P I S C I N A P Ú B L I C A EDIÇÕES PROJETO CINEZINE
RECORTA-SE A TERRA e induz-se a passagem d’água camila alba
Há um resquício d’água – uma massa d’água contida [...] Tornou-se resquício.
Rejeito de um processo produtivo-extrativista mantido próximo demais.
No princípio: recorta-se a terra e induz-se a passagem d’água.
O rio é domado feito boi,
cuja caminhada engenha energia.
Maquinários escavam, sugam e despejam matéria.
Ainda: não há como alcançar a borda;
um erro sistêmico-estrutural – um recorte de espaço não renderizado.
O operador do software não fazia ideia das consequências de seu traçado.
Ao percorrer seu leito, dentro dos limites condicionados, o que se vê são grandes monolitos uniformes.
[...] como se aquela paisagem, complexa,
fosse estranhamente feita quase que toda d’água, vidro e concreto armado.
Em seu centro, a maquete do plano-edifício faz a vez de boneco voodoo.
Um objeto que mimetiza a realidade e cuja realidade se faz mimetizada, sobre o qual poder-se-ia expressar vontades e emoções:
arrancar raízes, movimentar curvas, adicionar coberturas; inundar áreas, aterrar águas, conectar bordas –
– erguer gabião.
Na escala do rio: imagino-os esticando-o feito corda.
A água correrá em direção a grandes bacias contenedoras, previuse.
Pás se movimentarão em torno de um eixo capaz de transformar água em energia, instalada – enfim –
sobre um recorte de terra, disposto ao longo de seu leito, reservado à materialização do objeto-progresso final.
Edifícios-monumentos – obras de arte – que nos fariam recordar a capacidade humano-máquina.
[...] dita-se o rumo do rio do mesmo modo como faz-se erguer volumes envidraçados.
Uma intervenção em sítio bastante específico: reconstruir o Rio Pinheiros em prol de uma nova São Paulo
só seria possível em São Paulo e por meio de intervenção sobre o Rio Pinheiros.
Na escala do tempo, tudo teria acontecido muito rápido – e tudo ainda estaria para acontecer.
Confusos entre o tempo da maquete e o tempo do espaço edificado, torna-se incerto qual dos planos seria o desejado.
Não é claro, ainda, se fotografou-se maquete ou espaço habitado.
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cenas de paisagens distópicas antropomorfizadas sobrepõem-se nesse curta estático que conduz o leitor pelas águas tóxicas de um rio-máquina submerso pela falácia da tecnocracia, desafiando-o a vislumbrar uma saída – outras águas e outros modos de movimentá-las. a resposta estaria no centro – no plano que deu origem a tudo – não fosse, ao fim, a impossibilidade de identificá-lo.
PROJETO CINEZINE LIVRO 1 projeto editorial ANA PAULA ALBÉ NINA LINS diagramação FERNANDA PUJOL impressão INOVE GRÁFICA papel miolo OFFSET 90 G/M2 capa VITA SOLID PAPIRUS TRIPLEX 250 G/M2 isbn 978-65-85619-22-6
projeto gráfico