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QUE FAZER? A extinção como imagem _ Lara Ovídio

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EXTINÇÃO COMO IMAGEM

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LARA OVÍDIO


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EXTINÇÃO COMO IMAGEM LARA OVÍDIO


EXTINÇÃO COMO IMAGEM LARA OVÍDIO1

A palavra apocalipse tem cinco aparições em O que fazer?, de Nicolai Tchernichévski. Cada uma dessas aparições faz referência ao livro escolhido por Rakhmetov, o revolucionário de hábitos estranhos, na estante de Kirsanov, o professor universitário, a saber: Observations on the Prophecies of Daniel and the Apocalypse of St. John, de Sir Isaac Newton. Na tradução para o inglês, o tradutor Michael R. Katz2 acrescentou a nota de rodapé 163, onde se lê: Newton combinou uma abordagem científica com suas convicções religiosas para tratar as profecias apocalípticas como previsões de futuros eventos históricos. A partir

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de então, as personagens ficcionais de Tchernichévski, como o próprio Newton e outros crentes em previsões apocalípticas, passaram a calcular o tempo restante antes que a profecia da revolução se cumprisse. Esse período acabou sendo de dois anos a partir do momento em que Tchernichévski escrevia o romance, ou seja, 1865. O apocalipse é o centro da triangulação: religião, ciência e revolução. Um certo estranhamento se dá porque, passado um século e meio da publicação do romance, o apocalipse reaparece em narrativas ficcionais e não ficcionais, não como horizonte revolucionário, mas como uma obsessão contrarrevolucionária. Por um lado, bilionários das big techs3 estão mobilizando milhões e milhões de dólares na compra de terrenos e na construção de bunkers privados caso a sobrevivência na superfície do planeta se torne inviável. As ameaças são múltiplas: mudanças do clima, inteligência artificial, ataques nucleares, guerras etc.

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Também financiam iniciativas governamentais como o Svalbard Global Seed Vault [Cofre de Sementes Global Svalbard], na Noruega, que se propõe a proteger as sementes do mundo no caso de um evento de destruição em massa. Por outro lado, o apocalipse prolifera também na imaginação das outras pessoas. Reproduz-se e se espalha por meio de imagens que circulam em plataformas de streaming4, nas notícias e nas mídias sociais. Imagens de imagens que fraturam a sensibilidade e ainda criam o desejo da fantasia de aniquilação total5. O circuito se retroalimenta: a preparação para o apocalipse acelera o próprio apocalipse. O apocalipse está na moda. “A moda fareja o atual, onde quer que ele se mova na selva do outrora”, diz Benjamin6. Kurz complementa: “A moda é o oposto da crítica”7. Dessa forma, à medida que o apocalipse volta a povoar o cotidiano, a sexta extinção em massa avança sem gerar grandes alardes.

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Neste texto, parto da pergunta: por que se tornou tão difícil pensar o apocalipse dentro da chave da revolução, como fez Tchernichévski? Para tanto, discuto imagens da extinção a partir do entrelaçamento entre realidade e imagem, ciência e ficção, arte e entretenimento. E, ainda, por que se tornou tão difícil fazer imagens politicamente na sexta extinção em massa? Aqui, expandindo a ideia de fazer filmes politicamente, que Godard define, em seu manifesto também chamado O que fazer?8, como a tarefa de entender as leis do mundo objetivo com o propósito de transformar ativamente esse mundo.

A EXTINÇÃO COMO FICÇÃO Um século e meio depois da extinção, naturalistas começaram a afirmar que o dodô nunca havia existido9. Tentaram dar ao pássaro a existência mítica das sereias. Foi o livro The Dodo and its Kindred10 que trouxe a espécie de volta

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à realidade. As representações não seriam suficientes para comprovar sua existência. As ossadas incompletas fizeram com que os dodôs entrassem para a história como colagem. A fotografia do esqueleto de dodô, de Broomberg e Chanarin11, apresenta o pássaro como reconstrução aproximada. O exemplar empalhado do Museu de História Natural de Londres é uma mescla imprecisa12: partes de pássaros rearranjadas à imagem e semelhança da imaginação do seu criador, Rowland Ward. As pinturas e os desenhos se pretendiam científicos, mas eram aproximações grosseiras. Uma ficção que explorava a estética científica. As representações consolidaram o dodô como um pássaro grande, gordo, tolo e lento. Serviram para expiar a culpa do extermínio. De repente, o dodô precisou ser ressimulado. Tornou-se esbelto, musculoso e veloz13. O rebranding coincide com o avanço das tecnologias de edição genética. O pássaro que mereceu ser extinto agora merecerá, talvez,

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a desextinção. A inexistência de exemplares vivos faz da própria simulação um referente. Do escaneamento dos indícios do passado, eclode o futuro. Da cópia da imagem, irrompe a realidade: Dodô 2.0. Ficção científica encarnada. Imagem da imagem da imagem da imagem. Imagem de carne e osso.

A EXTINÇÃO COMO ENTRETENIMENTO O futuro próximo deseja recriar o passado remoto. Bem Lamm, da Colossal Biosciences, e George R. R. Martin, autor de Game of Thrones, posam para fotografias segurando Rômulo e Remo. Lobos-terríveis, bebês fofinhos. Imagens são geradas em úteros para uma realidade renderizada em After Effects14. Animais extintos há dez mil anos, lobos-terríveis, nascem de fêmeas de lobos-cinzentos. A edição de genes corresponde à edição de imagem: pós-produção cinematográfica. A

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nova espécie é visualmente idêntica aos lobos-terríveis de Game of Thrones. A imprecisão genética intransponível é neutralizada pela precisão visual. A precisão visual tem como parâmetro a indústria do entretenimento: a ficção. A noção de precisão se degradou em sonho antiquado. Já não tem lugar no mundo da inteligência artificial generativa15. A imprecisão não é efeito colateral. É método da aceleração. A desextinção não é do ramo da paleontologia genética. É do ramo da mídia. É do campo das big techs. É causa e consequência da produção e circulação acelerada de imagens. A imagem falha. A realidade falha. O elenco de A era do gelo está a caminho. Ratinhos hiperfofos são cavaleiros do apocalipse. Ensaiam a pelagem do mamute-lanoso. Estes camundongos transgênicos, longe de despertar horror, evocam ternura. Junto com dodôs e tigres-da-tasmânia, retornarão ao mundo para ter o privilégio de serem extintos outra vez. A extinção perdera a irreversibilidade que lhe era característica. O bucardo já foi extinto mais de

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uma vez. A primeira, como espécie; a segunda, como imagem. A primeira, como tragédia; a segunda, como entretenimento. O high tech vai se confirmando low life e alt-right. A suposta desextinção dos lobos-terríveis acelera mudanças perigosas na política de proteção animal dos Estados Unidos. “É tempo de mudar fundamentalmente como pensamos sobre a conservação de espécies”, escreve o secretário do Interior, Doug Burgum, em um post no X. Ele também disse que essa conquista, a desextinção, demonstrava que não são as regulamentações governamentais, mas a inovação que salvará espécies16. Os novos fatos se apressam. Vêm para nada alterar. O poder da desextinção é acelerar a extinção.

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A EXTINÇÃO COMO ESPETÁCULO O céu de Nova York foi encoberto em junho de 2023 por uma neblina alaranjada tóxica. A CNN comparou as imagens às cenas do filme de ficção científica Mad Max: estrada da fúria17. O filme enterrou as imagens do futuro pós-apocalíptico dessaturado e esmaecido no passado18, dando início à era do futuro catastrófico-colorido-vibrante-supersaturado. Os céus do futuro visitam o presente periodicamente. Vieram a São Paulo em setembro de 2024. A fumaça se originou em uma série coordenada de incêndios criminosos. O país inteiro ardeu em chamas. Os céus rosa, laranja e vermelho tomaram as redes sociais, assim como as imagens de satélite de um território de dimensões continentais em chamas. Dos céus fluorescentes aos mísseis iranianos19, o apocalipse se superestetizou. As imagens que o reproduzem também o trans-

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formam. De acordo com Susan Sontag, “a necessidade de fotografar tudo repousa na lógica do consumo em si. Consumir significa queimar, esgotar – e, portanto, ter de se reabastecer”20. A catástrofe se transforma em um estímulo à proliferação superacelerada de imagens. É por meio da imagem que o fim do mundo se transmuta em mercadoria. É como imagem que se integra ao fluxo incessante de capital. As aparências nítidas oferecidas por 200 megapixels alteram o mundo que lhes dá origem. Longe de dissimular a realidade, a transformam. O mundo se reordena para servir à imagem. O céu do futuro se reproduz – como foto, meme, trend – sem origem nem fim: loop. Imagens que repetem imagens que repetem imagens. Em seu excesso, emulam relações sociais. O senso de comunidade se restabelece no feed e logo se esvai. Pessoas se conectam pela possibilidade de produzir uma mesma imagem. Imagens de céus vibrantes vão se diluir na próxima onda. Inúmeras adquirem valor enquanto

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fenômeno coletivo, sem restabelecer coletividade. Dissolvem toda possibilidade de ação em ação fotográfica.

IMAGENS EM EXTINÇÃO The End of the World é o nome da instalação avermelhada de Alfredo Jaar, que foi apresentada em 2024 no KINDL – Centre for Contemporary Art, em Berlim. Um enorme galpão medindo 20 × 20 × 20 m, com paredes brancas, iluminado por luzes vermelhas, é ocupado por um cubo preto. Sobre o cubo está apoiado um “cubo de 4 × 4 × 4 cm composto por camadas de matérias-primas: cobalto, terras raras, cobre, estanho, níquel, lítio, manganês, coltan, germânio e platina – dez metais estratégicos essenciais para a digitalização, a eletromobilidade, as aplicações de alta tecnologia e os meios de armazenamento”21. A pequena escultura remonta ao minimalismo, mas também aos displays de joias. Se as cha-

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pas de metal parecem enigmáticas, o panfleto que acompanha a obra, carregado de informações e trabalhado à maneira didática do Museu de História Natural, revela a ligação entre esses metais e as energias “verdes”, entre esses metais e a proliferação acelerada de imagens, entre esses metais e as tecnologias militares, entre esses metais e o futuro do planeta. O trabalho dá materialidade à informação, às imagens, à energia e às tecnologias de inteligência artificial; ele é, em si mesmo, ambíguo. Para existir, teve que se tornar parte do “negócio sujo” da extração. Os metais em chapas refazem os percursos das profundezas da mineração para os centros do capital, mas, dessa vez, não são obliterados pelos designs high tech. Assim, a instalação tenta abarcar a ambiguidade dos metais cuja extração é frequentemente justificada pelo papel que teriam na desaceleração do fim do mundo, quando, na verdade, podem manter o processo em constante aceleração.

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NARRATIVAS EM EXTINÇÃO Kleinman, editora de tecnologia da BBC, conta que certa vez conheceu um ex-guarda-costas de um bilionário que tinha seu próprio “bunker” e que lhe disse que a primeira prioridade de sua equipe de segurança, se o fim do mundo realmente acontecesse, seria eliminar o chefe e entrar no bunker22.

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* Este texto foi elaborado a partir de excertos da tese de doutorado Ressaca Final, desenvolvida no PPGAV/ECA-USP, sob orientação da Profa. Dra. Dora Longo Bahia.

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NOTAS 1. Doutora em Artes Visuais pela ECA-USP, realizou período sanduíche na University of the Arts London, com bolsa da CAPES. Integrante do grupo de pesquisa Depois do Fim da Arte, coordenado por Dora Longo Bahia. Professora de fotografia no Instituto Federal do Rio de Janeiro, Campus Belford Roxo. 2. Menção à nota de rodapé 163, escrita pelo tradutor Michael R. Katz. In: CHERNYSHEVSKY, N. What Is to Be Done? Ithaca: Cornell University Press, 1989, p. 273. 3. ROLFINI, F. De bunkers a estoques de armas: como bilionários de big techs se preparam para um possível apocalipse. Época Negócios, 01 jul. 2025. Disponível em: https://epocanegocios.globo.com/mundo/ noticia/2025/07/de-bunkers-a-estoques-de-armascomo-bilionarios-de-big-techs-se-preparam-para-umpossivel-apocalipse.ghtml. Acesso em: 20 abr. 2026. 4. Della Torre menciona os seguintes filmes no texto “A imaginação apocalíptica”: O dia depois de amanhã (2004), Fim dos tempos (2008), O livro de Eli (2010), Terremoto: a falha de San Andreas (2015), Tempestade: planeta em fúria (2017), Aniquilação (2018), o enfadonho e hiperdiscutido Não olhe para cima (2021), Estação 11 (2021), Deixe o mundo para trás (2023) e a

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série O expresso do amanhã (2020–2023). In: DELLA TORRE, B. A imaginação apocalíptica. Blog da Boitempo, 22 jul. 2025. Disponível em: https://blogdaboitempo.com. br/2025/07/22/a-imaginacao-apocaliptica/. Acesso em: 20 abr. 2026. 5. DELLA TORRE, 2025. 6. BENJAMIN, W. Constelação como crítica à linearidade histórica. “Sobre o conceito da história”, capítulo de O anjo da história. In: BENJAMIN, W. Constelações. Tradução João Barrento. Organização e apresentação Thiago Soares. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2025. 7. KURZ, R. Prefácio à edição brasileira: A sociedade do espetáculo trinta anos depois. In: JAPPE, A. Guy Debord. Tradução de Iraci D. Poleti. Petrópolis: Vozes, 1999. 8. GODARD, Jean-Luc. What Is to Be Done? (1970). Publicado originalmente em: Afterimage, n. 1, abr. 1970. Tradução de Mo Teitelbaum. Disponível em: https://www. diagonalthoughts.com/?p=1665&utm. Acesso em: 6 abr. 2026. 9. KIBERD, R. O dodô não era como você imagina. Tradução de Ananda Pieratti. Vice, 19 mar. 2015. Disponível em: https://www.vice.com/pt/article/o-dodonao-era-como-voce-imagina/. Acesso em: 23 jul. 2025. 10. Autoria de Hugh Strickland e Alexander Melville.

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11. FIG. 13. Série FIG. Fóssil de dodô fotografado por Broomberg e Chanarin no The Booth Museum of Natural History, em Brighton. Disponível em: https://www. broombergchanarin.com/fig. Acesso em: 23 jul. 2025. 12. KIBERD, 2015. 13. TIMPERLEY, J. “It’s Just a Weird, Weird Bird”: Why We Got the Dodo so Absurdly Wrong. BBC, 15 jul. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/future/ article/20250714-why-history-got-the-dodo-so-absurdlywrong. Acesso em: 4 set. 2025. 14. STEYERL, H. Hito Steyerl: Três capítulos de Arte “Duty Free”: arte na era da guerra civil planetária. Tradução de Carolina Eiras Pinto. ARS, v. 18, n. 39, p. 291-308, 2020. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.21780447.ars.2020.172037. 15. “Apesar de todos os nossos esforços, eles sempre irão alucinar”, disse Amr Awadallah, diretor executivo da Vectara. METZ, C.; WEISE, K. A.I. Hallucinations Are Getting Worse, Even as New Systems Become More Powerful. The New York Times, 5 maio 2025. Disponível em: https://www.nytimes.com/2025/05/05/technology/ ai-hallucinations-chatgpt-google.html?ref=darkread.io. Acesso em: 4 set. 2025. 16. Excerto baseado nas declarações de BURGUM, D., s.d. (post na rede social X), apud GRANDONI, D.

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Trump Team Cites Wolf “De-extinction” as It Seeks to Cut Endangered Species List. Washington Post, 10 abr. 2025. Disponível em: https://www.washingtonpost.com/ climate-environment/2025/04/10/trump-endangeredspecies-protections-dire-wolves/. Acesso em: 4 set. 2025. 17. FRITZ, A. Why Skies in the Northeast Are Turning Orange from the Smoke. CNN, 8 jun. 2023. Disponível em: https://edition.cnn.com/2023/06/08/weather/orangesky-smoke-explained. Acesso em: 4 set. 2025. 18. “George [Miller] tinha assistido a 30 anos de outros filmes pós-apocalípticos e percebeu que todos usam o mesmo visual desbotado e dessaturado. Sabíamos que não queríamos fazer mais um filme assim, então tivemos de encontrar uma maneira de torná-lo saturado e rico.” In: WHIPP, E. Mad Max: Fury Road. Lowepost. Disponível em: https://lowepost.com/casestudies/madmax-fury-road-r9/. Acesso em: 4 set. 2025. 19. UOL. MÍSSEIS do Irã são vistos durante festa de casamento libanesa perto da fronteira com Israel. YouTube, 15 jun. 2024. Disponível em: https://www. youtube.com/shorts/rh4ABhSmTyk. Acesso em: 4 set. 2025. 20. Excerto alterado de SONTAG, S. O mundoimagem. In: SONTAG, S. Sobre a fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 195.

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21. BECKER, K. Introduction. In: BECKER, K.; BOBETTE, A. Booklet Alfredo Jaar - The End of the World. KINDL – Centre for Contemporary Art, 2024. Disponível em: https://static1.squarespace.com/ static/52d5a4d2e4b0c284f55dee4c/t/673c937d381a 031ac73e5ede/1732023165877/KINDL-BroschuereAlfredo+Jaar-en.pdf. Acesso em: 20 abr. 2025. 22. KLEINMAN, Z. Chefões das big techs se preparam para “fim dos tempos”: devemos nos preocupar também? BBC News Brasil, 10 out. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ c5ye12q20wvo. Acesso em: 20 abr. 2026.

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QUE FAZER? Este texto integra uma das videoconferências apresentadas na mesa Que fazer? Agindo entre arte e política, durante a 22a Conferência Annual de Materialismo Histórico, realizada em Londres, em novembro de 2025. As conferências foram elaboradas a partir de uma proposta decorrente da experiência vivida durante a pandemia. Nesse período, proliferaram nas redes sociais lives em que artistas apresentavam registros de seus próprios trabalhos e os comentavam. Em contraposição ao formato homogêneo e achatado das apresentações em PowerPoint — no qual imagens distintas são reduzidas à mesma escala, materialidade e função ilustrativa —, propõe-se aqui uma reorganização radical das relações entre imagem, texto e fala. Em cada apresentação, era exibido um vídeo no qual pinturas, fotografias, trechos de filmes, ações e manifestações se sobrepunham de maneira densa, caótica e cacofônica, sem

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hierarquias ou ordenações estáveis. Privadas de legendas, dados ou especificações, as imagens recusavam proporções fixas, coerências cromáticas e linearidades temporais, desarticulando os regimes convencionais de leitura e interpretação. Situadas entre a palestra e a “obra”, as videoconferências procuravam instaurar uma experiência sensorial capaz de tensionar os modos habituais de percepção e pensamento, privilegiando a intensidade do encontro entre imagem e texto em lugar da mera transmissão de informações. O texto toma como ponto de partida o manifesto homônimo de Jean-Luc Godard, publicado na edição inaugural da revista Afterimage, em 1970. O título de Godard faz referência ao panfleto de Vladimir Lênin, de 1902, que, por sua vez, se inspira no romance utópico de Nikolai Tchernichévski, publicado em 1863. Esses ecos intertextuais evidenciam os entrelaçamentos entre estética, ideologia e práxis revolucionária.

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Que fazer?, de Lênin, argumentava que a consciência revolucionária não emerge espontaneamente das lutas econômicas da classe trabalhadora; ao contrário, ela deve ser introduzida por uma vanguarda de intelectuais politicamente conscientes. A insistência de Lênin de que “sem teoria revolucionária não pode haver movimento revolucionário” sustenta a questão persistente sobre o papel dos intelectuais — e, por extensão, dos artistas — nos processos de transformação política. O romance homônimo de Tchernichévski formulava uma crítica radical às estruturas sociais patriarcais e autocráticas, propondo, em contrapartida, uma visão materialista comprometida com a transformação social. Inicialmente voltado para a crítica literária, o autor buscava desenvolver uma teoria estética que não apenas refletisse suas convicções, mas que também posicionasse a arte como ferramenta de transformação social radical.

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O manifesto de Godard, por sua vez, propõe uma abordagem dialética para o cinema, argumentando que não basta fazer filmes políticos; é preciso também fazer filmes politicamente. Ou seja, a própria forma, o processo de produção e a distribuição do cinema devem estar alinhados ao seu conteúdo ideológico. Entretanto, a realidade — diferentemente do cinema — não possui começo, meio e fim claramente definidos; em outras palavras, carece de coerência “narrativa”. Sua escala e complexidade excedem os limites da representação. À luz disso, pergunta-se de que modo práticas artísticas contemporâneas podem mediar as contradições entre representação e intervenção, documentação e imaginação, crítica e cumplicidade. Dora Longo Bahia 12/05/2026

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EXTINÇÃO COMO IMAGEM autoria: Lara Ovídio tiragem de 20 1a edição projeto QUE FAZER? Idealização: Dora Longo Bahia / Depois do Fim da Arte Projeto editorial: Ana Paula Albé Projeto gráfico: Nina Lins Produção: Manuela Leite Revisão de texto: Regina Araki Diagramação: Nikolas Suguiyama Impressāo: Inove Grafica Digital Editora: Piscina Pública Edições capa. XXX miolo. offset 90g impressão digital São Paulo 2026


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