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AMI Notícias nº 83

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N.º 83 Distribuição Gratuita 4.º trimestre de 2021

notícias

Entrevista

Nurjahan Khatun Afeganistão

Especial Direitos das Mulheres

UMA CRISE INSTALADA Pobreza no Feminino

AGORA TAMBÉM EM

FORMATO DIGITAL

UMA REALIDADE QUE PERSISTE


Foto: AMI

ACEDA À VERSÃO DIGITAL DA AMI NOTÍCIAS

04 | Mulheres – A luta pela igualdade

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Brasil – Marias em ação Afeganistão - Uma crise instalada Entrevista – Nurjahan Khatun Pelo fim do casamento infantil nos Camarões

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14 | Pobreza no feminino:

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Uma realidade que persiste

16 | Feministas na história 18 | AMI convida – Ana Sofia Fernandes 19 | Breves Nacional, Internacional, Mecenato

22 | Agenda + Loja AMI 23 | Informações

Este número da AMI Notícias foi editado com o especial apoio da revista VISÃO (Distribuição), COMPANHIA DAS CORES (Design), LIDERGRAF (Impressão e Acabamento) e CTT – Correios de Portugal Autorizada a reprodução dos textos desde que citada a fonte. AMI Fundação de Assistência Médica Internacional R. José do Patrocínio, 49, Marvila, 1959-003 Lisboa ami.org.pt | fundacao.ami@ami.org.pt | MB WAY: 962 777 431 Ficha Técnica Publicação Trimestral Diretor Fernando Nobre Diretora Editorial Luísa Nemésio Edição Ana Ferreira Redação Marina Bertolami Fotografias AMI Paginação Companhia das Cores – Ana Gil, Lúcia Antunes Tiragem 56.000 exemplares Depósito Legal DL378104/14

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© Gabriela Nemésio Nobre

SUMÁRIO + EDITORIAL

AFEGANISTÃO E HAITI: TRAGÉDIAS JÁ ESQUECIDAS MAS SEM FIM À VISTA!

Enquanto médico humanitário há mais de quatro décadas, cidadão do Mundo e humanista desde que me conheço, é com um profundo sentimento de perplexidade e angústia que penso nestes dois países e nos seus povos, que bem conheço. As suas gentes sofridas, em particular as mulheres, sempre as maiores vítimas junto com os seus filhos, estão de novo a viver tragédias inimagináveis num fundo de distopia secular, com a agravante de agora o nosso Mundo, como um todo, estar mergulhado numa distopia global. “A Nova (des)ordem Mundial” que nada tem, nem de humano nem de divino, e que sai, pois, da ordem natural das coisas… Mas voltemos ao Afeganistão e ao Haiti onde a AMI vem marcando presença, desde há vinte anos no primeiro e onze no segundo: Na fronteira com o Afeganistão, a AMI começou por financiar a construção de um grande centro de saúde, em Peshawar no Paquistão, para prestar atendimento médico às muitas centenas de milhares de refugiados afegãos que aí se amontoaram em 2001, depois do ataque às torres gémeas de Nova Iorque. Mais tarde construiu uma grande escola na periferia de Jalalabad, a meio caminho entre Peshawar e Cabul, para mais de 300 crianças (meninas de manhã e meninos à tarde) e um posto de saúde de apoio aos alunos e à população. Para que tal fosse possível, foram necessárias longas conversas com cerca de 30 chefes tribais Pachtuns que aprovaram e acarinharam os projetos da AMI para que as crianças, em particular as meninas, pudessem frequentar a escola. Espero que continue a funcionar, e que as meninas continuem a poder instruir-se e desejo, ainda que sem grande esperança, que aquele magnífico povo encontre a Paz!

Fernando de La Vieter Nobre Presidente e Fundador da AMI

Não me basta a consolação de saber que, durante os últimos quinze anos, mais de 300 meninas por ano puderam ter acesso à educação na escola financiada por nós. No Haiti, já antes do tremendo terramoto de 2010, a AMI estava a atuar com parceiros locais na saúde e na prevenção de catástrofes. Durante e após o terramoto, até hoje, a AMI sempre atuou em benefício das pessoas mais vulneráveis do país. O Haiti, tal como o Afeganistão, tem uma história trágica e de séculos. Primeiro país da América Latina a tornar-se independente (1804), pagou caríssimo a sua independência sendo esta reconhecida internacionalmente apenas na década de 1860 somente e após esmagadora compensação imposta pela ex-potência colonial europeia. Tal injustiça e a terrível História que se seguiu, hipotecou para sempre o seu desenvolvimento, continuando a ser um dos países mais miseráveis do planeta. Com o recente assassinato do seu presidente e o último terramoto que abalou o país, a AMI reforçou a sua ajuda. Também, no que concerne a este país, onde estive várias vezes, e onde a AMI financiou e apoiou, entre outros projetos, uma rede de rádios locais desenvolvida por iniciativa de mulheres, resta-me esperar que encontre enfim a Paz e o Desenvolvimento tão merecidos. Infelizmente, tal como para o Afeganistão, estou cético. A “Nova (des)ordem Mundial” em curso, só agrava o meu ceticismo, a menos, como clamo há muitos anos, que a Cidadania Global Solidária e Humanista, última Fortaleza contra o Apocalipse, se consiga impor, para que possamos todos ver a tão esperada Nova Aurora de Humanismo e Amor entre os Povos. Resta, pois, continuar a trabalhar sem trégua para que tal se concretize. | 03


MULHERES: A LUTA PELA IGUALDADE Olhando para a história, a luta das mulheres pela igualdade de género tem tido resultados concretos e muito significativos, embora a importância do tema nem sempre reúna consenso, dificultando o caminho percorrido, ainda sem fim à vista. A igualdade plena de direitos civis face aos homens tem criado correntes de mobilização desde o sufragismo do século XIX ao movimento feminista dos dias de hoje. Não será a garantia de direitos e liberdades da mulher recompensadora para o homem também? Quando nos debruçamos sobre o assunto da igualdade entre mulheres e homens, é importante definir o que é o sexo e o que é o género. Seres humanos com sistemas biológicos semelhantes que se distinguem por fatores como os seus cromossomas (Mulheres XX, Homens XY), os seus órgãos reprodutivos e hormonas (estrogénio e testosterona) que levam a processos cognitivos distintos– estes são os elementos que definem o sexo: Feminino, Masculino. No campo da sociologia, o género é definido como uma construção social. Refere-se aos “papeis” que se espera que mulher e homem desempenhem na sociedade em função do seu sexo. Ao longo dos tempos são estas “expectativas” sobre os seus papeis que têm gerado desigualdades sociais e identitárias profundas, que podem e têm de ser desconstruídas. A luta pela igualdade de género e todos os movimentos associados têm como desígnio acabar com a perpetuação de padrões históricos e estruturais que alimentam estereótipos negativos baseados no género. Estes estereótipos lesam primeiramente as liberdades fundamentais da mulher num mundo em que persiste uma cultura de patriarcado - ordem social em que o homem se encontra no centro da vida social, política, familiar, etc. Reivindicam-se questões e direitos fundamentais que percorrem toda a esfera da vida da mulher, desde o acesso à saúde e educação, direitos sexuais e reprodutivos, melhores oportunidades laborais, salários não discri-

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minatórios, acesso a cargos de poder, violência doméstica como crime público, autodeterminação corporal e tarefas domésticas e parentais reconhecidas, entre outras questões. De acordo com as Nações Unidas, por cada dólar que o homem recebe, a mulher recebe 77 cêntimos, o que se traduz numa disparidade salarial baseada no género na ordem dos 23%, globalmente. Estas assimetrias de poder levaram à normalização de um sistema de violência generalizada contra as mulheres dentro e fora de casa, no trabalho e no espaço público. Esta violência assume diversificadas formas, não é apenas física ou emocional. A hipersexualização da mulher é também uma forma de violência, mas em qualquer parte do mundo uma prática consensualizada, nomeadamente em determinadas indústrias, como da moda ou do cinema. Para expor esta realidade, o movimento #metoo foi um verdadeiro murro na mesa. Gerou uma onda de denúncias e de criminalização sem precedentes sobre homens que usaram o seu poder para assediar, violar e atentar à integridade de centenas de mulheres. Nesta edição da AMI Notícias iremos explorar o tema dos Direitos das Mulheres e da igualdade de género, falando com mulheres com várias histórias e de diversos pontos do globo que lutam diariamente para que o amanhã venha a ser próspero e mais igual para todas.


BRASIL MARIAS EM AÇÃO! A ACOM - Associação Comunitária de Milagres, no Estado do Ceará, lançou em julho de 2021 um novo projeto intitulado “Marias em Ação: Direitos, vivência e dignidade em tempos de Covid-19". Com uma duração de 8 meses, este projeto está orçado em 4.890 Euros financiados pela AMI. A ACOM surgiu nos anos 90, da vontade de um conjunto de mulheres em melhorar as condições de vida das suas comunidades e da região. Começou por ser um centro onde mães com responsabilidades laborais podiam deixar os seus filhos durante o dia, ao cuidado das assistentes sociais da Associação. Daí, nasceram diversas outras intervenções voltadas para o trabalho com crianças e jovens, agricultores e meio ambiente e também na área da saúde, uma vez que na época em que a entidade foi fundada não existia nenhuma unidade de saúde a menos de 40 quilómetros de distância e eram significativos os casos de mortes maternas e neonatais. Em 1995, em resultado do esforço da ACOM, foi construído o Hospital e Maternidade Madre Rosa Gattorno, do qual a AMI foi parceira e financiadora. Embora hoje o acesso a cuidados de saúde primários para mulheres e crianças esteja assegurado, colocam-se outras problemáticas na região, nomeadamente os elevados índices de violência doméstica e de género. “Marias em Ação” é um projeto de ação alargada e centrado no fortalecimento do papel de liderança das mulheres de Milagres, que estão ativamente envolvidas no desenvolvimento das suas comu-

nidades e na luta contra a desigualdade social e de género, mas que têm sido afetadas pela pandemia de Covid-19. “A cada cinco minutos existe um ato de violência contra uma mulher brasileira, e as mais vulneráveis são as mulheres nordestinas (…) Este projeto já ajudou muitas delas, através da capacitação, de cursos e encontros. Trabalhámos também a questão da tecnologia: aqui as mulheres vivem em casa onde não existe um telefone, estão desconectadas. Este projeto vem apoiar diretamente 80 mulheres através da promoção de ações de sensibilização via rádio e redes sociais para abordar temas relacionados com a discriminação social e racial, a violência de género e incentivar a mudança de comportamento da população, realizando mentorias, e acompanhamento psicossocial, entre outras iniciativas. Maria Eudair Oliveira da Silva, beneficiária e voluntária da ACOM, conheceu a Associação em 2014. No mesmo ano, inscreveu-se no curso de informática oferecido pela ACOM, onde acabou por fazer um estágio. Este curso deu-lhe vontade e ferramentas para procurar uma formação no ensino superior na área de Biologia e a especializar-se em Desenvolvimento Sustentável. “Esta instituição ajudou-me e hoje sou eu quem ajuda outras mulheres que precisam de suporte” conta-nos Maria com um sentimento de orgulho. Muitas das mulheres apoiadas no projeto “Marias em Ação”, foram recrutadas do “lixão”, faziam a coleta do lixo na rua, muitas vezes acompanhadas pelos seus filhos. A ACOM veio incentivá-las na procura de algo diferente, fontes de rendimento alternativas, capacitando-as e encorajando-as a não parar de perseguir um amanhã melhor.

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AFEGANISTÃO UMA CRISE INSTALADA Um Afeganistão livre é agora e apenas uma memória recente. Após Ashraf Ghani, o antigo presidente, ter abandonado o palácio presidencial e o país, as portas do poder e da história foram arrombadas, uma vez mais pelos talibã. Embora já não seja notícia de abertura dos telejornais, o cenário é severamente preocupante, com a migração em massa de milhares de afegãos para os países vizinhos, Irão e Paquistão, e o desrespeito pelos direitos das mulheres. A tomada de Cabul levou a que milhares de afegãos tentassem abandonar o país a todo o custo, concentrando-se em massa no aeroporto da capital, tentando escapar ao domínio talibã, Em causa está a garantia dos direitos e liberdades da sociedade civil afegã, sendo os cidadãos obrigados a submeterem-se à lei islâmica da sharia, em detrimento do laicismo que tem vindo cautelosamente a ser instaurado no país. Cifra-se em milhões o número de pessoas internamente deslocadas, centenas de milhares de pedidos de vistos nas embaixadas e a escalada galopante do número de pedidos de asilo internacional particularmente para a Europa, Canadá e Estados Unidos. Mina Wali, fundadora da Hope of Mother, uma Organização Não Governamental sediada na região de Jalalabad, e atualmente exilada nos Estados Unidos há quase 3 décadas, admite que “na minha opinião, o que tenho experienciado no Afeganistão, em particular nas vilas, trabalhando junto das pessoas, é que para a população, o mais importante é a garantia de segurança”. 06 |

SER JOVEM E AFEGÃO De acordo com a Missão das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA), este é “dos países mais perigosos do mundo para as crianças” que, ao longo da última década, têm sido recrutadas para combate, seja por grupos armados, pelas forças de segurança afegãs ou pela polícia local, enfrentando múltiplos abusos” – segundo a Amnistia Internacional. Praticamente metade da população de 30 milhões tem menos de 18 anos. As crianças são dos grupos etários mais vulneráveis do país. Não existe proteção social nem registos de nascimentos fiáveis que previnam casos de recrutamente por grupos extremistas, violência, casamentos precoces, falta de acesso à saúde e à educação. Levados a sair do país pela pobreza extrema, conflitos armados e violência, crianças afegãs, entre os 12 e os 17 anos de idade, procuram trabalho entrando ilegalmente nos países vizinhos como o Irão ou o Paquistão, e há quem arrisque a travessia da Turquia para a Europa, chegando como menores não acompanhados.


MULHERES INVISÍVEIS Nos primeiros dias da tomada do país pelos Talibãs, as escolas e universidades foram encerradas, as mulheres proibidas de exercer atividades profissionais e obrigadas a permanecer nas suas residências. Um retrocesso esmagador em relação aos últimos 20 anos. De acordo com números do Banco Mundial, em 1999 não existiam registos de raparigas matriculadas em escolas secundárias. Atualmente, antes desta segunda tomada de posse do poder governamental pelos Talibãs, aproximadamente um terço da comunidade universitária era composta por mulheres, o que significa cerca de 3.5 milhões de mulheres matriculadas em instituições do ensino superior. Nestes últimos meses, quaisquer direitos, liberdades e garantias foram-lhes extorquidos. Desde o exercício de atividades profissionais ao acesso a escolas laicas e universidades, obrigadas a usar a niqab ou a burqa em espaços públicos, exclusivamente acompanhadas pelos seus representantes legais, os progenitores masculinos ou os maridos. Segundo dados do Banco Mundial, a atual crise humanitária é particularmente ameaçadora para os 18 milhões de mulheres e raparigas afegãs que se encontram no país. Embora o grupo talibã tenha garantido o acesso à educação primária às meninas, segundo a Amnistia Internacional, a maioria das escolas secundárias em todo o país, continua a impedir o regresso das raparigas. Mina Wali refere que “segundo os testemunhos que tenho recolhido no país, tenho esperança que as coisas melhorem. O que posso concluir é que as mulheres afegãs têm de ter acesso à educação e à saúde, mas daqui para a frente o que as espera é a lei da sharia. De acordo com a informação dos media, tenho esperança que os talibãs assegurem este acesso às mulheres e crianças. (…) Atenção, este acesso tem de ser garantido para as mulheres que vivem nas 34 províncias do Afeganistão, a maior parte delas vivem em vilas, mas vivem sob a mesma Constituição. Os direitos das mulheres e das

crianças têm de abranger todas estas pessoas e tudo se desenvolve em torno da educação. As mulheres não podem continuar a ser usadas como fantoches no meu país, como são desde há décadas”. Efetivamente, de acordo com a plataforma da MSNBC “Know Your Value”, têm sido feitos progressos ao longo das últimas décadas, já que as mulheres puderam passar a ocupar algumas posições de poder como juízas, ministras e polícias, agora criticamente ameaçadas. De acordo com a mesma fonte, em 2020 existia uma maior percentagem de mulheres representadas no Parlamento do Afeganistão do que no Congresso dos Estados Unidos da América. Porém, a crónica inexistência de registos de violência contra mulheres e raparigas no Afeganistão, acrescido do facto de estas temerem consequências, como serem assassinadas por “crimes de honra”, e a falta de confiança nas autoridades levam a que as mulheres não se manifestem quando a sua liberdade e dignidade é ameaçada. Segundo a Aljazeera, Zabihullah Mujahid, porta-voz dos Talibãs, na primeira conferência de imprensa oficial do grupo, afirmou que “estavam comprometidos em deixar as mulheres trabalhar de acordo com os princípios do Islão”. “Desejo, rezo e luto para que todas as mulheres e crianças no Afeganistão sejam tratadas da mesma forma, sejam reconhecidas, respeitadas e educadas da mesma forma”reclama Mina Wali para as mulheres do seu país. Entre 2006 e 2013, a AMI apoiou projetos nas áreas da educação e saúde no leste do Afeganistão. Estas ações decorreram em parceria com a ONG local Hope of Mother e incluíram a construção e manutenção de uma escola primária para 640 crianças (raparigas e rapazes), a dinamização de um centro de formação vocacional, e a construção e manutenção de uma clínica médica junto à escola, de forma a garantir o acesso a cuidados de saúde primários aos alunos e à população local.

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NURJAHAN KHATUN Nurjahan Khatun é um paradigma de resiliência. Para além da vulnerabilidade ou do sucesso, a sua história é um legado de lutas que, perdidas ou vencidas, a moldaram como mulher. Nasceu em Londres, filha de uma primeira geração de imigrantes do Bangladesh. É difícil imaginar a obstinação necessária para desafiar o status-quo de uma comunidade em que o lugar da mulher não é negociável, mas Nurjahan fê-lo porque, para a autora e ativista, em nome da liberdade, nada é impossível. “Hook of Hope” é o seu primeiro livro e uma autobiografia que acaba de ser publicada no Reino Unido. 08 |

O seu pai era a sua referência e um ávido defensor dos direitos das mulheres... Por este motivo, existiu alguma dualidade, ao longo do seu crescimento, da sua visão da sociedade em que estava inserida? Desde a minha juventude, ainda que no seio da minha família direta e alargada me dissessem que eu era um erro, que eu não devia ter nascido, conseguia perceber que o papel da mulher era central em tudo o que se passava na nossa comunidade. Desde cozinhar a limpar, o desempenho desses papeis era muito importante, o que para mim era contraditório desde as minhas primeiras memórias. À medida que fui crescendo, o meu pai, que trabalhava muitas horas, não estava ciente das dificuldades e desafios que eu passei, particularmente na convivência com a minha mãe. Não sei porque é que a minha mãe me tratava de forma tão diferente em relação aos meus seis irmãos, mas cada momento que passava com o meu pai era um pedaço de céu para mim, ele era o meu santuário. Quando cresci, na altura em


ENTREVISTA

que já sabia ler e escrever, via que o meu pai ajudava muitas mulheres na comunidade. Daí o título do meu livro “Hook of Hope”. Dava-me esperança que, embora existisse este sistema normativo, esta lógica dentro da comunidade em que eu nasci e estava a ser criada, também existia bondade e generosidade ao meu redor. Penso que foi quando comecei o segundo ciclo, a partir dos 11 anos, acompanhava o meu pai nos seus afazeres, no seu trabalho com os sem-abrigo ou em associações de caridade onde fazia voluntariado. Percebi que o meu pai era muito diferente de todos os homens bangladeshianos imigrantes que eu conhecia. Nunca tinha visto nenhum outro homem da comunidade fazer o que o meu pai fazia. Acho que muitas pessoas que vêm de uma “mixed culture”, em que têm de equilibrar as influências e tradições ocidentais e orientais, crescem num universo de contradições. Sempre ouvi o meu pai dizer à minha mãe “não me importa o que os meus filhos façam, eles são homens. De uma forma ou de outra, eles vão conseguir sobreviver, já as nossas filhas precisam de receber uma educação porque se dependerem de um marido e os seus casamentos falharem têm de ter um plano B, têm de ser independentes” - e a minha mãe não entendia esta perspetiva. Como um homem que estudou e que fazia este trabalho junto das mulheres, o meu pai percebia as profundas privações que as mulheres da comunidade passavam e como eram profundamente oprimidas. Em paralelo, tinha uma relação muito abusiva com a sua mãe e irmãos, o que se agravou quando o seu pai faleceu e decidiu ir para a universidade... No seu livro “Hook of Hope” (Gancho de Esperança) diz que existiam, na altura, apenas duas formas de uma rapariga sair de casa na sua comunidade: ou pelo casamento ou por morte... Eu sabia desde miúda que não sobreviveria muito tempo naquele ambiente, tudo em torno daquilo me arrepiava. Tantas práticas culturais me foram apresentadas de uma forma que para mim não representavam a minha religião. Ao crescer, comecei a questionar-me: "se certas práticas não eram lógicas, como é que podiam ser validadas pela religião?" Como o meu pai advogava pela educação, ainda que ele tivesse falecido, ele deu-me força, embora eu estivesse totalmente desconectada da minha identidade. Apesar de eu ainda cozinhar e limpar todos os dias, e criar as minhas irmãs, nunca era suficiente para a minha família, mas o que realmente me trouxe medo de viver na minha própria casa foi quando o meu irmão me esfaqueou. Naquele momento percebi: este é um ponto de não retorno. Sempre fui muito inquisitiva, sempre questionei tudo em meu redor, inclusive do ponto de vista religioso, e batiam-me muitas vezes

por isso. O que eu queria realmente era proteger-me a mim mesma, salvar-me, perseguindo o meu sonho da educação. Isso deu-me coragem para me dirigir até aos líderes da minha comunidade e pedir-lhes dinheiro emprestado para pagar os meus estudos na universidade. Fui totalmente ridicularizada. Naquele momento pensei: “F*****, se não me vão ajudar, vou arranjar outra maneira de conseguir estudar, não tenho nada a perder, a minha comunidade odeia-me de qualquer forma”. A única coisa que era realmente importante para mim era o meu pai e eu já não o tinha na minha vida, por isso, o pior que podia acontecer era matarem-me, mas para mim, valia a pena o risco. Depois de ter saído de casa, foi totalmente rejeitada pela sua comunidade e isso desencadeou uma série de eventos, que levaram a que se encontrasse numa situação de sem-abrigo. Era estudante durante o dia e sem-abrigo durante a noite. Como refere no livro, é realmente mais seguro viver nas ruas do que num ambiente familiar destrutivo? Sim, é verdade, quando me tornei sem-abrigo, não tinha onde dormir, ia ao lixo procurar restos de comida, mendigava dinheiro, tinha de tomar decisões extremamente difíceis, como comprar tampões ou uma sanduíche, mas pelo menos nessa altura tive alguma liberdade para sonhar. Pude perseguir aquilo que queria, conheci pessoas que nunca teria conhecido noutras circunstâncias, ouvi histórias e perspetivas de vida diferentes da minha. Apesar de toda a negatividade e do trauma de ser sem-abrigo, senti tanta liberdade, que para mim era um preço que valia a pena pagar. Viver nas ruas ensinou-me tanta coisa, apesar de todas as vulnerabilidades, experienciei muita bondade... Como é que conseguiu o financiamento de que precisava para entrar na universidade? Quando a minha comunidade rejeitou ajudar-me, tirei um “ano sabático”, após concluir o 12º ano, em 1998. Tive 4 trabalhos nesse ano. De segunda a sexta trabalhava num banco, todas as manhãs e noites fazia limpezas em casas de banho de escritórios da cidade, terça e quinta à noite fazia “home care”, sábado e domingo, por pouco mais de 2,45 libras à hora trabalhava 14h por dia num supermercado. Estive 10 meses neste ritmo, ainda a viver em casa da minha mãe, até que colapsei de exaustão e fui internada no hospital por algumas semanas, mas a verdade é que poupei 900 libras e isso foi o que consegui para pagar parte dos meus estudos, sendo que depois do Tony Blair ter assumido o poder, a atribuição de benefícios sociais às famílias e de bolsas de estudo mudou radicalmente, o que me levou a usar parte do dinheiro que ganhei para pagar despesas e alimentação em casa, uma vez que o | 09


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O que tenho conseguido observar da história de todas as mulheres que cruzaram o meu caminho, independentemente dos seus backgrounds, é que as suas histórias de vida são semelhantes no sentido em que contêm sacrifício, dor e traição.

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fazer turnos. Alguém tinha de se manter acordada para nos conseguirmos proteger. Na rua, é quase impossível dormir profundamente. Estás constantemente num estado de “super alerta”. Outra das razões pelas quais acho que as mulheres são mais vulneráveis quando estão em situação de sem-abrigo é porque nós temos necessidades diferentes das dos homens. Um simples exemplo é o facto de que nós não podemos urinar em qualquer lado como eles. Coisas simples, que damos por garantidas quotidianamente. Se és mulher e vives na rua, assumem automaticamente que és uma trabalhadora do sexo, mesmo que não sejas, as pessoas assumem o pior de ti. Ouvi, muitas vezes, dizerem que os sem-abrigo criam as suas próprias circunstâncias, o que não é verdade!

meu pai já tinha falecido e eu era a única fonte de rendimento da família. Ao viver nas ruas com a comunidade sem-abrigo, tornou-se claro para si que as mulheres eram o grupo mais vulnerável e em risco. Como é que constatou esta realidade? Porque vi muitas coisas diante dos meus olhos, mulheres serem atacadas, a serem violadas na rua. Pessoalmente fui abordada por “pimps” (proxenetas), porque como usava a hijab, eles sabiam que eu era virgem, então era aliciada por estes homens para me prostituir sob a alçada deles. Havia fases em que estava tão esfomeada que este tipo de ofertas se tornavam atrativas. Honestamente, houve diversas ocasiões em que eu estava cansada de lutar, de sobreviver, que eu queria dizer que sim e acho que se tivesse ficado na rua por mais uma semana, talvez tivesse dito. A razão pela qual acho que as mulheres da comunidade sem-abrigo são invisíveis é porque, mesmo esta comunidade é dominada por homens. Não existe qualquer tipo de igualdade de circunstâncias. Havia mulheres que viviam na rua com os seus parceiros e estavam mais protegidas, mas as mulheres solteiras tinham de se manter unidas e dormir num mesmo grupo porque tinham de 10 |

O que aconteceu depois disto, como é que saiu desta situação e retomou a sua vida? Quando era sem-abrigo, houve um momento em que tentei o suicídio, estava cansada de lutar. Não tinha energia para continuar. Tomei muitos comprimidos, mas não resultou. Comecei então a pensar que tinha de encontrar uma nova forma de escape e resolvi escrever num pedaço de papel aquilo que eu realmente sonhava construir. Queria fundar uma organização que ajudasse mulheres como eu, porque eu não podia ser a única mulher em tal estado de vulnerabilidade. Este escape ajudou-me a afastar a ideia de acabar com a minha vida. A solidão mata e eu estava a morrer aos poucos. Comecei a pensar de que forma é que o meu pai abordaria a situação em que eu me encontrava e isso deu-me o empurrão de que precisava para me reerguer. Tomei uma decisão muito sólida “vou mudar a minha vida, vou acabar os meus estudos, vou levar isto até ao fim e tornar-me a pessoa que realmente quero ser”. Claro que eu não sabia como ia sair das ruas, mas ao renovar as minhas intenções, acabei por conseguir ficar em casa de alguns amigos que me acolheram. Eventualmente e com muito sacrifício, consegui terminar os meus estudos em Ciências da Computação e o meu mestrado. Pouco depois casou-se, e outro capítulo brutalmente impactante da sua vida começou... Conheci o meu ex-marido dois ou três anos depois deste episódio, através de um casal amigo que me ajudou a


ENTREVISTA

sair da rua. Olhando para trás, e posso dizê-lo agora com certeza, eu ansiava encontrar alguém que fosse bom para as mulheres e ele tinha por perto a sua mãe e 4 irmãs, ou seja, ele tinha experiência em estar rodeado de mulheres e isso atraiu-me fortemente. Antes de casarmos, eu vivia em Londres e ele em Dublin pelo que, na verdade, nós mal nos víamos. Na altura, eu tinha voltado para casa porque as minhas irmãs mo imploraram e eu sentia-me obrigada a apoiá-las. Ao regressar a casa, percebi que desta vez, a única forma de voltar a sair era através do casamento. Hoje sei que eu mesma fiz força para que aquele casamento acontecesse com alguém que eu mal conhecia. Depois de uma década de casamento, descobriu o pior. Estava numa relação poligâmica não consentida, o que a levou a procurar o divórcio. Como é que a sua comunidade reagiu? Percebi desde o início do nosso casamento que não éramos compatíveis, mas por causa de toda a minha doutrinação, sabia que, enquanto mulher muçulmana, tinha de fazer tudo para que o casamento resultasse. Após dez anos, ali estava eu de novo numa situação da qual não sabia como sair por causa dos princípios da minha religião: descobri que ele tinha contraído um segundo casamento nas minhas costas e a sua suposta segunda mulher estava grávida. Nessa altura, vivíamos na Arábia Saudita e eu estava a fazer tratamentos de Fertilização In Vitro (FIV) porque não conseguia engravidar. Quando descobri, pensei imediatamente: “o que é que eu fiz com os últimos dez anos da minha vida?" Senti que tinha sido abusada naquele casamento das mais variadas formas e que ele tinha tirado vantagem da minha natureza, do meu bom coração. Demorei 3 anos a conseguir o divórcio. Quando cheguei a Inglaterra, estava destruída. Claro que para a minha família a culpa era certamente minha. Nesse momento, eu era uma mulher adulta, com plena consciência dos meus direitos civis, conhecia profundamente a minha religião e segui para a frente com a minha convicção. Como é que começou a trabalhar como “project deliver” e mediadora, junto de mulheres em situações sociais e económicas vulneráveis? Identificou um perfil de mulheres que procuravam apoio e empoderamento? Para além do trabalho de voluntariado que eu já fazia, acabei por criar a organização “I Dare U Foundation”, uma organização, que neste momento não está operacional, mas que foi criada para apoiar mulheres vítimas de qualquer tipo de abuso, inclusive doméstico. Eu e as minhas amigas conhecemos o caso de duas mulheres da comunidade sul asiática que tiraram a própria vida por sofrerem de violência doméstica. Soubemos também que, quando estas

mulheres se dirigiram aos serviços sociais disponibilizados pelo Estado, estes não eram adequados às suas necessidades socioculturais. Isto levou-nos a montar esta organização. Ajudámos centenas de mulheres ao longo dos oito anos em que operámos. Foi a oportunidade que eu sonhava de gerir uma organização social, um projeto de paixão, trabalhar com mulheres com mais de 16 anos em diferentes cidades onde utilizávamos a arte do storytelling como ferramenta. Lembro-me do caso desta mulher de 53 anos que foi traficada da Lituânia, com a promessa de um trabalho que nunca obteve. No país dela, era diretora de uma escola e, claro, o sonho dela era ensinar em Inglaterra. Aqui, é necessário fazer exames de equivalência para o exercício da profissão, então atribuímos-lhe uma mentora e um pequeno budget para a ajudar a conseguir passar no exame e pelo processo burocrático. Quão poderoso é isso? Dar as ferramentas a uma mulher para ela acreditar em si mesma, dar-lhe a confiança que ela precisa para conseguir alcançar o seu sonho, o seu objetivo. Indiretamente, deixámos de gerir este grupo. As próprias criaram uma rede de suporte, gerando uma cadeia de entreajuda. Este grupo tornou-se autossustentável, autogerido e independente do Estado. O que tenho conseguido observar da história de todas as mulheres que cruzaram o meu caminho, independentemente dos seus backgrounds, é que as suas histórias de vida são semelhantes, contêm sacrifício, dor e traição. Enche-me o coração saber que desempenhei um pequeno papel nas suas jornadas e que as ajudei a serem uma melhor versão de si mesmas. Como é que tem usado a arte do storytelling para desbloquear o potencial de outras mulheres e permitir-lhes ter acesso a mais oportunidades? Penso que a forma mais direta com que tenho recorrido ao storytelling, nomeadamente neste trabalho feito junto das mulheres, é através da partilha de momentos chave da minha própria história. Por outro lado, tento usar este termo sempre com algum cuidado porque se eu estiver sentada numa sala com vinte mulheres, não quero que soe como um exercício que envolva formalidade, quero que o storytelling seja um instrumento para fomentar aproximação e empatia entre nós. Dessa forma, e ao contar a minha própria história, quero fazer com que as mulheres se sintam à vontade, para que possam absorver informação e relacioná-la com as suas próprias vivências. Eu sinto-me muito humilde quando alguém me confia algum episódio ou confidência da sua vida. Para mim, o storytelling será sempre uma ferramenta poderosa.

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PELO FIM DO CASAMENTO INFANTIL NOS CAMARÕES Evitar que 50 jovens raparigas se tornem noivas em distintas divisões administrativas dos Camarões (Donga, Mantung, Mezam, Momo e Nhokeetunkia) tem sido, desde janeiro de 2019, o objetivo que uniu a organização local Sustain Cameroon e a AMI num trabalho coordenado de sensibilização em diversas comunidades do país. Este projeto tem tido um impacto direto nas comunidades de Nwa, Bamenda I, II & III, Mbengwi e Ndop Central (subdivisões), onde uma equipa de “community mobilizers” (agentes comunitários) se dirige a famílias sinalizadas, líderes comunitários e religiosos para os encorajar a abdicar de práticas nefastas como o casamento infantil. Fanwi Seraphine K., administradora da SUSTAIN Cameroon

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e agente comunitária, tem coordenado a implementação deste projeto e sua respetiva intervenção. Trabalha de perto, tanto com as famílias como com voluntários no planeamento, monitorização e avaliação das atividades, programas de sensibilização e awareness nestas comunidades. É uma sobrevivente de violência doméstica, o que fez dela uma ativista pelo direito das mulheres e pela igualdade de género. Uma verdadeira mulher do terreno. Vive e trabalha para incentivar outras mulheres, encorajando-as a alcançar o seu pleno potencial, acreditando que é possível um processo generalizado de mudança de comportamentos através da educação. No que concerne à raiz do problema do casamento infantil, Fanwi não tem dúvidas: “há uma relação direta entre o casamento infantil e a pobreza extrema. Uma família que não tem como sustentar os seus filhos, como dar-lhes de comer, casa-os".


Estas práticas são mais comuns na comunidade Fula. Uma população historicamente nómada, fundamentalmente praticante do islão e com ideologias particularmente severas no que toca ao cumprimento de rituais ancestrais e tradições religiosas. Exercer influência sobre estas raparigas e as suas famílias, sinalizadas a priori por já terem contraído matrimónio, ou se encontrarem em risco de o fazer, é crucial para que um de três objetivos se concretize: que regressem ao ambiente escolar, ou que se autonomizem das suas famílias e maridos, gerando rendimentos próprios ou que frequentem algum tipo de formação vocacional. Fanwi explica que o grande desafio desta intervenção, para além do processo de identificação das raparigas, bem como das suas famílias e respetiva monitorização da sua situação foi o de “quebrar normas sociais e religiosas junto das pessoas. A sensibilização foi em muitas ocasiões encarada como um ato ofensivo para as famílias e, claro, para os líderes comunitários e religiosos”. Por outro lado, preocupa-se pelo tempo limitado desta ação que precisa de continuidade para que possa surtir um efeito alargado e em cadeia: “não conseguimos garantir o futuro destas meninas se não fizermos um acompanhamento prolongado no tempo, que nos permita garantir-lhes um futuro. Temos de as encorajar a voltar à escola, de as formar para alguma vocação ou orientá-las para que criem alguma atividade que lhes dê rendimento”. Lauretta Ezembe tem atualmente 18 anos, aceitou con-

Uma família que não tem como “sustentar os seus filhos, como dar-lhes de comer, casa-os. ”

tar um capítulo da sua história e o porquê do seu envolvimento com a Sustain Cameroon. Na t-shirt que leva vestida podemos ler palavras de resistência “I am a girl. I need opportunities. No to child marriage”. É uma menina tímida, mas com a coragem suficiente para se ter casado aos 16 anos, para ajudar a mãe viúva e ser menos um encargo para ela. É a segunda mulher do seu marido que já tinha três filhos quando se conheceram. No primeiro ano de casamento, Lauretta engravidou e tornou-se a principal cuidadora de 4 crianças, quando a primeira esposa do marido decidiu abandonar a casa onde viviam, deixando os seus 3 filhos ao cuidado de Lauretta (o mais novo com três meses na altura). O seu filho tem já dois anos e Lauretta foi sinalizada pela Sustain Cameroon pela sua tenra idade e pela total falta de suporte familiar, agravada por um acidente que levou o marido a partir as duas pernas e ficar acamado, imobilizado. Esta é daquelas vivências que nenhuma menina deveria ter de contar, quanto mais vivê-la... Mas Lauretta não se detém sobre o assunto, encara a realidade de outra forma. Para ela, a maior prioridade, com o apoio da Sustain Cameroon, é ter uma profissão. Não quer acabar a escola, quer aprender o ofício da costura e tornar-se designer de moda, diz sentir-se “muito feliz por ter esta oportunidade” e que certamente a vai aproveitar. Está atualmente à procura de uma fonte de financiamento para obter mais equipamento e materiais para estabelecer a sua loja e criar a sua marca. Desde 2019, a equipa de voluntários e agentes comunitários da Sustain Cameroon já encaminhou 21 raparigas para aprenderem um ofício, 5 jovens para criar atividades geradoras de rendimento e conseguiu sensibilizar 10 para voltarem à escola. A missão de acabar com o casamento infantil nos Camarões está longe de estar concluída para pessoas como a Fanwi ou a Lauretta, mas estas mulheres traçam certamente um caminho de empoderamento, superação e de luta pelos direitos de todas as mulheres a quem não é dada escolha sobre os seus corpos, a sua liberdade e os seus futuros.

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POBREZA NO FEMININO: UMA REALIDADE QUE PERSISTE O papel da mulher na sociedade tem sido, desde sempre, menosprezado, mesmo contribuindo de forma decisiva para o desenvolvimento das sociedades modernas. Em matéria de género, e ao longo da história, a mulher tem sido alvo de segregação, desigualdades e perseguição no seio de uma humanidade que ajudou a construir e na qual tem um papel determinante.

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O ano de 2020 agudizou estas desigualdades. Basta referir os equipamentos sociais da AMI em Portugal em que das 9.633 pessoas que apoiou, 52% foram mulheres. Não há idades específicas para as mulheres que procuram algum tipo de apoio, podem ir dos 16 aos 65 anos (62%) e ainda mulheres maiores de 65 anos (57%). As mulheres registadas em situação de maior vulnerabilidade são maioritariamente imigrantes, muitas vezes indocumentadas (56%) com vários trabalhos para garantir conseguir ao final do mês o equivalente ao ordenado mínimo nacional. Fatores como pobreza e exclusão social, baixa escolaridade, violência doméstica, falta de suporte familiar, falta de empregabilidade e apoios institucionais ou sociais são alguns dos principais motivos que levam a mulher a cenários e vivências de maior carência.


“As desigualdades de género manifestam-se, simultaneamente, no trabalho, na classe social, na cultura, na etnia, na idade, na raça. Nunca ou raramente uma das variáveis se apresenta sozinha. Trata-se sistematicamente de causas multidimensionais e sectoriais, com uma longa pré-existência no contexto das sociedades humanas” esclarece Ana Martins, diretora do Departamento de Ação Social e Administradora da AMI. No decorrer do ano de 2020, em plena pandemia, os principais motivos verbalizados pelas mulheres que recorreram aos apoios dos serviços sociais da AMI, foram a precariedade financeira (63%) e o desemprego (32%), seguindo-se a doença física (14%). De acordo com a UN Woman, mesmo antes da pandemia despoletar, 1 em cada 3 mulheres experienciaram algum tipo de violência, o que significa que 243 milhões de mulheres foram vítimas, seja de violência psicológica, física ou sexual, maioritariamente causada pelos seus parceiros. As causas podem ser múltiplas e persistentemente agravadas pela dependência financeira do agressor ou disparidade salarial em relação ao mesmo, condições precárias de habitabilidade, isolamento social em coabitação com os agressores, restrições na livre circulação e até mesmo pela falta de acesso a entidades de apoio públicas. Embora as causas sejam inúmeras, existe um denominador comum que as liga: a pobreza. Na União Europeia, cerca de 50 mulheres por semana perdem a vida devido a violência doméstica, uma realidade que se agravou durante o confinamento e com a falta de meios de ajuda disponíveis. Em paralelo, existem múltiplos elementos de bem-estar inerentes à condição de ser mulher e a pobreza deve ser encarada como um estado de privação não só de bem-estar, mas de autonomia e liberdade. Em termos de profissão, as mulheres desempenham sobretudo funções nos sectores tradicionais do comércio, do alojamento, da restauração e nos serviços sociais e pessoais, profissões associadas à precariedade financeira e contratual. Ao longo de 2020, foram identificados pela AMI 175 casos de violência doméstica (84% - contra mulheres), sobretudo contra mulheres entre os 40 e os 59 anos, seguido de mulheres entre os 30 e os 39 anos (21%). Em resultado de todas as causas já mencionadas, muitas mulheres, inclusive em estruturas familiares de monoparentalidade veem-se na situação de sem-abrigo. Anualmente, são apoiadas pela AMI cerca de 1.489 pessoas em situação de sem-abrigo, das quais 25% são mulheres. Dos cerca de 593 novos casos que surgem anualmente, 28% dos casos são mulheres.

“

“As desigualdades de género manifestam-se, simultaneamente, no trabalho, na classe social, na cultura, na etnia, na idade, na raça. Nunca ou raramente uma das variáveis se apresenta sozinha.

”

Ana Martins, Diretora do Departamento de Ação Social e Administradora da AMI

Entretanto, 2020 foi um ano em que a necessidade de suportes sociais e institucionais disparou e garantir os direitos fundamentais de todos tornou-se um desafio praticamente impossível para todas as entidades envolvidas em amparar necessidades básicas, desde a saúde ao apoio alimentar. Verificou-se também um crescendum nos pedidos de apoio por parte das mulheres que, segundo dados atualizados do Parlamento Europeu, ficaram em maior risco de desemprego durante a pandemia, já que muitas vezes trabalham através da economia informal, seja nos cuidados infantis ou no trabalho doméstico - onde a ausência de direitos laborais e a exclusão de direitos sociais e direito à saúde ou ao desemprego as colocam numa situação muito precária. A falta de direitos e garantias do género feminino continua a ser um tema que precisa de debate, esclarecimento e ação num corpo social marcado pela predominância de símbolos culturais masculinos e conceitos normativos que colocam a mulher em “espaços” longe da liberdade de expressão, da representatividade, liderança e poder de escolha. Ana Martins termina, defendendo que “é urgente que se passe dos textos bem-intencionados para a real aplicação das medidas que podem evitar a discriminação entre homens e mulheres. Para que tal aconteça, a pedagogia comportamental e psicossocial tem que ser realizada nas escolas e na família. As sociedades são vividas e não lidas, o que faz com que seja necessário trabalhar na mudança de atitude e de pensar, no seio das políticas sociais e na aplicação dos princípios universalistas da constituição portuguesa e das diretrizes europeias e mesmo internacionais”.

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(1748–1793)

Marie-Olympe de Gouges

Ativista, reformista e escritora francesa, é considerada uma das primeiras feministas da história. Contestou a ideia do papel convencionado para a mulher na sociedade francesa e como esta se deveria comportar. Escreveu em 1791, em plena revolução francesa, o panfleto “Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne”, onde abordou temas como o divórcio, o abolicionismo e a maternidade solteira.

(1862–1936)

Fatma Aliye Topuz

Conhecida como a primeira romancista feminina da literatura turca e geografia islâmica, começou por escrever artigos em revistas sob o nome masculino de “Meram” no jornal “Tercüman-ı Adalet”, entre outros. Neles defendia a igualdade das 16 |

mulheres na sociedade, argumentando que não só iria melhorar a prática do Islão como iria contribuir positivamente para a ciência sem discriminação Só revelou a sua identidade feminina em outubro de 1890.

(1879-1911)

Carolina Beatriz Ângelo

Sufragista republicana, foi a primeira mulher a votar em Portugal na Assembleia Nacional Constituinte. Na sua juventude, a área da medicina ainda era vista como uma profissão de homens. No entanto, foi a primeira mulher no país a realizar uma cirurgia num hospital português, o hospital de São José. À data de 5 de outubro de 1910, já Beatriz Ângelo liderava o Movimento Feminista e o Movimento Feminista Republicano. A ativista entendia que o código eleitoral incluía implicitamente todas as mulheres, já que reuniam todas as condições para votar. Após ter recorrido da rejeição, uma decisão judicial deferiu o seu caso, mas só após o 25 de abril de 1974 é que foram abolidas as restrições ao voto feminino em Portugal.

(1908–1986)

Simone de Beauvoir

Escritora francesa, filósofa existencialista e ativista pelos direitos das mulheres. Fundou uma revista literária de esquerda, “Os tempos modernos”, com o filósofo Jean-Paul Sartre, de forma a difundir a corrente de pensamento existencialista. Em 1943, publicou a sua mais proeminente obra, “O segundo sexo”, que se veio a tornar a referência internacional e intemporal do movimento feminista.

(1923-1993)

Natália Correia

Poetisa e escritora portuguesa, foi jornalista no Rádio Clube Português e uma ativista política, condenada a pena de prisão pelo Estado Novo em 1966 por ter escrito “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”. Ganhou visibilidade na imprensa com


o programa “Mátria”, onde abordava o tema do feminismo, fora dos arquétipos tradicionais do movimento. Esteve envolvida em diversos movimentos políticos e interveio como deputada no parlamento de 1980 a 1991.

(1927-2013)

Vina Mazumdar

Pioneira em Estudos das Mulheres e movimentos femininos na Índia, desempenhou, através do Comité sobre o estatuto das Mulheres, um papel imprescindível na redação daque le que seria o esboço final para o “Towards Equality Report”, publicado em 1975. Tratou-se de um relatório que procurava mudar o paradigma do estatuto da mulher, concedendo-lhe mais oportunidades e escolaridade na sociedade indiana, que na altura batalhava pela independência da governação britânica.

(1928–2014)

Marguerite Annie Johnson ou Maya Angelou Escritora, ensaísta, ativista pelos direitos civis, bailarina, trabalhadora do sexo, cozinheira e jornalista. Redigiu sete autobiografias, sendo a primeira, “Eu sei Porque o Pássaro Canta na Gaiola”, a mais amplamente lida em todo o mundo, indicada para o National Book Award em 1974. Maya Angelou foi a grande referência do movimento dos direitos das mulheres e dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos do século XX.

(1931-2021)

Nawal El-Saadawi

Médica, ativista e escritora de nacio nalidade egípcia, é uma referência incontornável da luta dos direitos das mulheres no mundo árabe. Em 1981, fundou a Associação de Solidariedade para com as Mulheres Árabes (AWSA). Uma década de pois e após ter aparecido na “dead list” de um grupo fundamentalista islâmico, exilou-se na Carolina do Norte onde ensinou na Duke University em matéria de “Dissidência e Criatividade”.

Maria Isabel Barreno (19362016), Maria Teresa Horta (1937) , Maria Velho da Costa (1938-2020) Conhecidas como as “Três Marias”, tiveram percursos bastante distintos, mas foi essencialmente a paixão pela escrita que as uniu, vivendo num contexto político marcado pela censura e totalitarismo do Estado Novo. Feministas e vozes altivas na defesa dos direitos das mulheres numa sociedade profundamente marcada pelo patriarcado e pelo fascismo, escreveram sobre o mundo que as rodeava, através do livro “As Novas Cartas Portuguesas”, fazendo chegar as suas vozes a Paris, a Simone de Beauvoir, que classificou este livro (censurado pelo regime) como um hino ao feminismo do século XX.

(1952)

Gloria Jean Watkins ou Bell Hooks

Ativista, escritora e académica nascida em Hopkinsville, Kentucky, Estados Unidos, um bairro marcado pela segregação e violência contra os negros. Recebeu aos 19 anos uma bolsa de estudos para entrar na Universidade de Stanford. Escreveu, em simultâneo, o seu primeiro livro “Ain’t I a Woman”. Este tornou-se uma referência nos temas do racismo e do sexismo da época e nas décadas que se seguiram, sendo lido até hoje. Hooks defende que na prática da educação está a prática da liberdade e que só através da “transgressão” do pensamento, nomeadamente em temas que tocam o racismo, sexismo e o feminismo, é possível praticar a verdadeira liberdade.

(1964-2013)

Sharmila Rege

Notável académica, feminista e socióloga indiana, Sharmila Rege dedicou-se a estudar a opressão no sistema de castas na Índia, assim como o sistema patriarcal que esteve na sua origem. Autora de “Writing Caste, Writing Gender”, foi líder num conjunto de estudos que tiveram como génese a forma como a Índia classificava pessoas como “dalit” ou “intocáveis”, abrindo as portas ao diálogo para questões ligadas ao feminismo, à perceção das classes na Índia e no poder da religião sobre a sociedade indiana. | 17


AMI convida

ANA SOFIA FERNANDES

Realizar os Direitos Humanos das mulheres A violência masculina contra as mulheres é um flagelo sistémico. Como tal, requer, igualmente, respostas coletivas. O Secretário-Geral da ONU, sob o mote “Financiar, responder, prevenir e recolher informação”, chamou a atenção para o aumento preocupante da violência masculina contra as mulheres e as raparigas desde o início da pandemia COVID-19 e convocou todos os países a acabar com esta pandemia global. Tal requer posições coordenadas, para um mundo onde as mulheres possam viver livres de violência e livres do medo da violência. Lembramos que a violência masculina contra as mulheres e raparigas toma muitas e diversas formas, configurando-se como um continuum. Alguns exemplos no Mundo: • 137 mulheres são assassinadas por um membro da sua família em cada dia. Apenas em 2017, 87.000 mulheres foram mortas intencionalmente, das quais 50.000 foram mortas pelos companheiros ou membros das suas famílias. • Menos de 40% das mulheres vítimas de violência procuram apoio de algum tipo e menos de 10% procura apoio junto das forças de segurança. • 49% das pessoas traficadas são mulheres adultas. Mulheres e raparigas perfazem 72% de todas as vítimas de tráfico; quase todas são traficadas para fins de exploração sexual. • Cerca de 200 milhões de mulheres e raparigas, com idade entre os 15 e os 49 anos, foram genitalmente mutiladas. • 15 milhões de raparigas com idade entre os 15 e os 19 anos foram forçadas a ter relações sexuais, a maior parte cometida por um companheiro íntimo; e apenas 1% procurou apoio profissional.

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Neste período tornou-se ainda evidente uma questão invisível e desvalorizada há demasiado tempo: é o trabalho do cuidador que faz as nossas sociedades funcionarem. De acordo com um Relatório do Secretário-Geral da ONU de 2016, estimava-se globalmente que o valor total das atividades cuidadoras e domésticas não remuneradas em todo o mundo - esmagadoramente efetuado pelas mulheres - se situasse entre 10% e 39% do PIB. Isto significa, de facto, uma transferência de recursos das mulheres para outros agentes na economia – só há trabalho produtivo pago porque há trabalho não pago a sustentá-lo. Estes valores certamente aumentaram durante o período da COVID-19. Os papéis e estereótipos sexistas associados a mulheres e a homens continuam a ter uma forte influência na divisão do trabalho entre mulheres e homens em casa, nos locais de trabalho e na sociedade em geral, e tendem a perpetuar um círculo vicioso de obstáculos à igualdade entre mulheres e homens. A independência económica das mulheres é a pedra angular da igualdade, ao permitir às mulheres exercerem o seu direito de fazerem escolhas reais sobre o rumo das suas vidas. No entanto, decorrente do anteriormente referido, as disparidades de género em salários, rendimentos ao longo da vida, pensões e níveis de pobreza, continuam a ser bem visíveis, apesar da legislação e das políticas. Na verdade, tais disparidades entre mulheres e homens nunca foram tão visíveis como durante a pandemia da COVID-19.

Ana Sofia Fernandes, Presidente da Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres


BREVES - NACIONAL Nacional_

25 anos a reciclar radiografias A 25.ª campanha de reciclagem de Radiografias decorreu durante o mês de junho. Esta iniciativa, que todos os anos é desenvolvida com o objetivo de evitar a deposição deste resíduo em aterros, minimizando os efeitos nocivos no ambiente, permitiu recolher 24 toneladas de radiografias com o apoio da Adifa (Associação de Distribuidores Farmacêuticos). . A recolha de radiografias conta também com o apoio de farmácias, centros de saúde e hospitais. Durante os períodos de campanha, as radiografias com mais de 5 anos ou sem valor de diagnóstico, anteriormente separadas dos relatórios clínicos, podem ser entregues nas farmácias aderentes.

Fora dos períodos de campanha, é possível entregar as radiografias em qualquer uma das instalações da AMI ou em farmácias que façam recolha durante todo o ano. De salientar que este projeto é a única solução para a reciclagem de radiografias em Portugal, garantindo assim a correta separação deste resíduo.

11ª edição do Linka-te aos Outros De 14 de outubro a 7 de janeiro, decorrem as candidaturas para a 11ª edição do Linka-te aos Outros. Com o intuito de alterar realidades sociais, incentivar e formar os jovens para contribuir para essas mudanças, o prémio “Linka-te aos Outros” tem como grupo-alvo todos os alunos a frequentar a escola entre o 7º e o 12º ano e consiste na apresentação de propostas para a resolução, através de atividades de voluntariado, de problemas locais que os próprios detetem. A AMI selecionará os projetos mais consistentes (até ao máximo de 5) e financiará 90% dos mesmos, até um total de €2.000. Desde o seu lançamento em 2010, esta iniciativa já financiou 33 projetos de estudantes num total de €45.570,68.

Os projetos apoiados permitiram melhorar o apoio a idosos, estudantes e a famílias carenciadas, assim como a integração de jovens com deficiência, pessoas em situação de sem-abrigo e jovens institucionalizados, desde a sensibilização à prática do voluntariado.

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Internacional_ Haiti_

Resposta de Emergência ao Terramoto no Haiti Em sequência do terramoto que abalou o Haiti no dia 14 de agosto, foi desenvolvida pela AMI, em conjunto com a organização local REFRAKA, uma resposta de emergência pós-sismo. Este projeto, que terminou a 15 de outubro, teve como foco atenuar as devastadoras consequências do sismo junto das rádios comunitárias da rede REFRAKA, uma significativa fonte de informação na região do Grand Sud, bem como das suas colaboradoras. Em resultado desta parceria, foram distribuídos 20 kits de higiene, alimentos, colchões, cobertores, entre outros objetos de primeira necessidade a 20 das colaboradoras de diferentes rádios da rede. Também lhes foi atribuído um “fond de relève”, destinado à ajuda na recons-

trução das suas casas e recuperação de bens perdidos no terramoto. Foi garantida ainda ajuda financeira a seis rádios comunitárias para que fossem repostos materiais danificados de maneira a retomar as emissões regulares. Finalmente foi realizado um encontro com as colaboradoras da REFRAKA do Sul e de Grand Anse, para fomentar soluções e ideias de atividades geradoras de rendimento no âmbito da economia social e solidária, sob a forma de pequenos negócios, agricultura familiar e criação de gado, que pudessem ser implementadas por estas mulheres neste período de recuperação pós-sismo.

Moçambique_

Quadro de Honra

Port au Prince_

Ajuda medicamentosa ao Hospital Bernard Mevs A AMI financiou mais uma ação de emergência, em consequência do sismo que assolou o Haiti, debilitando a frágil estabilidade social e económica do país. Esta intervenção, implementada em parceria com o Hospital Bernard Mevs, em Port au Prince, consistiu na compra e na distribuição de medicamentos de base e materiais de primeiros socorros, destinados ao tratamento das vítimas do sismo na região sul do país. Para este fim, foi atribuído um apoio financeiro de 10 mil euros para compra de medicamentos e materiais de primeiros socorros, que chegou a muitas dezenas de pessoas com necessidades de cuidados médicos em virtude da destruição que o sismo causou.

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Paulina Chiziane, a primeira mulher em Moçambique a escrever um romance, venceu o prémio Camões 2021. Sublinhou que este Prémio serve para valorizar o papel das mulheres numa altura em que o seu trabalho ainda é subvalorizado, tendo afirmado que “afinal a mulher tem uma alma grande e tem uma grande mensagem para dar ao mundo. Este prémio serve para despertar as mulheres e fazê-las sentir o poder que têm por dentro”.

A AMI Notícias errou! Na rubrica AMI Convida (p.17) da última edição da AMI Notícias, houve uma gralha de edição, pelo que corrigimos, pedindo desculpa ao seu autor, o título do texto redigido pelo Dr. Umaro Ba para o título original: “Guiné-Bissau: Criação e manutenção da rede de Agentes de Saúde Comunitária (ASC) na educação para a​ redução da mortalidade materno-infantil em Quinara”.


BREVES Mecenato_

Missão Natal A Missão Natal volta este ano na sua 11ª edição para apoiar 5453 pessoas (2.107 famílias) que se encontram em situação de pobreza e exclusão social em Portugal, e ainda projetos a nível internacional, em diversas áreas de atuação, desde a saúde, a nutrição, educação, associativismo, negócios sociais e ambiente. Contribuir para esta missão pode ser feito de várias formas, seja através do financiamento de um cabaz de natal, da oferta de “miminhos” a crianças e idosos, do apoio a uma missão internacional ou da aquisição de presentes solidários. De salientar que um donativo de 20€ permite apoiar uma família em Portugal, sendo que 10€ asseguram um cabaz de bens alimentares e 10€ garantem o financiamento de parte do seu acompanhamento social. Ajude-nos a proporcionar uma quadra digna e feliz a todos aqueles para quem trabalhamos!

Aventura Solidária aos Açores Em março de 2020, a pandemia obrigou-nos a suspender os programas da missão Aventura Solidária no Senegal, na Guiné-Bissau e no Brasil. Porém, o dinamismo do projeto manteve-se e decidimos criar uma nova iniciativa com enfoque no património nacional e na proteção do ambiente. A Aventura Solidária nos Açores decorreu de 26 de setembro a 2 de outubro, com o objetivo de promover a participação em projetos na área do ambiente na Ilha de São Miguel. Em parceria com organizações locais como a SPEA Açores - Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, e de forma a revitalizar as economias locais, onze aventureiros viajaram com a AMI até S. Miguel para participar nesta experiência, sob a orientação do programa Biodiversidade Açores, para conhecer a região e as suas diversas iniciativas ambientais. Será uma experiência a repetir, tal foi o sucesso da iniciativa. Em breve prevemos também anunciar novas datas para os destinos internacionais da Aventura Solidária.

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AGENDA AMI 5 DEZ 37º aniversário da AMI

13 A 21 DEZ Entrega de cabazes de Natal

LOJA AMI

PORTES DE ENVIO

A Loja AMI dispõe de vários artigos que podem ser adquiridos no site ami.org.pt/loja. Ao comprar qualquer um dos artigos da loja AMI estará a contribuir para a realização dos nossos projetos e missões. Pode também fazer a sua escolha, preencher e enviar-nos o cupão abaixo, junto com o cheque no valor total dos artigos acrescido das despesas de envio indicadas.

Encomenda

90€

Portugal Continental

5€

Grátis

Portugal Ilhas

25€

20€

Europa

30€

15€

Resto Mundo

35€

17,50€

90€

"Um Conto de Natal"

Boneca Becca

Pequena 8€ Grande com asas 15€

Livro 12€

Taleigo Amigo

5€ [MAIS ARTIGOS EM AMI.ORG.PT]

FAÇA JÁ O SEU DONATIVO

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INFORMAÇÕES

NECESSIDADES ATUAIS DE VOLUNTARIADO Voluntariado Nacional Distribuição de Cabazes alimentares Centro Porta Amiga do Porto Horário: 9h30 às 12h e das 14h30 às 17h

 Centro Porta Amiga de Chelas (Lisboa) Data. todas as 5ª feiras Horário: 14h às 16h30 Apoio Médico e de Enfermagem Abrigo Noturno da Graça (Lisboa) Horário: a definir com o voluntário
 Apoio Logístico

Delegação Centro (Coimbra) e Delegação Norte (Porto) Horário: a definir com o voluntário

Voluntariado Internacional Obstetra para Madagáscar Centro de Saúde St. Paul d’Ampefy-Andasibe Duração: 3 meses

Para apresentação de propostas, por favor, contacte-nos através do e-mail

voluntariado@ami.org.pt

[FICHA DE CANDIDATURA ONLINE]

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