ORGIA DA IMAGEM
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ANA PAULA ALBÉ
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ORGIA DA IMAGEM ANA PAULA ALBÉ
ORGIA DA IMAGEM ANA PAULA ALBÉ
Essa fala parte da releitura do texto “Que fazer?” de Lênin, e propõe a montagem como ferramenta para uma reorganização estética e política. Atravessando diferentes épocas e contextos culturais, a fala explora as relações entre as ideias expressas em Imagem e palavra1, filme de Jean-Luc Godard, e o Teatro Oficina Uzyna Uzona, companhia de teatro baseada em São Paulo. Na virada do século 20, Vladimir Lênin escreveu a obra que se tornaria uma das referências fundamentais da teoria moderna revolucionária. “Que fazer?”2 é tradicionalmente lido como um manual estratégico da consolidação de um partido político. O texto é levado pelo desejo e pela urgência de organizar energias dispersas,
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e de criar uma estrutura capaz de conter os impulsos do seu tempo e projetá-los no futuro. Mas e se, ao relermos esse texto hoje, a “forte organização de combate para o ataque direto”3 pudesse ser entendida como uma proposta de estrutura para o cinema entre outras artes contemporâneas? Ou seja, a construção de um corpo coletivo capaz de organizar a si mesmo, silenciosamente. Essa lógica antecipa a prática da montagem tanto no cinema quanto na política. A montagem de Lênin é a construção, um processo de costura de forças, que é simultaneamente estético e estratégico. Eisenstein compreendeu isso e, radicalizando, fez filmes nos quais o corte é um gesto político. Em 1970, Godard publicou o texto-manifesto “Que fazer?” na revista Afterimage nº1 reformulando a questão ao declarar que não se deve “fazer filmes políticos, deve-se fazer filmes politicamente”4.
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No desejo de formar um corpo múltiplo, ativo e sensível, que não espere por ser recrutado, mas se organize por si, o que era chamado de partido pode ser entendido hoje como um corpo coletivo em permanente montagem. E o que Godard chama de “o filme sendo feito”5, pode ser compreendido como uma fusão de práticas, gestos, imagens e desejos que se conectam sem um centro fixo de comando ou de organização. Godard afirma também que “escrever é pensar com as mãos”6, isto é, um ato do corpo não limitado à construção racional ou intelectual, mas manifestado através da ação e da experimentação de se produzir imagens no mundo. A imagem é comumente compreendida como um espelho, uma representação, algo que mostra ou substitui algo, ilustra outra coisa que não está ali. A ORGIA DA IMAGEM, como proposta aqui, escapa a esse regime de formas fixas porque se estabelece como movimento, fricção e contato.
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O cinema experimental explorou as muitas formas de fusão entre imagem, corpo, gesto e som. Em tais trabalhos, a imagem não busca mais a clareza da forma, mas a sua instabilidade: abre-se ao erro, ao tropeço, ao movimento que escapa ao controle racional. Essa ideia de montagem não se apresenta como uma linha narrativa linear a ser assistida, mas como uma convocação para que as imagens atinjam a sua potência pré-linguística e, ultrapassando os limites da cultura, demandem uma consciência crítica do espectador. A orgia da imagem funciona como uma forma de resistência. Dissolve a rigidez da identidade visual, do objeto autônomo e da cena centralizada. A imagem resiste à obviedade porque busca a experiência latente do espectador. Como propõe Donna Haraway, “nós precisamos de uma visão tentacular, uma visão que toca e que se enreda”7. A orgia da imagem é exatamente esse emaranhamento: não a multiplicação de signos blindados, mas uma política do sentido.
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O cinema, o teatro, e as artes que operam através da montagem alargam as áreas nas quais as fronteiras entre o real e a ficção, entre o sujeito e o coletivo, se tornam porosas. A estética se torna ética porque toca o outro e assume a responsabilidade do excesso. O Teatro Oficina Uzyna Uzona emerge então duplamente como espaço simbólico e real para uma política da imagem e da cidade. Ele é simultaneamente um lugar de resistência histórica e de reinvenção estética radical, comunal, dionisíaca, transgressora e transmutável. Nesse contexto, a imagem deixa de ser uma representação e se torna presença, performance e risco. Fundado em 1958, o Teatro Oficina se manteve como uma comuna transmutável. É mais do que um espaço cênico, é um campo de experimentação política, estética e física. Sua arquitetura aberta, projetado por Lina Bo Bardi, é voltada para a cidade e encarna fisicamente a lógica da fusão e do excesso com alçapões simbólicos sob o teto retrátil.
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A força do Oficina está não apenas no seu legado histórico de resistência à ditadura, ao incêndio e à censura, mas na sua estética da incorporação: o teatro ali se torna parte da cidade, criando um novo corpo: um corpo coletivo. A centralidade do protagonista se dissolve em uma prática que evoca um coro de múltiplas vozes. O indivíduo perde a rigidez da identidade e emerge como parte do fluxo. Fundador do teatro, José Celso Martinez Corrêa, declarava que o Oficina é um teatro que não representa, transa. Zé Celso e Catherine Hirsch, co-diretora e também chamada de “poeta, xamã, mixturadora ... a diretora do diretor” criaram um lugar que se organiza através da instabilidade porque é governado por um princípio dionisíaco no qual a razão se deixa atravessar pelo delírio, onde o tempo do relógio abre espaço para o tempo do ritual e da presença. O teatro aparece como uma força de organização em que o caos transforma e desvia o
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espaço, uma prática que, apesar de contraditória e instável, é profundamente rigorosa em sua liberdade. Corpos atravessam o espaço com intensidade erótica e política. Não há distinção entre cena e bastidores: é a própria cidade que convulsiona dentro da antiga rua que se transformou em teatro. E essa poética é o que permite o público se enlaçar ao corpo coletivo dos atores, se misturar e se fundir como força histórica e estética em um único corpo de memória, desejo e ação. Essa forma teatral se conecta diretamente com a proposta apresentada nesta fala: fazer e pensar a imagem como campo de reorganização política. O Teatro Oficina não apenas encena a resistência, ele a ensaia, invoca e incorpora. Trata-se de um processo de constante preparação: uma combustão controlada, uma convocação contínua do corpo à insurgência. É um teatro que sobrevive porque se recusa a ser fixado, um teatro que é um laboratório para outro tipo de corpo: amoral, múltiplo, inquieto, capaz de
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dançar à beira do colapso. E, nesse sentido, a montagem deixa de ser um instrumento de organização da narrativa para se tornar um ato de fusão. A montagem, aqui, é o espaço em que o choque entre elementos distintos produz sentido. Em 2023 o diretor do Oficina, Zé Celso, faleceu em decorrência de um trágico incêndio em sua casa. Catherine faleceu dois anos depois, em 2025. Pouco depois, pela Cesalpina, árvore plantada no jardim do teatro pela arquiteta Lina BoBardi na década de 1980 e louvada como parte fundamental da memória do teatro tombou durante uma tempestade. O grande tronco caído permanece em cena como ponte entre o palco e o futuro parque do Rio Bixiga. Se Eisenstein entendeu a como uma forma de colisão, Godard a entendeu como pensamento. Como em uma orgia, na qual o centro fixo dá espaço para múltiplos pontos de contato, a MONTAGEM cria imagens em espaços-entre, através de ferramentas como fusão, cross fade, dip to black, dip to white, fade-in ou fade-out.
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E é nesses intervalos que a política se manifesta, não como discurso, mas como fricção, como contato direto. O cinema experimental intensifica essa lógica e, nessa sobreposição, cria uma linguagem através da qual a imagem se torna ato e o corte se torna gesto. A imagem, em excesso, implode e esse colapso abre espaço para uma nova sensibilidade. O ator em cena está em contato e presença. Seu corpo, numa fusão entre gesto e pensamento, é atravessado por imagens. Na lógica da orgia, a montagem se abre para a política do comum, do excesso e do toque. Talvez seja aí, nesse espaço intersticial da fricção, que uma nova ética da imagem pode emergir. A ORGIA DA IMAGEM não é uma figura de excesso nem uma metáfora vazia: ela se propõe como uma forma de ruptura estética e política com os modos dominantes de organização e poder. O que está em cena é a possibilidade de se pensar e agir para além da centrali-
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dade, pureza e hierarquia vigentes. A política da orgia reside no seu movimento de contato. Orgia aqui é tanto método quanto linguagem: um modo de composição no qual o corpo não é um instrumento, mas sim um território de desejo e resistência. A orgia é uma proposta de desmontar para ver, um convite à presença radical, no qual o gesto se torna verbo, o corte é seco e a fricção entre elementos importa mais que a objetividade das imagens. Ao se tomar o corpo coletivo como protagonista e a montagem como seu gesto de escrita, afirmamos uma estética da descentralização e da experiência compartilhada. Essa não é apenas uma operação formal, mas um posicionamento ético e político no mundo atual. Em tempos de conservadorismo ressurgente, de lógica individualista e da estetização superficial da revolta, a ORGIA DA IMAGEM reaparece como espaço de invenção e resistência.
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NOTAS 1. Livre de Image. Suíça / França 2018 • 85 min. Direção e roteiro Jean-Luc Godard 2. Que Fazer? é a principal obra teórica de Lenin sobre a organização do partido revolucionário. Publicado em 1902, o texto argumenta que a classe trabalhadora, por si só, desenvolve apenas uma consciência «sindical». A verdadeira consciência socialista exige uma «vanguarda» organizada por intelectuais e revolucionários profissionais para liderar a revolução https://www. marxists.org/portugues/lenin/1902/quefazer/index.htm 3. A frase “forte organização de combate para o ataque direto” faz parte da célebre obra “Por Onde Começar?” (1901) de Vladimir Lênin. Nela, Lênin defende que, para derrubar a autocracia czarista, o movimento operário precisava superar táticas isoladas e construir um partido de vanguarda centralizado, disciplinado e profissional. 4. In “Que faire?” (também conhecida pelo título em inglês What is to be done?) é o famoso manifesto escrito pelo cineasta Jean-Luc Godard em 1970. O texto foi originalmente publicado na revista inglesa Afterimage (Edição nº 1, abril de 1970).
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5. A frase “un film en train de se faire” (um filme em processo de realização ou um filme sendo feito) é um famoso subtítulo e conceito metalinguístico usado pelo cineasta Jean-Luc Godard em seu filme La Chinoise (1967). https://www.sensesofcinema.com/2005/cteq/ chinoise/ 6. in Livre de Image. Suíça / França 2018 • 85 min. Direção e roteiro Jean-Luc Godard 7. Donna Haraway, “Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene” (2016)
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QUE FAZER? Este texto integra uma das videoconferências apresentadas na mesa Que fazer? Agindo entre arte e política, durante a 22a Conferência Annual de Materialismo Histórico, realizada em Londres, em novembro de 2025. As conferências foram elaboradas a partir de uma proposta decorrente da experiência vivida durante a pandemia. Nesse período, proliferaram nas redes sociais lives em que artistas apresentavam registros de seus próprios trabalhos e os comentavam. Em contraposição ao formato homogêneo e achatado das apresentações em PowerPoint — no qual imagens distintas são reduzidas à mesma escala, materialidade e função ilustrativa —, propõe-se aqui uma reorganização radical das relações entre imagem, texto e fala. Em cada apresentação, era exibido um vídeo no qual pinturas, fotografias, trechos de filmes, ações e manifestações se sobrepunham de maneira densa, caótica e cacofônica, sem
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hierarquias ou ordenações estáveis. Privadas de legendas, dados ou especificações, as imagens recusavam proporções fixas, coerências cromáticas e linearidades temporais, desarticulando os regimes convencionais de leitura e interpretação. Situadas entre a palestra e a “obra”, as videoconferências procuravam instaurar uma experiência sensorial capaz de tensionar os modos habituais de percepção e pensamento, privilegiando a intensidade do encontro entre imagem e texto em lugar da mera transmissão de informações. O texto toma como ponto de partida o manifesto homônimo de Jean-Luc Godard, publicado na edição inaugural da revista Afterimage, em 1970. O título de Godard faz referência ao panfleto de Vladimir Lênin, de 1902, que, por sua vez, se inspira no romance utópico de Nikolai Tchernichévski, publicado em 1863. Esses ecos intertextuais evidenciam os entrelaçamentos entre estética, ideologia e práxis revolucionária.
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Que fazer?, de Lênin, argumentava que a consciência revolucionária não emerge espontaneamente das lutas econômicas da classe trabalhadora; ao contrário, ela deve ser introduzida por uma vanguarda de intelectuais politicamente conscientes. A insistência de Lênin de que “sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário” sustenta a questão persistente sobre o papel dos intelectuais — e, por extensão, dos artistas — nos processos de transformação política. O romance homônimo de Tchernichévski formulava uma crítica radical às estruturas sociais patriarcais e autocráticas, propondo, em contrapartida, uma visão materialista comprometida com a transformação social. Inicialmente voltado para a crítica literária, o autor buscava desenvolver uma teoria estética que não apenas refletisse suas convicções, mas que também posicionasse a arte como ferramenta de transformação social radical.
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O manifesto de Godard, por sua vez, propõe uma abordagem dialética para o cinema, argumentando que não basta fazer filmes políticos; é preciso também fazer filmes politicamente. Ou seja, a própria forma, o processo de produção e a distribuição do cinema devem estar alinhados ao seu conteúdo ideológico. Entretanto, a realidade — diferentemente do cinema — não possui começo, meio e fim claramente definidos; em outras palavras, carece de coerência “narrativa”. Sua escala e complexidade excedem os limites da representação. À luz disso, pergunta-se de que modo práticas artísticas contemporâneas podem mediar as contradições entre representação e intervenção, documentação e imaginação, crítica e cumplicidade. Dora Longo Bahia 12/05/2026
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ORGIA DA IMAGEM autoria: Ana Paula Albé tiragem de 20 1a edição projeto QUE FAZER? Idealização: Dora Longo Bahia / Depois do Fim da Arte Projeto editorial: Ana Paula Albé Projeto gráfico: Nina Lins Produção: Manuela Leite Revisão de texto: Regina Araki Diagramação: Nikolas Suguiyama Impressāo: Inove Grafica Digital Editora: Piscina Pública Edições capa. XXX miolo. offset 90g impressão digital São Paulo 2026
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