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AMI Notícias Nº 82

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N.º 82 Distribuição Gratuita 3.º trimestre de 2021

notícias

Entrevista

Mónica Ferro Diretora do Fundo das Nações Unidas para a população

Quinara - Guiné Bissau

MAIS SAÚDE PARA MULHERES E CRIANÇAS Bolama - Guiné Bissau

AGORA TAMBÉM EM

FORMATO DIGITAL

FALAR SOBRE SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA


Foto: Luisa Nemésio

N.º 82 Distribuição Gratuita 3.º trimestre de 2021

notícias

Entrevista

Mónica Ferro Diretora do Fundo das Nações Unidas para a população

Quinara - Guiné Bissau

MAIS SAÚDE PARA MULHERES E CRIANÇAS Bolama - Guiné Bissau

AGORA TAMBÉM EM

FORMATO DIGITAL

FALAR SOBRE SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA

04 | Universalizar a saúde materno-infantil

06 | Entrevista – Mónica Ferro 10 | “Papia Ku Mi” - Falar sobre

a saúde sexual e reprodutiva na Guiné-Bissau

12 | Dados sobre saúde materno-infantil 14 | Quinara: mais saúde para mulheres

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17 | AMI convida – Umaro Ba 19 | Breves

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22 | Agenda + Loja AMI 23 | Informações

Este número da AMI Notícias foi editado com o especial apoio da revista VISÃO (Distribuição), COMPANHIA DAS CORES (Design), LIDERGRAF (Impressão e Acabamento) e CTT – Correios de Portugal Autorizada a reprodução dos textos desde que citada a fonte. AMI Fundação de Assistência Médica Internacional R. José do Patrocínio, 49, Marvila, 1959-003 Lisboa ami.org.pt | fundacao.ami@ami.org.pt | MB WAY: 962 777 431 Ficha Técnica Publicação Trimestral Diretor Fernando Nobre Diretora Editorial Luísa Nemésio Edição Ana Ferreira Redação Marina Bertolami Fotografias AMI Paginação Companhia das Cores – Ana Gil, Lúcia Antunes Tiragem 56.000 exemplares Depósito Legal DL378104/14

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DEMOGRAFIA, DESENVOLVIMENTO E SAÚDE MATERNO-INFANTIL

Desde tempos imemoriais do “crescei e multiplicai-vos” que a demografia nunca mais deixou de estar no epicentro da Humanidade, em particular a partir dos séculos XIX com a industrialização, XX com a explosão demográfica e XXI com a pressão ambiental. Paradoxalmente, hoje, e quanto a mim erroneamente, tende-se a questionar de ânimo leve se o crescimento populacional do planeta não é a causa primeira, senão a única, da insustentabilidade do planeta e do esgotamento dos recursos naturais, da poluição, conflitos, etc. Esquece-se de colocar na equação questões históricas pertinentes como: - As migrações populacionais sempre ocorreram desde os primórdios da Humanidade, nem sempre tiveram a fome como impulso determinante mas raramente tiveram a superpopulação como origem. - A curva demográfica ascendente tende a declinar, pelo processo bem conhecido da “transição demográfica” com a melhoria das condições de vida dos povos, ou seja o desenvolvimento. Ora a saúde materno-infantil é óbvia e inegavelmente um fator crucial para o desenvolvimento e consequente estabilização demográfica, bastando para demonstrá-lo referir apenas dois parâmetros: o número de mulheres que morrem de parto nos países menos desenvolvidos é 70 vezes maior do que nos nossos e de nados mortos também. Josué de Castro, Presidente do Conselho Executivo da FAO entre 1952 e 1956, demonstrou no seu livro “A Geopolítica da Fome” (1951) que o nosso Planeta tem

© Gabriela Nemésio Nobre

SUMÁRIO + EDITORIAL

Fernando de La Vieter Nobre Presidente e Fundador da AMI

capacidade, se bem cultivado e com equidade na distribuição de bens produzidos, para alimentar 12 e 13 mil milhões de pessoas. Opôs-se firmemente na altura às interpretações demográficas que entendiam a fome como consequência de excesso populacional e prescreviam um controle de natalidade de massa e demonstrou os vários fatores biológicos, geográficos, culturais e políticos pelos quais a fome gera a superpopulação. Enfrentou forte oposição dos países desenvolvidos à execução de projetos voltados para o desenvolvimento do terceiro mundo e não deixou de expressar a sua frustração com a “ação tímida e vacilante” da agência das Nações Unidas, apesar da alta qualificação de seus peritos e técnicos. Vamos agora a caminho de 8 mil milhões pese embora a brutal aceleração nos últimos 70 anos, tendo a população global sido multiplicada por 3 a 3,5 vezes. Na fórmula da sustentabilidade necessária, com a qual estou absolutamente de acordo, o único fator de mudança propalada é a população mas nunca a produção, o consumo ou a energia poluente produzida, inclusive o plástico como derivado. O que está realmente em causa, na minha opinião, é o novo modelo de sociedade! Se a produtividade for mais sustentada e mais equitativa , a “transição demográfica” dar-se-á em todo o planeta. Haverá o tão desejado desenvolvimento global, não teremos mais crescimentos populacionais de 3.3% como no Níger e cessarão as maciças ondas migratórias que fogem dos conflitos, das secas e da fome.

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UNIVERSALIZAR A SAÚDE MATERNO-INFANTIL A sobrelotação dos sistemas de saúde, em resultado da pandemia, veio revelar ou confirmar as fragilidades dos mesmos. Em muitos países, os serviços de saúde têm sofrido um retrocesso em termos de eficácia e acessibilidade, tendo como principal motivo a resposta à pandemia que é agora o foco de atuação e de vigilância, tendo o tratamento de outras patologias passado para segundo plano.

A IMPORTÂNCIA DA PREVENÇÃO Embora a pandemia tenha influenciado os números no que concerne a mortalidade infantil, a maior causa de morte de crianças à nascença e até aos 5 anos não deixa de ser a falta de acesso a cuidados de saúde materno04 |

-infantil e de monitorização apropriada ao longo da gravidez e puerpério de milhões de mulheres em todo o mundo. Não obstante tenha vindo a decrescer consideravelmente, entre 1990 e 2019, tendo-se verificado uma descida de cerca de 60% na mortalidade infantil, só em 2019, 5.2 milhões de crianças com menos de 5 anos morreram por causas que poderiam ter sido prevenidas. A Covid-19 veio relembrar o mundo de quão ténue pode ser o progresso obtido na redução da taxa de mortalidade materno-infantil a nível global e que, no que toca a este campo da saúde, é necessário continuar a canalizar recursos financeiros e humanos para salvar vidas. © Alfredo Cunha

Os cuidados de saúde materno-infantil são um exemplo das esferas no âmbito da saúde que têm sofrido com esta crise pública, o que tem surtido efeitos particularmente graves na vida de muitas mulheres e crianças em países cujo acesso a cuidados de saúde primários não é universal ou garantido.


CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS De entre as principais causas por detrás da mortalidade materna e neonatal encontram-se muitas vezes problemas de acesso a cuidados de saúde primários que garantam tanto às mães como aos seus filhos uma gestação segura e vigiada. A pobreza, falta de informação, distanciamento das unidades de serviço em zonas urbanas, mas principalmente rurais, assim como práticas culturais, de que é exemplo a Mutilação Genital Feminina, praticada ainda em países como a Guiné-Bissau ou a Nigéria, são fatores que têm extrema influência na saúde das mães e dos seus filhos. A falta de acompanhamento profissional, assistência médica, cuidados de higiene e vigilância adequada das mulheres no decorrer da gravidez e no pós-parto podem originar infeções, sépsis, eclâmpsia, hemorragias puerperais, complicações no parto ou abortos inseguros, o que constitui ainda 75% das causas de mortes maternas e neonatais. REGIÕES DE MAIOR FOCO Existem disparidades notórias entre países com sistemas de saúde universais e gratuitos e países onde o acesso é segmentado, sendo que o grande número de mortes associadas à gravidez e à natalidade são mais verificadas em regiões como a África Subsaariana e no sul da Ásia. A salvaguarda da prestação de cuidados reprodutivos e neonatais de qualidade em regiões que apresentam elevadas taxas de mortalidade infantil, em contextos de pobreza estrutural, ou no seio de crises humanitárias ou ambientais, continua a ser um desafio para as organizações internacionais e as organizações não governamentais presentes no terreno. Esta garantia, que implica uma reestruturação concertada dos sistemas de saúde mais frágeis, com disponibilidade de recursos financeiros e humanos para fazer chegar cuidados de saúde materno-infantil onde são necessários, não existe nos cenários referidos, uma vez que não se manifesta como uma prioridade na agenda política internacional. De acordo com dados dos Médicos Sem Fronteiras, em países como a Somália e a Etiópia, apenas 23% dos partos são assistidos por profissionais qualificados na área da obstetrícia. Em simultâneo, em países como a Índia ou Bangladesh, onde a prática de partos em casa é muito comum, a taxa de mortalidade materna é mais elevada.

MUDANÇA DO PARADIGMA Em 2015, quase meio milhão de mulheres em todo o mundo morreu durante o parto e 2,7 milhões de bebés morreram no primeiro mês da sua vida, segundo dados do estudo “Where women go to deliver: understanding the changing landscape of childbirth in Africa and Asia”, publicado no Journal on Health Policy and Systems Research. O mesmo estudo revela que de uma maneira geral, em todo o mundo, houve maior acesso às instituições de saúde no que toca a cuidados de saúde materno-infantil, tanto em áreas rurais como urbanas. No entanto, em regiões como o sudeste da Ásia, um hospital ou maternidade pode ficar a centenas de quilómetros de distância. O que é necessário para garantir o acesso à saúde materno-infantil em qualquer parte e a qualquer pessoa? Vontade política e internacional? Movimentos sociais organizados pela sociedade civil? O reforço do 16º artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos que reconhece a qualquer ser humano o direito à família sob a proteção do Estado? Ou todas as ações e intervenientes mencionados anteriormente, num esforço conjunto que vise a mulher e a criança como os principais “agentes” de crescimento e desenvolvimento da sociedade e da raça humana? | 05


MÓNICA FERRO DIRETORA DO FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A POPULAÇÃO Mónica Ferro foi vice-presidente do Fórum Europeu de Parlamentares para a População e Desenvolvimento, Secretária de Estado e atualmente é diretora do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) em Genebra, cargo que assumiu em abril de 2017. Mais do que os cargos que ocupou, Mónica Ferro distingue-se pelas ideias que defende em torno dos Direitos Humanos e particularmente no que concerne à condição de ser Mulher nas sociedades modernas, a igualdade de género e a autodeterminação corporal. 06 |

De passagem por Lisboa, Mónica Ferro aceitou partilhar as suas considerações sobre temas como a Mutilação Genital Feminina e a Saúde MaternoInfantil e como estes influem no seu trabalho diário. Quais as principais áreas de atuação do Fundo das Nações Unidas para a População? O Fundo das Nações Unidas para a População foi criado em 1969 com o objetivo de fornecer dados sobre a evolução demográfica e dados estatísticos aos países para que eles pudessem planear o seu desenvolvimento socioeconómico. Isto para perceberem qual era o impacto da sua população nos processos de desenvolvimento socioeconómico e, portanto, começámos com esta tarefa que mantemos até hoje. Consideramos que todas as pessoas contam e,


ENTREVISTA

para que todas as pessoas contem, todas as pessoas têm de ser contadas. À medida que o tempo foi passando, fomos mudando o foco daquilo que nós chamamos o foco humano para o foco dos direitos humanos. Hoje, as nossas principais áreas de trabalho são a saúde sexual e reprodutiva, a saúde materna, a eliminação de todas as violências contra as Mulheres, incluindo a Mutilação Genital Feminina e os casamentos infantis. Esse é o motivo pelo qual nós colideramos com a UNICEF os grandes programas globais para a eliminação dos casamentos infantis, intervindo em tudo o que tenha a ver com estratégias de empoderamento de jovens, estratégias de acesso de jovens à saúde sexual e reprodutiva, porque acreditamos que esse é um investimento transformador, e trabalhamos tudo o que tenha a ver com o fornecimento de produtos de saúde sexual e reprodutiva e planeamento familiar. Nós tentamos simplificar a nossa mensagem dizendo que queremos atingir três zeros. Zero mortes maternas preveníveis, zero necessidades por preencher de planeamento familiar e zero violência com base no género, onde estão incluídas as práticas tradicionais nefastas como a mutilação genital feminina e o casamento infantil. Quais são atualmente as maiores preocupações do UNFPA no que toca à saúde materna no mundo? Essa é uma área fundamental do nosso trabalho, trabalhamos muito com formação de pessoal de saúde nessa matéria. Somos a agência que lidera os programas globais de formação de parteiras, que é um investimento verdadeiramente transformador. O nosso maior fundo é o fundo temático para a saúde-materno infantil e por isso, a nossa prioridade é reduzir o número de mortes maternas preveníveis e aumentar a qualidade e o número de partos assistidos e, desse ponto de vista, é ter um impacto de mudança nas sociedades, portanto esse objetivo mantém-se ao longo dos últimos anos como um dos objetivos centrais do trabalho do Fundo das Nações Unidas para a População. Do seu ponto de vista, o que é que falha para que não exista um acesso universal à saúde para todas as mulheres grávidas, independentemente do seu país ? Eu diria que é uma mistura de várias ausências e limitações. Em muitos sítios não há infraestrutu-

tentamos simplificar “Nós a nossa mensagem dizendo que queremos atingir três zeros. Zero mortes maternas preveníveis, zero necessidades por preencher de planeamento familiar e zero violência com base no género

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ras necessárias, não há pessoal de saúde qualificado em número e em qualidade, muitas vezes é também uma questão de acesso aos serviços que até podem existir, mas nós insistimos muito que a matriz de prestação de contas pressupõe que haja serviços que têm de estar disponíveis, têm de ser acessíveis e aceitáveis do ponto de vista cultural e têm de ser de qualidade. Se uma destas componentes falhar, não podemos dizer que as pessoas têm realmente acesso ao serviço universal de saúde. Por vezes, é uma questão também de ter os produtos necessários e de se vencer determinadas normas sociais e mitos. Em vários países, muitas mulheres ainda não podem ter acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva senão com o consentimento do seu marido. Nós lançámos há pouco tempo o nosso relatório que se chama “o meu corpo é meu: reivindicando o direito à autonomia e autodeterminação” e é o primeiro relatório das Nações Unidas que mede a Autonomia Corporal, que é abordada no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5, em que um dos indicadores é a garantia da autonomia corporal que pretende medir o poder de tomada de decisão das mulheres em três áreas: o acesso a cuidados médicos, a escolha do método de planeamento familiar e se podem ou não dizer “não” ao sexo estando numa união ou num casamento. Apenas 55% das mulheres que responderam ao questionário disseram que sim a estas três perguntas. As histórias são múltiplas, e trata-se disto, de haver o serviço, haver o produto, mas a mulher não ter poder de decidir se quer consultar o médico e que método de planeamento familiar é que quer usar. Essa questão é muito importante, porque realmente estamos a falar de violações de direitos humanos. A saúde, não só é uma decisão política como o acesso à saúde é um direito humano, portanto essa é uma das reflexões mais fundamentais que podemos fazer no mundo de hoje. | 07


nestes países. Muitas delas querem poder controlar a sua fertilidade e decidir o número de filhos que querem ter e muitos partos seguidos sem o devido espaçamento e sem os devidos cuidados médicos provocam mortes maternas, por hemorragias pós-parto, o que acontece muito na Guiné-Bissau, por exemplo.

Atualmente, de acordo com os dados da ONU, quais são os países onde se verifica um maior número de mortes maternas e neonatais e a que é que se devem estas mortes, fundamentalmente? São sobretudo países da África subsariana e algumas bolsas na Ásia, e a razão pela qual os números continuam excessivamente altos deve-se ao conjunto de fatores que acabámos de enumerar: falta de infraestruturas, falta de pessoal qualificado, falta de produtos e barreiras institucionais. Se a isto adicionarmos os desastres naturais, que têm levado os sistemas de saúde ao seu limite e que os obrigam a ter de definir prioridades novas, não identificando a saúde sexual e reprodutiva como prioritária... Verificámos isso com a Covid, foi uma das grandes tendências que nós vimos com as respostas à pandemia. Há um conjunto de fatores que potenciam este número de mortes maternas muito elevadas e há outra questão: as elevadíssimas taxas de fertilidade das mulheres 08 |

Quais as estratégias do Fundo das Nações Unidas para a População para recuperar o retrocesso que a pandemia provocou no alcance do ODS 3, em particular das metas 3.1 e 3.2? Em março do ano passado, quando a pandemia foi declarada e começámos a tomar medidas, publicámos um guia técnico que se chamava “Um Olhar de Género para a Pandemia”, e alertámos que esta ia ter um impacto desproporcional sobre as mulheres, as raparigas e também nos jovens e que as decisões que se tomassem em matéria de saúde pública tinham que ter dois aspetos em linha de consideração: este impacto desproporcional que iria existir em algumas áreas temáticas com todos os serviços de saúde primários reafetados à pandemia e alertámos também que, não só as mulheres iam ser mais afetadas como tinham de fazer parte do programa de desenho das funções. Em abril, lançámos logo a primeira projeção dos impactos que a pandemia ia ter em algumas áreas chave do nosso trabalho. A disrupção das cadeias globais de fornecimento ia impedir que os nossos produtos de planeamento familiar chegassem a muitos países e, portanto, havia programas de planeamento familiar que iam ser interrompidos, resultando em gravidezes indesejadas. Medimos também o impacto da pandemia no aumento dos casamentos infantis, mais 13 milhões de casamentos durante a próxima década, que, de outra forma, poderiam ter sido evitados. Dois milhões de casos novos de Mutilação Genital Feminina que também poderiam ser evitados desde agora até 2030. Nós começámos imediatamente a responder, a enviar equipamentos de proteção individual para vários profissionais da área da saúde, nomeadamente as parteiras que foram reafetadas no Sistema Nacional de Saúde em várias partes do mundo para a linha da frente, esquecendo-se que as mulheres continuam a ficar grávidas, que continuam a ter de dar à luz e que muitas vezes deixaram de dar à luz num hospital ou num centro de saúde porque tinham medo. Medo de ser infetadas ou porque as alas de saúde sexual e reprodutiva foram encerradas para poderem acolher


ENTREVISTA

as pessoas que estavam afetadas por covid e por isso, uma das nossas prioridades foi também, por exemplo, na Guiné-Bissau, fornecer-lhes imediatamente equipamentos de proteção individual. Percebemos que era preciso sensibilizar os governos e as comunidades para que estes serviços continuassem. Esperamos que esta pandemia possa até transformar a forma como nós olhamos para a igualdade de género e para a saúde enquanto dois objetivos que são uma espécie de gémeos virtuosos: se a saúde correr bem, a igualdade de género beneficia, se existir igualdade de género, a saúde vai ser também alavancada desse ponto de vista. No âmbito da área da Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos, algumas práticas nefastas, tais como a Mutilação Genital Feminina, ainda são comuns em muitos países africanos, nomeadamente PALOP, como a Guiné-Bissau. Como é que se sensibiliza para a abolição destas práticas? Quer a Mutilação Genital Feminina, quer os casamentos infantis, foram considerados violações dos direitos humanos e, por isso, há um grande consenso na comunidade internacional de que devem ser encarados como violações de direitos humanos e merecem uma resposta robusta , mas que deve ser localizada no sentido em que têm de ser os países a desenhar as suas respostas e aquilo que nós chamamos de abordagens compreensivas e multidisciplinares. Portanto, quer para a Mutilação Genital Feminina, quer para os casamentos infantis há dois grandes programas globais que são coliderados pelo Fundo das Nações Unidas para a População e pela Unicef e que têm uma estratégia de intervenção bastante semelhante, que é abordar esta questão como uma violação de direitos humanos e como um crime, pela via legislativa também. Mas essa via legislativa não chega e portanto o trabalho é multidimensional, passa pela criminalização destes comportamentos, mas também por envolver o Ministério da Educação, para que haja a criação das consciências e inclusão destes temas nos curricula escolares, passa por envolver os Ministérios da Justiça, os parlamentares, o Ministério da Saúde, para que haja uma deteção dos casos e até uma sinalização precoces. Passa também pelo envolvimento das comunidades, dos líderes comunitários, dos líderes religiosos, para que haja uma mensagem de toda a sociedade que esta é uma prática que viola os direitos humanos de muitas mulheres e raparigas. Se há e prevalece,

apesar de todas as campanhas de informação, o mito de que a mutilação genital feminina é uma prática religiosa, então, é trabalhando com os líderes religiosos que nós temos de desmontar essa prática. Mais uma vez, temos o belíssimo exemplo da Guiné-Bissau e mais recentemente do Egito, que passou a ter uma série de Ímanes a declarar que a Mutilação Genital Feminina não está prevista no Corão, não é uma prática religiosa sancionada no Corão, e até a emitir uma fatwa contra a Mutilação Genital feminina. Na Guiné-Bissau, fizeram-no à frente do Parlamento, mostrando que era uma ação do poder religioso alinhada com o poder legislativo. A sociedade tem de estar toda envolvida, poder político, poder legislativo, tribunais, sociedade civil e líderes comunitários e religiosos. Natália Kanem, diretora executiva do UNFPA, afirma que para acabar com a mutilação genital feminina é necessário mais do que a aplicação da lei, o esforço concertado dos diversos stakeholders de diferentes setores e o seu empoderamento para conduzir a uma mudança social significativa. Para além dos stakeholders que já referiu, que outras partes interessadas podem exercer força para que haja uma erradicação destas práticas? O trabalho que se tem feito na criação de redes de homens contra a Mutilação Genital Feminina, o trabalho que se tem feito na criação de associações de pais contra a Mutilação Genital Feminina, por exemplo. Estamos a falar de normas sociais, que nos definem, e participar e executar estas normas sociais é para muitos de nós o passaporte de entrada e de pertença a um grupo, portanto é muito difícil desconstruir estas normas, mas a beleza de serem normas sociais é que são construídas e podem ser desconstruídas. Este trabalho tem de ser feito com a participação destes atores: as famílias exercem um papel fundamental, as comunidades, e porque não falar das personalidades com dimensão global? Os nossos e as nossas embaixadoras da boa vontade, como por exemplo a Catarina Furtado. Porque não tentar encontrar pessoas que possam dar a cara por uma causa destas, nomeadamente influencers que podem chegar a um número extraordinário de pessoas através das redes sociais. Somos todos precisos nesta causa e há até alguma preocupação de que uma abordagem demasiado penalista possa remeter a prática ainda para um lugar mais oculto e ser ainda mais difícil de a monitorizar, combater e prevenir. Há um trabalho de trazer para a luz a prática e chamar todos aqueles que queiram estar envolvidos neste combate.

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“PAPIA KU MI” FALAR SOBRE SAÚDE SEXUAL E REPRODUTIVA NA GUINÉ-BISSAU “Papia Ku Mi” ou, em crioulo da Guiné-Bissau, “Fala Comigo”, é um projeto de Promoção da Saúde e dos Direitos Sexuais e Reprodutivos, implementado pela AMI na Ilha de Bolama e que irá decorrer até março de 2022. Este projeto, desenvolvido em parceria com a Direção Regional de Educação, a Direção Regional de Saúde de Bolama e a Rádio Pro-Bolama, pretende trabalhar os direitos sexuais e reprodutivos da população adolescente e juvenil da ilha, bem como dos seus cuidadores e líderes. Segundo o Plano Nacional de Desenvolvimento da Saúde, publicado em 2017, persiste a dificuldade na Guiné-Bissau de garantir a provisão de meios contracetivos, a redução da taxa de natalidade entre adolescentes e a redução de mortalidade materna através da melhoria da qualidade de cuidados de saúde como o acesso a consultas de planeamento familiar, pré-natais e partos assistidos em unidades hospitalares. O mesmo relatório indica que a taxa de mortalidade materna na Guiné-Bissau era à data da sua publicação de 900/10.000 nados vivos, o que faz da Guiné-Bissau um 10 |

dos países do mundo onde um maior número de mulheres morre por causas relacionadas com a reprodução, excisão feminina, sexualidade, gravidez e parto. Assim, o projeto “Papia Ku Mi” pretende, através da mobilização da comunidade, atuar em três componentes fundamentais: • Formação de elementos de referência, sobre os principais conceitos associados à saúde sexual e reprodutiva. • Sensibilização em contexto escolar e comunitário, recorrendo à metodologia de educação por pares, atividades artísticas, sessões de grupo e programas de rádio. • Implementação de um sistema de referenciação para serviços de saúde especializados em saúde sexual e reprodutiva.


A equipa local definida para este projeto é composta por um coordenador, dois técnicos de projeto, um conselheiro local de Saúde Sexual e Reprodutiva (SSR), um logístico e ainda um elemento expatriado, responsável pela coordenação da formação em saúde sexual e reprodutiva, que permaneceu no terreno durante um primeiro período de três meses, na fase inicial de implementação. O objetivo de chegar a 37 comunidades da Ilha de Bolama e a sete escolas públicas da região, do 5º ao 12º anos, requer o envolvimento de 26 ativistas comunitários (13 pares), 14 “Amigos Informados” e 7 professores. Mussa Baio, coordenador local do projeto explica-nos que o “Papia Ku Mi” “é um projeto de proximidade. Até fevereiro de 2022, na região de Bolama, queremos que cerca de 80% da comunidade tenha conhecimento sobre Saúde Sexual e Reprodutiva e sobre o abandono de práticas nefastas”. Em entrevista, Mussa acrescenta que, para alcançar este objetivo, os ativistas comunitários assumirão o papel de criar atividades no seio das diversas comunidades, bem como promover ações de sensibilização juntos dos jovens e dos líderes comunitários, enquanto que os “Amigos Informados”, jovens formados e escolhidos para uma maior facilidade de abordagem dos temas, vão garantir que as dinâmicas e a partilha de conhecimentos relativos à Saúde Sexual e Reprodutiva acontecem nas escolas e nas comunidades, com o apoio dos professores e pontualmente dos ativistas e da Conselheira de SSR. Celeste Mendonça, a Conselheira de SSR e responsável pelo Centro de aconselhamento e referenciação, instalado no Centro de Saúde de Bolama, tem também um papel vital neste projeto, como a própria afirma: “Estou

aqui para receber todos aqueles que têm dúvidas do que tenha sido referido pelos ativistas comunitários ou “Amigos informados”. Estou aqui também para ajudar com o Planeamento familiar de forma gratuita e prestar esclarecimentos acerca de doenças sexualmente transmissíveis. Em Bolama, existe pouco conhecimento acerca destas questões e com este projeto, através da formação, vamos conseguir multiplicar o conhecimento sobre questões de Saúde Sexual e Reprodutiva”. Enquanto técnico de projeto, Sana Cassamá acrescenta também que “para além de formar e sensibilizar jovens neste projeto, queremos influenciar os mais velhos da nossa comunidade, os chamados líderes comunitários, sobretudo na comunidade muçulmana, para o abandono de práticas nefastas, porque são eles que autorizam que as meninas sejam alvo de excisão feminina quando crianças, porque é um crime na lei da Guiné-Bissau e que tem repercussões ao nível da reprodução quando estas meninas se tornam mulheres”. De acordo com a equipa, a pandemia acabou por não ter influência na implementação do “Papia Ku Mi” pois há um “cumprimento generalizado das medidas preventivas na região”, pelo que a Direção-Geral da Saúde tem apoiado plenamente a concretização do mesmo como um exemplo de boas práticas e alvo de possível reprodução em outras regiões do país. O projeto deverá alcançar diretamente cerca de 5.248 pessoas e contribuir para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 3 (Saúde de Qualidade) e 5 (Igualdade de Género).

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A precariedade da saúde materno-infantil é uma questão que afeta milhões de mulheres e crianças em todo o mundo, influenciando a qualidade de vida de muitas famílias e comunidades. Eis alguns factos atuais sobre a saúde materno-infantil e as suas consequências:

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© Alfredo Cunha

DADOS SOBRE SAÚDE MATERNO-INFANTIL


• 99% de todas as mortes maternas ocorrem em países em desenvolvimento.

• Todos os dias, cerca de 830 mulheres morrem por causas que poderiam ser prevenidas, relacionadas com gravidez e natalidade.

• A meta 3.1 do 3.º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável - Saúde de Qualidade, prevê reduzir até 2030, o rácio de mortalidade materna global para menos de 70 por 100.000 nascimentos.

• Apesar do progresso substancial na redução da mortalidade materna e infantil, as desigualdades persistem. Dados estatísticos demonstram que as mulheres e crianças dos países da África subsariana estão menos protegidas ao nível da saúde materno-infantil.

• Segundo o estudo “Every Woman Every Child” da ONU, divulgado em setembro de 2020, o progresso para melhorar a saúde das mulheres e crianças na última década está em risco devido ao conflito, à crise climática e à pandemia.

• Países como São Tomé e Príncipe, República Dominicana, Eritreia, Guiana, Honduras, Maldivas e Sri Lanka, são dos países que mais imunizam grávidas contra o tétano.

• A taxa de mortalidade neonatal na Guiné-Bissau é superior à média da África ocidental e subsaariana. Estimam-se 38,8 mortes por cada 1000 nascidos vivos, o que representa 44% de todas as mortes de crianças com idades inferiores a 5 anos no país.

• As estatísticas apontam a morte de um recém-nascido a cada 13 segundos e de 33 mulheres a cada hora durante o parto, no mundo.

• Em Portugal, nos anos 60, menos de 20% dos partos

• Em 2020, a taxa de mortalidade infantil em Portugal, foi a mais baixa de sempre, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), que registou 205 mortes de crianças com menos de 1 ano, menos 41 crianças com idade inferior a 1 ano do que em 2019.

eram feitos em ambiente hospitalar, 80% das crianças nasciam em casa, morrendo cerca de 77 crianças por cada 1000 que nasciam.

• Ainda assim, em 2019, Portugal foi o décimo estado-

• Com a criação do Serviço Nacional de Saúde em 1979,

• Porém, Portugal continua a ter uma das mais baixas

os cuidados de saúde materna em Portugal melhoraram consideravelmente, tendo surgido um Plano Nacional de Saúde Materno-Infantil, que resultou num investimento em recursos, equipamentos técnicos e formação de profissionais nas áreas de obstetrícia e neonatologia.

taxas de mortalidade do mundo de crianças até aos cinco anos, com três mortes em cada mil nascimentos em 2019, contra 12 em 1990, segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e do Banco Mundial.

-membro da União Europeia com maior taxa de mortalidade infantil, de acordo com os dados do INE.

Fontes: ONU, OMS, UNICEF, INE | 13


QUINARA: MAIS SAÚDE PARA MULHERES E CRIANÇAS As fragilidades relativas à saúde na Guiné-Bissau têm caracterizado a qualidade da vida das populações, particularmente em Quinara, uma região marcada pela ruralidade e pobreza extrema. Em 2014, a Guiné-Bissau ocupava a 174ª posição no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano, que faz uma avaliação de 189 países no mundo, sendo a falta de acesso à saúde um fator determinante na ocupação desta posição. As elevadas taxas do país relativamente à mortalidade materno-infantil e de crianças menores de 5 anos levaram a AMI, cuja história de atuações na Guiné-Bissau remonta a 1987, a trabalhar ao longo das últimas décadas neste e noutros campos da saúde, através da implementação de um conjunto de projetos em diversas regiões do país. 14 |

O último projeto, implementado em 2014 e que viu o seu término em 2020, teve como cenário a região de Quinara, que, com cerca de 65.500 habitantes, dos quais 8.734 são crianças com idade inferior a cinco anos, 2.955 grávidas e 14.447 mulheres em idade fértil (INASA, 2016), é fortemente marcada pela ruralidade, fracas condições de habitabilidade, parcas redes de transportes e telecomunicações, estradas débeis e recursos alimentares resultantes apenas da agricultura e da pesca. A escassez define o contexto vivido na região e torna a população profundamente vulnerável do ponto de vista dos Direitos Humanos. Com uma inexistente proteção social, a saúde da população é a que mais se ressente. A falta de infraestruturas e recursos humanos faz com que as unidades de saúde mais próximas estejam na maioria das vezes a uma distância mínima de 5 km, o que do ponto de vista da saúde materno-infantil tem consequências graves, uma vez que dificulta a prática de partos assistidos em hospitais, existindo, por isso, um risco agravado de mortes neonatais.


O projeto “Intervenções de Alto Impacto: Saúde Comunitária em Quinara” desenvolvido pela AMI, em parceria com a Unicef e inserido no Plano Operacional de Passagem à Escala Nacional (POPEN), teve por objetivo criar, nesta região do país, meios para permitir o acesso à saúde a todas as famílias, com um foco particular nas mulheres grávidas, bebés e jovens. 16 PRÁTICAS FAMILIARES ESSENCIAIS Este foi um projeto dirigido a mulheres grávidas e crianças menores de 5 anos, que passou pela mobilização de Agentes de Saúde Comunitária (ASC) formados para promover um conjunto de 16 Práticas Familiares Essenciais junto dos agregados familiares da região. Ângela Pedroso, coordenadora de projeto e expatriada na Guiné-Bissau em diversas fases da intervenção, explica que a adoção destas práticas por parte das famílias “representou uma diminuição significativa do risco de mortalidade materna e infantil” e que “foram disponibilizados Kits de Materiais e Medicamentos Essenciais aos Agentes de Saúde Comunitária para que estes pudessem prestar cuidados de saúde primários em casos de diarreia, paludismo ou pneumonia”. Ainda, e para “incentivar a aproximação das pessoas aos serviços de saúde, foi reforçada a capacidade de realização de deslocações de equipas móveis de enfermeiros, para prestação de serviços primários às grávidas e crianças menores de 5 anos, como por exemplo, vacinação e avaliação nutricional” , acrescenta Ângela Pedroso.

A EQUIPA Este projeto exigiu a organização de uma equipa de 16 elementos, multidisciplinar e multinacional, composta por profissionais locais e expatriados, nomeadamente um Chefe de Missão, um Coordenador de projeto, um Coordenador adjunto, um Gestor de Dados/Financeiro, um Contabilista, seis Supervisores Operacionais de Terreno, um Logístico, um Motorista, dois Guardas, um Técnico de Contabilidade e um Técnico de limpezas. Por outro lado, foi prioritário apostar na capacitação da equipa da Direção Regional de Saúde, ao nível dos Enfermeiros Responsáveis de cada área sanitária da região (Tite, Brandão, Buba, Empada, Dar-es-Salam e Fulacunda), pois seriam quem assumiria a intervenção e sustentabilidade do projeto a longo prazo, pelo que o foco de formação desta equipa foi a gestão diária no terreno, no que toca à saúde comunitária e ao acompanhamento dos Agentes de Saúde Comunitária.

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OS AGENTES DE SAÚDE COMUNITÁRIA Os 208 Agentes de Saúde Comunitária, mais do que elementos da comunidade formados para prestar serviços nas comunidades no que se refere à saúde, são as pessoas de referência das mesmas, tendo cada um cerca de 50 agregados familiares à sua responsabilidade para a promoção da saúde e tratamento de doenças da infância, nomeadamente no que diz respeito à despistagem de desnutrição, entre outras. Zandonaido Silva, enfermeiro e ponto focal de saúde comunitária reflete que “a comunidade encarou este projeto como algo de grande importância porque havia, e ainda há, na região de Quinara muitas pessoas sem acesso ao atendimento da ação médica. O meu papel neste projeto foi o de formar e supervisionar os Agentes de Saúde Comunitária, pelo que foram desenvolvidas algumas atividades nas tabancas* com os Agentes de Saúde Comunitária e os agregados familiares acerca da importância da desinfeção da água de consumo, utilização de latrinas, prevenção de paludismo e importância de cuidados pré-natais”.

*Aldeias 16 |

Rosário Cadi, Agente de Saúde Comunitário, teve conhecimento deste projeto através de um familiar e durante 21 dias aprendeu tudo o que podia acerca de saúde materno-infantil. Ficou entusiasmado com a ideia de empoderar famílias e trabalhar diretamente para a sua comunidade. “Ganhámos a consciência e o compromisso de que iríamos trabalhar com as mulheres e crianças da região e que o mais importante era salvar vidas (…) No início não foi fácil, porque as comunidades não compreendiam a importância do assunto e a necessidade de fazer o recenseamento das famílias, e nós tínhamos de explicar que queríamos ajudar a resolver problemas de saúde e ajudar a acabar com alguns comportamentos nefastos”. No decorrer de toda a intervenção, houve uma estreita colaboração entre a AMI, a Unicef, a Direção Regional de Saúde de Quinara e ainda o Instituto Camões (que cofinanciou a 2ª fase do projeto). Como parceiro financiador, a Unicef trabalhou com a AMI no sentido de criar formas de operacionalizar e definir estratégias e estabelecer indicadores. Já a Direção Regional de Saúde disponibilizou um escritório nas suas instalações para fomentar o trabalho conjunto e o desenho de estratégias de implementação do projeto. No ano de 2018, o Banco Mundial foi responsável por uma parcela de financiamento do projeto, contribuindo para o incentivo dos Agentes de Saúde Comunitária. Ângela Pedroso destaca que houve uma melhoria significativa dos indicadores de saúde da região ao nível da saúde materna e infantil, o que é uma “prova do sucesso da intervenção e sobretudo da apropriação e adoção, por grande parte da população, de práticas familiares essenciais com impacto positivo para as grávidas e crianças menores de 5 anos.” Em resultado deste projeto, 100% das grávidas seguidas pelos Agentes de Saúde Comunitária que evidenciaram sinais de risco na gestação foram referenciadas para Unidades de Saúde competentes, todas as crianças identificadas com sintomas de desnutrição foram devidamente acompanhadas e 98% das crianças entre os 6 e os 24 meses receberam alimentação complementar à amamentação. Mais de 1.294 mulheres grávidas e 9.308 crianças menores de 5 anos beneficiaram diretamente da execução deste projeto em Quinara entre 2014 e 2020. A última fase do projeto procurou promover e assegurar a transferência de competências e responsabilidades da equipa da AMI para a equipa da Direção Regional de Saúde de Quinara.


AMI CONVIDA

AMI convida

UMARO BA

Guiné – Bissau: Criação e manutenção da rede de Agentes de Saúde Comunitária (ASC) na educação para a mortalidade materno-infantil em Quinara A Guiné-Bissau, situada na costa ocidental da África, é um país pequeno de 36, 125 Km quadrados com cerca de 2 milhões de habitantes. Figura entre os países com menor Índice de Desenvolvimento Humano (175º lugar de 187 países e territórios avaliados), em particular, em termos de acesso e utilização de um serviço de saúde de qualidade, com uma elevadíssima taxa de mortalidade materna, neonatal e infanto-juvenil. Numa corrida contra o relógio para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio, o Ministério da Saúde decidiu, em 2009, reativar as intervenções de base comunitária através de 16 Práticas Familiares Essenciais (PFE) com impacto cientificamente demonstrado na redução da morbilidade materna e infantil. A parceria entre a UNICEF Guiné-Bissau e a AMI, iniciada em 2014, para a criação de uma rede de agentes de saúde comunitária (ASC) treinados, equipados e supervisionados na região de Quinara, constituiu um desafio enorme que tinha como objetivo aumentar os conhecimentos da população em matéria de saúde. Pretendia também mobilizá-la para a utilização dos serviços disponíveis através da visita aos agregados familiares para sensibilizar as famílias sobre a problemática da saúde em geral e de maneira particular sobre a higiene (construção e uso correto de latrinas, lavagem das mãos nos momentos cruciais, higiene dos alimentos), seguimento de crianças em idade vacinal para que pudessem ser correta e completamente vacinadas antes do primeiro ano de vida, seguimento e encaminhamento de grávidas para consulta pré-natal e parto institucional, prestação de cuidados essenciais aos recém-nascidos na comunidade, deteção de sinais de perigo nas grávidas, crianças menores de 5 anos e a sua evacuação para uma estrutura sanitária, bem como o tratamento das três doenças causadoras do maior número de morte infantil (paludismo, diarreia e pneumonia).

Na região sanitária de Quinara, a AMI conseguiu manter em função mais de 70% do total dos agentes de saúde comunitária treinados, apesar de estes serem voluntários; cerca de 75% dos agregados familiares recenseados receberam visitas mensais do ASC; mais de 85% de crianças que padeciam de diarreia sem sinais de complicações foram tratadas com sais de re-hidratação oral (SRO) e zinco; mais de 85% das crianças maiores de 2 meses e menores de 5 anos com pneumonia beneficiaram de tratamento com amoxicilina e 60% das crianças beneficiaram de seguimento regular de estatuto nutricional. Foi significativo o trabalho realizado pela AMI com os ASC da região na referência de casos a estruturas de saúde. Quase 100% das crianças e grávidas detetadas com algum sinal de perigo na comunidade foram evacuadas para a estrutura sanitária, constituindo provavelmente o ponto de inflexão das taxas de mortalidade infantil no país, se considerarmos as dificuldades de transporte e a precariedade das vias rodoviárias. Importa salientar que sem a presença dos ASC na comunidade, muitos dos casos tratados por eles ou evacuados teriam um desenlace fatal. Obviamente, não se pode afirmar categoricamente que estes resultados provêm exclusivamente do trabalho dos ASC, mas também não se pode dissociá-lo deles e das ONG como a AMI, que trabalhou arduamente na planificação, coordenação, seguimento, avaliação e orientação dos ASC na tarefa de educação sanitária e na mobilização comunitária para a utilização dos serviços de saúde disponíveis. Dr. Umaro Ba, Médico Especialista em MGI (Medicina familiar) Especialista em Saúde da UNICEF

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BREVES - NACIONAL Nacional_

Incentivar a Cidadania Jovem Em consequência da pandemia e da necessidade de adaptação das escolas a esta nova realidade, o ano letivo 2020/2021 foi palco para realização dos 5 projetos vencedores em 2019, da iniciativa “Linka-te aos Outros”. O Agrupamento de Escolas de Santo António (Barreiro) optou por desenhar um projeto de construção de uma horta escolar e organizar um Eco-Festival (online) envolvendo a comunidade educativa. O agrupamento de Escolas do Vale da Amoreira (Moita) desenvolveu o projeto “Redes para a Inclusão”, que consistiu, numa primeira fase, na dinamização de ações de formação sobre os direitos no âmbito da nacionalidade, da saúde, da educação, da habitação e do apoio social e jurídico, e numa segunda fase, na seleção de mentores e atribuição de alunos a acompanhar, assim como o diagnóstico de algumas necessidades identificadas pelos colegas, ao nível do apoio escolar. A Escola Horácio Bento Gouveia, no Funchal, contou com a participação de alunos dos 2º e 3º ciclos em atividades de voluntariado em diversas instituições,

através da distribuição de lanches, participação em momentos de convívio com os utentes, e elaboração de cabazes alimentares para as suas famílias. O Agrupamento de Escolas D. Maria II em Braga foi um dos vencedores que promoveu o apoio social, lançando várias atividades focadas na inclusão e solidariedade social, intituladas : “Leva e Traz“, ”Agasalha um Sem-Abrigo”, “Combate à solidão da população sénior”, e “Rumo à tua melhor versão”. Finalmente, a Escola Básica 2.3 Júlio Brandão, em Vila Nova de Famalicão, embora não tenha conseguido concluir o projeto face às circunstâncias da pandemia, através da Oficina de Troca de Saberes, desenvolveu a iniciativa de partilha de saberes intergeracionais: “Conta-me Como Foi e eu Digo-te como é!”.

Premiar o Jornalismo de Causas Os trabalhos vencedores da 23.ª edição do Prémio AMI - Jornalismo Contra a Indiferença foram divulgados em julho pelo júri constituído pelas vencedoras da edição anterior, Amélia Moura Ramos e Marta Gonçalves, pela realizadora e fundadora da Help Images, Raquel Martins e pela Administradora e Diretora do Departamento de Tesouraria da AMI, Alice Nobre. As peças selecionadas pelo júri foram, respetivamente, “Racismo no Futebol: Sou Preto, e então?; A Luta de Thuram; A Revolução Cigana”, de Bárbara Baldaia (canal 11) e “Luanda Leaks: A cidade que Isabel dos Santos deixou para trás (Expresso); Luanda Leaks: O Bairro do Povoado (SIC); de Luís Garriapa e Micael Pereira.

Foram ainda atribuídas três menções honrosas aos trabalhos “Os Devolvidos”, de Ana França (Expresso), “Plástico, o Novo Continente”, de Catarina Canelas (TVI), e a “A Serpente, o Leão e o Caçador”, de Margarida Cardoso (Fumaça). Os jornalistas dividiram o primeiro prémio de €5.000 do galardão e receberam um troféu alusivo ao evento, estendendo-se também esta última distinção aos autores dos trabalhos galardoados com menções honrosas.

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Internacional_

Brasil_

Promover o empoderamento feminino

Começou em julho um novo projeto em parceria com a Associação Comunitária de Milagres (ACOM). “Marias em Ação: Direitos, vivência e dignidade em tempos de COVID-19”, terá uma duração de 8 meses e está orçamentado em 4.890,00 Euros. A ação está centrada no fortalecimento do papel de liderança das mulheres da região de Milagres, ativamente envolvidas no desenvolvimento das suas comunidades e na luta contra a desigualdade social e de género, mas que têm sido fortemente afetadas pela pandemia de COVID-19

tanto a nível socioeconómico como psicológico. O projeto irá promover ações de sensibilização por rádio e internet para abordar temas relacionados com a discriminação social e racial e com a violência de género, incentivando a mudança de comportamento da população; participação em mentorias, cursos de marketing e gestão de redes sociais; implementação de atividades geradoras de rendimento; distribuição de kits alimentares; e acompanhamento psicossocial.

Formamos para o Futuro da Humanidade De 17 a 25 de junho realizou-se, em formato e-learning, a V Formação a Voluntários Internacionais I Intervenções em Emergência - que contou com a participação de 12 formandos das áreas da saúde, ciências e comunicação sociais, ciência política, psicologia e arquitetura. Integraram a equipa de formadores, quatro elementos do Departamento Internacional da AMI, e ainda uma coordenadora pedagógica. Realizadas anualmente, as FVI destinam-se a voluntários que queiram participar em missões humanitárias na área da saúde e gestão de projetos e têm por 20 |

objetivo partilhar conceitos e abordagens sobre o funcionamento da ação humanitária em contextos de países em desenvolvimento. Pretende-se assim preparar e integrar os que partem em missão com o sistema e práticas humanitárias internacionais em vigor. A próxima ação decorrerá novamente em formato e-learning de 18 de outubro a 5 de novembro.


BREVES Mecenato_

Vamos todos ser Dinis Sob o mote “Vamos todos ser Dinis”, a AMI vai dar continuidade ao esforço para reflorestar o Pinhal de Leiria iniciado em 2020. No âmbito do projeto Ecoética, será realizada uma iniciativa de reflorestação de 13 hectares (13.000 árvores) por altura do dia da Floresta Autóctone, a 23 de novembro. Com apenas €10, é possível plantar uma árvore, estando a decorrer uma ação de angariação de fundos. A ação conta já com o apoio do Aldi, MEOS, Gestamp, Protur (Associação para o Turismo de S. Pedro de Moel) e Plimat. Se a situação epidemiológica do país permitir, espera-se contar com a participação de voluntários na ação de reflorestação.

Campanha Escolar Solidária Há 13 anos que a AMI promove a campanha solidária, em parceria com a Auchan, com o objetivo de contribuir para que todos os jovens usufruam das mesmas condições de acesso à educação. Juntamente com as lojas Auchan, My Auchan e os seus parceiros, serão colocados à venda vales solidários entre 16 e 29 agosto que serão convertidos em material escolar para entregar a 3.653 crianças e adolescentes apoiados pelos Centros Porta Amiga e núcleos da AMI em todo o país (Continente e Ilhas). À semelhança das campanhas anteriores, o valor

angariado será duplicado pela Auchan e usado para comprar material escolar para as crianças. Os kits completos (compostos por mochila, cadernos, estojo e todo o material necessário para os alunos) serão montados numa ação de voluntariado que terá lugar de 9 a 11 de setembro, de acordo com as medidas da DGS em vigor. Desde a primeira campanha, em 2009, já foram distribuídas mais de 42.000 mochilas, totalizando 1.705 milhões de euros em material escolar doado.

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AGENDA AMI 23 NOV

18 OUT A 5 NOV

Ação de Reflorestação do Pinhal de Leiria

Formação a Voluntários Internacionais (e-learning)

26 SET A 2 OUT Aventura Solidária aos Açores

LOJA AMI A Loja AMI dispõe de vários artigos que podem ser adquiridos no site ami.org.pt/loja. Ao comprar qualquer um dos artigos da loja AMI estará a contribuir para a realização dos nossos projetos e missões. Pode também fazer a sua escolha, preencher e enviar-nos o cupão abaixo, junto com o cheque no valor total dos artigos acrescido das despesas de envio indicadas.

Boneca Becca

Pequena 8€ Grande com asas 15€

PORTES DE ENVIO Encomenda

90€

Portugal Continental

5€

Grátis

Portugal Ilhas

25€

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Europa

30€

15€

Resto Mundo

35€

17,50€

90€

Kit Salva-Livros

6€

"Toda a Esperança do Mundo"

Livro 39.90€

[MAIS ARTIGOS EM AMI.ORG.PT]

FAÇA JÁ O SEU DONATIVO

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INFORMAÇÕES

NECESSIDADES ATUAIS DE VOLUNTARIADO Voluntariado Nacional Distribuição de Cabazes alimentares Centro Porta Amiga do Porto Data: 20 a 24 setembro Horário: 9h30 às 12h e das 14h30 às 17h

 Centro Porta Amiga de Chelas (Lisboa) Data. todas as 5ª feiras Horário: 14h às 16h30 Apoio Médico e de Enfermagem Abrigo Noturno da Graça (Lisboa) Horário: a definir com o voluntário
 Apoio Logístico

Delegação Centro (Coimbra) e Delegação Norte (Porto) Horário: a definir com o voluntário

Voluntariado Internacional Obstetra para Madagáscar Centro de Saúde St. Paul d’Ampefy-Andasibe Duração: 3 meses

Para apresentação de propostas, por favor, contacte-nos através do e-mail

voluntariado@ami.org.pt

[FICHA DE CANDIDATURA ONLINE]

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O Cartão de Saúde AMI proporciona um conjunto de vantagens aos seus aderentes, mantendo sempre o mesmo preço, independentemente do número de pessoas agregadas ao cartão. Nº8235 VALIDADE: 02/19

Saiba mais através do nº: 213

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CONTACTOS E-mail: fundacao.ami@ami.org.pt | Internet: www.ami.org.pt SEDE Fundação AMI – Rua José do Patrocínio, 49, 1959-003 Lisboa | T. 218 362 100 DELEGAÇÕES Norte T. 225 100 701 | Centro T. 239 436 263 | Madeira T. 291 201 090 Açores – Terceira T. 295 215 077 CENTROS PORTA AMIGA Lisboa – Olaias T. 218 498 019 | Lisboa – Chelas T. 218 591 348 | Porto T. 225 106 555 | Almada T. 212 942 323 | Cascais T. 214 862 434 | Funchal T. 291 201 090 | Coimbra T. 239 842 706 | Gaia T. 223 777 070 | Angra T. 295 218 547 ABRIGOS NOTURNOS Lisboa (em colaboração com a C. M. Lisboa) T. 218 152 630 | Porto T. 225 365 315


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AMI Notícias Nº 82 by Fundação AMI - Issuu