisavasairdali.Elacaminhoucomaspernas bambas em direção à porta e a abriu. Estava escuro, mas uma luz dourada jorravadealgumlugaracima,iluminandoasescadascurvaspelasquaishavia descido antes – mas agora elas pareciam novas. Havia mais baús e barris encostadosàsparedesaqui.Oodordeterraúmidaedecomposiçãodeantes tinhasidosubstituídopelocheiroquaseimperceptíveldegrãosealgomais... algoparecidocomcharque.
OambienteestavaemruínasquandoAmyseguiuDeannaalgunsminutos atrás. Estaria ela tendo alucinações ou sonhando? Com a cabeça pesada, ela caminhouemdireçãoàescada.Olhandoparaolancedeescadas,elapodiavera luzdofogodançandonaparede.Elaouviugritosdepreocupaçãovindosde algum lugar lá fora. Provavelmente Jenny e a turma da escola estavam procurandoporela.
Amycolocouamãonaparededuraefria,quepareciamuitoreal,esubiuas escadasomaissilenciosamentepossível.Oandartérreotambémnãoeramais umaruína,eraumaespéciededepósito,cheiodeespadas,lançasemachados, alémdebarris,caixotesebaúscomonoandardebaixo.Ofogodastochasnas paredesiluminavaoambiente.Haviaumaportaqueprovavelmentelevavapara foraeoutraaberta,ondeumaescadalevavaparacima.
Amybalançoulevementeacabeça.Pareciaexatamentecomatorreemque elaeDeannahaviamentrado,maseracomoseelativessevoltadoaépocaem queaconstruçãotinhaforaerguida.
O que era isso? Talvez a rocha e todo aquele rio brilhante e tal fossem apenasalgumtipodecogumelooualgoquetinhaefeitosalucinógenos.Ouserá queelahaviabatidoacabeça?Dequeoutraformaelapoderiaexplicarisso?
Sìneag havia mencionado um rio e algo sobre viagem no tempo. Provavelmente era por isso que Amy estava sonhando com este mundo medieval.
Outalveztivesseperdidoabatalhaparaomedoenquantoestavanaquele espaçoescuroeenlouquecidodevez.
Outroestrondoeoedifíciotremeu.Umagrandepedracaiudaparedeem cimadeumbarril,partindo-oemdois,eumlíquidomarromefermentadose derramou.Cerveja?EramelhorAmyseapressarsenãoquisesseacabarcomo aquelebarril.
Elaseaproximoudaportaeabriuumafresta,olhandoparaforapelafenda.
Seuqueixocaiu.
Nãoeramaisopátiovazioecobertodegramadeoutrora.Oespaçocercado porquatroparedesetorresemruínastinhasumido.
Eraumcasteloreal,comtodasasquatrotorresaltaseinteiras,etelhadosde madeira em forma de cone. O pátio tinha várias pequenas construções de madeira e uma grande construção de pedra. Amy podia sentir o cheiro de esterco de cavalo, fumaça de lenha e algo sendo cozido. Ela percebeu que
arqueirosatiravamflechasdosmurosehomenscorriampelopátioemcasacos pesadamente acolchoados, capacetes de metal e cota de malha. Quase todos tinhamumaespadanocinto,bemcomoumescudo,emuitoscarregavamlanças oumachados.
Amypiscouuma,duasvezeseseucoraçãoparouporummomento.Como issotudoerapossível?Talvezfossealgumtipodehologramapararepresentara aparênciadocasteloquandoaindaestavaemuso.Queoutraexplicaçãohavia?A menosqueAmyrealmentetivesseenlouquecido...
Então,umhomemveiodiretoemdireçãoàtorreemqueAmyestavaeela fechouaporta.Comocoraçãobatendodisparado,elaprocurouumlugarpara seesconder.
Asescadas.
Elasubiucorrendoaosdegraus.Haviaumapequenaportanopatamare aindamaisescadas.Elaouviualguémnoandartérreoabriraportaeentrar.
Amy abriu a porta à sua frente e olhou para dentro – era um quarto de alojamento com várias camas e não havia ninguém ali. Ela entrou silenciosamenteefechouaportaatrásdesi,tentandoouvirsealguémaseguia.
Haviaoitocamasealgoparecidocomsacosdedormirnochão.Trêsjanelas estreitas deixavam a luz entrar com peitoris enormes e largos que se assemelhavamaalcovas.
Amyfoiatéajanelaeseuqueixocaiu.Ocasteloestavacercadoporágua–umfosso–algoquenemsequerexistiaquandoelaestavalácomJennyea turmadaescola.Dooutroladodofossohaviaumapequenaaldeiacomcasas comtelhadodepalha...
E um exército – um verdadeiro exército medieval – com uma catapulta, arqueiros,tendas,cavalos,carroçasefogueirasaoredordaaldeia.
Issonãopodiaestaracontecendo.Quandochegaradeônibuscomosoutros, havia algumas casas espalhadas aqui e ali, e em vez do fosso, havia prados, colinas,árvoresepedras.
Vestidadejeans,sapatosdecaminhadaejaquetaacolchoada,elasesentiu estranhamentedeslocada.Eracomoseestivesseemoutraépoca...Masissonão erapossível,elalembrouasimesmateimosamente.
PassosrápidossubirampelasescadaseAmycongeloumomentaneamente. Então,elacorreuparaacamamaispróximaparaseesconder,masnãoteve tempo.Aportaseabriueelasevirou,segurandoalanternacomosefosseuma
arma.Umguerreiroalto–comespada,machadoetudoomais–entrou. Surpresapassouporsuasbelasfeiçõeseentão,setransformouemameaça.
CAPÍTULO3
Craigencarouamulher.
Eletinhaabertoaportaporquealguémestavavindodoandarde baixoeeleprecisavaseesconder.
Aopassarpelotúnelnaquelamanhã,eleverificoucuidadosamenteatorree opátio.EntãoelevoltouparaondeBruceestavaejuntoselestraçaramum plano.
UmplanoqueabririaoCasteloInverlochyparaBruceegarantiriaavitória contraosComyns.
Umplanoquenãoenvolviaumamoçainimigavendo-oealertandotodoo castelodesuapresença.
Elasegurava umpequenoobjetoarredondadonasmãos,algocomouma garrafa,deformaprotetora.Elaerabonita,tinhaocabelocordecobreeolhos azuiscomoomar.Estavavestidacomoumhomem,comcalçasescurasque contornavamdescaradamentesuaspernaslongaseesculpidas,eumaespécie decasacocurtoacolchoado.
Muito estranho – mas sabe-se lá o que os Comyns permitiam que suas mulheresusassem.
Umacoisaestavaclara.
Eleprecisavasilenciá-laantesqueelagritasse–oque,baseadoemseus olhosredondoscomoaluaesuabocaaberta,elaestavaprestesafazer.
Craigcorreuatéela.Elarecuou,maseleasegurou,tampandosuabocacom umadasmãosesegurandoseuspulsosatrásdascostascomaoutra.Oestranho objetocaiueroloupelochão.Ocheirodelaoatingiu–floreseventofresco,a exuberânciadeumaflorestanoverão.Apeleeoslábiosdelapareciammacios sobseusdedose,surpreendentemente,umaondadearrepiosopercorreu.
Ela lutou, tentando escapar, e ele sussurrou em seu ouvido: “Não faça barulho,moça.Eunãovoumachucarvocê.Masprecisoevitarquevocêgrite comtodaasuaforçaealerteocastelointeiro.Combinado?”
Emresposta,elalevantouumpéepisouemsuabotacomumaforçaqueele nãoteriaimaginadoqueelativesse.
Elenãofeznenhumsom,emboraadorpercorressesuaperna,fazendo-o quasesoltá-la.
“Suamalditaraposa”,elesussurrou.“Eudissequenãovoutemachucar.”
Ele precisava amarrá-la para que ela não saísse correndo e alertasse os Comyns.Craigsoltouabocadelaeumgritoecooupeloquarto.Comumamão livre, ele se esticou até o baú de alguém e encontrou um pano limpo, amordaçando-acomele.Elepegouumcinto,amarrouasmãosdelaatrásdas costas,entãousouumoutrocintoparaprendê-laàcama.Eletambémamarrou suaspernas–umatarefanadafácilporqueelachutavaesecontorciasemparar.
Eleestavacompenadefazerissocomela–sódepensaremfazerqualquer coisa contra a vontade de uma mulher lhe causava uma onda de repulsa, fazendo-oselembrardeMarjorie.
Masprecisavaserfeito,eeleofezomaisgentilmentequepôde.
Quandoterminou,elaestavasentadanochão,comasmãosamarradasnopé dacama.Orostodelaestavavermelho–semdúvidaestavasesentindobravae impotente.Elaofegouegemeuatravésdamordaça.
“Sintomuito,moça”,disseele.“Masseeuforbem-sucedido,tudoacabará logoevocêpoderádeixarocastelocomasuafamília.OreiRobertdeBrucenão permitiráqueasmulheressoframnenhummal...enemeu.”
Elafranziuatesta,piscandoosolhoseparecendoconfusa.Lançandoum últimoolharemsuadireçãoparasecertificardequeelanãoiriasufocarnem escapar,elesaiudoquarto.Ohomemláembaixojádeveriateridoembora. Craigprecisavaseapressar.
Eleparounaescadaparasecertificardequenãohavianinguémvindodo andarsuperiornemdoinferior.Tudoestavaquieto,entãodesceuasescadas correndo.
Antes,naaldeia,elehaviasecertificadoderemovertodosossinaisdeque era o inimigo. Ele tinha deixado seu escudo com o brasão dos Cambel, seu capaceteetinhaatétrocadosuaespadaporumamaissimples.
Eleentroucuidadosamentenopátio.Atorrenordestequeeletinhaacabado
dedeixarerausadaparaarmazenamentodealimentosealojamentoparaos guerreiros. As duas pequenas torres do sul provavelmente tinham o mesmo propósito.ATorreComyn,amaiornoladonoroeste,eraatorredemenagem, ouseja,aprincipaldocastelo.Alémdearmazenarmaisarmasealimentos,ela abrigavaosaposentosdosenhor:seuquartoesuasaladerecepçãoprivada, ondeafamíliasereunia.Tinhasidointeligentecolocarotúnelsecretosobuma torrequeatraíamenosatenção.
Quantas pessoas saberiam sobre ele? Provavelmente, não muitas – ou o túnelperderiaoseupropósito.
EdwardComyn,osenhordeInverlochy,estavaemumdosmurosdecortina, cercadoporarqueiros.Opátioestavacheiodeatividade:criadoscarregavam cestoselenha,guerreirosdesciamasescadaseiamcomeroudescansar.Seus rostosestavamsombrios,semdúvidapelatensãodeestarsobcerco.
Os homens correram em direção ao muro e subiram as escadas. Muitos vieramcorrendodograndesalão,levandoflechasearcoscomeles.
Bom. Essa era a primeira parte do plano. MacNeils em seus birlinns, os barcos das Highlands do oeste, atacariam pelo rio. Eles atracariam e começariamaescalarosmuros.
Maispedidosdeguerreirosvieramdosladoslesteeoeste.Elesabiaquelá,o exércitodeBruceestavalevandotorasepedrasparacolocarnofossoparaque astorresdecercoeescadasdecercopudessemcruzar.
AmaioriadosguerreirosComynqueestavanomuronorteseespalhoupara osmuroslesteeoeste.AtémesmoEdwardComynfoiparaooeste.Masainda haviaguardasnosportões.
Porém,elesfugiriamembreve.
Craig entrou rapidamente no grande salão. Estava vazio, exceto pelas criadasqueestavamlimpandoasmesasemqueosguerreiroshaviamcomido. ElasprestarampoucaatençãoemCraig.Avistandoumtochasuspensaporuma arandela,eleaagarrou,juntamentecomumacestadegravetosqueestavaao ladodalareira,esaiucorrendo.
Ocaoseatensãodentrodocasteloerampalpáveis–gritosdedorvindosdo topodosmuros;gritaria dolado defora;flechasvoando,atingindo pessoas, ricocheteandonaspedraseperfurandoalamadopátio.
Elecaminhouatéofundodograndesalão,noespaçoentreoedifícioeo
“Ataque!”alguémgritoudecima.“Paraomuronorte!”
muro de cortina, onde ficaria oculto. Ele então começou a atear fogo em pequenasporçõesdegravetosejogá-losnotelhadodepalha.
Umafumaçaescurasubiudotelhadodograndesalão–esseeraosinalpara Bruce ir em direção aos portões. Craig estava ficando sem tempo; então, acendeurapidamenteacestainteiraejogou-anotelhadodacozinhajuntocom atocha.
“Fogo!Fogo!”homensgritaramepéspodiamserouvidoscorrendoatravés dopátioemdireçãoaograndesalão.Craigprecisavatentarsemisturaraos guerreirosempânicoeentãochegaratéosportões.
“Paremcomisso!”alguémgritoudomuro.“Traidor!Pegue-o!”
Craigergueuosolhos–umdosguerreirosapontoudiretamenteparaele.O guerreiro desceu correndo as escadas, bem como vários outros atrás dele. Arqueirospairaramsobreoparapeitoeapontaramparaele.
QuerBrucetivessetidotempoparaseprepararounão,Craigjamaisteria outrachancemelhordeabriroportão.
Elecorreuomaisvelozmentequepôdepelopátioatéosportões–onde agoranãohavianinguém.Flechasatingiramochãoaoredordeleealgoatingiu seutornozelo–umadasflechashaviaarranhadosuapele,percebeuenquanto cambaleavaumpouco,semparardecorrer.Aochegaraoportão,puxouaalça gigante da pesada trava de ferro e ela cedeu, mas lentamente – lentamente demaisparaogostodele.OsguerreirosComynestavamseaproximando;elesjá estavamnomeiodopátio.
Comatravasolta,precisavaagoraremoverapesadabarra.Eleaergueu pelomeiousandotodaaforçaqueconseguiureunir–normalmente,pelomenos duaspessoaseramnecessáriasparalevantarumabarradessas.
Osinimigosestavamaapenasalgunsmetrosdedistância.
Elepuxouosportõese,deformalentaedura,elescomeçaramaseabrir.
Craigouviupassoscorrendoeogrito“Cruachan!”Elesestavamvindo.Ele puxouoportãocomaindamaisforça,deformaquemalsevirouatempode desviardeumgolpedeespada.
Enquanto lutava com um homem, os companheiros do guerreiro empurravamosportõesparafechá-los.
Tardedemais.
Comaforçadedezenasdehomenscorrendo,oexércitodeBrucepassou pelosportões.
Ocasteloeradeles.
Apósumabreveluta,ficouclaroparatodosqueBruceeseuexércitohaviam vencido. Edward Comyn estava gravemente ferido e morrendo enquanto o curandeirofaziaopossívelparasalvá-lo.
“Nãohaverásaques!”Brucegritou,observandoseushomensenquantoestes mantinhamosprisioneirossobsuasespadas.“Todosvocêspodempegartrês coisasdocastelocomorecompensapeloseutrabalhoduro,masoCastelode Inverlochyserá,apartirdeagora,umaresidênciarealdoreidaEscócia.”
BrucesevirouecaminhouemdireçãoaCraig,mantendoosolhosfixosnele. Estefranziuatesta.
“EocomandantetemporárioseráCraigCambel.”
OshomensdeCambelexplodiramemaplausos.AssobrancelhasdeCraigse ergueram. Bruce foi até ele e o olhou nos olhos, aprovação e amizade iluminando-os.
“Tem certeza, Vossa Majestade?” Craig perguntou. “Você não tem estrategistasmaisexperientes,meupaioumeutioNeil,porexemplo?”
Bruceagarrouseuombroeoapertou.“Ohomemquearriscouavidapara tomarocastelomerecearecompensa.Senãofosseporvocê,sabe-selápor quanto tempo ficaríamos congelando sob aqueles muros. Estou muito grato, CraigCambel.Estaésuarecompensa,masétambémumatarefadifícil.Agora, vocêdeveprotegerocastelo,casoorestodosComyns,osMacDougallsouos inglesesqueiramtomá-lodevolta.Porqueelesvãotentar.”
Bruceoestudouatentamente.“Oquevocêmediz,Craig?Vaiaceitaressa missão?”
Craig respirou fundo. Essa era uma boa pergunta. Ele precisaria ser especialmente cuidadoso ao confiar nas pessoas. Administrar um castelo e protegê-lodeumcercoexigiriaquefosseaindamaisobservadoreaindamais cauteloso.
Seráqueeleestavaàalturadatarefa,garantiraprimeiravitóriadoreidos escoceses,avitóriaquepoderialevaraoganhodetodaaguerra?
“Sim”,eledisse.“Nãovoudecepcioná-lo.”
CAPÍTULO4
Amytentoudetudo.Chutar,moveracamaegritar,masesseúltimose provouinútil,umavezqueoquesaiudesuabocapareceumaisum gemido do que um berro potente. Nada ajudou. A pesada cama de madeiranãosemoveunemummilímetro.Finalmente,eladecidiueconomizar energia.
Oúnicoproblemacomessadecisãoeraque,enquantofaziaalgo,sedistraía doapertoterrívelesufocanteemseupeitoedatensãoemseuestômago.
Sensaçõesqueelaconheciamuitobem.
Elaengoliuemseco,sentindoabocasecacomopapel.Pelomenosnãoera um celeiro abandonado, disse a si mesma. Afinal, tratava-se de um castelo. Tinhagenteportodapartee,maiscedooumaistarde,alguémapareceria.Além disso,haviajanelas,arfrescoeluz.
Elarespiroufundo,tentandoseacalmar.
Todososdias,quandoelaiaparaaflorestaeasmontanhasdeVermont,ela fugiadasensaçãodeestarpresa.Foiporissoqueelatinhadecididotrabalhar comresgatedepessoas.Porqueelaodiavaaideiadequehouvessepessoasque sesentiamabandonadasesozinhas.
Elaqueriadaresperançaaelas,mostrarqueelasnãoestavamsozinhas.
Porqueumavez,hámuitotempo,elaprecisoudealguémassimeninguém veio.
Àmedidaqueotempopassava,Amysuavaerespiravafundoerepetiapara simesmaqueissoiriapassar.
Doladodefora,osomdeumabatalhaaatingiu.Ouvia-seestalidosdealgo de madeira batendo em pedras. Flechas? Pessoas gritavam de dor, de fúria, metalbatiacontrametal.E,então,veioocheirodefumaça.Emseguida,osom
deumabatalhaficoumaisalto,parecendovirbemdetrásdaquelaporta.
Seucoraçãobatiaforteeseupeitoseapertavamaisacadagrito,acadasom deespadabatendocontraespada.Seoutrohomemcomumaespadaentrasse... Nãohaverianadaqueelapudessefazer.Elaestavacompletamenteindefesa.Ah, comoelaodiavaaquelebárbaroqueahaviaaamarradoàcama.
Essaalucinaçãoouhologramaeramuitoreal.Ossons,oscheiros,asamarras emseuspunhosepernas–duvidavaquepudessetê-losalucinado.Talvezisso tudofosseumaexperiênciadehologramasuperavançadaedealtatecnologia. Masumhologramanãoseriacapazdetocá-lacomoaquelehomemtinhafeito.
Eentãoumpensamentoaatingiu.Elanãotinhapercebidoantes,porcausa dochoqueedomedo,edelutarporsuavida–masquandoelefaloucomela, nãotinhasidoeminglês.
Eletinhafaladooutralíngua.OavôdeAmydoladoMacDougalllheveioà mente.EleeavovóhaviamimigradodasHighlandsparaosEstadosUnidos quando eram jovens e seu avô tinha trazido uma pintura antiga da árvore genealógica que remontava à Idade Média. Também havia uma espada MacDougallpenduradanasaladeestar.EatéondeAmyconseguiaselembrar, ele lhe havia ensinado gaélico contando-lhe antigos contos de fadas das Highlandsehistóriasdeseusancestraisemgaélicoeinglês.
Sim,aqueleguerreirotinhafaladogaélicocomela.
Eelatinhaentendido.
Comoissoerapossível?Elanuncaaprendeualínguaapontodeterfluência. Elanãoselembravademaisdoquecincoouseispalavras.
Derepente,aportaseabriu.
Porfalarnodiabo,ocaptordeAmyapareceunovãodaporta.
Seucabeloescuroestavadesgrenhadoeseurostotinhacortesehematomas. Sujeira e respingos de sangue seco cobriam sua pele e seu casaco. Também haviacortesabertosnoombroenotornozelo.Ocasacoacolchoadopesadoque eleusavaestavarasgadoemvárioslugares.Eleolhoulentamenteparaelacom seusolhosescurosefrios.
Earrogantes.
Sim.Aqueletrastehipócrita.Comopuderatratá-lacomosetivesseopoder defazerqualquercoisaquequisessecomela.
Veremos sobre isso.
E bem, ele provavelmente mereceu o que recebeu. Ainda assim, se fosse
qualqueroutrohomem,elagostariadedarumaolhadaemseusferimentose veroquepoderiafazercomseukitdeprimeirossocorros.
“Euvimassimquepude,moça.”Elecaminhouemsuadireçãoeseajoelhou. “Acabou. Nós ganhamos. Vou desfazer suas amarras agora e remover sua mordaça.Tudobem?”
Elalhedeuapenasumolharduro.Nãoqueriaacreditarqueelefosseum cavaleiro. Ele também tinha algumas explicações a dar sobre o que diabos estavaacontecendoaoseuredor.
ElegentilmenteremoveuamordaçaeAmymoveuseuqueixocansadopara aliviarumpoucoador.
“Vocêestábem?”eleperguntou.“Euestavapreocupadoquetalvezoutra pessoaativesseencontrado.”
“Váparaoinferno”,elagritou.
Entãofranziuatesta.Elafalavagaélicotambém.Comoissoerapossível? Seráqueandaconseguiafalaringlês?
“Váparaoinferno”,elarepetiueminglês.Funcionou.
Eleriu.“Nãoblasfeme.Euentendivocêdaprimeiravez”,disseeleeminglês, comaquelesotaqueescocêsqueAmyconheciadoavô.“Voudesamarrarassuas mãosagora,sim?Massaibaqueocasteloestátomadoenãovaiajudarsevocê tentar resistir. Tudo o que eu quero é levar você para sua família. Bruce provavelmentevailibertartodosvocês.Elenãoquermaisderramamentode sanguedoqueonecessário.Masocasteloédele.Entendeu?”
Elecomeçouadesfazerasamarrasemtornodeseuspulsos.Amybalançoua cabeçaemdescrença.
“Você acha que isso faz sentido para mim? Não tenho ideia do que está acontecendoaqui.Tudoquequeroévoltarparaminhairmãeparaaturmade escoladela.”
Suasmãosestavamlivresagoraeelaasesfregou,contenteempodermovêlasefazerosanguevoltarparaseusmúsculosrígidos.
“Suairmã?EladeveestarcomosoutrosComynsnopátio.”
Elecomeçouasoltarocintodeseustornozelos.
“EunãosouumaComyn”,disseAmy.“MeunomeéAmyMacDougall.Minha irmã–”
Elecongeloueolhouparaela,seusolhosverde-musgoescurecendo,suas maçãs do rosto salientes ganhando cor. Amy calou a boca quando viu a
intensidadeabsoluta–não,oódio–emseuolhar.
“MacDougall?”elesibilou.
Amyengoliuemseco.
“VocêdisseMacDougall?”elepressionou,umamãoindoparasuaespada. SuorescorreupelascostasdeAmy.“Fiquecalmo,camarada.Eunãofiznada deerrado.Vocêprovavelmenteestámeconfundindocomoutrapessoa.”
Eleaolhoudecimaabaixo,comcuidado,comoseelafosseumpredador queeleprecisavaavaliar.“NãopossoacreditarquetenhoumaMacDougallem minhaposse.”
Asmãosdohomemcobriramasdela.
“Liberte-me neste minuto”, disse Amy. “Eu não fiz nada para você nem ninguémnestecastelo.Foivocêquemmeagrediu,meamarrouemedeixou sozinha.Euestouindoparacasa.Naverdade,voufazermelhorqueisso,vou chamarapolíciaeelesvãoprendê-lo.Vouapresentarqueixa,vocêvaiver.”
Eleempurrouasmãosdelaeremoveuocinto.
“Você está tentando me enganar, Amy MacDougall, com suas palavras estranhas?Masnãovaimedistrair.”
Eleagarrouseubraçoeacolocoudepé.
“Eagoravoulevá-laaoreidosescoceseseeledecidiráoquefazercomum membrodoclãqueoapunhaloupelascostasnoiníciodesteano.Parecequeé sóissoquevocês,MacDougalls,sabemfazer.Apunhalarpelascostasetrair.”
Amyouviacomabocaaberta.Eleaconduziuescadaabaixoatéoandar térreo.“Eunãofiznada.EstouapenasemumaviagemescolarnasHighlands. Issoéabsolutamenteridículo.Estaestranhaencenação–”
Elespassarampelodepósitoesaíramparaopátio,eAmyparoudefalar. Haviamuitaspessoaslá–homens,guerreiros–andandoporali,carregando coisas.Muitosvigiavamcercadecemhomenssentadosnalama,comascabeças baixas.
E então, havia cadáveres – cadáveres reais. Suas roupas estavam ensanguentadaseelestinhamcorteseferidasprofundasnoabdômen,pernase braços.Algunstinhamcrâniosesmagados.Outroshaviamsidoperfuradospor flechas.Elafoitomadapelocheirodefumaça,sangueefezes,fazendocomque umasensaçãonauseantesubissepeloseuestômago.Issotudoeramuitoreal.
Issotudoerademaisparaela.Seusjoelhosfraquejaramevacilaram,maso gigantemedievalcontinuouaarrastá-lapelopátioemdireçãoàtorremaior.
“Oqueestáacontecendo?”elasussurrou.“Ondeestou?”
Ele olhou para ela. Uma sombra de pena cruzou seu rosto, mas se transformouemumaresoluçãoduraefria.“Nãopensequevoucairemsuas mentirasearmadilhas.Nuncamais.NuncaparaumMacDougall.”
Elesentraramnatorre–aportaestavaaberta.
Dois homens se encontravam no local conversando “E então, quando estivermos recuperados, iremos para Urquhart, no Lago Ness. Esse será o próximocasteloquetomaremos.Depois,Inverness.”
OcaptordeAmytossiueosdoishomensseviraramparaele.Oquefalara eraaltoetinhaocabeloescurocommechasgrisalhas.Ooutroeramaisvelho, nacasadoscinquenta,masaindatinhaumcorpoforte.Eletinhaosmesmos olhosverde-musgodohomemqueseguravaAmy.
“Craig.”Ohomemmaisvelhoassentiuefranziuatesta,estudandoAmy. Então,seunomeeraCraig...
“TrouxeumaMacDougall,VossaMajestade”,disseCraig.“Temoquenósdois tenhamosouvidovocêsdiscutindoosseusplanos.”
O homem a quemCraig se referiucomo “SuaMajestade”franziu a testa, estudando-a.SuaMajestade–seriaeleorei?“Elanãopodedeixarocastelose ouviuoqueeudisse.”
Ah,quãomalucoeratudoisso?Elesbrincavamdereis,cavaleiroseguerras... e...
Mas,nofundo,seusinstintosdiziamqueissonãoeraumabrincadeira.As pessoasporquemtinhampassadoláforaestavamrealmenteestavammortase feridas.Elatinhajávistoferimentososuficienteparasaberidentificá-los.Além disso,oataqueaocasteloforareal.Pedrastinhamsepartidoecaído,e,agora, homens haviam se tornado prisioneiros daqueles que saíram vitoriosos da batalha.
Aexplicaçãomaislógicatambémeraamaisinsana,pois,combasenoque Sìneag havia lhe dito, o castelo havia sido construído sobre uma rocha que permitiaqueaspessoasviajassemnotempo.Elatinhaditoalgosobreumriodo tempo...esobreatravessá-lo–earochatinhaaqueleentalhedeumrioeum caminhoatravésdela.
EentãoAmytinha caído dentrodarocha.
Equandoelaacordou,ocasteloestavainteiro,eláestavaRobertdeBrucee CraigCambelehomenscomespadaseumacatapulta...
Portanto,aexplicaçãoinsanaeraqueAmyhaviaviajadonotempoatéa IdadeMédia.
Elaestremeceu.Ochãosemoveusobseuspés.Suorpercorreusuapelepor todo o corpo. Não importava quão louco parecesse, Amy simplesmente não conseguiapensaremoutraexplicaçãoparatudoisso.
EseelaestavanaIdadeMédia,elaprecisavavoltaraoseutempo.
“Sim”,Craigdisse,eseusolhospesaramsobreela.“Elavaiterqueficaraqui agora. ”
Amyrespiroufundo.Seelatinhaviajadonotempopormeiodaquelarocha, era isso que precisava fazer novamente. Portanto, ficar no castelo era, na verdade, uma vantagem. Ela só precisava chegar até aquela caverna subterrânea.
“Qualéonomedela?”ooutrohomemperguntou.
“Amy.AmyMacDougall.”
“EusouDougalCambel”,disseohomem.“Certamentevocêconheceonome, moça?”
Amybalançouacabeça.
“Nãoprecisafingir,Amy...”eleesfregouoqueixosobabarbacurtaebranca. “VocênãoéfilhadeJohn?AquelaquedevesecasarcomoCondedeRossno próximoano,naprimavera?”
O outro homem – o rei Robert de Bruce – assentiu. “Sim, eu ouvi isso também.Umaaliançamuitoinfelizparanós.Issotornaráambasaspartesmuito fortes.EuesperavanegociarcomoCondedeRossenquantonossasforçassão iguais,masseeleseuniraosMacDougalls,tornaráminhaposiçãoimpossívelde negociar.”
Amynãoconseguiaacreditarnoqueestavaouvindo.Seráquedeviadizer algo?Elanãoerainimigadeles.Elanãoeraquemelespensavamser–apessoa dequemfalavamprovavelmenteestavaseguraemcasa.Aperigosaaliançados MacDougallsedocondedeRossaindaestavaacontecendo.
MassedissessequenãoeraaAmyqueelespensavamqueera,oqueela diria?Queachavaquehaviaviajadonotempo?Queeradofuturo?
Eles nunca acreditariam nela. Pensariam que ela era louca. Ou pior, se tornariamviolentoseaaprisionaramemalgumlugarescuro,ondeninguémiria procurá-la.Umarrepioapercorreueseucorpointeiroestremeceu.
“Bem,nósatemosagora”,disseCraig.“Voumantê-laaqui,nãosepreocupe,
VossaMajestade.Elaseráútil.PodemosnegociarcomosMacDougallseoconde deRossparaquenãoataquem.”
Oreiassentiupensativamente,estudando-a.
“Sim.Voupensarmaissobreisso,maséumacoisamuitoboaelaestaraqui. Porenquanto,mantenha-atrancada.Temosumavitóriaparacelebrarestanoite eumbanqueteparadesfrutar.”
CAPÍTULO5
làinte mhath”,disseCraig.
“Saúde”,ecoouseumeio-irmão,Owen.
Craigbateusuacanecade uisge comadeOwene,depois,coma doseuoutromeio-irmão,Domhnall.
HamishMacKinnoneLachlanCambelestavamsentadosdooutroladoda mesa,emfrenteaCraig.Hamish,umhomemaltoefortecomcabelopretoe cicatrizes de batalha no rosto, tinha entrado para o exército de Bruce recentementecomoclãMacKinnon.Lachlaneraumprimodistantedasterras deCambel.EletinhaocabeloescurodosCambel,masaocontráriodamaioria deles,tinhaolhoscastanhos.
Ograndesalãoaindacheiravaafumaçaecarvão.Achuvagotejavapelos buracosnotelhado,ondeofogohaviaqueimadoamadeiraeapalha,masfoia chuvaquegarantiuqueofogonãoatingissetodooedifício.
Aatmosferaeraalegre.Alguémdooutroladodosalãotocavaliraecantava, emboranãotãobemquantoumbardo.Masemtemposdeguerra,issoserviria.
ObanqueteconsistiaemabsolutamentetudooqueoscozinheirosdeBruce haviamencontradonascozinhas–oqueeramuitomaisdoqueacomidaque eleshaviamcomidoenquantomarchavampelasHighlandsgeladas.
“Digaquevaioferecerbanquetesmelhores,irmão”,disseOwenenquanto olhavaparaumacolheradadoensopadodelegumes.Seusolhosbrilharamcom abrincadeira.Osolhosdeleeramverdescomoosdequasetodosnafamília, maseletinhacabelosloiroscomoosdesuamãe.“Obanquetedeumreinão deveterjavalisassados,coelhosetalvezumaperdiz?”
Craigbalançouacabeçaeescondeuumsorriso.Owensemprediziaefaziao quequeria.
“Nãosejabobo,Owen”,Domhnall,oseuirmãomaisvelho,resmungou.Craig fez uma careta – Domhnall era geralmente o primeiro a repreender Owen. “Estamosemguerra.”
“Sim,eusei,irmão”,disseOwen.“MasseBrucenãotivesselibertadotodas ascriadasecopeiras,teríamoscarneassada,pãofrescoefrutas.Vocênãoestá enjoadodecomerbolosdeaveiaduroscomopedraecarneseca?Deadormecer sozinhoànoite?”
“Vocêvaidormirsozinhopormuitotempo,irmão.”Craigriucomaboca cheiadeensopado.
“Émaisfácilospeidosdelecheiraremarosasdoqueeledormirsozinho.” Lachlanriuetodosnamesariramcomele.
LachlaneratãoaltoquantoCraigepareciaosuficientecomeleparaqueas pessoasàsvezesosconfundissemquandoosviamdelonge.Provavelmenteera osanguedeseuancestralcomum–obisavôdeCraig,GilleasbaigdeMenstrie,o primeiroCambel.
“Não vou contratar nenhuma criada enquanto Owen estiver no castelo”, disseCraig.
Oshomensàmesagargalharam.Domhnalldeuumtapinhanoombrode Owen.“Veja,Owen,nemmesmoCraigvaiajudá-lo.”
Owenvirouseu uisge gargantaabaixo.“Estábem,estábem,vãorindo.Mas nãovenhammeimplorardejoelhosdaquiacercadeummês,pedindoqueeu osapresenteaumabelamoçadaaldeia.”
“Leve-mecomvocê,Owen”,disseHamish.
Ficavafácillocalizaroguerreiro,poiserasemprepelomenosumacabeça maisaltodoqueosoutros.AlgoquedeixavaCraigfelizporterHamishdoseu ladonabatalha.Talvezoolharpesadoemseusolhosescurosmostrassequeele jáhaviaestadonoinferno.
“Mantenhamospênisdentrodascalças”,Craigdisse.“Nóslibertamostodos oscriadosdocasteloparaevitartraição.Osaldeõeslocaispodemnosespionar para obter informações e passar para seus senhores anteriores – ou outros inimigos.”
Owenbalançouacabeça.“TalvezeuváparaonortecomBruce,afinal.Há muitasdonzelasporlá.”
“Não vá, irmão”, Craig disse. “Eu preciso de um de vocês aqui, comigo.”
Alguém em quem posso confiar,pensouele.“Evejatodoesteexcelente uisge dos
Comyns.”
“Sim,vocêdeveficar,Owen”,disseDomhnall.“Devoirparaonortecom nossopaieBruce.”
Owensustentouoolhardoseuirmão,depoisolhouparabaixoeacenoucom acabeça,masCraigcaptouumvislumbredeamarguraemseusolhos,embora tenhapassadorapidamente.
“Claro”,falouOwen.“Seulugarésempreaoladodonossopai.Eufico.”
“Estaéumadecisãodele,nãominha.”Domhnalltomouorestantedeseu uisge e se levantou da mesa. “Não seja criança. Aproveite o resto de seu ensopadodelegumes.Voumerecolher,boanoite.”
Depoisqueelesaiu,CraigsevirouparaOweneapertouseuombro.“Nãose preocupe,Owen”,disseeleemvozbaixa.“Suahoradebrilharvaichegar.Não conheçoumguerreiromaisforteoumelhordoquevocê.Nossopaisabedissoe Domhnalltambém.Vocêaindaéjovem.Suahoradecomandartropaseliderar conquistaschegará.”
OwendeuumarisadinhaeCraigpercebeuqueseuolharhaviasesuavizado. “Eunãosoutãojovemassim.Amaioriadosrapazesdevinteeseisanosestá casada.”
“Sim,bem,maseutambémnãosoucasado.”
OwenolhouCraigdecimaabaixocomumsorrisoduvidoso.“Porqueserá irmão?Seupaunãofunciona?”
Craigbalançouacabeça.“Caleaboca.Tudofuncionabem,nãoqueissoseja da sua conta. Minha noiva morreu antes de nos casarmos, se é que você se lembra.Nossopaiaindanãoencontrouumaboaaliança.Masnãoestoucom pressa.Precisosabersepossoconfiarnamulhereemsuafamília.”
Owensuspirou.“Sim.Confiançaéimportanteparavocê.”
“Confiarnapessoaerradalevaàperdadaquelesquevocêama”,disseCraig. “VejaoqueaconteceucomnossoavôColin.VejaoqueosMacDougallsfizeram comaMarjorie.”
Craigsentiuumadoragudaeseuestômagoseretorceuaoselembrardo quehaviaacontecidonoCasteloDunolliehádezanos.DeverMarjorieferida daquelejeito.
“Euqueriaterestadolá”,disseOwen.
“Vocêeraapenasumgaroto”,disseCraig.
“Domhnalléapenasdoisanosmaisvelhodoqueeu.Seeuestivesselá,talvez
vovô...”
“Não,nãoseatrevaaculparasimesmo.Eudeveriatersidomaiscuidadoso. Todosnósdeveríamostersidomaiscuidadosos.”
Marjorie tinha dado o nome de Colin ao seu filho com Alasdair, em homenagem a seu avô, que morreu tentando salvá-la. O clã manteve sua existênciaemsegredo–especialmentedosMacDougalls–commedodeque JohnMacDougallviesseelevasseoúnicofilhodeAlasdair.
Embora Marjorie tivesse um filho bastardo, Dougal ainda poderia ter encontradoumbommaridoqueaaceitasse.MaselahaviaconfidenciadoaCraig quenuncasecasariaenuncaamariaumhomem.Felizmente,opaideleshavia entendidootraumadelaenãotinhainsistido.
CraigeOwenestavamemsilêncio,comacabeçainclinadasobreoscopos. Antes,Marjorieeraalegreedoce,masdepoisderetornardeDunollie,tinhase tornadoapenasumasombradesimesma.Depoisdeumtempo,elapediua Craigqueaensinasseasedefender,eelefezdebomgrado.OweneDomhnall tambémajudaram.Forçaeconfiançaretornaramaela;contudo,elanuncamais seriaamesmapessoadepoisdoqueaconteceuemDunollie.
“AmoçaMacDougall”,Owendisse.“Alguémlevoucomidaparaela?”
“Achoquenão”,Craigdisse.“Voutrazê-laatéaqui.Elanãovaitentarfugir com cem homens no salão vigiando-a. E podemos conseguir uma ou duas respostas.”
Craigselevantoueestavaindoemdireçãoàsaída,quandoviuseupaie Bruce se levantarem da mesa e caminharem em sua direção. “Craig, uma palavra,porfavor”,disseBruce.
Ostrêsforamparaumcantoondeninguémosouviria.
“ÉsobreamoçaMacDougall”,disseseupai.“Porfavor,ouçacomamente aberta.Eujádeiomeuconsentimento.”
Craigfranziuatesta,sentindoseuestomagoseapertar.
“Oquetemela?”eleperguntou.
“A notícia de que ela está sendo mantida aqui pelos Cambels traria os MacDougallsdireto à nossa porta para resgatarsua filha.Talveztraga até o própriocondedeRoss.”
Craigapertouamandíbula.“Sim.Maspossoimpedirumcerco.Contantoque ninguémsaibadaentradasecreta...”
“Ninguémsabe,excetoEdward,quemorreunabatalha,eomeninoquevocê
pegou.Elemecontoudepoisqueameaceichicotearabundadele.Voulevá-lo paraonortecomigoetorná-lomeucopeiro.Elepassaráparaoladocertodesta guerra. Ele é um escocês e sabe o que é melhor para o nosso país – a independência.”
“Essas são boas notícias”, disse Craig. “Então, deixe que os MacDougalls venham.”
“Nãoétãosimplesassim.Arriscarocasteloporumadonzelaétolice.”
Craigrecuou.“Vocênãoestásugerindomatá-la,nãoé?”
“Filho,fiquequietoeescuteseurei”,disseDougal.
AmandíbuladeCraigseapertou.“Perdoe-me,senhor.Fale,porfavor.”
OslábiosdeBruceseabriramemumsorrisoehaviaalgonaexpressãodele dequeCraignãogostou.
“OqueachadenosvingarmosdosMacDougallsaomesmotempoemque enfraquecemosseuclãeocondedeRoss?”
Craiginclinouacabeça.“Eugostariamuitodisso.”
“Entãosecasecomamoça.”
OestômagodeCraigerevirou.“Oquê?”
“Filho”,disseDougalCambel,“esseéumbomplano.TiredosMacDougall suamaioraliança.Vingue-sedelesnãoatravésdaviolência,mastirandoseu futuro.AjudeacausadoReidosEscoceses.”
Mas casar-se com o inimigo? A mulher cujo irmão havia agredido e estupradoMarjorie?AmulhercujafamíliahaviamatadooavôdeCraig,seu primo,Ian,emuitosoutrosCambels?
Amulhercujosangueestavasaturadodetraição?
CraighaviajuradonuncapermitirqueoutroMacDougallotraísse.Eseele secasassecomAmy...
Umarrepiodeantecipaçãoopercorreuaopensarnelanuaemseusbraços. Suapelemacia,seuslábioscontraosdele,aquelecabelovermelhoespalhado sobreseupeito...
Oqueeleestavafazendo?SeelesecasassecomumaMacDougall,estaria dandoaelaumconviteparatraí-lo.Mesmoqueelafosseforçadaafazerum juramento de ser leal a ele como sua esposa, o voto de casamento não significarianadaparaela.Elaestariamuitopertoesaberiademais.
Issoestavaalémdele.
“Não,VossaMajestade.Meperdoe,masnãoconsigopensaremmeamarrar
aumaMacDougall.Sintomuito.Precisamospensaremoutracoisa.”
Bruce olhou demoradamente para Craig. “Às vezes, sacrifícios pessoais precisamserfeitosparaobemdemuitos.”
“Sim, senhor, mas temo que não seja um sacrifício e sim cair em uma armadilha.”
DougalcolocouamãonoombrodeCraig.“Pensebem,filho.Vocêéfortee umhomemdehonra.Vocêfaráoqueécerto.”
Craig balançou educadamente a cabeça enquanto a fúria fervia em suas veias–raivadeBruceedeseupaiporsequerconsiderarlevarumaMacDougall parasuafamília.
ElesevirouesaiuparaencontrarAmyMacDougalleperguntaraelatudoo queprecisavasabere,emseguida,trancá-laemumlugarondenuncamaisteria quevê-la.
CAPÍTULO6
AmytentousoltarseubraçodopunhodeferrodomalditoHighlander. Eleaconduziapelopátioescuro,iluminadoapenaspelastochas.Uma chuvacongelantecaíaeossapatosdeAmyescorregavampelalama.
Umacoisaeraficarconfinadaemumquarto,outracompletamentediferente era ficar presa nessa estranha realidade medieval. Apesar de sua jaqueta quente,eracomoseopróprioarpressionasseseucorpodetodososlados.
“Nãotenhoparaondefugir”,disseela.“Tiresuasmãospegajosasdemim.”
“Rá!NãosereienganadoporumMacDougallnovamente.Vácaminhando.”
Amyfezumacareta.Ah,comoelaqueriateralgopesadonasmãospara jogarnele.Elesentraramnograndesalão,queestavacheiodepessoasvestidas comroupasmedievais.Elapercebeucomoseujeansmodernoesuajaquetase destacavam.Oarestavaabafadoali,comcheirodelãmolhada,fumaçadelenha e ensopado. O chão de madeira estava sujo de lama. Tochas e uma lareira iluminavamosalão.
SeuestômagoroncoueAmypercebeucomoestavacomfome.Elanãocomia desdeocafédamanhã,quedeviatersidohádezoudozehoras,considerandoa escuridãoláfora.
Cabeças se viraram em sua direção, e ela notou o rei e o pai de Craig sentadosdooutroladodosalão,juntocomalgunsoutroshomensmaisvelhos, bebendoecomendo.
Craigconduziu-apelocorredorentreasmesaseosbancos.Haviahomense maishomenssentadosemoutrasmesas.Elaolhouaoredor.
“Porquesóháhomensaqui?”elaperguntou.
“É um exército e eu deixei todos os criados dos Comyns irem embora, inclusiveasmulheres.”
“Porquê?”
“Porque,assimcomovocê,elessãoinimigosetraidoresempotencial.”
“Bem,sortedeles.Tenhoinvejadaspessoasqueacabaramdeperderseus empregos.Elaspodemficaromaislongepossíveldevocê.”
Craig parou em frente a uma mesa ao lado da lareira. Outros guerreiros estavamsentadoslá,rindo,maselesficaramemsilêncioquandonotaramAmy.
“Sente-se”,disseele,apontandoparaobanco.
Elapuxouocotovelodesuamãoeeleasoltou.“Eunãosouumcachorro”, elasibilou.
“Não,vocênãoé.Oscãessãoleais.”
Que idiota. Ele nem me conhece e faz suposições apenas com base no meu sobrenome.
OqueelesabiasobreosMacDougalls,afinal?Elatinhaorgulhodeseruma MacDougall. As histórias que seu avô contava dos bravos guerreiros e poderosos chefes, de como o clã surgira de um grande guerreiro chamado Somerled,dequeformaseusancestraisderrotaramosvikingsecomoeleseram forteseorgulhosos.
“Comoquiser”,eledisseesesentou.“Aproveitesuarefeiçãoempé.”
Eleentregouaelaumatigelaeumacolher.Arrá.Eisoobjetopesadoqueela tanto queria. E o ensopado verde-amarronzado escorreria lindamente pelo rosto dele. Os dedos de Amy coçaram e ela teve que se conter para não arremessaratigelanele.Elateriajogadooensopadonelesenãoestivessecom tantafome.
Respire fundo, inspire, expire.
Ela passou por cima do banco e se sentou. A mesa estava em silêncio, enquanto havia um murmurinho no resto do salão, com risadas explodindo ocasionalmente.Alguémtocavaumamúsicamedievalemumaliraecantava. Mal.
Amylevouacolheràboca,massentiuosolhosdoshomensfixosnela.Ela ergueuosolhoseelesdesviaramoolhar.Elasóprecisavaignorá-los.
Ela começou a comer – não era uma refeição particularmente saborosa. Faltavasaletemperos,maseracomida.Alémdisso,seelanãocomesseagora, quandocomeria?
Umhomemaltosentadodooutroladodamesadeslizouumcanecodeprata paraela.Eleaolhouporbaixodassobrancelhas,umolharescuroeindagador
commaissignificadodoqueelapodiaentender.Eleestavanacasadostrinta, elasupôs,umguerreiroaltoemagro,comapeleenvelhecida.
“Algo para fazer isso descer, moça ” , ele falou. “Parece que você precisa disso.”
Amyolhouparaocopoeocheirou.Uísque.Não.Nãoexatamente.Talvezo uísqueaindanãoexistissenaquelaépoca.Seelaselembravacorretamente,o quadrodeinformaçõesdiziaqueoCastelodeInverlochyhaviasidotomadopor Bruceem1307,entãoestedeveriaseroséculoXIV.
“Obrigada”,eladisseetomouumgole.
Elafechouosolhos,apreciandoaqueimaçãoquedesceulentamenteporsua gargantaeseacomodouemseuestômago,aquecendo-a.
“MeunomeéHamishMacKinnon”,osujeitoinformou.
“Hamish”, disse Craig, “ela não é uma convidada. Você não precisa ser amigávelcomela.”
“Sim,eusei,maselatambémnãocometeunenhumcrime.Deixe-asossegada porenquanto.”
Craigaolhoufeio.“Tudobem.”
AmysorriuparaHamish.
“Obrigada”,disseedevolveuacanecaparaele.
Hamishbalançouacabeçaumavez.“Beba,moça.Eujábebiosuficientee parecequevocêprecisamaisdissodoqueeu.”
“Então,existegentebacananoexércitodeBruce,afinal”,disseequasepôde ouvirosdentesdeCraigrangendo.
“Vocêtemumsotaqueestranho”,disseumhomemloirosentadoàdireitade Amy.
ElesepareciacomCraigeDougalporcontadosseusolhosverdes.
“OsMacDougallstêmessesotaque?”eleperguntouaCraig.
“Não,Owen”,Craigdisse.“Odelaépeculiar.”
“Vocêfoicriadaemoutrolugar?”Hamishperguntou.
Amy estava mastigando, então teve que diminuir a velocidade com que consumiaacomidaparasercapazderesponder.
“Sim.”
“Onde?” Hamish perguntou. “Na Irlanda? Você soa um pouco como os irlandeses.”
Deus,elaodiavamentir.“Sim.”
“Porquê?”Craigperguntou.
Ah,droga.Eladeveriaterprestadomaisatençãoquandoseuavôcontaraa históriadosMacDougalls.
“Porquevocêquersaber?”elaperguntou.Amelhordefesaeraoataque, certo?
“Euprecisosaberquemvocêéeoqueestáfazendoaqui”,Craigdisse.“Você vaimeresponder.Cadapergunta.”
Suas palavras a penetraram, sufocando-a, mas não deixaria que ele a abalasse.“Ouoquê?”
OslábiosdeCraigseapertaram.“Ouvocêvaisearrepender.”
Hamishabriuaboca–semdúvidaparaaliviarasituação–masCraigergueu apalmadamãoeHamishfechouaboca.
“Eu não me importo”, disse Amy. “Você disse que não machucaria uma mulher.Oueramapenaspalavrasvazias?”
“Sim,eudisseenuncaquebrominhapalavra”,Craigdisse,suavozumaviso baixo,ronronante.“Etambémnuncafaçoameaçasvazias.”
SeuolharpesadopousousobreelaeAmyprendeuarespiração.Umarrepio lhepercorreuocorpo,masnãoerademedo.Eraalgocomocalor.Seusolhosse encontrarameagargantadeAmysecou.Peloquepareceuumaeternidade,ela amoleceuederreteu,eesqueceutudoaoseuredor.
Então,rápidodemaisparaogostodela,elerecuoueolhouparaseucaneco.
“Olha,moça.Vocêteráqueficaraquiporumbomtempo.Nãoespereque seupaivenhabuscá-laembreve.Emesmoqueissoaconteça,saibaquenãovou entregá-la.Alémdisso,elenãotomaráestecastelo.Nãoqueroquevocêsintao queminhairmãsentiu.”
HamisheOwenolharampropositalmenteparasuastigelascomamenção da irmã de Craig. O que havia acontecido com ela? A irmã dele havia sido trancadaemalgumlugar?Levadacontrasuavontade?
“Oqueelasentiu?”elaperguntoucomavozrouca.
A boca de Craig se apertou. “Você sabe do que estou falando. Não vou desrespeitaraMarjoriecontandosobreospioresdiasdavidadela.”
Amysoltouoarlentamenteelágrimasinoportunasarderamemseusolhos. Asmemóriasdospioresdiasde sua vidavieramàsuamente.Não.Estenãoera omomentodepermitirqueessasemoçõessombriasaafogassem.
Craig olhou em volta da mesa. “Owen, Hamish, Lachlan, será que vocês
podemdeixarnossaconvidadaeeusozinhos?
“Sim,irmão”,disseOwen,eHamishassentiu,embora,Amypensou,demá vontade.Ostrêshomensselevantarameforamparaoutramesa,ondealguém oscumprimentoualegrementeegargalhadasexplodiram.
Craigcolocoumaisumpoucodabebidafortedagarrafaemseuscanecos.
“Comoéonomedisso?”elaperguntou.“Nãoéuísque,é?”
“É uisge-beatha. ”
A água da vida, ou luar, Amy entendeu. “Certo”, ela disse. “É o que eu pensava. ”
Duvidoso,Craigaestudouporumbrevesegundo,depoisergueuocopo. “Slàinte mhath”,disseele.Saúdeemgaélico,Amylembroudabrochuradohotel sobreostoursdeuísque.Eladeveriaterfeitoumtournaquelaépoca.
Ah Deus, a pobre Jenny deveria estar pirando, procurando por ela. Amy precisavaagireencontrarumamaneiradeteracessoarocha.
Craigdeuumgrandegoleegrunhiu,claramentesatisfeito.Amyseguiuseu exemplo,desfrutandodocalordoluar.Seessaeraparaseraorigemdouísque, eraumaboapedida.
“Moça”,Craigdisse.“Eunãosouumcarcereiro.Minhatarefaémantero castelo seguro e protegido, e você dentro dele. Apenas responda às minhas perguntas.Precisosaberqualéomotivodevocêestaraqui.Porquevocêestava comosComyns?”
Será que era melhor mentir? Ela precisava ter acesso ao depósito subterrâneo.Talvezeladevesseenrolá-lo,afinal.Eseateimosiadelaapenas fizessecomqueCraigamantivessemaisvigiada?
“Vouresponderàssuasperguntas”,respondeuela,suavozsoandoanormal para seus próprios ouvidos, tudo ficando apertando dentro dela. Ela odiava mentir,masseissoalevasseparamaispertodecasa,eraoqueelaprecisava fazer,emboratodooseucorposentisserepulsa.“Estavaaquicomoconvidada.”
“Convidada?Dequem?”
“Souamigade...”Ah,droga,seráqueosComynstinhamumafilha?Ouum filho?Algumfilho?“LadyComyn.”Issoerabastantevago.
“Lady Comyn.” Ele parecia enojado. “Você até mesmo fala como os normandos,comoosComyns.Vocênãoéescocesa?”
“Claroquesou.”OhDeus,elaestavacausandomaismaldoquebemcomas mentiras.“Dequeoutraformadeveriachamá-la?”
Craigbalançouacabeça.“Suponhoqueestejacerta.OpróprioBrucetem sanguenormando.Então,seupaiconcordouquevocêvisitasseLadyComyn. Quantotempopretendiaficaraqui?”
No século vinte e um, seria por alguns dias, talvez. Mas aqui, sem comunicação e com longas viagens – principalmente no inverno, que estava chegando–,asvisitasprovavelmenteerammuitomaislongas.“Apenasalguns meses. ”
“Não cabe a mim julgar a moda feminina atual, mas por que você está vestidadehomem?”
Ah, pelo amor de Deus. Essas pessoas medievais e seus princípios sobre roupas e comportamento feminino. Amy provavelmente estava quebrando todasasregrassemnemmesmotentar.
Craigresmungoueolhouparaeladecimaabaixo.Oolharqueimouatravés desuasroupasefezasbochechasdeAmyficaremvermelhas.
Ah, controle-se. Você não é uma colegial!
“Eseupaiesperarecebermensagenssuas?”elecontinuou,aparentemente alheioàreaçãodela.“DealgumdosComyns?”
“Não. Ele acha que eu estou segura aqui. O castelo é considerado impenetrável.Apropósito,comoentrouaqui?”
Ele deu uma risadinha. “Isso não é da sua conta, moça. Quando é o seu casamento?”
“Meucasamento?”
“Sim,nãobanqueatola.EuseisobreseucasamentocomocondedeRoss.”
Ahnão.Eseissofosseumteste?Eseelesoubesseadataexata?
“Meupaiaindanãotemcertezasobreadataporcausadaguerra”,disseela.
“Entãoelenãoestáteesperandotãocedo?OueleestávindoparaDunollie?” Quediaboseraum dunollie?
“Não.”
Craigmanteveseuolharverdeescurosobreela,comosevisseatravésde suasmentiras,penetrandoemsuapele,desenterrandoaverdade.Amyprendeu arespiraçãoeenrijeceu,presaemseuprópriocorpo.Eledescobririatudoe, então,elanuncamaisveriasuacasanovamente.
“Vocêestámentindo”,disseCraig.“Eunãoseioquêexatamenteenãosei porquê.Masvejoqueestá.Oquesóconfirmaqueeunãodeveriateracreditado
“Éparacaçar.”
quemediriaaverdade.”
Eleagarrouobraçodelacomseupunhodeferroeapuxouparacima.Amy tentousesoltar,maseleapenasaseguroucommaisforça.
“Vocêvaificartrancadaatéfalar.”
CAPÍTULO7
Amycaminhoupeloalojamento.Elaestavaagoranatorresudesteenão naqueladeondetinhavindo.
Nãonaquelaparaaqualelaprecisavairsequisessevoltarpara casa.
Craigahaviadeixadoalinodiaanterior,eagora,umanoiteeumdiatinham sepassado,eeleaindanãotinhaidobuscá-la.
Hamishhaviatrazidosuacomidanodiaanterioretiradoseupenico.Eela sabiaquehaviaguardasdooutroladodaporta.
Ela tinha estragado tudo, tudo mesmo. Sabia que era uma péssima mentirosaeCraig–ah,Craigerainteligente!–haviavistoatravésdela.
Droga.Elaprecisavadescobrirmaissobrecomoascoisasfuncionavampor ali.Eraaúnicamaneiradeserconvincente.
Quantomaistempopassavaalinaquelequarto,maisinquietassuaspernas ficavam,eumformigamentoaspercorriaemondas.Andarpelolocalajudoua aliviar a sensação, mas suas entranhas ainda estremeciam e seu estômago embrulhava.
Qualseriaapiorcoisaquepoderiaacontecerconsigo?Craigamanteriaali parasempre?
Pelomenoshaviajanelasecamas.Olocalestavasecoerelativamentelimpo. Amysentou-senaalcovafundapertodeumajanelaabertaeolhouparafora.A vistaeraespetacular.Elapodiaveravilaeoexércitoqueaindaestavalá.
Porém, até o anoitecer, eles já teriam começado a limpar os cavalos, empacotarascoisasnosalforjes,colocarbarrisecaixotesemcarroçasease movimentarparairembora.Oexércitoprovavelmentepartiriaembreve.Era melhorassim.MenosolhosemAmyemaischancesdeelaentrarnodepósito
subterrâneo.
Amy olhou para a paisagem. Bosques com árvores sem folhas, manchas marronsdecamposvazios,colinasemontanhasaperderdevista.Sim,issoera diferentedeestarnoceleiro,etambém,alembravadeVermontdecertaforma, oqueaconfortava.Elarespiroufundooarfrescoegelado,quasedocecomo cheirodesoloricoefolhasemdecomposição.
Anaturezaeasvistasamplassempreafaziamsesentirmelhor.Espaços pequenoseconfinadoseramoqueelatemia.PelomenosCraignãoahavia trancadoemumporão.
Maseleeramaisespertodoqueisso.Oumaisgentil.Porqueaomantê-laali, haviaprivadoalgunsdosguerreirosdecamasedeumteto,fazendocomque Amysesentisseculpadaporcontadisso.
Ela examinou o conteúdo de sua mochila. Seu telefone, que ela já havia tentado usar no dia anterior –, obviamente, era inútil. O kit de primeiros socorros.Issopoderiaserútil,maselaprecisavatercuidadoparanãorevelar nenhummaterialmodernoquepudesselevantarquestionamentos.Alanterna tinha rolado para debaixo de uma das camas na torre leste e ela tinha se esquecidoderecuperá-la.Bem,precisariaencontrá-lanovamenteouteriaque usarvelasquandofosseparaodepósito.
Oqueaspessoasmedievaisfariamseaencontrassem?
Amybalançouacabeça,afastandoopensamento.
Ela tinha seus absorventes internos, sua carteira, seu passaporte e nada mais.
Nada que pudesse usar. Ela agora se arrependia de não ter enchido sua mochilacomtodotipodeporcariadesnecessária,apenasnocasodeprecisar, comoJennyfazia.
Não.Amypreferiaumestilodevidaminimalista.Elanãoprecisavademuito, moravaemumapequenacasaeestavasemprenaestradanasmontanhasouno centro de operações com sua equipe, esperando por chamadas de busca e resgate.Issolhedavaumasensaçãodeliberdade,umsensodepropósito.
Afaltadebanheiro,águaencanadaedeconveniênciasnãoaincomodava tanto.Elapodiacomerquasequalquercoisaeficarfelizcomisso.
Apiorparteéqueelaestavapresanestaépocamedievaleninguémestava vindopararesgatá-la.
Amysupôsqueseriamaisfácilseelafossebem-vindaaqui.MasCraigeo
restodoshomensahaviamrotuladocomo“oinimigo”.
OúnicoqueestavadispostoaignorarissoeraHamish.
Amy passou o resto do dia contando os minutos enquanto eles se arrastavamatéquefinalmentepegounosono,mastevesonhossombrios.
Namanhãdodiaseguinte,elanãoaguentavamaisficartrancada.Elabateu naportaegritou:“Deixe-mesair!Agora!Leve-meatéCraigCambel.Exijoque meleveatéCraig!Querovê-lo...”
AportaseabriueHamishentrou,esbarrandonela.Umpequenorespingode mingauquentedeumatigeladebarrocaiunochão.Amydeuumpuloparatrás.
“Vocêestábem,moça?”Hamishperguntou.
“Sim,estoubem.”
Aportasefechouatrásdele.
Umsorrisoalegreseespalhouporseurosto.Seusolhosestavamescurose atentosaela,analisando-adacabeçaaospés.“Estácomfome?”
“Sempre.”Elasorriu.Elelheentregouatigelacommingaueumacolhercom melnomeio.Elafoiatéumadascamasesentou-se,colocandoatigelanocolo. Elesesentounacamaemfrenteàdela.
“Eucoloqueiumpoucodemelemanteigaparavocê.”
“Vocênãoprecisava.”Elasorriu.“Eurealmentenãomeimportodecomer mingausimples.Possocomerqualquercoisa,nãosouexigente.”
Elamisturouomingauquentecomamanteigaderretidaeomelecomeu umacolherada.OsolhosdeHamishseestreitaram.“Vocênãoéexigente?Issoé incomumparaafilhadeumchefedeclã.Vocênãoestáacostumadacommele frutasfrescaseomelhorotempotodo?”
Ah,droga.“Achoquesouapenasdiferentedasfilhasdeoutroschefesdeclã, vocêsabe.”
Eledeuumarisadinha.“Sim,eupossoverisso.”Eleaestudou.“Suponhoque vocênãoestejamuitofelizporestarlongedecasa.”
Elasorriu.“Verdade,nãoestoumuitofeliz.”Emborasesentissemaisalegre comomingauquenteemsuasmãoseapresençaamigáveldeHamishdoque haviasesentidodesdequechegara.
Eleassentiu.“Quandofoiaúltimavezquesoubedeseupai?”
Todas essas malditas perguntas... Ela comeu outra colherada de mingau, sentindoosolhosdeHamishnela.“Quandoeusaídecasa...”
AportaseabriueCraigapareceu,alto,deombroslargosetãobonitoqueela
prendeuarespiração.
HAMISH DEU UM PULO E, APENAS POR UMA FRAÇÃO DE SEGUNDO, SUA MÃO FOI PARA A espada.Masentãoelerelaxoueforçouumsorriso.
“Craig...”
“Esperonãoterinterrompidonada”,disseCraig,seusolhosseestreitando nadireçãodeAmyeHamish.
Craignãogostounemumpoucodoqueviu.Eraaprimeiravezqueelevia Amy com o rosto relaxado e os cantos dos lábios erguidos em um pequeno sorriso.SeráqueeraporqueHamishestavasentadotãoperto,comseujoelho quasetocandoodela?
CertamenteoestômagodeCraigseapertouapenasporqueelenãogostava queseushomensfossemmuitoamigáveiscomoinimigo.Nãoporqueodiasse saberquetinhasidoHamishqueafizerasorrir.
EnãoCraig.
“Você não interrompeu”, afirmou Hamish. “Eu trouxe a refeição de Amy, apenasisso.”
Craigoestudouembuscadesinaisdementira.HamisheraumMacKinnone oclãeralealaBruce.Elesohaviamescondidoquandoeleforaperseguidopelos inglesesepelosclãsinimigos,oquetinhasalvadoavidadoreieocolocado ondeestavaagora.
“Sim”, Craig disse. “Obrigado. Bruce e as tropas estão partindo do norte nestemomento,assimcomooseuclã.Certamentevocênãoquerserdeixado paratrás.”
Hamisholhouparaajanela.
“Eu e o meu clã decidimos que é melhor eu ficar para ajudá-lo com o castelo”,disseele.“Seconcordar,éclaro.”
CraigolhouparaAmy,quecomiaoutracolheradademingau.
“Nãosabiaquevocêqueriaficar.Possosaberporquê?”
“Paraajudá-loaprotegerocastelo,éclaro.Brucevaiconseguirmaisaliados depoisqueclãsneutrosouviremsobreInverlochy.Masvocêvaiprecisarde bonsguerreiros.”
Porém,nãoeraesseomotivo.Elequeriaalgoaqui–ninguémsimplesmente
ficavaparatrássemseuclã.
“Masquevantagemvocêteriaaofazerisso?”Craigperguntou.
Hamish deu uma risada nervosa. “Senhor, as suas perguntas têm a habilidade incrível de fazer alguém querer borrar as calças. Se você está procurandomásintenções,estáprocurandonolugarerrado.Nãotenhouma casaháanos,poisestousemprenaestrada.Ébomparaumguerreirodescansar sobumtetoeatrásdequatroparedesfortes.TudoqueeuqueriacomAmyera lhefazercompanhia.Amoçanãofeznada.Elanãoéresponsávelpelosatosdo irmãoedopai.Nãoacastiguepeloquenãomerece.”
Craigaestudou.Elasesentounapontadacama,atigelanocolo,acolherna mão.Seuslindosolhosazuis,brilhantesegrandesofulminavam.
Sim,Hamishtinharazão,amoçanãoeraresponsávelpeloqueafamíliadela tinha feito. Mas com as costas eretas daquela maneira e com aqueles olhos dizendoquenãocederia,elaeraumaMacDougallemcadacentímetro.Oque significavaquenãoeratãoinocenteassim.
“Podeficar,Hamish”,Craigdisse.“Vocêtemrazão,precisodeumguerreiro fortecomovocê,masnãoachodeveriasetornaramigodoclãinimigo.Nãose sabequeinformaçõeselapodetirardevocê.
“Sim,masela–”
“Hamish”,falouCraig.“Porfavor,deixe-nosasós.”
HamisholhouparaAmy,comoseparatercertezadequeelaficariabem sozinhacomCraig,acenoueducadamenteesaiu.
Quandoaportasefechouatrásdele,CraigsevirouparaAmyeabriuas mãos.“Vocêexigiumever.Então,aquiestou.”
Amycolocouatigelanacamaetambémselevantou,cruzandoosbraços sobre o peito. Ela se posicionou com os pés afastados, as pernas longas e esculpidas,pedindoqueeleasapreciasse.Seuscabeloslongosruivosondulados estavamespalhadossobreosombros.Seuslábioscarnudosseachatarameum sentimentoderaivaflamejouemseusolhos.
“Euquerosairdestequarto”,disseela.“Vocêdissequefariasuasperguntas eentãomedeixariaterminhaliberdade.Então,deixe-mesairdestemaldito quarto.Gostariadecaminharpelocastelo.Euqueroarfresco.”
Ah,elaeradivertida.Umaverdadeirafilhadeumchefe,fazendoexigências quandonãotinhadireitodefazê-las.
“Vocêquer,vocêquer...”Elecaminhouemsuadireçãoeparou,admirando
sualindaboca.“Eaindaassimnãocumpreasuapartedotrato.Vocêmente. Vocêescondealgo.”
Elafranziuoslábioseelesseenrugaramumpouco–tãobonitos.Craigteve o desejo repentino de passar o polegar ao longo de seu lábio inferior. Ela engoliuemsecoeeleolhouparacima,seusolhosseencontrandonovamente. Ele podia se afogar naqueles olhos azuis como lagos profundos, com cílios longosdacordasmontanhasnooutono.
“Eusóqueroliberdade.Voudeixá-loloucosememantiveraquipormaisum dia.Euvoubaternaportatodososdias,vouquebrarcoisas,voufazerseus guardasodiaremotrabalhodeles.”
Umcíliopousouemsuabochecha,eeleergueuamãoegentilmenteatocou. Ocíliogrudounapontadoseudedo,tãodelicado,longoebonito.
Corada,amulheroobservoudeumjeitoqueseassemelhavaasuaprópria necessidade ardente de tocá-la, beijá-la, sentir a maciez de seu cabelo e a sedosidadedesuapele.
Elesoprousuavementeocílioquedesapareceudapontadoseudedo.
“Sim,euentendooseudesejo,moça”,eledisse.
Seusolhosbrilharameumsorrisocomeçouaseespalharpelosseuslábios. “Vocêentende?”
“Sim,claroqueentendo.”
“Bem. Obrigada, pois eu adoraria sair deste quarto e andar pelo castelo livremente...”
“Vocêestáprontaparafalar,então?Responderàsminhasperguntas?”
Eleviuseuslábiossefecharemesuagargantasemoverenquantoengolia. Elaestavanervosa.
“Sim”,eladisse,suavozaumentando.“Euestavaprontadaúltimavez.”
Eleseafastou,eelafranziuatestaparaele.
“Se você quer dizer quando me respondeu com suas mentiras, isso não contou.”
Elaoolhoucomraiva,medo,orostovermelhoeosolhosflamejando.
“Entãovocênãovaimedeixarsairdaqui?”
“Sim,vocêpodesair.Eunãosouummonstro.Mashaveráumguardajunto comvocêotempotodo.”
Então,antesqueseesquecessedesuaraiva,acabassedistraídopelaabeleza damulherqueestavaasuafrenteebeijasseseuslábiosexuberantes,Craigsaiu.
Uma semana depois...
CAPÍTULO8
CRAIG OLHOUA VISTA DO RIO LOCHY E LAGO LINNHE E DAS TERRAS ALÉM, DO PARAPEITO DO muro norte. Ele respirou o ar frio profundamente e exalou uma nuvem de vapor.
“Algumacoisaestáincomodandovocê?”Owenperguntou,aoladodeCraig. Craiginclinouacabeça.“Estou encrencado,irmão.”
“Ah,otodo-poderosoCraigCambelestáemapuros?”Owenriu.
Craiglhedeuumolhardesoslaio.“Sim,estou.Nuncadirigiumacasa,muito menosumcastelo.Eissoémuitoóbvio.”
Owenergueuumasobrancelha.“Sevocêserefereàsfogueirasnopátioeaos homensassandosuaprópriacaça,sim,eudiriaquenãoémuitoconvencional paraumgrandecastelo.Masnãoouvininguémreclamar.”
“Elesnãoreclamariam,mastambémnãofariamnadaarespeito.Oproblema émaisprofundo,Owen.OexércitodeBrucelevoumuitossuprimentosquando partiu, o que é compreensível, mas o que temos aqui não vai durar até o inverno.Tenhocercadecemhomens.Todoselesguerreiros,nenhumserviçal. Não temos um cozinheiro, nenhum menino para carregar água do poço, ninguémparaassarpão,cortarlegumesefazerqueijo.”
“Sim,bem,vocêsabequeelesnãoestãoacostumadosaterumcozinheiro. Elesficamfelizesemsairtodososdiasparacaçarepescar.”
“Mas todos precisam cozinhar para si próprios. Perdemos tempo de
treinamento e o pátio está cheio de fogueiras. É simplesmente inseguro. Especialmenteseoinimigochegarderepente.”
Owenencolheuosombros.“Suponhoquesim.Aindaassim,vocêéumbom chefe.”
“Supervisionaraspatrulhaseosguerreiros,treinareplanejaradefesaem casodecerco,sim,achoquenessecasosou.Masoshabitantessofrem.Ninguém limpa, lava ou conserta roupas. Além disso, precisamos de carpinteiros, pedreirosemãodeobrasimplespararepararosdanosàcatapultadeBruce.”
“Masvocênãoquerumpedreirolocal.”
"Não.Vocêsabeminhaposiçãosobreoshabitanteslocais."
Owenencolheuosombroscomosedissesse: Então o que esperava?
Bem,sim.Esendoassim,eletambémnãodeveriamencionaraquestãodos estábulos. Ele precisava de um ferreiro para fazer ferraduras e consertar as armas,bemcomodeferradoresecavalariçosparacuidardoscavaloselimpar osestábulos.
“Talvez deixar todos os serviçais irem embora não tenha sido uma boa ideia”,Owendisse.
“Precisodepessoasemquempossoconfiar.Euenvieiummensageiropara contratarpessoasdasterrasCambel.”
“Vailevarsemanasatéqueeleencontrepessoaseastragadevolta.Talvez atémesescomoinvernochegando.”
“Sim,eprecisodealguémagora.Umapessoaquepossadividiroshomens entre as tarefas da cozinha e da faxina, supervisionando-os enquanto estou ocupadotreinandoosguerreiros.Alémdisso,precisodealguémparacoordenar osturnosdaguarda,dalimpezaedamanutençãodasarmas.”
EleolhouparaaesquerdaeviuAmyMacDougallsubirnoparapeitojunto comHamish–suaguardadodia.ElaacenoucomacabeçaparaCraigeparou pertodatorre,olhandoavista.
Elaagoraestavavestidacomumtrajedemoça,provavelmentecansadade suasroupasdecaça.Eolhandoparaelaagora,comocabelosoltosobreacapa delãcinza,asbochechaseonarizrosadosdofrio,elaeradetirarofôlego.
Eleatinhacolocadonoúnicoquartoprivado–oquartodosenhornaTorre Comyn–eeledormianoandardebaixonosaposentosdosenhor,juntocom Owen e outros Cambels. Craig estava acostumado à vida simples de um guerreiro–dormirnochãoenquantoestavanaestradacomseupaieseustios.
Emcasa,eledividiaumquartocomseusirmãos.Maselepodiaimaginarque Amy,sendoaúnicamulhernocastelo,precisavadeumpoucodeprivacidade.
"Duranteaúltimasemana,haviasepegadoolhandoparaela,procurando-a aoredordocastelo,esperandoqueAmyaparecesseporpertoouquequisesse perguntaralgoaele.Mesmoquefosseparaexigiralgodeleouprotestarcontra apresençadeseusguardas.Maselamalhavialhedirigidoapalavra,anãoser pararesponderaalgumaperguntaqueohighlandertinhafeito.ECraigodiava verHamishpertodela,trazendo-aumamaçãouumbolodeaveia.
Não,elenãoestavacomciúme.Nãohaviamotivoparaisso.
“Vocêqueralguémparacuidardocastelo”,disseOwen.“Láestáela.”
Craigficoutenso.
“Vocêpodesecasarcomela”,disseOwen.“FoiissoqueBrucepediuavocê, nãofoi?”
Case-secomela–denovo,opensamentoquevinhaatormentandoCraig.
“IssodestruiriaaaliançaentreosMacDougallseosRoss”,insistiuOwen,“o queenfraqueceriaosinimigosdeBruce,mastambémseriaumavingançanossa, dosCambelscontraosMacDougalls.”
Sim,bem,ambososmotivoseramfortesosuficiente.
“MaseununcapoderiamecasarcomumaMacDougall”,Craigrosnou.“Esse seriaomelhorjeitodesertraído.”
“E você não acha que ela poderia ajudá-lo com a organização do castelo comosuaesposa?”
CraigestudouoperfildeAmyàdistância.Sim,elaprovavelmentehaviasido treinadaparaadministrarumacasanobre,entãopoderiadaraelaalgumasdas tarefas.Elejáatinhavistocomoscavalos–limpando-os,conversandocomeles, alimentando-os. Amy parecia saber o que estava fazendo. Ela também tinha feitoumasopasimplesumdiadesses.Masdeveriasabercomoorganizaruma cozinha funcional e os criados da limpeza, mesmo que ele desse a ela seus guerreirosparacomandarenãoserviçais.Eledesignariaseushomenseelaos gerenciaria.
Haviaalgomaissobreaideiadequeelegostava.
Comoseumarido,teriaodireitodebeijá-laelevá-laparaacama,segurar aquelecorpodepernascompridasemseusbraços,inalarseuperfume.Isso, sem dúvida, seria uma vantagem... Ele nunca a forçaria, é claro. Mas se ela estivessedisposta,elenãodirianão.Pelocontrário.
Eleaqueria.
“Mas ela é uma MacDougall”, disse ele novamente. “Uma MacDougall traiçoeiraedesprezível.Nãopossomeimaginarpresoaelaparasempre."
“Vocênãotemqueseamarrarparasempre”,disseOwen.“Sóosuficiente paramanterocasteloeimpedirqueelasecasecomocondedeRoss.Depois, podedeixá-lair.”
Craigseendireitoueestudouoirmãomaisnovo,tentandoentenderseseu irmãoerasecretamenteumgênio.“Handfasting?”,perguntou.
Aantigatradiçãoceltadeumcasamentoexperimentalporumanoeumdia.
“Sim, handfasting”,disseOwen.
“Eugostodaideiacadavezmais”,Craigmurmurou.“Possoimaginaracara deJohnMacDougallquandodescobrirquesuafilhasecasoucomumCambel.”
Sim,eleesperavaqueohomemseperguntasseoqueCraigestavafazendo comsuaAmy.Seelaestavasegura,seestavasãesalva.
Seelatinhasidomantidacontrasuavontadeesofrido.
Porque era exatamente isso que Craig, seu pai, seus irmãos e todos os membrosdoclãCambelhaviamseperguntadoetemidoporMarjorie.
SóquenocasodeCraig,seuspioresmedoshaviamsetornadorealidade.
Craigdeuumtapinhanoombrodoirmão,acenoucomacabeçaemarchou emdireçãoaAmy.Elaolhouparacimaesuaexpressãoserenamudouparauma máscaratensa.Elaseendireitoueencarouoolhardelecomoqueixoerguido.
MY ESTUDOU O ROSTO BONITO DE CRAIG.NESTA LUZ, SEUS OLHOS ERAM COMO FOLHAS DE setembro,aindaverdes,mascomomarromdooutonojáostocando.Eleseram umpoucopuxadosnoscantos,notou,eemolduradosporcíliosgrossosepretos.
Alémdisso,haviaalgoneles,algoqueelanãogostounemumpouco.Uma determinaçãorancorosa.Oquequerqueeletivessedecidido,elanãoodeixaria tirarsualiberdadenovamente.
“Bomdia,moça”,disseCraig.
“Bomdia”,disseela.
Eledeuumarisadinha.“Querdarumavoltacomigo?”
“Aonde?”
“Bemaqui,pelomuro.”
“Ah.”Elabalançouacabeça.“Claro,nomuro.Deusmelivredevocêquerer medeixarsairdocastelo.”
“Talvezumdiaeudeixe.”
Elaencolheuosombros.“Claro,vamosdarumavolta.”
EleolhouparaHamish,queestavaatrásdela.“Hamish,vocêestáliberado.”
Hamishacenoucomacabeçaedesapareceunatorre.Owen,queestavacom Craigantes,tambémsaiueelesficaramsozinhos.
CraigofereceuobraçoaAmyeelaaceitou,sentindoumtoqueeletrizante atémesmoatravésdesuacapagrossa.
“Estásedivertindonocastelo?”eleperguntou.
“Issoéumaperguntacapciosa?”
“Não.Euapenasquerosabersevocêgostadoambiente.”
Ela tossiu.Todomundoparecia estarcozinhandopara simesmo,o local estavasujo,oscavalosnãoeramcuidadosebasicamentetodospodiamfazero que queriam sem nenhuma consequência. Em essência, era um gigantesco apartamentodesolteiromedieval.
“Hum,achoquenósdoissabemosqueolocalestáumabagunça.”
“Sim.Tambémacho.”
“Então,porquevocêpergunta?”
“Porqueeuquerosuaajuda.”
“Minhaajuda?”elazombou.“Porqueeudeveriaajudarumhomemqueme mantémprisioneira?”
Eleparou,fazendo-aparartambém.Craigavirouparaqueelaoolhasse,de uma maneira tão próxima que suas pernas viraram gelatina. Ele olhou bem dentrodeseusolhos,consumindo-acomumolharacalorado.Então,segurouos ombrosdelaemsuasmãos.
“Case-secomigo.”
OqueixodeAmycaiu.“Oquê?”
“Case-secomigo.Administreocastelocomominhaesposaeeudeixovocê andarsemsupervisão.”
Amybalançouacabeça.“Casarcomvocê?Vocênãoveminsistindotodoesse tempoqueeusousuainimiga?”
“Sim.Bem,nãovocêpessoalmente.Vocêpertenceaomeuclãinimigo,mas nãofeznada–aindanão.Queéoutrarazãoparanoscasarmos,poisassimeu possoficardeolhoemvocê.”
Amyseviroueriu.“Issomeparecetotalmenteinsensato.Vocêconsegue ouviroqueestádizendo?”
AalegriadeCraigsefoi.“Nãoestoubrincando,Amy.”
Eram tempos insanos. Claro, as pessoas da Idade Média se casavam por todos os motivos, exceto amor, mas agora ela estava testemunhando pessoalmentealoucura.
“Então,vocêquersecasarcomsuaprisioneiraparaficardeolhonelaepara queelamantenhaocasteloorganizado...”
Suaspalavrasforamsumindo.Derepente,elapercebeu.SeAmyMacDougall dessa época estivesse noiva de algum conde importante ou algo assim, isso acabariacomonoivado.OpaideAmyprovavelmenteficariafurioso.
“Vocêquerimpediromeunoivado.”
Craig sorriu. “Somos inimigos, moça. Foi Bruce quem sugeriu nosso casamentoparaimpediraaliançaentreosMacDougalleocondedeRoss.”
Entãoerapolítico.
“Eununcavouconcordarcomisso.”
“Penseumpouco.Seráumcasamentopor handfasting;portanto,porumano eumdia.Vocêteráosprivilégiosdasenhoradocasteloaqui.Vocêpoderáira qualquerlugarnocastelo,nãoforadele,obviamente.Equandooanoacabar, estarálivreparavoltarparaoseupai.”
Amyrespiroufundo.Essestemposmedievaiseramtãoestranhos,comseus casamentosmotivadosporpolítica,dinheiroecoisasassim.Nãoporamor.
Ah,amor.Elatinhasidocasadaporamorevejaondeissoalevou.
Divórcio.
Sendoassim,umanoeumdianãopareciamumaideiatãoruim,naverdade.
Nãoqueelaplanejasseficaraliportantotempo.Enãoseriaumcasamento deverdade,dequalquermaneira.
“Equantoaosexo?”perguntou.
“Desculpe-me,oquevocêdisse?”
“Dormirjuntos.Vocêpodeesquecersobreisso.”
“Eununcavouforçarvocê,Amy.Esperoquejátenhapercebidoqueeua tratocomrespeitoeéassimquepretendocontinuartratando.Nãovoutocar emvocê,amenosquequeira.
“Eeupossoiraqualquerlugarnocastelo?”
Entãoumpensamentolheveioàmente.Seprecisassedesuprimentospara
prepararacomida,teriaumadesculpaparaexplorarodepósitosubterrâneo.
Depoisqueelessecasassem,eleconfiariamaisnelaetalvezAmypudesse atémesmousaraorganizaçãodocastelocomopretextoparavisitarodepósito. Mesmosefossecomele,nãoimportava.Tudooqueprecisavadescobrirera comofazeraquelarochabrilhar,edepoiscolocariaamãonaimpressão.Sendo assim,comsorte,elaestariadevoltaa2020.
“Entãovocêvaimedeixariraqualquerlugarlivremente.”
“Sim…”
“Eeunãotenhoquedormircomvocê?”
Asnarinasdeledilataram-seumpouco.“Não,amenosquequeira.”
“Evocêquerqueeuorganizeacozinhaealimpeza?”
“Sim. Muito.” Seu sotaque escocês soou mais forte. Cozinhar e limpar deveriamsermuitoimportantesparaele.
Elacruzouosbraçossobreopeito.Homemirritante!
“Então,basicamente,vocêquerqueeusejaadonadacasa?”Amyperguntou.
Certo.
Elairiase casar comestegostosão...Suagargantaficousecasódepensara respeitoeseuestômagosecontraiuquandoasimagenscomeçaramapassar porsuamente–Craignuenquantosuasmãosexploravamseucorpo.Elaodiava queeleafizessesesentirassim.Estehomem,queamanteveprisioneira!
Eleeratãobonitoqueelasentiacomoseestivesseolhandodiretamente para o sol. Ele era honrado – Amy tinha ficado realmente contente de ter recebidooúnicoquartodocasteloedeCraigtersecertificadodequenenhum dos homens a machucasse. Mas parecia uma gaiola dourada. E guardas a seguiamconstantemente.
Elatinhaqueparardepensaremquãobonitoeleeraecomoeragentile concordarcomostermosdele,porqueprecisavafazeropossívelparavoltarao seutempo.Jennyprovavelmenteestavasesentindocadavezmaispreocupadae abandonada.Alémdisso,nãoseriacapazdecuidardopaisozinhapormuito tempo.
Sendoassim,pareciaquecederaessaloucuraeraocaminhomaisrápido paraodepósito.Qualeraaalternativa?Secontinuassesendoconstantemente seguidaporumguarda,nãohaverianenhumachancedeconseguirchegarperto deondeprecisavair.
“Não,sóissonão.”
Elaapenasfingiria.Continuariainterpretandoessaoutrapessoaetorceria paraquenãofossemortanessemeio-tempo.
Tudobem,elairiaconcordarcomessecasamentodementira.Eentão,uma vezqueativasseapedra,simplesmenteodeixariaparatrás,voltariaparacasae viveriasua vida,lembrando-sedissocomoumaaventuramaluca.Talvezaté escrevesseumlivrooualgoassim.
IssoensinariaumaliçãoaCraigpormantê-laalicontrasuavontade.Afinal, elaeraumaMacDougall.Portanto,sim,tecnicamente,suainimiga.Seuavôhavia lhecontadoolemadoclã–ConquistarouMorrer.Haviaorgulhoeforçanesse lema.Elapoderiausarissoagora.
“Euaceito”,respondeu,apertandoasmãosparaquenãotremessem.
Ele acenou com a cabeça, solene e sério, e conduziu-a mais ao longo do muro,emsilêncio.
Masfoisóquandoobraçodeleficoutensosobsuapalmaqueelapercebeuo quehaviafeito.
Elatinhacaídovoluntariamentenaarmadilhadocasamento,naarmadilha queahaviasufocado,assustadoeadeixadoinfeliznopassado.
Nãoseriareal,elalembrouasimesma.Nãoseriacomodaúltimavez.
MasaoobservaroperfilbonitodeCraig,começouagostardaideiadese casarcomelecadavezmais.Elaolhouparaoslábiosdeleepensou:“Seráquea beijarianacerimôniadecasamento?Seuslábiosseriammaciosoufirmes?”De repente,nãohaviaarsuficienteemtodaaEscóciaparaelarespirar.Aimagem delecobrindosuaboca,deseusbraçosenvolvendosuacintura,delelevando-a para a cama invadiu sua mente. Sua pele se aqueceu e uma gota de suor escorreupelassuascostas.
Ah não. Uma coisa era ficar presa aqui quando ela o odiava e só queria escapar, outra era sentir-se atraída por ele e começar a desenvolver sentimentos.
PorqueseelaseapaixonasseporesteHighlander,nuncaemummilhãode vidasescapariacomocoraçãointacto.
Issoseriaumníveltotalmentediferentedearmadilha.CAPÍTULO9
Trêsdiasdepois,Amycaminhavapeloquartogigante.Amanhãhavia passadocomoumborrão.Elanãodeveriaestartãonervosa.
Enãoestava,disseasimesma.Eraapenasomedodeficarpresa. NãoeraaideiadepassarmaistempocomobeloHighlander.
“Este é apenas o passo seguinte para chegar até a rocha”, lembrou a si mesma.“Acalme-se.”
Amyrespiroufundoesoltouumlongosuspiroeatensãoseespalhoudentro dela.Atensãodementirtodososdias,deandarnapontadeumalâmina,com medodedizeracoisaerradaerevelarqueeraumaestranhaali.Tensãopor saberquenãoeraaAmyMacDougallqueelespensavamqueelaera.Tensãopor tercertezadequeoplanodelesdeacabarcomaaliançaentreosMacDougallse ocondedeRossfracassariasemdúvida.
EaindahaviaCraig.Amysepegavaprocurandoporele,fitando-osempre queestavaporperto.Algoneleafaziarespirarmaisrápidoefaziaseupulso acelerar.
Elaeraumaidiota.Sim,gostavadocara,masnãopodiadeixarqueissoa distraíssedoseuobjetivo.Nãopoderiahaverabsolutamentenadaentreeles, portodasasrazõesdomundo.Eleeraumbomhomemeelaumamentirosa. Amynãopertenciaaestaépocaeestavaaquiapenastemporariamente.Elaera uma MacDougall, mesmo que nascida centenas de anos mais tarde, e Craig nunca ficaria com alguém de seu clã. Ele a odiava apenas por causa de seu nome.
Eeleaodiariaaindamaisquandosoubessequeeraumafraude.Oquefaria comela?
Elenãoiriamatá-la,iria?
Amy olhou para seu vestido vermelho. Foi o melhor vestido que ela encontrou no baú que provavelmente pertencia a Lady Comyn. Não servia perfeitamente–asmangaseasaiaerammuitocurtas,eosombroseramum poucolargos.Alémdisso,LadyComynclaramentetinhaseiosmaioresdoqueos delaporquehaviamuitoespaçonocorpete.Bem,eradeseesperar,jáquea maioriadasmulherestinhaseiosmisfartosdoqueosdela.
Amy se lembrou do vestido que usou no casamento com Nick. Eles se casaramapósumanodenamoroemeioanomorandojuntos.Eraumvestido brancosimplesebaratoqueencomendaraon-line,umdospoucosquetinhaa opçãodeentregarápida.Asaiaiaatéosjoelhosetinhaestilopraiano,oqueera totalmente inadequado para a primavera em Vermont. Mas Amy não se importou.Elanãoeradotipoqueseguiaamodaàrisca–amaioriadesuas roupas era prática e do tipo trilha e aventura. Então, desde que o vestido servisse,estavabom,Amyestavafeliz.Nãocontrataraummaquiadornemfora aocabeleireiro.
Ela havia colocado o vestido para Nick ver naquela manhã, e ele havia uivadocomoumlobo.
“Uau!”Eleapegou,fazendo-aenvolveraspernasemvoltadacinturadele. “Quefuturaesposagostosa”,disse,comseusotaquetexanocantado.“Minha.”
Entãoabeijou,fazendosuacabeçagiraresuapelequeimar.Duashoras depois,elessecasaram.
Amy estava tonta de alegria, de pura felicidade por estar com sua alma gêmea.Nickeraalto,robustoedebomcoração.Elaohaviaresgatadodeuma quedanasmontanhas.
Porém,mesmosendosuaalmagêmea,ocasamentonãotinhadadocerto.
Elenãoeraumidiota,nãoahaviatraído,nãotinhasidoabusivoeeraótimo paraela.
Então,senãotinhaconseguidofazerdarcertocomNick,nãoconseguiria fazerdarcertocommaisninguém.
Lágrimasturvaramsuavisãoeelarapidamenteasenxugou.
Melhoracabarlogocomessacoisade handfasting epassarparaapróxima partedoplano.
Alguémbateunaporta.“Entre”,disse,enxugandoorostorapidamente.
Hamishentroucomumpequenobuquêdefolhasdeoutonoecavalinhanas mãos.“Vocêestábem,moça?”
Elaassentiueesboçouumsorriso.“Sim,obrigada.”
“Craigmepediuparabuscá-la.Elesestãoprontos.”
“Estábem.”
“Vocêestápronta?”
“Sim.Claro.”Elaendireitouascostasecaminhouatéele,entãoolhouparao buquê.
“Ah, sim, é para você.” Ele o entregou a ela. “Não consegui encontrar nenhumaflornestaépocadoano,équaseinverno.”
“Não há necessidade de flores, isso é mais do que suficiente. Não há mulheresparaquemjogarissodequalquermaneira.”
Hamishfranziuatesta.“Vocêjogafloresparaasmulheres?Porquê?”
Ah,droga.“ÉumatradiçãoquevinaIrlanda.Anoivajogaobuquêpara mulheressolteiras,equemopegasecasaaseguir.”
Hamish sorriu e abriu a porta para ela passar. “Eles são engraçados, os irlandeses.Nuncaouvifalardetaltradição.”
Eles começaram a descer as escadas. “Você é casado, Hamish?”, Amy perguntou.
“Eu?”Eleriu.“Não,senhora.”
“Ninguémespecialnasuavida?”
Hamishlançouumolharparaelaporcimadoombro.“Sim,háalguémde quemeugosto.Innis.Umaamiga.ElamoraemBorderlandsetemumavida difícileeumandomoedasparaelasemprequeposso.”
“Émuitagentilezadasuaparte.Porquevocêsnãopodemficarjuntos?”
“Não estou interessado nela desse jeito. Ela é mais uma irmã do que amante.”
“Bem,tenhocertezadequealgumdiavocêvaiencontraralguém.”
“Sim, esse é o objetivo, embora eu não deseje me casar. Já tive gente suficiente me dando ordens, dizendo aonde devo ir e o que devo fazer. Eu gostariadecomprarminhaprópriapropriedade,minhasprópriasterraselevar minhavidadamaneiraqueeuquiser.”
Elesdesceramatéoandartérreodatorreondeasarmaseosalimentos eramarmazenados.HamishsevirouparaAmycomtristezaemseusolhos.
“Nãoéfácilencontrarumaboamulherquenãoestejacomprometida.Craig Cambeléumhomemdesorte.”
Amyabriuaboca,semsaberoquedizer,masHamishjátinhaseviradoe
abertoaportadafrenteparaela.
Láfora,caíaumagaroamisturadacomneve.Opátiohaviasetransformado emumpântano.ElaergueuasaiaeseguiuHamishatéograndesalão,queficava entreaTorreComyneatorrelestenomuronorte.
Quandoelaentrou,ograndesalãoficouemsilêncio.Aspartesqueimadasdo telhadohaviamsidoremendadas,emboramuitomal,eáguagotejavadelápara umbarril.Osalãocheiravaapalhaúmidaevelasdeceradeabelhaquente.Elas davamumbrilhodouradoàsala,oquedavaaimpressãodehaverummilhãode luzesdefadas.Asmesaseosbancostinhamsidoempurradosparaolado,eos guerreiros–deviahaverpelomenoscinquentadeles–estavamempéemum grandecírculooval,observando-asilenciosamente.
NapontadoovalestavaCraig,Owenencontrava-seaoladodele.Craigusava umatúnicaazuleumcintocomsuaespadanele.Seucabeloestavapenteadoe suabarbacurtatinhasidoaparadarecentemente.Uau,pareciaqueeletinha feitoumesforçoporela.Eleestavacomospésafastados,demaneirasolenee comascostaseretas,comoseestivesseprestesaparticipardeumsacramento.
Seus olhos caíram sobre ela, escuros e pesados, e era como se eles a pegassem e a prendessem em seu olhar. Surpreendentemente, Craig não pareciahostil.Eleparecia…
Admirável.
Gentil.
Respeitoso.
Quandooshomensderamumpassoparaoladoparadeixá-lapassar,Amy caminhouemdireçãoaelenomeiodocírculo,seussapatosmedievaissemsalto sussurrandosuavementecontraochãodemadeira.Quantomaispertochegava deCraig,maisquenteseucorpotodosetornava.Equandooalcançou,suas bochechasestavamquentesesuagargantadoíadetensão.
Boba.
Oquehaviadeerradocomela?Porqueestavasuandodenervoso?Porque seucoraçãobatiacomoumtambor?
Craigsorriuparaela.
Sorriu.
Pelaprimeiravezdesdequeohaviaconhecido,elesorriu.Suave.Acolhedor. Gentil.
invisíveis.
“Podemoscomeçar?”Owenperguntou.
“Sim”,Craigdisseepegounamãodela.
AMY PARECIA UMA FADA COM SEUS LONGOS CABELOS RUIVOS ENCARACOLADOS À LUZ DAS velas,seusolhosazuisbrilhantesqueimavamsobseuslongoscílios.Ovestido vermelho que ela estava usando aumentava a impressão de que ela havia nascidodaschamas.
Ao se aproximar e ficar ao lado dele, suas bochechas coraram, e ele secretamentedesejouquefosseporqueelaestavaanimadaoupelomenosum poucosatisfeitadesecasarcomele.
OpeitodeCraigseapertoucomaexpectativadetaldesejo,algoquenunca tinhasentidoantes.Porqueestariasesentindoassimemrelaçãoaumainimiga queestavaapenasusandocomovingança?
Eleselembroudeumasensaçãosemelhantequehaviasentidoaosedeitar comumamulherpelaprimeiravez,quandoeraummeninodedezesseisanos. Já tinha se encantadocom belasserviçaise filhasde fazendeirosantes, mas nuncaamaraninguém.Adiferençaentreluxúriaeamorsempreestiveraclara paraele.
Eletambémsabiaqueumdiasecasariaparaformarumaaliançaentreseu clãeoutro.Paracontinuaralinhagem,porqueeraissoqueoshomensfaziam.
Maseletambémsabiaquetalveznãoamassesuaesposa.Talvezelenem mesmoconfiassenelacomoconfiavaemseupai,seusirmãoseseusprimos.
Masaexcitaçãoacendeutodooseucorpo.CraigpegouamãodeAmy,que estavagelada,contrastandocomsuapelequente.Umacorrentepercorreua mãodeleseelesentiuumaamarrainvisívelenvolvendoosseuspulsos.Oque foi isso? Craig se sentiu mais forte, poderoso e vivo do que jamais tinha se sentidoantes.
Owenpareciaumpouconervoso.Normalmente,eraochefeouaautoridade máximadoclãqueconduziaacerimôniadecasamento,quenestecastelo,era Craig.Mascomooirmãoestavaocupadosecasando,elepediuaOwen,seu
“Aquihoje”,Owencomeçou,“vamosuniressesdois,CraigCambeleAmy MacDougall.”
parentemaispróximopresente,querealizasseacerimônia.Este,porém,era totalmenteavessoaocasamento,pensavaapenasemcorreratrásderabosde saia e buscar aventuras. Por isso, Craig entendia por que seu irmão parecia estarsesentindoumpoucodesconfortável.
“Aquelesqueforemafavordauniãodessecasaledesuasvidasdigamsim”, disseOwen.
“Sim”,oshomensnocírculoecoaram.
EumpequenoarrepiopercorreuCraig.Eleentendeuporqueessaerauma parteimportantedacerimônia–oapoiodosmembrosdeseuclãedeseus ancestraisodeixouconfiantedequeessaeraadecisãocerta.
“Quaissãoosseusvotos?”Owenperguntou.
Craignãotinhapensadonosvotos,masprecisavadizeralgo.ElevirouAmy emsuadireçãoepegouaoutramãodela.Osolhosdelapareciamenormes, estavamarregaladosevulneráveis.Elequeriatranquilizá-ladequetudoficaria bem,dequeelaestavasegura.
“Juroserlealenquantoforminhaesposa.Juroprotegê-lacomosevocêfosse domeusangueeossos.Jurocuidardevocêcomoumhomemdevecuidardesua esposa.Ejurosempreiremseuauxílioseprecisardemim.”
Osolhosdelabrilharam–delágrimas?
“Amy?”Owendisse.
“Eu...”eladisse.“Jurosersuaesposadamelhormaneirapossível,lheajudar emtudoquepuder.E...e...serlealavocê.”
Apalavra“leal”saiucomumpequenoengasgonomeioeCraigfranziua testa.Issoeradeseesperar,lembrouasimesmo.Afinal,elaerafilhadoinimigo.
“Porfavor,estendamasmãos”,disseOwen.
CraigeAmysevirarameergueramasmãosunidasparaele,eOwencolocou umafaixasimplessobreelas.
“Aquiestãoasmãos”,falouOwen,“queseunirãoetrabalharãojuntas,mãos deamigosenãodeinimigos,mãosdeumhomemesuaesposa.Essassãoas mãos que vão abraçar um ao outro se vocês se perderem e ajudarão se precisaremdeumdescanso.Essassãoasmãosquevãocuidarumdooutroe acenaradeusantesdaúltimajornadaparaaterradamorte.”
Enquantoelediziaaspalavras,eleenrolavaafaixaemtornodospulsose punhosdelesdandoumnónofinal.Craiggostoudasensaçãodapelemaciade Amy,queagoraestavaquentedoseutoque.Suapalmaestavaressecadaeseus
dedosnãoeramosdeumanobredama,elestinhampequenoscalos.Eraamão deumamulherforte,umamulherquefaziaascoisassozinhaenãoesperava queosoutrosfizessemporela.
Elegostoudisso.
“Ecomessafaixa,vocêsagorasãomaridoemulher”,disseOwen.
Osguerreirosaoredordasalabateramospésederamvivas.
“Partilhemdeumabebidado cuach.”Owenpegouocopocomunitáriocom duasalçasecolocou uisge nele.“Comoumsímbolodasmuitasoutrascoisasque vocêsvãopartilhar.”
Elelevouo cuach aoslábiosdeCraigeestetomouumgole,depoisobservou Amybebericarolíquidotambém,comseuslábiosvermelhosaoredordaborda docopo.
“Eselemestauniãocomumbeijo”,disseOwen.
Craigsuprimiuum“finalmente”quequeriasairdesuagarganta.Eleolhou nosolhosdeAmy,depoisparaoslábiosdela,umpoucoinchadosdabebida.Ah, comoeleosdesejava,masnuncafarianadacontraavontadedela.
Elefitouosolhosdelanovamente,pedindopermissão,deixando-asaberque elenãoabeijariaamenosqueelaquisesse.
A respiração dela acelerou, seu peito subia e descia rapidamente. Havia alarmeemseusolhos,mastambémdesejo–entãoelessesuavizarameseus lábiosochamaram.
Comumgemidoqueelenãoconseguiuconter,Craigapuxouparasicomo braçolivreeencostouseuslábiosnosdela.
CAPÍTULO10
OslábiosdeCraigeramcomoveludo,quentesemacios,masseupeito sobapalmadasuamãoeradurocomoumarochaequentecomo umafornalha.Ocoraçãodelebatiaforteerápido.
Elecheiravaapelelimpaealmíscarmasculino,amontanhaseflorestasno outonodepoisdeumachuva.
Eobeijo...
Ah,obeijo...
Craigcausouumaavalanchedesensaçõesnela,umformigamentoeuma docequeimaçãoemseuslábios.Elecolocouumpoucomaisdepressão,abrindo oslábiosdelacomalíngua.Entãopassoualínguasuavementecontraadela, uma,duasvezes.Talvezelatenhaseouvidogemer.Talveztenhasidoele,mas sua cabeça girava e todo seu corpo pegava fogo. A princípio, sua mente se esvaziou, porém, depois, encheu-se de suspiros, gemidos e pensamentos devassos,muitodevassos.
Osalãoirrompeuemassobiosegritos.
“Issomesmo,cavalgueaMacDougallparaqueelanãoconsigaficarempé pelamanhã!”alguémgritou.
“Seeletiveralgocomquemontá-la”,disseoutrohomem.
Asalaexplodiuemgargalhadas.
Amyafastou-sedeCraigcomorostovermelho.“Terminou?”elaperguntoua Owen.“Porfavor,removaafita.”
“Sim”,OwenrespondeueolhouparaCraig.
AmyignorouoolhardeCraigsobreela,queerapesadocomochumbo.Ela eraumaidiota.Sentir-seatraídaporele–permitirqueabeijassedaquelejeito... Como se fosse normal, como se ter sentimentos por ele não complicasse as
coisasetornassesuapartidaaindamaisdifícil.
OwendesfezonóeAmypuxouamãoparabaixo.OcalordapeledeCraigse foieumfrioaenvolveu.Elesestavamcasadosagora.Elaestavaunidaaelee presaaindamaisprofundamenteaquinasHighlandsmedievais–porqueagora estava unida a um ser humano. E embora não houvesse nenhum anel para prendê-la,amemóriadafaixaemseupulsoeracomoumaalgema.
Craigsustentouoolhardelaporummomento,entãodeuumbreveaceno com a cabeça. Ele se voltou para seus homens. “Um casamento não pode acontecersemumbanquete”,disseele.“Vamoscolocarasmesaseosbancosde volta em seus lugares. Os caçadores já voltaram, a caça está sendo assada. Compreipão,manteigaetortasnaaldeia.Enãovaifaltarvinho,cervejae uisge. Se quiserem, podem esvaziar os barris. Um Cambel se casou com uma MacDougallhoje.”
EleolhouparaAmy,edestavez,elaviualgoparecidocomarrependimento emseusolhos.Eessavisãofoicomoumsocoemseuestômago.
“Émelhorbrindarmosaisso”,disseele.
CRAIG ERA UM IDIOTA.ELE PENSOU QUE SERIA FÁCIL SER INDIFERENTE A ELA.SERIA APENAS porumanoeapenasparaimpediraaliançacomoinimigo.
Mas aquele beijo... a união das mãos... olhar nos olhos de Amy e ver a vulnerabilidadedela.Averdadeirapessoadentrodela.Nãotinhacomoficar indiferente.
Craigsempreseorgulhoudeserumbomjuizdecaráterepercebeuqueela estavamentindosobrealgo.Algoqueeleodiava,masquetambémentendia, vistoqueAmyestavavivendoentreseusinimigos.Eleprovavelmenteteriafeito omesmo–qualquercoisaparaprotegeroseuclã.
Masporbaixodessafachada,viaumapessoaboa.Osolhosdelaerampuros e honestos. Eles não mentiam e mostraram a ele uma dor e, em suas profundezas,medo.Umasensaçãoconstantedepânico.
Craigquerialibertá-ladisso.
Seráqueeraeleafontedesuador,deseumedo?Seessefosseocaso,odiava causar-lheangústia.
Masnãodeveriaseimportar.
Craiggemeuenquantocolocavaamesagigantedevoltanolugarjuntocom váriosdeseushomens.Osalãonãotinhasidodecoradoparaumcasamento tradicional.Nãohaviaflores,nãotinhasidolimpoeacomidaaindanãoestava pronta.Afaltadeumtoquefemininonocasteloeraóbvia.
“Vouveracomida”,disseAmy.
Elaestavaparadanocanto,parecendoumpoucodesamparadaeperdida, observandooshomensfazeremotrabalhopesado.
“Sim”,Craigdisse.“Obrigado.”
Elaacenoucomacabeça,semoolharnosolhos,esaiu.Oquehaviamudado? Craigpodiajurarqueelahaviagostadodobeijo,quequeriaqueeleabeijasse. Masentão…
Pare de se preocupar com os sentimentos dela, ele lembrou a si mesmo.
Mas,apesardoquediziaasimesmo,queriaagradá-la.Talvezumchãoe algumasmesaslimposmelhorariamohumordela.
“Owen,Lachlan,peguemmaisdoishomenselimpemasmesas”,disseCraig. Ambosolharamparaele.
“Vocêestádebrincadeira,nãoéprimo,comcerteza”,afirmouLachlan.“Isso étrabalhodemulher.”
“Aúnicamulheraquiéminhaesposa.Portanto,senãoquiseremcomerna sujeira,comoporcos,mexam-seelimpemasmesas.”
Franzindoatestaemurmurandomaldições,elesseviraramesaíram.
PelomenoseramCambelseseusparentesdiretos.Eleolhouparaosoutros queestavampróximos.Todosficaramtensos,sentindoqueestavamprestesa realizartarefassemelhantes.
“Nãomeolhemassim,rapazes”,disseCraig.“Vocêstrês,venhamcomigo. Vamospegarvassourasevarrer.”
Comumsemblanteinfeliz,elesoseguiram.
Depoisdeumtempo,ochãotinhasidovarrido,asmesasecadeirasestavam limpas,semcervejaderramada,migalhaserestosdecomida,umfogoqueimava nalareiraeatéachuvatinhaparado.
Craig,Owen,Lachlaneorestodaequipedeapoiotrouxeramalimentose bebidas da cozinha: pão, manteiga, queijo, lebres e galinhas assadas. Em seguida,tonéisdecerveja,vinhoe uisge foramtrazidosdosdepósitos.
Quandotudoestavapreparadoeosalãoestavacheiodehomenssentados aoredordasmesas,conversandoebebendo,ocheirofamiliardecarneassada,
pão fresco e fumaça de lenha enchia a salão, a noiva de Craig finalmente retornou. Ela se sentou ao lado dele na mesa que ficava na extremidade do salão, perto da lareira, onde o senhor e a senhora do castelo geralmente se sentavamcercadosporsuafamília.
FamíliaqueCraignuncateriacomAmyMacDougall.
“Vocêlimpouosalão?”Elaergueuumasobrancelha,olhandoaoredor.
“Sim”,Craigdisse,vendoumsorrisoseespalharpeloslábiosdela.
“Nossa.Ficouótimo!Obrigada,Craig.”
Eledeslizouumcopodecervejaemsuadireçãoeelaopegou,seusdedosse tocarambrevementeeenviaramcaloratravésdele.TalvezCraigconseguisse desfrutardestecasamentoseconseguissemanterapazentreeles,dandoaelao quedesejassequandopudesse.
Craigselevantoueergueuocopo.“Queaminhaesposatenhaumaboae longavida!”
Osguerreirosecoaram.Owenselevantou:“EaCraigCambel,queeupoderia jurarquenuncasecasariacomumaMacDougall.QueDeuslhedêforçaspara viveresteano!”
OshomensrirameatéAmysorriu,balançouacabeçaebebeu.
Craig sentou-se e olhou para ela. “Você ama o conde de Ross?” ele perguntou.
Elaseengasgoucomabebida.“Oquê?”
“Nãosei.Talvezvocêjáoame.”
“Desculpe,masnãoachoqueissosejadasuaconta.Vocêgostariaqueeute perguntasseamesmacoisa–vocêamaumamulherquenãosejaeu?”
Craigrecostou-senacadeiraeobservou-acomatenção.Elapareciasercheia deespinhos,masajulgarpelavulnerabilidadequeeletinhavistoemseusolhos, eraapenasdoladodefora.
“Nãotenhoproblemasemresponderaessasuapergunta,Amy”,disseele. “Eununcaameiumamulher.Aindanão.”
Elasuavizousuaspalavras.“Porquenão?Ninguéméboaosuficienteparao honorável Craig Cambel? Qualquer uma pode lhe trair e apunhalar pelas costas?”
Ele encolheu os ombros. “Sim, talvez. Não conheci ninguém em quem pudesseconfiaraminhavidaeaminhaalma.”
Elaassentiu,pensativa,comoseestivesseselembrandodealgo.“Etalvez
nuncaconheça.Sim,sevocênãoseabrirmaiseconfiarnaspessoas,issopode nuncaacontecercomvocê.”
Eledeuumarisadinha.“Issosoacomoumaprofecia.Vocêévidente?”
“Não.Maseuseidascoisas.”
“Que misterioso. Diga-me, o que você faz bem? O que gosta de fazer? Cozinhar?Bordar?Costurar?”
Ela começou a rir, o som era doce e gostoso. “Eu? Bordando? Não, meu amigo.Nãomeimportocomisso.Souboaemprocurareencontrarpessoas. Posso prestar primeiros socorros, ajudar com asfixia, costurar ferimentos, enfaixareconsertarbraçosepernasquebrados–essetipodecoisa.Vocênãose casoucomumadonzela,sintomuito.Deveriaterperguntadoantes–agoraé tardedemais.”
Oqueixodelecaiu.Amytomouumgole,sorrindodentrodocopo.Elenunca tinhaouvidofalardeumamulherqueconseguisseencontrarpessoasperdidas. Mas,alémdisso,elapareciaumacurandeira.Oqueeraumaboanotícia,visto queelenãotinhaumnocastelo.
Masprocurareresgatar?
“Entãovocêéumabruxa?Comovocêencontrapessoasperdidas?”
“Não, nada disso. Apenas rastreio. Lógica. Bom senso. E eu sei escalar rochas,nadarecoisaetal.Mastambémprecisodeequipamentos...”
Osolhosdelesearregalaramquandoeladisseaúltimapalavra.
“Querodizer,certasferramentas.Ferramentasraras.Eunãoachoquevocê astenhaaqui.”
“Equipamento?” A palavra era estranha, como algo vindo de uma língua estrangeira.
Elearespeitavacadavezmaisporsuashabilidades.Elacertamentenãoera apenasafilhadeumchefe,eramais.Muitomais.
“Comovocêaprendeutudoisso?”eleperguntou.
Elatinhaacabadodeabrirabocapararesponderquandoumjovementrou correndonosalãocomalgonamãoefoidiretamenteatéCraig.EraKillian,um dosmeninosmaisnovosdoexército,quetinhaficadoparatrás.Eleerabom comoseuarco,Craiglembrou,eestanoiteeraavezdeledeficardevigia.
Eletinhaumpássaronamão,umpombo,comumaflechaespetadanopeito. “Senhor”,disseKillian.“Perdoe-me,masprecisolhefalar.”
Craiglevantou-seeseguiuomeninoatéumcantoondeninguémpodiaouvi-
los.
“Estepombonãoédanossacasadepassarinho”,disseKillian.“Euseipor quenóssótemosumadúzia,eeuconheçocadaumdeles,poisosalimento todos os dias. Este é novo, tem essas manchas brancas aqui no peito, está vendo? Nenhum dos nossos têm essas manchas. Ele foi trazido para cá recentemente.Alguémoenvioudatorresul,esenãoénosso,édeoutrapessoa, efoitreinadoparavoarparaoutracasa.Vocênãorecebeunenhumpomboda casaCambeloueusaberia,certo?”
“Sim.”Craigremoveuabolsadecouroenroladanapernadopássaro.Dentro havia um papel e ele o desdobrou. Havia uma mensagem escrita em letras desiguais,comoseumacriançaastivesserabiscadooualguémquenãotivesse muitapráticaemescrever.
Passagem secreta não encontrada,diziaamensagem. O senhor, portanto, está vivo. Ele se casou com Amy. Envie mais pombos. É necessário mais tempo.
UmarrepiopercorreuCraig.
Haviaumtraidornocastelo,eeleestavaprocurandootúnelsecreto.
Alguémqueriamatá-lo.
Aúnicapessoaqueeleconheciaquepoderiadesejartodasessascoisasera suaqueridaesposa.
CAPÍTULO11
Amy pôde realmente ver os músculos largos nas costas de Craig enrijeceremenquantoelefalavacomogarotonocanto.Craigvirou-se paraelacomosolhosescurosesuacaradefúriafezseuestômago revirar.Elecaminhoudiretoemsuadireção–suaexpressãofariaopróprio diaboempalidecerdemedo.
Ospésdelacongelaram.Seupulsodisparou.Seuspulmõessecontraíram.As paredesestavamsefechandosobreelacomonaquelanoite,muitotempoatrás, quandoseupaiveioemsuadireção,assimcomoCraigestavafazendoagora, furiosoeimponente.Enãohaviaparaondeir.
Algoruimestavaparaacontecer.
Craigapegoupelobraçoearrastou-aatrásdeleemmeioaosgritoseuivos delobovindodoshomens.Elealevouparalongedograndesalão,paraanoite gelada,comnevecaindosuavemente.Alamadopátiohaviacongeladoeestava durasobospés.Anevehaviatransformandoaescuridãoemumcobertorcinza. Osomdevozespodiaserouvidodograndesalão,masforaisso,tudoestava quieto.
Tãoquietoqueelapodiaouvirsuaprópriarespiraçãoacelerada.
“Paraondevocêestámelevandocomoumacabra?”rosnou.
“Precisodarumapalavrinhacomvocê,queridaesposa.Sozinho.Emnosso quarto.”
EleabriuaportadaTorreComyn–oarestavaquentedevidoàstochasna parede.
“Nosso quarto?”Amydisse.
Elecomeçouasubirasescadascurvasepuxá-laatrásdesi.
“Claro, nosso quartodedormir.Estamoscasados,ouvocêjáseesqueceu?”
Elespassarampelaportadasalaprivadadosenhornoprimeiroandare continuaramasubir.
“Achoquenuncavouesquecer.”
“Queótimo.”Eleabriuaportanosegundoandar.Estavaagradavelmente quente no quarto – a lareira estava acesa e o lugar parecia acolhedor. De repente,acamapareceuocupartodooespaço.
Craigfechouaportaesevirouparaela.
“Ébomquevocêselembre,querida.”Eledeuumpassoemsuadireção,e haviaumapromessatãosombriaemseusolhos,queAmyrecuou.“Porqueisso” –elesegurouumpequenopapelnafrentedele–“sugerequevocêpodeterse esquecido.”
“Oqueéisso?”elaperguntou.
“Ah,nadademais.Apenasasdesculpasquevocêenviouaoseupaipornão termematadoainda.”
Amybalançouacabeça.“Comoéqueé?”
Ele deu vários passos lentos em sua direção e parou tão perto que era possívelsentirocaloremanandodocorpodele,sentiroseucheiro–todovirile delicioso–veraveiaemseupescoçolatejando.
“Vocêquermematar”,eleperguntou.“Nãoé,Amy?Estaéaoportunidade perfeitaparaoseuclã.Vocêestápróximaamim.”
AbocadeAmyficousecaderepente.“Eunãoqueromatarvocê,Craig”,ela disse,comcuidadoparanãodeixarqueotremoremseusdedostransparecesse emsuavoz.
“Hum.”
Emummovimentorápido,elepegousuaadagaeaentregoucomocabo voltadoparaela.Aschamasdalareirarefletiramnalâminalongaeafiada.
“Achoquepodemosprovaressepontoentão,certo?"eledisse.
Elecolocouapontacontraseucoração.OestômagodeAmyembrulhou.
“Pegue”,falouele.“Mate-me.Agora.”
“Craig—”elarespondeu,comavoztrêmula.
“Assimsuamissãoestaráconcluída.Seupaificaráfelizevocêpoderáse casarcomocondedeRoss.”
Ela balançou a cabeça. Seu peito se apertou ainda mais, tornando difícil respirar.“Parecomissoagora!Eunãoqueromatarvocê.”
Osbraçosdelecaírameelecolocouaadagadevoltanocinto.
“Ahnão,espere.Vocêaindanãopodemematar.Hámaisumacoisaque precisa,nãoé?Éporissoqueaindaestouvivo,certo?”
“Eunãoprecisodenadadevocê,excetoliberdade.”
Craigdeuumarisadinha.“Vocêconseguefingirmuitobem.Sim,deversero sangueMacDougallemsuasveias,oquepossodizer!”
Eleseafastoueaolhoudecimaabaixo.“Entãovocênega?Negaterescrito isso?”
Eleestendeuopapel,masestavalongedemaisparaelaleroqueestava escrito.
“Eunãoescrevinadaecomcertezanãomandeiisso.Eunãoquerovocêe nemqualqueroutrapessoamorta.”
“Porquevocêqueriaacessoatodoocastelo,Amy?Existealgoespecíficoque vocêestáprocurando?”
Ocorpodelaficourígidocomomadeira,eAmyexalouparaaliviaratensão. Oqueelesabia?Seráqueelesuspeitavaqueelaestavaprocurandoarocha?
Seráqueelesequersabiasobrearocha?SeCraigpensassequeelaerauma bruxa ou algo assim, com certeza a mataria. Ou a trancaria em algum lugar escuro para sempre... Um tremor a percorreu e ela foi até a lareira para se aquecer.
Recomponha-se,ordenouasimesma. Ele não vai prendê-la novamente. Ainda não.
Elasevirouparaele,comacabeçaerguidaeosombrosretos.
“Nãotenhoamenorideiadeondeveioestamensagem,oquecontémnela ouquemaescreveu.Eunãoquerolhematar.Nãosouumaassassina,eusalvoa vidadaspessoas,peloamordeDeus.Euseiquevocênãoconfiaemmim–talveztenharazãoparaisso–eeunãoseicomoprovarminhainocência.Mas nãotenhonadaavercomisso.”
Oolharpesadoepenetrantedelesefixounela.Eracomoseelevissesobsua pele. Ela sustentou o olhar de Craig, embora seus olhos queimassem e ela precisassepiscar.
Entãoelesorriueumasensaçãodealívioapercorreu.
“Talveznãotenhasidovocêquemescreveuisso.Seriamuitofácil.”
“Masnãosignificaquevocênãoestejaenvolvida”,continuouele.“Portanto, tereiaindamaiscuidado.Dormiremosjuntosemumquartoporqueestamos casadosagora.Eporqueprecisosaberoquevocêfazecomquem.Vocêestásob
minhasupervisãoagora,entendeu?”
Amysuspirou.“Oqueháparanãoentender?Massevocêdormiraqui,você nãopodedormirnacama–entendeu?”
“Somosmaridoemulheretenhotodoodireitodedormircomvocê.Vocêé minha.”
Ochãosemoveusobseuspés,umcalorsubitamentefluiuatravésdoseu corpo.
“Não se atreva”, disse ela. “Você prometeu que nada será feito contra a minhavontade.Eunãodouminhapermissãoparafazermossexo.Nãoquero você,estáouvindo?”
Orostodeleficousombrio.“Sim,Amy.”Eleseafastou,entãosevirouporum momento.“Nãosepreocupe,nãovoutocaremvocê.Nemagora,nemnunca.”
Então, saiu do quarto, deixando-a sem fôlego... e estranhamente desapontada.
CAPÍTULO12
Amynãovoltouparaograndesalãoesuacadeirapareciavaziaaolado deCraig.Naverdade,elesesentiavazio.Suamentenãoestavaali,no momento,estavacomela,natorre.Eraanoitedenúpciasdeles.Anoite emquedeveriamconsumarocasamento.
Esuanoivanãoquerianadacomele.Oqueeraexatamentequedeveria esperardestecasamento.Alémdomais,eletambémnãodeveriaquerernada comela.
Então,porquearejeiçãodoíatanto?
Eporque,agoracomumcopode uisge nasmãos,elesóconseguiapensar em voltar para o quarto, beijá-la e torná-la sua? Um arrepio de desejo o percorreu quando imaginou Amy nua embaixo dele, as costas arqueadas, a cabeçainclinada,suadocebocaabertaenquantoelagemiaseunome.
Craigbalançouacabeça.Queidiotaeleera.Cegadopelasartimanhasdeuma MacDougall.Querendooinimigoqueoqueriamorto.
Provavelmente.
Ououtrapessoa,alguémentreseushomens,oqueriamorto.Opensamento apenasodeixouaindamaismal-humorado.
Enquantobebia,olhavaaoredordosalão,estudandocadahomem.
Umdelespoderiaserumtraidor,procurandootúnelsecretoequerendo matá-lo.
Craig achava que podia confiar em seus homens e nos homens de seus aliados.
Obviamente,eleestavaerrado.
SeriaAmyquemestavatramandosuamorte?
Isso ainda era possível. Ele teve certeza disso antes, mas quando a
confrontou,elapareceugenuinamentesurpresaeatémesmozangadacoma acusação dele, que o fez acreditar nela por um momento. Isso poderia ser apenas uma manobra, no entanto. Amy teria acesso a ele à noite enquanto dormia,desprotegido,eessapodiamuitobemserarazãopelaqualelasecasou comele.Outalvezplanejassecolocarvenenoemsuacomida.
Assim como qualquer homem no castelo também poderia, lembrou a si mesmo.
ElenãoestavaconvencidodequeAmyhaviaenviadoamensagem,assim comonãotinhacertezadequemeraotraidor.
NãoseriaOwen,nemLachlan,nemqualqueroutroCambel–nenhumdeles tinhaqualquerconexãocomosMacDougallsoumotivoparatraição.
Bem,nenhumquelheviesseàmente,pelomenos.
Amenosquefossealguémemquemelenãotinhapensado–umCambel comligaçõescomoclãinimigo.
EleviuLachlansentadonamesmamesaqueOweneosoutrosCambels.Os homensriamdeformabarulhentaeanimada.
CraigeLachlanseconheciamhámuitotempo.Elestinhamamesmaidadee, porumtempo,LachlanhaviamoradocomafamíliadeCraig,enquantoospais delelutavamnosul.AgoraeleeraumarrendatáriodasterrasdosCambeleera tão leal ao clã quanto qualquer Cambel. Nunca em sua vida Craig havia suspeitadodequeLachlanpudesseterumaveiatraiçoeiraemseucorpo,exceto que...
EletinhaumaavóMacDougall.Sim,porpartedemãe.Nãoera?
Craigselevantouefoiatéamesaemqueeleestava.Eletocouoombrode Lachlan.“Lachlan,umapalavra?”
Ohomemselevantou.“Sim,primo.”
ElescaminharamatéamesadeCraig,ondeninguémestavasentado.
“O que foi?” Lachlan perguntou. “Por que você não está com sua noiva, aquecendoacamadela?”
Craigficouemsilêncioporummomento,estudandoorostodohomem.Os olhoscastanhosdeleestavamembaçadosevermelhos,aspálpebraspesadasea expressãodespreocupada.
Comoelepoderiaserumtraidor?DesdequeCraigoconhecia,ohomem semprehaviasidototalmentehonesto.
“Nãoimporta.Ouça,vocêerapróximodasuaavó?”
“Sim,vovóColine.Elamorreuquandoeueraapenasummenino.Mas,ainda melembrodeseusbolosdeaveiacommel.Nãoaviacomfrequênciaporque elesmoravamlonge.Vocêviuofantasmadelaoualgoassim?”
Craignãopodiacontaraninguémqueopombohaviasidointerceptado.Ele precisavaqueotraidorficassealheioaessefato,paraquequemquerquefosse nãoficassenervoso.EparaqueCraigpudesseobservar.EletinhaditoaKillian paraficaremsilênciosobreobilheteoucolocariatodoocasteloemperigo.O menino tinha entendido – Craig tinha visto a determinação em seu rosto, a importânciadosegredopesandosobreele.
“Já que me casei com uma MacDougall – Craig disse, encolhendo-se por mentirparaumhomemdoseuclã–,penseiquetalvezconhecessealgunsdeles. VocêjáfoiaalgumareuniãodosMacDougall?Visitouseusparentesporparte desuaavó?”
“Umaouduasvezes,enquantoavovóestavaviva.Algunsprimostambém visitaram,euacho.”
“Vocêaindamantémcontatocomeles?”
OrostodeLachlanficousério.“Não.Nãoseiondeelesestãoouoquefazem. Também não quero saber. Não depois do que Alasdair fez a Marjorie. Você precisadealgumacoisadosMacDougalls,primo?Ésómedizereeuacharei aquelesmerdas.”
Craigfoitomadopelaculpa.Lachlanpareciasercompletamenteinocente, honestoealheioàssuspeitasdele.
Será que o parente que ele conhecia há tanto tempo poderia tramar tal traição?
Depois de perder o seu avô e ter visto o que os MacDougalls fizeram a Marjorie,Craigtinhajuradonuncamaissertãoingênuoeconfiarcegamente,e nuncadeixaroutroMacDougalltraí-loouasuafamília.
ElesimplesmentenãopodiasepermitirconfiarcompletamenteemLachlan. Averdadeeraqueelenãopodiasepermitirconfiaremninguém.
“Não,nomomentonão,primo.”CraigapertouoombrodeLachlan.“Voulhe pedirdenovosefornecessário.Ébomsaberdissoporenquanto.”
“Sim. Então, deixe-me parabenizá-lo pessoalmente por seu casamento e desejarmuitosanosdesaúdeefelicidade.”Elepegoudoiscanecosdamesa,deu
“Erapróximodasduas.”
“DaMacDougall.”
CAPÍTULO13
Na manhã seguinte, Amy acordou com dor de cabeça e cólicas estomacais.Suamenstruaçãohaviacomeçado.GraçasaDeuspelos absorventesinternosqueestavamnamochila.Oqueasmulheres faziamnaIdadeMédia?
Elanãotinhaninguémaquemperguntar.Claramente,elanãoperguntariaa Craig.
Eletinhaidodormirnoquartonanoiteanterior,masnãohaviasedeitado comela.Elehaviadormidopertodalareira,cobertocompelesdecarneiroede outrosanimais.Demanhã,quandoelaacordou,elejátinhasaído,assim,elateve privacidadeparasevestir.Dealgumaforma,erareconfortantetê-lonoquarto comela.Serumaestranhaali,nãoapenasdeoutrocontinente,masdeoutra época...Eramuitosolitário.
Amy estava acostumada a ficar sozinha em Vermont, mas agora era diferente.Nãoerapossívelserelamesma.Todososdiasali,elaprecisavafingir, tinhaquecuidarcomoquediziaedequeformasecomportava.
Mashojeeraumnovodia,etudooqueprecisavafazereradarumpasso paramaispertodarochanodepósito.Umpassoparamaispertodesairdali–o que parecia ainda mais importante agora que Craig pensava que ela queria matá-lo!
Então,haviaumassassinonocastelo,alguémquequeriaproblemas...Eisso eratudoculpadoclãdela–bem,deseusancestrais,dequalquermaneira.Oque significavaqueCraigestavaemperigoreal.
Elaqueriaajudá-lo,masoquepoderiafazer?
Não era a vida dela, portanto, não era seu problema. O negócio dela era voltaraoseuprópriotempo,ajudarJenny,garantirquesuairmãnãosesentisse
abandonadaesozinhaaocuidardeseupai.EramelhorAmysairdaliomais rápidopossível.
ElaagoraeraaesposadeCraigeasenhoradocastelooualgoassim,então, elaprecisavacuidardasatividadesdomésticas.
Umadesculpaperfeitaparavisitaradespensasubterrâneaeverificaroque estavadisponívelparaasrefeições.
Ela marchou através pátio até a torre do lado leste e, ao abrir a porta, congelou.Doisguardasestavamnaentradadoandardebaixo.
PorqueCraigcolocariaguardasali?Oqueelesestavamguardando?Nãoa rocha,comcerteza...
“Senhora.”Umdelesacumprimentou,observando-acomatenção.
“Olá, cavalheiros.” Ela mordeu o lábio. Com base em suas expressões confusas,elesnãotinhamideiadoque“cavalheiros”significava.Nãoimporta, pensou. Ombros retos, queixo erguido, continue fingindo que sabe o que está fazendo. “Preciso ver o que há lá embaixo no depósito para planejar as refeições.”
Elesseentreolharam,franzindoatesta.
“Agora”,eladisse.
“Nãopodemosdeixarasenhoraentrar”,umdelesfalou.“OSenhorfoirígido quantoaisso."
“Vocêquerfazerumaboarefeiçãooucontinuarassandoesquilosecomendo bolosdeaveiaduros?Quetalumpoucodepãofresco,manteigaeumcozido quente?Oinvernoestáchegando,euouvidizer.”
Ooutroguardaengoliuemseco.“Sópodemosdeixá-laentrarjuntocomo senhor,minhasenhora.”
Amygrunhiudeexasperação,sevirouemarchouparaacozinha.“Senhor isso,senhoraquilo”,elamurmuroubaixinho.“Veremos.”
Independentemente, Amy também estava cansada de comer restos e ela queriaajudar,portanto,estavaansiosaparaestabeleceralgumtipodeordem nacasa.
Ela já era responsável pelo departamento de busca e resgate local em Vermont,com oito pessoasem suaequipe. Isso nãopoderia sermuito mais difícil.Alémdisso,seriamuitomenosperigoso–nenhumavidadependiade suasações.Amenosquecolocasseumcogumelovenenosoemumensopado por acidente... Mas confiava em si mesma o suficiente para não envenenar
ninguémcomasuacomida.
Elaentrounacozinhavazia,aindasujadacomidadodiaanterior.
Precisava de uma equipe de cozinheiros e uma de limpeza. Já que Craig haviadispensadoosserviçais,elatinhaquerecrutaroshomensquehaviano casteloparaajudar.Omelhormétodoprovavelmenteseriaescolhercombase naexperiência.Certamente,muitosdelessabiamcozinhar,maseladuvidava quealguémquisesselimpar.
Amyadotariaumplanoderotatividade,paraquetodosdividissemofardo. Casocontrário,elesprecisariamserpagosourecompensadosdealgumaoutra forma.
Acozinhaeraumambienteenormeeficavaemumaconstruçãodemadeira separada. Havia uma lareira gigante em uma extremidade com um grande caldeirãopenduradoemumacorrente.Nomeio,haviaumaenormemesade madeiraondecascasdelegumeserestosdecarnehaviamsidodeixadosna noiteanterior.
Homens,Amypensou.
Éclaroquenãohaviaáguacorrente,então,elaprecisariamandaralguém pegaráguanopoçodopátioregularmente.Mas,felizmente,haviaumralopara águasuja–apenasumburaconaparedequelevavaàcalhadocastelo.
Feixesdeervasestavampenduradosnoteto.Quandoelachegaranocastelo, haviapeixespenduradosparasecaraoredordalareiraenachaminé,masagora nãopodeivermaisnada.
Umfornodepedraficavadoladoopostodalareira.Amytinhavistoalguns doshomensusá-loparaassarpãesetortas.Infelizmente,elanãosabiaassar. Lembrou-se de sua mãe cozinhando na cozinha da fazenda. Amy costumava ajudá-la,mastinhasidohátantotempoquenãotinhamaisideiadoquefazer. Também não era uma grande cozinheira; geralmente, fazia macarrão com queijoinstantâneo,colocavaumapizzacongeladanofornoouaqueciaumprato pronto no micro-ondas. Ela precisava se lembrar de como fazer comida de verdade.
Certo.Elafoiatéadespensanosfundosdacozinha.Estavafriolá,poiso tempotinhamudandosignificativamenteficandomaisfriodoquequandoela haviachegado,oque,supôs,tinhaajudadoamanterosrepolhos,oalho-poró,a cebola e as ervilhas secas por mais tempo. Não havia batatas, tomates ou cenouras. Ela viu ameixas, maçãs e peras, mas elas já estavam estragando.
Também viu queijo e potes de manteiga, ambos com bastante sal, provavelmenteparapreservá-los.Sacosdefarinhaficavampertodasparedes–contudo,aolembrardequandomoravanafazendaedoaromacaracterísticodo trigo,percebeuqueoconteúdonãosetratavadisso.Provavelmenteossacos continhamaveia,cevadaoucenteio.
Haviacarneepeixedefumadospenduradosnoteto,eovosemumacesta. Ela vinha alimentando as galinhas, que ficavam em um cercado no meio do estábulo–provavelmenteparamanterasavesaquecidas.
Amylembrou-sedecuidardegalinhasegansosnafazenda.Elestinhamaté mesmovacasecavaloslá.Elaamavaosanimaise,porisso,atéquissetornar veterinária.Masdepoisdeterminarumanodecursonauniversidade,soube quenãoeraissoquequeria.Elasentiafaltadetrabalharcompessoas.
Haviatambémpequenospotescomespeciarias–canela,gengibreepimenta –semdúvidaimportadosemuitocaros.Osalestavaemumpequenosacona prateleiraeumbarrilcomvinagreencontrava-senocanto.Elapoderiausá-lo para limpar as superfícies e talvez até para limpar feridas, se necessário. Tambémhaviafermentoali–semdúvidaparafazerpãoecerveja.
Issoeratudo.Seupequenoreino.
Oquepoderiafazer?Certamente,nãopoderiacozinharsozinhaparatodoo castelo. Craig havia mencionado que havia cerca de cem pessoas. Alguém precisaria assar pão, pois ela não sabia fazer isso. Sua melhor e mais eficaz opção, seria, sem dúvida, fazer ensopados e sopas. Teria que simplesmente jogar a carne e os legumes naquele caldeirão gigante, talvez até aveia para engrossá-lo.Seissonãoalimentassecempessoasemumdia,nãosabiaoque alimentaria.
Elapodiaassaracarnequeoshomenscaçavamefazerensopadocomos peixesquepescavam.Alguémprecisariadescascar,cortarelimparoslegumes, amassaramassaparafazerpãoetortaseajudarnalimpezageral.
ElaprecisavafalarcomCraigsobredesignarpessoasparaastarefas.
Aosairdacozinha,elabateucontraumcorpohumanosólidocomouma rochaequaseperdeuoequilíbrio.Ohomemaltoafirmou,agarrando-apelos braços.
“Devagar,moça”,disseHamish.
Amyrapidamenteseafastoudele.“Bomdia”,disseela.“Estáprocurando algoparaocafédamanhã?”
“Sim, queria algo para comer. Minha cabeça está explodindo da comemoraçãodeontem.Algoparaaliviarafomeseriaótimo.”
“Bem,euestavaprocurandoCraigparaqueelepossadesignarpessoaspara trabalharnacozinha.Precisodepadeiros,cozinheiroseumaçougueiro...”
“Eupossolheajudar”,disseele.“Euvouficardeguardanatorresuldepois dojantar,maspossoajudá-laagora.”
Elajátinhaaprendidoqueojantarera,naverdade,oalmoçodeleseera feitoentreomeiodamanhãeomeio-diaeaceia,ouseja,onossojantar,era feitonofinaldatarde.
“Bem,agradeçomuito,Hamish.Vocêsabeassarpão?”
“Sim.Eucresciemumafazenda.Euseicozinhareassar.”
Algoseaqueceudentronela.“Vocêtambémcresceuemuma...”
Ahmaldição.
Elasecalou.Averdadequasetinhaescapado.Mentirnãoeraoseuforte.
“Querodizer,comomuitasoutraspessoas,vocêcresceuemumafazenda. Issoéótimo!”
Ele estreitou os olhos escuros, estudando-a. Por alguns momentos, eles tornaram-sefriosedesconfiados.Elariunervosamente.
“Sepudercomeçaraprepararopão,issoseriaótimo.VocêsabeondeCraig está?”
Eleafirmoucomacabeçalentamente.“Sim.Euovipertodatorreleste.”
“Ótimo.Obrigada,Hamish.”Elaacenoucomacabeçaparaele,sorriuefoi emboraomaisrápidoquepôde.Maspôdesentirosolhosdeleemsuascostas.
o dia seguinte…
CAPÍTULO14
Fergus, um dos dois guerreiros de meia-idade que a ajudava, parou de descascaronaboelançoulheumolharfeioporbaixodassobrancelhas.
Elatinhaorganizadoacozinhacomoumaesteirarolante.Nãotinhaideiade comocozinhasgrandesfuncionavam,naverdade,masseubomsensodiziaque elasseriammaisrápidaseeficientesseumapessoativesseapenasumafunção, exatamentecomoHenryFordtinhaconcebido.Umlavava,ooutrodescascavae Amy cortava. Um dos homens mais velhos cortava a caça que os caçadores haviamtrazidorecentemente.eosoutrosdois–umadolescenteeumhomem maisvelho–amassavamamassaefaziampão.
“Vocêquerdizer,assim,senhora?”Elejogouonabomeiodescascadopara Amy.
Emvezdeonabopousarnatábuadecortaroupertodela,eleatingiuAmy bemnacabeça.Oshomenscaíramnagargalhada.Lágrimasacumularam-senos seusolhos,maselaignorouador.Elaestariaperdidasepermitissequeesses idiotasavissemchorar.
OnaboroloupelochãonadireçãodeFergus.
Mantendo o rosto neutro, Amy soprou uma mecha de cabelo do rosto e depoisamoveuparaoladocomascostasdamão.
“FERGUS, VOCÊ PODERIA DESCASCAR MELHOR OS NABOS, POR FAVOR?” AMY DISSE. “VEJA, vocêestádeixandograndespartescomcasca.”
“Porfavor,apanhe-o,Fergus,etermineotrabalho”,disseela.
Elesustentouoolhardelaporummomento,entãosevirouparaAngus,que estavaaoseuladolavandooslegumesemumagrandepanela.“Vocêconhecea históriadeKennethMacDougall,quefodiaumacabraporquepensavaqueera suaesposa?”
Amysentiuumaondaderaivaesuasbochechasficaramvermelhas.
“Não”,Angusdisse.
“Eraporqueacabracheiravaexatamentecomoela.”
Acozinhaexplodiuemgargalhadadetodososcincohomenspresentes.Amy colocouasmãosnacinturaeficouolhandoparaelescomfrieza.
“Muitoengraçado,Fergus”,disseelaquandoorisocessou.“Agora,termine dedescascaronaboouireienfiá-loemumadeterminadapartedoseucorpo ondevocêmenosgostariadetê-lo.”
OsorrisodeFergusdesapareceu.“Nãomeameace,senhora.Nãorespondoa vocêenãovouaceitarordensdeumaMacDougall.Éameusenhorqueeudevo respeito.”
Amyendireitouascostas.“Bem,seusenhordisseparavocêtrabalharna cozinhasobmeucomando.”
“Eledisseparaeutrabalharnacozinha,entãovimtrabalharnaaqui.Masele nãodissenadasobreagradaropequenotraseirovermelhodosMacDougall.”
EleempurrouonabocomabotaeesterolouatéAmy.“Terminededescascar vocêmesma,senãogostadomeutrabalho.Ouencontreoutrocozinheiro.”
Elecuspiuaúltimapalavraevoltouadescascaroutronabo.
Os homens lançaram olhares sombrios para ela e voltaram ao trabalho enquantoAmypermaneciamuda,fumandoderaiva.
Elaestavaprestesapegaronaboereconhecersuaderrotanafrentedetoda a equipe quando ummovimento perto da porta chamou sua atenção; ela se viroueviuCraig.
Eleentrou,ocupandotodooespaçocomsuapresença.Oarfoisugadopara fora dos pulmões de Amy ao vê-lo, fazendo-a esquecer toda a sua raiva e indignaçãocomFergus.OcabelodeCraigestavaumpoucoúmidoegrudadona testa...Seráqueeletinhatomadoumbanho?Sódepensarnocorpodelenue molhado,altoeforte...
Ah,elaerapareciaumaadolescente!Derretendo-seassimaoverumhomem bonito.
Seusolhosseencontraram,entãoosdelepousaramnoslábiosdela.“Está tudobem,moça?”
Desdequeelecontinuasseolhandoparaeladessaforma,tudoficariabem. “Sim”,respondeu.
Ferguseorestantedoshomensnãoergueramacabeça,mantendoasmãos ocupadas. Eles pareciam meninos de escola travessos na presença da professora.
Bem,Fergustinhabasicamentecomparadoa esposa deseusenhorauma cabra.Seelaquisesse,Amypoderiafazercomqueohomemfossepunidoagora.
Mas preferiu não fazer isso. Ela não delataria ninguém da sua equipe, independentementedequãomalelessecomportassem.
Issonãoqueriadizerqueelanãopoderialhesensinarumalição.
“Pensandobem,nãosei”,respondeunovamente.“Estátudobem,Fergus?”
Umdosolhosdelesecontraiu,suasnarinasdilataram-se,mascontinuou descascandoonabo.“Sim,senhora”,murmurou.“Porquenãoestaria?”
“Achoquevocêprometeuterminardedescascaronaboquedeixoucair.Não foi?”
Fergusolhouparaela,osmúsculosdamandíbulasecontraindo.
“Ou será que eu entendi mal sua piada da cabra MacDougall?” Amy pressionou.
“Quepiada?”Craigperguntou.
A boca de Fergus se contraiu em uma curva rancorosa. Ele parecia que estavaprestesacuspirnela.“Não,asenhoraentendeubem”,faloufinalmentee pegouonabodochão.
Amyacenoucomacabeça,satisfeita.Aautoridademilitarnãotinhamudado, continuava sendo a mesma até na Idade Média. E eles definitivamente respeitavamCraig.
“Ótimo”,disseAmy.“Estoufelizpornosentendermos.”
ElasevoltouparaCraig.“Vocêqueralgumacoisa?”
“Sim.”Craigolhouemvoltadacozinha,aindaintrigado.“Euprecisodesua ajuda.Vocêdissequetemhabilidadesdecurandeira.”
“Bem,nãodecurandeiraexatamente,masdeprimeirossocorros...”
Droga,primeirossocorrosprovavelmentenãosignificavamnadaparaele.
“Hum”, ela reformulou. “Sim, tenho alguma experiência de curandeira. Alguémestáferido?”
“Sim.Primeirossocorrosounão,vocêéamelhoropçãoquetemos.Émelhor vircomigo.”
Amyacenoucomacabeça,tirouoaventalecolocou-osobreamesagrande. “Angus,porfavor,assumameulugarcortandooslegumesatéeuvoltar.”
“Sim,senhora”,disseAngus.
CraigdeixouAmypassarprimeiropelaportaeelapodesentirseucheiro quenteemasculinoenvolvendo-aefazendoseupulsoacelerar.“Oquefoiaquilo sobreapiadadacabra?”eleperguntouquandoelesestavamnopátio.
O ar frio atingiu as bochechas e o nariz de Amy, lembrando-a de que o invernonãoestavalonge.Umburburinhopodiaserouvidopelopátioehavia umapequenaaglomeraçãopertodosportões.
“Nada com que você precise se preocupar ” , Amy mentiu. “Tudo está sob controle.Elesnãoestãofelizesporestarempicandolegumes,masalguémtem quefazerisso,nãoé?”
“Sim.”
“Quemestáferido?”
“Umacriança,algoaconteceucomobraçodela”,disseCraig.“Osaldeões vierampedirajuda.Vocêpodefazeralgumacoisa?”
“Esperoquesim.”
Amy havia recebido treinamento avançado em primeiros socorros – ela sabia como colocar uma tala em membros quebrados, fazer o básico em tratamentosparaqueimadurasepararumsangramentoexternoatéachegada deumaambulância,mascertamentenãoeraumamédicaprofissional.
A pequena multidão consistia em cerca de uma dúzia de pessoas, entre homensemulheresdetodasasidades.Asmulheresusavamvestidoslongosde lãescuracomtoucasdelinhobranconacabeça,enquantooshomenstrajavam jaquetas acolchoadas pesadas e calças de lã. Eles olharam com cautela para Craig e Amy quando eles se aproximaram. Em uma carroça puxada por um pôneihaviaumameninadecercadedezanossentada.Umhomemmaisvelho estavasentadoaoladodela,comobraçoemvoltadosombrosdagarota.Ela estavasegurandoumdosbraçoseseurostoestavacontorcidoemumacareta dedor.
Amyfoirapidamenteatéela,enquantoaspessoasaolhavamcomreceio. “Oi,querida”,disseelaaoladodacarroça.“MeunomeéAmy,AmyMac ” “AmyCambel.”Craigergueuoqueixo.
Amy Cambel…
Que direito ele tinha de colocar esse fardo sobre ela – reivindicando-a publicamente?OpeitoeoestômagodeAmysecontraíramatéqueumador agudaatingiuseuestômago.Hápoucotempo,elaeraAmyJohnson,evejacomo issotinhaacabado.Elaficousemconseguirrespirarporummomentoeteve quefazerumesforçoconscienteparainspirareexpirar.
“Elaéminhaesposa”,Craigexplicou.
Esqueça o Craig. Concentre-se apenas na garotinha que precisa de ajuda.
Elalidariacomelemaistarde.
“Bomdia,senhora”,falouohomemqueestavaabraçadoàgarota.“Vocêé curandeira?”
Amysorriu,esfregandoamãonapernaparaevitarqueelatremesse.“Bem, nãoexatamente.Masseicomolidarcomalgunsferimentos.Talvezeuconsiga ajudarasua...”
“Neta”,completouohomem.“MeunomeéErskine,viemosdaaldeiaperto dorioLochy.OuvimosrumoresdequeosComynsnãoestavammaisaquie queríamosverpessoalmenteparaquempagaríamosoalugueldaquipordiante. MasCaoimhecaiuemachucouobraço.Jáqueocurandeiroestáausente,viemos perguntarseonovosenhortinhaum.”
Amyassentiu.“Vereioquepossofazer.Caoimhe,porquevocênãoentra comigo,paraqueeupossadarumaolhadanoseubraço?Estáumpoucofrio aquiforaparavocêsedespir.”
“Obrigada,senhora”,disseamenina.
Amyajudouagarotaadescerdacarroça.Emvezdeusarumajaqueta,ela estavaenroladaemdoiscasacosdetamanhoadulto.Craigeostrêscaminharam emdireçãoaograndesalão,ondeestariaquentepertodalareiraehaverialuz suficienteparaexaminá-la.
“Não queria machucar ainda mais o braço dela enfiando-o na manga ” , explicouErskine.
“Sim,vocêagiucerto”,disseAmy.“Caoimhe,querida,porquevocênãome explicaoqueaconteceu?”
“Osmeninosestavammeperseguindo”,disseela.“Eusubiemumaárvoree caí...”
Entãopodeserumbraçoquebrado.Ossosquebradoseramcomplicados.Se fosse um osso quebrado – e Deus nos livre, em vários lugares – Amy não
poderiafazermuitoparaajudaragarota.Elapoderiacolocarumatalaefazer algumtipodegesso,masnãopodiagarantirquecicatrizassebem.
“Eondedói?”
“Noombro,senhora.Nãoconsigomovermeubraço.”
Eleschegarameseacomodarampertodalareira,eAmytirouoscasacosde Caoimhe.Mesmo sob ovestido simplesda garota, Amy podiavero formato estranho do ombro. Não estava sangrando, o que era um bom sinal. Amy apalpouoombroeobraçoparasecertificardequenãohaviaossosquebrados.
Ela suspirou de alívio. “A boa notícia é que não está quebrado. Está deslocado.Voucolocá-lonolugar.”
OsolhosdeCaoimhesearregalaramdemedo.
“Vai doer apenas por um momento, querida”, disse Amy. “Depois, a dor agudavaiparar,masvocêvaificardoloridaporumtempoeprecisaráusaruma tipoia, e não poderá mover o braço por algumas semanas. Certamente não poderásubiremárvores.”
CaoimheficoutensaeseafastouumpoucodeAmy.“Olha,querida”,disse ela.“Vocêéumagarotacorajosa,nãoé?UmamoçadasHighlandsquesobeem árvores...Euseiqueestácomumpoucodemedo,eutambémestariaemseu lugar,masvocêestásegura.Seuavôestáaqui.Euestoubemaquicomvocê.E olheparaseunovosenhor,CraigCambel–vocêjáviuumguerreiromaisforte doqueele?Vocêachaqueumhomemcomoelevaideixarquealgoderuim aconteçacomvocê?”
CaoimheolhouparaCraigeparaAmytambém.Eleendireitouascostase ficou com uma postura tensa e um rubor quase imperceptível em suas bochechas.Eleolhouparaaesposacomespantoeperplexidade.Seusolhosse encontraram por um momento e algo passou entre eles – algo como concordânciaeadoração,ealgoquepareciacomumbeijoquenteemumanoite friadeinverno.
“Não,senhora”,disseCaoimhe.“Podeiremfrente.Estoupronta.”
Amy assentiu e sorriu para ela, embora por dentro estivesse nervosa. Normalmente,deixavaosmembrosdeslocadosparaossocorristas.Contudo,às vezes,odeslocamentojátinhaacontecidoháalgumtempo,deformaqueos músculos e os vasos sanguíneos começavam a atrofiar. Portanto, quando a assistênciaambulatorialnãoestavadisponível,acabavatendoqueagir.Amyjá tinhafeitoissotrêsvezes–duasvezesduranteumatempestadeeumavezem
umlocalondenãohaviasinaldecelular.Todasasvezestinhacorridotudobem, masaindapodiaacontecerdeelapuxarcommuitaforçaoudemaneiraerradae fazermaismaldoquebem.
Elaprecisavatercuidado.“Certo,querida,precisoquesedeiteaquinamesa. Craig,vocêpodetirarobancodaquiparaqueeutenhaacessoaoombrodela?”
“Claro”,Craigdisse.
Eleremoveuobancoepuxouamesaparamaispertodofogo.
“Obrigada”,disseAmy.“Caoimhe,Craigaajudaráasubirnamesa.Porfavor, deite-sedecostasparaqueseuombrofiquevoltadoparamim.”
CaoimhefezoqueAmypediu.Oobjetivoeraqueocalorajudassearelaxar osmúsculosdacriança,jáqueelestendiamaficarmaisenrijecidosàmedida queoombropermaneciadeslocado.
“Voupegaroseubraçoagora”,disseAmy.Eraimportantedeixarapessoa feridasaberoqueseriafeitocomela.
Amypegouobraçodagarotaeocolocouemumaposiçãoreta.Lentamente, elaogiroudemodoqueficassecercadequarentaecincograusemrelaçãoà lateraldeCaoimhe.Semmudaroângulo,AmyagarrouamãodeCaoimhee puxou-acomfirmeza.Umavezqueomúsculosesoltasseosuficiente,acabeça doúmerodeveriadeslizarparadentrodaarticulaçãodoombro.
OrostodeCaoimhesetransformouemumacaretadedor,eapobregarota gritou.
“Euseiquedói,querida,massóummaispouco.”
Obraçomoveu-seumpoucosozinhoedeuumestaloquaseinaudível.
“Ahhh!”Caoimhegritou.
Amydiminuiuapressãolevementeecolocouobraçonamesaaoladoda garota.
“Achoqueestáconsertado.Nãosemova,querida,ok?”
Amysentiuoombrosobovestidodameninaeosossosestavamnolugar. ElaajudouCaoimheasesentar.
“Vocêconseguemoverobraçoumpoucoparamim?Vaidoer,entãomova comcuidado,porfavor.Sóprecisamosverseconseguemovê-lo.”
Caoimheacenoucomacabeçae,comumgemido,moveuobraçoparacima.
“Excelente!Agora,porfavor,segureseubraçoassim,próximoaocorpo,e apoie-ocomumamão,assim.”Amymostrouaela.“Enãosemexa.Voubuscar umatipoiaparavocêeentãoestaráprontaparavoltarparacasa.”
“Deixequeeubusco,senhora”,disseErskine.“Ondedevopegar?”
“Ah,obrigada,Erskine”,disseAmy.“Acozinhaficaaquiaolado.Devehaver lençóislimposemumdosbaúsquetemporlá.”
“Sim.”
“Digaaelesqueeupedi”,disseCraig.
“Sim,senhor.”
Erskinesaiu.AmyolhouparaCraigeosolhosdeleestavamnela,pesadose quentes.Eleaanalisoucuidadosamente,parecendoconfuso,comoseAmyfosse algomaravilhosoqueeletivesseacabadodedescobrir.
Agargantadelasecou.“Oquefoi?”perguntou.
“Nocampo,apenasempurramosoossoparatrás,maselefrequentemente quebra.Ondevocêaprendeuafazerissocomtantocuidado?”
Amyolhouparaasmãos.Elequisdizerissocomoumelogio?Ouseráque estavaapenascurioso?“Ah,bem,vocêsabe.AgenteaprendecoisasnaIrlanda...
Elaolhoudevoltaparaelee,emboraCraignãotivesseditomaisnada,seus olhosverdeseramdacordemusgoaosol,eelaseviuincapazdedesviaro olhar.Ficousemfôlegoepareciaquehaviaborboletasemseuestômago–assim como quando ela olhava para a vastidão das montanhas de Vermont, assim comoaconteceradaprimeiravezqueelaviuasHighlands.Bemlánofundo, sabia,semsombradedúvida,queesteeraocomeçodeumdesastre.
Masmesmoassim,nãoconseguiadesviaroolhar.
CAPÍTULO15
Mais tarde, naquela noite, Craig saboreou o ensopado quente e carnudo,quelhetrouxeasensaçãodeestaremcasa.Suamadrasta sempre mandava fazer esse prato e ele gostava do prato substanciosoereconfortante.Ograndesalãozumbiacomasvozesdehomens satisfeitos, que haviam feito sua primeira refeição decente em semanas. A atmosferaeraquasefestiva,comosehouvessealgoparacomemorar.
Decertaforma,havia.Ensopado.Limpeza.Umacozinhaemfuncionamento pelaprimeiravezdesdequehaviamtomadoocastelo.
Craignãoconseguiaparardeolharparasuabelaesposa,queestavasentada aoseuladonamesadochefe.Eleasentia,comosehouvesseumcampoquente e invisível ao seu redor que o tocava, embora o corpo dela não estivesse encostadonodele.
“Bem.Nãoestavaenvenenadoeestafoiamelhorrefeiçãoquecomidesde quesaídecasa”,disseCraig.
Amysevirouparaeleeergueuassobrancelhascomummeiosorriso.
“Verdade?" ela disse. “Eu não sou uma grande cozinheira, então os seus homenséquemerecemoseuelogio.Eusóorganizeiquemfariaoquê.”
“Contantoquevocêcoloqueumarefeiçãocomoessanaminhamesatodos osdias,nãomeimportocomquemacozinhou.”
“Só coloquei um pouco de sal e algumas ervas, tudo que eu consegui encontrar.”
“Sal?”Craigainterrompeu.“Quantosalcolocouaqui?”
“Tantoquantonecessário–eunãosei,algumascolheres...”
“Comovocêpodesertãoesbanjadora?”
“Esbanjadora?Ora,osalétãoprecioso...”
Ela parou no meio da frase, seus olhos se arregalando como se tivesse percebido.
“Sim, talvez os MacDougalls nadem em sal, mas ele é muito caro para o restantedenós.”
Craigprocurouporumsinaldearrogância,esperouqueeladissessequenão seimportavacomosbensdesperdiçados,queelenãopodiaproibi-ladeusaro queelaquisesse,pormaiscaroquefosse.
“Desculpe”,disse,corando,comoseestivesseenvergonhada.“Eunãosabia. Acheiqueerasóconseguirmais.”
Sim,osMacDougallseramumclãmaisricoepoderosodoqueosCambels, maseladeveriatervistoquenãohaviamuitosalsobrando.Eracomosenão tivesseideiadequeissoeraumgrandedesperdício.Comosetodosnomundo pudessemconseguirtantosalquantoquisessem.Eletinhacertezadequeuma rica donzela MacDougall, mesmo uma que tivesse sido criada no exterior, saberiadisso.
“Conseguirmaisonde?”perguntou.
Ela engoliu em seco, o pânico cintilando em seus olhos. “Não sei, Craig! Vamosapenasesquecerisso.Nãovoumaisusarsal,estábem?Hámaisalguma coisapreciosaquevocênãoquerqueeuuse?”
“Acheiqueseriavocêquemmediriaparatermaiscuidadocomcoisascomo sabonete,ervasmedicinais,roupasdecamaevestimentas.”
Suacaracaiu.“Sim.Claro.Todasessascoisas.”
Haviaalgomuitoestranhosobreela,comosenãoentendesseascoisasmais básicas.Amoçanãoparecialoucaparaele.Elatinhapreparadoumensopado delicioso e ajudado com o braço da garota. Era como se simplesmente não soubessedecertascoisas.AformadeseexpressareratãopeculiarqueCraig nuncatinhaouvidoninguémfalardaquelamaneiraantes.Otrajequeelausava quandoeleaconheceu,oestranhoobjetodemetalemsuamão...
“Por que você é tão diferente de todas as pessoas que eu conheço?” ele perguntou.
Elasoltouumsuspirotrêmulo.“Eusou?Comoassim?”
“Eunãoquisdizerissodeumamaneiraruim,masvocênãosabecoisasque todossabem.Vocêfaladeumjeitoestranho.Quandoaconheci,vocêestava vestidadeumamaneiraqueeununcahaviavistoantes.
Elaolhouparaasmãos,queestavamespalmadassobreamesaeencolheu
osombros.“Vocêtambémnãoéexatamenteotipodehomemqueeuencontro todososdias.”
“Eoquehádetãodiferenteemmim?”
Amysuspirou,entãoencontrouseuolhar,seusolhoscomoduaspoçasde águaescura.“Quasetudo.”
Elemanteveoolharnosolhosgrandesebonitosdelaporummomento,sua gargantaficandoseca.Pareciaqueelagostavadoquevianele.Ouseráqueele estavaapenasimaginando?Comamenteenevoada,recusando-seapensar,e seu sangue fervendo correndo violentamente pelas veias, ele se inclinou na direçãodela.
“Vocêéummistério”,elesussurrou.“Eunormalmentesoubomemresolver mistérios.Porquenãoconsigoresolvervocê?”
Elaseinclinouparamaispertodele.“Porquenãodeveria.”
Com um gemido que não conseguiu conter, ele cobriu a boca dela que pareciaumveludoexuberante,seuslábioscomopétalasesualínguacomofogo. Elatinhaumgostodeliciosoeelequeriamais.Odesejoopercorreuemuma ondaquenteeardente. Minha, minha, minha proclamouseucoração.
Eleaqueria.Elaerasuaesposa.Elaerasuapordireito.
Ele virou a cadeira dela para si e puxou-a para mais perto. Sua cintura pareciadelicadaefortesobsuasmãos,comoacurvadeumarco.Seumembro latejavadedesejoporela.
“Moça”,eledisseemseuslábios.“Sevocênãomequer,diga-meagora.Não consigomeconterpornemmaisumminuto.”
Elacongelou,eelesentiuavibraçãodeseuscíliosquandoelaabriuosolhos. Amyseinclinouparatráseeleaolhou,franzindoatesta.
“Sim,achomelhorparar,Craig.”
Ele exalou o ar e franziu o cenho. As sobrancelhas dela se uniram, seus lábiosvermelhoseinchadossesepararamenquantoelatentavarecuperaro fôlego.
“Porquê?”eleindagou.“Vocênãogostadosmeusbeijos?”
“Eu...nãoéisso.”
“Vocêéminhaesposa.Eusouseumaridoetenhoodireitodeirparaacama comvocê.OuseráqueaindaestáseguardandoparaocondedeRoss?”
Comessepensamento,elefoitomadopelociúme.
“Oquê?Não!”
“Então,oqueé?”
“Sóachoquevaicomplicarascoisas.”
“Oqueháparacomplicar?Certamentetornaránossotempojuntosmuito maisagradáveldoqueéagora.”
Elalambeuoslábios.
“Ireilhemostrartodasasmaneiraspelasquaisumhomempodeamaruma mulher.Todososprazeresquevocênuncapensouserempossíveis.”
Amysoltouoarlentamente.Seupeitosubiaedesciarapidamente.Aveiaem seupescoçopulsava.Sim,elaoqueria.Elelheestendeuamão,maselaapuxou devoltaeficoudepéemumpulo.
“Estoumuitocansada,Craig.Vouparaacama."
“Vocêmalcomeu-“
Mas ela se virou e saiu, deixando-o carrancudo, confuso e se sentindo rejeitado.
ElefoidormirnoquartodaTorreComyn,queficavaembaixodoquarto deles,masnãoconseguiudescansar.Seuspensamentosretornavamparasua esposaeseusmúsculosqueimavamcomanecessidadeinsatisfeita.Sim,elea queria, embora fosse sua inimiga. E ele era um tolo por isso. Amy era uma mulherbonita,maseletinhacomeçadoaveralémdasuaaparência.
Ele tinha começado a ver um coração carinhoso e destreza, força e inteligência.
Massecomeçasseagostardela,issoirianublarseupensamentoefazercom queignorasseoperigo.Poderiaatémesmolevarumaapunhaladapelascostas.
Portanto,nãopodiaconfiarnela,nãopodiagostardela.Nãoapenasporque ela era uma MacDougall, mas porque estava escondendo algo. Suas mãos trêmulas,seunervosismosobreoquãodiferenteelaera,coisasbásicasqueela nãosabia...Elaestavamentindoparaele.Masseeraporquequeriaprejudicara eleeacausadeBruceouporqueestavacommedodealgumacoisa,elenão sabiadizer.
UmasombrapairousobreCraigesuamãofoidiretoparaopunhalsobo travesseiro.
“Soueu,Hamish”,sussurrouohomem.“Estouvendoquevocêtambémnão conseguedormir.Talvezum uisge nosajudeaadormecer,oqueacha?”
Craigfranziuatesta.Um uisge paradesacelerarseuspensamentoseembalálonosonopareciaumaboaideia.
“Sim.”Craiglevantou-sedocolchãoevestiuocasaco.“Estafoiaúnicaideia sensataqueouvinasúltimassemanas.”
Osdoissubiramasescadaseforamparaograndesalão.Elesseencostaram no parapeito, exalando nuvens de vapor no ar escuro. Dali, o rio e o lago pareciam negros contra a costa e as colinas do outro lado, que estavam acinzentadasporcausadeumafinacamadadeneve.
HamishentregouoodrecomabebidaaCraigeestedeuváriosgolescom prazer.ElegemeuquandoolíquidoqueimousuagargantaeobservouHamish tomarumgoletambém.
“Aesposanãoquisquevocêdormissecomela?”perguntou.
Craig lhe lançou um olhar cuidadoso. O homem olhou para a vasta escuridão,seurostonitidamentecalmoeindiferente.
“Nãoquerofalarsobreminhaesposa”,respondeu.
“Claro. Perdoe-me. É que conversar sobre as coisas que me incomodam geralmentemeajudaquandonãoconsigodormir.”
Craigpigarreou.ElesesentiapossessivoquantoàAmy–Hamishsempre estiverapertodelaeagorasuaprimeiraperguntaerasobreela...Porqueele estavatãointeressadonela?ElenuncaateriaenquantoelafossedeCraig.
“Porquevocênãoconseguiadormir?”Craigestendeuamãoparaoodre.
Hamishdeuumarisadinha.“Pensaremumamulhermemanteveacordado.”
Craigrangeuosdentes.Amy?
“Umamulher?”eledisse.
“Bem, não é uma mulher. Uma garota, da época em que eu era um garotinho.”
Craigergueuassobrancelhasedeuumgole.“Émesmo?”
“Fuicriadoemumafazendadepoisquemeuspaismorreram.Elatambém. Ela era a única pessoa no mundo que era gentil comigo. Éramos muito próximos.Meuspaisadotivoseramduroscomagente,masela,sendomulhere maisjovem,eramaisfraca.Elaficoudoenteporqueelesbateramnelaeela morreu. ”
CraigmudouopesodeumpéparaooutroedevolveuoodreaHamish.Este tomouvárioslongosgoles.“Lamentomuito,Hamish”,disseCraig.
“Eupensonelafrequentemente.Ficoimaginandooqueteriaacontecidose euativesseprotegido.Seráqueteriacrescidoforteebonita?Euteriamecasado comela?Dequeformaminhavidaseriadiferenteseelanãotivessemorrido?”
Craig exalou. O uisge começou a queimar seu estômago agradavelmente, relaxandoseuspensamentos.Finalmente.
Elesuspirou,poisentendiabemessespensamentoseessador.Elenãotinha perdidoMarjorie,mastinhapermitidoqueumgrandemalacontecesseaela. Comoseriasuavidaseelanãotivessesidoraptadaeabusada?
“Jurei então que nunca mais permitiria que uma mulher sofresse algum mal”,disseHamish,depoisolhouparaCraig.“Achoquemesintosuperprotetor comsuaesposaporcausadisso.”
Isso,Craigtambémentendia.“Nãosepreocupecomminhaesposa.Souo únicoresponsávelporsuaproteçãoenuncavoudeixarqueelasofraalgum mal.”
“Sim,eusei.Aindaassim,nãoconsigoevitar.Alguémlevantaavozparauma mulherealgosurgedentrodemim.Juroquenuncapenseinelacomomulher, Craig.Elapertencelegalmenteavocêeeununcaolhariaparaamulherdeoutro homem.Esperoqueacrediteemmim.”
Craig o estudou. Sua voz parecia um pouco insistente demais, talvez houvesseênfasedemaisemsuaspalavras,masseusolhospareciamsinceros, escurossobassobrancelhasfranzidas.
Nãotinhamotivosparadesconfiardele.Naverdade,eleentendiamuitobem oinstintoprotetordeHamish.
Craigbateunoombrodohomem.“Sim,Hamish.Euacreditoemvocê.”
“Esevocêviralguémespreitandopertodopombaloualgoestranho,venha atémim,certo?”
Hamishseendireitou.“Porquê?Oquehácomopombal?”
Craigconfiavanele,masnãotanto.“Nada.Sóqueseelatentarenviaruma mensagemaseupai,vocênãopodepermitirqueelafaçaisso.Sim?”
AbochechadeHamishestremeceu,ummovimentoquaseimperceptívelaos seusolhos.Eleprovavelmenteaindanãoestavafelizporalguémpensarmalde Amy.
“Sim”,disseelefinalmenteedeuumgoleno uisge.
“Obrigado.”
CAPÍTULO16
Três dias depois...
AMY ACORDOU CEDO DEPOISDE SE REVIRAR A NOITE INTEIRA.ELA NÃO CONSEGUIA TIRAR O beijo que eles haviam compartilhado três dias atrás da cabeça – ou de seu corpo.Oroçardoslábiosdelecontraosdela,adocelínguaqueaacariciavae prometiacoisastravessas.Ocalordeseucorpoquandoeleapuxouparaperto.
Essebeijoafezesquecertudo.Elatinhasedissolvidonele,deliciando-se comapromessadepurafelicidade.Osmúsculosrígidosdelesobsuaspalmas quandocolocouasmãosemseupeito.Ocheirodele–ah,quecheiro!Elaqueria senti-loparasempre,sentir ele parasempre.
OhDeus.ElaestavaseapaixonandoporummalditoHighlanderdoséculo XIV.
Ele não voltara ao quarto deles e Amy não o culpava. Na verdade, nos últimosdiaseleestiveraausentedocastelo.Levandoalgunsdeseushomens, eletinhasaídoparacoletaroalugueleimpostosdasnovasterras.
Entãoelasóotinhavistonanoiteanterior,quandoelevoltouparacasa.Era melhorassim,dequalquermaneira.Elatinhasecontidoquandoeleabeijou, masseeletentassenovamenteeelesestivessememumquartocomumacama epeleseumalareira...eelecomeçasseasedespire...
Não. Pare de pensar nele sem camisa!
Amypuloudacamaesevestiu.Asroupasmedievaiserammaiscomplicadas decolocar–acamisa,oscordões,depoisovestidoemsi.Semsutiã.Elanão
sentia falta disso, mas não podia dizer o mesmo da calcinha. Havia umas calçolasfinasdelãqueelanãoqueriausar,porquetinhamsidousadaspela senhoracujoquartoocupavaagora.Emesmoqueastivesselavado,sesentiria maldeusararoupaíntimadeoutrapessoa.
Amyfoiparaacozinhaparacomeçaraprepararocafédamanhã.Durante osúltimostrêsdias,elahaviaentradoemumarotina.Cafédamanhã,limpeza, preparar o ensopado no grande caldeirão e assar pão – ambos comidos no almoçoenojantar.Oshighlanderssemprecomiamaveianocafédamanhã,ou mingau,entãoeraissoqueelapreparavaparaeles.
AindaestavaescuroláforaquandoAmylevoudoisbaldesdeáguadopoço paraopátio.Elacomeçouofogo,despejouaáguaeaaveianocaldeirão,que tinhasidobemlavadonodiaanterior.
Depois,foibuscaroutrobaldedeáguaparausarnalimpezamaistarde.O céutinhacomeçadoaclareareocasteloaacordar.Oshomenscomeçarama fazersuastarefasmatinaiseasereunirnograndesalão.Alguémgritoualém dosportões.
Os guardas abriram os portões e uma mulher e um homem entraram correndo.ElesolharamfreneticamenteaoredoreamulhercorreuparaAmy. “Porfavor,ondeestáosenhor.Onovosenhor?”
“Eu sou a esposa dele.” Amy colocou o balde d'água no chão. “O que aconteceu?”
“SomosdaaldeiaInverlochy.MeunomeéAlana,meumaridoéDiarmid. Minhamãe...”Amulhercomeçouasoluçar.“Nãoconseguimosencontrá-la.Ela àsvezesvagueia,esquece-sedascoisas.Esperamosporelaontemànoiteeesta manhã,masnãovoltou.Provavelmentefoi colherervasnasmontanhasese esqueceudecomovoltarparacasa.Precisamosdeumcavalo,masoexército levoutodososquetínhamosnaaldeia.Porfavor...”
Amyassentiu.Buscaeresgate.Eraissoqueelafazia.Poderiaencontrara mulher,ouaomenos,tentar.Semcarro,seriadifícil,claro.Emumcavalo,mais fáciltalvez.Amysabiacavalgar;elatinhaaprendidonafazenda,masCraignãoa deixariasairdocastelo.Porém,precisavafazerisso.
“Espereaqui”,disseela.“VouprocurarCraig.”
ElasevirouecorreuemdireçãoàTorreComyn.Eleprovavelmentetinha dormido com seu clã no salão do senhor, abaixo do quarto deles. Enquanto
“...falarcomosenhor...precisodeumcavalo...”
corriaparaaentrada,elesaiu,caminhandoemsuadireção.
Ela parou como se tivesse batido em uma parede invisível, a respiração presanagarganta.AtúnicadeCraigaindaestavaabertanabasedopescoçoe mostravaumpunhadodepelosescurosnopeito.Comorostoaindasonolento, oscabelosdesgrenhados,elecolocavaocasacoenquantocaminhavaemsua direção.Eleaprendeucomoolhar,orostofrioeindiferente,emboraseusolhos ardessem.
Derepente,Amyficoucomsedeeochãobalançousobseuspés.Craigparou bemnasuafrente,pairandosobreelacomoumamontanha.
“Bomdia”,disseela.“Euestavaindoprocurá-lo.”
“Bem,vocêmeencontrou”,respondeu,suavozacariciando-a.“Oquefoi?”
“Aquelaspessoas.”Elagesticulouatrásdesi.“Elasvierampedirsuaajuda.A mãe da mulher desapareceu. Acho que ela tem demência. Quero dizer, provavelmente se esqueceu de como voltar para casa. Eles precisam de um cavaloparaprocurá-lanasmontanhas.”
Craigfranziuatestaeestudouosdoisvisitantes.
“Deondeelesvieram?”
“Da vila. Aparentemente, não sobrou nenhum cavalo por lá. Eu posso ir procurar. A mulher corre o risco de morrer de frio se passar a noite nas montanhas.Nósdevemosnosapressaroupodesertardedemais.”
Eleergueuumasobrancelha.“Nós?”
Amy olhou para os pés. Certo. “Olha, como eu disse, sou uma boa rastreadoraejáencontreieresgateimuitas,muitaspessoas.Euseicomoajudar comferimentos–vocêviuoquefizcomCaoimhe.Euprometoquesereiútil.E eunãovoufugir.”
ElemanteveosolhosnelaporumlongotempoeAmysentiucomoseum detectordementirasinvisívelaestivesseexaminando,cavandofundoemsua alma.Aquelesolhosverdespenetrantes...Umarrepioapercorreuenquantose perguntavaseelerealmentehaviadescobertoaverdadesódeolharparaela.
“Vocêmedáasuapalavra?”perguntou.
“Sim. Eu não posso deixar essa mulher morrer. Tenho a capacidade de ajudá-laesóquerotentar.”
“ProvavelmentesouloucoporconfiaremumaMacDougallquandojureique nuncamaisfariaisso,masestareicomvocêotempotodo.Esetentaralgo–como fugir ou mandar uma mensagem para alguém –, vou prendê-la
novamente.Seeuperderaminhaconfiança,elanuncamaisserárestaurada. Entendeu?”
Amyassentiu.Pelomenosnisso,elanãooestariaenganando.Seumdiaele descobrisse o quanto ela havia mentido – e ele descobriria – ele nunca a perdoaria.Elemesmotinhaditoisso.Suaconfiançanuncaseriarestaurada.
E por algum motivo, queria ter a confiança dele. Era como um presente precioso e frágil que queria manter vivo. E ela poderia – pelo menos por enquanto.
“Sim”,eladisseautomaticamente.“Eunãovoufugir,euprometo.Eseeu tentarqualquercoisa,vocêpodemetrancarnovamente.”
Craigdeuumbreveacenodecabeça.“Tudobem.”
Ele caminhou até o casal. “Eu vou ajudar vocês”, disse ele. “Eu irei pessoalmente,juntocomminhaesposa.”
Osrostosdelessesuavizaram,osemblantedepreocupaçãoeansiedadese foi, substituído por sorrisos exultantes. A mulher pegou a mão de Craig. “Obrigada,senhor.Obrigada.”
Amyoseguiueficouaoladodele.“Háalgumcaminhoqueelanormalmente pegaquandovaiparalá?”
“Sim.Subindooriacho,emdireçãoàcachoeira.Masnósolhamosláonteme elanãoestava.”
Craigacenoucomacabeça.“Vocêspodemnosmostrarolugar.Precisamos pegaroscavalos.”ElesevirouparaAmy.“Dequantoshomensvocêprecisa?”
“Só de você. Nós dois seremos o suficiente – você tem que saber onde procurar.Maispessoasquenãotêmideiadoqueestãofazendoserãoinúteis.”
“Temcerteza?Elespodemchamarporela.”
“Vai ser mais rápido. Eles podem destruir todos os rastros dela por não saberemoqueprocurare,então,nuncaaencontraremos.”
“Vou,pelomenos,pediraOwenparairjunto.”
“Elesaberastrear?”
“Apenasparacaça.”
“Vocêsabe?”
“Tambémparacaça.”
“Estoulhedizendo,duaspessoasserãomaisdoqueosuficiente.Vocêeeu seremososuficiente.OumandeOwencomigo.”
Você e eu… Isso soava tão bom. Como se Craig pensasse o mesmo, um
pequenosorrisoseespalhouemseuslábios.
“Eupoderiaatéirsozinha”,disseela,“mastenhocertezadequevocênão deixaria,oudeixaria?”
Eleriu.“Certamentequenão.”
Amybalançouacabeçaesuspirou.“Voubuscarcobertoreseprecisamosde comidaeágua.”
“Sim.”
Logo,oscavaloshaviamsidoseladoseascoisasparaoresgatetinhamsido reunidas–Amyatémesmopegousuamochilacomokitdeprimeirossocorros, levando-aescondidasobacapadepelequeelatinhaencontradonobaúda LadyComyn.
Prendendo a respiração, Amy subiu no cavalo. Finalmente, deixaria o confinamentodocasteloepoderiafazeralgoquefaziabem;responderàsua vocação.
Osportõesseabrirameosdoispassaramporeles,cruzaramapontesobreo fossoeseguiramparaaaldeia.EmboraAmyjáestivesseacostumadacoma ideia de que estava na Escócia medieval, ela ainda estudava as casas com telhadodepalha,aspessoaseascarroças.Haviaummundomaiorláfora,um mundomedievalqueelanemtinhavistoainda.Aempolgaçãoapercorreucomo umaonda.
Elescavalgarampormeiahora,atéqueascolinascomeçaramasubirese transformaremmontanhas.Lá,AlanaeDiarmidlhesmostraramatrilhaque Elspeth–esseeraonomedamãedeAlana–geralmentepegava.
Elescomeçaramasubir.Umaflorestadensadepinheiros,bétulaseaspen crescia ali. Os topos das montanhas altas estavam cobertos de neve. Amy respirou o ar doce e gelado, seus pulmões queimando por conta do galope rápido.Osolhavianascidoeelasabiaqueafinacamadadenevequecobriao soloeasfolhascaídascomeçariaaderreterembreve.
Amyparouedesceudocavalo.Bemali,nalamacongeladacobertadeneve, haviaumapegada–umapegadadetamanhomédio,ligeiramenteafundada.
“Veja,umapegada”,disseela.
Craigdesceudocavalotambém.Amyestudouosoloeasárvoresaoredor deles.
“Oquevocêestáprocurando?”Craigperguntou.
“Precisodeumgalhoretodequarentapolegadaspararastrearaspegadas.”
Eleencontrouumgalhoqueeramaisoumenosreto.
“Esteserve?”perguntou.
“Sim,vocêpodetirarosgalhosmenores,porfavor?”
Eleacenoucomacabeçaeosremoveucomafaca,entãoentregou-lheo galho.
“Possousarafaca?”elaperguntou.
Osolhosdelebrilharamdealarme.“Porquê?”
“Precisofazeralgunsentalhesnogalhoparamedirotamanhodopéeo comprimentodapassada,paratercertezadequeestamosrastreandoospassos delaenãoosdeoutrapessoa.”
Craigolhouparaelaeparaapegadademaneiraduvidosa.“Nuncaouvifalar dessemétodo.Seissoforumtruque...”
“Estoutedizendo,souboanisso.Nósaencontraremos.Vamos,depressa.”
Eleentregou-lheafacaeelacolocouogalhosobreapegadaemarcouo comprimentoapartirdapontadograveto.Opadrãodasolaeraplano,com saltoplano.Claroqueaspessoasnãotinhamsapatoscomsolasdeborracha estampadasnaquelaépoca,pensou.
Amyseagachouedeslizoulentamenteogalhoparaleloaochãoacimada pegada da posição dez horas para duas horas. Olhando com atenção para a pontadogalho,elaprocuroupelopróximosinal.
“Lá!”apontou.
Umpoucomenosdetrintacentímetrosàfrente,estavaapróximapegada, não tão profunda quanto a primeira e, portanto, menos visível. Ela se aproximou e ficou de joelhos, cuidando para não tocar na trilha. Era uma pegada apenas parcial, com a parte do calcanhar visível. Amy marcou a distânciaentreocalcanhardaprimeirapegadaeocalcanhardasegunda.
“Definitivamente é de uma pessoa mais velha. Você consegue ver que as bordasdoscalcanharesestãoumpoucoborradas?”
Craigagachou-seaoladodela.“Sim.”
“Elaarrastaospés.Talvezestejacansada,masprovavelmenteédecorrente dasuaidade.”
Craigacenoucomacabeça.“Vocêestácerta.Eunãosaberiaoqueprocurar. Comovocêaprendeutudoisso?Quemaensinou?”
BuscaesalvamentonasmontanhasdeVermont.
“Haviaumhomemondeeumorava”,disseela.Eravagoosuficienteparaser
verdade,eerabomnãomentirparaele.“Elepassouavidatodarastreando pessoaseelemeensinou.”
“Masporquevocêseinteressouemrastrearpessoas?”
Elaexaloutrêmula,opeitotensocomamemóriadoceleiroabandonado,as noitesfrias,oestômagovazio,oslábiossecoserachadosdedesidratação.
Masnãopodiacontarissoaele.Nãoapenasporquenãopodiarevelarque eradeoutraépoca,mastambémporquenãotinhacoragemdecontarissoa ninguém.Nãoconseguiaadmitirquesuaprópriavergonhaecovardiatinham lhecolocadonessecaminho.
Outra coisa que acontecera muito mais tarde fizera com que escolhesse trabalharcombuscaeresgatecomoprofissão.
“Umacriançaseperdeu”,ela.
Isso ocorreu em Nova York, para onde ela tinha se mudado para fazer veterinária.Ofilhodovizinhotinhasaídoandandoeseperdeu.
“Eunãopodiadeixá-losozinhoesperando,desesperado,comfomeecom frio.Euencontreiomenino,maisporacasodoqueporconhecimento.Eunão tinhaideiadecomorastrearnaquelaépoca,masquandooencontreievias lágrimasdealívioemseurosto,quandoelemeabraçoutremendoenãome largouatéqueeuoleveiparasuamãe,eusoubequeeraissoqueeuqueria fazer. O que eu estava destinada a fazer. Nunca deixar ninguém se perder daquelamaneiraegarantirquealguémsempreiriaaoseusocorro.”
Craig olhou para ela e piscou. “É muito nobre da sua parte, Amy. Muito gentil.”
Elaencolheuosombros.“Eugostariaquemaispessoassoubessemcomo rastreareresgatar.Masmesmoumasópessoapodefazeradiferença.Mesmo quesejaapenasumavidaquepossosalvar,achoquevaleapena.”
Craigexaloubruscamente.“VocêtemcertezadequeéumaMacDougall?”
Eladeuumarisadinha.“Sim.Achoqueconfundisuamenteagora,nãofoi?”
“Eseupaipermitiuquefizesseisso,sendoumamulher?Vagandosozinha pelasmontanhas,nafloresta?”
Amy lambeu os lábios nervosamente. Certo, as mulheres nessa época provavelmentenãotinhampermissãoparafazermuitoaoarlivre.“Bem,meu professorestavacomigoamaiorpartedotempo.”
Craigestreitouosolhos.“Eununcaouvifalardealgoassim.Issosoamuito estranho.”
“Vocênãoacreditaemmim?”
“Euacredito,oqueéestranho.Vejoqueestámedizendoaverdade,masnão consigo imaginar John MacDougall deixando sua única filha se colocar em perigodessejeito.Ouelenãoseimportacomvocê?”
Amyolhouparaochão.Opai dela certamentenãoseimportavacomela. “Sim, você acertou, Craig. Mas devemos nos apressar. A pobre Elspeth está esperando.”
Elaolhouparaapegadaevarreuacimadosolocomogalhonovamentepara encontrarapróxima.Elescontinuaramassimenquantoosrastrosaindaeram bastantevisíveisnalama.Craigcertificou-sedequeoscavalososseguissem.
Elesconversaramumpoucomaissobreoassunto,comparandooqueCraig sabiasobrerastreamentodeanimaiscomoqueAmysabiasobrerastreamento depessoas.Entãoelescomeçaramafalarsobreoutrascoisas–sobreCraigesua família.QueeletinhaidoparaaInglaterracomseupaietiosduranteosquatro anosemqueBrucetinhasealiadoaEduardIparaseoporàrestauraçãodeJohn Balliol ao trono escocês. Que, durante esse tempo, os Cambels lutaram por EduardI,equeotiodeCraig,Neil,tinharecebidonovasterrasemCumberland pelo serviço. Que a Inglaterra era diferente da Escócia. Embora sua mente estivesse na tarefa de rastrear Elspeth, conversar com Craig era fácil e agradável,eeladesejouqueelespudessemconversarassimparasempre.
Mais ou menos uma hora havia se passado quando o terreno ficou mais rochoso e a floresta mais esparsa. Lá em cima, as pegadas da mulher se tornaramconfusas.Elahaviapisadováriasvezesemummesmolugar,comose estivesseolhandoaoredor.Então,ospassosmudaramdedireção.Amulher tinhasaídodatrilhaeentradonafloresta.
HaviaapenasalgunslugarescobertosdeneveporláeaspegadasdeElspeth agoraestavamescondidasnasfolhascaídas,nagramamortaeentrepequenas pedras.Eramaisdifícilvê-las,masAmyagorasabiaoqueprocurar.Amulher tinhasubidoaencosta,paradonovamente,descansadoemumapedraedepois tomadooutradireção.Estavaclaroqueelaestavaconfusaouperdida.Parecia que estava se movendo devagar, o que era bom, porque os sinais estavam ficandomaisfrescos.Amytambémviugalhosquebradosnosarbustosealguns fiosdelãminúsculospresosneles.
“Achoqueelaestáperto”,disseAmy.“Eusintoissobemlánofundo.”
Eles aceleraram o passo. Às vezes, os sinais ficavam pouco visíveis e
apareciam em uma direção completamente diferente da que Amy havia previsto. E então eles surgiram na frente de um penhasco, onde havia uma caverna.AmyeCraigtrocaramolhares.
“Elspeth!”Amychamou,subindoacolinacorrendoemdireçãoàcaverna. “Elspeth!”
“Elspeth!”Craigrepetiu.Eleamarrouoscavalosaumaárvoreeaseguiu.
Amy parou na entrada da caverna. Quando seus olhos se ajustaram à escuridão,elaviualgocinzaencostadonaparedeaalgunsmetrosdedistância. Elaentroucorrendo.
Haviaumavelhasentadanochão,encostadanaparede.Seucabeloestava desgrenhadosobacapasujaerasgada,ehaviafolhasegramagrudadasnela. Elaestavapálidaetremendoequandoabriuosolhos,estesestavaminjetados desangueeúmidosdelágrimas.
“QueméElspeth?”amulherperguntou.
CraigparouaoladodeAmy.
“Éela”,disse.“Elanãoselembradequemé.Maséela.”
AmysentiuosolhosdeCraigsobreela.“Vocêmantevesuapromessa.Vocêa encontrou”,disseele,eseAmynãoestavaenganada,haviaadmiraçãoemsua voz.
ENVOLVIDA EM MANTAS E COBERTORES,ELSPETH SENTOU-SE NA FRENTE DE AMY NO CAVALO.
Estasesentiaprotetoracomrelaçãoàmulhereinsistiuqueelacavalgassejunto paraqueAmypudessereagirrapidamentesenotassequalquersinaldequeela poderia precisar de ajuda médica. Eles desceram a colina com cuidado, deixandooscavalosescolheremocaminho.Craigcavalgouàfrentedasduas,e Amyficouadmirandoseucorpolargoeforte,oscabelosescuroseondulados que roçavam seus ombros. No que ele estaria pensando agora? Ela tinha mantidosuapromessadenãofugireencontradoamulher.
AlgodentrodoestômagodeAmyseapertou.Elaqueriadesesperadamente que ele gostasse dela, confiasse nela. Porque seu coração estúpido, muito estúpido,estavaseapaixonandoporele.
“Eleéumrapazbonito”,disseElspeth.
Amyolhouparaanucadamulher.
“Nada mal? Deondevocêvem,querida?Nuncaouvininguémfalarcomo vocêantes.”
OhDeus.Seusotaque,novamente.Elaprovavelmenteteriaqueaprendera falarcomoumaescocesasefosseficaralipormuitomaistempo.“Uhm.Eusou AmyMacDougall.”
Elspethdeuumarisadinha.“Não,querida,vocênãoéAmyMacDougall.”
ApeledeAmygelou.AmulhertinhademênciaoutalvezAlzheimer.Nãose lembravaondeerasuacasaouquemeraquandoaencontraram.AmyeCraiga aqueceramelhederamcomidaeágua.Craigqueriadar-lhe uisge,masoálcool eraumadaspiorescoisasqueumapessoapodiaingerirsetivessehipotermia. CraigperguntouaElspethondeeraacasadelaeamulherlheperguntouseele eraoreidosmagoseaestavalevandoparaaterradasfadas.
Então,atéquepontoAmypoderialevaraspalavrasdelaseriamente?No entanto,umarrepiopercorreuseucorpo.
“Sim,eusou”,disseAmy.
“Espere, eu ouvi uma conversa como a sua uma vez ” , disse ela, como se lembrandodealgodeoutraépoca.
“Vocêouviu?”
“Sim.Umhomem,umfunileiroquepassoupelaaldeiaeficouemnossacasa. Foihámuitotempo,minhafilhaeraapenasumacriança.Elecontoumuitas histórias,eumadelaserasobreumamulherqueusouotúnelsoboriodo tempo.Ohomemaconheceupessoalmente.Elecontouqueamulhertinhauma conversamuitopeculiarepelosexemplosqueeledeu,eraexatamenteiguala sua. ”
Amyengoliuemseco.ElaolhouparaCraig,maselenãodeunenhumsinalde quetinhaouvido.
“Oqueaconteceucomamulher?”Amysussurroucomavozengasgada.
“Então,estoucerta,nãoestou?”Elspethsevirouumpoucoeolhoupara Amy.Nãohaviamaisconfusãoemseusolhosazuis.
“Eunãopossolhedizer.”
“Nãosepreocupe,querida.Eunãocontareianinguém.”
“Conte-mesobreessamulher.”
“Nãomelembromuitomaissobreisso,sóqueelaviajouatravésdotempo, vindodofuturo.Elausouarochadotempodospictos.OcasteloComynfoi
“Sim”,disseela.“Elenãoénadamal.”
construídosobreumadessasrochas,sebemmelembro.Meusancestrais,os pictos,oergueram.Sim,minhafamíliaviveaquidesdeoiníciodostempos.Eles construíramafortalezaqueexistialáantesdocasteloeentãofizeramocastelo quevocêsveemagora.”
Amynãoconseguiaacreditarnoqueestavaouvindo.
“Oqueaconteceucomela?”elaperguntounovamente.
“Ela deveria ter guardado seu segredo, isso é o que posso te dizer. As pessoas não acreditaram nessa história e ela foi declarada louca. Ninguém querianadacomelaenenhumapessoaseatreveuaajudá-laouarecebê-la.Ele dissequeelafoiencontradacomagargantacortadanasruasdeumaaldeia. Alguémamatounofinal,commedo,talvez,dequeestivessedizendoaverdade. Com medo de que pudesse abrir o túnel do tempo e deixar muitos outros forasteirosdofuturoentrarem.”
AlgoescuroefrioapertouocoraçãodeAmyeumagotadesuorroloupor entreseusombros.Seaverdadesobreelaserumaviajantedotempoviesseà tona,seriaesseoseudestinotambém?
“Então.”Amypigarreouparaaliviaratensão.“Vocêsabecomoaquelarocha funciona?Comoépossívelativá-la,oualgoassim,eviajarnotempo?”
“Vocêestáaquiporengano?”
“Sim,porenganoeeuprecisovoltar.Porfavor,meajude,Elspeth.”
“Se bem me lembro – e admito, minha memória não é mais tão boa – a mulhertocounarochaecaiuatravésdela,aolongodotempo.”
“Sim,foiissoqueaconteceucomigo...”Amymurmurou.“Eucoloqueiminha mãoemumaimpressãodemãonaquelarocha.Então,seeutocarnovamente, vaifuncionar?”
Elspethficouemsilêncio.
“Elspeth?”
Silêncio.
AmychacoalhouumpoucooombrodeElspeth.“Elspeth?!”
“QueméElspeth?”disseamulher.
Amyresmungouumpouco.“Vocêselembradoqueacabamosdefalar?”
“E quem são vocês?” Ela se virou um pouco, seus olhos enevoados de confusão.Pareciaqueomomentodeclarezahaviaacabado.Quemsabiaseo queElspethtinhaacabadodedizereramesmoverdadeouoprodutodesua doença. Pobre mulher. Deve ser terrível nunca ter controle do que você se lembra
e do que você sabe que é verdade.
Amysuspirou.“MeunomeéAmy.Estamoslevandovocêparacasa,parasua família.”
QuandovoltaramparaInverlochy,AlanaeDiarmidaindaesperavamporela no calor do grande salão. A cabeça de Alana estava apoiada no ombro de Diarmid,seurostoumamáscaradepreocupação.Quandoelaseviroueosviu, seusolhossearregalarameseencheramdelágrimas.
“Oh,mãe!”
ElacobriuabocacomasmãosecorreuemdireçãoaElspeth.Diarmida seguiu.Elapegouamulherconfusaemseusbraços.
“GraçasaDeusvocêestábem”,sussurroucontraocabelobrancodeElspeth esevirouparaCraig.“Obrigada.Ah,vocêéumbomsenhor,temossortedetêlo.Oantigosenhornãoteriafeitoissopornós...”
Amyriupordentro,curiosaparasabercomoCraigreagiria.Seráqueele ficariacomocrédito?Orostoseverodeleficoubrancodesurpresa.
“Nãoéamimquevocêdeveriaagradecer,éaminhaesposa.Eunãoteria encontradosuamãesemela.”
AlanalargouamãeeDiarmidpassouosbraçosemvoltadosombrosda mulher.AlanaseaproximoudeAmyesegurousuasmãos.
“Obrigada,senhora.Obrigadadetodoomeucoração.”
As bochechas de Amy enrubesceram e ela apertou as mãos de Alana de volta. Era por isso que fazia essas coisas. Para colocar sorrisos alegres e aliviadosnorostodaspessoas.
“Imagina”,disse.“Estoufelizqueaencontramosatempo.”
Quando a família reunida saiu do grande salão, Amy soltou um longo suspiro.Elspethnãoselembravadenadadaconversadelasagora,maseseela selembrasse?Amyficoucomanucaarrepiada.
Elaprecisavafazertudooquepudesseparaentrarnaqueledepósitoetocar naquelamalditarocha.Precisavasairdali.Deummundoondeelapoderiaser declarada louca ou morta porque as pessoas teriam medo dela por ser diferente.
ElaolhouparaCraignovamente.
Sóque...quantomaistempoficavacomele,menosqueriavoltarparaum mundosemCraigCambelnele.
Quatro dias depois...
CAPÍTULO17
AMY SAIUDA COZINHA COM DUAS TIGELAS DE ENSOPADO, CAMINHANDO PARA A ESCURIDÃO DA noite.Oclimatinhamudadomaiscedonaqueledia,passandodeensolaradoe gélido para ventoso e quente. A chuva estava chegando – ela podia sentir o cheiroúmidoeintensodesuaaproximação.
Ojantarjáiriaserservidoetodosestavamreunidosnograndesalão.Elaviu Craig caminhando junto com os jovens guerreiros que ele tinha acabado de treinar.Eletinhapraticadoousodeespadascomelesmuitasvezesduranteos últimosdias.Agora,elesorriaealgumasmechasdecabeloestavamgrudadasna testasuada.
Umaimagemapareceuemsuamentesuja–ocorponuemusculosodele,o abdômen definido como planícies acidentadas e os peitorais duros. Amy poderiaseperderneles.Elanãootinhavistosemcamisaainda,maseraassim quetinhaimaginadoocorpodeledepoisqueeleabeijou.Elaquerialamber aquelesmúsculos,fazê-loinclinaracabeçaparatrásegemer.
Craigdeuumtapinhanoombrodeumdosrapazeseodeixouentrarno salão.Eleparouporummomentoeolhouparaela.
Elaficousemar.
Elesorriu.
Osorrisoeratãodesarmanteedocequeelaquasedeixouoensopadocaire correuparaosbraçosdele.
Ele gesticulou para que ela se aproximasse. Tão facilmente. Como se ela
fosse sua amiga. Como se realmente fosse sua amada esposa. Como se não tivessementidoparaeledesdeomomentoemqueoconheceu.
Ela não conseguia respirar, e também não conseguiu deixar de sorrir de volta.Alegriaefelicidadeseespalharamporelacomoaluzdosolquente.
Comoaprimavera.
Elafezumgestocomacabeçaparaeleentrarnosalão.
Eleacenoucomacabeça,seusolhosaindapousadossobreela–nãomais comsuspeita,mascomoseeleseimportassecomela.Comosequisesseter certezadequeelanãoprecisavadeajuda,queelaestavabem.
Eela...elaoobservava,cadadetalhedeseurostobonito:alindacurvade suassobrancelhas,osolhosverde-escuros,abarbacastanha.
Elaestavasedespedindodele.
Entãoeleentrou.
Amy soltou o ar lentamente, tanto aliviada quanto lamentando que o momentotivesseacabado.
Emboraestivesseficandocadavezmaisdifícilirembora,elatinhaqueir. Jennyprecisavadela.Amynãopodiaabandonarsuairmãedeixarquecuidasse sozinhadeseupai.Alémdisso,depoisdeouvirahistóriadeElspeth,estava mais ciente do que nunca do perigo que corria. O que as pessoas fariam se descobrissemaverdade–queelatinhaviajadonotempo?
OqueCraigpensaria...?
Namelhordashipóteses,eleachariaqueelaeralouca.
Napiordashipóteses,eleatrancariaemumamasmorraemalgumlugarou amataria.
Não,não.Elatinhaqueirembora.VoltarparaJenny.
Setudocorressebemestanoite,estariadevoltaemseuprópriotempo.
Tudooqueprecisavafazereraentrarnodepósitosubterrâneo–mesmoque apenasporumminuto.
Astigelasqueimaramsuasmãos,eramelhorseapressar.
Elapassoupelopátioefoiatéatorredoladoleste.Abriuaportacomas costaseseespremeuparadentro.
Comoesperado,haviadoisguardas:HamisheIrvin.Bem,Hamishparecia gostardela.Talvezfossemaisfácillidarcomele.
“Boanoiteparaosdois”,Amydissealegrementeecolocouastigelassobre umbarril.
Elesestavamjogandoalgumtipodejogo,masselevantaramquandoela entrou.
“Boanoite,senhora”,disseIrvin.
Nanoiteanterior,depoisqueCraigeAmyvoltaramdaoperaçãodebuscae resgate,Amytinhalevadoumatigeladeensopadoebolodeaveiacommelpara elesnatorre,paraverseconseguiafazeramizadecomosguardas.Elatinha descobertoque,ànoite,eraIrvineDrummondqueficavamdeguarda.Então, porqueHamishestavaali?Comsorte,esseeraumbomsinal.
“Trouxeojantarparavocêsdois”,disse.“Irvin,eutenhoalgoespecialpara você. Ontem você disse que gostava de ave recheada. Bem...” Ela tirou um pacotedobolsodovestidoeoabriu.Haviaduasavesrecheadaseassadasno fogo.Elatinhaseparadoasduasavesdacaçaquehaviasidotrazidananoite anterioreprepararapessoalmenteestepratoparaIrvineDrummond–depois deperguntaraFerguscomoprepará-lo,éclaro.
OsolhosdeIrvinbrilharam.“Verdade?”eledisse.
“Sim,verdade”elarespondeucomumsorriso.“Naverdade,háumaparao Drummondtambém,masondeeleestá?”
Irvinlambeuoslábios.“Eleestádoente.Assimsobramaisparamim.”
Amyfranziuatesta.“Bem,issonãoseriamuitobondoso,eledeveestarcom fome. Por que você não leva uma para ele, janta e faz companhia para ele? TenhocertezadequeHamishpodeficardeguardasozinhoporumtempo.”
IrvinolhouparaHamish,queencolheuosombros.
“Sim,possoficardeguardasozinho”,disseele.“Nãoqueeuprecisemuitode vocêdequalquermaneira.”Eledeuumagargalhada.
Bem,sim,HamisheramuitomaisaltoefortedoqueIrvin.
“Rá, rá, vá rindo. Vamos ver se você ri quando eu lhe vencer nas cartas quandovoltar.”
Elepegouasaves,atigelaesaiudatorre.
Amy sorriu para Hamish. “Qual é o seu prato favorito? Talvez eu possa cozinharparavocêdapróximavez.”
Hamishsorriu.“Agradeço,senhora.Seuensopadoéomeupratofavorito. Nuncaproveinadatãobom.JuroporDeus.”
Amybalançouacabeça.Elalamentavaestarprestesaenganá-lo.“Vocêé muitogentilemdizerisso.Escute,viumpoucodeporcosalgadoláembaixoe queroadicioná-loaoensopadodeamanhã.Porquevocênãojantaeeuvou
buscá-lo?”
O rosto de Hamish mudou de um sorriso satisfeito para alarmado. “Lá embaixo?Mas,senhora,osenhorfoiclaro,vocênãotempermissãoparairlá.”
“Vocêpodevircomigo,senãoconfiaemmim.Oqueeupossofazerlá?Eusó queroadicionarumpoucodeporcosalgadoaoensopadodeamanhã.Nãoseria delicioso?”
Ele hesitou, estudando-a. Então ela viu algo cintilar em seu rosto – algo comoconstatação.
“Porco salgado”, disse ele com uma ênfase estranha, como se fosse um códigosecretoquesóosdoisentendessem.“Ahh.Claro.Vamosveresseporco salgado,então.”
Amyfranziuatesta.Tinhaalgodeestranhonareaçãodele,maselanão podiasedaraoluxodequestioná-lo.Eleabriuaportaquelevavaasescadase entregou-lheatocha,depoisadeixoupassar.
“Obrigada”,eladisseedesceuasescadas.
Ocheirofamiliardepedramolhadaecomidaarmazenadaaenvolveu.Seu coraçãobatiamaisrápidoacadapassoquedava.Seráqueerarealmenteisso?
Elaestariadevoltaaseutempoemapenasalgunsminutos?
Nodepósito,elaolhouemvolta,aproximandoatochadosbarrisetonéis,e dascarnessecasqueestavampenduradas.
“Nãoestáaqui”,disse.“Euseiqueviemalgumlugar.Deveestarnasalados fundos.”
Hamisholhoudaportaefranziuatesta.“Asalados fundos... ”eledisse.“Sim. Vamosdarumaolhadalá.”
Com a mão trêmula, Amy abriu a pesada porta do depósito dos fundos. Estavacompletamenteescurolá,mesmoemcomparaçãocomasemiescuridão dodepósitoanterior.Estavafrioeaescuridãoeratotal.Vaporsaíadesuaboca enquantoelarespiravaeseupulsobatiaforte.Ocheirodepedramolhada,terra emadeira,ealgoligeiramentepodreaatingiu.Haviapilhasdelenha,debarrise sacos.
Arocha.
Hamish perceberia em um segundo que não havia porco salgado ali. Ela precisavaseapressar.
Passosrápidossoaramatrásdela.Rápido!Amycorreuatéarochaecaiude joelhos.
Ospassosestavammaispróximos.
PorqueHamishnãofeznada?
Haviaoentalhedorioedaestrada–ehaviaaimpressãodamão!
Amyolhouparatrás.Hamisholhavaparaelacomabocaabertaeosolhos arregalados.Então,elaviuIrvinentrarcorrendopelaporta.
Amycolocouamãonaimpressão.Seupulsobatiacomoumpequenotambor contrasuastêmporas.
Mas a rocha não vibrou, não brilhou e sua mão não afundou. Ela estava apenasfria.
“Oquevocêestáfazendoaqui?”elerosnouatrásdela.
Braçosfortesapuxaramparacimaeparalongedarocha.
Irvinolhouparaela.“Osenhorprecisasaberdisso.Vamos.”
Eantesqueelapudessefazerqualquercoisa,eleaarrastouparaforada câmarasubterrânea.