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AMI Notícias Nº 81

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N.º 81 Distribuição Gratuita 2.º trimestre de 2021

notícias

Entrevista

Retrato de uma mulher sem casa

Lisboa e Porto

ABRIGOS AMI Equipas de Rua

AS EQUIPAS DA AMI NO MUNDO DA RUA AGORA TAMBÉM EM

FORMATO DIGITAL


Foto: Abrigo AMI Porto

N.º 81 Distribuição Gratuita 2.º trimestre de 2021

notícias

Entrevista

Retrato de uma mulher sem casa

Lisboa e Porto

ABRIGOS AMI Equipas de Rua

AS EQUIPAS DA AMI NO MUNDO DA RUA AGORA TAMBÉM EM

FORMATO DIGITAL

04 | A insustentabilidade de habitar 06 | Abrigos AMI – Todo o Homem precisa de uma casa

10 | Entrevista Retrato de uma mulher sem casa

13 | A Casa do Lago 14 | As equipas da AMI no mundo da rua

18 | AMI convida

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Gonçalo Henriques

19 | Breves Nacional, Internacional, Mecenato

22 | Agenda + Loja AMI 23 | Informações

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“AS PESSOAS SEM-ABRIGO: A DESISTÊNCIA INDIVIDUAL E COLETIVA” Não consigo falar, ou escrever, sobre as pessoas em situação de sem-abrigo sem manifestar clara e frontalmente a minha revolta pela situação destes seres humanos, vítimas da indiferença e da iniquidade da nossa sociedade. Lembro-me de há uns vinte anos, vindo do Algarve onde exercia enquanto médico, ter telefonado à minha mulher e manifestado a decisão de, no inverno, querer vivenciar a experiência de um sem-abrigo durante três meses. Ouviu-me pacientemente e disse apenas: “– Tu não vais conseguir sentir na pele o que é ser um sem-abrigo!” “- Porquê?” Perguntei eu. “– Porque tu tens uma casa, um lar. E sabes que, quando for demasiado duro e quiseres desistir, tens uma casa para onde voltar.”. Fez-se luz em mim e percebi a trágica essência do sem-abrigo: não vê luz ao fundo do túnel tenebroso onde se encontra, deixou de ter esperança. Falando em factos: cerca de 40% não convive com ninguém nem possui identificação em ordem e aproximadamente 30% vive com doenças mentais, ou porque já as tinha ou porque as desenvolveu na rua. A pessoa em situação de sem-abrigo é a encarnação do abandono, da solidão, da desesperança, da desistência. É a miséria mais degradante, é a humilhação, a rejeição e vergonha totais. E é também a NOSSA vergonha enquanto civilização, enquanto coletividade humana.

© Gabriela Nemésio Nobre

SUMÁRIO + EDITORIAL

Fernando de La Vieter Nobre Presidente e Fundador da AMI

É o eterno confronto entre o SER e o TER, também bem visível nos efeitos colaterais da pandemia em curso que está a criar um crescimento exponencial do desemprego, da pobreza, da miséria, da fome, dos sem-abrigo, das psicoses e dos suicídios. É intolerável o que está a acontecer na comunidade humana (ou desumana), hoje desfocada do essencial. Num mundo onde nunca tanta riqueza foi produzida. Mas também nunca esteve tão concentrada em tão poucas mãos. Acrescendo a isso, a corrupção e os conflitos atingiram proporções patológicas. É essencial que nos voltemos a focar na vida de todos os seres humanos, hoje esquecidos por nós (e por eles próprios): seres humanos errantes que, como folhas ao vento, são atirados para as bermas das estradas da dita civilização. Os pedidos de socorro não param de chegar à AMI e tendem a aumentar de dia para dia, de ano para ano. Há pois que agir para estancar esta hemorragia que põe em risco a nossa sociedade. É focada nessa indeclinável tarefa e nesse inabalável dever que a AMI está empenhada em dar o seu contributo. Estamos apostados em continuar a nossa missão de não aceitar e contrariar essa trágica desistência individual e coletiva.

E foi por isso mesmo que entendi, há vários anos, que a AMI deveria atuar contra essa indignidade sustentada pelas nossas indiferenças, intolerância e ganância e a falência de uma sociedade que pretendeu ser humana. | 03


A INSUSTENTABILIDADE DE HABITAR O que é uma casa? Para além de uma infraestrutura, de um abrigo ou de um lugar onde depositamos os nossos bens pessoais, é um espaço vivo e uma “mais-valia social” (Wirth, 1947) onde asseguramos necessidades básicas e fisiológicas à nossa existência (dormir, comer, higienizar) e também onde mantemos as nossas ligações de convivialidade familiar e social em direito de privacidade e dignidade. Podemos considerar, no que concerne às dinâmicas existenciais das sociedades modernas, que estas giram em torno do local onde o homem habita e trabalha por uma questão tão basilar quanto a sobrevivência1 . Mas, e para quem não tem casa? Uma habitação digna com condições de salubridade, segurança e sustentabilidade estrutural? E a quem este direito é negado ou excluído? Embora o Direito à habitação seja uma questão já muito repassada nos debates que entornam Direitos Humanos e o Desenvolvimento Humano sustentável é, e continuará a ser, para além da pobreza extrema, a maior problemática do século XXI. 04 |

Há por todo o mundo, cerca de 1.6 mil milhões de pessoas que necessitam de habitação adequada e condigna, de acordo com a Habitat For Humanity 2 . Para quem vive nas cidades, a condição de pessoas em situação de sem-abrigo agrava-se à medida que estas se expandem. A especulação imobiliária, a gentrificação e falta de regulamentação no que toca ao direito à habitação são algumas das causas da exclusão habitacional depois (muito depois) da questão da pobreza e da exclusão social da população mundial que vive nas cidades. É no continente africano que existem mais pessoas a viver nas ruas, uma vez que a região é marcada pela instabilidade económica que leva milhões a viver no limiar da pobreza e em consequência, a ter condições de habitabilidade muito parcas ou inexistentes. Na Nigéria, o país mais populoso de África (190 milhões de habitantes), estima-se que existam 24.4 milhões de pessoas em situação de sem-abrigo. Na Ásia, em países como a Índia, o Cambodja ou Indonésia verifica-se o maior número de pessoas desalojadas, seja por falta de acesso a habitação digna, seja em resultado de conflitos armados ou catástrofes naturais. Veja-se também o exemplo da Palestina que, por razões políticas e religiosas, vê os seus territórios serem gradualmente ocupados, sem qualquer tipo de proteção estatal e internacional, e onde cresce exponencialmente o


número de pessoas a quem o direito à habitação é extorquido por meio da força e da violência. Embora pensemos que no ocidente a problemática das pessoas em situação de sem-abrigo é menos alarmante, a pandemia veio restituir diversas preocupações devido aos seus efeitos mais danosos do ponto de vista económico e social. De acordo com a 6.ª Visão Global sobre a Exclusão Habitacional de 2021, a FEANTSA (European Federation of National Organisations Working with the Homeless) realça que os jovens “estão particularmente afetados pela pobreza e pelas disfunções estruturais dos mercados de habitação” - pode ser lido no relatório, embora esta tendência já se verificasse antes da pandemia. O desemprego tem sido outro fator determinante para o crescimento da exclusão habitacional e social na Europa e que tem surtido efeitos colaterais extremamente danosos e muitas vezes irreversíveis, nomeadamente o desenvolvimento de doenças mentais e fisiológicas, comportamentos aditivos ou o seu agravamento e isolamento social. São múltiplas as necessidades de quem vive em situação de pobreza e exclusão habitacional. Deste modo, a eficácia e multiplicidade de respostas adequadas são fundamentais desde o início. Em Portugal continental, 80% da população em situação de sem-abrigo são homens, a maioria entre os 45 e os 64 anos, e de nacionalidade portuguesa. A intervenção em Portugal é orientada pela Estratégia Nacional para a Integração de Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA) 2017-2023, que compreende os eixos da educação, promoção de conhecimento e informação, a monitorização, coordenação, avaliação e integração. Para a aplicação da Estratégia Nacional, existem em contexto local (coordenado por cada município) os Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA - onde alguns equipamentos da AMI estão integrados) que operacionalizam e coordenam as respostas existentes, estabelecendo assim uma rede de atuação multidisciplinar e multidimensional entre o terreno e as organizações locais. O estabelecimento desta rede, para além de evitar a sobreposição de respostas, garante que haja um rastreamento, recorrente e acessível a todas as entidades sociais que integram o Núcleo, de quem está em situação de sem-abrigo, e permite coordenar soluções. Henrique Joaquim, coordenador da ENIPSSA, considera que “o principal fator de sucesso na intervenção junto de pessoas em situação de sem-abrigo é a existência de uma relação de confiança e proximidade entre as equipas e as pessoas. O papel das equipas que constituem os NPISA é assim fundamental, quer para que exista um conhecimento rápido e ágil das novas situações, quer na intervenção com base na rede local. Esta intervenção tem

sucesso quando assenta em estratégias de proximidade e em respostas personalizadas. Para além da intervenção, é fundamental compreender as causas que levam a esta situação e adotar medidas que as previnam, e isso tem de fazer parte de uma estratégia local e nacional.” Henrique Joaquim explica que é difícil posicionar Portugal num ranking europeu por falta de dados disponíveis, mas adianta que a Presidência Portuguesa da União Europeia vai lançar, em conjunto com a Comissão Europeia, uma Plataforma Europeia que permita a troca de experiências e de partilha de conhecimento nesta matéria, com o objetivo de dar a conhecer a todos os estados-membros as estratégias e soluções mais eficazes e adequadas. “O objetivo é que ninguém tenha de estar na rua por falta de alternativas”. Nesta edição da revista AMI Notícias iremos explorar, fundamentalmente em contexto nacional, que respostas são disponibilizadas pela AMI às pessoas que estão em situação de sem-abrigo e também oferecer um conhecimento mais aprofundado acerca deste fenómeno.

1 Nesta consideração, não deverão ser incluídos fatores externos, por exemplo, de cariz cultural ou religioso ou político e económico, que podem influenciar as necessidades estruturais e organizações sociais de uma determinada sociedade ou comunidade. Por exemplo, as populações Imazighen ou bérbere, em países como Marrocos e Argélia, que vivem sob estruturas tribais e “levam a casa às costas”, não tendo necessidade de ter uma habitação fixa, e fazem da sua casa o lugar onde, por um período determinado de tempo, é-lhes assegurada maior prosperidade agrícola ou pecuária e onde podem vender produtos artesanais. 2 Uma organização global sem fins lucrativos que intervém a nível local em mais de 70 países. É uma organização que trabalha diretamente com as famílias para conseguirem habitação estável e acessível.

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TODO O HOMEM PRECISA DE UMA CASA Abrigo AMI Porto

Visitámos os Abrigos Noturnos da AMI em Lisboa e Porto, para conhecer de perto o funcionamento destes equipamentos sociais e das respetivas equipas técnicas que lidam diariamente com a dura realidade de pessoas cuja garantia de um abrigo lhes foi retirada pelas frágeis circunstâncias das suas vidas. Em ambos os casos, os abrigos da AMI localizam-se em eixos centrais das cidades de Lisboa e do Porto e são geridos, integrando os Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA), que atuam sob orientação da Estraté06 |

gia Nacional de intervenção com Pessoas em Situação de Sem-Abrigo (ENIPSSA) 2017 - 2023. Não são respostas de emergência, mas respostas a médio prazo, caracterizadas pelo acompanhamento, orientação, capacitação pessoal, social e profissional das pessoas alojadas. O princípio que prevalece nos abrigos da AMI é o de que as pessoas em situação de sem-abrigo irão efetivamente reintegrar-se num espaço de tempo definido até se restabelecerem social e economicamente. Para este efeito, são acionados mecanismos de intervenção, por parte dos técnicos dos abrigos, adequados às circunstâncias individuais de cada pessoa mas também tendo em conta a realidade urbana e habitacional de cada um destes territórios.


EM LISBOA motivo: não tinham um lugar onde viver. Durante alguns meses, Ricardo e Flávio viveram juntos no Abrigo da Graça.

O que leva as pessoas a encontrar como solução temporária o Abrigo da Graça é na grande maioria das vezes “uma sinalização feita por uma equipa de rua de uma instituição ou um gestor de caso ligado à rede (NPISA) que nos alerta que determinada pessoa tem critérios para ser alojada connosco” esclarece Joana Frade, a diretora do Abrigo da AMI na Graça. “Por não termos um caráter de emergência, quem cumpre os critérios entra e por isso tem de haver sempre um período de avaliação para percebermos se podemos trabalhar com a realidade ou contexto de determinada pessoa. Se não tivermos forma de a aceitar por não corresponder aos critérios do Abrigo, procuramos sempre uma resposta mais adequada”. Alguns dos critérios de admissão mencionados pela Diretora do Abrigo da Graça passam pela capacidade de trabalhar, ou seja, as pessoas devem encontrar-se em idade ativa (dos 18 aos 65 anos), ser do sexo masculino, já que este abrigo é exclusivo para homens, não terem consumos de estupefacientes ou álcool ou encontrarem-se em processo de recuperação, e, acima de tudo, estarem motivados para se autonomizarem. “Uma vez que as situações são sinalizadas junto dos gestores de caso, procuramos acautelar determinadas questões, nomeadamente a situação laboral, de saúde, ao nível de documentação... para que possamos perceber em que matérias da vida desta pessoa devemos intervir” - explica Joana Frade. A capacidade total do Abrigo da Graça é de 17 pessoas e o período máximo de permanência é de 6 a 8 meses. No entanto, existe autonomia para prolongar o alojamento da pessoa no caso de se encontrar em formação, pelo que a prioridade é sempre preservar a estabilidade dos residentes. Ricardo Alves, 39 anos, e Flávio Dantas, 47 anos, têm duas histórias de vida totalmente distintas, mas os seus caminhos cruzaram-se pelo mesmo

Flávio veio do Brasil para Portugal há dois anos na tentativa de encontrar, para si e para a família que deixou no país de origem, uma fonte de rendimento mais segura. Nunca parou de trabalhar mas foi obrigado a fazer escolhas. “Antes de vir para o abrigo da Graça, estive no abrigo do casal Vistoso. Recorri ao abrigo de emergência durante a pandemia porque ou pagava o quarto onde vivia ou continuava a enviar dinheiro para a minha família no Brasil”. Flávio tem ocultado da família a sua situação atual, quer voltar definitivamente ao Brasil no início do ano que vem e para isso está a poupar todo o dinheiro que consegue através do trabalho, sem que, de momento, ter onde dormir, fazer a sua higiene pessoal e alimentação seja uma preocupação. Quando conversámos com o Ricardo, este tinha saído do abrigo da Graça há pouco mais de um mês e encontrado uma oportunidade de trabalho no Algarve, com alojamento incluído, na área onde sempre trabalhou. A morte da sua mãe agravou a situação familiar frágil em que se encontrava e estava no limiar de perder a casa municipal onde vivia, o que o levou ao limite de sair de casa com “uma mochila às costas, dois pares de meias e €1,45 no bolso”, descreve o mesmo. Viveu no Abrigo da Graça durante 5 meses, em resultado da sinalização da sua gestora de caso que já acompanhava a sua realidade há algum tempo, embora fosse a primeira vez que se encontrasse nesta situação. “Nunca tinha ouvido falar do Abrigo da Graça. A minha intenção era dirigir-me ao Casal Vistoso e pedir ajuda, mas as coisas correram de outra forma e encontraram-me uma resposta melhor (…) Adaptei-me bem à vida no abrigo”. No decorrer da sua estadia, teve a orientação da psicóloga Fátima Guedes para procurar trabalho na sua área. Entre as entrevistas e as dinâmicas de grupo desenvolvidas pela equipa do abrigo, Ricardo ainda apoiou a distribuição alimentar local promovida pela Câmara Municipal de Lisboa e dinamizada pela AMI. A sua vida agora está a correr “às mil maravilhas”. | 07


NO PORTO

O Abrigo do Porto tem a lotação de 27 homens. Ao momento da redação desta peça estava totalmente preenchido. Fica nas cercanias da Estação de Campanhã, especificamente no bairro da Lomba. É um espaço que em nada denuncia a sua amplitude pela fachada do edifício. Ao entrarmos ficamos agradavelmente surpreendidos pela familiaridade do lugar. Àquela hora do dia, as poucas pessoas que não estão ausentes a trabalhar ou a ter formação ficam na zona de convívio ou no terraço onde leem o jornal e conversam. Ao passarmos pela área de refeições e zona comum, um corredor conduz-nos para a secção de quartos (um para três pessoas), todos eles muito luminosos, cada um decorado com os bens pessoais de quem lá dorme. Um espaço com melhores condições de habitabilidade e vivência que muitas casas daquela zona da cidade, marcada pela degradação. Susete Santos, socióloga de formação e diretora do Abrigo, conduz-nos pela casa à medida que nos vai contando que a equipa do abrigo é composta por uma assistente social, uma psicóloga e uma auxiliar de serviços gerais. Descrevenos que a população que está em situação de sem-abrigo no Porto se tornou mais flutuante, em consequência da instabilidade económica e habitacional que a pandemia trouxe mas que por norma “as pessoas que estão cá, ou decidiram ocultar a sua situação da família ou não têm retaguarda familiar ou viveram toda a vida institucionalizadas”. Entre os vários reajustes que teve de haver no abrigo devido ao plano de contingência, nomeadamente o alargamento pleno do horário de funcionamento, rotinas de limpeza, higiene e alimentação, deu-se prioridade ao trabalho de intervenção e integração através dos meios digitais.

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Susete Santos esclarece que “era importante para nós manter o trabalho que sempre nos diferenciou, este trabalho de proximidade (…) esperemos que a pandemia esteja balizada no tempo, porque não queremos condicionar o processo de autonomização das pessoas que estão connosco. Por exemplo, no mês passado entraram 4 pessoas novas, porque saíram 4 pessoas, ou seja, conseguimos criar a estrutura robusta para que estas pessoas conseguissem trabalho, uma fonte de rendimento, uma solução habitacional e acima de tudo capacidades para suster esta autonomização, pois só assim será uma autonomização efetiva”. Carlos Cerqueira, 37 anos, é natural de Ponte de Lima e está alojado no Abrigo do Porto há pouco mais de seis meses. Não sabe ler, nem escrever e por estes motivos, ao longo dos anos, trabalhou no que lhe foi possível, desde manutenção de carrosséis até a fazer mudanças. Com uma grande timidez, conta-nos que a instabilidade financeira e a falta de apoio familiar levaram-no a procurar ajuda. Foi-lhe atribuído um gestor de caso e acabou por ser recebido pelo abrigo da AMI. Atualmente, e feita a avaliação das principais necessidades do Carlos por parte da equipa técnica do Abrigo, está a fazer o 4º ano no Centro de Formação do Cerco e espera conseguir fazer “pelo menos até ao nono ano”. Em simultâneo encontra-se a tirar um curso de jardinagem, na esperança de exercer o seu trabalho de sonho. “No futuro, espero conseguir obter mais escolaridade e saber mais sobre informática. O que eu gostava era de trabalhar em jardins, mas se encontrar algo na construção também não fico mal”. À saída do abrigo, houve quem ainda quisesse falar connosco. Um senhor robusto de rosto afável, coxeava com vigor na nossa direção, não querendo deixar de nos contar a sua história. Aos 56 anos, Carlos Morales Medina viu-se pela primeira vez sem teto nem chão. Veio em 2017 da Venezuela, seu país de origem, para Portugal, onde já tinha vivido anos antes. Decidiu regressar pela vulnerabilidade política e económica do seu país e por adorar a cultura portuguesa. A sua vocação é a cozinha, formou-se em Faro e trabalhava, na altura, numa marisqueira em Aveiro.


“A certa altura decidi aceitar uma proposta em Paris para trabalhar num restaurante de comida portuguesa. Fui por dinheiro, lá o ordenado era 4 vezes maior que em Portugal, não sei se foi uma decisão boa ou má mas foi uma decisão da altura”. Poucas semanas mais tarde, a pandemia chegou à Europa e o confinamento obrigou o restaurante a fechar. Por estar há tão pouco tempo no país ainda não possuía um “titre de séjour” (cartão de residência) que lhe permitisse ser integrado em lay-off. Ficou por conta própria. As fronteiras fecharam e só restou a Carlos o metro de Paris até conseguir arrecadar algum dinheiro para voltar a Portugal quando as restrições abrandassem. Ao regressar recebeu uma proposta de trabalho em Beja e, com o pouco dinheiro que tinha no bolso, foi rumo a sul. Percebeu, no entanto, que a empresa para onde ia trabalhar nem sequer existia. Ficou na paragem de autocarro. Após fazer uma denúncia e contactar os serviços de emergência social foi alojado num albergue até conseguir arranjar um trabalho temporário num restaurante. Quando lhe foi possível voltou para o norte do país. Foi através da Segurança Social que foi sinalizado e acabou por ir parar ao abrigo da AMI. Conta a sua história de olhos húmidos e voz trémula, “cheguei aqui há cerca de um mês (…) deixe-me dizer-lhe: esta casa salvou-me a vida, tenho sido apoiado desde as coisas mais simples, ou seja alimentação e higiene, até às questões mais complexas como a minha residência em Portugal que expirou, e a

Carlos Morales Medina

Esperemos que a pandemia “esteja balizada no tempo, porque não queremos condicionar o processo de autonomização das pessoas que estão connosco.

”

Susete Santos

minha saúde. Tenho uma artrose na anca que ficou muito agravada em França e sinto muita dor. Desde que cheguei já me conseguiram uma consulta no hospital, fiz um raio X, estou a ser medicado e serei encaminhado para cirurgia”. O objetivo de Carlos é voltar a trabalhar como chefe de cozinha e trazer para Portugal a sua filha de 8 anos, que caracteriza como sendo o seu “avião”. Explica-nos que “aqui no abrigo resgataram-me do medo e da incerteza (…) para mim, a coisa mais importante para um ser humano é a estabilidade mental, a paz de espírito, saber que posso sair à procura de trabalho e que tenho um sítio para onde voltar, onde posso comer e dormir. É uma bênção”.

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RETRATO DE UMA MULHER SEM CASA Ao entrarmos no enorme terreno exterior da Casa do Lago, um abrigo de urgência, já conseguimos ouvir a voz da senhora Arminda a tagarelar com a companheira do primeiro andar, sem ainda sabermos que é ela quem nos abrirá a porta da sua história de vida. Com 67 anos, Arminda Maria Ramos Silva viu-se pela primeira vez em situação de sem-abrigo. Com 44 anos de descontos quer reformar-se, mas este direito é-lhe vedado. O indeferimento do seu caso alega “falta de requisitos”, requisitos estes que desconhecemos. Assim, a Casa do Lago foi a solução que o Estado encontrou temporariamente para Arminda, cuja vida ficou suspensa pela falta de oportunidades e pela falta de respostas sociais mais apropriadas. Criada no contexto da pandemia, a Casa do Lago é um projeto temporário com os dias 10 |

contados, poderá fechar dentro de alguns meses, não se sabe quando. E depois, para onde vai a Arminda? Como é que descreveria a sua vida até há nove meses quando chegou à Casa do Lago? A minha vida estava difícil porque o meu posto de trabalho foi extinto. Eu era cafeteira num hotel e fui para o fundo de desemprego, só que quando recebemos o fundo temos de ir a todas as convocatórias para recebermos o subsídio e uma das cartas que me dirigiram extraviou-se e eu não sabia. Quando dei por mim, tinham-me retirado o subsídio e pelos vistos já não havia nada a fazer. Entretanto puseram-me na rua, tiraram-me de onde eu estava a morar há oito anos porque eu não tinha como pagar a renda, e fui viver para casa de uma prima. Só mais tarde é que comecei a receber o Rendimento Social de Inserção. Em casa da minha prima, as coisas não correram bem, ela é uma pessoa já de idade. A determinada altura tive de sair de lá, dormi uma semana na rua. A pandemia teve a


ENTREVISTA

sua influência nestes acontecimentos da minha vida, mas não foi por causa da pandemia que perdi o meu trabalho. Nessa altura, já a minha vida tinha dado uma volta. Alguma vez tinha estado nesta situação? Nunca. Recorreu à sua família, para além da sua prima? Não quis pedir ajuda aos meus filhos. Só há pouco tempo é que eles souberam que eu estava aqui no abrigo. Um deles tem 47 e o outro 42. Vivem em Lisboa. Não lhes pedi ajuda, nem lhes peço nada. Nunca me habituei a pedir seja o que for. Não queria que eles tivessem de cuidar de mim, nem eles podem. Como é que teve conhecimento da Casa do Lago? Na semana que passei na rua, tive conhecimento do Casal Vistoso através de um sem-abrigo e dirigi-me lá. Quando lá cheguei, a técnica que me atendeu disse logo “a senhora não pertence aqui” e fez alguns telefonemas, só lá estive meia hora, e ainda bem. Durante o pouco tempo que ali permaneci vi muita coisa. Veio um senhor da Câmara buscar-me ao Casal Vistoso e trazer-me para aqui. Fiquei muito aliviada. Aqui pelo menos cada uma tem o seu quarto, a sua cama, existe alguma privacidade e dignidade.

“

O que eu queria era uma casinha, por muito pequenina que fosse, com um quarto, casa de banho, cozinha, o básico, mas para isso, preciso que me aprovem a reforma.

”

Agradeço não ter ficado no Casal Vistoso porque já tinha ouvido falar no sítio quando começou a pandemia, mas o que mostraram na televisão nada tem a ver com a realidade do que se passa lá. Cheguei aqui ao abrigo no dia 11 de setembro de 2020. Que tipo de acompanhamento é que tem recebido neste Abrigo de Mulheres? Através deste Abrigo, pus novamente os papéis para a reforma e estou a ver daí o que é que acontece. O que eu queria era uma casinha, por muito pequenina que fosse, com um quarto, casa de banho, cozinha, o básico, mas para isso, preciso que me aprovem a reforma. Há uns tempos, as técnicas daqui falaram-me em ir para um apartamento, mas tenho estado à espera. Pensa que as mulheres estão mais vulneráveis a situações de exclusão habitacional? Acho que sim, acho que ficam pelo facto de serem mulheres. Acho que as mulheres não | 11


“

Acho que as mulheres não estão habituadas a ficar sem chão, as mulheres não costumam depender de outros.

”

estão habituadas a ficar sem chão, as mulheres não costumam depender de outros. Eu vejo por mim, vejo que, por exemplo, quando estive na rua, me salvaguardei e fui dormir para o hospital de Santa Maria, porque me sentia mais protegida. As outras raparigas contam-me que dormiram mesmo na rua. Eu não sei se conseguia... Em Santa Maria havia sempre pessoas, polícias, acabaram por dar por mim, claro... No primeiro dia em que lá cheguei, tive de me fingir doente. Como é a sua relação com as restantes mulheres do abrigo? Eu relaciono-me bem com todas elas, não “zaragateio”, ponho-me à parte. Desde que eu cá estou, já umas poucas foram convidadas a sair por causa de agressões. Aqui não se tolera a agressão, mas eu ponho-me à parte disso. Tenho uma amiga aqui, que está a trabalhar, a Paulinha. Ela está cá há um ano. Tenho também a Manuela e a D. Assunção, uma senhora de idade que tem duas cachorras que andam com ela. O que é que acha que poderia ter acontecido de forma diferente? Neste caso não havia nada a fazer. Eu estava a receber o fundo de desemprego, recebia 435 euros. Não era muito. Descontei 44 anos, meti já os papéis duas vezes e a resposta deles é que não reúno as condições para ser reformada.

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Uma das vezes, entreguei aos 65 anos e veio indeferido. Se eu tenho 44 anos de descontos e com 65 anos parei de descontar, porque é que não me deixam reformar? Só me respondem que não reúno as condições. A semana passada voltei a entregar o processo através daqui (do Abrigo). Vai-se falar com a minha assistente social na Segurança Social da Amadora porque ela é que assinou o contrato para que eu recebesse o Rendimento Social de Inserção. Para isso, tive de me inscrever no Centro de Emprego e foi-me atribuída esta assistente social. Ainda assim, tinha de estar periodicamente no Centro de Emprego. Estava sempre com o “credo na boca”, não houvesse alguma carta extraviada, pois cortavam-me logo o rendimento mínimo. Na semana passada, voltei a entregar o pedido de reforma, mas há quem espere seis, sete meses, ou mais, por uma resposta. Como é que encara o futuro? Já estou a caminhar para o fim da vida. Vamos ver o que vai acontecer. Tenho medo de ficar numa cama sem me conseguir mexer e estar dependente de outras pessoas e isso eu não queria (emocionou-se), é disso que eu tenho medo. Graças a Deus, tenho saúde, o meu problema é o joelho porque eu parti a perna e o pé num acidente de trabalho e de vez em quando dá-me que fazer. Queria ter um buraquinho para viver e governar-me. É só isso que eu quero.


ENTREVISTA

A CASA DO LAGO A Casa do Lago surgiu em maio de 2020, como uma resposta de emergência no surgimento da pandemia, dirigida exclusivamente a mulheres. Na cidade de Lisboa, os abrigos existentes são geralmente para homens ou mistos. A Casa do Lago é uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa que atribuiu à AMI a tutela do projeto a partir do dia 1 de janeiro de 2021.

Este abrigo localiza-se nas portas de Monsanto, é um espaço que pertencia à Santa Casa da Misericórdia e onde permaneciam crianças e jovens em risco. Resquícios das suas vivências podem ser ainda vistos em algumas paredes grafitadas no complexo. Não existem critérios de admissão para entrar na Casa do Lago, para além do facto de se ser mulher, ter mais de 18 anos e de estar em situação de exclusão social e habitacional. Atualmente, a pessoa mais nova a residir no abrigo tem 19 anos e a mais velha 79. São aceites mulheres com todo o tipo de historial e problemáticas, nomeadamente questões de saúde mental, consumos e cujas circunstâncias de vida as levaram ao desemprego, insegurança financeira e matrimonial. “Na Casa do Lago, o objetivo passa por, mais à frente, encaminhar estas mulheres para outras respostas adequadas às especificidades da situação de cada uma (…) As mulheres em situação de sem-abrigo correm muitos riscos e muitas delas têm traumas e problemas associados ao facto de estarem na rua. A abertura de uma resposta deste tipo só para mulheres era realmente muito necessária e até inovadora” - explica Cátia Silva, coordenadora do abrigo. A sinalização destas mulheres é geralmente feita pelas equipas de rua, não diretamente para a Casa do Lago, mas para o Casal Vistoso e de lá são enviadas para outro tipo de resposta que vá, de forma mais adequada, ao encontro das circunstâncias psicossociais de cada uma delas.

Cátia Silva, coordenadora do abrigo de emergência Casa do Lago

A equipa técnica da Casa do Lago é composta por assistentes sociais, técnicos auxiliares de serviço social (que permanecem no abrigo 24h por dia), psicólogos, animadores socioculturais, técnicos de apoio à procura de emprego, uma equipa de psiquiatria e uma enfermeira. A intervenção social é o foco de atuação da equipa que vê na multidisciplinariedade o tipo de abordagem adequado e mais completo. A comunicação interna da equipa é fundamental na atuação da equipa técnica da Casa do Lago, no sentido de responder da melhor forma ao “projeto de vida daquela mulher, o que naturalmente abrange vários aspetos da sua vida e não apenas um” - esclarece Cátia. A Casa do Lago tem a capacidade total de 19 mulheres e, segundo a coordenadora do projeto é difícil caracterizar a população que se encontra no abrigo pois cada uma tem a sua história pessoal, mas o fator externo e comum à situação de todas elas é “a falta de políticas públicas ao nível de prevenção para mulheres que se encontram em risco de perder a casa e ficar sem abrigo. Se existissem políticas mais evoluídas em termos de prevenção, não seria necessário chegar ao ponto de se criarem soluções meramente temporárias em que as mulheres já se encontram efetivamente sem abrigo”, argumenta Cátia.

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Equipa de rua Lisboa

Equipa de rua Porto e V.N.Gaia

AS EQUIPAS DA AMI NO MUNDO DA RUA As equipas de rua da AMI que intervêm em Lisboa, Porto e Vila Nova de Gaia* surgiram, respetivamente, em 2001 e 2006, como uma resposta à exclusão social existente no país e à falta de acesso a habitação digna para todos os seus habitantes, independentemente da sua situação económica e social. Em todas as cidades onde intervêm, o trabalho das equipas de rua é caracterizado pela proatividade de ir ao encontro das pessoas em situação de sem-abrigo, “na medida em que procura oferecer algum tipo de experiência de vínculo” - explica Sónia Oliveira, psicóloga da equipa de rua de Porto e V. N. de Gaia. Ao acompanharmos as equipas, tanto em Lisboa como no Porto, podemos dizer com segurança que o primeiro princípio da intervenção com as pessoas que se encontram a viver na rua passa pela criação de relações de confiança. Relações estas que só são possíveis através da capacidade de escuta das equipas, da sua atitude de interesse e respeito pela história, tempo e acima de tudo, pela vontade das pessoas com quem trabalham. Ambas as equipas estabeleceram os seus próprios trajetos, que embora sejam variáveis no espaço e no tempo, passam por hotspots onde se concentram pessoas em situação de exclusão social e habitacional. Embora existam muitos “lobos solitários” nas ruas de Lisboa e do Porto, é mais comum as pessoas agruparem-se em “comunidades”, quer pela entreajuda, quer pela partilha 14 |

de um espaço abrigado ou pela proximidade de serviços assistencialistas e de passagem (balneários públicos, cantinas solidárias, locais onde é mais provável conseguir “trocos”, por exemplo à saída de uma estação de metro/ comboio ou do supermercado). Sérgio Condez, investigador social e técnico da AMI em Lisboa há 19 anos, ao longo da caminhada até ao viaduto de Santa Apolónia, explica que “por um lado, o trajeto está definido para que as pessoas saibam que naquele dia vamos estar naquele lugar e que certamente nos vão encontrar lá se precisarem, mas por outro, também definimos o nosso trajeto em função da concentração das pessoas em situação de sem-abrigo na cidade”. Flávia Ricardo, técnica da equipa de rua e assistente social, complementa que “também, em função das sinalizações que recebemos, podemos alterar o nosso percurso. Isso acontece frequentemente, seja de alguém que contacta a AMI a expor a situação de uma pessoa que se encontra a pernoitar na sua rua ou no bairro, seja por parte da Câmara Municipal de Lisboa (CML). Nesse caso dirigimo-nos a um determinado ponto da cidade e ava-


liamos a situação da pessoa para lhe dar uma resposta adequada”. Parece simples, mas a complexidade inerente ao processo de intervenção de rua exige um conhecimento profundo, não só da demografia local dos “sem teto”, como dos fatores que levam à “fixação” em lugares ou “não lugares”** específicos. Para além deste trabalho de terreno, é necessário conhecer todas as respostas existentes no universo da rede NPISA (Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo) no âmbito da habitação, segurança social, saúde, emprego, educação e administração interna que possam adequar-se às necessidades de cada pessoa em situação de sem-abrigo. Ao caminharmos com a equipa de rua Porto e V. N. Gaia, as técnicas Sónia e Alexandra esclarecem em que moldes a pandemia veio trazer gigantescos retrocessos no espectro da vivência na rua. “Ao nível da habitação, social e económico, o desafio de encontrar respostas adequadas tornou-se ainda maior, dada a escassez de apoios económicos e de alojamentos temporários ou quartos em pensões”. De acordo com as Técnicas, as medidas de saúde e segurança implementadas em resultado da pandemia, agudizaram não só a escassez de respostas existentes, mas também tornaram mais complexos os procedimentos necessários para assegurar alojamento a quem estivesse em situação de sem-abrigo, nomeadamente a necessidade de realização de testes covid-19. A pandemia veio, por outro lado, intensificar o problema da acessibilidade a cuidados de saúde primários (física e mental), nomeadamente acesso a consultas, tratamentos e cirurgias, e em particular o agravamento de doenças crónicas. Alexandra Rocha menciona que, no campo da saúde, “a descrença no sistema, por parte das pessoas que acompanhamos diariamente, já é para nós uma “batalha” diária tão grande que com a pandemia, conseguirmos que aceitem cuidados de saúde veio tornar o nosso trabalho diário mais desafiador ainda. O que sentimos é que o caminho ficou mais longo”. Em Lisboa, na zona de Xabregas, junto à avenida Infante D. Henrique, encontrámos um grupo de 6 homens que pernoitam a meio desta avenida. Cozinham o almoço num tacho embutido numa grelha. O almoço é arroz. Têm a mesa posta e bancos onde se sentam com algum conforto. A equipa de rua da AMI falou com o Rui (nome fictício) pela primeira vez. Voltou à rua vai fazer oito dias, depois de anos de estabilidade. O seu cartão de cidadão está caducado. Está desesperado por voltar a encontrar trabalho. Precisa de uma oportunidade e apoio. A

"sua" assistente social insiste, nas suas palavras, que vá para o Casal Vistoso, mas recusa-se. Diz que nestes dias tem bebido para sobreviver à ideia de que voltou à rua, mas que não quer estar perto de drogas que nunca consumiu e, por isso, preferiu ir para ali, para a berma da estrada, onde tem amigos de longa data e onde pelo menos se entreajudam na esperança de dias e de respostas melhores.

Em 2020, as equipas de rua da AMI acompanharam 272 pessoas em situação de sem-abrigo, das quais 118 foram pessoas atendidas pela primeira vez (48 pela equipa de Lisboa e 70 pela equipa do Porto e de Gaia). Esta população é constituída na sua maioria por homens (78%), entre os 50 e os 59 anos (32%), e de nacionalidade portuguesa (79%). As principais necessidades identificadas em contexto de pandemia são a alimentação (78%), vestuário (75%), alojamento (60%), necessidade de consultas médicas (41%), apoio psicológico (23%) e medicamentoso (21%). As equipas de rua da AMI atuam a partir dos Centros Porta Amiga, numa lógica de complementaridade dos serviços de ação social providenciados por estes espaços. Vão ao encontro das pessoas na rua e fazem uma abordagem integrada e holística, O apoio psicossocial, médico e de enfermagem é também parte integrante do trabalho de intervenção das equipas que têm como objetivo último melhorar a qualidade de vida das pessoas para, e com quem trabalham.

* Em Almada, a AMI integra uma equipa de rua interinstitucional que desenvolve trabalho no âmbito da intervenção social do NPISA do concelho. ** “Não lugar” ou “Non Place” é um conceito sociológico abordado pelo antropólogo e etnólogo Marc Augé, que interpreta o conceito de espaço como lugar de significado e de personalização em oposição à ideia de “não lugar” onde a consciência se altera em resultado de uma perceção limitada do mesmo.

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EQUIPAS DE RUA

AMI

Lisboa As equipas de rua têm um percurso semi-definido nas cidades de Lisboa e do Porto. Em Lisboa, a intervenção acontece fundamentalmente na zona oriental da cidade. No caso de serem feitas sinalizações de casos pela equipa, o trajeto é adaptado à necessidade de ir ao encontro de alguém e avaliar a sua situação de habitabilidade e outras questões ligadas à saúde, alimentação e apoio psicológico. O circuito da equipa de rua do Porto inclui também pontos de passagem em Vila Nova de Gaia, embora se verifique uma tendência das pessoas em situação de sem-abrigo que pernoitam em Vila Nova de Gaia se deslocarem durante o dia para o centro do Porto onde têm acesso a mais serviços.

PARADA ALTO DE S. JOÃO Área caracterizada por uma grande multiculturalidade, onde a equipa intervem desde a Av. Almirante Reis até aos Anjos.

SANTA APOLÓNIA Primeiro local de intervenção da equipa de rua, desde 2001, onde historicamente se concentram muitas pessoas em situação de sem-abrigo.

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ESTAÇÃO DO ORIENTE Local onde se concentram muitas pessoas em situação de sem-abrigo e com poucos recursos, nomeadamente apoio alimentar.

XABREGAS Zona onde se encontram 2 dos maiores centros de acolhimento temporários da cidade.


SUMÁRIO + EDITORIAL

EQUIPAS DE RUA

AMI

Porto ROTUNDA DA BOAVISTA Local de concentração das pessoas em situação de sem-abrigo, próximo de lugares de pernoita e com muito movimento diurno.

AVENIDA DOS ALIADOS Zona de grande aglomeração da população em situação de sem-abrigo nos períodos noturno e diurno, uma vez que é o centro da cidade, onde se encontram mais respostas institucionais.

RUA BARÃO DO CORVO (STA. MARINHA) Local de confluência da população em situação de sem-abrigo, próximo de lugares de pernoita e com muito movimento diurno.

MAFAMUDE CENTRO DE VILA NOVA DE GAIA Área central da cidade, onde as pessoas em situação de sem-abrigo são mais visíveis.

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AMI convida

Gonçalo Henriques A MÃO (IN)VISÍVEL DO TRABALHO DE RUA O trabalho diário junto da população em situação de sem-abrigo e vulnerável na cidade de Lisboa é, muitas vezes, a primeira abordagem na tentativa de uma reaproximação às pessoas, que por vários motivos se afastaram ou isolaram da sociedade, vivendo longe dos olhares ou mesmo à vista de todos e lidando à sua maneira com as barreiras que impuseram ou lhes foram impostas. Todos nós, que já notámos tendas de campismo pelas ruas, e que tantas vezes acedemos ao pedido de uma moeda ou um cigarro quando passamos na rua, vamos ao supermercado ou estacionamos o nosso carro, habituámo-nos a que estas pessoas fizessem parte da paisagem dos “não lugares” que frequentamos, assim definidos por Marc Augé. Estão também muitas vezes resistentes à intervenção e até de costas voltadas a qualquer aproximação que se assemelhe com o mesmo sistema de proteção social que por algum motivo falhou ou não resultou, processo que se convencionou chamar de desafiliação social pelo sociólogo Robert Castel.

pessoas, mas também as nossas enquanto sociedade. E perante a urgência foi preciso reagir, encontrar respostas formais ou informais que de forma rápida e transitória albergassem estas pessoas num sítio seguro, onde todas as suas necessidades fossem colmatadas, sendo que não mudaram a sua condição de pessoas em situação de sem-abrigo, apenas deixaram de ser pessoas sem teto, estando agora em respostas de emergência, centros de acolhimento e quartos e pensões na cidade de Lisboa, que perante o consequente decréscimo do turismo, voltaram a abrir portas e a praticar preços que permitam que as pessoas continuem a viver na mesma cidade e dos mesmos recursos formais ou informais que tinham antes.

O trabalho de rua para além de ir ao encontro das pessoas a todos esses pontos da cidade de Lisboa, é muito mais que uma prestação de um serviço pontual. É um trabalho metódico entre a observação e a ação, até que sejamos aceites nesses espaços por todos os intervenientes, e é preciso que este “não lugar” passe a ser também nosso, e que a nossa sala de atendimento social ou o nosso gabinete de apoio psicológico se edifique naquele banco de jardim ou parque de estacionamento. Espaço esse que, pela evolução e acessibilidade dos serviços ao longo destes 20 anos se transforma também num serviço à distância através desta intervenção de rua.

Existiu também uma aposta forte na cidade e um pouco por todo o país em respostas de Housing First ou apartamentos partilhados que visam dar mais condições, autonomia e dignidade a todas as pessoas. E todo o acompanhamento que era feito em contexto de rua passou a ser feito em cada um destes espaços, nos nossos Centros Porta Amiga, por telefone, videochamada. Isso obrigou-nos a todos a repensar a forma como nos relacionamos, como trabalhamos e os planos traçados em conjunto, tornando-se uma realidade mais complexa e desafiante, mas ao mesmo tempo obrigou-nos a focar nas potencialidades e mais-valias de cada beneficiário. Por outro lado permitiu a muitos deles renovar a confiança nas instituições, deixando claro que por mais nefasta que seja a ameaça, continuaremos presentes, a mão que se estende e a que alcança não poderão deixar de existir, faz parte da nossa existência, e esse “toque” é fundamental, mesmo que o mundo nos imponha a distância social.

Em 2020 o mundo mudou, a liberdade ficou condicionada por uma ameaça invisível e estes espaços movimentados, cheios de pessoas, tornaram-se perigosos e ficaram vazios, deixando a nú todas as fragilidades das

Gonçalo Henriques Psicólogo e técnico da Equipa de Rua da AMI em Lisboa

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BREVES - NACIONAL Nacional_

Pedidos de apoio aumentam em 2021 Através do IRS é possível continuar a ajudar Ainda é possível fazer a consignação de 0,5% do seu IRS à instituição que escolher, sem qualquer custo. Ao selecionar a Fundação de Assistência Médica Internacional (AMI), estará a contribuir para o desenvolvimento das missões da AMI de luta contra a pobreza em Portugal. Em 2020, o valor angariado pela AMI através da consignação de 0,5% do IRS permitiu suportar o custo mensal de 109 refeições quentes, 380 lanches, 747 pequenos-almoços, 106 estadias nos abrigos noturnos, 190 banhos, 38 consultas de apoio social e apoiar 25 pessoas através do serviço de Apoio Domiciliário. Até 30 de junho, ao declarar o seu IRS, assinale o quadro 11 do anexo 3 e coloque o NIPC 502744910.

No primeiro trimestre de 2021 foram registados pela AMI, 130 novos casos de pobreza, numa média de 3.554 pessoas apoiadas por mês, o que significou um aumento de 10% e 12%, respetivamente, em relação ao período homólogo do ano anterior. A AMI prestou apoio social pela primeira vez a 389 pessoas no primeiro trimestre de 2021, representando um acréscimo de 11% em relação ao mesmo período de 2020. O aumento do número de pessoas que tiveram o seu primeiro contacto com a AMI em 2021 verificou-se sobretudo nos Centros Porta Amiga do Porto (53%) e de Vila Nova de Gaia (21%), devido ao aumento da procura de apoio alimentar em 65% (+ 641 pessoas que no mesmo período do ano passado). Em janeiro de 2021, a AMI passou a gerir um Centro de Alojamento de Emergência Municipal para mulheres em situação sem-abrigo criado pela Câmara Municipal de Lisboa no âmbito do combate à Covid-19.

Os Amigos são para as Ocasiões - 3.ª Fase Em resultado da 3ª fase da iniciativa “Os Amigos são para as Ocasiões”, um projeto que decorre desde o início da pandemia e que tem assegurado o acesso a bens essenciais para populações de risco ou que já sofrem as consequências económicas da Covid-19, foram apoiados 110 agregados familiares (299 pessoas). Na terceira fase deste projeto foram entregues 332 cabazes em diversos pontos do país, nomeadamente Lisboa, Porto, Açores e Coimbra. Para a concretização da terceira fase desta iniciativa, contámos com o apoio de 93 voluntários e de vários parceiros empresariais como a Imprensa Nacional Casa da Moeda, MEOS, EDP, Ageas e Vidigueira. Foram dedicadas cerca de 317 horas de trabalho voluntário à concretização desta iniciativa.

O peditório em 2021 Em mais de 25 anos, a AMI realizou, pela segunda vez, um peditório exclusivamente online, de 3 a 9 de maio, devido às exigências da conjuntura atual. O montante angariado de €6.308,40 destinou-se a contribuir para financiar o reforço dos projetos da AMI de luta contra a pobreza e exclusão social em Portugal.

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Internacional_

Guiné-Bissau_

“Papia Ku MI” Moçambique_ Começou em março o projeto “Papia Ku Mi – Promoção da Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos”, na Ilha de Bolama (Guiné-Bissau), que terá uma duração de 12 meses, sendo direcionado sobretudo à população juvenil e adolescente da ilha. Este programa irá promover o conhecimento e meios que permitam práticas saudáveis de Saúde Sexual e Reprodutiva (SSR) e previnam práticas nefastas através de ações em contexto escolar e comunitário, de educação entre pares, sensibilizações com recurso a atividades artísticas e programas de rádio, bem como, através de um serviço de aconselhamento de SSR e da implementação de um sistema de referenciação comunitária para serviços de saúde especializados em SSR.

Mais de 66 mil pessoas serão apoiadas Abril assinalou uma nova fase do projeto de prevenção e sensibilização de doenças com potencial epidémico, na cidade da Beira, que tem como objetivo chegar a 66.786 pessoas. A iniciativa conta com o apoio da Câmara Municipal de Palmela e a parceria da Associação Anjos Terrestres, bem como com a intervenção do grupo de ativistas comunitários para garantir a deteção e referenciação atempadas de possíveis casos de covid-19 e diarreia, e ainda, a realização de ações de sensibilização à população sobre estas matérias.

Bangladesh_

Combater a Covid-19

Conferência NO PLANET B

Chegou ao fim o projeto da AMI em parceria com a organização BISAP, intitulado “Esforço coordenado para enfrentar a pandemia de covid-19 e futuras emergências de saúde pública nas favelas urbanas da região costeira de Chattogram”. A BISAP é uma organização local, que atua no leste do Bangladesh, com os refugiados Rohingya e as comunidades de acolhimento. O projeto, iniciado em julho de 2020, teve uma duração de 6 meses e procurou apoiar estas populações através da distribuição de itens essenciais, do apoio nutricional a mulheres e crianças e da instalação de estruturas para lavagem das mãos nas comunidades, com o intuito de quebrar as cadeias de transmissão e mitigar o impacto da pandemia no seio destas comunidades.

A conferência final do projeto No Planet B, de âmbito internacional e promovida pelos seis parceiros europeus do consórcio, aconteceu em formato online a 20 e 21 de abril e contou com a presença de diversos oradores internacionais. Este projeto permitiu implementar 126 ações de organizações da sociedade civil (OCS) em 6 países europeus, que se enquadraram nos ODS11, 12 e 13 num investimento total de €4,5 milhões, dos quais €766,297 em Portugal. Os projetos financiados e implementados por 22 OSC, em Portugal alcançaram diretamente mais de 24.000 pessoas. Com a duração de três anos e meio (2017-2021), a iniciativa foi cofinanciada pela União Europeia e pelo Instituto Camões I.P..

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BREVES Mecenato_

Kit Salva-Livros O Kit Salva-Livros tem uma nova imagem e para o próximo ano letivo já estará disponível em vários distribuidores como a Auchan e a Staples Office Center. Este produto solidário inclui um conjunto de 10 capas plásticas transparentes e adaptáveis a todos os formatos de livros e cadernos até 21cm x 40cm, cuja principal função é a preservação dos livros e do conhecimento que trazem a todos os que deles usufruem. Ao comprar um Kit Salva-Livros, está a fazer uma compra duplamente solidária, pois contribui para os projetos com crianças e jovens desenvolvidos pela AMI em Portugal e para a integração de pessoas portadoras de deficiência através da Handicap International.

Ser Solidário Agora, existe mais uma forma de contribuir para a Missão da AMI. Através do Serviço Ser Solidário da Sibs, é possível fazer um donativo à AMI em toda a rede multibanco ou na aplicação MB WAY. Nas caixas multibanco, é necessário selecionar: Transferências e Débitos Diretos I Ser Solidário I AMI, e indicar o valor do donativo. Na aplicação MB Way, basta efetuar uma simples operação de transferência ou escolher diretamente a opção Ser Solidário.

E se fôssemos parceiros?

A AMI desenvolve projetos que contribuem para todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a nível nacional e internacional. Procuramos constantemente parceiros que queiram apoiar as nossas iniciativas, através de mecenato, campanhas solidárias, doação de bens e serviços, voluntariado corporativo e team building solidário. Se a sua empresa estiver interessada em envolver-se num nos nossos projetos, e estabelecer dinâmicas colaborativas de responsabilidade social, poderá contactar-nos através do e-mail: marketing@ami.org.pt

Converter pontos em solidariedade Por vezes, podemos ajudar de formas que nem sequer conhecíamos. É o caso dos clientes Meo, Repsol ou Millennium BCP. Com os respetivos cartões de fidelização, pode converter os seus pontos em donativos para projetos nacionais e internacionais promovidos pela AMI nas áreas de ambiente, desenvolvimento sustentável e apoio social e humanitário. Em 2020, graças à doação de pontos, foi possível angariar €9.687, que reverteram para projetos específicos de combate à Covid-19 em Portugal, reflorestação e apoio alimentar.

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AGENDA AMI 5 - 27 JUN

30 JUN

25.ª Campanha de reciclagem de radiografias

Entrega Prémio AMI – Jornalismo contra a Indiferença

LOJA AMI

PORTES DE ENVIO

A Loja AMI dispõe de vários artigos que podem ser adquiridos no site ami.org.pt/loja. Ao comprar qualquer um dos artigos da loja AMI estará a contribuir para a realização dos nossos projetos e missões. Pode também fazer a sua escolha, preencher e enviar-nos o cupão abaixo, junto com o cheque no valor total dos artigos acrescido das despesas de envio indicadas.

Encomenda

90€

90€

Portugal Continental

5€

Grátis

Portugal Ilhas

25€

20€

Europa

30€

15€

Resto Mundo

35€

17,50€

"Toda a Esperança do Mundo"

Livro 39.90€ "Cartas da Tia que vive na selva”

Livro 13€

"Imagens contra a Indiferença"

"Guiné tem magia"

Livro 10€

Livro 30€

[MAIS ARTIGOS EM AMI.ORG.PT]

Nome NIF Morada Código Postal Telefone Como adquiriu a nossa revista Descrição do Produto

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INFORMAÇÕES

NECESSIDADES ATUAIS DE VOLUNTARIADO Organização de eventos para angariação de fundos: Dinamização de iniciativas (se estiverem reunidas todas as condições de segurança necessárias atualmente) cujas receitas revertam a favor de um projeto da AMI. Confeção de Taleigos AMIgos: Desde que saibam costurar, todos são bem-vindos para participar nesta rede solidária de confeção dos Taleigos AMIgos. Missões Internacionais: Obstetra para Madagáscar. Para apresentação de propostas, por favor, contacte-nos através do e-mail

voluntariado@ami.org.pt

[FICHA DE CANDIDATURA ONLINE]

Este número da AMI Notícias foi editado com o especial apoio da revista VISÃO (Distribuição), COMPANHIA DAS CORES (Design), LIDERGRAF (Impressão e Acabamento) e CTT – Correios de Portugal Autorizada a reprodução dos textos desde que citada a fonte. AMI Fundação de Assistência Médica Internacional R. José do Patrocínio, 49 Marvila, 1959-003 Lisboa ami.org.pt | fundacao.ami@ami.org.pt | MB WAY: 962 777 431 Ficha Técnica Publicação Trimestral Diretor Fernando Nobre Diretora Editorial Luísa Nemésio Edição Ana Ferreira Redação Marina Bertolami Fotografias AMI Paginação Companhia das Cores – Ana Gil, Lúcia Antunes Tiragem 56.000 exemplares Depósito Legal DL378104/14

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AMI Notícias Nº 81 by Fundação AMI - Issuu