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AMI Notícias nº 84

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N.º 84 Distribuição Gratuita 1.º trimestre de 2022

notícias

Entrevista

Victor Ângelo

Especial Crises Esquecidas Iémen

UM PAÍS IGNORADO Madagáscar AGORA TAMBÉM EM

FORMATO DIGITAL

PARAÍSO ÁRIDO


N.º 84 Distribuição Gratuita 1.º trimestre de 2022

notícias

Entrevista

Foto: AMI

Victor Ângelo

Especial Crises Esquecidas Iémen

UM PAÍS IGNORADO Madagáscar AGORA TAMBÉM EM

FORMATO DIGITAL

PARAÍSO ÁRIDO

04 | Crises humanitárias

ou humanidade em crise?

05 | Entrevista – Victor Ângelo 08 | Iémen – Um país ignorado 10 | Para quando o estado da Palestina?

12 | Madagáscar – Paraíso árido 14 | Tantas outras crises esquecidas 16 | Venezuela – O paradoxo

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da abundância

18 | AMI convida – Ana Paula Cruz 20 | Breves Nacional, Internacional, Mecenato

22 | Agenda + Loja AMI 23 | Informações

Este número da AMI Notícias foi editado com o especial apoio da revista VISÃO (Distribuição), COMPANHIA DAS CORES (Design), LIDERGRAF (Impressão e Acabamento) e CTT – Correios de Portugal Autorizada a reprodução dos textos desde que citada a fonte. AMI Fundação de Assistência Médica Internacional R. José do Patrocínio, 49, Marvila, 1959-003 Lisboa ami.org.pt | fundacao.ami@ami.org.pt | MB WAY: 962 777 431 Ficha Técnica Publicação Trimestral Diretor Fernando Nobre Diretora Editorial Luísa Nemésio Edição Ana Ferreira Redação Marina Bertolami Fotografias AMI Paginação Companhia das Cores – Ana Gil, Lúcia Antunes Tiragem 52.000 exemplares Depósito Legal DL378104/14

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© Gabriela Nemésio Nobre

SUMÁRIO + EDITORIAL

A HUMANIDADE ENTRE O DESESPERO E A ESPERANÇA A nossa Humanidade (todos nós), vive num profundo desespero alicerçado num total desnorte de certas lideranças gananciosas e indiferentes perante o sofrimento alheio. O que parecia impossível tornou-se realidade: a nossa saúde física, psíquica, social, económica, cultural e ambiental está refém (por enquanto, e até quando?) de uma doença, o vírus da ganância, que quase tudo corrompeu e quase tudo destruiu onde pretendeu enraizar-se. Quando falamos de Crises Humanitárias esquecidas, negligenciadas, complexas, estamos a falar de muitas centenas de milhões de vidas que têm rostos, embora para uma certa “liderança” sejam meros números estatísticos sem interesse algum. Para os assassinos económicos, para os assassinos sanitários, para os assassinos da geopolítica da fome e das guerras passadas, presentes e futuras, que não sabem ou se esqueceram do significado do Amor para com o seu semelhante e para com a Terra Mãe tão espezinhada, é isso que eles são: números sem rosto perfeitamente descartáveis porque sem interesse algum para o “seu” mundo de ganância e indiferença sem limites e nunca saciadas. Eis que a Vida, os Valores Universais, os Direitos Humanos, as Constituições aparentemente já pouco ou nada representam para certas “elites” (que de elites nada têm) gravemente enfermas de uma ganância desenfreada e insaciável em Ter, Ter, Ter… Para quando o Ser, Ser, Ser? Nesta Revista fala-se de crises humanitárias esquecidas. São tantas! E receio sinceramente que mais venham a ser! Bastar-me-ia fechar os olhos uns instantes para

Fernando de La Vieter Nobre Presidente e Fundador da AMI

percorrer o Mundo, que tão bem conheço, e acrescentar outras tantas crises esquecidas que aqui não são abordadas: o rol é muito grande. Há 41 anos estava a operar no Golfo Pérsico, em Abadan, na Guerra Irão-Iraque. Desde então nunca mais fui o mesmo. Vivi a minha epifania e entendi qual seria o sentido da minha vida: pôr-me ao serviço do sofrimento alheio. Ia tentar Ser, e o Ter deixou de ter interesse no meu caminho. Sim, Ser e não Ter. Mas acreditem ou não, é nessas crises todas, que vivenciei muito de perto, que encontro os rostos de seres humanos heróicos, magníficos exemplos de resiliência que me dão a coragem suficiente para resistir ao meu desencanto e continuar a lutar e resistir! São eles, os meus Heróis, a minha razão de continuar a querer ser, haja o que houver na tragédia contínua que observo. Eles são a minha motivação, a minha Fé, o meu ar, a minha Esperança última. O meu Amor! Para mim e para a AMI, esses Seres Humanos têm rosto, são fundamentais, na sua diversidade e singularidade, para o futuro da Humanidade e para a nossa própria sobrevivência coletiva. São e serão sempre merecedores da nossa atenção, do nosso Amor, palavra que encerra em si mesma a essência e o sentido da Humanidade como um todo único e indivisível. Temos o dever de tentar. Haverá um elevado custo? Sim. Mas a Humanidade merece!

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CRISES HUMANITÁRIAS OU HUMANIDADE EM CRISE? A pandemia de Sars-Cov-2 transformou o mundo e os arquétipos em que as sociedades se configuram, acentuando crises humanitárias pré-existentes e negligenciadas (ou mesmo provocando-as), que ficaram na sombra de uma paralisação global. As consequências do caos provocado por crises humanitárias despoletadas sobretudo por guerras, conflitos armados e catástrofes naturais são incomensuráveis. A vida e a dignidade de milhões de pessoas são todos os dias ameaçadas por conflitos, perseguição, extremismo, pobreza, insegurança alimentar, devastação climática e por interesses políticos e económicos. A gestão de crises humanitárias é inglória. As populações afetadas não encontram nos seus países respostas e soluções efetivas para o restauro da sua segurança e das suas vivências, ativando, por isso, um conjunto de mecanismos de mobilização de organizações humanitárias, ajuda internacional e solidariedade concertada entre ONG e entidades estatais para a mitigação das consequências e assistência às vítimas. Conflitos ou desastres acabam por cessar, mas os seus efeitos não, estendendo-se no tempo e em ciclos geracionais de pobreza, miséria e esquecimento. O envolvimento das comunidades internacionais para a assistência e intervenção em emergências humanitárias começou numa Europa devastada pela Segunda Guerra

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Mundial e início da guerra fria, com a criação das Nações Unidas em 1945. Porém, a cooperação das nações que integram este organismo é fundamental e nem sempre imparcial, o que dificulta a criação de respostas interdisciplinares que não sirvam propósitos meramente assistencialistas. Em 2022, a OCHA prevê que mais 38 milhões de pessoas precisarão de ajuda humanitária relativamente a 2021, ou seja, um total de 274 milhões de pessoas vive atualmente sem garantias de direitos fundamentais e consequentemente com carências profundas, como fome, falta de abrigo e habitação, acesso à saúde e à educação. Para dar resposta a estas crises, estima-se que serão necessários 41 mil milhões de dólares só para necessidades alimentares, de saúde e de higiene em mais de 60 países. Nesta edição da revista AMI Notícias, iremos abordar algumas crises humanitárias que ficaram reféns do tempo e do esquecimento e entraremos em diálogo com atores chave no campo da intervenção humanitária em diferentes contextos para conhecermos mais profundamente quais os grandes desafios atuais da humanidade.


ENTREVISTA

VICTOR ÂNGELO Dedicou a sua vida ao trabalho humanitário. Victor Ângelo foi Alto Funcionário das Nações Unidas para Operações de Paz e para o Fundo para a População por mais de 30 anos, indo trabalhar em países como São Tomé e Príncipe, Moçambique, Angola, Guiné- Equatorial, República CentroAfricana e Gâmbia, entre outros. O seu universo são as questões globais ligadas ao desenvolvimento, à resolução de conflitos e defesa da paz. Em entrevista à AMI Notícias falou-nos da sua jornada profissional e do seu olhar sobre a humanidade dos dias de hoje.

Quando e como é que começa este percurso na área do desenvolvimento e do trabalho humanitário? Comecei a trabalhar para as Nações Unidas, mais exatamente com o Fundo para as Atividades da População (FNUAP), em 1978. Era, na altura, um jovem no quadro técnico do Gabinete de Estudos do Instituto Nacional de Estatística, depois de ter estado na direção do INE entre maio de 1974 e setembro de 1976, bem como na primeira Comissão Nacional de Eleições, formada após o 25 de abril. Fui recrutado por decisão do secretariado da sede da ONU, que tinha avaliado as minhas capacidades ao observar o meu trabalho junto da OCDE, onde representava o INE num projeto comum de formulação de indicadores sociais. Fui enviado para São Tomé e Príncipe, como técnico junto da direção de estatísticas do novo país. Nessa altura, as estatísticas de São Tomé eram um serviço nascente, para o qual Cuba havia destacado um Comissário político, para acompanhar o diretor, que | 05


vinha dos tempos coloniais e não tinha nem a confiança política das novas autoridades são-tomenses, nem a preparação técnica suficiente para dirigir o serviço. Passados dois anos e meio em São Tomé, e vencida esta primeira prova, o FNUAP encarregou-me de abrir um escritório regional em Maputo, que além de Moçambique tinha a responsabilidade da supervisão dos projetos em Angola, na Guiné Equatorial e também em São Tomé. A ida para Maputo confirmou a minha integração na carreira das Nações Unidas. No tema das crises esquecidas, e tendo em conta a sua vasta experiência, em cenários de instabilidade e insegurança, quais é que classifica como sendo as maiores e mais negligenciadas crises humanitárias da atualidade? A maior crise humanitária atual é a do Afeganistão. Cerca de 60% da população precisa de ajuda, quer alimentar quer nas outras áreas do campo humanitário: saúde, educação, proteção dos direitos das pessoas mais frágeis e marginalizadas. Segue-se a Etiópia, com uma crise profunda, escondida pelas autoridades centrais, mas que atinge cerca de 26 milhões de pessoas. O que se passa na região do Tigray é particularmente grave e o acesso humanitário é impedido pelo governo federal, liderado por Abiy Ahmed, que foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz em 2019 e que é atualmente um chefe de guerra, que não reconhece os princípios humanitários internacionais. A terceira grande crise, em números absolutos, vive-se no Iémen. Em termos relativos, o Iémen ocuparia infelizmente a primeira posição: quase 70% dos seus habitantes carecem de apoio humanitário absoluto e urgente. Nigéria, Sudão do Sul, República Democrática do Congo,

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As guerras civis, os conflitos armados, a falta de respeito pelos direitos humanos, a corrupção das elites governantes, o terrorismo e as perseguições étnicas estão na base da desestabilização da vida de milhões de pessoas.

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Myanmar, Bangladesh, Somália, Síria e Sudão também fazem parte da lista de países com gravíssimas situações de carência absoluta, de deslocamentos forçados de populações e níveis elevados de insegurança e de violação dos direitos fundamentais. E agora, aqui à nossa porta, temos a enorme crise humanitária ucraniana. Segundo dados do ACNUR, 82.4 milhões de pessoas encontram-se deslocadas forçadamente, 6.6 milhões estão refugiadas, um vasto número destas pessoas vive em campos de acolhimento há anos... Algumas nasceram e cresceram nestes lugares que são criados com o intuito de receber as pessoas temporariamente e em situação de emergência. Quais são as causas desta falta de respostas que deixam a vida das pessoas em suspenso? As guerras civis, os conflitos armados, a falta de respeito pelos direitos humanos, a corrupção das elites governantes, o terrorismo e as perseguições étnicas estão na base da desestabilização da vida de milhões de pessoas. Muitas dessas populações acabam por procurar refúgio noutros países, geralmente em países limítrofes, engrossando assim o número de refugiados que hoje existem no mundo. Na realidade, no total inventariado pelo ACNUR faltam aqueles que não conseguem que o seu estatuto de refugiado seja reconhecido, acabando por ser os mais vulneráveis dos vulneráveis. Só no Paquistão, para dar um exemplo, existem mais de 300 mil afegãos que fugiram do seu país após a chegada dos Talibãs ao poder e não conseguem obter nem o estatuto de refugiados, nem, por isso, a proteção do ACNUR. Como é que se mitigam as consequências de um conflito armado ou desastre natural do ponto de vista humano? É possível garantir, através de um trabalho concertado entre as Nações Unidas, organizações governamentais e não governamentais, que as populações afetadas se restabelecem efetivamente dos danos causados nas suas vidas? A coordenação entre as agências das Nações Unidas, as instituições nacionais e as organizações não-governamentais é essencial para que se possa dar uma resposta tão completa quanto possível aos desafios humanitários. Sempre defendi que as Nações Unidas se devem focar sobretudo nas tarefas de mobilização de recursos, de coordenação e segurança, deixando os aspetos operacionais e o trabalho de terreno ao cuidado das organizações não-governamentais bem como dos serviços nacionais de apoio humanitário. Como é que a pandemia veio agravar estas crises humanitárias, particularmente em países como o Iémen, a

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ENTREVISTA

A democracia e a paz “ficam a ganhar quando Síria, a Somália, o Uganda ou o Bangladesh, onde o número de pessoas refugiadas ou internamente deslocadas é exorbitante? A Covid-19 agravou substancialmente as crises humanitárias. Também dificultou a operacionalização das respostas, devido aos constrangimentos em termos de deslocações, à fragilidade dos sistemas de saúde e à falta de meios para combater a expansão da pandemia. O acesso às vacinas mostrou as desigualdades existentes entre os países mais ricos e os outros, como também revelou que os refugiados e os deslocados se encontravam no fim da fila, no que diz respeito às vacinas. Em 2022, a expansão das campanhas vacinais nos países mais pobres e junto das populações mais carenciadas deve ser uma prioridade absoluta, na área do combate à Covid. O apoio deve passar pela OMS e pelas outras agências da ONU, em colaboração com os governos nacionais e as organizações não governamentais ativas no domínio da saúde pública. O Instituto para a Economia e Paz diz-nos que os efeitos das alterações climáticas se agravam exponencialmente de dia para dia, o que significa que em 2050, 1.2 mil milhões de pessoas poderão ficar deslocadas. São números alarmantes, como é que antevê este cenário? As alterações climáticas são um dos grandes desafios dos nossos tempos. Cada país deve elaborar cenários que procurem antecipar e encontrar respostas aos impactos negativos das alterações climáticas. Nos países menos desenvolvidos, esse impacto levará a um agravamento da pobreza, a deslocações em massa e à ocupação descontrolada de espaços suburbanos, com tudo o que isso significa em termos de saneamento, de saúde pública, de desordenamento urbano, de desemprego e modos de vida informais e de desafios para a ordem pública. Haverá ainda que contar com uma aceleração dos fluxos migratórios internacionais e com novos focos de tensão e conflito. Quais é que considera serem as grandes problemáticas que impedem, por parte da comunidade internacional e das Nações Unidas, a resolução efetiva de crises humanitárias de longa duração? Os dramas humanitários têm na origem profundas crises políticas. E a maioria dessas crises correspondem a conflitos que duram há anos, mesmo décadas, e que não têm sido resolvidos. É aquilo a que chamamos conflitos congelados ou esquecidos. Na realidade, são conflitos que passaram a fazer parte da cena política internacional, ou seja, que entraram na rotina das relações internacionais, na inaceitável normalidade de um mundo injusto e desigual. Permanecem insolúveis porque o Conselho de Segurança das Nações Unidas está dividido. Infelizmente, as fraturas no Conselho de Segurança continuam a

existe uma sociedade civil corajosa e dinâmica. Organizações como a AMI fortalecem o tecido social e ajudamnos a lembrar o valor da solidariedade e da esperança.

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agravar-se. Por isso, é impossível ser-se otimista no que diz respeito à redução dos níveis de sofrimento em massa de certas populações. Isso significa que as organizações humanitárias são e serão indispensáveis para aliviar esse sofrimento e salvar vidas. Aqui, é importante sublinhar que as considerações políticas não devem, de modo algum, impedir o trabalho das agências humanitárias. O que é que nós, enquanto sociedade civil, podemos fazer, na prática, para apoiar e participar ativamente na resolução destes conflitos e impedir o esquecimento em torno destas crises? Sempre fui um defensor empenhado das organizações da sociedade civil. Desempenham funções da maior importância na chamada de atenção para as situações de vida ou de morte, para a salvaguarda da ordem humanitária internacional, e para a prestação de serviços de assistência às populações vítimas de violência, de abusos de poder, de radicalismos, xenofobismo, e de todo o tipo de agressões à dignidade humana. É necessário amplificar os alertas e os apelos que a sociedade civil lança. É, igualmente, da maior importância reconhecer a dedicação e a militância das organizações não-governamentais. A agenda pública fica mais pobre quando as associações de cidadãos e de voluntários são sistematicamente ignoradas ou mesmo atacadas, como acontece em países com regimes ditatoriais. A democracia e a paz ficam a ganhar quando existe uma sociedade civil corajosa e dinâmica. Organizações como a AMI fortalecem o tecido social e ajudam-nos a lembrar o valor da solidariedade e da esperança.

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© Julien Harneis sob a licença CCBY 2.0

IÉMEN, UM PAÍS IGNORADO O panorama no Iémen que, segundo a World Population Review 2022, é um dos países mais pobres do mundo, desvela-se perante o olhar passivo do mundo, mas a verdade por detrás desta guerra civil é tão dura que a comunidade internacional prefere esquecer que, desde 2011, meio milhão de pessoas perdeu a vida.

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As Nações Unidas prevêem que em 2030, deverão ascender a 1.3 milhões de vítimas mortais desta guerra por efeitos diretos ou colaterais, como fome e doenças preveníveis. Estima-se que 70% serão crianças. O crescimento do movimento rebelde Huti, que ao longo do tempo se foi apoderando da região norte do país e da capital Sanaa, foi estimulado pela queda do instável governo Iemenita. Em 2015, a coligação dos países árabes liderada pela Arábia Saudita surgiu na tentativa de reerguer as forças governamentais do Iémen, o que desencadeou uma guerra interminável. Dr. Fernando Nobre, Presidente e Fundador da AMI, esclarece que “o lugar geoestratégico vital que o Iémen ocupa no sul da Península Arábica e a sua primordial importância no Estreito de Bad-el Mandeb, fulcral na passagem do mar Vermelho para o Golfo de Aden por onde passa a artéria principal dos navios petroleiros, explica a razão principal do conflito e a intervenção direta ou indiretamente da supremacia regional: a Arábia Saudita e o Irão, tendo a Turquia maioritariamente sunita, à espreita e par-


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As consequências humanitárias desse caos constante são tremendas e, como sempre, as maiores vítimas(...) são sempre as mesmas, a saber: as crianças, as mulheres e os idosos

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ticularmente atenta. Não nos esqueçamos da ocupação e influência do Império Otomano, de que a Turquia se reclama como herdeira e com fundamento histórico de séculos…”. O sofrimento causado pela incompatibilidade religiosa entre xiitas e sunitas tem sido um combustível importante na extensão deste conflito, dividindo a região em dois polos: Arábia Saudita (sunita) e Irão (xiita). De acordo com dados da World Report, o conflito vivido no país intensificou-se em 2021, à medida que 49 distritos foram sendo diretamente afetados pelas frentes armadas. Atualmente, existem 4 milhões de pessoas internamente deslocadas e este é um número em crescendo. A Human Rights Watch denuncia ainda crimes de tortura, detenções ilegais, desaparecimento e rapto de civis, recrutamento de jovens para integrar o conflito através do uso de armas e o recurso à utilização de minas terrestres – que já roubaram a vida a 9 mil pessoas desde o início do conflito - violando as sanções impostas para a proibição deste tipo de dispositivos no país.

Nas regiões controladas tanto pelos Hutis como por autoridades do governo Iemenita foram interditas intervenções por parte das organizações humanitárias que querem providenciar assistência urgente à população, nomeadamente fornecendo bens alimentares e cuidados de saúde. Isto tem causado um agravamento dramático das condições de sobrevivência da sociedade civil que vive despojada de bens essenciais e abrigo. A fome apoderou-se do país, afetando particularmente crianças e mulheres. “As consequências humanitárias desse caos constante são tremendas e, como sempre, as maiores vítimas dos bombardeamentos, inclusive dos hospitais, da fome, dos surtos epidémicos como a cólera, assim como das violações, sempre inqualificáveis, são sempre as mesmas, a saber: as crianças, as mulheres e os idosos” - denuncia Fernando Nobre.

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© Ahmed Abu Hameeda sob a licença CCBY 2.0

PARA QUANDO O ESTADO DA PALESTINA? A fragmentação dos territórios palestinianos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza e a consequente segregação do seu povo foi considerada no mais recente relatório da Amnistia Internacional como um apartheid instituído pelo Estado de Israel, equiparando-o ao regime vivido na África do Sul por mais de 50 anos. O que começou no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, com a Alyia do povo judeu, que procurou na Palestina a segurança da terra prometida, rapidamente escalou para um confronto interminável entre judeus e palestinianos, inflamado pela ineficiente administração britânica na região.

impelidos a intervir em resposta à perseguição de milhares de palestinianos. Começou o momento que, na história da Palestina, é conhecido como a “Al-Nakba” ou “a Catástrofe”, os mais trágicos 11 dias desde o início deste conflito, causando milhares de mortes e refugiados.

A CATÁSTROFE Em 1947, as Nações Unidas proclamaram o Estado de Israel e delimitaram-se as fronteiras da Palestina em dois estados, com a intenção de mitigar as tensões vividas neste ponto do Médio Oriente, delineando a cidade sagrada de Jerusalém como fronteira e lugar de culto, de ambos os territórios que a proclamam até hoje como sua capital. O povo palestiniano rejeitou esta tomada de decisão internacional, pois as suas fronteiras haviam decrescido significativamente a favor daquele que seria o território do novo Estado de Israel. A convivência entre os dois povos semitas, judeu e palestiniano, tornou-se inviável por via de uma série de atentados e apropriações territoriais, pelo que os países vizinhos se viram

DIGNIDADE EXPROPRIADA Sucederam-se décadas de subjugação do povo da Palestina, cujo diminuto território é gradualmente ocupado pelos settlers israelitas através da construção de kibutz ilegais, numa disputa de poder desigual e demolidora. São severas as restrições de circulação, não só no interior da Cisjordânia e da Faixa da Gaza, como entre ambos, parcos os acessos a recursos essenciais, débeis as poucas infraestruturas existentes, e a perseguição é recorrente por parte das forças militares israelitas. Para além da construção do muro que foi, desde 2002, erigido ilegalmente para dividir o território palestiniano fora daquelas que tinham sido as demarcações definidas pela comunidade internacional, veio separar brutalmente

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Associação para a União das Mulheres Árabes

comunidades e famílias como uma estratégia para anexar território palestino ao Estado de Israel. São centenas de milhares os casos de famílias separadas há décadas por pouco mais de 100 km, que separam a Cisjordânia da Faixa de Gaza e que estão sob jurisdição israelita, que determina quem tem direito à mobilidade e sob que condições. UMA CRISE ESQUECIDA PELO OCIDENTE A auto-determinação do povo palestiniano parece ter ficado esquecida na agenda política internacional. Resultado: 7 milhões de refugiados por todo o mundo, dos quais 1.5 milhões em campos de refugiados dos países vizinhos como o Líbano, a Síria, a Jordânia e o Egipto. Presa pelas forças militares israelitas com apenas 16 anos por reagir à discriminação assídua e distópica de todos os dias, Ahed Tamimi foi, num passado recente, um exemplo da insurgência contra a violência quotidiana que impera neste estado de sítio. UNIÃO DE MULHERES ÁRABES Na cidade de Nablus, a norte da Cisjordânia, a Associação para a União das Mulheres Árabes foi criada em 1921 para servir as populações mais carenciadas da região, assumindo um papel muito relevante no decorrer da ocupação israelita, antes da criação do Ministério da Saúde Palestiniano, resultando numa significativa rede de coordenação e parcerias com entidades governamentais e outros parceiros. Com estas motivações e na última década, a Associação para a União das Mulheres Árabes, abriu três programas de educação e treino vocacional de forma a contribuir e construir uma economia mais próspera, reforçando o rendimento das famílias e tendo como foco mulheres e crianças, mas trabalhando junto de todos os habitantes da região. Dra. Ohoud Yaish, Diretora e Fundadora da Associação explica que existe uma “urgente necessidade coletiva de desenvolver programas que ajudem economicamente a população palestiniana e trabalhar, particularmente, para empoderar mulheres de forma positiva”. Deste esforço coletivo, nasceu o Hospital da Associação para a União das Mulheres Árabes, com quem a AMI cola-

borou desde 2006 para a aquisição de duas ambulâncias e que tem servido a população em casos de emergência e feridos por bombardeamentos. Em entrevista com a Dra. Hanin Darwazeh, Relatora do Comité do Hospital, esta afirma que a crise vivida pelos palestinianos “é resultado da ocupação, o que afeta diretamente a capacidade dos cidadãos de acederem a serviços de saúde, em consequência das barreiras militares e dos inúmeros checkpoints existentes no espaço público, o que também limita o desenvolvimento do hospital, agravada pela pandemia que teve um forte impacto na capacidade operacional do hospital”. O hospital providencia tratamento a milhares de cidadãos em diferentes segmentos do Norte da Cisjordânia, já que Nablus é a segunda maior cidade da região, servindo também de resposta às populações que vivem em áreas rurais ou em campos de refugiados. A pandemia acentuou os constrangimentos do hospital para aceder a aparelhos médicos avançados, imprescindíveis para o diagnóstico e intervenções médicas que impeçam os pacientes de serem referenciados para unidades de saúde israelitas, cujo acesso devido à ocupação e autorizações necessárias, bem como os custos associados, constituem um tremendo obstáculo para a população. Dr. Majed Abu Jaish, Diretor Geral do Hospital salienta também que, em paralelo ao surto pandémico, o povo palestiniano tem“sofrido de ataques e ferimentos recorrentes resultantes da violência do exército israelita, bem como de doenças causadas pela poluição do ambiente e da água devido aos procedimentos da ocupação”. A Palestina ainda não é livre e nesse caminho para a liberdade é imperativo reconhecer a crise humanitária latente no território e como esta tem sido ofuscada pelo discurso ultranacionalista, deixando o povo palestiniano a viver numa prisão a céu aberto onde a vida normal é uma miragem e a fuga uma “regalia” de quem tem meios ou oportunidades para tal. Há inúmeras formas de ajudar a Associação e o Hospital da União de Mulheres Árabes, que necessitam de mais equipamentos médicos, melhores infraestruturas, staff qualificado e apoio financeiro. Esta é uma das centenas de organizações não governamentais que lutam diariamente no terreno pelas pessoas da Palestina que querem ver restaurada a paz e a dignidade que lhes foram arrancadas e negadas por gerações. Até quando?

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PARAÍSO ÁRIDO A quarta maior ilha do mundo, com cerca de 587.000 km2, situa-se no Oceano Índico, próximo da costa este de África. Madagáscar é um paraíso singular pelo seu ecossistema endémico e diverso. Mas a realidade vivida no país está longe de ser idílica. A riqueza natural da região tem-se deteriorado profundamente ao longo da última década, como efeito sobre-acelerado das alterações climáticas. A corrente situação em Madagáscar é mais que perturbadora. Responsável por apenas 0.01% das emissões de carbono no mundo é o lugar do planeta mais afetado pelas alterações climáticas, particularmente no sul do país, que sofre uma devastadora seca. Falamos de mais de 1 milhão de pessoas a viver em carência alimentar e uma população de 21 milhões de habitantes que sobrevive com uma média de pouco mais de um dólar por dia 12 |

per capita (os núcleos familiares são caracterizados por 5 a 6 crianças por progenitor). O quadro político do país é aparentemente estável, no sentido em que os nacionais do país se abstêm de participar na vida política, sobretudo por falta de canais disponíveis para o fazer. Não existem meios de comunicação acessíveis à população nem mecanismos de participação civil. Por outro lado, a insegurança alimentar fez crescer a presença de grupos rebeldes que ameaçam a já de si frágil sobrevivência das comunidades do sul. Para quem vive nas regiões mais remotas e afetadas pela seca, obter apoio alimentar, providenciado por exemplo pelo Programa Alimentar Mundial (PAM), implica chegar à vila mais próxima, o que requer muitas dezenas de quilómetros de caminho a pé, por estradas intermináveis onde não existem meios de transporte. Aqui, o perigo de roubo de bens como milho e arroz ou feijão por grupos armados, assim como de violações ou mesmo assassinato são razões suficientes para não arriscar o caminho, nem a vida. O Dr. Francesco Pincini, chefe de projeto no Centro de Cirurgia Médica de Saint Paul, com o qual a AMI tem já uma longa parceria, em Andasibe Ampefy, localizado a


124 km da capital Antananarivo, explica que “a crise climática tem afetado o sul do país de forma muito severa, e a seca tem sujeitado as populações à fome extrema (…) Não sei se este problema poderá vir a ser resolvido, a crise climática é, neste momento, global”. O Centro de Cirurgia Médica de Saint Paul opera em contexto de pobreza e desnutrição crónica, existindo várias doenças causadas por estes fatores, geralmente ligados entre si. Uma das situações mais preocupantes que passa por este Centro é a persistente desnutrição materna. As mulheres em estado de subnutrição no decorrer da gravidez correm o risco de que o crescimento do feto seja retardado face ao padrão de desenvolvimento e com forte probabilidade dos bebés nascerem com patologias derivadas da falta de nutrientes necessários ao sistema biológico da mãe. “A desnutrição aguda significa que doenças que não são fatais por si só, podem tornar-se graves com séria evolução clínica dadas as precárias condições de resposta do sistema imunitário, especialmente nas crianças” - esclarece o Dr. Francesco Pincini, que trabalha de perto com casos de desnutrição materna e infantil. O grande desafio é abordar a desnutrição infantil e materna para reduzir a morbilidade no período perinatal e criar condições para o crescimento e resistência do organismo das crianças, ao mesmo tempo que se criam condições sanitárias e de higiene durante o parto que evitem o risco de contrair infeções. Adicionalmente a estas problemáticas, a presença de doenças endémicas como a malária, a salmonela, a tuberculose e a peste (ainda presente nesta parte do globo), acentuam a vulnerabilidade das populações em Madagáscar, com particular incidência nos bebés, crianças e mulheres. Estima-se que meio milhão de crianças sofram de desnutrição aguda, devido principalmente ao aumento súbito das temperaturas, à inexistência de chuva e à consequente desflorestação e seca dos solos. Para agravar este cenário, a principal matéria prima utilizada para cozinhar os poucos bens alimentares existentes é o carvão produzido a partir da combustão de madeira, o que significa o agravamento da progressiva desflorestação. Relativamente à pandemia de covid-19, esta não atingiu felizmente a gravidade que se esperava – elucida o Dr. Francesco Pancini “apenas recentemente sentimos um aumento considerável de casos de covid, provavelmente causadas pela variante Omicron que é altamente contagiosa, mas não detetámos a presença de complicações pulmonares severas como se verificou no início da pandemia. Assim, não estivemos sujeitos a mais elevados níveis de trabalho, nem despesas acrescidas comparativamente com o período pré-pandemia.” Uma notícia menos preocupante entre os enormes desafios que Madagáscar enfrenta e para os quais não contribui.

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Madagáscar é um lugar esquecido, onde os recursos são parcos e a fome tomou conta da nação e do seu povo. Não há como fugir aos factos: as alterações climáticas são uma realidade e as catástrofes naturais uma consequência indiscutível

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Na última semana de janeiro, o ciclone Batsirai, que se formou a este de Madagáscar, causou mais de 100 mortes e 18 mil pessoas ficaram desalojadas, continuando a proteção civil a fazer buscas e monitorização dos estragos, semanas após a passagem da tempestade Ana que já tinha causado no país fortes inundações e deslizamento de terras, tirando a vida a 58 pessoas. Neste momento e neste quadro devastador, o acesso a água potável é vital para garantir que não se propaguem doenças derivadas do consumo de água poluída ou estagnada tais como a Malária ou a cólera. Madagáscar é um lugar esquecido, onde os recursos são parcos e a fome tomou conta da nação e do seu povo. Não há como fugir aos factos: as alterações climáticas são uma realidade e as catástrofes naturais uma consequência indiscutível.

Em 2021, com o escalar da seca e subsequente crise alimentar vivida no país em plena pandemia, a AMI desenvolveu uma missão de ajuda humanitária em bens alimentares, em parceria com a organização Niños de Madagáscar encarregue da sua distribuição, nas aldeias de Ambohimandroso e Andranomavo, abrangendo um total de 1900 crianças e de 380 famílias. A iniciativa foi implementada em conjunto com agentes e líderes comunitários locais e contou com o financiamento da iniciativa portuguesa “Carta dos Desejos”. Já entre 2016 e 2019, em parceria com a ONG Change Onlus, a AMI financiou o transporte e instalação de equipamentos de radiologia e a instalação de um sistema de gás cirúrgico no bloco operatório do Centro de Saúde de St. Paul D’Ampefy-Andasibe e o envio de um médico pediatra.

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© Regulo Gomez/Shutterstock

O PARADOXO DA ABUNDÂNCIA Venezuela, outrora a menina bonita da América do Sul, rica em reservas de petróleo e outros recursos naturais, tornou-se o quarto país com maior número de pessoas deslocadas no mundo. Mas quais as origens desta crise e como é que o declínio deste país se tornou imutável no tempo?

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Foi das economias mais prósperas da América do Sul, com uma democracia relativamente estável. Ficou, no entanto, na dependência exclusiva das robustas receitas derivadas do gás natural e do petróleo deste “Petroestado”, em detrimento de outros setores fundamentais da economia, como a agricultura e a manufatura. Desde a sua descoberta, nos anos 20, as reservas de petróleo foram a bênção e a maldição deste país emergente, em resultado de uma encadeada má gestão do país, tanto económica como política. A concentração destes dois poderes numa pequena elite enfraqueceu a sociedade civil alastrando as já amplas teias de corrupção.


a sua descoberta, nos anos 20, as reservas “deDesde petróleo foram a bênção e a maldição deste país emergente, em resultado de uma encadeada má gestão do país, tanto económica como política. ”

Estes fatores, acrescidos à oscilação dos preços destes combustíveis fósseis, levaram a uma negligência profunda de áreas de produção da economia nacional, causando uma gigante taxa de desemprego e uma débil produção de bens de primeira necessidade. Gerou-se o caos e a pobreza instalou-se, para ficar. O médico e presidente da Associação de Médicos Luso descendentes na Venezuela (ASOMELUVE), Dr. Adérito de Sousa, corrobora que nesta crise “estão envolvidos fatores ligados a fortes retrocessos económicos, colapso dos indicadores sociais, confronto e polarização política, colapso dos partidos políticos tradicionais, corrosão das instituições democráticas, incapacidade do Estado de dar soluções aos problemas centrais da população venezuelana e uma corrupção colossal em que políticos oportunistas e pseudoempresários estiveram envolvidos”, ressalvando ainda que o atual governo tem tentado suprimir ativawmente os espaços de debate democráticos e as ondas de protesto social através da “a perseguição à dissidência política, e da militarização do problema alimentar e da saúde (…)”. O resultado desta crise em escalada foi a fuga de 6 milhões de venezuelanos do país. Segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), dezassete países no mundo, incluindo Portugal e países vizinhos da América do Sul, acolhem 80% do total de pessoas venezuelanas refugiadas. São diversas as rotas utilizadas pelos migrantes e refugiados. Por via terrestre, aérea e até mesmo através de pequenas rotas marítimas com destino às ilhas do Caribe.

De acordo com a análise feita pelo ACNUR, as principais carências elementares das comunidades venezuelanas espalhadas pelo mundo prendem-se com a falta de abrigo, cuidados de saúde, oportunidades de emprego, serviços de documentação e regularização e reunificação familiar. Aqueles que permanecem no país, encontram-se num limbo. A falta de alimentos nos supermercados, medicamentos nas farmácias e materiais e equipamentos médicos nas unidades de saúde são uma constante. “Esta situação foi acompanhada por uma hiperinflação, com uma perda enorme do poder de compra e de outros benefícios socioeconómicos da maior parte da população” defende Adérito de Sousa. Por sua vez o setor da Saúde Pública, que já sofria de problemáticas estruturais, particularmente nos últimos 20 anos, fruto da corrupção, ineficiência e políticas públicas mal aplicadas no passado foi ainda mais severamente afetado com a pandemia. A negação, por parte do poder político, desta crise, tem sido a principal causa desta inexistência de políticas eficazes para a reconstrução do país. Assim, a Venezuela permanece em estado de rutura crónica por mais que o seu povo e as vindouras gerações tentem viver e prosperar no seu país.

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AMI convida

Ana Paula Cruz CRISES ESQUECIDAS O M. de 27 anos fugiu do Togo em 2017 e fez a viagem até à Líbia, demorou um mês a lá chegar. Só ele sabe o que perdeu e lhe morreu no caminho. Na Líbia, viveu tempo suficiente para ser violentado e escravizado. Poucos dias antes de o resgatarmos foi baleado no braço esquerdo pelas milícias líbias. Ele sabia que não era no braço que lhe queriam ter acertado. Ele sabia que se bala o tivesse atingido uns centímetros mais à direita não tinha sobrevivido. Ele sabia porque viu amigos seus ficarem caídos no chão enquanto fugia. E, portanto, ele sabia que não podia ficar porque esse tiro seria disparado de novo até ser certeiro. Ele não escolheu fugir, ele não escolheu entrar num bote plástico e fazer-se ao mar. Ele não escolheu. Ele simplesmente não tinha outra opção, ficar não era opção, fugir era a única opção. Resgatamo-lo dia 31 de julho de 2019 após ter estado horas à deriva no mar. Resgatamo-lo e ouvimo-lo contar esta história enquanto mudávamos as ligaduras e desinfetávamos a ferida. A ferida foi melhorando, hoje é uma cicatriz, 'cicatriz da Líbia', como ele lhe chama, junto de tantas outras tão menos visíveis e tão mais difíceis de curar. As crises humanitárias só são esquecidas por quem tem o privilégio de as esquecer. Para o M. o mediterrâneo é uma crise impossível de esquecer. É essa a linha que separa: a do privilégio de poder esquecer. O mesmo privilégio de poder não ter medo. No mediterrâneo, só os europeus é que não têm medo do mar. É assim que, no meio da confusão, se distingue quem tem de ser resgatado de quem resgata. Quando falamos do mar mediterrâneo ou dos campos de refugiados / centros de detenção europeus, englobamos tudo isso no tema da “crise de refugiados” ou “crise migratória”, mas a crise nunca foi migratória, a crise é anti-migratória. A crise não advém do fluxo ou número de pessoas migrantes ou requerentes de asilo que entram no continente europeu, a crise é gerada pela violência que tenta impedir esse fluxo. A crise é política e é intencional, podemos comprová-lo facilmente através de vários exemplos: os acordos com países fronteiriços (como a Líbia e Turquia) para reter nos seus países estas pessoas; a ausência de passagens seguras; as devoluções ilegais (vulgos pushbacks, 18 |

só no ano passado para a Líbia foram mais de 30 000) orquestrados pela guarda costeira grega, milícias líbias e agências europeias como a Frontex; a recusa de operações europeias de busca e salvamento; a militarização violenta das fronteiras; a detenção ilegal de pessoas migrantes e refugiadas; a segregação e marginalização em campos de refugiados europeus; as deportações… A crise sempre foi política antes de ser humanitária, sabemo-lo bem porque depois de anos de assistência humanitária nada mudou. Em dezembro do ano passado resgatámos de uma embarcação 66 pessoas. Estavam há 3 dias à deriva no mar. Desidratadas, exaustas, hipotérmicas. Não é o mar que cansa, o que cansa é ter de lutar pelo direito a estar vivo. No último ano, segundo a OiM, morreram nessa luta mais de 1550 pessoas na travessia do mar mediterrâneo central. Desde 2014, foram mais de 19 000 pessoas, 19 000 mortes*. Não é coincidência, mas sim consequência do fim da operação Mare Nostrum - a última operação de resgate financiada pela UE e estados-membros europeus. Todas as operações marítimas europeias no mar mediterrâneo que se seguiram à operação Mare Nostrum (Triton, Themis, Sophia, Irini) concentraram-se no controlo e militarização das fronteiras e não na busca e salvamento, edificando esta europa fortaleza e perdendo o objetivo humanitário que deixou claramente de ser prioritário. Estas mortes não são uma tragédia inevitável, são consequência de decisões políticas intencionais. Dizer que estas pessoas morreram é um eufemismo branco: elas não morreram, foram mortas. Não é azar, não é a velocidade do vento ou o tamanho das ondas, não são as embarcações, são as políticas migratórias eurocêntricas, coloniais e racistas que matam. E isso só esquece quem tem o privilégio de poder esquecer. *este número corresponde apenas aos corpos encontrados ou naufrágios testemunhados, sendo que o número real se estima ser muito maior.

Ana Paula Cruz / Lokas, Médica, Humanitária, Ativista


BREVES - NACIONAL Nacional_

JÁ PENSASTE QUE PODES FAZER A DIFERENÇA NA VIDA DE ALGUÉM

BEM PRÓXIMO DE TI?

Três escolas vencedoras Os vencedores da 11ª edição do Linka-te aos Outros, uma linha de financiamento da AMI para projetos desenvolvidos por jovens a frequentar entre o 7.º e o 12.º ano, já são conhecidos! Esta iniciativa é marcada pela promoção de atividades de voluntariado nas áreas de sustentabilidade ambiental e integração social de jovens e idosos. Os projetos vencedores desta edição foram os “Amigos infinitos e casas quentinhas”: da Escola Secundária Sá da Bandeira, em Santarém, que tem como principal objetivo remodelar o Lar de Santo António em Santarém; “Casquilhos: Apela, Recolhe e Doa (CARD)”, uma proposta desenvolvida pelos alunos da Escola Secundária de

Casquilhos, no Barreiro, que pretende mitigar situações de pobreza e exclusão social, através de ações de voluntariado e da criação de uma Loja Social na escola e ainda o projeto “#EscolaSolidária”: uma iniciativa dinamizada pela Associação de Estudantes da Escola Secundária Campos de Melo, na Covilhã, e que procura colmatar necessidades básicas de alimentação, higiene e saúde oral de algumas famílias de alunos da escola promovendo a equidade e a inclusão social.

Já pode apoiar a AMI através do seu IRS A entrega do IRS começa a 1 de abril, mas até 31 de março, já pode escolher a entidade à qual pretende consignar o seu IRS ou IVA. Através da consignação do IRS, pode atribuir 0,5% do IRS liquidado (imposto que cabe ao Estado, depois de descontadas as deduções) a uma entidade à sua escolha.

Assim, em vez do seu IRS ser entregue na totalidade ao Estado, uma parte é encaminhada pelo próprio Estado para a causa que selecionar. Para além do IRS, pode ainda consignar a dedução do IVA suportado pela exigência de fatura. Ao escolher a Fundação de Assistência Médica Internacional (AMI) – NIPC 502744910, estará a contribuir para apoiar as nossas missões.

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Internacional_

Novas edições de Formação Humanitária em 2022 Em 2020 foi possível realizar apenas uma Formação de Voluntários Internacionais (FVI) em formato presencial, mesmo antes do início da pandemia em Portugal, mas o ano de 2021 contou já com duas formações FVI| Emergência, pela primeira vez em edição E-Learning. Este ano, a 1ª edição da FVI| Geral está a decorrer no mês de março, de 14 a 27, e contamos realizar uma 2ª edição FVI| Emergência, de 11 a 28 de outubro. A FVI | Geral destina-se a pessoas interessadas nas temáticas de ação humanitária e cooperação para o desenvolvimento, com interesse em trabalhar no terreno com organizações da área, seja no setor da saúde, seja noutros setores. A FVI | Emergência destina-se a partilhar conceitos e abor-

dagens sobre o funcionamento da ação humanitária em países que dela necessitam, de forma a preparar e contextualizar todos os que partem em missão com o sistema e práticas humanitárias internacionais em vigor.

Última Hora Guiné-Bissau_

Intervenção junto dos refugiados ucranianos nos países fronteiriços e em Portugal Há várias formas de apoiar esta missão: · Conta de emergência – IBAN: PT 50 0007 0015 0040 0000 00672 · Online: http://ami.org.pt/donativo · Serviço Ser Solidário da SIBS · MBWAY – 962 777 431

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AMI assinalou 35 anos de presença na Guiné-Bissau O balanço das atividades do “Papia Ku Mi”, projeto de Promoção da Saúde e dos Direitos Sexuais e Reprodutivos na Ilha de Bolama, implementado pela AMI até junho de 2022, foi apresentado no passado dia 15 de fevereiro com um evento dedicado à população local. A iniciativa serviu também para assinalar os 35 anos de missões da AMI na Guiné-Bissau. Este evento juntou um conjunto de stakeholders tanto da capital, Bissau, como da ilha de Bolama com o intuito de mostrar os resultados do trabalho desenvolvido o seu caráter participativo e ainda os efeitos benéficos para a comunidade da ilha. Foram convidadas a estar presentes entidades governamentais e não governamentais como o Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), o Ministério da Educação, o Instituto Nacional do Desenvolvimento da Educação, o Comité Nacional para o Abandono de Práticas Nefastas, o Governo Regional e as Direções Regionais da Educação e da Saúde de Bolama. Este evento contou ainda, com uma exposição de fotografia ilustrativa do projeto e do historial da AMI na Guiné-Bissau.


BREVES Mecenato_

Obrigado! Num ano condicionado pela pandemia e pela instabilidade económica em que, pela primeira vez o número de pessoas que procuraram o apoio dos Centros Porta Amiga da AMI, cresceram significativamente, agradecemos a todos aqueles que se juntaram à nossa rede solidária e permitiram a distribuição de mais de 2.100 cabazes de natal e de centenas de miminhos para crianças e idosos na quadra natalícia. Com o apoio de todos, conseguimos garantir a 2.107 famílias (5.453 pessoas) não só um natal mais digno mas o nosso acompanhamento ao longo de todo o ano 2022.

Em 2022, a missão continua. Como apoiar a AMI? A colaboração das empresas é fundamental para nos ajudar a atenuar as desigualdades em Portugal e no Mundo, bem como para fomentar a adoção de comportamentos que promovam a preservação do ambiente, contribuindo para cumprir a agenda dos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pelas Nações Unidas. São diversas as formas de colaborar com a nossa missão, seja através do mecenato, voluntariado corporativo ou ações solidárias internas, do marketing solidário com uma campanha, evento ou produto solidário, do apoio a um projeto concreto da AMI e até mesmo da partilha de conhecimentos e experiências que potenciem a luta contra a pobreza, a favor da cooperação e do desenvolvimento em Portugal e no Mundo.

Responsabilidade Social Empresarial Bons exemplos de parcerias em 2021 • Envolvimento dos colaboradores em voluntariado corporativo ou ações solidárias internas: Cao Gemini, Fresenius/ Labesfal, Hipoges, Innowave Technologies, Natixis e Talkdesk; • Promoção de Marketing solidário através de uma campanha, um evento ou um produto solidário: Altice, Auchan, Casa da Moeda, Elgydium e Kelly Services; • Financiamento de um projeto concreto: mais de 50 empresas contribuíram para a Missão Natal AMI com apoio monetário, bens alimentares e brinquedos, das quais destacamos: Concentra, CGI, Fundação Ageas, Mercadona e Pierre Fabre; • Financiamento de bolsas de estudo através do Fundo Universitário AMI: TSE Commerce • Financiamento e participação na construção de um projeto para a AMI: Fundação Ageas e Fundação Essilor; • Doação de alimentos e bens de higiene: Aldi, Auchan, Brandcare, Continente, Delta, Esporão, Ferbar, Imperial, Mercadona, Nestlé, Nobre, Perigo, Pierre Fabre, RAR, Semear e Sovena. • Partilha de competências e conhecimento: Cap Gemini, EDP, Microsoft e NOVA SBE.

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AGENDA AMI 27 DE JUN A 1 DE JUL

2 A 20 DE MAIO

Aventura Solidária aos Açores

Campanha de reciclagem de radiografias

1 DE ABR A 30 DE JUN Entrega IRS

LOJA AMI

PORTES DE ENVIO

A Loja AMI dispõe de vários artigos que podem ser adquiridos no site ami.org.pt/loja. Ao comprar qualquer um dos artigos da loja AMI estará a contribuir para a realização dos nossos projetos e missões. Pode também fazer a sua escolha, preencher e enviar-nos o cupão abaixo, junto com o cheque no valor total dos artigos acrescido das despesas de envio indicadas.

"Viagens contra a Indiferença"

Livro 20€

"Guiné tem magia"

livro 10€

Encomenda

90€

Portugal Continental

5€

Grátis

Portugal Ilhas

25€

20€

Europa

30€

15€

Resto Mundo

35€

17,50€

90€

"Toda a Esperança do Mundo"

Livro 39.90€

[MAIS ARTIGOS EM AMI.ORG.PT]

FAÇA JÁ O SEU DONATIVO

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INFORMAÇÕES

NECESSIDADES ATUAIS DE VOLUNTARIADO

Voluntariado Nacional Centro Porta Amiga de Almada Voluntário para roupeiro Advogado (pontualmente) Voluntários para workshops: Nutrição, gestão financeira, jardinagem, pintura, entre outras atividades Centro Porta Amiga das Olaias Centro Porta Amiga de Chelas Voluntários para workshops: teatro, nutrição, jardinagem, estética, pintura, entre outras atividades (dinamizar Espaço + Comunidade) Centro Porta Amiga de Cascais Delegação Centro (Coimbra) Delegação Norte (Porto) Voluntários para apoio logístico Horário: a definir com o voluntário

Para apresentação de propostas, por favor, contacte-nos através do e-mail

voluntariado@ami.org.pt

[FICHA DE CANDIDATURA ONLINE]

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